Notas iniciais
Minha amiga secreta é uma das pessoas que eu mais admiro, principalmente como escritora. Ana, obrigada por ser estar disponível para debater ideias e também para conversamos coisas aleatórias. Espero de verdade que você goste.

Por que não podem ver o nosso amor?

Por que o medo, por que a dor?

Se as diferenças não nos separam

Ninguém vai nos separar

(Ed Motta — No Meu Coração Você Vai Sempre Estar)

Um sorriso singelo surgiu nos lábios de Sirius ao deter-se na entrada da sala, carregando consigo uma caneca de chocolate quente com pequenos marshmallows dentro. Era começo de dezembro e a temperatura diminuía a cada dia. Os olhos atentos de Sirius observavam com carinho Remus e Nymphadora sentados no tapete felpudo em frente a lareira, ambos compenetrados em uma conversa enquanto separavam de maneira manual os ofenteis que eles usariam na árvore de natal daquele ano.

Já fazia alguns anos que eles estavam juntos no Natal, porém na casa deles — com um relacionamento sério e assumido para todos — era o terceiro que comemoravam. Pensar nisso, fazia com que Sirius valorizasse ainda mais o cotidiano deles. Não que fosse simples e fácil, definitivamente não era, entretanto valia a pena. Crescer em um lar sem amor, ser privado de liberdade e contato humano por muitos anos, deixava cicatrizes profundas, por isso, ser amado por aquelas duas pessoas era prazeroso e o fazia agradecer ao universo diariamente pelo relacionamento que possuía.

— Para de ser folgado e ficar só aí bebendo esse chocolate quente e vem nos ajudar, Snuffle — ordenou Tonks, virando o corpo em direção a entrada da sala, assistindo Sirius sorrir com o apelido e caminhar na direção deles, entregando a caneca com o chocolate para Remus.

— Você está muito mandona ultimamente, Nymphadora — comentou Black com deboche, sentando-se entre ela e Remus, sendo como sempre espaçoso e folgado. Riu com o revirar dos olhos da garota, sabendo que ela nem se dava mais ao trabalho de corrigir sobre o modo que gostava de ser chamada.

— Vocês já compraram os presentes de Natal? — Perguntou Remus, cortando a brincadeira dos dois, sabendo que se não intervisse, logo os dois estariam discutindo feito crianças e ele teria que apaziguar.

Sirius riu, sabendo que Remus estava desviando a atenção de uma possível discussão boba.

— Eu já, está tudo guardado na casa dos meus pais — Respondeu Tonks, separando as bolinhas menores e vermelhas no local que estava os enfeites que seriam usados. — Aliás, minha mãe perguntou se vocês querem alguma coisa diferente para o almoço?

— Meu bem, você podia começar cozinhar bem igual à sua mãe, né? — Questionou Sirius, passando o braço pelos ombros de Tonks, observando com humor os fios rosas se tornarem vermelhos e mais uma vez revirar os olhos. — É brincadeira, Dora — declarou, rindo e puxando-a para mais perto de si, levando a mão livre para o rosto dela. — Você fica linda irritada, sabia? — Seus lábios tocaram os dele em um selinho demorado.

— Vocês dois, nem ouse se aprofundarem nesse beijo — Lupin advertiu em tom sério, voltando a bebericar o chocolate quente — Se não vai ser aquela correria louca e a bagunça infernal de todo fim de ano.

Nymphadora sorriu maliciosamente ao sentir a língua de Sirius deslizando sobre seus lábios, de um modo provocativo, fazendo-a querer gemer.

— Rem, meu amor, por que não deixamos essa decoração para mais tarde? — Tonks perguntou, com os olhos fixos nos olhos de Sirius, que lhe sorria de forma sacana.

— Vocês dois não tem jeito, né? — questionou Lupin, deixando a caneca no chão, afastado deles.

Não precisou de muito esforço para ele praticamente colocar seu corpo ao de Sirius, recebendo o olhar atento de Nymphadora — que aumentou o sorriso malicioso por saber para onde aquilo iria.

Sirius permitiu que um gemido sair ao sentir os dedos ágeis de Remus roçarem em sua nuca, afastando o cabelo longo.

— Como se você não gostasse disso, Moony — sussurrou rouco, gemendo mais uma vez, ao sentir a língua quente de Lupin lambendo sua nuca.

Sirius definitivamente era um homem feliz. Um homem livre, tendo sua inocência sido comprovada perante o mundo bruxo. Ele tinha sua esposa e seu esposo ao seu lado, o apoiando e o aceitando como ele era.

Δ

Remus gostava de dias frios como aquele. Apesar da neve cair lentamente do lado de fora, dentro estava quente. Eram raros os momentos em que ele se sentia completamente em paz como naquele momento, pois mesmo passando em medibruxos voltado para saúde mental e tratando lacunas dentro de si, ainda sim, ele se sentia um impostor. Ele se via como alguém amaldiçoado e que colocava todos ao seu redor em perigo.

