Ao - Parte I - A Ameaça Cerul
7 Cinco mentes, um corifeu
A esta altura, Ao já tinha retirado completamente o capacete. Encarou a boca aberta em surpresa de Char e se inclinou levemente em direção a eles.
— Prazer em conhecê-los. Sou Ao, só Ao.
— Isso só pode ser brincadeira…! – Akira arregalou os olhos e balançou a cabeça, em negação. Sua pose havia quebrado completamente. – Não foi para proteger essa coisa que eu fiz o meu juramento! Como o Praesis, o herói de Lesa, da Terra, pode ser um alienígena? Isso é um completo absurdo!
— Silêncio. – O Comandante direcionou um olhar gélido a Akira. – O exército de Lesa não vai aceitar insultos contra nosso Precentor, nem mesmo vindo da Quadris. Você deve saber que Ao é ceruliano e humano na mesma medida. Se não é capaz de aceitá-lo, Sr. Senno, eu devo entender que prefere a execução?
Akira desviou o olhar e encarou Ao, a repulsa evidente em seu rosto.
— Não. – Praticamente cuspiu as palavras. – Senhor.
— Então, eu ordeno que abaixe a cabeça para o Praesis, honre a sua missão e seu juramento.
— Farei o melhor… Que eu puder. – Ele disse, a contragosto. As mãos ele fechou em punho.
Ao tentou não se abalar com aquela reação, afinal já deveria ter se acostumado com esse tipo de tratamento.
— Se ninguém tiver mais objeções, vamos ao primeiro teste de sincronização. – Adler disse, indicando a cada um a seu próprio cockpit.
Ao tremia um pouco ao chegar ao seu assento. Da última vez que entrou ali, saiu de lá pingando sangue pelos olhos.
— Só sigam as instruções do Sistema.
Ao entrou no cockpit, que imediatamente se iluminou.
“L.E.S.A. online. Confirmando a identidade do Precentor.”
A voz robótica do Sistema falou, enquanto a luz vermelha o escaneava. Segundos depois, todas as luzes se tornaram verdes.
“Liberado. Bem-vindo de volta, Ao.”
— Obrigado… Eu acho. – Parecia um pouco bobo agradecer a uma máquina. Ainda mais uma que poderia fazê-lo sentir tanta dor.
“Sinais vitais, ok. Pronto, Praesis?”
— Sim. – Ao respondeu, tentando deixar o medo de lado.
“Sincronização autorizada pelo Praesis.”
Sentiu a picada na nuca e tudo ficou escuro, como se estivesse em stand by.
“Iniciando protocolo para sincronização da Quadris. Captando sinais vitais. Sin, ok. Dex, ok. Ius, ok. Laevo, ok. Checklist completo. Incluindo Praesis. Coryphaeus, ok. Tudo normal. Iniciar sincronização.”
Quase que em câmera lenta, Ao recebeu uma tonelada de informações. Dessa vez, elas vieram devagar e havia tempo para absorvê-las e entendê-las. Ele sentia o corpo tomando consciência da cidade, seus inúmeros monumentos, embora fossem apenas sensações, como vultos em uma sala já muito escura. Nada via ou ouvia.
“Ligando Coryphaeus à Quadris. Finalizando conexão mental.”
Ao sentiu que não estava mais sozinho em sua própria cabeça. Sabia quem eram, podia sentir cada um dos membros da Quadris. A empolgação de Char, a cautela de Camile, a energia de Laylah e até mesmo a hostilidade de Akira.
— Vocês podem… me ouvir? – Ao não sabia se disse isso mentalmente, fisicamente, ou de ambas as formas.
— Ao? – Char respondeu, confuso.
— Parece… que conectaram nossas mentes. – Ao afirmou.
— Sim, eu posso ouvir. – Laylah respondeu.
— Eu também. – Camile disse.
Akira não respondeu, mas Ao sabia, pela conexão, que ele estava ouvindo.
“Sincronização em 10%. Pilotos conectados.”
A mente de Ao se expandiu mais uma vez, mas ele tentou manter a consciência de seu próprio corpo. Não poderia deixá-lo desamparado. Quando abriu os olhos, viu a cidade. A cabeça estava pesada e seus olhos doíam, mas isso significava que não tinha deixado seu corpo para trás. Não tinha tido sua consciência varrida para fora do corpo, como antes.
“Visão conectada.”
Um “bip” levemente incômodo começou a ressoar nas cabines.
“Alerta, vestígios de sangue no Praesis. Sem risco à vida. Permissão para continuar?”
— Permissão concedida. – A voz de Cassian ecoou pela mente de todos eles.
“Audição ativa.”
Ao via as ondas no oceano escuro, e agora podia ouvi-las também. O peso na cabeça foi aumentando gradualmente e era, com certeza, bastante desconfortável. Mas ainda era um sinal de que seu corpo continuava respirando normalmente.
“30% de sincronização.”
Aos poucos, foi sentindo a cidade como seu próprio corpo, mas não deixou de sentir a si mesmo dentro do cockpit. Podia até ignorar essa presença, mas ainda estava lá. A respiração estava mais rápida que o normal e o coração começava a bater no ritmo de Lesa.
