Anyway, The Darkness Is Coming...

21 Saturday - The end. (1)


Notas iniciais
Não, amigos, este não é o último capítulo. Vou dizendo que o último em si vai ser bem menor do que este, e que estou postando o "penúltimo" porque talvez ainda demore um pouco para escrevê-lo, e levando em conta quanto tempo deixei esta história paralisada, não seria justo com meus poucos e talvez agora inexistentes leitores.
Espero que gostem.

Heiko tirou do fundo de sua alma a força necessária para erguer os olhos e encarar o destino que a esperava. Mais terrível do que todo este conto, toda minha história. Seu futuro se dissolvia, sem esperança de vitória.

A última pessoa a quem deveríamos matar. O chefe final. Sim, agora era a última batalha. Tudo ou nada. A morte ou a vida. O mundo ou as trevas.

Era impossível vencer.

– De todos... Haveria de ser você, Kameko. Você.

– A batalha derradeira! Aquela que traz o fim! Seus últimos momentos de vida! Seu bem mais precioso lhe sendo tirado pela pessoa que mais preza! Ah, sim!

– Eu posso cuidar dela.

- Está mais morta do que uma rocha, Filha da Noite. Mova-se, e me prove o contrário!

Nada. Nada nos respondia.

– Sim... Eu venci. Venci, e agora tiro a vida daqueles que me desafiaram! Caídos aos meus pés, seu sangue será derramado ao sacrifício! A grande escolha não pode mais ser feita! Não há como mudar! Sim! Este mundo sofrerá por minhas mãos! Essas pequenas mãos inocentes, que não fariam mal a ninguém... Não é verdade... Onee-san?

Aquilo era o nosso fim. Ela estava certa. Mas ainda não é a hora para contar isto... Talvez eu devesse voltar um pouco...

§

Kibishii corria, seguindo Hiroko e Heiko pelo corredor escuro e pútrido. Sabe o esgoto? Ele é um luxo se comparado com esta passagem. Francamente, aquilo não devia ver uma gota de água desde... Desde que a Terra é sólida.

Ela tentava dar a impressão de que estava de retaguarda, mas a verdade é que ela estava cansada. Quase no limite da exaustão física e mental, para ser mais exata. Pode me interromper se quiser, mas é verdade.

Ela continuou quieta. Parecia precisar de toda a concentração possível para se manter respirando normalmente, sem ofegar. O “pé de sombras” já havia perdido sua forma, agora mais parecendo uma estaca semi-sólida. Logo se desfaria.

Hakai comandava o grupo, farejando o ar. Hiroko trocara com ele logo que entraram pelo caminho, resmungando que para o nariz de monstro talvez não fizesse diferença, mas o cheiro do lugar lhe dava náuseas.

Com isso, nossa única humana era Heiko. A última humana, se não contar Mieko. É claro que não podíamos contá-la. Ela renunciara à sua humanidade ao se unir com as sombras. Era como fazer um pacto com um demônio, uma hora o tiro sairia pela culatra.

O silêncio era perturbador. Eu cheguei a pensar que poderia ouvir os mortos sussurrando se me concentrasse. Kibishii não gostava do subterrâneo. Não se podia ver as estrelas dali. Uma das poucas coisas que ela gostava. O céu noturno.

– A terra... A terra está morrendo aqui. Como algo que não tem vida pode ser morto? – Heiko perguntou em voz baixa, mais para si mesma do que para nós.

– Pode não ter vida... Mas tudo tem alma. Até essas roupas que você veste possuem alma. Não existe nada neste mundo sem alma. – Kibishii sussurrou, suas palavras parecendo mais para tentar se confortar do que para responder à pergunta de Heiko.

– Medo – rosnou Hakai – eu farejo medo. Controlem-se. Temer o desconhecido trará o que há de ruim nele.

– Pare de dizer coisas sem sentido. Está apenas dizendo que pensemos positivo. Isso sim é inútil. – Kibishii rosnou.

– Por que você estraga quando eu finalmente digo algo legal?

– Porque não é hora de dizer frases filosóficas, tolo. Siga em frente. Tempo é um recurso do qual não dispomos.

Mais silêncio. O túnel parecia ser infinito. Nenhuma luz, seja à frente ou atrás. Apenas as trevas nos guiam. A escuridão nunca fora amigável, e agora parecia um enorme predador, se preparando para dar o bote.

Perigo. Sim, eu sentia isso. E morte. Era como se a própria Morte andasse ao nosso lado, tirando a alma do lugar, se preparando para ceifar o próximo de nós a cair.

Quieto. Muito quieto. Tão quieto que, quando aquele grito pôde ser ouvido, quase estourou meus tímpanos inexistentes.

Um grito de dor, obviamente. Não só de dor física, de dor emocional também. O tipo de grito que nunca sairia da boca de Kibishii. Sem ofensa.

