Anyway, The Darkness Is Coming...

20 Saturday - Night without moon.


Três dos cinco já se foram. Dois deles derrotados pela mesma garota. Ela é forte... Não posso admitir que exista um filho da noite tão poderoso, amigo ou inimigo.

Mesmo assim, jamais vencerão os últimos generais. Por mais forte que seu corpo seja, dentro dela há uma alma que teme.

E enquanto houver uma alma que teme, será impossível matar aqueles que um dia foram amigos.

Realmente... Os humanos são muito tolos...


Nós não tivemos tempo de olhar em volta.

Assim que Kibishii se levantou, uma espada passou raspando do lado de sua cabeça. Ela teria sido morta se não tivesse desviado, mas o golpe cortara sua orelha.

A filha de noite se virou, dando um rosnado assustador.

-- Ora. O monstro é ágil. — Umeko sorria sadicamente, segurando uma espada ensanguentada.

Os outros...

Não temos tempo para nos preocupar com eles agora.

Mas...

Não.

Percebi que era inútil insistir. Kibishii tinha razão. Não conseguiríamos ajudar ninguém se não pudéssemos ajudar a nós mesmas.

Ela levantou a espada em posição de combate.

Umeko tombou a cabeça para o lado e girou a espada na mão. A espada se alongou, transformando-se numa lança.

-- Você não vai me vencer. Não quer me vencer, na verdade — ela ronronou.

Kibishii se retesou.

-- Eu sou sua amiga. Lembra? Não faria mal a ninguém. Aquela menina estava mentindo. Eu estou aqui para te ajudar. Pode confiar em mim.

A filha da noite abaixou a espada.

Umeko aproveitou a deixa, golpeando com a lança. Parecia ser impossível desviar.

Kibishii deu apenas um passo para o lado e prendeu a lança com o braço. A garota fez uma careta, e tentou puxar a arma de volta.

Kibishii largou sua espada no chão e segurou a ponta da lança com as duas mãos. Começou a forçar a haste, que ia entortando aos poucos.

-- O que pretende fazer? Morra logo, sua coisa feia! — Umeko puxava a lança, mas era inútil.

Um forte estalo ecoou quando a haste se partiu. Kibishii puxou a parte da lança que Umeko ainda segurava, trazendo-a para perto de si.

-- Humana — ela rosnou — reconheça seu lugar, e morra em agonia.

Dito isso, furou a barriga da garota com a própria mão. Umeko tossiu, cospindo sangue.

-- C-como? E-eu sou... Amiga...

-- Eu não conheço essa palavra. — Kibishii fez mais força, e Umeko parecia sentir dor demais até para gritar.

Eu queria mandar ela parar. Umeko podia ter nos traído, mas estava sofrendo. Sofrendo muito. E Kibishii parecia gostar disso.

-- O que eu faço agora? — ela rosnou — Continuo furando, até sair pelo outro lado, ou arranco alguma coisa aqui de dentro?

Pare! gritei. Não podia aguentar isso. Era horrível demais. Era como a morte que as sombras davam às suas vítimas.

Kibishii me ignorou, pressionando a mão ainda mais. Umeko se torcia, tentando se soltar, mas era inútil.

-- Mesmo que eu tire essa mão, você irá morrer por perda de sangue — ela sussurrou no ouvido da humana. — Não tente resistir.

-- Aaaagh — um som rouco saiu da garganta de Umeko. A garota tentou pegar a ponta da lança na outra mão de Kibishii, com seu braço débil.

-- Não, não. Eu preciso disso aqui.

Precisa? Precisa para o quê? Não tenho um bom pressentimento a respeito disso.

Você é um monstro. Isso é horrível.

Ela me ignorou novamente.

Kibishii foi levantando a ponta da lança, até encostá-la no pescoço de Umeko, que tentou dirigir os olhos para o local.

A filha da noite deu um risinho. Estava se divertindo mais do que nunca fazendo isso.

-- Agora... Eu vou furar aqui, bem devagar... Mas não vou acertar nada importante, não se preocupe. É so para doer mesmo.

PARE COM ISSO!

Mas Kibishii continuou, e fez o que dissera. Umeko dava pequenas contorções em agonia, enquanto a lâmina atravessava seu pescoço.