“50%. Limitador ativado. Iniciando estabilização… Avaliando sinais vitais… Sincronização finalizada.”
Após alguns segundos, Lesa se aquietou.
Ao sabia o que fazer se quisesse mover qualquer construção da cidade-nave. Ao simplesmente sabia. Não havia manual para aquilo, não havia necessidade. Um Precentor era um piloto que naturalmente sabia pilotar. Agora Ao entendia o que isso significava. Com apenas sua própria vontade, a cidade era ele e se moveria como ele quisesse.
Não sabia o que a Quadris estava vendo, mas sentia o quão maravilhados eles estavam pela experiência. Não sentia dor alguma vinda de seus cockpits.
— Vocês estão bem? – Perguntou.
— Sim, Praesis. – Laylah respondeu.
— Isso é… Demais! – Char disse. – Dá para ver tudo o que está na nossa área de controle. Poderíamos atacar qualquer inimigo remotamente. Isso é… Incrível.
Ao pensou em como poderia acessar as armas de Lesa, e, imediatamente, um aviso apareceu bem no meio de seu campo de visão.
“Solicitação do Praesis em análise.”
E, menos de um segundo depois.
“Permissão para mover a cidade, negada. Funções bloqueadas pelo Sistema. Requisitos necessários faltantes.”
— Ao, o que você fez? – Char perguntou.
— Eu só pensei em como faria para mexer nas armas. Mas acho que o Sistema entendeu errado.
— Hoje, terminaremos por aqui. – A voz de Cassian Adler ressoou nas mentes dos cinco jovens. – Bloqueamos o controle dos movimentos de Lesa, incluindo o acesso ao arsenal, pois isso poderia causar acidentes nas ruas. Vou reverter a sincronização. Preparem-se.
“Sincronização teste bem-sucedida. Iniciando retorno. Dessincronização iniciada. 40%... 30%... 20%…”
Aos poucos, Ao foi se tornando cada vez mais consciente de si e menos de Lesa, até que retornou ao próprio corpo. Doía horrores: a cabeça parecia que iria explodir. Os olhos sangravam, e os ouvidos também. Mas fora isso, estava inteiro.
O cockpit se abriu e os médicos correram até ele. Estavam de prontidão.
— Vocês precisam ir mais devagar com a sincronização. Tentem aumentar o tempo entre cada salto, para ele se acostumar.
Nenhum membro da Quadris sofreu danos, e, apesar das feridas de Ao, só a presença de mais mentes para segurar a enxurrada de informações tinha deixado o processo muito mais fácil.
— Estou bem, Doutora. Obrigado. Foi muito melhor que da última vez.
Os médicos avaliaram a situação dos seus olhos e lhe deram um colírio e um comprimido para dor.
A Quadris ficou esperando a equipe médica terminar de cuidar de Ao.
— Você é mais frágil do que eu imaginava, Praesis. – Laylah disse, depois que Ao foi liberado.
— Qualquer um de vocês teria morrido no lugar dele. – Cassian explicou. – Ele é mais forte do que imaginam.
— Graças a vocês, deu tudo certo durante a sincronização. Obrigado. – Ao estava realmente grato a todos eles por ter sido poupado da dor insuportável que vivenciou da última vez.
— Estamos ao seu serviço. – Camile disse, com uma expressão gentil.
Akira, por sua vez, cruzou os braços e olhou para Ao como se quisesse matá-lo ali mesmo.
— Em breve avançaremos no treinamento de vocês. A guerra está vindo, não temos muito tempo. – Disse Cassian Adler. – Vou liberá-los por hoje, mas antes…
Ele olhou para os jovens.
— Precisam tomar conhecimento de mais alguns detalhes. – Ele apontou para Ao. – Lembrem-se, a identidade do Precentor é um segredo absoluto. Vocês não devem falar com ninguém a respeito de Ao. Mantenham distância dele na escola e sigilo sobre todo o treinamento.
Char abriu a boca para falar, mas foi interrompido pelo Comandante.
— Vocês já eram amigos antes, então podem continuar assim. Seria suspeito se separarem logo após o anúncio da Quadris. – Olhando para os outros três, ele continuou. – Aos demais, a ordem é clara: Ao é um completo desconhecido.
Ele olhou para o relógio de pulso e continuou:
— Bem, já está na hora de voltarem aos seus dormitórios. Amanhã vocês quatro serão as novas celebridades da Academia. Mas não se preocupem, estarei presente pessoalmente no evento de anúncio da Quadris. Ah, creio que ainda não os parabenizei.
Ele se aproximou e apertou as mãos dos quatro jovens. Akira ainda estava de mal humor, mas ainda sim estendeu a mão para o Comandante Adler.
— Que sorte a minha que não terei essa dor de cabeça. – Ao estava minimamente feliz, pois pelo menos a sua identidade jamais poderia ser revelada. Algum sossego ele haveria de ter.
— Você é amigo do Dex, Ao. Isso vai acabar sobrando para você também. – Cassian o lembrou.
— Não me importo. – Ao sorriu. – Posso aguentar a fama do meu amigo. – Ele piscou para Char, que tinha uma expressão curiosa.
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