Ao decair do último floco de neve...
10 ❄ Capítulo 10 - O Cisne Negro ❄
Notas iniciais
Abri os olhos, eu estava em uma sala de espelhos. A parede, o teto, tudo refletia a imagem de meu ser juvenil e não sabia como tinha ido parar ali, estava frio mas isso não me incomodava, mesmo com uma regata e um shortinho branco de pijama que eu sempre usava para dormir. De todo modo, a pergunta que me veio depois do choque inicial reverberou na mente... O que eu estava fazendo ali? Como fui parar ali? Seria mais um dos teste dos senhor Tats?... Não saberia responder, mas o local era bem iluminado e o carpete de cor creme no chão deixava tudo menos estranho.
— Senhor Tats?...
Nenhuma resposta. Não podia perder tempo ali, se fosse um teste tinha que achar uma saída... E rápido. Haviam quatro caminhos e tomei o da direita. Segui pela fileiras de espelhos que refletiam minha imagem, um garotinho com cabelos loiros quase brancos e olhos azuis gélidos e persistentes que andava sem rumo dobrando esquinas até chegar ao mesmo lugar de antes. Havia voltado para o centro, mas como? Decidi pegar os outros caminhos que também me levaram ao mesmo ponto e, ao correr por minha última opção comecei a me desesperar. As luzes haviam diminuído e eu me encontrava em um labirinto sem saída. Ajoelhei no centro da sala com as mãos em cima das rótulas e com o peito ardendo pela correria e pelo esforço, pequenas gotas de suor começavam a escorrer pelas têmporas. Não tinha como sair dali.
Os espelhos baixaram repentinamente, tapando o caminho e me trancando na sala e a luz agora era mais fraca do que anteriormente. Eu queria gritar mas não podia, tinha de permanecer calmo e achar outro meio. Cai de joelhos e comecei a observar meu reflexo diante de mim para me acalmar mas algo muito estranho aconteceu, eu estava levantando mas continuava sentado no chão sobre minhas pernas... Como aquilo era possível? Me levantei num pulo e a imagem voltou ao normal, uma risada de criança foi ouvida ao fundo.
— Quem esta ai?
Não podia sentir medo, medo era para os fracos, tinha me concentrar. Cobri o rosto com as mãos e comecei a respirar profundamente e ouvir mais atentamente ao redor.
— Não adianta fechar os olhinhos...
Olhei para os espelhos rapidamente. Nada além de mim ali... Me aproximei dos espelhos para tentar achar alguma coisa, como uma falha que denunciasse uma saída. A confusão tomava conta do rostinho pálido, levantei a mão e toquei a superfície lisa subindo o olhar aos poucos de minha mão para meu rosto.
— Boo!
Gritou minha imagem refletida e então me afastei na mesma hora. Minhas roupas começaram a se tingir de negro no espelhos, pouco a pouco. Olhei pra baixo e vi que o pijama ainda estava branco, o que seria tudo isso? Meu reflexo sorriu de forma estranha, parecia um sorriso psicótico e maligno... Algo que não parecia nada comigo.
— Assustado não é Cameron? Tão pequeno e indefeso...
Ele dizia. Eu estava ficando louco? Teria me dedicado demais aos treinamentos? Não entendia nada daquilo, que teste era esse? Antes que pudesse formular qualquer palavra, o que provavelmente não daria muito certo devido ao pânico que começava a crescer em mim, o reflexo voltou a se pronunciar com uma voz baixa e pesada.
— Não se apavore, eu estou aqui para ajudar você... tenho em mãos todo o poder de que precisa, mas basta você deixar eu usar seu corpo como ponte Cameron, somente isso.
A cada palavra dele eu dava um passo para trás, sentia como se algo de ruim emanasse daquele reflexo, alguma coisa que nem conseguia explicar e que não estava presente em meus estudos. As mãos começaram a tremer e suar assim como as gotas que escorriam de meus cabelos e a camiseta que grudava no peito devido ao fato de eu ter corrido pelo labirinto. "Usar seu corpo como ponte"? Que tipo de proposta era essa?
— Você pode ser grande, garotinho. Pode ter tudo que sempre quis... A fama, o reconhecimento, o temor e até mesmo o amor de sua mãe. A Atenção que deseja tão desesperadamente.
Aquela foi a gota d'água! Qualquer criança desejaria possuir o amor e atenção de sua mãe, mas não á mim. Eu sabia muito bem que lady Quione olhava por mim e agradecia todos os dias por isso e pelo fato de ela sempre estar me disponibilizando a educação e o treinamento. Senti a raiva percorrer minha veias por tal insulto contra mim e minha progenitora. Não precisava de atenção, eu não era um fraco.
— Nunca!
Sussurrei balançando a cabeça e continuei a me afastar, ele soltou uma gargalhada macabra que me fez arrepiar, em seguida focou a visão em mim e asas brancas como a neve surgiram de suas costas. Aquilo me intrigou por alguns segundos, até que o brilho claro e pálido começou a se tingir de negro como antes havia acontecido com suas roupas.
— Não pode fugir de mim Cameron, por que eu...
Trombei de costas na parede espelhada atrás de mim e ouvi um sussurro ríspido e cortante em meu ouvido ao passo que o vidro parecia mais frio.
— Sou você!
Braços saíram de minhas costas, irrompendo do espelho e envolvendo meu pescoço e cintura. Fui puxado de uma só vez e mergulhei na parede. O medo voltou a se instalar em meu ser, não pude nem ao menos reagir mas foi ai tudo então mudou. Depois de perder a visão e ser drenado para a s trevas, abri os olhos. Eu me encontrava debaixo d'água, águas gélidas e profundas e meus pulmões gritavam por oxigênio enquanto os braços se debatiam rumo á superfície. Quando pensei que poderia respirar colidi com uma camada congelada e cristalina que me mostrava o céu lá fora, comecei a socar o gelo mas não consegui causar nem ao menos uma mínima fissura. Foi então que ele surgiu logo acima, me observando e rindo. O som era abafado mas ainda sim reverberava em minha mente. Estava quase implorando pela minha vida. Por que eu estava fazendo aquilo comigo mesmo? Aquele não era eu e eu sabia que não, meu olhar demonstrava o pavor absoluto e a risada ecoava em minha mente cada vez mais alta. Quando estava pra perder a consciência, despertei gritando em meu quarto...

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