Notas iniciais
Gente, esse é o primeiro capítulo da minha história!! Críticas e sugestões são muito bem-vindas!!! Espero que gostem!!!! ;D

Eu não sabia o que dizer, como reagir, nem mesmo o que pensar sobre o que via diante dos meus olhos. Minha tia, Diane, na melhor atuação de sua vida, derrubando mais lágrimas do que quando se olhou no espelho no dia seguinte a sua plástica no nariz, que ela fez, é claro, devido ao seu "desvio de septo", e de maneira nenhuma porque ele parecia um espetinho. Ao seu lado, seu marido, John, a pessoa mais cínica, hipócrita e manipuladora que eu conhecia. Bem, exceto pelatitiaDiane.

Ele era o prefeito de Los Angeles, e talvez o melhor ator da cidade. Sério, o povo amava o cara e acreditava em todas as suas ladainhas. Diane, a primeira-dama de LA, fazia, bem... o perfeito papel de primeira-dama. Ia a eventos, premiéres, almoçava com celebridades, doava altas quantias para instituições de caridade, mas não entregava o cheque até ter certeza de que alguém tinha tirado uma foto. Eu tinha que admitir, eles realmente convenciam em seu papel, mostrando elegância, segurança e simpatia sem limites. Queria só ver por quando tempo eles enganariam um cidadão que morasse na mesma casa que eles, que os visse não através de fotos e os ouvisse não apenas em entrevistas.

Enquanto eles demonstravam todo aquele falso afeto, finalmente consegui revirar os olhos. Eu mais senti do que vi John me olhando de cara feia, pois eu estava olhando para Matt, meu lindíssimo namorado, com seus cabelos loiros e profundos olhos azuis, que vinha praticamente correndo em minha direção.Cof, cof.Dei uma tossida bem molhada e estranha, e pude sentir gosto de sangue. Não dei muita importância, elas já vinham acontecendo há algumas semanas, junto a uma inexplicável fraqueza. Não que eu fosse conversar sobre isso com meus tios. Nem que eu conversassequalquer coisacom meus tios.Cof, cof.Mais uma vez.

É claro que toda a cena tinha muitas testemunhas, muitos olhares e ouvidos curiosos e, como sempre, alguém com uma máquina fotográfica. Eu até já conseguia imaginar a legenda: “Prefeito Hall, com esposa e sobrinha em despedida emocionada em LAX". Eca.

Todos os meus pensamentos irritados foram esquecidos quando Matt me abraçou e me deu um longo beijo.

– Becca! Ainda bem que não cheguei tarde demais! — ele disse enquanto me abraçava mais forte — Desculpa, amor, papai me prendeu no escritório e estava um trânsito...

– Tá tudo bem, Matty! — Eu o silenciei. Na verdade, não estava. Eu estivera rezando para ele chegar logo para me ajudar a aguentar toda aquela farsa. Mas, sobretudo, não queria partir sem me despedir dele. Eu o beijei mais uma vez.

– Parem de se agarrar! — Diane disse discretamente — Não é elegante!

Eu estava prestes a mandar ela enfiar toda aquela elegância naquele lugar, mas decidi ir por outro caminho. Eu me afastei um pouco de Matt para poder olhar nos olhos dela. Fiz minha cara de mais falsa simpatia, a mesma que eu sempre fazia pra me dirigir a ela e seu maridinho, e disse:

– Eu acho totalmente pertinente,titia. Eu vou partir para o outro lado do país em pouquíssimo tempo e estou usando esses minutinhos para aproveitar meu namorado ao máximo e de forma genuína — aumentei o sorriso ao dizer a última palavra. É claro que ela entendeu e detestou a espetada, mas apenas sorriu com uma expressão de repreensão carinhosa e respondeu:

– Está tudo bem, querida, eu sei que vocês jovens são impulsivos e inconsequentes! — E, antes que eu pudesse perguntar o que abraçar meu namorado tinha a ver com ser impulsiva e inconsequente, ela continuou: — Fico pensando se não é melhor te levar para casa e esquecer essa loucura! — Ela falou com seu tom mais emocionado.

