Anything But Ordinary

20 Mudar é o suficiente?


Capítulo 20: Mudar é o suficiente?


AS GOTAS DE CHUVA CAEM ENQUANTO EU CAMINHO. O dobok gruda no meu corpo, e o calor se mistura com o suor.

Confiro o horário no relógio.

14 de julho, segunda-feira 9:30.

O treino é bom. Bom o suficiente pro Mestre Kang me chamar no canto no final, com a mandíbula travada e os braços cruzados.

Congelo. — Você quebrou a mão de uma pessoa.

— Sim, Mestre, mas foi só pra defender outras pessoas.

— Não interessa. Você quebrou. Foi isso que eu te ensinei?

— Não.

— Tô decepcionado com você.

— Eu sei.

— Não pensei que você ia faltar tantos dias. Pra quê tanto medo?

— Eu só… tô cansado.

Na saída, já estou planejando o restante da noite: uma garrafa de soju, uma caixa de Choco Pie e mais uma tentativa de redação.

Jimin não cala a boca.

Alice. Briga. Amor. Raiva.

Mestre Kang. Mestre Kang. Mestre Kang.

Vestibular. Vestibular. Vestibular.

Babosa. Macadâmia. Andiroba. Pitanga.

Respiro fundo, balançando a cabeça.

“Férias agora em setembro”.

Paro de piscar e de caminhar, apertando as alças da mochila. — Legal. Cê vai pra onde?

Éssipê, meuô! — Ele ri.

— Boa viagem.

— Vou voltar só em outubro.

— Saquei. Cê vai naquela Fair Beauty de novo, né?

Volto a caminhar.

A risada dele ecoa bem longe. — É Beauty Fair.

— Aham. Isso aí. Vê se dessa vez você não fica me ligando de madrugada pra me mostrar 300 mil coisas.

— Só se você prometer que não vai sentir saudade de mim.

— Pra quê eu vou prometer uma coisa tão simples?

Jimin semicerra o olho, rindo. — Cê sabe que… eu tô na dúvida?

— Dúvida do quê?

— Se eu presto vestibular aqui mesmo ou…

Prendo a respiração. — Ou?

— Ou tento a sorte em SP.

— Vai que é sua, ué!

— Na moral?

— É!

Jimin faz um five high comigo.

— Eu… eu também pensei na possibilidade de estudar em Seul, acredita? — ele diz.

— Seul?

— É… eu tô até pagando professor de coreano de novo… Vai que a oportunidade surge, né?

— Você nem tinha me falado nada…

— Tô falando agora.

Solto o ar. — Saquei. Boa sorte.

Quando chegamos no Solaris, a equipe está toda de cabeça baixa em um círculo. A Sra. Park e um homem estão no centro, conversando baixo.

— Oi, pessoal! Quem morreu, hein? — Jimin ri. — Mó clima de velório! Cadê a música?

— É… — sussurro pra ele —, por que o olho de todo mundo tá vermelho?

Me aproximo do centro e o rosto do homem fica mais nítido. Ele usa o mesmo terno azul e sapatos caros da Festa Junina. Tem um sorriso ensaiado, barba rala e a postura impecável.

A Sra. Park também está com os olhos vermelhos.

Fecho os meus.

Não.

Não.

Não!

— Esse é o Marcelo, o novo proprietário do Solaris, meninos — a Sra. Park nos diz.

AHN?

— Puta merda, eu sabia que eu não tinha endoidado! — Jimin grita.

— Mas não se desesperem: uma das condições era que ninguém da equipe fosse demitido.

Meus ombros relaxam.

Lali enxuga os olhos e abraça Namjoon de lado.

— Oi — Namjoon nos cumprimenta.

— Cês sabiam disso? — Jimin afrouxa o nó do dobok.

Lali e Namjoon balançam a cabeça em negação.

Tem um homem no canto bem mais jovem e com um terno parecido com o do Marcelo.

— Prazer, rapazes, eu sou o Vinicius! O novo gerente.

Aperto as mãos dele.

— Nós lamentamos, Yoongi. Sabemos o quanto você trabalhou muito para chegar à gerência.

— Você tá decepcionado comigo, eu sei — a Sra. Park acrescenta.

Minha voz quase treme. Ergo o queixo. — Na verdade, nunca foi meu objetivo. Eu só queria um teto pra respirar, dinheiro e comida. Mas se tudo acaba aqui, eu tô bem.

