Ao Nascer da Meia-Noite

2 Entre meias verdades e mentiras


Notas iniciais
Aos que tiverem lendo isso, agradeço por persistirem e continuarem a ler!! Comentários e críticas são sempre bem-vindas!!

Procurei meu assento. Sentei. Estava sinceramente feliz por partir. Eu morava com Diane e John há muito tempo, desde a morte de meus pais em um acidente de carro quando eu tinha 10 anos. Mamãe era irmã de Diane, e a única familiar que ela tinha, então eles foram praticamente obrigados a me acolher. O acidente teve uma certa repercussão, e, como John estava no meio de sua campanha eleitoral, ele com certeza perderia muitos votos se mandasse a sobrinha direto para o orfanato.

Nossa relação nunca foi boa. É até difícil dizer que houve alguma relação. Minha vida até aquele momento tinha sido baseada em ir para a escola, voltar para casa, ir pro meu quarto, ficar lá até o jantar, voltar para o quarto e dormir. Eu saía com meus amigos algumas vezes, mas geralmente eles não permitiam que eu ficasse muito tempo fora. Tipo, eles não me queriam dentro, mas também não me queriam fora. Patéticos.

Comecei a me sentir um pouco mais querida quando iniciei meu relacionamento com Matt. Ainda não acredito que foi John quem nos apresentou. Bem, não foi nada combinado, mas um conhecido de John era o pai de Matty. Nos conhecemos em uma festa e descobrimos que estudávamos na mesma escola! Ridículo, né? Quais eram as chances? Matt era uma pessoa muito simples, apesar de ser podre de rico. Seu pai o fazia trabalhar na empresa, para ir se acostumando com o ritmo e ambiente, e assumir os negócios logo. Meu namorado, com seus 17 anos, era muito maduro para a idade. Nada parecido com os mauricinhos exibidos que habitavam a glamourosa Los Angeles. Eu, com certeza, sentiria muita falta dele.

Bem, quanto à mudança, foi muito repentina. Duas semanas antes, tinha recebido uma breve carta:

Nova Iorque, 07 de fevereiro de 2014.

Prezada Sta. Rebecca Smith,
Tenho a honra de anunciar que seu ingresso na Dark Shadows High School foi requisitado. Esperamos sua matrícula impreterivelmente até o dia 28 de fevereiro de 2014, juntamente com sua presença, podendo iniciar suas aulas imediatamente.
Nossa instituição está inserida no sistema público de ensino, portanto nenhuma espécie de pagamento ou taxa será cobrada. Os materiais, alojamentos e refeições são cortesia da escola.

Aguardamos ansiosamente sua chegada.

Atensiosamente,
Mikael Helsin,
Diretor Absoluto

Quando lia a carta pela primeira vez fiquei bem surpresa. Junto com ela havia um folheto bastante convidativo, que apresentava a escola. A DSHS era conhecida e conceituada no mundo todo. Nenhum dinheiro, porém, comprava o ingresso. A entrada só era permitida com o convite.

Apesar de tudo, muitos se recusavam ou demoravam a aceitar a transferência. Muitas vezes porque as cartas eram enviadas no meio ou até no final do ano letivo. Não havia nenhum padrão, e a matrícula devia ser feita de forma praticamente imediata.

Aos que se recusavam, a escola entrava em maior contato. Já tinha ouvido falar de pessoas que receberam de e-mails a telefonemas a visitas de coordenadores. De qualquer forma, nunca soube de ninguém que não se transferisse no final. Não que fossem muitas as pessoas convidadas.

Receber a carta era uma honra, e ir para a escola uma obrigação.

Sério, a escola era tão conceituada que ninguém questionava seu método e nem estranhava seu nome. Qual é? “Sombra Sombria”? Que tipo de nome de escola é esse? E a redundância? Sem falar no "Diretor Absoluto".

Quando a minha chegou, não esperava outra reação de Diane e John. Eles não podiam ter ficado mais animados. Primeiro porque iriam adorar espalhar para todo mundo que a sobrinha tinha sido convidada a fazer parte da Dark Shadows HS. E depois, bem, iam poder me despachar para longe sem parecerem vilões.

