Ao - Parte I - A Ameaça Cerul

12 O terror que desce dos céus


“Correndo para a escuridão, você se machucou.

Você nem consegue encontrar um lar para onde voltar.

Mesmo que este mundo desaparecesse,

você certamente acreditaria que lutar é justiça.

Você foi criado para ser um guerreiro.

Se tiver coragem para brilhar, o amanhã chegará.”

—The time I'm seeing you



Ao estava em uma cama de hospital, quando enfim abriu os olhos.

— Yuna!!! – Foi a primeira coisa que ele disse.

— Yuna morreu. – Cassian Adler disse.

O choque foi tão grande que ele engasgou.

— Ela… O quê? Não, não pode ser verdade! – Ele gritou. – Ela estava lá, d-do meu lado, bem ali. Não, não… Você está brincando comigo! Por favor, Comandante, não brinque com isso! Não tem a mínima…

— E você acha que eu tenho cara de quem está brincando? – Cassian gritou ainda mais alto, a dor estampada no rosto. O silêncio nos escombros depois que tudo caiu. A dura realidade atingiu Ao como uma facada no peito.

As lágrimas vieram tão rápido e os soluços tão intensos que ele não conseguiu falar mais nada. Sentia a garganta apertada pela dor, os olhos arderem mais que quando sangraram na sala de controle e o coração irremediavelmente partido. Ao não falou mais. Só chorou até as lágrimas secarem e a voz sumir.

Doía pensar na promessa que jamais seria cumprida, ou nas palavras que ele nunca diria sobre o que sentia por ela. Ela nunca mais andaria por aí, com aquele ar imponente que somente Yuna Adler tinha. Os cabelos negros esvoaçando ao vento e o sorriso no rosto. Os bolinhos de arroz que compartilhavam nos almoços.

Talvez o único homem que sofria mais do que Ao fosse Cassian Adler. Perdera a esposa em um ataque Ceruliano e, agora, a filha.

— Ela não sobreviveu ao ataque. Você foi o único que saiu daquela construção com vida. – Cassian olhou para Ao, quando ele finalmente se recompôs, os olhos negros marejados. – Só não… Por favor, não me peça mais detalhes.

— Eu… – A voz rouca de Ao enfim saiu. – Por que eles nos atacaram?

— Devem ter nos subestimado, aqueles malditos. Pensaram que não tínhamos um Precentor, por isso enviaram somente uma nave. – Ele fechou os punhos com força. – Você protegeu a cidade, Ao.

— Não foi o suficiente! Yuna… Yuna… – Ele fizera tudo aquilo para salvá-la, e mesmo assim não foi o suficiente. Seu coração estava despedaçado.

— Você tem que continuar protegendo essa cidade, Ao. Daqui para frente, eles virão com mais poder de ataque. Esse foi só o começo.

Ao tremia, em desespero.

— Por quê?

— Porque eles são assim: invadem e conquistam os planetas. Agora você sabe porque os terráqueos odeiam os Cerulianos.

— Como você consegue estar tão calmo nessa situação? – Ao perguntou.

— Eu sou o Comandante da Base Militar de Lesa. Mesmo que meu mundo desmorone, eu tenho que estar de pé para comandar esse exército. Eu preciso que você faça o mesmo, garoto. – A dor retornou ao seu rosto por um breve momento. – Eu preciso fazer isso por Yuna.

— E Char? Ele está bem?

— Charlane Sune-Agassi? Não se preocupe, Dex está bem. A maioria dos estudantes da Academia estava nos dormitórios no momento do ataque e de lá tem um acesso fácil para o abrigo anti-invasão do prédio. Graças a você, que enviou os abrigos para o subsolo, eles foram protegidos.

Ao soltou a respiração, aliviado pelo amigo estar bem.

— Não deu para enviar a Quadris até você, foi tudo tão rápido. Para a segurança deles, mantivemos os quatro no abrigo da Academia. Eles não ficaram nada felizes, mas suas habilidades se provaram dignas de um Precentor de primeira linha e o ataque acabou rápido.

— Quantas pessoas… perdemos?

— Oficialmente, 150 mortos e uma centena de desaparecidos. É possível que esse número aumente.

— Isso… Não é uma vitória… – Ao disse, horrorizado.

— Não há vitórias na guerra, Ao. Só existe a perda.

— Todas essas pessoas… E Yuna… – Ao se encolheu, ao pensar nela.

— As construções principais da cidade foram protegidas pelo seu campo de força, então a reconstrução não vai demorar. Creio que em uma semana a cidade poderá retornar ao normal. Isso se não tivermos mais ataques.

