Anything But Ordinary

19 Voar é o suficiente?


Notas iniciais
Ei, gente! Me acompanhem no Spirit pq lá sempre sai a versão mais atualizada do capítulo!!! Beijos, se tiver alguém acompanhando por aqui, vou amar saber!!! Obrigada!!!

PISO NA CALÇADA DA UNIVERSIDADE DO CENTRO. O cabelo preto do Namjoon toma forma na luz branca da manhã. O vento quase corta minha pele, mas eu sorrio.

— Lila! — ele me cumprimenta com um soquinho na mão.

— Eita como gosta de me irritar. Já não basta meu banco que quase me fez pagar um mico agorinha mesmo! Cê acredita que o motoboy achou que eu era caloteira?

Namjoon ri, desamassando sua polo branca e “EQUALIZE” surge sob o bolso.

Arregaço as mangas da minha jaqueta e caminho do lado dele pelos corredores.

Namjoon aciona o elevador.

— Que bicho te mordeu que você tá toda séria hoje?

Prendo a risada. — Estás muito atarefado neste dia que se vai e que se vem assim aos bocados dentro do meu ser?

Namjoon pisca forte. — Bem que a Alice falou que cê tava estranha. Isso é por causa da sua mudança de nicho?

— É. Fui picada pelo bicho da cafonice, agora tô sendo obrigada a usar alfaiataria e a ler Machado de Assis. Ninguém merece!

— Não era mais fácil você ter migrado pra outra área dentro da Moda?

Engulo a saliva, pressionando um dedo na calça. — Bora mudar de assunto, né? Pra quê cê me chamou aqui?

O elevador para no Andar 3. Tem uma placa em uma das portas escrito “SETOR MULTIMEIOS”.

— Naquele corredor tem estúdio com câmera profissional, luz boa e editor.

— Pra quê?

— Só tô te mostrando mesmo.

— Namjoon…

Eu sigo pela escada.

— Aqui é a Biblioteca.

— Nam. Joon!

Outra escada.

— Aqui fica a Oficina Têxtil.

Tem um mural com troféus, medalhas e fotos em preto e branco de alunos costurando roupas feitas de plástico, jeans desfiado e tweed.

Na próxima sala (que eu nem tenho tempo de ler o nome porque o Namjoon só falta me fazer correr pela UDC), o vapor de ferro industrial se espalha pelo ar. Tem cheiro de algodão novo, e os tecidos raspam nas bancadas com um zumbido agudo.

Os cartazes sobre a imigração coreana, o congo capixaba, comunidades indígenas e o Met Gala estão enfileirados nas paredes.

— Padrão de Beleza na Moda? Zuzu Angel? Marcela Carrasco?

Namjoon ri. — É.

Alunos gritam, remendando mangas. Espetam alfinetes nos manequins. Penduram réguas de modelagens e esticam retalhos nas bancadas empoeiradas. Cortam moldes com tesouras douradas de altíssima qualidade.

Minha boca ainda está aberta com a explosão de cores quando o Namjoon sorri.

— Sabia que metade de Costaré vive de tecido? Não é só de plantar maracujá.

— E-essa faculdade é muito velha?

— Não. Tem só 70 anos.

— É do tamanho de um teatro.

— Ah, não. O teatro é só um pedaço.

— Q-quê? Tem teatro aqui dentro?

— Tem até academia, cafeteria, restaurante…

— Não tem hospedagem não? Vou morar aqui!

— Bem que eu queria.

— Tá… Agora pode parar de mudar de assunto!

Namjoon coça o queixo. — É… uma… proposta.

— Hum.

— Topa ser minha parceira?

Antes que eu grite que não, Namjoon empurra uma porta de vidro onde tem uma placa de “MOULAGE” colada.

— Parceira?

A sala é cheia de puffs coloridos, máquinas e pessoas vestidas com jaquetas de couro. Cheiro de tinta fresca. Passos ecoando o tempo todo.

Me debruço na janela gigantesca do meio, onde a luz da manhã brilha nos prédios. Dá pra ver o Marco da Fundação e a Praça Passione daqui.

— Tô esperando uma resposta, Lali — Namjoon sussurra. — Cê vai querer ser a minha parceira ou não?

— Claro que não! Sua… sua parceira? — Me jogo no puff roxo. — Tá doido? Você é bem gato, mas eu não te vejo dessa forma, desculpa! Fora que você tem aquele rolo doido com a Rosé, né? Deus me livre ficar no meio de vocês, e você sabe que eu e o—

Namjoon toca meus ombros.

Congelo.

— Parceira de parceria, Lali.

— Parceria? Do quê?

— De… parceria! Você acha mesmo que eu ia te fazer atravessar a ponte pra vir na UDC à toa?

Namjoon tira uma caixinha da gaveta e me mostra uma gravata laranja com glitter.

— UAU! É pra um projeto?

Ele liga o tablet. — Dá uma olhada.

CRIATIVO FINAL: COLEÇÃO

NAMJOON KIM | 2025.8

RAÍZES HÍBRIDAS

“Essa coleção surgiu da minha insatisfação em nunca saber com qual lado da minha família eu me identificava mais, até que eu decidi aceitar todas as minhas raízes. Também quero falar sobre os estigmas e preconceitos de ser um homem periférico que cresceu apaixonado por Moda numa sociedade que julga antes de abraçar quem nasceu pra fazer arte.”

Uma lágrima escapa de mim.

Fungo. — Não me faz borrar o rímel da Rosé, Namjoon. Foi caro.

— Juro que não foi a intenção.

Deslizo a tela por uma série croquis até chegar no final.