– Quer dizer que sem seu irmão você é completamente inútil?! – uma voz urrou, e outro grito de dor ecoou.

– Mieko. – Hakai identificou, dando uma última cheirada no ar.

– O último general.

– Não é o nosso último inimigo. Ainda não.

Heiko puxou a espada e respirou fundo. Nunca fora muito próxima a Mieko. Assim como eu. Hiroko teria mais problemas, afinal ela fora uma grande amiga, mas era de se esperar que um servo de Tenebrae pudesse controlar sua alma humana.

Kibishii tropeçou em algo no chão, e quase caiu, mas Hakai segurou-a no último momento. Achei estranho. Ele era muito gentil para sua aparência. Principalmente “comigo”. Mas não importava. O que importava era o objeto no qual Kibishii tropeçara.

Um braço.

Um braço esquerdo.

O braço esquerdo de Shiori.

Ele havia sido esquartejado. E seus pedaços estavam espalhados pelo caminho. Por isso Hotaru gritara não só de dor, como também de horror. O som viera de algum lugar à frente. Pelo que me parecia, devia ser o lugar onde estaria a... A... Não, não quero pensar nisso.

Mais um grito. Este terminou com um engasgo, como se as últimas forças tivessem sido consumidas nele. Logo após, o som de algo pesado sendo atirado de lado e um resmungo irritado.

– A morte cai mais uma vez – Kibishii rosnou – Os ceifadores não devem estar felizes com isso. Se bem que nunca estão felizes com nada.

– Ceifadores? – Heiko perguntou, desviando de uma raiz apodrecida.

– Aqueles que levam as almas para o mundo dos mortos, sabe como é. Em algumas culturas é um só, mas pensa bem, um só ser não consegue dar conta de tudo que morre, nem mesmo um deus. – Hakai tagarelou.

– Conversar sobre isso é estranhamente reconfortante para quem não tem mais muito tempo de vida – Heiko comentou.

– Morrer não é exatamente ruim, humana. O que é ruim é cair no descanso eterno sem ter cumprido seus objetivos e desejos.

E isso é algo que eu nunca vou fazer. Kibishii completou mentalmente, mas eu ouvi.

Como assim? Não pode cumprir seu objetivo?

Meu objetivo é acabar com isto. Posso cumpri-lo sim. Meus desejos... Esses são inalcançáveis.

O que você quer tanto, Kibishii? Quer matar todos os humanos pessoalmente, ou algo assim?

Ela não respondeu, e eu senti seu desejo. Não é como saber, com palavras, é mais... Eu não sei dizer. Era uma sensação quente, de ternura, algo que eu jamais imaginaria nela.

Kibishii... Você... Era apaixonada por alguém ou algo assim?

Nós não recebemos o direito de amar. Mas não se pode mudar o curso da natureza, então devemos apenas ignorar qualquer coisa que atrapalhe nosso próprio trajeto.

Não desvie da questão usando palavras complicadas! Você gostava de alguém, não é? O que aconteceu? Por que você trata seu sentimento como se fosse um mártir? Amar não é... Não deveria ser ruim. Deveria te dar forças.

Você fala como se não tivesse rejeitado tudo isso também.

Não pude responder. É verdade. Eu sempre abominei... Mas agora era diferente. Eu sentia como se tudo o que eu amasse seria tirado de mim, porque eu não teria forças parar proteger.

Kibishii, você é forte. Você pode proteger. Você pode amar.

Forte? Eu? Somente no nível necessário. Yuuko. Neste mundo existem criaturas poderosas e invejosas, que eu nunca conseguiria nem ao menos pensar em enfrentar.

Não estou dizendo para enfrentar deuses ou algo assim...

E eu não estou falando de deuses.

Senti um arrepio percorrendo a espinha. Depois percebi que não fui eu que me arrepiei. Kibishii se arrepiou de repulsa.

Heiko estava paralisada no lugar, os olhos arregalados quase saltando do rosto, as mãos fechadas produzindo vergões vermelhos na pele.

Hakai respirava ruidosamente, tentando se acalmar. Aquela visão era perturbadora. Mais do que isso.

No chão, estava estendida Hotaru... Ou o que sobrou dela. Seu corpo estava estilhaçado, como se fosse um vidro que fora jogado ao chão. Sua pele não era mais o branco pálido de um Instrumenti, nem a cor quente de um humano. Era cinza, um cinza doentio, como se a vida tivesse sido drenada de seu corpo.

Seus cabelos estavam bagunçados e sujos de uma substância que parecia ser sangue, mas era marrom, do tom da ferrugem. Em seu rosto, um último espasmo de dor e tristeza.

Mas o mais aterrorizante era ver como ela morrera segurando a cabeça decepada do irmão. Esta estava presa entre seus braços, grudada ao peito, como se Hotaru tivesse tentado consolar o garoto morto.

