Ao - Parte I - A Ameaça Cerul

11 Deuses da Morte amam maçãs


— Isso significa… Que você tem um encontro! – Char exclamou.

— Shhhh, Char! – O desespero de Ao fez Char baixar o tom de voz.

— Vou te dar mais um conselho. – Disse, enquanto os dois alongavam antes do treino de combate físico. – Tenha mais atitude! As garotas gostam disso. – Deu-lhe uma piscadinha.

— É que quando estou com ela, parece que meu cérebro vira gelatina e eu viro um idiota!

— Já era, meu amigo. – Com a outra mão, fez um gesto que Ao não conhecia. Passou o polegar por cima do indicador, mantendo os três outros dedos erguidos. – Você está mesmo apaixonado.

— Char… O que é isso? – Ao apontou para a mão do amigo.

— Ah, você não sabe língua de sinais? F, em respeito a você, meu amigo apaixonado…

— Você…! Já disse, não é nada disso!

— Trocar! – O professor gritou e chegou o momento de inverter as posições.

Os dois obedeceram. Olhando para o chão, Ao resmungou:

— E… Mesmo que fosse verdade, você acha mesmo que uma garota como ela poderia gostar de alguém como eu? – Ergueu os olhos violeta para o amigo. – Eu sou esquisito…

— Então vocês dois combinam.

— Yuna não é… – Disse Ao, franzindo o cenho.

— Esses seus olhos estão cegos de amor. – Ele empurrou as pernas de Ao, que começaram a queimar de dor. – Ela, definitivamente, é uma garota excêntrica.

Lembrando da ocasião em que se conheceram, Ao não negou. Uma pessoa normal jamais prometeria fugir com um alien que acabara de conhecer para os confins do Universo.

— Ah, por que você tem que estar sempre certo?

Conforme as aulas iam passando, a ansiedade de Ao crescia. Depois de tantas aulas práticas, ele precisava de um banho. Normalmente deixava para fazer isso em casa, mas aquele era um dia especial. Tinha um encontro com Yuna!

Por isso, ele foi até o vestiário tomar um banho. Um grupo de garotos parou instantaneamente de conversar ao avistarem Ao entrando. Agindo como sempre, ignorou-os e escolheu uma cabine vazia para si. Ligou o chuveiro, sentindo a água escorrer pelo corpo.

Pensou em Yuna e logo ficou ansioso de novo. Será que ele poderia mesmo criar tanta expectativa? Ela poderia vê-lo como apenas um amigo. Akira era o sonho de qualquer garota, especialmente agora que tinha um posto na Quadris, e ainda sim ela o rejeitou. Se Yuna já gostasse de alguém, Ao também seria rejeitado?

Quando a pele já estava toda enrugada, Ao desligou o chuveiro e se aprontou. Esfregou a toalha nos cabelos molhados até ficar satisfeito, escovou os dentes e vestiu o uniforme extra que levava sempre que tinha treino.

Yuna o esperava na entrada do portão da Academia.

— Oi. – Ao disse, simplesmente.

— Vem, me segue. – Ela começou a andar, com Ao no seu encalço. – Você vai a-do-rar esse lugar!

Eles andaram juntos até uma sorveteria próxima da escola. Era a primeira vez que Ao ia a um lugar assim, pois normalmente ele ia direto para casa. Antes de começar a estudar na Academia, ele perambulava pela cidade, vestindo seu moletom com capuz, evitando os lugares de maior movimento. Sorveterias definitivamente eram um dos lugares que evitava, assim como restaurantes, shoppings e cinemas.

Por isso foi estranho para ele entrar normalmente em uma sorveteria. Vários alunos da Academia militar e de outras escolas estavam ali. Sentiu os olhares sobre si e Yuna. Em vez de se esconder, ele deu um passou, pegou na mão da amiga, com a cabeça erguida.

— Vamos!

— É a primeira vez que eu venho em uma sorveteria. – Disse ele, olhando para seu pote cheio. Os dois tinham se sentado em uma mesa para dois no canto do estabelecimento.

— Como viveu até agora sem isso? – Ela enfiou uma colherada cheia de sorvete de morango e soltou uma exclamação de prazer. – Muito bom!

— Tem razão. Não sei. – Ele disse isso, mas, em vez do sorvete, Ao pensava nela.

— Será que tem sorvete em Cerul? – Ela disse, de repente.

— Yuna!

— O que foi? Você nunca pensou como é o planeta de onde sua mãe veio?

— Eu… – Na verdade, ele pensara sim. Mais vezes do que poderia contar. Será que lá ele seria tratado como gente? Mas, dado o ódio que os terráqueos nutriam pelos celurianos, depois das tentativas de invadir a Terra, Ao tentava não pensar nisso.

— Eu acho que eles devem ser parecidos conosco.

— Bem…

— Seus pais são a prova de que pode haver uma maneira de nos entendermos.

— Considerando que ambos desapareceram, não acho que isso prove alguma coisa. – Ao fez uma careta. Doía pensar em como fora deixado sozinho para viver em uma cidade que o desprezava.