— Esse aqui ficou a cara da Rosé.

— A Alice todinha.

— Isso é o Jimin?

— É o… o… o…

Namjoon sussurra “é”.

— S-sou… eu?

Namjoon balança a cabeça. — Eu falei que vocês me inspiravam.

— Não faz sentido… mas ao mesmo tempo… faz… faz muito…

— É que nem a gente junto. — Namjoon ri.

— E como eu vou te ajudar?

— Me ajudando a confeccionar os figurinos.

— C-como assim?

— É…

— Eu queria falar sobre a minha paixão pela cultura hip hop, mas… aí a minha mãe ficou brava e disse pra eu falar sobre as minhas raízes coreanas. Tive que juntar.

— M-mas como eu vou fazer pra te ajudar nisso?

— Costurando.

Cruzo os braços, me escorando no puff. — Só isso? E… mais o quê?

— Preciso que você desfile com algumas peças no dia da apresentação e também quero sua ajuda pra convencer o restante do pessoal a desfilar também.

— Mas… seus professores vão deixar a gente desfilar e eu te ajudar?

— Vão. Você só não pode desenhar nada, mas costurar não tem problema nenhum.

— E… e como você conseguiu pensar nisso tudo?

— Não sei… Eu tive que cortar muitas ideias que fugiam do conceito inicial. Ainda preciso mexer na cartela. Tá uma bagunça!

— V-você vai me pagar? Nem precisa responder porque eu já sei q—

— Vou. Trabalho é trabalho.

— Cê tá falando sério?

— Claro. Quem não recebe nada sou eu.

Minha cara arde. — E-e…

— Eu juro que vai ser massa.

— Ah, é? Você já começou alguma coisa?

— Sim. Pela música.

— Música?

— É. Tenho que fazer a playlist conceitual.

— Vai ter Avril e Airbag, né? Por favor!

— Claro. Você queria que eu colocasse sertanejo?

— Sai fora, garoto!

— A Rosé me contou que você tava bem ouvindo esses dias as antigas do Jorge & Mateus.

— Eu vou matar aquela fofoqueira de uma figa!

— Não machuca ela. Eu preciso dela pra me dar energia pra eu produzir.

Faço uma careta. — O veneno dela furou seu cérebro.

Ele ri, olhando por cima do meu ombro. — Aliás, tem alguém que quer te conhecer. Peraí.

Brinco com alguns tecidos na bancada, assobiando.

Um garoto alto esbarra em mim. Seu perfume é forte, meio terroso, com um quê meio aquático.

Parece aquele Kaiak…

— Desculpa! — digo.

Levanto a cabeça.

Vários piercings.

Muito gel no cabelo.

Calça larga cheia de correntes.

E a alpargata horrorosa.

Não creio! Só podia ser!

— Jungkook?

— Lali?

— Você estuda aqui na UDC? — perguntamos juntos.

— Eu que te pergunto! — Ele ri. — Não sabia que você estudava aqui também!

— Mas eu não estudo mesmo não! Só vim porque o Namjoon me chamou pra ajudar na coleção do TCC dele! E você?

— Eu faço Design Gráfico, mas peguei eletiva de Desenho e Modelagem porque quero aprender mais sobre embalagem, identidade visual… editorial de moda… essas coisas. Se essa coleção sair de verdade um dia… cês já têm alguém pro catálogo.

— Tendi.

— Pelo visto, o Solaris é uma fábrica de estilistas!

Nego com os indicadores. — Para de falar besteira, garoto! Eu nem sou estilista!

— Ainda. Você é boa com Ilustração? Daqui a 4 anos eu te chamo pra pro meu TCC.

— Tira o olho da minha parceria, pirralho! — Namjoon se aproxima da gente, dando um tapinha nas costas dele.

Jungkook chama Namjoon daquela palavra em coreano que eu nunca entendo, sorrindo largamente.

— Lali, essa é a minha professora Débora que eu falei que queria te conhecer!

— Muito prazer!

— P-prazer!

— Você é a amiga do Namjoon dos vídeos da capivara?

— S-sou…

— Vi o vestido que você fez pra sua amiga. Que polêmica foi aquela, hein?

Rio pelo nariz. — É. Eu sou a Plagiamaschi.

— Que dó. Não fica mal por isso.

Balanço a cabeça.

— Quem te ensinou a costurar?

— M-meu pai…

O celular dela toca. — Então tá no sangue… por que você não tá estudando aqui ainda?

— É… Porque eu vou embora…

— Quando?

— Não sei ainda… Mas é em menos de um ano…

— Vão abrir vagas pro curso livre de corte e costura agora em novembro. É só seis meses. Ele existe justamente pra descobrir novos talentos. Quem sabe assim você não presta o vestibular depois?

Troco um olhar com o Namjoon.

— …a gente teve até caso de ex-aluno conseguindo cápsula no São Paulo Fashion Week.

Trago uma mão à boca. — Me matricula agora, Joon!

A professora dá um tapinha no ombro dele. — Mostra pra ela o edital depois.

— Claro.

Eles saem pelo corredor e eu me aproximo do Jungkook.

— Hein… Aqui. Me explica um negócio.

— Ahn? Pode falar!

— Do que que você e o Jimin ficam chamando o Namjoon toda hora?

— Como assim? — Jungkook franze a testa.

— Rio… Ria… Rian! Sei lá!

Jungkook gargalha e escreve num papel em hangul e me mostra a romanização.

Hyung. É tipo… mano, digamos assim. Só que de um jeito respeitoso porque ele é mais velho.

— Tendi… E eu ia ter que te chamar de… Oppa, né?