“Uma mentira contada muitas vezes, torna-se uma verdade”.

A medibruxa que o acompanhava desde que o fim da guerra aconteceu, lhe disse isso. Ele não era um perigo, mas havia repetido tantas e tantas vezes que ele simplesmente não conseguia se ver de outro modo.

Porém, naquela manhã fria de inverno, com poucos dias faltando para o Natal, a casa de campo aconchegante que viviam toda enfeitada de luzes, enfeites espalhados por todos os cômodos e uma grande árvore na sala — que como sempre havia sido extremamente trabalhosa de se enfeitar, pois Nymphadora e Sirius não conseguiam se concentrar por muito tempo em uma única tarefa —, Remus sentia-se inteiramente em paz.

Permitiu que um sorriso surgisse, ao sentir os braços de Sirius o envolverem por trás, em um abraço aconchegante. Estava parado fazia alguns minutos na frente da janela do quarto dos três, observando a grama do quintal se tornando cada vez mais branca pela neve acumulada.

— Pensei que você ia com a Dora, buscar os papéis que ela precisava no ministério— comentou, sentindo o queixo de Sirius apoiando-se no seu ombro e o aroma tão marcante dele o envolvendo.

— Estou me sentindo cansado, então preferi ficar aqui com você — respondeu de forma simplória, dando um beijo casto no pescoço de Lupin — O que você está fazendo aqui, parado, olhando pro nada?

— Pensando, apenas isso — murmurou, sentindo os braços firmes o prenderem ainda mais, sabendo que naquele momento Sirius não tinha malicia alguma nos gestos.

— Um galeão por esses pensamentos, Rem.

— Um beijo já é suficiente — brincou, ouvindo a risada rouca que ele tanto amava de Sirius — Eu só estava pensando em como sou sortudo de ter você e a Dora, jamais imaginaria viver isso que vivemos.

— E eu e ela temos sorte de ter você conosco — respondeu imediatamente, pois sabia os caminhos da mente de Remus e que logo essa análise de sorte se tornaria punitiva e o faria questionar se era suficiente.

— Você imaginava que isso daria certo? Digo, estávamos numa guerra, Dora se apaixonou por mim, se aproximou de você e tudo ficou confuso com os ciúmes dos três um com o outro e de repente, nós estamos aqui, depois de quase cinco anos juntos, fazendo dar certo.

— Você faz parecer simples com esse “de repente”, afinal, não foi de repente, custou dor, lágrimas, sexo escondido, brigas. Mas o importante é que vimos que funcionamos melhor juntos do que separados.

Remus sorriu um pouco mais, permitindo o corpo relaxar contra o corpo de Sirius, concordando que definitivamente os três funcionavam bem juntos.

— Quem diria que nós dois, com quase quarenta anos, íamos conquistar a atenção de uma garota de praticamente vinte e cinco anos — Remus comentou, sem sentir-se culpado por aquele fato. Ele já começava aceitar que Nymphadora era capaz de amar dois velhos igual a eles.

— Não se esqueça que ela é minha prima de segundo grau além de tudo. — Acrescentou Black, com humor.

— Nada novo para a família Black, priminho — a voz de Nymphadora surgiu, fazendo os dois homens sorrirem.

— Quando você quer ouvir a conversa alheia, você consegue não esbarrar em nada, né? — Brincou Sirius, soltando Remus dos seus braços e ambos virando-se para a mulher.

— Chegou cedo, Dora — comentou Remus, indo em direção a ela — Normalmente você demora mais indo até o Ministério.

— Eu acabei sendo interceptada pela coruja de Harry na entrada do Ministério, falando que não precisava mais dos documentos, então só aparatei de volta.

Remus envolveu o rosto de Dora em suas mãos, sentindo as bochechas geladas que denunciavam que o frio do lado de fora estava mais intenso do que imaginava. Curvando-se um pouco, selou os lábios igualmente gelados dela, de forma carinhosa.

— Então, os dois senhores resmungões, querem minha ajuda para embalar os presentes que vocês compraram? Afinal eu bem sei que depois vai sobrar pra mim isso.

Remus riu, voltando a selar os lábios dela novamente, envolvendo-a em um abraço apertado. O aroma adocicado tão característico do cabelo dela envolvendo-o.

— Obrigada por ter insistido nisso, Dora — agradeceu, fechando os olhos ao sentir ela se envolver ainda mais naquele abraço.

Δ

Houve dias em que ela considerou simplesmente desistir e parar de tentar ter a atenção de Remus, assim como ela cogitou não se envolver mais com Sirius em certo momento. Tudo aquilo era confuso demais para ela, confuso para entender de forma racional, confuso para seus sentimentos.