Indefesa, quebrada, morrendo. E mesmo assim, queria continuar com ele. Os dois deveriam permanecer juntos mesmo após a morte.

Eu queria arrancar meu coração fora. Sabia que aquela dor não era real, pois eu não tinha um corpo, mas mesmo assim ela me consumia, uma tristeza tão grande que eu queria gritar até meus pulmões estourarem.

Heiko fez exatamente o que eu sentia.

Caiu de joelhos, gritando, sua voz nos ensurdecendo no pequeno espaço do corredor. As mãos seguraram a cabeça, os olhos fora de foco. Ela gritava como se preferisse morrer a continuar ali.

Ela devia estar se lembrando da irmã. O que acontecera com ela? A esta altura, provavelmente estaria morta.

E Heiko não teria a oportunidade de protegê-la até seu último instante.

– Isso é horrível – disse Kibishii – Matar um Instrumenti assim, como se fosse qualquer outro ser. Só nascem dois a cada vinte anos.

– Você não está nem um pouco tocada por isso? – perguntou Hakai, desviando os olhos.

– Já vi cenas mais dignas de pena. Creio até que devo ter executado algumas. Só nunca deixei um corpo neste estado. Isto aqui não é coisa nem de magia negra.

– VOCÊ JÁ MATOU ALGUÉM ASSIM? INDEFESO? TENTANDO PROTEGER ALGUÉM QUE AMA E JÁ SE FOI? – Heiko berrou desesperada.

– Recebíamos ordens de executar os infratores. Simplesmente isso. O treino de classe era sair e destruir as vilas neutras nos limites territoriais. Alguns de nós podem ter matado os próprios pais sem saber. Compaixão, afeto, nada disso nos foi ensinado.

– Mesmo assim, você sabe demonstrar isso. – Hakai comentou.

– O que está dizendo? Isso seria meu fim – Kibishii sibilou irritada.

– Você sabe demonstrar afeto. Todo mundo sabe. Só não descobriu como ainda.

– Espero jamais descobrir. Uma vez que algo toca seu coração, se torna sua fraqueza irreparável. Eu não posso ter fraquezas.

– Há-há! Fala como se não tivesse nenhuma! – uma voz gritou, mais a frente do que nós.

– MIIIIIEEEEEEEEEKOOOOOOOO! – Heiko se levantou, segurando a espada com força, no rosto uma expressão pior do que a de Kibishii.

Mieko andava lentamente, arrastando uma lança de aparência pesada em uma das mãos, com uma katana presa no cinto, um sorriso de escárnio no rosto. Em ótimo estado.

– Olha, a pequena nervosinha.

– SUA DESGRAÇADA!

– Desgraçados são vocês que me largaram pra morrer quando pensaram que eu não podia mais lutar! – ela cuspiu – Mesmo que na verdade eu estava bem, não muda o fato de terem me deixado às portas da morte!

– Tem razão – Kibishii ronronou – A culpa é nossa. Não deveríamos ter largado você lá... Não, deveríamos tê-la matado logo de uma vez.

– Não vão me derrotar. Podem ter matado até mesmo Umeko, mas eu sou a mais forte dos generais. Eu sou a mais poderosa. – ela ergueu a lança, e o chão começou a tremer. Quero dizer, tudo começou a tremer, afinal, estávamos no subterrâneo.

Hakai rosnou. Não foi como um dos rosnados de Kibishii. Era ainda mais selvagem, ainda mais animal, como um lobo feroz defendendo seu território.

– Eu cuido dela. Vocês continuam.

– Não! Eu quero acabar com ela eu mesma! – Heiko protestou, mas Kibishii pegou-a pelo ombro e passou por Mieko, que tentou bloquear o caminho.

Hakai pulou nela, tentando rasgar seu rosto com suas garras. A garota virou a lança para se defender. Aproveitando a oportunidade, Kibishii correu o melhor que podia para longe dali.

– Ele vai ficar bem – disse – Um servo de Tenebrae tem uma força monstruosa, não precisa de armas.

– Mas ela... Ela...

– Nem mesmo a katana amaldiçoada que ela preparou para ele vai ser capaz de matá-lo. Ele não vai morrer. – fez uma pausa – Mas não sei se vai conseguir matá-la. Vamos.

– Vou matá-la! – Hakai gritou, fazendo sua voz chegar até as duas que disparavam na frente – Vou matá-la porque eu tenho a vantagem aqui.

– Não invente bobagens – Mieko respondeu, mas sua voz estava... tremendo? Sim, sua voz mostrava um pavor enorme. Medo da morte? Ela?

– Ele me disse... Sua maior fraqueza, humana, não é uma pessoa, nem um sentimento. É algo tão simples que nem me dá gosto de te destruir.