Jungkook engasga com o ar no meio de uma gargalhada, sinalizando “não” várias vezes.

— A gente nasceu no mesmo ano. Não precisa.

— Ahn… disso eu não sabia… Parece que tem dez mil coisas sobre a cultura coreana. Acho que eu nunca vou aprender tudo.

Jungkook ri pelo nariz. — Nem eu.

— Mas… porque às vezes umas garotas aleatórias ficam chamando vocês desse jeito na rua?

Jungkook bufa. — Também queria saber. Isso começou depois que eu cresci. É uma longa história.

— Saquei. Deve ser o peso de ser cafona. — Aperto a regata do Nirvana dele. — Olha esse look!

— Olha quem fala: você usa renda de manhã, Lali. Você faz parte do clube do Jimin, né?

— Você e a Rosé vivem com esse papinho, né? Meu Deus! Vou defender a minha classe até o fim! Pelo direito de usar renda a qualquer hora do dia! Queremos liberdade! Liberdade! Liberdade!

Descemos as escadas da UDC.

Passamos pelos Achados & Perdidos, por uma Exposição de Economia e paramos na Feira das Nações no último andar.

Os pinheiros fazem sombra por todo o caminho. Alguns alunos estão deitados em bancos de mármore, outros aglomerados ao redor de um sarau literário, e outros formando filas ao redor dos trailers do jardim.

— Você não devia falar da roupa de ninguém, sabia? — Faço uma careta pros pés dele. — Olha essa alpargata! Entra pro clube da Alice!

— Eu não faço Moda, Lali! Você não pode me julgar!

— Pois devia! Fora que… você deveria respeitar mais o estilo dos outros, Jungkook!

— Foi você quem acabou de me zoar, Lali!

— Você que me zoou primeiro falando que eu uso renda de manhã!

— Você me chamou de feio primeiro!

— Era brincadeira!

— Eu sei.

A gente semicerra o olho ao mesmo tempo, caindo na gargalhada.

— Mas eu gostei disso aqui. — Jungkook aponta pra minha gargantilha.

Sem querer, nossas mãos se esbarram.

Ele recua um passo, coçando as bochechas. — F-foi mal.

— Tranquilo.

— Tá…

— Você nasceu na Camélia?

— Sim.

— E você sempre quis ser Designer?

— Não. Antes eu queria ter uma banda.

— De rock?

— Aham.

— E você toca o quê?

— Bateria.

— Mentira, que máximo! Então é por isso que você fica batendo os dedos na perna toda hora?

— É…

— Me ensina?

— C-claro… Que dia? Que horas?

— A gente marca no Whats depois.

Ele coloca as mãos no bolso, sorrindo de lado. — Ok…

— Como eu não sabia tudo isso de você? — Rio baixo. — Eu sou uma péssima colega de trabalho!

— Não tem problema…

— E do quê mais você gosta? Me fala mais, Kookie!

Ele fica ainda mais vermelho.

— Desculpa… É que eu escutei os meninos te chamando assim. Tem problema?

— Não… Pode me chamar do que você quiser…

— Então tá. Vou te chamar de Sr. Alpargatas.

Ele ri alto. — Ok, Sra. Renda. Eu… gosto de surfar. Andar de skate. Tirar fotos… e é isso.

Paro de prestar atenção na frente dos trailers de tapioca, milkshake e yakisoba. Só de imaginar o gosto do shoyu meu estômago já dói.

A imagem do Yoongi mastigando em silêncio invade minha cabeça, junto das nossas vozes:

— Desculpa por não saber o nome das comidas…

— Por que você me ajudou?

— Porque qualquer um faria isso.

Minha cara arde. Expulso o sorriso do Yoongi da minha memória, puxando o Jungkook até a cafeteria.

Jungkook enverga as costas contra a fila na grade.

— Cê parecia — ele gagueja —, meio brava no Solaris esses dias. Já tá melhor?

Tiro a poeira da parte traseira da calça. — Tô. Desculpa por quase não ter falado com você. Eu tava com a cabeça cheia. Fiquei com a consciência pesada pensando que eu tinha sido grossa…

— De boas. Eu ia até te perguntar se… se…

— Se?

— Bom dia — um garçom nos cumprimenta —, já sabem o que vão pedir?

— Eu vou pegar um macchiato. Cê vai querer o quê, Lali?

— Me vê um matchá com limão, por favor.

O garçom anota tudo e Jungkook paga. Em poucos minutos, nós já estamos com as bebidas nas mãos. Bebo vários goles e posto nos stories a localização da UDC com a legenda “Oi, Seguicats! Hoje o Gatinho Grafiteiro me chamou pra uma missão, e eu acabei encontrando o Gatinho Baterista que pagou pelo café. Hoje deu bom.”

— Te marquei, olha aí.

Jungkook ri baixo, me chamando pra sentar de frente pra ele. — Valeu.

Ele reposta com “#Momentos”.

— Eita como é conceitual. Amei os filtros que você usou.

Jungkook fica vermelho de novo. Seguro a vontade de zoar ele dizendo “você é fofo” e ele acabar explodindo de vez.

No meio de uma piada horrível do Jungkook sobre o “namoro” do Namjoon com a Rosé, eu congelo.

Um homem passa por nós feito um flash: jovem, cabelo escuro e liso e sorriso largo.

O barulho da máquina de espresso está mais alto.

E a voz do Jungkook, longe, longe, longe.

Numa tentativa de suspender o corpo, bato o dedo na quina da mesa.

— L-Leo? — minha voz sai cortada.

— Quem? Você se machucou?

— Não… Ninguém… acho que eu vi errado…

— É o seu ex?

