Ao - Parte I - A Ameaça Cerul
9 Charlane
Apesar da afirmativa de antes, Ao não sabia como o exército reagiria com a entrada de um estudante comum na DPE. Os dois garotos estavam parados em frente à prisão. Alguns soldados guardavam a entrada. Ao passou por eles, levando Char e, para o espanto dos dois, não se moveram. Eles apenas se entreolharam levemente.
— Ei ei, – Sussurrou Char. – Não achei que seria tão fácil…
— É, para falar a verdade, eu também não. – Ao deu de ombros. – Vamos lá!
Passaram pela porta principal e entraram no hall. O único prisioneiro de categoria especial não apenas de Lesa, mas da ilha de Kemu-lai inteira, era Ao, o meio-ceruliano. Todas as celas, portanto, estavam vazias.
A última cela do corredor se transformou com o tempo no quarto do garoto. Uma portinha no canto dava para o banheiro. Não era nenhum quarto de hotel, mas era mais do que os prisioneiros comuns tinham.
— Entre. Está meio bagunçado… – Era a primeira vez que convidava para sua casa um amigo, pois isso não sabia bem como deveria agir.
— Com licença! – Char entrou, sem muita cerimônia. – Até que não é tão ruim. Achei que seria mais parecido com uma masmorra, considerando onde estamos.
— Eles reformaram para mim, e deixaram mais aconchegante. Não é muito, mas é um lugar que poderia chamar de casa. Bem, convidei você aqui, mas na verdade não tem muito o que… O que você está fazendo? – Ao disse, quando Char começou a tirar algo de sua bolsa.
Era uma caixa pequena.
— Que isso?
— Toma. – Char entregou a caixa ao garoto, cuja curiosidade era evidente. – É um presente.
— Presente? – A expressão de Ao estava tão confusa, que o outro acrescentou.
— Nós, terráqueos, gostamos de dar coisas aos outros…
— Eu sei o que é um presente, Char. – E rolou os olhos violeta. – Só estou… Surpreso. Por que está me dando isso?
— Eu não preciso de razão para presentear um amigo. – Ele sorriu. – Além do mais, não acho que já tenha recebido um presente antes. – Char percebeu que Ao tinha pouquíssimos pertences em seu quarto, o que era incomum para alguém da idade dele. – Vamos, abra!
Ainda meio sem jeito, abriu a caixa, encontrando um livro. Depois de ler o título, que sobressaía na capa colorida, Ao franziu o cenho:
— “A Arte de… Mentir?”
Rindo incontrolavelmente, Char tentou dizer.
— Desculpe… – Disse, os olhos azuis lacrimejando. – É que você é péssimo nisso, Ao. E, sinceramente, é uma habilidade básica de sobrevivência na Academia. – De repente, ele ficou sério. – Especialmente agora, com você sendo… Você sabe.
— Ah… Obrigado. – Ao sorriu levemente. Ainda estava preocupado com toda essa história de Quadris e Praesis, mas saber que Char estaria junto com ele o fez mais confiante.
— A propósito… Ontem, na sincronização, você saiu machucado. Está tudo bem?
O ceruliano suspirou.
— Que isso, eu estou bem, não se preocupe. Foi muito melhor que a primeira vez…
— Quando você, hum… Faltou da escola?
— Sim.
Ao não queria se lembrar de sua experiência de quase morte.
— Graças a vocês, não vou mais passar por aquilo. Obrigado. – Ao se lembrou do que tinha acontecido mais cedo. – E, bem, hoje de manhã, desculpe pelos problemas que causei a você.
Char baixou os olhos.
— Ao, não foi sua culpa. E… Bem, eu fiquei irritado, mas não foi por sua causa. – Erguendo os olhos e encarando o amigo diretamente, continuou. – Eu… Odeio meu nome.
— Bem, é um nome um pouco diferente para um…
— Garoto? – Ele riu, mas desta vez sem um pingo de humor. – Isso é… Eu não nasci assim, sabe.
Ao olhou para ele, ainda não entendia o que o amigo queria dizer.
— Eu nasci com o corpo feminino, Ao. Por isso meu nome é Charlane.
O ceruliano o encarou com os olhos arregalados. Como era possível? Char era claramente um garoto. Um pouco mais delicado, mas ainda sim um garoto.
— Mas…
— Eu nunca tive dúvidas de que era um menino, mas meu corpo não combinava com o que eu pensava. Não preciso dizer que foi um choque para minha família. Especialmente para meu pai… Nunca falei disso, mas acho que você sabe, pelo meu nome, quem é ele. – Ao assentiu. Zeon Agassi era a figura política mais importante da ilha. – De qualquer forma, depois de muita briga, ele aceitou. Foram muitos tratamentos hormonais para ficar assim. Mas, parece que meu passado me persegue. Enquanto não for adulto e não puder trocar de nome, vou continuar passando por isso.