— Acho que deve ter uma razão.

— Para terem me abandonado?

— Sim. – Ela terminou seu sorvete. – Ah, estão tão cheia! Essa sorveteria é realmente boa!

— Mas já? Eu ainda não comi metade…

Ela riu.

— Não me subestime.

Olhar para o rosto contente de Yuna deixava Ao muito feliz.

— Sabe, Yuna. Você…

— Hum?

Ele criou coragem e seguiu o conselho de Char.

— Fiquei pensando se você gostaria… de sair comigo mais vezes.

Pela primeira vez, Yuna ficou sem palavras. Arregalou os olhos escuros e encarou Ao, surpresa.

— Ah, e-esquece. – Ele começou a rir, nervoso. O que tinha na cabeça para falar isso para ela? Mas, para sua surpresa, ela respondeu:

— Eu adoraria! – Yuna sorria de orelha a orelha, o rosto iluminado com uma felicidade que ele jamais tinha visto. – Antes de me levar para ver as estrelas do outro lado da galáxia, precisa sair comigo para lugares menos distantes. Não é?

Com o coração pulando no peito, Ao sorriu também.

— Tem razão.

Nesse instante, os ouvidos de Ao captaram um barulho ensurdecedor. O vidro das janelas quebrou, e os cacos voaram para dentro da loja. Gritos ecoaram no ar.

— Fogo!! Fogo!!

As pessoas começaram a gritar e a correr para fora da sorveteria. Foi muito rápido. Em um instante, ela estava bem ao seu lado, sentada na cadeira com um pote de sorvete nas mãos. No outro, o teto caiu sobre suas cabeças e tudo ficou escuro.

Ao tossia, enquanto tentava se erguer dos escombros. Fumaça machucava entrava por suas narinas, tornando difícil a respiração. Além dos gritos, ele podia ouvir outros sons. Sons de turbinas e bombas. O ar estava quente.

— Yuna, Yuna! – Ele não entendia o que estava acontecendo, mas a prioridade era confirmar a segurança da amiga.

Ele gritava o nome dela para todos os lados, pois seus olhos ainda tinham dificuldade de enxergar alguma coisa, diante de tanta fumaça e poeira. Mesmo com uma perna machucada, conseguiu se arrastar para cima, erguendo-se sobre pilhas de madeira e alvenaria, os destroços da sorveteria em que estavam.

— Yuna!

Ele não conseguia parar de gritar o nome dela. Nenhuma resposta. Devia estar presa nos escombros em algum lugar lá embaixo. Desespero o encheu, enquanto ele olhava ao redor e só via destruição. No céu, luzes indicavam a presença de naves. A construção ao lado estava completamente tomada pelo fogo. Pelo visto, a bomba caiu bem ali. O cheiro de fumaça o fez tossir mais.

Uma sirene ao longe soou. A cidade estava em alerta e os protocolos contra invasões seriam iniciados. Os treinamentos eram claros: diante de uma invasão, os moradores deveriam buscar os abrigos. Mas ele não iria a lugar algum sem Yuna.

Com dificuldade, retirou o que pode dos escombros ao seu redor, ainda chamando por ela, mas um par de braços o parou. Ao reconheceu o soldado da DPE que o confrontou no dia em que levou Char para a sua cela. Mesmo ele parecia desesperado.

— 0053, vamos!

— Não, a Yuna está aqui! Ela está…!

Ele apontou para baixo e o soldado fechou os olhos, desolado.

— Não temos tempo! O alto escalão solicitou que o levássemos. – O soldado o arrastou e Ao tentou se livrar dele, mas a perna machucada o atrapalhou e ele foi facilmente arrastado pelo homem mais velho.

— Mas a Yuna está lá! – Lágrimas marejaram de seus olhos violeta, escorrendo pelas bochechas.

— As ordens foram claras! Cala a boca, moleque, não resista se não quiser morrer! – O soldado gritou, enfurecido por ter salvo o prisioneiro meio ceruliano e deixado vários terráqueos à própria sorte.

Mesmo se debatendo, estava fraco por conta da perna machucada e por ter respirado fumaça. Ao não conseguiu se livrar do homem, que o arrastou até um local que ele próprio conhecia muito bem. No centro da cidade, agora em ruínas, havia um monumento intacto. Parecia ter resistido ao bombardeio alienígena. Ali era o epicentro do chamado de Lesa.

Ao sabia que, se tivesse alguma chance de Yuna estar viva lá embaixo, essas chances só existiriam se a cidade sobrevivesse ao ataque. Então ele seguiu seus instintos, e se deixou guiar pelo chamado. Fechou os olhos e se entregou à Lesa, como quem se deixar levar por uma canção.

TUM. TUM. TUM.

Ao tocar a escultura, ela girou e afundou, mostrando uma escadaria que dava para o subsolo. Eles entraram.

— Fui ordenado para guiá-lo até a sala de controle, mas ela provavelmente foi destruída. Uma das bombas caiu bem em cima do prédio de segurança. – Encarando Ao, completou. – E pensar que justo você seria nosso Precentor? Deus só pode estar de brincadeira conosco! – O soldado disse, em negação.