A garota olhou para os olhos de Kibishii, tentando enxergar algum sinal de bondade ou compaixão dentro deles. Logo notou que não existia.

A filha da noite perfurou mais a barriga dela, até que a ponta de suas unhas saíram pelo outro lado do corpo. Mas Umeko não demonstrou nenhuma reação. Já estava morta.

Kibishii atirou o cadáver para o lado e recuperou sua espada, sem demonstrar qualquer arrependimento pelo que acabara de fazer.

Finalmente, olhou em volta, procurando sinais dos outros.

A primeira coisa que encontamos foi uma metade de baixo de um corpo que fora cortado ao meio.

Meio metro à frente, podia-se ver o resto de Daiki.

Eu teria levado minhas mãos à boca, se tivesse algum dos dois.

-- Isso — Kibishii resmungou — É o que acontece quando Horor resolve dar uma passadinha.

Ela não parecia triste. Não parecia sentir qualquer tipo de remorso. Estava apenas... Irritada. Como um jogador fica quando perde uma de suas peças.

Será que os outros estão bem?

Kibishii não respondeu. Queria que os outros estivessem inteiros, mas obviamente não se importava de verdade com a vida de nenhum deles.

-- Alguém? Alguém? Me ajude! Ela está morrendo! — uma voz chamou, do outro lado da estátua. Reconheci a voz de Hiroko.

Kibishii andou até lá tranquilamente, sem pressa alguma. Hiroko estava segurando uma Heiko com um enorme corte diagonal atravessando o corpo.

Não.

Heiko, também, não.

Por favor.

-- Por favor! — Hiroko pediu, olhando para Kibishii — Você pode fazer algo, não pode? Salve-a!

Ela se ajoelhou e colocou a mão sobre o ferimento de Heiko.

-- Não é tão profundo... Eu posso dar um jeito. Mas vai doer.

-- Faça — Heiko sussurrou, a voz falhando.

-- Vai doer muito.

-- Faça logo.

Kibishii se concentrou. Chamas negras começaram a surgir no corte. Heiko gritou de dor.

Logo, o ferimento estava cicatrizado. Era possível ver uma grande marca vermelho-vivo pelo corte em sua camiseta, mas Heiko pareceu não se importar.

-- Obrigada. E quanto aos outros? — perguntou, mesmo que sem fôlego.

-- Quando me levantei, fui atacada pela garota loira. Aquele outro menino humano não se abaixou rápido o suficiente e foi morto pela aura de Horos. Creio que a outra traidora tenha levado a Instrumenti. Era a ela que eles queriam.

-- Daiki... Morreu..? — Heiko murmurou, meio atôninta — E Hotaru foi levada...

-- Umeko! O que houve com ela? — Hiroko perguntou, exasperado.

-- Eu a matei. Mas há algo bom nisso. Pelo visto, as duas faziam parte dos cinco generais. Você, Hakai, destruiu um deles. Eu destruí outros três. Só falta um, e deve ser a garota ruiva.

-- VOCÊ O QUÊ? — ele gritou, se levantando.

-- Eu a matei. Era uma inimiga. Qual o problema?

-- SUA..! VOCÊ... NÃO...

-- Hiroko, acalme-se. Ela... Kibishii tem razão. Umeko nos traiu.

-- MAS MESMO ASSIM, EU APOSTO QUE ELA A TORTUROU ATÉ O ÚLTIMO INSTANTE!

-- E qual o problema nisso? Afinal, é o que traidores merecem — Kibishii deu de ombros. Hiroko arregalou-se, em choque. Aparentemente, não acreditara de verdade no que dissera.

-- Os dois. Foco. Se Mieko... Se ela levou Hotaru, deve ter algum caminho por aqui. Alguma saída.

Heiko olhou em volta, mas o único túnel que existia era aquele por onde havíamos entrado. Não parecia certo.

-- Espere... — Hiroko inspirou ruidosamente, três vezes seguidas. Ele estava farejando. — Ali — apontou para a estátua.

-- Hein? Aquilo é uma estátua. Não um túnel.

-- Não... O servo de Tenebrae está certo. — Kibishii abriu um enorme sorriso sádico — Aos pés da estátua, parece existir uma passagem. E essa passagem... Deverá nos levar até o comando deles. Vai começar nossa última batalha.