Jimin está sendo acudido pela Lali e pelo Namjoon no sofá, com leque, água e café.

— Eu… eu vou desmaiar…

— Por que a senhora escondeu isso de mim? P-precisava? Me colocou como gerente pra quê então? Se bem que… que… faz sentido… a senhora sumiu esses dias, não respondia a gente…

— Eu… eu achava que se eu contasse tudo pra vocês… eu só ia fazer todo mundo ficar desesperado! Vocês iam começar a procurar outro emprego, iam ficar assustados… e se eu tivesse conseguido encontrar um comprador… ia ter causado tudo isso à toa… e ainda ia deixar todo mundo na mão!

— Mas… — Jimin se levanta, se apoiando nos ombros do Namjoon. — Por quê, mãe? Pra quê?

— Eu… eu me afundei em dívidas, meu filho!

Dívidas?

— D-dívidas?

— O seu pai… ele… ele… você era muito novo e… e não lembra, mas… ele se envolveu com apostas… e… tudo ficou tão insustentável que… que eu preferi quitar tudo… tudo de uma vez pra que você pudesse estudar e… e viver em paz… Eu… eu guardei uma parte pra sua faculdade, filho… A mamãe vai passar um tempo longe, tá bom? Eu… eu tô partindo pra Seul no domingo…

— Isso… isso é informação demais… — Jimin cai no sofá de novo.

Namjoon e Lali o ajudam a se sentar.

A Sra. Park segura os ombros do Jimin. — Eu sei que é difícil de entender… parece que eu tô só pensando em mim, mas… eu juro que em cada canto que eu vou… eu só penso em você, meu amor…

— Não… não pensa!

— Eu vivi muitos anos pra isso aqui. Agora eu… eu quero viver pra mim, filho! Eu… eu preciso voltar lá! Viver onde meus pais viveram. Andar onde eles andavam. Comer o que eles comiam! Falar como eles falavam! Eu… eu sinto que eu preciso me reconectar com quem eu já fui algum dia…

Lali soluça.

— …e não se preocupa: você não vai perder nada. Eu sei que eu não fui a melhor mãe do mundo, mas—

— Foi sim.

— Eu era liberal demais. Diziam que você era afeminado e ruim na escola por minha causa, mas… eu nunca liguei porque pra mim… você era só o meu filho.

— Pra mim… a senhora era só a minha mãe… Se eu… se eu tivesse sido mais profissional… a senhora não ia precisar ter feito isso…

— Eu lembro como se fosse ontem de você pequenininho… me pedindo pra te deixar fazer check-in… me pedindo ajuda com fração e eu não sabendo te responder… me pedindo pra te deixar sair do taekwondo e entrar na escolinha de futebol…

Jimin soluça, a abraçando.

— Podem explicar tudo com calma, não vou atrapalhar — a Sra. Park diz —, eles vieram pra comunicar sobre as atualizações da nova gestão. Se apresentem, por gentileza.

Vinicius sorri. — Reformaremos todo o pavimento e construiremos o segundo andar com elevador.

— Elevador? — Jimin grita.

— Sim. Meu pai sempre diz que negócio bom melhora a vida de todo mundo e une as pessoas. Vimos muito potencial na localização e decidimos melhorar a estrutura e a qualidade do atendimento de vocês que, diga-se de passagem já é excepcional! Nosso objetivo é—

Paro de prestar atenção no discurso dele, focado no quanto meus ombros doem.

— …formei em Administração pela UDCC, e trabalho com Turismo há mais de 24 anos — Marcelo diz.

— Eu estou terminando a minha pós em Recursos Humanos — Vinicius finaliza.

— O Solaris vai ficar com a ocupação reduzida durante a maior parte da reforma, vamos redistribuir as horas de vocês. Vocês podem tirar alguns dias pra descansar.

— Abriremos um pub com soju e caipirinha grátis todas às quintas-feiras pra incentivar o intercâmbio linguístico. Contamos com a colaboração de todos.

Todos sorrimos.

— Eu me senti traída por não saber de nada — Lali solta.

A equipe toda concorda com a cabeça.

— Mas já que todo mundo tá aqui: vou aproveitar pra comunicar minha saída do Solaris em novembro.

Prendo a respiração.