— Mais ou menos isso…

— Saquei… E… o que você vai fazer agora?

A voz da Rosé grita dentro da minha cabeça:

“Bora atrás dele! Pede o número dele!”

Alice surge no meio:

“Respira, Lali. Bora retocar a make e tomar suco de cajá.”

Jimin diz:

“Quer trufa de abacaxi?”

Meus olhos se enchem d’água.

— Não! Eu quero ir embora! Eu tô cansada!

— Certeza?

— Certeza! Eu… eu só não quero mais sentir tudo isso… Eu… eu não tenho mais esse direito, Jungkook… Eu… eu…

— P-por quê?

Antes que eu me vire, uma garota passa por nós. O rapaz se aproxima dela, a beija, amarra seu cadarço e segura sua bolsa.

E então seu rosto brilha na luz.

— É o Leo. É… é ele mesmo!

— Calma — Jungkook diz. — Quer que eu pergunte se ele estuda aqui?

Travo. Tremo. Torço a boca.

Mas ainda não deixo as lágrimas caírem.

Como você tá feliz…

Logo você.

Que nem me deu tchau.

Isso não é justo.

Agora… agora você…

Você…

Tá fazendo alguém feliz também.

Ele sorri pra namorada.

Meu peito dói no meio de um mini soluço.

O terno do Leo se transforma em um uniforme de piloto na minha cabeça, e seus cabelos voltam a ter cachos loiros. Flashes piscam na minha memória: nós dois se espremendo pra alcançar o outro lado do muro da Casa Jovem, dando gargalhadas e vigiando pra não toparmos com a Juliana.

Os beijos escondidos no morro. O pôr do sol. O gosto da pasta de dente de uva. Os dentes batendo. O sorriso quebrado.

E o último abraço antes da Tia Dani dizer que ele não ia mais brincar comigo.

Você conseguiu voar sem mim, pirralho.

Tomara que você seja muito feliz.

Continua voando por aí.

Sorrio, enxugando as lágrimas. — Que que cê ia me perguntar mesmo?

Jungkook dá de ombros. — Ah… Nada não.

— Sério?

— É. Esquece.

— Então tá.

— Vou voltar pra sala, Lali. Até mais!

Acenamos um pro outro.

Quando Namjoon me encontra de novo na Oficina, seus olhos estão inchados.

— Cê tava chorando?

— Acabei de tomar esporro de um professor.

— Quem? Por quê?

— Não vou te incomodar com isso. Preciso manter a boa imagem que você tem da UDC.

Na dúvida entre rir ou xingar ele, eu apenas o abraço.

— Você… — Namjoon se afasta. — Vai aceitar ou não?

— A parceria?

— A parceria. Não vou te pressionar, mas… mandei o guia no seu e-mail.

A quantidade de mensagens me faz fechar as mãos em forma de soco.

— Se for essa vagabunda da Kira de novo eu vou tacar essa merda de celular na parede!

Um dos e-mails na área de Spam me deixa com as sobrancelhas arqueadas.

Assunto: I need to talk to you!

Tem muitas frases em italiano. Um logotipo prateado de tesouras e uma cortina azul-marinho.

Dio.

Tempo.

Famiglia.

Cuore.

Viva.

Casa.

Nipotina.

Bergamaschi.

Quando eu leio o remetente, minha garganta pega fogo.

@ellenabergamaschi.com.br

As lágrimas me cegam.

N-nonna?

Namjoon diz algo, há metros de distância.

— Isso não… não tá fazendo sentido! Não… não tá!

Jogo o celular no puff, apertando as mãos no topo da cabeça.

— Deixa eu ver, Lali!

Nonna.

Nonna!

NONNA!

Soluço, enterrando a cabeça no meio dos joelhos. — Namjoon… Eu vou ter um treco!

— Calma, Lali.

— Calma, calma! É muito fácil falar! Primeiro eu venho aqui… Aí você me mostra a sua coleção… E depois… depois eu vejo o Leo na cafeteria! E agora… agora a minha Nonna quer falar comigo? Não tem nem dois dias que eu… que eu tava na delegacia! E era um dia normal… igual hoje! Qual é o próximo passo, Deus? Ir parar na UTI?

— Só respira. Cê que eu fico aqui e a gente fala com ela?

Gesticulo “sim”.

Namjoon mexe no meu celular, e a tela parece uma sombra muito brilhosa no meio das lágrimas.

— Lali! É mesmo a sua avó! Que massa! Eu coloquei no tradutor e ela… ela quer te conhecer! Até deixou o número do WhatsApp dela. Vou mandar mensagem.

Levanto a cabeça, fungando. — C-conhecer?

Leio a mensagem traduzida:

Cara Lali,

Graças a Deus a internet me possibilitou encontrar você antes do que eu acreditava ser possível nessa vida.

O tempo não vai apagar a sua importância na nossa família.

Os quilômetros não vão separar os nossos corações.

Você está viva, saudável, e continua sorrindo e trabalhando apesar de tudo que nos aconteceu.

Estou muito orgulhosa da mulher que você se tornou, minha neta.

Você faz parte dessa história, faz parte dessa história.

Você é uma Bergamaschi.

Não se esqueça do legado que o seu pai te permitiu carregar.

Quando se sentir confortável, me mande um sinal.

— O fuso horário de Milão é 5 horas a mais que Costaré! Lá já são três da tarde! Cê quer mandar áudio?

— Mas eu… eu não falo italiano direito, eu lembro de pouca coisa! Eu vou errar tudo! Eles não vão entender! Vão rir da minha cara e desligar e—

— Eu disse que você pode falar com ela a hora que ela quiser e que um amigo seu vai traduzir tudo pro inglês!

