Ao - Parte I - A Ameaça Cerul
5 Luz na escuridão
Notas iniciais
Quando abriu os olhos, só viu a escuridão.
— Ele acordou! Finalmente! – Uma voz que não conhecia disse. Ele tentou se sentar, mas uma mão firme o impediu.
— Ei, não tente se levantar. Você quase morreu!
— E-eu… – Tentou encontrar as palavras. Ainda não enxergava nada e seus olhos doíam. – Fiquei cego?
— Não se preocupe, só ficará assim até retirarmos os curativos. – A voz tentou acalmá-lo. Era gentil.
Ele escutou diversos bipes. Agora mais consciente de si, Ao conseguiu sentir as bandagens que cobriam seus olhos, o que o acalmou. Seu nariz e ouvidos diziam que ele estava no hospital.
— O que aconteceu? – Conseguiu dizer, enfim.
O som de uma porta se abrindo, e passos denunciaram a presença de outra pessoa no quarto.
— Ao, vim assim que soube que acordou. – A voz pertencia a Cassian Adler, cuja voz soava extremamente preocupada. – Como ele está, Dr. Anna?
— Está muito bem, considerando tudo o que ele passou. – A primeira voz, que Ao presumiu ser da pessoa chamada Anna, respondeu.
Um audível suspiro de alívio pode ser ouvido de Cassian.
— Ficará com os curativos por mais uma semana. Proíbo expressamente que façam qualquer tipo de teste com ele até lá. – Anna foi bastante firme na sua colocação.
— Está bem, eu prometo. – Cassian respondeu. – Deixe-me conversar com ele, a sós.
— Tudo bem, mas me chame se ele precisar de algo.
Ao ouviu os passos da médica se afastarem, até que o ruído da porta se fechando confirmou sua saída da sala.
— Ao, me desculpe… – Cassian começou a falar. – Não queríamos machucá-lo.
— O que foi aquilo? – O garoto sentia raiva por não ter sido devidamente avisado sobre como seria aquele teste. – Foi… – Dizer que ele se sentiu sobrecarregado com a tonelada de dados transferidos para sua mente era muito pouco para descrever a realidade. – Como ser retirado à força da própria cabeça.
— Erro meu. Eu me esqueci que você é meio humano. Sua mente é fundamentalmente diferente da nossa, ao mesmo tempo em que não é completamente ceruliana. Erramos em alguns cálculos.
— Ah, agora vocês lembram que eu não sou 100% alienígena… Que ótimo finalmente ser reconhecido como um de vocês. Estou lisonjeado!
— Ao, não é assim...
As lágrimas encharcaram as gazes que cobriam os olhos machucados de Ao.
— Vocês vão querer que eu faça aquilo de novo, né?
— Não tão cedo. Você não vai conseguir sozinho sem treinamento. Travamos a sincronização a 50%, para evitar sobrecarregá-lo no primeiro teste, mas isso não foi o bastante. O problema é que, uma vez que tem o controle de Lesa, você perde o controle do próprio corpo e para de respirar.
— Ah, que informação agradável.
— O teste não foi inútil, pudemos coletar muitos dados, que foram analisados nessa última semana…
— Já faz uma semana? – Ao o interrompeu.
— Sim, você ficou em coma por quase 7 dias.
— E o que vocês disseram à Academia?
— Está tudo sob controle, não se preocupe…
— Como não me preocupar? – Ao estava nervoso novamente. – Para vocês eu sou não sou nada! Não vão hesitar em me matar para cumprir seus obje-
Ouviu os bipes aumentarem seguindo a própria frequência cardíaca.
— Ao, pare com isso! – Adler aumentou o tom de voz. – Nós nos preocupamos com você, deveria ter notado isso. Se não, teríamos deixado você morrer lá.
Com as palavras do homem, o garoto foi aos poucos se acalmando.
— Não sou o Comandante Ley. Sem mais testes por enquanto. Vou mantê-lo seguro, eu prometo.
Ele era realmente muito diferente do Comandante Ley, isso não havia como negar, entretanto, a gentileza de Cassian Adler não tornaria Ao disposto a sentir aquela dor novamente.
***
Demorou mais uma semana para ser liberado para casa, se é que poderia chamar aquele quarto na prisão de casa. Desde a sincronização, a conexão de Ao com Lesa se tornou ainda mais profunda.
Sentia o chamado dela, tão forte que, se ele se deixasse levar, iria parar no monumento do centro da cidade. Seus passos inconscientemente o levavam para lá. Ele podia ouvir, cada vez mais alto, os ruídos das engrenagens se movendo, e o “tum, tum, tum” que um dia ele pensou ser um coração.
Depois da alta, e a cicatrização completa dos olhos, finalmente ele pode voltar à escola.
Assim que subiu a escadaria que dava para os portões da Academia, deparou-se com Yuna Adler, esperando por ele.
— Ei, por que não veio mais à escola? – Yuna perguntou, com os braços cruzados e ansiedade no tom de voz.
— Problemas de saúde. – Ele respondeu, simplesmente. Não tinha permissão para revelar a verdade, nem mesmo para a filha do Comandante.