– É isso mesmo! John continuou com seu sorriso "carinhoso" — Você é muito jovem, temo por você, estará tão longe de casa! -Ainda bemfoi a primeira coisa que pensei e quase falei, mas decidi que era melhor manter o comentário para mim mesma.

Nenhuma daquelas palavras e demonstrações de "cuidado" me preocuparam nem por um segundo, pois eu sabia que era só uma última cena para reforçar ao mundo como eles estavam preocupados com minha educação mas receosos com a distância. Todo aquele fingimento me deixava enjoada.Cof, cof.

Decidi seguir com a ceninha, pois eu realmente não estava afim de escutar um sermão.

– Ah, titia! — saí dos braços de Matt e fui abraça-la — Titio! — Olhei para ele — Eu também vou sentir saudade! Mas é uma ótima oportunidade para mim! -E para vocês!Pensei comigo — Nós já estamos aqui! Não podemos ir embora agora!

– Ai, querida, tudo bem! O que não fazemos por você? — Revirei os olhos novamente, mas dessa vez ninguém percebeu.

– Se é o que você realmente quer! — Falou John com um tom de resignação

– Obrigada pela compreensão! — Sorri. No início, eu discutia, argumentava, mas tudo que consegui foi desenvolver uma propensão a enxaquecas. Depois de um tempo, minha filosofia de vida se tornou "Para cada sorriso falso, dê um mais falso ainda".

– Atenção! passageiros do vôo 9091, com destino a Nova Iorque, dirijam-se ao portão 2.

– Bem, está na minha hora! — exclamei, sem conseguir esconder a animação.

Eu já havia voltado aos braços de Matt, que me abraçava tão apertado, que eu mal conseguia respirar, mas de uma forma boa.

– Você ainda pode ficar! — Matty sussurrou para mim. Eu sabia queelerealmente queria que eu ficasse.

Eu realmente gostava dele. Achava até que pudesse estar começando a amá-lo. Mas esse sentimento não era o suficiente para me fazer abrir mão dessa oportunidade.

– Eu sinto muito, Matty! — falei de coração, só para que ele ouvisse — Você sabe que se eu resolvesse ficar seria por você, não sabe? Mas eu não aguento eles. Eu provavelmente vou pro inferno por pensar e falar tão mal da única família que eu tenho, mas eu realmente não suporto mais!

– Eu sei, amorzinho, eu entendo! Tá tudo bem! — ele se afastou um pouco para olhar em meus olhos — Nós vamos continuar nos falando todos os dias! A distância não vai nos abalar! — Ele disse da forma mais animada que pode e voltou a me abraçar forte — Eu te amo.

Não consegui me segurar. Derrubei uma lágrima, depois outra, e então mais uma, algo incomum para mim, que a prendi a ser durona em qualquer situação. Respirei fundo, enxuguei meu rosto.Seja forte Rebecca!

– Até logo, Matty! — Para ele eu definitivamente não diria adeus. Já a outras pessoas... Eu o abracei mais uma vez e dei um último beijo. — Tchau, tia! — Fui e dei um abraço breve nela. Olhei para o prefeito: — Adeus, John. -Cof, cof.

– Adeus, Becca! — John deu um sorriso que parecia ser de alívio. Imaginei que minha expressão devia ser a mesma. Bem, pelo menos era o que eu sentia.

– Sentiremos sua falta, querida! — Ouvi minha tia dizer, e me peguei desejando que pelo menos dessa vez ela estivesse sendo honesta, porque, apesar de todo estresse, de todo o fingimento e de todo o jogo de interesses, ela era a única família que me restava, por mais distorcida que fosse.

Olhei para Matt mais uma vez e dei o melhor de meus sorrisos, esperando que fosse suficiente para preencher o vazio até o nosso reencontro. Eu sabia que não seria.

Virei-me, peguei minha bolsa, meus 16 anos e minhas poucas experiências, sem olhar para trás. Esperei que fosse o bastante para me ajudar a enfrentar o que me aguardava pela frente, e desejei demorar a voltar pra lá.