— P-por que você fez isso?

— Não era isso que você queria? Conhecer sua família?

— Era, mas… mas eu não sei se eu vou conseguir… Eu não consigo nem pensar direito! N-nem parece que isso tá acontecendo…. Acho que… a qualquer momento eu vou cair de uma cama e vai doer minhas costas e aí eu… eu vou perceber que era só mais um sonho!

Namjoon me segura pelos ombros, com os dedos tremendo. — Tá tudo bem, Lali. Não vou me introm—

— E-eu quero! Agora! Ela… ela respondeu? Eu… eu não vou conseguir ficar parada se não for agora!

Namjoon me mostra a selfie tremida do perfil da Nonna. A primeira coisa que aparece são os raios do pôr do sol quase transparente atrás da Nonna, que segura o celular, sentada num lugar que parece um restaurante à beira mar em Santorini. Linda, linda, linda. Seu cabelo é curto e ondulado, cheio de fios loiros no meio dos brancos. Tudo é dourado. A pele de todo mundo na foto, o céu, e até os detalhes dos talheres, copos e guardanapos retorcidos na mesa. O colar de pérolas no pescoço fino da Nonna combina com seu vestido amarelo pastel apertado nos ombros largos, e sua maquiagem tem tons suaves, meio pêssego, meio rosados. Seu sorriso praticamente não tem linhas de expressão, e a testa é lisa pra idade. Atrás dela, um senhor um pouco mais gordo que ela e grisalho sorri. Sua camisa social é de linho azul-claro meio amarrotada, com um botão a menos que me faz rir pelo nariz. Os olhos verdes dele são cheios de pés-de-galinha, o cabelo liso é meio calvo e branco num tom off white. Ele usa relógio prateado. Sorri de lado. Imagino a mistura de perfumes que vem deles: lavanda da Nonna e limão do Nonno. A sensação da maresia. O calor da tarde e as nuvens caindo pesadas com a chuva do verão europeu. O sabor do champanhe ácido borbulhando na mesa.

A textura dos braços deles envolvendo meus ombros. Costurando junto comigo. Passeando comigo pelas calçadas em Milano. Rindo alto.

E como a minha vida teria sido diferente se eles tivessem aparecido antes.

Eles iam ter me colocado pra dormir e cantado Brilla Brilla Stellina pra mim igual o Papà fazia.

Iam ter cozinhado polenta com ragu e açafrão, salame al cioccolato e tiramisù ainda melhores do que os do Papà.

Iam ter me ajudado a matar aula.

Me matriculado no Marangoni.

Iam ter dito que me amavam.

— Namjoon… Eu… achei eles! Eles… eles tão vivos! Os meus… os meus avós… eles tão vivos! VIVOS!

Soluço contra a clavícula do Namjoon, sujando ele todo de rímel e base.

— Namjoon… eles… eles sabem que eu existo! Eles sabem! Deixa… deixa eu ver de novo!

Dou zoom no sorriso deles. Deslizo pro canto da foto, pras outras pessoas que eu não tinha me importado antes. O casal do outro lado têm olhos escuros sem muitas marcas de expressão. Eles também usam linho branco e jóias douradas, tem cabelo ondulado castanho e sorriem pra selfie da Nonna. Parecem ser altos mesmo sentados igual o Nonno.

No colo da mulher, mordendo a manga da própria blusa, tem uma criança. Não sei se é menino ou menina, mas é uma criança fofa, ruivinha de cabelo cacheado e parece ser atentada.

Eu tenho tio? Tia? Primo?

Meu peito dói quando eu tento puxar o ar. — Ai, Namjoon, eu… eu não consigo respirar! Parece que… que tem alguma coisa fisgando o meu peito! Isso… isso é a minha família? Não é… justo! Era pro meu pai e pra minha mãe… era pra eles… eles estarem nessa foto também! Por quê? Por quê? Por que meus avós tão sorrindo com o meu tio se eles fizeram meu pai e a minha mãe sofrer tanto? E por que… por que não podia ser eu ali com eles? Por que meus avós… foram dois monstros e… e agora… ficam rindo?

— Calma. — Namjoon me dá um copo d’água.

Bebo depressa, sem virar o rosto pros alunos me julgando.

Namjoon pega meu celular.

Seco as bochechas com a parte de trás das mãos. — O-o que você falou pra ela?

— Se o tradutor tiver certo, perguntei que horas ela pode falar com você e expliquei que eu vou traduzir a conversa.

— Mas… você não tem aula agora? Eu não quero te atrapalhar, Joon!

— Minha aula é só de noite, eu vim hoje cedo pra resolver alguns BOs e pra você ter tempo de pensar.

— Bora voltar pro Solaris então… Eu quero mostrar as minhas coisas pra ela!

Namjoon me ajuda a ficar de pé. Ele pede o Uber enquanto eu ainda estou soluçando. O caminho é coberto por borrões cinzas na frente dos meus olhos, e o barulho dos motores e das buzinas desaparece.

Chegando no Solaris, corro direto pro quarto.

Tranco a porta.

Deixo a caixinha visível.

O celular no tripé.

Conserto a colcha, os travesseiros. Varro. Passo pano.

Alinho as cortinas, deixando só uma fresta pras camélias amarelas e o cheiro da maresia.

Namjoon abre as cortinas e solta minha playlist da Avril e do Airbag.

Cantamos metade das músicas até meu celular vibrar.

Terça-feira, 8 de julho

11:34

Tropeço na quina da cama. — Ela… ela respondeu, Namjoon!