— Há quanto tempo estou aqui?

— Um dia e meio.

— E não pense em tirar ele daqui antes da hora! – Entrou a Doutora Anna. Pelo rosto cansado, ela não dormia havia um tempo. – Você vai ficar aqui mais alguns dias, acostume-se.

Ele não tinha intenção alguma de sair do hospital. Seu corpo ainda doía, seu coração estava em frangalhos e parecia que desabaria novamente se fosse para a Academia e não encontrasse…

As lágrimas brotaram nos olhos, quando ele pensava terem acabado há muito tempo. Aquela dor era tão forte, que ele não sabia se algum dia se recuperaria. Ou se ele queria mesmo se recuperar. Não esqueceria os sentimentos que tinha por ela. Ele se lembraria de cada detalhe de Yuna. Ela foi sua primeira amiga e seu primeiro amor. Ninguém, nem mesmo a morte, poderia tirar isso de Ao.

***

Os Cerulianos não voltaram tão cedo. Isso deu tempo da cidade ser reconstruída completamente. Mesmo que, aparentemente, tudo estivesse bem, o medo e a angústia tomaram conta de Lesa. A qualquer momento, eles poderiam chegar e arrasar a cidade novamente. Era só uma questão de tempo até mais pessoas morrerem.

Ao passou duas semanas no hospital. Saiu antes disso apenas para o funeral de Yuna, com autorização médica. O caixão estava fechado e pouquíssimas pessoas foram permitidas. Yuna não tinha amigos além de Ao. Além do meio-ceruliano e do pai dela, Cassian, alguns familiares viajaram para Lesa para se despedir.

Ao foi com dois soldados, que o protegeram de qualquer agressão. Dado os acontecimentos e o segredo da identidade do Precentor de Lesa, era provável que alguém tentasse algo contra ele.

— O que esse monstro está fazendo aqui? – Uma mulher de cabelos escuros disse, ao avistar o meio-ceruliano.

— Acalme-se, Maeve. – Cassian Adler disse. – Ele não tem culpa, é um mestiço e Yuna gostava muito dele.

— Traga nossa menina de volta! – Ela caiu no chão, em prantos.

Cassian estava atrás de sua máscara de Comandante e assim o ficou, até o caixão da filha entrar na câmara de incineração. Ele precisou ser segurado por três homens, para impedirem-no de tirarem o corpo dela de lá.

— Yuna! Yuna! – Por fim, ele também desabou e chorou, com as mãos sobre os olhos. – Por que você me deixou aqui…? Deus, por quê? – Ele engasgou com as próprias lágrimas. – Por que tirou tudo de mim?

Além da tristeza e do luto pela amiga, Ao sentia culpa. Não apenas por não ter derrotado a nave mais rapidamente, mas pelo sangue ceruliano que corria em suas veias. Sentia-se sujo e indigno de prestar-lhe homenagem. Se não tivesse um corpo tão forte, teria morrido junto dela. Se fosse humano.

Os olhos inchados pelas lágrimas não tornaram os demais presentes mais amigáveis com ele. Os que não o atacaram diretamente com palavras, fizeram-no com um olhar de repulsa. Sem ataques alienígenas por tanto tempo, os terráqueos quase se esqueceram do terror que descia junto com as naves de Cerul. Cerulianos viviam para a guerra e para a conquista.

— Ao, vamos embora. – Cassian Adler estava novamente recomposto, com óculos escuros escondendo a sua dor. – Já acabou.

Ao olhou para o céu claro e prometeu que iria proteger esse planeta. E que, um dia, veria o outro lado do Universo e mostraria a Yuna o brilho de uma estrela diferente do Sol. Ele compartilharia essa felicidade com ela, de alguma forma. Fechando os olhos, ele rezou para que pudesse encontrá-la novamente. Em outra vida, além do tempo.

Foi assim que Ao disse adeus a Yuna Adler e abraçou seu destino como Praesis de Lesa, o Precentor mais forte que a Terra já viu e verá em toda a Era Cósmica.

All alone here in no man's land

Got a devil walkin' right beside me

Angel come and take me by the hand

Take me to a place far behind me

—Back to Paradise

Notas finais
Chegamos ao fim da primeira parte da história de Ao. Aqui vimos de onde a motivação para Ao lutar contra seu próprio povo realmente vem. Na próxima parte, teremos o desenvolvimento melhor dos personagens da Quadris e uma melhor construção do mundo da história. Espero que tenham gostado da Parte I e que fiquem para ler o restante!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!