Ao - Parte I - A Ameaça Cerul
6 Para não lutar sozinho
Notas iniciais
Depois da escola, Ao foi chamado à sala do Comandante Adler. Apresentou-se obedientemente, como sempre.
— Senhor Adler. – Cumprimentou-o.
— Ao. – Desta vez, sua expressão não era de divertimento, como das outras vezes.
— Posso perguntar a razão da minha convocação?
— Imaginei que já soubesse. – Cassian respondeu.
Uma pontada de ansiedade o atingiu, mas Ao tentou não mostrar o quão nervoso estava com a possibilidade de mais testes.
— Senhor, eu pensei que os testes fossem esperar a escolha da Quadris. – Disse as palavras o mais calmamente que conseguiu.
— A Quadris já está montada.
— O quê? – Ao perdeu a compostura. – Mas o professor anunciou hoje que estão iniciando os testes…
— Eu disse no outro dia que já estávamos selecionando os membros da sua equipe. Hoje foi apenas um anúncio para avaliar se os escolhidos gostariam de fazer parte dela. Não daremos posições na Quadris para quem não quer isso.
Ao deveria imaginar. Militares adoram uma cortina de fumaça.
— Então isso significa que…
— Vocês farão o primeiro teste de sincronização em conjunto.
Ao deveria estar com uma expressão miserável, pois Adler, enfim, sorriu. Talvez o Comandante fosse um homem que se divertia com o sofrimento dos outros. Ao procurou uma palavra para isso. “Sádico”.
— Hoje?
— Agora.
— Certo. Vamos logo com isso. – Agora que já estava ali, Ao queria terminar logo com aquilo.
— Antes que eles cheguem, vou explicar melhor como a Quadris está organizada. Primeiro, as pernas.
— Pernas?
Cassian suspirou.
— Pense neles como seus membros. Você é a cabeça, aquele que tem o controle de tudo. O sistema o reconhece como “Coryphaeus”, é por isso que seu traje tem esse nome. Você move a cidade, mas quem executa as ações de suporte são seus membros auxiliares. As pernas lidam com os quadrantes sudeste e sudoeste da cidade. São duas, como nos humanos e na sua raça. – A perna esquerda é ocupada pelo Sin. E a direita, pelo Ius.
— Ah, isso estava escrito nos cockpits.
— Isso mesmo. Escolhemos Akira Senno para o posto de Sin e Camile Chaures para o Ius. Eles serão suas pernas.
Akira Senno, Ao lembrou, era o rapaz que gostava da Yuna. A outra, Camile, não era alguém de quem ouvira falar.
— Já ouvi falar nesse Akira.
— Ele é o nosso prodígio. Se você fosse humano, jamais seria páreo para ele. – Observando a expressão descontente de Ao, completou. – Eles precisam ser fortes, ou não vão aguentar a sincronização com Lesa.
— Sei disso. Não é hora para agir assim, desculpe, Sr. Adler.
— Continuando, vamos para os braços do Praesis. O braço esquerdo cuida do setor nordeste da cidade, enquanto o direito fica com o noroeste. Chamamos o primeiro de Laevo e o segundo de Dex. Laevo será ocupado por Laylah Diamond e Dex será de Charlane Sune-Agassi.
— Char! – Ao estava surpreso, embora soubesse que o amigo tinha um desempenho ótimo na maioria dos testes.
— Vejo que conhece Dex. Bem, quem não conhece a criança do Primeiro Ministro?
— O quê? – Ao engasgou, tamanha sua surpresa. – Eu… Não sabia. – Disse, ainda tossindo. – Ele é meu amigo.
Ao sabia que o sobrenome não lhe era estranho. Então, Char era o filho de Zeon Agassi.
— Ora, ora. Arrumou mais um amigo além da minha Yuna? Assim ela vai ficar com ciúmes…
Ao corou.
— Comandante, o que o senhor quer dizer com isso?
— Deixe para lá. – Cassian estava rindo. – Bem, agora que sabe quem são os quatro, está na hora de conhecê-los pessoalmente. Devo avisar que eles ainda não sabem quem é o Praesis e isso poderá ser… Um choque para eles. Bem, não há nada que possamos fazer sobre isso, Ao. Só peço que esteja preparado. – Ele deu um tapinha gentil nas costas do garoto e completou. – Prosseguiremos para a sala de sincronização e lá você conhecerá a equipe.