Houve dias em que ela se sentiu insegura de estar no meio de um relacionamento antigo, pois era tão visível que eles se entendiam apenas pelo olhar e que tinham uma conexão que ela não conseguia ainda compreender.

Houve dias que ela achou que era mais simples estar com apenas um deles, mas sempre que se imaginava sem o outro, parecia que faltava algo, um vazio doloroso.

E houve dias que ela preferia não ter que enfrentar a sociedade bruxa com seu preconceito antiquado. O machismo sempre a perseguiu, principalmente em sua profissão, já que duvidavam que ela — logo uma lufana, atrapalhada e caótica — iria conseguir realmente ser uma auror, porém era tão frustrante ter que enfrentar preconceito por causa do tipo de relacionamento que ela tinha.

Nymphadora precisou sentar com os pais e explicar como aquilo funcionava e que ela exigia respeito dos dois, mas era tão óbvio que eles tentaram entender e receber bem Remus e Sirius, pois era assim que os Tonks funcionavam. Andromeda e Ted não entendiam várias coisas, mas eles se esforçavam para tentar compreender e acima de tudo respeitar as decisões da filha.

— Eu sei que combinamos de trocar os presentes quando chegarmos na casa dos meus pais, mas eu queria entregar um para vocês dois.

Sirius apenas acenou em concordância, se sentando na beirada da cama, observando com curiosidade o embrulho retangular que Nymphadora tinha em mãos. Remus saiu do banheiro da suíte, secando o cabelo com uma toalha, demonstrando também curiosidade pelo embrulho.

— Claro Dora, mas você sempre gosta de dar os presentes lá — comentou Lupin, sentando-se ao lado de Sirius e depositando a toalha sobre a cama.

Ambos observaram a mulher ir até eles com a pequena caixa retangular que estava embrulhada com um papel vermelho e um laço dourado. Ao estender a caixa para eles, foi Remus ao pegar, ainda estranhando tudo aquilo, ainda mais pela embalagem ser leve.

— Lá também vai ter os presentes de cada um, mas esse eu quero que vocês abram juntos — explicou, dando os ombros, mas atenta aos movimentos de Remus para rasgar o papel.

Quando terminou de rasgar o papel, Remus abriu a caixa, finalmente vendo o que tinha dentro. Por um instante, ele sentiu que havia esquecido de como respirava. Sirius, por sua vez, teve a sensação do mundo ter parado naquele momento, enquanto seus olhos continuavam grudados no presente dentro da caixa.

— Sério mesmo, Dora? — Perguntou Lupin, com a voz baixa.

O misto de sentimentos e sensações naquele curto espaço de tempo, cada um compenetrado nos próprios pensamentos. O mundo não existia mais para os três, do lado de fora daquele quarto. Havia um pequeno ser, crescendo dentro de Nymphadora e ao mesmo tempo que isso parecia a melhor coisa do mundo e um amor que nenhum dos três sabia possível sentir, surgia, também tinha um receio — cada um por um motivo.

Sirius pegou com um cuidado extremo o pequeno body branco como se de fato pegasse um bebê, com os olhos marejados por um sentimento tão intenso, que ele não sabia definir em palavras o que sentia.

“Sou o novo amor dos meus pais”.

— Jamais brincaria com isso, Rem — respondeu, Dora, se aproximando da cama, ficando na frente dos dois. — Vamos ter um bebê.

Se Lupin falasse que estava tranquilo, estaria mentindo, existia um medo tão grande dentro dele, porém, vendo o sorriso de Dora para o pequeno body que Padfoot ainda tinha em mãos, ele não conseguiria falar algo que estragaria aquele momento.

— Moony, vamos ser pais! — Exclamou Sirius, finalmente saindo do transe e olhando alegre para Remus, com um sorriso que iluminaria qualquer criatura na terra.

Dora sorriu com a empolgação que Sirius começava a demonstrar e permitiu que ele a puxasse entre suas pernas, para poder beijar-lhe de modo carinhoso a barriga ainda sem nenhuma evidência que carregava um bebê.

— É, vamos ser pais — sussurrou Remus, sem conseguir deixar o receio guardado, mas permitindo que a empolgação dos outros dois o preenchesse também. Levou a mão para a barriga de Nymphadora, acariciando com cuidado a região que ainda estava sendo alvo de beijos do outro homem.

Houve dias em que ela acreditou que seria a menos amada daquele triângulo e que provavelmente seria a sobra. Entretanto, aquele receio sumiu e parecia que ela sentiu em outra vida e naquele momento, com os dois homens que amava sem questionar a paternidade biológica da criança, ouvindo planos para o próximo natal e como anunciariam que Andromeda e Ted seriam avós, Dora sentia que era amada por completo.