No dia seguinte, a Academia estava em um fulgor ansioso de estudantes que sabiam que a Quadris estava prestes a ser anunciada.

Ao caminhava com Yuna no seu encalço, perdido em pensamentos.

— Ei, não vai me dizer que não está nem um pouco nervoso?

— Por que eu estaria nervoso? – Ao indagou.

— Ao, todo mundo sabe que você tem potencial para a Quadris.

— Não se preocupe, Yuna. Se eu tivesse sido escolhido, já estaria sabendo.

— Hum, não sei não. Seria muito estranho não te colocarem no grupo.

— Mas é assim que as coisas são. – Ao disse, simplesmente.

Todos os estudantes foram reunidos no ginásio para o anúncio dos integrantes da Quadris. O Comandante Cassian Adler estava lá, como prometido, para presidir o breve evento.

— Bom dia a todos. Para aqueles que ainda não sabem, o Comandante Ley Harris se aposentou.

Ao notou pelos murmúrios que se seguiram que o Comandante Ley não era um chefe muito querido pelos estudantes da Academia.

— Eu, Cassian Adler, assumi o posto de Comandante esse ano. Mas, não estamos aqui para falar sobre mim, não é?

Quase todos os estudantes encaravam o Comandante, ansiosos pela revelação da década.

— Senhores, temos a honra de anunciar a equipe do Praesis, a Praesidis Quadris! Não queremos atrapalhar o andamento das aulas, então vamos direto ao ponto. Com vocês, os heróis de Lesa! – Ele disse, animadamente, ao mesmo tempo em que quatro nomes e rostos apareceram no grande telão atrás dele.

Charlane Sune-Agassi

Laylah Diamond

Akira Senno

Camile Chaures

Uma gritaria se instalou no ginásio, enquanto os aplausos enchiam o ar. Os ouvidos sensíveis de Ao foram particularmente afetados pela barulheira.

— Três garotas na Quadris?

— Não, não… Charlane é um menino do primeiro ano!

— Sério? Com esse nome?

— Como esperado do Akira!

O burburinho só parou, quando o Comandante falou novamente.

— Esses garotos e garotas são peças fundamentais nas batalhas que virão. Creio que muitos de vocês já sabem, mas é possível que sejamos atacados em breve. Os inimigos são os cerulianos, um povo bem conhecido por nós.

Ao baixou a cabeça, sentindo alguns olhares afiados sobre si. Yuna segurou sua mão e lhe deu um sorriso reconfortante.

— Ele poderia ter omitido essa informação… Pai idiota!

— Está tudo bem, Yuna.

O Comandante finalizou seu pequeno discurso com poucas palavras.

— Estejam preparados para tudo, pois a guerra bate à nossa porta. Estão dispensados.

Com isso, o ginásio ficou novamente barulhento e tudo o que Ao queria era sair dali o mais rápido possível. Ele e Yuna se esgueiraram para fora. Tentou achar Char na multidão, mas aparentemente todos os membros da Quadris tinham sido cercados pelos estudantes, fervilhando de perguntas.

— Viu, Yuna? Eu disse que não estaria lá. – Yuna estava visivelmente confusa.

— Hum, meu pai deve estar louco. Por que não colocou você na equipe? Ele não é o tipo de pessoa que teria preconceito por causa de um simples – Ela parou de repente, parecendo ligar os pontos. Os olhos escuros se abriram em surpresa, enquanto ela encarava Ao.

— O que foi? – Ao perguntou, confuso.

— É isso! – Yuna se aproximou do amigo mais do que ele teria esperado. Os lábios tão próximos às bochechas de Ao, que ele podia sentir a respiração da amiga. – Você é o Praesis, não é? – Ela sussurrou.

Ao quase engasgou. Como ela…?

— O quê?

— É a única explicação. Sua chegada de repente na escola, o sumiço por semanas e a súbita escolha da Quadris. Você é forte, Ao, não poderia ser deixado de lado para algo tão importante. É você.