– Do que está falando?! Eu não vou... Eu não posso...

– Claustrofóbica. – Heiko disse, arregalando os olhos – Mieko é claustrofóbica. Ela está quase ficando louca aqui dentro. Deve ser por isso que matou Hotaru. Tenho certeza que sua chefe não tinha ordenado isso.

– CALEM A BOCA! – a garota respirou fundo, fechando os olhos. Não pareceu adiantar muito. – Meus olhos estão pregando peças... – murmurou – só há um jeito agora.

Percebi o que ela ia fazer antes mesmo de erguer a mão. Até Kibishii parou e se virou. Mieko ergueu a mão e, com um golpe rápido, rasgou os próprios olhos. Sem demonstrar a mínima dor, se posicionou novamente para lutar, sangue cobrindo seu rosto.

Hakai pulou nela, mas a general desviou como se enxergasse melhor do que antes. Deu um salto além das capacidades de um humano normal, fazendo um talho no ombro do servo de Tenebrae com a espada antes de aterrissar do outro lado.

Ele revidou, chutando uma das pernas dela e derrubando-a no chão. Não foi o bastante, mesmo caída Mieko manejava a espada como um monstro. Hakai não teve escolha se não se afastar para tentar um novo ataque.

Dessa vez acertou o braço esquerdo da garota, que dobrou num ângulo estranho. Ela se abaixou, tentando acertas as pernas de Hakai. Kibishii deu uma leve tosse, chamando a atenção de Heiko.

– Não dispomos de tempo o suficiente para ficar assistindo esta luta – comentou.

Heiko confirmou com a cabeça e voltou a correr, Kibishii em seu encalço. Era possível perceber uma elevação no corredor: estávamos subindo. Onde quer que cheguemos, seria acima da terra.

Dentro de mim, algo parecia estar sumindo lentamente. A esperança de vencer. Não, nós vamos vencer. Se não tivermos chance, eu ainda posso mudar de ideia e salvar meus amigos que ainda restam.

Desistir do mundo por meus amigos. Agora, não sei o porquê, me parecia uma troca justa.

Não é. – Kibishii sussurrou na minha mente. – Eu não deveria interferir, entretanto não pense que é justo trocar o mundo por seus amigos. Existem milhares de pessoas, cada uma com seus amigos, e nenhuma é mais importante do que as outras. Não é assim que vocês tolos pensam?

E você, Kibishii? Como você pensa? Você acabaria com tudo por alguém precioso?

Eu... Não sei o que é alguém precioso. A única coisa que tenho é de terminar minha missão, como já disse antes. Isso basta.

– Olhe! – Heiko apontou para uma luz que aparecia. Uma luz no fim do túnel, literalmente.

Repreendi-me por lembrar isso. Geralmente essa expressão significava... A morte.

Saímos num ambiente quase nada iluminado. Novamente. Não havia como não reconhecer o lugar. A base das sombras. Só que dessa vez, as sombras haviam se recolhido para as paredes. Podíamos ver uma enorme quantidade de celas de metal, no chão, nas paredes e até penduradas no teto.

Dentro dessas celas havia humanos. Ou o que um dia deveriam ter sido humanos. Ainda estavam vivos, mas pareciam ter tido toda sua energia sugada. Mental, física e espiritual.

– Não imaginei que fossem deixar alguém para trás. Bom, de qualquer jeito, não há diferença. – uma voz estranhamente infantil cantarolava de um ponto em que não podíamos ver.

Kibishii respirou fundo. Não, ela estava farejando. Deu um passo para o lado e olhou para cima. Lá, sentada em uma pilha de corpos como se fossem brinquedinhos, uma criança de cabelos castanhos curtos e olhos da mesma cor, semicerrados.

Aquela era... A irmã mais nova de Heiko. Kamkeko.

Sem se importar com o fato de que o inimigo era uma menininha provavelmente possuída, Kibishii se posicionou para atacar, sorrindo sadicamente.

Algo que nem ela pode enxergar acertou-a, nos atirando do outro lado da base. Batemos na parede com tanta força que esta deve ter rachado, e caímos no chão, incapazes de mexer um músculo.

De repente... Nós éramos... Uma única pessoa. Não mais duas em um mesmo corpo. Sua mente se fundia à minha dolorosamente. Lembranças de um passado desconhecido me vinham.

E nos separamos, mais dolorosamente do que antes. Kibishii ainda possuía o controle, então o grito de dor que abrangeu o lugar foi dela.

Heiko olhou para a filha da noite, horrorizada, e depois voltou-se para sua última inimiga.

Agora está na hora de voltarmos ao começo.

Notas finais
Sim, o final é o começo do próximo. Prometo postar o último capítulo antes de Maio, se possível. (Pessoa animadora, não é?) Espero que deixem reviews. Até mais!