— Ela perguntou se você… poderia falar com ela hoje… uma em ponto no horário de Brasília.

Namjoon compra casadinho de goiabada pra mim.

Nem mastigo.

Ele dança comigo.

Mas eu canso rápido.

Até o ukulele do Jimin ele toca pra mim.

E eu nem sorrio.

Meu celular apita. — Namjoon! E agora? O que eu vou fazer? Não tenho coragem nem de abrir o celular mais!

— É a Alice. Ela te mandou mensagem.

— Você falou pra ela?

— Sim. Não briga comigo, mas… achei que seria interessante ela saber.

— Não achei ruim, muito pelo contrário.

“Independentemente de qualquer escolha que você faça daqui em diante, eu tô aqui pra te apoiar.”

Meu peito arde.

— E-eu vou desmaiar.

— Tem mais. — Namjoon me mostra o celular dele.

É uma mensagem da Rosé com uma foto dela do lado de um taco de beisebol.

“Se alguém te fizer mal, me chama, Bergamaschi. Obrigada por me ser essa insuportável que eu não consigo odiar.”

Namjoon me empresta um paninho pra eu enxugar as maçãs do rosto.

— Tem mais ainda.

— Você fofocou pro Solaris inteiro?

— F-foi mal…

— Eu tô brincando…

— É só que… a gente sabe de tudo… então achei que todo mundo ia querer saber…

— Obrigada. Eu não ia conseguir fazer nada disso sem você aqui.

As bochechas dele ficam vermelhas.

— É o Jimin.

“Maninha, seja feliz, onde quer que você esteja. Eu te amo muito.”

Abano o rosto. — Acho que não tem nem mais como eu chorar. Socorro.

— Tem.

Meus pensamentos se embaralham.

Uma mensagem da Angeline brilha na tela.

“Querida, esse dia chegou. Não se assuste, nem se culpe. Só sorria e diga tudo que você sempre quis. Obrigada por ter feito a diferença no Solaris, você trouxe ainda mais vida pra cá. Lembre-se que você ainda precisa ir na balada comigo em Itaewon.”

Dou risada, chorando até o queixo doer.

Jungkook me manda “Fighting” e um emoji de estrela.

Maia e Caíque mandam uma foto com emojis de oração que me fazem rir.

— Namjoon… Mas… e… ele? Ele não me mandou nada?

Namjoon sorri de canto. — Mandou.

Meu coração para de bater.

“Boa sorte na sua jornada, Lali. Voa.”

Voa.

Voa.

Voa!

— Eu… eu…

Quase tropeço na cama, mas Namjoon me impede.

— Você… vai ficar chateado comigo, não vai, Namjoon? Eu… eu não sei se vou conseguir te ajudar com o TCC… Eu não sei mais quanto tempo eu vou ficar aqui…

— Claro que não! E… assim é bom porque eu posso explorar mais do Jungkook.

Dou uma cotovelada nele. — Não machuca ele.

Namjoon levanta uma mão, rindo. — Não tô mais aqui!

Os olhos do Namjoon estão vermelhos.

— Você vai mesmo então, né? — ele sussurra. — Era o seu sonho.

Mexo a cabeça.

— Fico muito feliz por você.

Eu o abraço, sem parar de soluçar enquanto ele faz cafuné no meu cabelo.

Quando a notificação da ligação pisca no visor, todos os músculos do meu corpo gelam.

A tela carrega, carrega e carrega até que um homem jovem de terno bordô surge sentado num escritório acinzentado. Os livros nas prateleiras são pesados, iluminados por luminárias amarelas. Molduras com imagens de pessoas que eu não faço ideia de quem sejam decoram as paredes ao lado de certificados e prêmios. Canetas prateadas. Cadeiras de couro marrom. Janelas com cortinas marsala franzidas.

Barulho de choro. Sapato social batendo. A internet falhando.

Demoro um segundo pra entender que o homem no centro é o mesmo da selfie do perfil da Nonna.

Ai.

Meu.

Deus!

As lágrimas me atrapalham ler o nome da Bergamaschi Tessuti na parede com nitidez, mas é a mesma caligrafia do bordado da minha caixinha.

Abraço a foto dos meus pais.

— Lali? — A voz do homem quebra. — Ma che bella che sei! Sono io: Zio Lorenzo!

— L-Lorenzo?— Sopro o ar.

Zio Lorenzo tem o mesmo sorriso do Papà.

Ele leva o celular até a uma fresta da janela, onde os prédios são cor de creme e os sons da rua e do escritório se misturam. Tudo é antigo demais, mas tem uma modernidade misturada no verde dos cedros e na forma como alguns jovens se portam.

Ainda não respiro.

Mi senti? Siamo nel Quadrilatero d’Oro.

Não me mexo.

I’ll speak slowly.

Não respondo.

— Você tem os dentes tortos e o nariz arrebitado igual o Jacopo — Namjoon traduz.

Pisco forte.

— Não precisa me responder se você não quiser.

— Vou te mostrar tudo com calma.

— Só um minuto.

Zio Lorenzo coloca um álbum de fotos na mesa.

Questa è tua Zia Margherita.

…ed il tuo cugino Mattia.

…sembri sorpresa e…

— Cê tá entendendo alguma coisa? — Namjoon me pergunta.

— Sim. Ele me mostrou a minha tia e o meu primo… e disse que eu tô muito abalada… No resto eu boiei.

Namjoon mexe a cabeça. — Ele disse pra você tirar um tempo pra respirar e assimilar tudo que tá acontecendo. Disse que não vai ser fácil, mas que ele acredita que você vai ser capaz de lidar com a situação da melhor forma.