Ela estava quase abraçando o menino, cujo coração martelava no peito. A tensão de ter sido tão facilmente descoberto provocou nele um nervosismo que nunca tinha sentido antes.

— Não precisa me dizer, eu sei que é proibido, mas eu sei que estou certa. – Ela enfim se afastou, dando algum espaço ao garoto.

Ao conseguiu respirar novamente. Agora que ela tinha se afastado, não entendia por que tinha ficado tão nervoso. Era sua amiga, jamais contaria a alguém ou faria algum mal a ele.

— Infelizmente, você está certa.

Ela arqueou as sobrancelhas e sorriu exultante. E o garoto retribuiu o sorriso.

A esta altura, a multidão finalmente liberou os mais novos protetores da cidade e Char se aproximou dos dois.

— Você deve ser Yuna Adler. – Char se inclinou. – A filha do Comandante.

— E você deve ser Charlane Sune-Agassi da Quadris. – Ela devolveu a saudação. – Parabéns.

— Obrigado. Pode me chamar só de Char. A propósito, espero que não esteja arrependida de ter rejeitado o Akira.

— Char! – Ao o repreendeu pela grosseria.

— Não se preocupe, não estou nada arrependida. – Yuna sorria para Char e, em vez de parecer ofendida, exibia uma expressão satisfeita. – Ele continua sendo um idiota.

Ao não gostaria de imaginar o que o mal-humorado Akira diria se estivesse por perto, então resolveu cortar logo aquele assunto.

— É, bem… Parabéns, Char. – Ao sabia que seria estranho ele não exibir surpresa pela escolha do amigo à equipe do Praesis, então ele tentou fingir alguma.

Char começou a rir, de repente.

— Você não tem jeito, Ao. – Parecia achar graça de alguma coisa, mas Ao não soube dizer o que era.

— Ei, você, o tal do Charlane, né? – Um grupo de rapazes se aproximou e percebeu Ao parado ao lado do rapaz. – Agora que é um dos nossos heróis, devia parar de andar com o inimigo. – Ele e seu grupo começaram a rir.

Yuna parecia prestes a socar o rapaz, mas Ao a deteve, segurando a sua mão.

— Vão embora. – Ao disse, os olhos violeta muito calmos.

— Vai se foder, alien do inferno! Ou o que quer que vocês façam com seus corpos nojentos!

— Ei, ei… – O primeiro puxou o colega, que estava visivelmente alterado. Álcool era expressamente proibido na Academia.

— Vamos… – Ao puxou Yuna consigo e chamou Char. Mas ele estava parado diante dos rapazes com uma expressão de fúria.

— Que direito vocês têm de falar essas merdas sobre ele? Vocês são a escória da Academia!

— Você está envergonhando o Praesis e a Terra. É a cadelinha do ceruliano, é? Char-lane. – Este estava bem sóbrio e parecia querer encrenca.

A expressão de Char endureceu, e algo no que o rapaz tinha lhe dito apagou sua fúria.

— Vocês não valem nada. Se é briga que querem, não vão conseguir aqui.

Char se virou e caminhou com Ao e Yuna para longe.

— Obrigado por me defender, mas eu estou acostumado…

— Pare com isso. Já estou irritado o bastante. – Char o cortou.

Ao não discutiu. Sabia que tinha algo errado com o amigo. Lançou um olhar para Yuna, que entendeu o recado.

— Vejo vocês mais tarde. Boa sorte. – E os deixou.

— Ei. – Ao disse, hesitante, enquanto caminhavam para a sala de aula. Nenhuma resposta. – Você quer conhecer a ala dos prisioneiros especiais depois da aula? – Disse, enfim, com um sorriso se formando.

— Ahn? – Char ergueu a cabeça.

— Nunca me disseram que não poderia levar visitas… Talvez você encontre um ou dois soldados pouco simpáticos, mas… Quer ir?

— Que pergunta! É claro que eu quero. – O rosto dele se iluminou um pouquinho. – Te encontro às sete?

— Combinado!