Não que eu não tenha ficado super feliz. Era tudo o que eu sempre quis. Com a instantânea permissão deles, fiz todos os preparativos o mais rápido que pude. Separei minhas roupas de frio, algumas de meia-estação, laptop, celular, carregadores, documentos, enfim, tudo que precisasse para que não tivesse que voltar nunca mais. É claro que eu não ia esquecer o cartão ilimitado que eles haviam me dado uns três anos antes. Acho que eles ficavam muito incomodados toda vez que eu precisava de alguma coisa e pedia. Acharam mais fácil me dar um cartão para que eu me virasse sozinha. Esse era um dos motivos pelo qual eu estava tão tranquila em relação a essa mudança. Eu praticamente cuidava de mim mesma desde os 12 anos. E eu definitivamente não era orgulhosa o bastante para negar o cartão só porque vinha de uma pessoa que eu detestava. Não que eu usar ou não fizesse alguma diferença para John. Sério! O cara era tão rico que nem ia notar.

Então eu estava totalmente preparada. Estava levando todo o necessário para que não tivesse que voltar nunca mais.

Porém, mais do que preparada materialmente, eu estava pronta emocionalmente. Um recomeço veio muito bem a calhar.

Segurei meu colar – o qual eu nunca tirava de meu pescoço, o que meus pais tinham me dado, com seu pingente oval e delicado, suas pequeninas pedras vermelhas incrustadas e uma foto nossa dentro dele, o que o tornava tão especial – enquanto pensava que tudo seria tão diferente se eles estivessem vivos...

Meu blá blá blá mental foi interrompido por um discussão.

– Senhor! Senhor, você não pode se sentar aonde quiser! – a aeromoça estava quase sussurrando – Senhor!

– Olha só, senhora – o garoto disse a última palavra num tom irônico e bem alto – O avião nem decolou e já tinha um garoto insuportável gritando e chutando meu assento. Então eu tenho sim direito de sentar onde eu quiser!

Então, surpreendentemente, um cara que parecia ter uns 17 anos sentou com tudo no banco ao meu lado – o banco que eu tinha agradecido aos deuses por estar vazio – Sério, parecia que ele tinha caído, tamanha foi a força com que ele se jogou.

– Senhor! Por favor, volte ao seu assento. Depois da decolagem eu procuro um assento vago para o senhor!

– Ah, desculpa! Eu sentei em cima de alguém? – ele falou com aquele mesmo tom irônico, e imaginei se aquele era seu tom usual.

– Os passageiros ainda estão embarcando, senhor! Por favor, retorne ao seu lugar! – O tom da aeromoça não era irritado, tom que eu com certeza estaria usando se estivesse no lugar dela, mas sim aflito, quase desesperado. Olhei melhor para ela. Era tão jovem, devia ter seus 21, 22 anos. Talvez fosse até seu primeiro dia de trabalho. Certamente um dos primeiros.

A expressão dela e o tom insolente daquele garoto me tiraram do sério. Antes de falar, não contive uma careta bem feia para ele, junto a uma fuzilada com os olhos, expressão que eu geralmente fazia pelas costas de John e que ele infelizmente não viu, pois estava olhando para a moça, pronto para mais um ataque com aquele tom insuportável. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, falei:

– Tá tudo bem, ... – fiz uma pausa para que ela completasse.

– Cleópatra – ela respondeu, dando-me um sorriso hesitante.

– Tá tudo bem, Cleópatra!

O Garoto me interrompeu com uma risada debochada – Cleópatra! – disse e riu outra vez.

Dessa vez ele me viu o fuzilando. Ele fechou o sorriso na hora, o que era bom para a saúde dele, se não eu ia tirá-lo com um tapa.

O olhar dele, porém, tornou-se tão profundo enquanto me olhava que eu senti como se ele pudesse ler meus pensamentos. Bem, tudo o que ele conseguiu foi me deixar mais irritada ainda.

Respirei fundo duas vezes, olhei para ela e repeti, mais uma vez: — Tá tudo bem, Cleópatra! Eu já consultei uma aeromoça, a Shirley, e ela disse que este assento está vago! – Dei o melhor de meus sorrisos para ela e assenti, para que ela entendesse que estava tudo bem. O que na verdade não estava. Não sabia como ia aguentar ficar 10 horas sentada do lado daquele cara.