— Você… você pode… perguntar pra ele do… Papà?

Zio Lorenzo ri na última palavra.

— O Jacopo foi o melhor irmão que eu poderia ter tido… — Namjoon me explica. — Eu chorei muito quando tudo aconteceu… Quando ele deixou Milano… E quando nos deixou…

Entendo o Zio Lorenzo dizendo que sente falta de giocare a calcio e viaggiare insieme e loved his little bro.

— Mas… mas e… e a mamãe? Por que vocês odiavam ela?

— As… — Namjoon pausa no meio do choro do Zio Lorenzo. — As coisas não são bem assim, Lali… Eu gostava sim da Beatriz.

O jeito como ele diz o nome da mamãe me faz rir. É o mesmo sorriso que ele deu pra falar da Zia Margherita e do Mattia.

— Foi o seu pai quem se afastou da gente primeiro…

Não. Não é verdade. Não é!

Rosno, fechando as mãos. — MENTIRA!

Namjoon segura minhas mãos. — Foi seu pai que não quis te trazer pra Milano, sobrinha querida. Por… medo da reação dos teus avós.

Smettila! — solto sem querer.

Zio Lorenzo ri baixo e elogia minha pronúncia.

Sorrio por um segundo.

— Lali — Namjoon diz —, respira.

Respiro.

— Vocês não queriam que a minha mãe fosse da família porque ela era brasileira e pobre, né? Fala a verdade! Você pode não entender português direito, mas eu sei que você tá me entendendo, tio! Vocês… vocês são podres! Podres! PODRES!

— Xiu — Namjoon sussurra.

Os olhos do Zio Lorenzo se enchem d’água.

— Não tem nada que eu diga que vai fazer você me perdoar, nem perdoar os seus avós. Não posso voltar no tempo, mas eu quero fazer melhor daqui pra frente e ser o melhor que eu posso: o tio que você sempre sonhou.

— Tempo. Tempo. Tempo! Você fala como se fosse fácil, tio! Mas. Não. É! Onde… onde tá a Nonna? Dove’è?

Qui.

Nonna aparece, como um borrão vermelho. Está vestida com um macaquinho amarelo pastel e ajeitando o colar de pérolas. Sua pele está pálida. As olheiras enormes. O sorriso trêmulo.

Sei bellissima, tesoro — ela diz num tom baixo. Sua voz é fina e meio arrastada.

— Onde… onde tá meu avô, Namjoon? É… como que fala…

Antes que ele traduza, eu sinalizo “pare”.

Where is… — Tremo ao perguntar. — Acho que é… Dov’è il mio Nonno?

È in riunione — Zio Lorenzo diz.

Ele e a Nonna se entreolham com sorrisos de lado.

Abro minha caixinha. Mostro pra eles os tecidos um por um.

— Eu guardei a sua caixinha, Nonna… O presente de casamento que você deu pro Papà… Você lembra?

Ela comprime os lábios, abafando o soluço e assentindo.

— …guardei pra não… pra não esquecer do Papà… Acho que é porque era… era a minha última chance de… de ter uma coisa que já foi dele…

Prendo o fôlego. — Mas eu… eu não me sentia digna de usar tecidos tão… tão bem-feitos… Eu não conseguia acreditar que a minha família um dia querer que eu usasse uma coisa que… que não era minha de verdade…

— Sempre foi seu. — Zio Lorenzo limpa as pálpebras.

— Eu… eu sabia que um dia você ia me procurar, Nonna! Eu te amo! Obrigada! Obrigada, Zio! Ti amo! Ti amo! AMO!

A Nonna e o Zio Lorenzo se abraçam de lado.

— Tínhamos medo que você nos odiasse — ele diz.

— Que bom que o Jacopo guardou esse tesouro pra você — Namjoon traduz a fala da Nonna. — Que bom que você nunca se esqueceu e nunca deixou de esperar por nós, piccola. O trabalho que você fez naquele vestido ficou com todos os traços da nossa família, mesmo não sendo feito com um tecido nosso.

Travo.

A Kira Diniz deve ter falado com eles.

Deve ter convencido eles.

Eles… eles vão me processar!

Minha família vai ficar contra mim!

MERDA!

NÃO!

NÃO!

NÃO!

Minhas bochechas estão encharcadas, as roupas amarrotadas e o nariz vermelho. A tensão no meu pescoço me faz inclinar o corpo pro lado direito.

Cubro a boca com os dedos tremendo, gelados e sangrando.

— Lali! — Namjoon me ajuda a levantar.

Ele tira a agulha presa no meu mindinho.

— Não tá doendo?

Minha voz não sai.

— Você nem percebeu que levou ela com você. — Ele olha pra baixo, onde a caixa de agulhas, alfinetes e linhas está no meu colo. Cheia de lágrimas. Tem uma almofada debaixo de mim.

Namjoon gruda o Band-aid no meu dedo.