Eles se apressaram pelos degraus e continuaram a correr nas retas. O soldado conferiu o tablet que carregava e chegaram até uma porta de madeira.

Era uma sala completamente diferente da sala de testes na Academia. Os cinco cockpits estavam juntos no centro da sala, mas as semelhanças paravam por aí. Nas paredes havia um grande painel, com uma tela gigantesca. Do teto caíam tubulações impressionantes e uma porção de fios, que se conectavam aos assentos.

Ao correu até o cockpit do meio sem hesitar. As luzes se acenderam, uma cúpula metálica o envolveu e a máquina foi ativada. A ativação liberou o Sistema.

“L.E.S.A. online. Confirmando a identidade do Praesis. Bem vindo de volta, Ao. Todas as funções liberadas. Sinais vitais, normais. Praesis, está pronto?”

— Sim! – Ele não estava pensando direito. Sabia que poderia morrer se tentasse mover a cidade sozinho, mas nada mais importava. Ele salvaria Yuna.

“Autorizada a sincronização. Conectando conduíte neural.”

A perfuração na nuca mal o incomodou.

“Rede neural pronta para sincronização.”

Ao usou toda a sua força de vontade para não cair diante da onda de dados despejados em sua mente. Focou seus pensamentos em apenas uma coisa: proteger Yuna. Respirar.

Não iria se esquecer de respirar, pois a vida de Yuna dependia disso.

Ao não ouviu o restante dos comandos do Sistema. Quando percebeu, estava olhando o mundo pelos olhos de Lesa. Inspirou.

O mar estava revolto, e acima, uma grande nave Ceruliana pairava no céu. Era como uma grande baleia branca, navegando no ar. Grande, mas Lesa era maior. Expirou.

Ao era puro instinto. Lesa o ensinava e ele fazia. Todos os abrigos cheios, ele enviou para camadas inferiores do subsolo, a centenas de metros da superfície.

Os danos maiores ocorreram justamente na Academia. Os Cerulianos não tinham atacado a esmo. Inspirou.

A prioridade era proteger as áreas que ele não era capaz de mover. Estas eram feitas de madeira e tijolos, construídas por cima da estrutura metálica que formava a cidade-nave. Toda Lesa original, contudo, estava sob seu comando. Expirou.

Acionou barreiras por cima de todas as construções, protegendo-as contra bombardeios. Campos de força em formato de domo sobre todas as áreas habitadas.

— Lesa, as armas!

“Permissão concedida, Praesis. Localizando alvo. Selecionando armamento adequado. Tudo pronto!”

Ergueu das profundezas da cidade, sentindo as engrenagens se mexendo como se fossem seus próprios ossos. Uma torre equipada com armamento anti-aéreo. Via a mira em seu campo de visão. Disparou contra a nave de Cerul, antes que ela jogasse mais bombas. Por ser grande, a nave não era rápida o suficiente para desviar de seus ataques. A grande explosão podia ser ouvida a quilômetros de distância dali. Lesa era muito, muito forte. Inspirou.

Certificou-se de que todas as pessoas fora dos abrigos estivessem dentro das barreiras. A nave gigante estava com vários pontos de fumaça, mas Ao não deu trégua. Expirou.

— Algo mais poderoso, Lesa!

“Acoplando mísseis. Prontos para uso.”

Focou a grande nave ceruliana novamente. Não a deixaria fugir. Mirou mais uma vez e atirou, acertando em cheio. Expirou.

Aquilo era muito poder. Uma única nave não seria páreo para Lesa e seu Precentor. Se ele tivesse a Quadris, tudo poderia ter sido muito mais rápido. Ainda assim, destruiu a nave Ceruliana em 15 minutos, fazendo chover pedaços de fuselagem e fogo sobre a cidade. Inspirou.

“Atenção Praesis. Dezenas de incêndios detectados.”

Ao direcionou as tubulações de água mais próximas de cada foco e, em questão de minutos, controlou todos eles. Expirou.

“Ameaça controlada. Inimigos eliminados. Missão cumprida, Praesis.”

— Sistema, iniciar dessincronização!

Aos poucos, o garoto foi recobrando os sentidos do próprio corpo. Nunca tinha sido atropelado por um caminhão, mas sabia que deveria ser aquela a sensação. Os músculos tremiam, mas ele estava respirando e o coração batendo. Sangue escorria de seu nariz, mas os olhos e ouvidos estavam intactos.

Cambaleou para fora do cockpit, as pernas mal conseguindo se mexer. Respirou e continuou andando até trombar em alguém.

— Muito bem, Praesis. Pode descansar agora. – Não havia emoção em sua voz. Os olhos negros de Cassian Adler estavam inchados e sua expressão era de sofrimento profundo. Agarrou Ao antes que ele desmaiasse no chão.

Notas finais
Para entender o título deste capítulo: Yuna: Significa "maçã vermelha superior" ou "maçã vermelha gentil"