Maia, Caíque e Hoseok choram abraçados com a Lali

Jimin e Namjoon soluçam.

Jungkook conversa com o restante da equipe e com Vinicius e Marcelo.

Apresso o passo na direção do corredor.

A Sra. Park me segue. — Eu… só quero que você seja feliz, minha criança. Segue seu sonho e… não briga com seus pais, tá bom? Ainda vou te ver sorrindo muito.

Enquanto eu choro no ombro dela, um filme passa na minha cabeça de quando eu entrei no Solaris.

Do dia que a Sra. Park chorou na lavanderia por ter demitido a Mariana e o Tarsis depois deles terem ficado com hóspedes e gerado aquela confusão.

De todas as vezes que ela me falava pra sorrir mais.

Lembro do dia que eu cheguei no Solaris.

Depois de largar a bag e a bike na calçada, ando até a recepção.

Um garoto da minha idade sorri pra mim e me diz “Welcome to Solaris”. Ele tem o cabelo loiro, usa muitas correntes e cheira a creme de maracujá da Natura.

— Bom dia. É uma entrega da CostaréExpress para… — Leio o nome na sacola. — Jimin Park.

— Sou eu mesmo! — O garoto sorri.

— Me fala o código, por gentileza.

Ele checa o visor. — 337210.

— Obrigado.

Massageio as costas e o pescoço, afrouxando a bag.

Jimin rasga a sacola e o cheiro de Natura fica ainda mais forte. É bem doce.

Óleo de jojoba.

Extrato de aloe vera.

Um monte de seringas.

Luvas.

Algodão.

Bicarbonato.

Ah… saquei! Esse é o pedido de 300 reais. Impressionante como esses vidrinhos custam um rim.

Meus olhos param no anúncio da parede. “CONTRATA-SE RECEPCIONISTA” seguido da tradução pra inglês e coreano. Modelo 12x36. Mais de 2000 reais. Moradia, vale-alimentação, transporte e plano de saúde.

Parece bom. Valor justo. Segurança. É perto de tudo. Bem longe pros meus pais não me acharem.

A voz do meu pai grita dentro da minha cabeça:

— Você acabou de fazer 19 anos. Eu achei que você tava estudando pra ser alguém na vida… Mas não! Você prefere carregar essa bag nas costas igual um mendigo!

Se eu trabalhar aqui, já dá pra pagar a carteira e dar entrada na moto. Fazer entregas nas folgas! Estudar pro vestibular. Vou poder voltar a treinar.

É isso!

Ergo a cabeça pro letreiro.

— Hostel… Solaris…

— Você nem olhou onde tava antes de entrar?

— Não. Eu tava com pressa pra te entregar logo porque tem outros clientes esperando. Obrigado.

— Deixa seu currículo com a gente.

Minha cara arde. — Tô de boas.

— Ia ser legal trabalhar com você.

Franzo as sobrancelhas. — Cê nem me conhece… então… como cê sabe que ia ser legal?

— Sei lá. Eu só… sinto.

— Sente?

— A maioria da equipe é de mulher. Os homens são todos freelancers.

— O que isso tem a ver?

— É legal variar. Você pode aproveitar pra praticar inglês.

— Eu não sei nada de turismo. Nem tenho experiência na área.

— Você pode aprender — ele diminui o tom — e ainda por cima, aqui é cheio de gatinha. Mas não fala pra minha mãe que eu te falei isso!

Jimin ri.

Estalo a língua.

— Saquei. — Fecho o zíper da bag e conserto o colete. — Tenha uma boa tarde.

— Fora que… ia ser legal ter um amigo.

Amigo?

Amigo?

Amigo?

Sem que o Jimin perceba, tiro uma foto do anúncio.

Já são 10 da noite quando termino uma entrega na Praia dos Pescadores.

— Pra quê esse monte de tangerina? — Me estico no guidão, bocejando.

Desligo o app, abaixo o descanso da bike e jogo a bag na cesta. Me sento na areia. Está bem fria.

Abro minha conversa com meu pai.

A última mensagem dele pisca, fazendo minha cabeça doer outra vez:

“Sua mãe nunca vai te falar isso, mas ela não sabia onde enfiar a cara quando te viu com essa bag nas costas hoje. Você tem que parar de ficar mendigando igual um doido por aí como se seus pais não pudessem te ajudar. Arruma um trabalho de verdade. Engole esse orgulho.”