Ele deve ter notado a preocupação do garoto, pois acrescentou:
— Vai ser mais fácil dessa vez. Fizemos alguns ajustes e, com a Quadris, não será um peso tão grande para você. Haverá algum desconforto, mas prometo que não vai correr perigo.
Foram juntos até o prédio de segurança. Algum soldado deve ter levado o traje, pois ele já estava lá.
— Não preciso colocar isso, certo? – Ao tinha vestido a roupa, mas não colocou o capacete.
— Ah, mas é claro que precisa. Não seria divertido sem um pouco de suspense.
Mesmo sabendo que o Comandante Adler estava se divertindo às suas custas, o garoto obedeceu e colocou o capacete. Logo depois, seus ouvidos captaram a aproximação de pessoas. Em segundos, a porta da grande sala se abriu, revelando a Quadris.
Os olhos de Ao foram imediatamente em direção a Char. Ele estava inquieto, olhando para os lados o tempo todo. Quando viu o Comandante Adler, bateu continência. Os demais seguiram seu gesto.
Havia duas garotas. Uma ruiva alta e uma mais baixa, de pele escura. Apesar de ambas serem bonitas, Ao não conseguiu evitar pensar que Yuna ainda era a mais linda das garotas. O outro rapaz, que Ao supôs ser Akira, estava bastante sério. Tinha cabelos negros, pele branca e olhos puxados.
— Boa noite, senhores e senhoritas. – Cassian os cumprimentou, em tom educado. – Primeiramente, devo parabenizá-los pelo potencial que vocês demonstraram. São verdadeiros talentos da Academia.
— Senhor. – Char se pronunciou.
Cassian Adler fez sinal para que ele continuasse.
— Eu acho que vocês estão cometendo um erro.
— Desculpe? – O Comandante franziu o cenho. – Pensei que quisesse estar aqui.
— É o que mais quero, senhor. É uma grande honra, porém, na minha turma havia alguém superior a mim.
Ao xingou o colega mentalmente.
“O que esse idiota está fazendo?”
Cassian Adler começou a rir tão alto que tirou Ao de seus pensamentos e sobressaltou os demais presentes.
— Você não está errado, Sr. Agassi, mas se escolhemos você, é porque se sairá melhor nesse papel do que seu colega excepcional. Entendido?
— Sim, senhor... – Char olhou para o chão.
— Bem… Devo apresentá-los ao Praesis. – Os quatro encararam Ao. – Laylah Diamond.
— Sim, senhor! – Respondeu a garota de pele escura. Tinha olhos lindos verdes, que contrastavam com o negro de sua pele. Os cabelos estavam adornados por joias. Vestia um traje de piloto de coloração vermelha e branca, com os dizeres “Laevo” no peito.
— Charlane Sune-Agassi.
— Char, senhor! – Seu traje exibia o nome “Dex” e era amarelo e branco.
— Camile Chaures.
A garota ruiva se curvou, dizendo calmamente.
— Eu, Comandante. – O traje verde e branco trazia consigo o nome “Ius”.
— Akira Senno.
— Aqui! – Apesar da atitude quieta, ele respondeu firmeza. O traje era inteiro negro, e carregava o título “Sin”.
Nenhum deles vestia o capacete, exceto Ao.
— Antes de revelar a vocês a identidade do Praesis, vamos relembrar os termos. A partir de hoje, juram lealdade ao Precentor de Lesa?
— Sim, senhor! – Disseram em uníssono.
— Vocês juram proteger o Praesis e a sua identidade?
— Darão suas vidas em sacrifício, se necessário, pelo bem da humanidade e da Terra?
— Sim, senhor!
— Aceitam a pena de morte imposta em caso de quebra de juramento?
— Sim, senhor!
Todos exibiam expressões convictas, cada um à sua maneira. Adler sorriu e disse:
— Então, está feito. Está na hora de conhecer o Praesis.
O coração de Ao batia forte, enquanto ele retirava o seu capacete.
— Apresento à Quadris o Precentor de Lesa, que vocês juraram proteger a custo de suas próprias vidas.
Todos os quatro o encararam, incrédulos. Seus cabelos verdes cobriam as orelhas pontudas, mas ninguém deixaria de reconhecer o prisioneiro de categoria especial de Lesa, o meio-ceruliano abandonado pela mãe, Ao.
— Puta que pariu. – A voz de Char quebrou o silêncio.
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