Meu corpo ainda está mole e minha língua salgada demais, mas eu solto:

— Por que vocês não me procuraram? Por que vocês me largaram sozinha nessa merda de cidade só pra eu sofrer naquele inferno de Casa Jovem? Vocês sabem como era frio lá dentro? Como a comida era horrível? Sabiam como eu apanhava? Como eu brigava com as outras crianças quando falavam que vocês tinham ido embora e que não me queriam? Sabem o quanto eu defendi vocês? No fundo, eu… eu sabia que tava me enganando! A única coisa que eu tinha era a caixinha do Papà me lembrando de quem eu era… e me mostrando pra onde eu… pra onde eu tinha que ir! Me lembrando de… de onde tava a minha família! Mas agora eu… eu não quero mais ir! Ir atrás de uma família que fez isso comigo! Como vocês tiveram coragem? Vocês não tinham esse direito! Eu odeio vocês! ODEIO! E vocês não vão me fazer esquecer isso nunca! Vocês sabiam onde eu tava desde o começo! Sabiam! E nunca tentaram vir atrás de mim! Nunca! NUNCA! Se eu não tivesse quase morrido naquele assalto, se eu não tivesse ido parar no Solaris, se eu não tivesse começado a postar os vídeos e começado a ser xingada na Internet, vocês… vocês nem iam ter se importado de vir atrás de mim! Fala a verdade! O que vocês querem agora? Perdão? O que eu tenho pra oferecer pra vocês que vocês ainda não têm? Eu não posso trazer o meu pai de volta! E eu sei que vocês não me querem aí! Eu… eu não quero ver vocês nunca mais! Eu queria ter morrido! Teria sido muito, mas muito melhor! Eu… eu queria que tudo isso fosse mentira! Que… que vocês não fossem a minha família de verdade! Não adianta pedir pra eu ir pra Milano porque eu não vou! Não vou nunca! Nunca! Famiglia di merda! Inferno!

Mordo a mão até a pele pinicar.

E caio na almofada de novo.

Namjoon posiciona a polaroid dos meus pais no meu colo. Está molhada e meio amassada.

Nonna e Zio Lorenzo estão chorando baixo, secando o rosto com lenço e se abraçando de lado.

— A mammà te procurou tanto, mas tivemos dificuldades legais… — Namjoon traduz.

— Quando você ficou pra trás… uma parte nossa se foi — A Nonna continua falando. — Jacopo falava muito de você… Ele sempre foi um bambolino cheio de luz e d’energia. Você tem os olhos cor de avelã iguais ao dele, principalmente quando chora. Até mesmo essas sardinhas minúsculas que só dão pra ver bem de perto. — A voz da Nonna soa trêmula, e ela gruda a testa no visor. — Demorou muito pro Carlo e eu entendermos que Milano era piccola demais pro coração d’oro que o Jacopo tinha. Doeu muito ver o nosso tesoro se afastar de nós, e nunca mais querer voltar pra casa. Ele finalmente tinha encontrado a paz na sua mãe, seu verdadeiro lar, mas… nós tivemos que assisti-lo desmoronando para que finalmente pudéssemos entender tudo.

Beatriz era una ragazza d’oro. Demoramos pra perceber que ela não se importava com o sobrenome Bergamaschi, ela… ela queria só o Jacopo. O Jacopo que chegava atrasado nas reuniões da empresa. O Jacopo que pulava os muros de casa pra jogar sinuca com os garotos humildes do quartiere. O Jacopo que sonhava em viajar pela América do Sul com a noiva e que… que não teve os próprios pais no próprio casamento por… por puro orgulho… O Jacopo que… que não foi nada além de um rapaz inconsequente, mas também um grande homem… e que amava muito a família acima de tudo. Beatriz quis tudo isso… e não se importou com o ódio gratuito que eu destinei a ela… ela era uma garota linda, linda, linda… com zero orgulho… Eu ainda tenho as toalhas que ela bordou… tentando conciliar a nossa família… as fotos de você bebê que o Jacopo deixou… Você tem o mesmo brilho no olhar que a sua mãe… as mesmas sobrancelhas… e o jeito meigo de falar… Eu sei que você não pode aliviar o meu remorso, mas… se você puder… encontra um lugar dentro de si mesma… onde você… onde você possa me perdoar por tudo, minha netinha.

Namjoon está do mesmo jeito que eu quando ele termina de traduzir a última frase. De olhos fechados. Com as bochechas encharcadas de lágrimas. Apertando minhas mãos.

— …eu… cometi inúmeros erros, e… não ter insistido mais em ir atrás de você foi um dos maiores, Lali… O sangue Bergamaschi corre nas suas veias… apesar da sua parte latina…

Namjoon para pra checar a minha reação por um segundo.

Estou com um dedo na boca pra impedir os soluços, e o corpo a um fio de tombar sozinho pra frente, com os joelhos fervendo.

Sem nenhum pensamento cruzando o cérebro.

— Eu… que sempre fui cheia de preconceitos… em quase 70 anos… tive que aprender da pior forma… Nada justifica o meu comportamento, mas… eu prometo ser a melhor versão de mim… Lasciami essere la tua nonna… Te cobrir quando fizer frio… Te refrescar com limonadas e gelatono verão. Solo… torna a casa.

Balanço a cabeça devagar. — S-sì… Nonna… per favore… é tudo que eu mais queria… como… eu vou falar não?

Grazie, Lali… — Ela soluça.

— De algum jeito… você acabou tendo o gosto refinado pra alguém sem treinamento… Vimos as roupas que você costurou e…

— …você deveria vir pra Milano. Conhecer a fábrica. Os arquivos, os nossos teares. Seu lugar é aqui, Lali. Vamos cuidar de tudo: documentação, passagens, e nos assegurar de que você será bem-alimentada, bem-recebida e que irá estudar e trabalhar com muita dignidade.

Atrás da Nonna, um funcionário coloca uma pasta na mesa.

Nonna assina um papel, sorrindo de canto pra ele.

— Joon… Não mente pra mim, por favor. Não esconde nada. Promete?

O sorriso dele diminui. — T-tá. Eu prometo.

Ai não, não, não, NÃO!

Ela… ela vai me…

Me processar? Vai mesmo?

Eu tava certa, não é possível!

— …q-que mais ela falou?