— Eu... – Ao não sabia muito bem como dizer que não importava para ele se o amigo era menino, menina ou até nenhum dos dois. Quer dizer, ele mesmo era um alienígena! – Mas saiba que isso não muda nada. Para mim, você é o meu amigo Char!
— Obrigado, Ao. Significa muito para mim. – Ele sorriu. – Mudando de assunto, tem uma coisa que eu queria te perguntar.
— Pode falar.
— E você e a Srta. Adler, hein? – Char se aproximou dele e deu uma cotovelada de brincadeira.
— O que tem? – Ao perguntou, inocentemente.
— Diga você! Quero saber o que tem entre vocês dois.
— Como assim o que tem… Entre… — O rosto de Ao corou levemente e ele aumentou o tom de voz. – Como poderia ter alguma coisa, Char? Olha para mim!
— Estou olhando. – O loiro bagunçou o cabelo de Ao com as mãos. – Você tem cabelos verdes, e daí? A cor dos olhos não é nada demais. Essas orelhas de elfo…
— Ei! – Protestou Ao, enquanto o amigo tentava tocar nas suas orelhas.
— É um charme.
— Que charme? Você só pode estar brincando!
— O que estou querendo dizer é que você não deve deixar as suas diferenças te limitarem. Todo mundo tem suas diferenças. É o que nos faz únicos…
— Aonde você quer chegar?
— Acho que você gosta dela…
— Claro que eu gosto, ela é minha amiga…
— Acho também que você não está dando chance a si mesmo para aceitar esses sentimentos, pois tem medo que ela o rejeite.
— Agora você foi longe demais, Char! Não tem nada a ver. Só porque a gente almoça junto, não significa que eu esteja g-gostando dela, nem nada. A gente é amigo! Eu nem sou humano!
— Hum, sei. – Char tinha uma expressão divertida no rosto. – Você deveria mesmo usar o presente que eu lhe dei. Talvez assim consiga me enganar.
Enquanto Ao protestava, Char gargalhava.
Uma batida na porta, fez os dois se entreolharem.
— 0053, abra a porta. Já.
— Estou indo…
Ao abriu a porta e viu um soldado com uma carranca. Ao não sabia seus nomes.
— Quem é esse rapaz? – Disse, apontando para Char.
— É meu amigo. – Ao o desafiou com um olhar. Quase nunca falavam com ele. Qual era a dele?
— Não impedimos a entrada dele, mas tenha em mente que, caso saia fora da linha, jogaremos você em uma cela comum.
— Eu já sei disso! Você acha que eu não sei que eu sou só um prisioneiro? Fui ignorado por tanto tempo e agora que finalmente consegui um amigo não posso trazê-lo? Então por que não nos barraram na entrada?
— Como eu disse, não vamos impedir que traga amigos, mas estaremos de olho. Não tente corromper nossas crianças, ceruliano.
Ao fechou os punhos, com uma vontade absurda de socar o homem.
— Criança? Você sabe quem eu sou? – Char, de repente, falou com o soldado.
— Não se intrometa nos assuntos militares.
— Só acho que deveria saber pelo menos meu sobrenome, antes de ser rude. – Estendeu seu documento de identificação.
Ao lê-lo, os olhos do soldado se abriram.
— Você é… Parente do Primeiro-ministro?
— Ele é o meu pai.
— Ele só tem filhas, garoto.
— Vai pagar para ver? – Char estava confiante.
O soldado suspirou, incerto.
— Só… Tome cuidado com ele. – Apontou para Ao e deixou-os sozinhos.
— Cara, que pé no saco esses soldados! Parece que só querem te atormentar.
Ao deu de ombros.
— Mas, sabe, eu senti que esse estava agindo um pouco diferente do normal.
— Normalmente eles são mais ou menos babacas?
— É aí que está. Eles me ignoram completamente, a não ser que seja necessário falar comigo. Eles não são exatamente amigáveis, mas tampouco costumam me tratar mal. Eu achava que era medo, mas… Pelo visto, agora eles estão preocupados. Foi por que eu finalmente me entrosei com alguém?
— Eles não sabem sobre…
— Só os de alta patente, mas esse último… Não acho que saiba sobre mim. – O Comandante deixou muito claro que a identidade do Praesis era um segredo absoluto.
— Bom, não quero causar problemas pra você, Ao. E já está tarde. – Ele bocejou. – Amanhã tem aula cedo.
— Certo. Então, a gente se vê amanhã.
— Será uma honra, ó grande Praesis.
Ao ainda estava rindo, quando o amigo saiu.
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