Mando o currículo pro telefone do Solaris com os dedos tremendo e com as lágrimas descendo pelas bochechas.

Eles me chamam na manhã seguinte e eu chego lá às 14:00.

— Estamos muito felizes de ter você na equipe, minha criança! — a Sra. Park me diz, me abraçando.

Jimin bate palmas. Junto as mãos atrás das costas e balanço a cabeça.

— Mostra tudo pra ele, Jimin!

Ele me mostra cada canto do Solaris sem parar de falar.

— Cê também treina no dojang aqui perto?

— Cê é da Camélia mesmo?

— Seus pais sabem que cê vai morar aqui?

— Cê gosta de café?

— Quer soju?

— Gosta de trufa de abacaxi?

O uniforme é esquisito. Parece um terno, mas não é tão formal. Não entendo porquê o Jimin tem esse vício em colocar corrente e estampa de onça em tudo. E nem porquê a Sra. Park deixa ele fazer isso.

Não entendo porque ele não cala a boca sobre óleo, pH, e quando tudo o que eu quero fazer é almoçar em paz. Ele troca de perfume a cada semana. Fala gritando. Só escuta música chata de K-Pop. Deve ser por isso que ele não namora e não tem amigos.

Não sei mais quanto tempo eu aguento. A maioria dos hóspede é sem noção, fala alto e a equipe da limpeza sofre com eles. Perco a conta de quantos comunicados imprimo, e de quantas vezes reponho os estoques.

Alice deixa café pra mim na recepção sem eu pedir. Nunca se atrasa. É bem na dela. Gosta de Star Wars. E estuda bastante. Ela é a única pessoa que parece ser normal aqui.

A Sra. Park confia demais em mim na questão financeira. Não faz sentido alguém tão experiente ser tão inocente. Isso vai dar muita merda algum dia.

Um dia, Jimin me mostra um quarto secreto do Solaris.

— Pode chamar esse quartinho de “refúgio”. Usa pra estudar pro seu vestibular.

— Como você sabia que eu tô estudando?

— Eu entrei no seu quarto e vi umas anotações de arquitetura.

Bufo. — Quem deixou você entrar no meu quarto?

— Ei, eu fui só limpar, tá? Não precisa surtar.

— Não tem ninguém surtando aqui. Aliás, será que dá pra você me deixar respirar? Faz uns dias que eu só queria um pouco de privacidade!

Os olhos dele se enchem d’água.

E ele sai correndo.

Ele fica dias sem falar comigo. Não o pressiono.

Até que um dia eu esbarro nele na saída do dojang. Com a mão cheia de pimenta-pitanga.

Arregalo os olhos.

Jimin ri. — Achei esse monte de acerola lá no jardim! Olha que massa! Nem sabia que aqui tinha!

Antes que ele morda uma delas, eu o impeço pelo ombro. — Não come.

— Por quê?

— Você vai passar mal.

— Você tá com inveja porque fui eu que achei.

— Depois não diz que eu não te avisei.

Jimin come, e em poucos minutos, está tossindo e se coçando.

— Merda! — exclamo. — Você tá todo empolado, idiota!

Corremos pro PA na minha moto. Repito “eu te avisei” o caminho todo e ele me xinga baixo.

O Doutor diz que o estado do Jimin foi uma reação alérgica à capsaicina e o prescreve receita anti-histamínicos e soro na veia pra curar a desidratação.

— Desculpa. Eu tava com raiva de você e queria mostrar que você tava errado.

— Você quase se matou por causa de uma besteira. Não sei nem do que é melhor eu te chamar: de burro ou sem noção?

Jimin bufa. — Eu não sabia que era pimenta!

— Eu ainda avisei.

— Você só falou “não come”!

Dou um tapa na testa dele. — A pimenta comeu seus neurônios.

Em menos de um mês, Jimin e eu voltamos no PA de novo. Dessa vez por culpa de uma cesta de café da manhã. A ideia era um presente de um mês de amizade e ele descobriu qual era minha marca de café favorita. Decorou a caixa com glitter, com direito à mais uma reação alérgica. E mais soro na veia.

— Cê gosta de vir no hospital, né?

— E você não me valoriza! Você não percebeu que… eu… eu só… queria ser seu amigo?