— E… Você está melhor? – Ela disse, preocupada.
— Sim. – Tentou não parecer triste, mesmo sabendo que, estando recuperado, iriam sincronizá-lo com Lesa novamente.
— Trouxe alguns biscoitos, mais tarde podemos comer juntos. – Ela ofereceu uma mão para Ao, que a pegou sem hesitar.
Havia outra pessoa que se preocupou com ele nesse meio tempo. Quando Ao entrou na classe, Char foi o primeiro a recebê-lo.
— Ao, você voltou! – Ele disse, dando um abraço no colega.
— Sim, foram só alguns… ah, problemas de saúde. – O garoto disse, desvencilhando-se de Char, que franziu o cenho para ele.
— Cara, da última vez que você mentiu tão descaradamente, desapareceu por dias.
Ao encarou o colega e suspirou.
— É tão óbvio assim?
— Você é horrível nisso. Deve ser coisa de alien, pois nunca vi alguém ser tão ruim em mentir.
— A aula vai começar, Char. – Ao desviou do assunto e eles se prepararam para as aulas da manhã.
O professor chegou e fez um anúncio que embrulhou o estômago de Ao.
— Alunos. Gostaríamos de informar a todos que o Precentor de Lesa foi encontrado, de modo que a Quadris poderá enfim ser escolhida. Esforcem-se ao máximo para ter a honra de servir à cidade e ao Praesis. Quanto maiores as notas, maiores suas chances!
Isso deixou todos os alunos extremamente eufóricos. Ao não entendia o porquê, mas até Char parecia animado.
— Caramba! Preciso me esforçar! Tenho certeza que você será um dos escolhidos para a Quadris. Com os resultados absurdos que você mostrou quando chegou, restam apenas 3 vagas.
— Eu não teria tanta certeza. Mas, por que você quer tanto fazer parte disso?
— Você não quer? – Perguntou Char. – Pensei que estivesse interessado.
— Eu… não quero. – Ao disse a verdade, embora sabia que jamais integraria a Quadris dessa maneira.
— Ter a chance de lutar e proteger a Terra é algo muito especial. – Ele cutucou Ao com o cotovelo, empolgado. – Todo mundo quer! E quem faz parte da Quadris pode conhecê-lo, sabe?
— Conhecer quem?
— O Praesis, é claro! Eles são os únicos que sabem quem ele é.
Ao engoliu em seco, nervoso, sabendo que logo teria que lidar com eles também. Pigarreando, ele mudou de assunto.
— Ah, vamos falar sobre outra coisa, Char. O que eu perdi nesse meio tempo?
O colega de cabelos loiros pensou por um momento, com um dedo sobre os lábios, até que pareceu se lembrar de algo importante:
— Você perdeu o fora que a Srta. Adler deu no Akira. – Deu um sorriso esperto.
— E eu deveria saber quem é esse?
— Mas é claro que deveria! Ele está no segundo ano, mas é um dos mais fortes candidatos à Quadris. Eu acredito que ele esteja quase no mesmo nível que você. Akira Senno é o queridinho da maioria das garotas da Academia e a Yuna Adler o rejeitou.
Ao não conhecia esse rapaz, mas se sentiu um pouquinho aliviado ao saber que Yuna não o queria.
— Hum. – Disse, simplesmente. Não confiava em si mesmo para falar muito mais do que isso, sem que Char percebesse o que estava pensando.
No almoço, Yuna apareceu para acompanhá-lo. Seu cabelos longos estavam presos em um adorável rabo de cavalo.
— Eu trouxe os biscoitos!
— Obrigado, Yuna. – Ao sorriu para ela, sentindo o coração se aquecer.
Depois de comer, ficaram batendo papo nos jardins, sentindo a brisa fresca da tarde. Yuna estava linda como sempre, com seus cabelos negros presos voando com o vento. Deixando-se levar, o garoto acabou perguntando.
— Ouvi dizer que tem gente interessada em você. – Assim que disse as palavras, Ao se arrependeu. O que ele tinha na cabeça?
A garota gargalhou.
— Onde você ouviu sobre isso? É só um idiota, na verdade.
— Então, você não está... interessada em ninguém? – Ao a observava pelo canto dos olhos.
— Hum… quem sabe? – Ela respondeu, de forma enigmática. – E você, Ao, tem alguém assim?
Ao pensou um pouco, e disse a verdade.
— Olha para mim, Yuna. Essa é a última das minhas preocupações… Alguém estranho como eu jamais…!
A garota se aproximou dele um pouco mais e, enfiando mais um biscoito nos lábios de Ao, disse.
— Come.
O garoto mordeu o biscoito. Estava doce e muito gostoso.
— Quando estiver pensando em coisas desnecessárias, fale para mim. – Yuna passou a mão levemente por uma de suas mechas esverdeadas.
— O que você…? – Ao a encarou. Yuna estava pertinho dele, com um sorriso brilhante no rosto.
— Amigos são para isso, não? – Ela se afastou, deixando Ao confuso.
— É claro, Yuna.
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