Ela parecia hesitante, então assenti mais uma vez. Eu já andara de avião incontáveis vezes, já havia visto pessoas mudando de lugar sem problemas, então sabia que ela não levaria bronca mais tarde. Eu realmente tinha perguntado e o assento estava vago, então decidi exercer minha generosidade.

– Viu só? Está vago! Vazio! Ninguém vai sentar aqui! – Ele olhava para ela novamente – Pode ir! Xô!

– Está tudo bem! – Falei uma última vez – Desculpa pelo incômodo e obrigada pela atenção! – Cleópatra me deu um sorriso e pude ver em seus olhos como estava grata. Ela foi embora sem nem olhar o cara.

– “Desculpa pelo incômodo e obrigada pela atenção”? – Agora ele me olhava enquanto repetia o que eu havia dito, com uma vozinha perturbadoramente aguda, como que para me imitar. Cof, cof. A tossida familiar, nojenta e estranha. Mas dessa vez não vinha de mim. Vinha do idiota.

Não perdi muito tempo pensando na saúde dele.

– Olha só, você devia tá me agradecendo! – Falei com meu tom mais desagradável.

Ele arqueou as sobrancelhas.

– É isso mesmo! – Continuei – Agradecendo. Primeiro, porque você pode se achar mais forte, esperto e importante do que aquela moça, mas, sabe, tem outras pessoas nesse avião, e eu posso apostar que muitas não toleram o desrespeito. Faltava muito pouco para alguém chegar e te dar uma boa dose de semancol. Fala sério! Faltava muito pouco pra eu arrancar esse sorrisinho idiota da sua cara com um tapa. – Ele abriu a boca para responder, mas eu continuei antes que ele pudesse soltar a primeira sílaba. – E, segundo, eu poderia muito bem ter me recusado a me sentar do seu lado. Dá uma olhada em volta! Tá todo mundo te olhando de cara feia! Ninguém ia querer sentar do seu lado. Você ia voltar pra sua droga de cadeira, porque ela tá boa! Não tá quebrada nem nada! O único problema é o seu frico-frico de filhinho de papai mimado que nunca ouviu falar de respeito ou tolerância ou compaixão porque tava muito ocupado penteando o cabelo.

Ao contrário da resposta desagradável que eu esperava, sua reação foi abrir um sorriso. Não um sorriso simpático, mas um amargurado. O que mais me incomodou, porém, foi a forma como ele me olhava. Era um olhar sério e muito, muito profundo. Ele prendeu o meu olhar de tal forma que eu não tinha nenhuma resposta, nenhum ataque. Com Diane e John, eu sempre sabia o que dizer. Algumas vezes eu optava por ficar quieta, porque eu realmente detestava aqueles sermões, mas a resposta ficava gritando em minha mente, pedindo para ser dita.

Dessa vez foi diferente. Eu estava sem ação. Eu não tinha nada em minha mente além daqueles olhos tão verdes, infinitos e familiares. Espera, o quê? Familiares?

E... Adeus situação esquisita! Enquanto eu apertava os olhos com força tentando me resgatar ao momento presente por completo, percebi que ele parecia fazer o mesmo.

Quando ambos nos recompusemos, ele olhou para mim, mas dessa vez só havia ressentimento.

– Pra futuras referências, quando você não souber o que tá rolando, é melhor não abrir a boca. – Ele recostou totalmente no banco e fechou os olhos. Cof, cof.

Aquilo me fez pensar. Eu certamente havia falado umas coisas desagradáveis e eu realmente não conhecia o cara para falar tudo aquilo com tanta convicção.

Depois de um tempo de reflexão, decidi que não ia ficar me estressando por causa de um cara tão sem noção. Peguei meu exemplar de orgulho e preconceito e abri na página em que havia parado.

Não consegui ler por muito tempo. Logo o cansaço que havia aparecido há algumas semanas e insistia em permanecer tomou conta de mim. Mal ouvi o anúncio da decolagem enquanto tudo ficava embaçado e distante e distante e distante, até que se apagou por completo.

Notas finais
E então... as aventuras de Rebecca têm futuro??? Comentem!! Beijinhos!! :))
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.