Me escoro na cadeira, rindo. — Para de chorar. Amigo meu não chora por causa de café. E… eu gostei da caixa…

— Cê tá… tá… falando sério?

Jimin pula pra me esmagar, e o curativo que prende o cateter quase descola do braço dele. No dia seguinte, ele bate na porta do meu quarto. Balançando um filhote de gato preto no colo.

Meu sorriso se forma sozinho. — Sua mãe sabe que você… Aqui não é proibido bicho?

— Ela deixou. É um presente pra você.

— Você… você…

— Se você não quiser ele, eu arrumo outra pessoa. Aposto que tem muita gente querendo te adotar, né, Duri?

— Duri? Por que esse nome?

— Por que é bom ter um amigo. Agora eu tenho dois.

Depois de duas semanas de insistência da Sra. Park, desbloqueio o número dos meus pais no WhatsApp.

Mando uma foto do meu quarto pro meu pai com a localização do Solaris anexada.

“Se eu era um mendigo por trabalhar fazendo entrega, será que eu continuo sendo agora vivendo aqui?”

Meu pai responde tão rápido que meus dedos tremem.

É um áudio gritado.

“Ah, moleque, sua mãe tá desesperada! Volta pra casa!”

Ele me liga. — Você tá morando num hostel? Que merda é essa, Yoongi? Você tem casa!

— Agora eu moro aqui, pai. Trabalho e moro. Não era isso que o senhor queria? Mesmo sem pedir nenhum centavo pra vocês, mesmo fazendo minha própria comida, eu era um encostado porque não tava estudando pra arrancar fígado dos outros, né?

— Yoongi, não testa minha paciência. Me ouve! Não era pra você ter feito as coisas desse jeito! Sua mãe mal dorme! Esse povo desse seu hostel… eles pagam bem? Eles… eles… te dão plano de saúde? Assinaram sua carteira direitinho? Eles…

— Fica tranquilo, pai. Eles são da família.

Ele desliga, bufando.

Outras memórias me atingem: o dia que eu passei na prova prática, e quando eu peguei a CNH. A Sra. Park e o Jimin gritando no meu ouvido e fazendo um churrasco com bastante pão de alho, soju e feijão tropeiro pra comemorar. Lembro do dia que escolhi minha moto. Da Sra. Park quase desmaiando na moto. Do Jimin caindo tentando dar grau. Da gente tendo que levar ele pra colocar o gesso na perna. Da Alice levando sanduíche de frango cheio de maionese e quase terminando de matar ele no hospital sem querer.

É como se eu estivesse me assistindo de dentro de um vidro com marcas de dedo e borrões. Sem eco.

Essas memórias não são minhas, são?


Chegam beliches maiores. Até mesmo os lençóis têm uma qualidade superior. Cortinas individuais. Até tomadas perto das camas e luz amarela pra leitura e armários com senha. Renovam os pacotes de internet e iniciam a reforma da sala de jogos.

A sala de jogos está interditada hoje. Reduziram o horário da lavanderia. Alguns quartos não podem ser reservados.

Vou com a Sra. Park e o Seu Vinicius comprar os móveis. Ele aceita todas as minhas dicas, enquanto a Sra. Park ignora toda vez que eu reclamo da espuma dos sofás e das camas.



Estão instalando um sistema de self check-in e checkout pelo tablet.

Alguns hóspedes passam bastante tempo analisando as fotos antigas do Solaris no novo painel da recepção. Outros conversam nos novos bancos perto das camélias da entrada.

Andaimes, barulho de furadeira e cimento.


Vou no Aquário. Está do mesmo jeito, tamanho e tem o mesmo cheiro.

Não me surpreende. Eu nem gosto desse lugar.

Nem sei pra quê eu vim aqui.


Piloto minha moto até o Centro. Desde a ponte, o Shopping Costarenho está maior.

Tem muito mais turistas do que da última vez na Praça Passione. As estátuas dos pescadores do Marco da Fundação precisam urgentemente de uma reforma.

A UDCC está lotada.

E a Casa Jovem vazia. Nenhum barulho.

Passo na frente do Parque Costarenho. Penso em entrar, mas desisto.

Giro a chave e desço na Biblioteca Nacional.

Compro um matchá. Faço careta a cada gole.

Penso em comprar uma versão de Dom Casmurro com imagens.


Pego minha moto e vou até o Museu das Sementes.

Os moldes de maracujá estão do mesmo jeito, mas não tem ninguém ao redor.

A sala sensorial está cheia de crianças bagunceiras.

Saio antes que uma delas me suje todo de tinta.

Minha cabeça levanta sozinha pras claraboias, e eu aperto os olhos.

Vou até a sala de degustação. Perco a conta de quantas comidas eu provo, e no final meu olhar se perde nos chaveiros de crochê de maracujá.


Vou a pé pra Praia dos Pescadores. Abro minha garrafa de soju e bebo tudo de gole em gole até parar na fila do passeio.

Entro no barco.

É estranho Hoseok não ser mais o nosso guia.

Deixo um bilhete na Pedra Haru.

희망


Ainda é dia 23 de julho. Que. Saco. Uma eternidade.

Estão montando um café dentro da estufa da entrada, ampliando o espaço e deixando um espaço pra troca de livros.

Na cozinha, já colaram o anúncio do chef Kim.

THURSDAY — KOREAN CUISINE CLASSES AT 4 PM.


Fico horas rolando a página da Decolar atrás de pacotes de viagem. Eu sempre quero viajar, mas nunca sei pra onde.

Buenos Aires…

Santiago…

Montevidéu…


Passo o dia vendo vídeos fúteis.


Passo o dia estudando.


Mais um dia estudando.


“Vou passar aí domingo”.

“Não vou”.

“Por que?”

“Preciso estudar.”

“O Natal é só em agosto, pai”.

“Você não tem tempo pra passar uma hora com a sua família no dia dos pais?

Ele me liga.

Atendo, bufando.

— Tudo que você tem fui eu que te dei, Yoongi. Até a sua moto eu ajudei a pagar!

— Essa chantagem não cola comigo, pai — solto em português. — Primeiro que foi o senhor que insistiu, e segundo: se o senhor quiser, eu devolvo o dinheiro! Tô guardando dinheiro mesmo! Nem vai fazer falta!

Ele ri. — Eu… fui tudo de ruim na sua vida? Não fiz nada de bom pra você? Você não tem uma memória boa sequer dos seus pais?

A voz dele em português sempre fica assim mais aguda e agressiva. Me faz sentar na cama e agarrar o couro cabeludo.

— O senhor sabe que sim.

Lembro de uma vez que a minha mãe me deixou comer brigadeiro escondido porque eu tinha terminado o Kumon mais cedo.

Lembro da nossa viagem pra Salvador em 2011, e eu acordando no hotel sem os meus pais. Eu cheguei a pensar que eles tinham me abandonado e chorei bastante. Eles voltaram com uma cesta cheia de abacaxi, Toddynho e ovo de codorna pro café.

Lembro do dia que eu apanhei por acobertar o maço de cigarro da minha mãe. Meu pai não acreditaria se eu dissesse pra ele que uma pediatra fuma. Foram só umas três cintadas, mas o suficiente pra minha mãe se arrepender e ficar sem falar com o meu pai por mais de uma semana. Lembro do dia que ela descobriu que ele também fumava. A desculpa era a “forma que ele encontrou pra se desestressar”. Lembro do dia que ele me pegou fumando e me chamou de decepção. Eu já era adolescente, mas ele ainda dizia que eu iria ser sempre um pirralho.

Mais flashes passam na frente dos meus olhos: estou na EBD da minha igreja em Governador Valadares. Tenho 7 anos. Corro pelo pátio até parar num pé de acerola, fugindo da tia Cris com meus colegas.

— ACEROLA!

Encho a mão com as frutas e mordo várias de uma vez. Não tem nada de azedo. Só um formigamento que me faz gritar por “ÁGUA”, “ÁGUA”, “ÁGUA”!

— É pimenta! — Mariana berra.

Mateus chora.

As outras crianças lavam a língua no bebedouro. Acho que vou desmaiar.

Mas minha mãe me puxa e abre um galão.

Bebo tudo de uma vez.

— Eu sei que eu devia tá na EBD, mãe… Não fala pro papai o que eu fiz, por favor.

Ela seca minha boca. — Bebe.

Outro flash se mistura na minha memória: meu pai e eu sentados na cozinha antes dele sair pra trabalhar. Eu comendo devagar. Ele comendo com pressa. Eu devia ter uns 9 anos.

— Qual era o seu sonho quando o senhor era novo, papai?

Ele boceja. — Pra quê você quer saber?

— É um trabalho da escola.

— Se eu tivesse o dinheiro que eu tenho hoje e fosse novo igual você, e… se eu tivesse tempo, eu ia viajar.

— Sério, papai? Pra onde?

— Pra Argentina de moto. Uma daquelas viagens de mochileiro.

— E por que o senhor desistiu? O senhor tem só 42 anos!

Ele bagunça meu cabelo. — Só 42? Eu já tô velho demais, rapaz! Daqui a dez anos eu já sou idoso!

— Não é não, papai! Idoso é só com 60, e pra ter gratuidade no ônibus é 65!

Meu pai gargalha. — Onde cê viu isso, garoto?

— Na TV.

— E você tá corrigindo seu pai?

— Não, papai! Desculpa!

— Vem cá, seu moleque!

Ele finge que vai me enforcar e me joga no chão, me fazendo cócegas. Minha risada ecoa pela cozinha.

— Mas… — digo, depois de recuperar o fôlego —, o senhor não vai nem tentar realizar seu sonho?

— Nunca dá pra alinhar tudo. Se eu tenho dinheiro, não tenho o tempo e a idade. Se eu tenho a idade e o tempo, não tenho o dinheiro. E se eu tenho tudo, acho que eu já morri. Sempre tem um sacrifício, alguma coisa pra perder.

— Credo, papai! Não fala isso! A mamãe vai ouvir e vai ficar chateada!

— É só você não falar nada pra ela!

— Tá bom. Eu não vou! Eu prometo!

A imagem dele dando um soco na minha mão e eu rindo me faz soluçar.

Fecho os punhos até a pele embranquecer e digo em coreano:

— Eu só não quero perder o direito de existir. De ser eu. Só não… não me atrapalha, pai!

Repito a frase na cabeça. Minha língua se embolou e as palavras saíram mais ríspidas do que eu tinha planejado.

Meu pai ri pelo nariz. — Então é assim que você fala com o seu pai, moleque? Eu tô velho mesmo: nem o seu respeito eu tenho mais, Yoongi!

Ele desliga.


“Minha criança, você já marcou o almoço com o seu pai?”

“Não”

“Eu sabia! Você enrolou igualzinho ano passado! Não perca essa chance, por favor! Aproveita!”

Bloqueio a tela.

Minutos depois, outra notificação pipoca na tela.

“Não espera o dia que você tiver que fazer um memorial pro seu pai, mano. Ele tá aqui ainda. Nem que seja só pra você reclamar. Pensa em mim. Pensa na Lali.”

Rosno.

Ando na direção da cozinha, e Namjoon sinaliza “shh pra mim”.

Lali está fazendo uma chamada de vídeo com seus avós.


A insuportável da Nina demora meia hora pra me buscar na rodoviária de Governador Valadares. Sorrio pra ela com a maior cara lavada do mundo, entrando na lata-velha do tio Claudio. O cheiro quente de carro fechado há muito tempo se mistura com o perfume de baunilha da Nina.

Reviro os olhos. Dez anos de faculdade pra andar nesse carro de mil 900 e bolinha. Ninguém merece.

— Oi, priminho querido! Para de julgar o carro do papai e prende esse cinto!

— Não tô julgando nada!

— Dá pra perceber por essa sua cara de bunda!

Bufo. — Veio todo mundo?

— Sim. Eu também não queria vir, Yoongi, então para de show!

— Eu nem falei nada, Nina!

— Nem precisa. Você devia era dar graças a Deus que não é a família da sua mãe porque senão ia ser umas 300 pessoas!

— É. Você tem um ponto.

— Falando nisso… — Nina gira o volante. — Não era você que tava namorando?

Tusso forçado. — Quem mentiu pra você?

— O Jimin.

Pressiono uma mão contra a bochecha e me escoro no banco do passageiro, fingindo estar desmaiado.

— Não vou cair dessa vez. Me conta tudo! Agora!

— Me deixa dormir.

— Quem é essa garota? Imagino como ela deve ser nojenta! Ela é tipo… igual a Jennifer? Porque se for… então faz sentido você ainda não ter apresentado ela pro Tio Diano e pra Tia Ju!

— Ai, garota, cala a boca!

— Ih, alá! