Notas iniciais
❄Parte 2 ❄Trilha Sonora: Swan Lake Op.20 - Pyotr Ilyich Tchaikovsky

Em meio ao despertar frenético eu olhava para todos os lados, ainda estava em meu quarto no palácio gélido de lorde Bóreas, o conhecido vento norte, e agora eu suava frio. Tudo não passara de um pesadelo? Um peça pregada por lorde Ícelo? Não via motivos para aquilo, eu sempre procurava ser um bom garoto e cultuar todas as divindades de forma obediente e respeitosa. Pelo menos tão respeitosa quanto eu sabia ser, já que eu apenas uma criança. Naquele momento me dei conta de que havia gritado e que tal ato me traria graves problemas se não me explicasse direito, provavelmente algum criado já se dirigia ao meu quarto e se eu despertasse os outros seria meu fim. Não queira interromper o sono de minha irmã então tratei de me colocar de pé e observei o sol que irrompia do horizonte, tingindo o céu com suas cores matinais.

— Ei... Psiu... Cameron...

Um arrepio me subiu pela espinha de imediato. Aquela voz arrastada e irônica... Era a minha. Virei lentamente a cabeça na direção esquerda, e foi ai que o vi, em suas vestes negras com suas asas de pura escuridão. Parecia muito comigo mas seus cabelos e olhos eram brancos e suas feições me assustavam.

— Não achou que tinha se livrado de mim, não é? Seu projeto de semideus ridículo.

— Me deixe em paz!

Acabei por subir o tom de voz e ,tremendo, joguei um lençol da cama em sua direção. Ele ria, uma gargalhada fria e terrível que me fez recuar vários passos, não conseguia ser forte a ponto de não me abalar, eu tinha só seis anos. Só parei de andar quando colidi com a parede do quarto e escorreguei até o chão enquanto tapava os ouvidos com as pequenos palmas das mãos.

Encolhido no canto do quarto, as lágrimas vertiam de forma frenética pelo rosto pálido de traços delicados, o lábio inferior tremia e eu abraçava meus joelhos como se eles fossem a única salvação para aquele pesadelo.

— Senhor Cameron, o que houve?

Uma das serventes do palácio de lorde Bóreas irrompeu pela porta, provavelmente me ouvira soluçar alto demais. Eu queria gritar, mas não podia em hipótese alguma emitir um ruído alto. Já havia sido encarregado de cuidar do jardim sob pena de morte e barulho no inicio da manhã poderia custar minha cabeça.

— Te-tem.... tem um monstro a-a-ali....

Apontei para um local mais a frente onde algo estava recoberto pelo lençol, a poucos minutos atrás eu havia levantado e a visão inicial que eu tive agora me atormentaria pelo resto das noites. A mulher com roupas próprias dos empregados do palácio me olhou por certo tempo e então se dirigiu até o local que eu havia indicado. Ela colocou a mão sobre o o tecido de cor creme e quando puxou eu me encolhi e gemi baixo enquanto prendia outro grito, o sufocando na garganta inchada. Ao erguer o olhar ela me encarava com certa dúvida no olhar, meus olhos estavam marejados e repletos de um pavor sombrio. Ela se aproximou um pouco mais e então sussurrou em um tom baixo e calmo.

— Senhor... é só um espelho.

Eu havia gaguejado e odiava aquilo, não podia me portar daquela forma mas ela era um mulher muito gentil. Até por não ter chamado o resto dos serviçais, provavelmente uma ninfa que servia á minha mãe. Seus cabelos eram alvos como a própria neve, ela sorriu de forma fraca e enxugou uma das lágrimas.

— Esta tudo bem, agora volte para a cama, pois logo logo terá seu treinamento.

Antes abaixada á minha frente, ela se levantou e me deixou ali. Será que eu estava treinando demais para minha idade? Meus cabelos já eram de um tom bem claro de loiro e aquilo era a prova de meu esforço, porém a que ponto eu havia chegado para ter tais alucinações? No silêncio, me levantei e andei lentamente na direção do espelho. Tudo parecia normal e na mais perfeita ordem e a imagem era de um garotinho em vestes brancas e olhos inchados, ergui a mão exitante e toquei a superfície espelhada fazendo o caminho até o rosto com o olhar. Como em meu sonho, esse foi o meu maior erro.

— Você gosta de poemas, não gosta criancinha burra? Então aqui vai um pra você de minha autoria... Pode me negar o quanto quiser, pode me rejeitar o quanto puder. Jamais se livrará de mim, jamais deixarei sua mente em paz, não pode me matar, não pode me conter caso se julgue capaz. Permanecerei aqui por um simples e único motivo... Eu... sou... você!

Não conseguia tirar a mão do espelho. Não sabia o por que mas aquilo me apavorava e era como se estivesse preso ali, como se meu reflexo me segurasse. A neve começou a cair ali dentro do quarto em flocos discretos e imperceptíveis.

— Que-quem é você?...

Eu sussurrei de frente ao espelho na parede. Algo distorcia minha imagem, brincando com minha mente, eu sabia que não estava com aquele sorriso psicótico no rosto, muito menos possuía os olhos vidrados, mas meu reflexo tinha outra ideia. A ideia de me mostrar uma face que eu nunca vira antes.

— Não esta me reconhecendo? Eu sou você. Quantas vezes terei de repetir?

Meus olhos no espelho se tornam brancos, e não apenas as íris, eles estavam completamente brancos como os de um demônio ou um cego. Tirei a mãos vacilante da superfície lisa e a imagem refletida fez o sorriso assassino crescer no rosto. As roupas não se tingiram de negro daquela vez, mas por que? Parecia realmente comigo mas o reflexo emanava uma aura maligna.

— Eu posso destruir tudo que você tem, e olhe que não seria difícil. Faz ideia de como é desprezível aos olhos de todos? Até a criadagem prefere a criança nova á você. Você é desprezível.

— Cale-se!

Não sabia de onde retirava aquela força repentina, mas a neve caia mais intensamente e com ela vinha a raiva que me motivava a enfrenta-lo. A mesma raiva daquele pesadelo, ao qual eu já nem mais saberia dizer se era realmente apenas um pesadelo.

— Ou o que? Vai me atingir com seus bons modos? Para honrar uma mãe que te submete à morte? você é só uma peça no jogo dela Cameron, não passa de um peão e assim será sempre aos olhos de todos... Uma peça usável e descartável. Um nada. Um resto de insignificância ao qual ninguém jamais irá querer por perto!

— Eu mandei calar a boca!

Rugi entre dentes e senti o gelo furioso percorrer o sangue. Ao inicio da risada dele disparei um soco tão potente que fez com que o espelho se estilhaçasse em vários pedaços pelo chão. Eu arfava e acabei por cai de joelhos no chão, a neve rodeava os pés e cacos de vidro recobertos de gelo se espalhavam à minha volta. Como aquelas palavras poderiam ter sido ditas por mim? Eu jamais desonraria lady Quione e aquilo, aquilo não era eu. Os granizos e flocos de neve agora me rodeavam tempestuosamente juntamente com rajadas de ventos cortantes que carregavam uma sinistra gargalhada.

"Achou mesmo que se livraria de mim quebrando um simples espelho? Deplorável!"

O sangue começava a vertes de minha mão direita e aquilo doía, doía de dentro para fora e percorria o corpo em queimação intensa, como se tivesse sido atirado às brasas da lareira.

"Tão fraco... Tão patético... Mas nós daremos um jeito nisso"

As mãos se fecharam em volta dos cacos e a neve avançou contra meu corpo, cobrindo minhas lágrimas e me sufocando em um casulo terrível, senti como se fosse realmente meu fim. Passados alguns segundos minha prisão explodiu, como se uma avalanche potente invadisse o quarto e espalhasse por ali. Seu manto branco e mortal. Ao me levantar olhei para os cacos que ainda restavam ali no chão e abri um sorriso torto. Não me dei ao trabalho de trocar de roupa, já que não precisaria. Meus olhos agora estavam completamente leitosos nas íris. Com um empurrão abri as portas e me dirigi até a sala de treinamento com apenas um pensamento em mente. Aquela garotinha que havia sido parida por lady Quione ainda não era forte como eu e não poderia deixar que ela desonrasse minha árvore genealógica, meu sangue seria puro e perfeito.

Os corredores do palácio se encontravam vazios e Sr. Tats só me encontraria dali a a alguns minutos, as exatas seis da manhã, onde eu mostraria a ele do que realmente era capaz e que poderia ser um guerreiro brilhante e um assassino silencioso. Havia uma adaga de prata em pendurada na parede bem na entrada da sala de treinamentos e foi necessário apenas um movimento de mãos para que os ventos a soltassem de seus prendedores. Abaixei o olhar e a segurei firmemente a desembainhando logo em seguida e olhando meu reflexo na lâmina polida e cristalina.

— Vamos ver se você consegue escapar de mim e o quão forte você será, Tiffany...

O reflexo na prata polida exibia um sorriso psicótico, as ondas de poder que percorriam o meu corpo eram estimulantes e eu sabia que estava fazendo o certo ao retirar aquela criança imunda da propriedade de lorde Bóreas. Fora das vistas de todos eu provaria que poderia ser frio como minha senhora. No momento em que me virei Sr. Tats estava seguindo o caminho e passando pelo batente, rapidamente levei as mãos as costas e me curvei em uma mesura, aquele velho atrapalharia meus planos.

— Bom dia, senhor Tats.

— Cameron... Já esta preparado para o treinamento matinal? O que o motivou a chegar aqui antes de mim?

— Quero fazer o que é certo para que eu honre lady Quione. Podemos começar?

— Claro, tenho que parabeniza-lo pelo adiantamento no horário.

Sorri da mesma fora educada de sempre, ele não era meu alvo mas seria um bom divertimento para mim. Enquanto andava para fechar as portas meu treinador se dirigia até a parede que era ocupada de dezenas de armas diferentes, distraído demais para me ver esconder a adaga na cintura. Ele nem saberia o que o atingiu.

— Cameron, para o centro por favor.

Logo após fechar as portas, a perversidade de meus próximos atos me fizeram sorrir de tal forma que tive que me conter muito na caminhada até o circulo de treinamento. A sala era de um azul transparente com as paredes recobertas por gelo, assim como o chão e outros objetos. Do teto pendia um lustre com seções em formato de flocos de neve de diferentes formas e algumas janelas deixavam a luz da manhã se infiltrar no local. Os pés infantis caminhavam silenciosamente até estar de frente com o meu treinador, não mataria ele por respeito à minha mãe mas era hora de um acerto de contas. Ergui a cabeça e sorri, sua expressão foi de surpresa.

— Meu jovem, o que houve com seus olhos?...

— Esta prestes a descobrir...

O vento correu livre pelo salão e a neve começou a rodopiar em uma tempestade tenebrosa e impiedosa. Aqueles ventos empurram o velho Tats contra a parede. Apesar de um servo ele ainda era mais mortal que eu e o choque de seu corpo o fez perder o ar. Minha risada ecoava pelo salão, era macabro ouvir uma criança rir daquela forma e o rosto de meu alvo se contorcia.

— Qual o problema velhote? Não aguenta um pouquinho de... — Estalei os dedos e a neve parou no ar como se o tempo tivesse congelado. — Neve?

A expressão assumiu seu tom diabólico e os flocos se uniam em formações afiadas de espinhos que com um movimento das mãos avançaram contra ele o pregando na parede. Perfuraram seu ombro e causaram alguns cortes mas o fincaram na parede. Teias começaram a ser tecidas de um espinho para outro até que Tats estivesse em um casulo. Antes que ele proferisse alguma palavra tapei sua boca com uma faixa de neve espessa.

— Não se preocupe Tats, meu alvo não é você mas terá que me enfrentar em breve.

Com essas últimas palavras sai do salão e fechei as portas, a arma de prata permanecia em minha cintura e meu rosto voltava a ter seu sorriso educado emoldurando as faces infantis enquanto eu cruzava o corredor até o quarto da praga ao qual eu deveria chamar de irmã. Tão inútil que teve um pai presente que nem a quis, me forçando a conviver com aquele ser, nessas horas eu dava graças por nem saber do paradeiro do mortal que infectaria minha árvore genealógica.

— Bom dia senhor Cameron.

—Bom dia.

Ela continuou seu caminho pelo corredor. Servente insignificante. Mais um futuro alvo com certeza mas estava com pressa e precisava ser rápido. A mão alcançou a maçaneta e a girou, a porta rangeu suavemente e abriu o suficiente para que eu adentrasse o quarto dela. A pequena Tiffany deixava seus cabelos se esparramarem pelo travesseiro se misturando à brancura do tecido, era uma pena manchar aquilo com sangue inferior mas seria preciso. Minha mão direita agarrou o cabo da adaga e a puxei posicionando logo acima do pescoço da criança e vendo o olhos e a face ganharem um brilho assassino no reflexo da lâmina.

— Bons sonhos irmãzinha...

Desci a adaga porém a parei subitamente no ar, a respiração começava a falhar e uma lágrima escorreu do olho esquerdo, rolando pela face enquanto a mão que segurava a arma tremia acima de uma doce e sonhadora Tiffany. Eu não poderia fazer aquilo! Olhei para a adaga e a soltei no chão. O que eu estava fazendo? O que estava acontecendo? Cai de joelhos no chão e agarrei meus cabelos. Minha cabeça latejava e não podia mais ficar ali. O que pensariam de mim se chegasse a terminar o que fiz? Empurrei as portas do quarto dela, sem me importar com seu sono e corria para o jardins deixando o grito que estava sufocado no peito sair juntamente com o controle do meu corpo, este foi meu último ato em plena sanidade. O último antes que ele se apoderasse de mim.

Notas finais
Reza a lenda que quando uma alguém esta sob imensa pressão, algo acaba por acontecer em sua mente. Cameron viveu seis anos de pura repressão emocional e agora começou a sentir seus efeitos. Algo que ele batizou de Inverno da Alma. Teriam sido essas as suas últimas palavras, e seu último ato de coragem? Indescritível dizer algo perante a isso, porém eu espero que você tenha cuidado com os espelhos, pois o monstro que enxergamos na maioria das vezes... Somos nós mesmos.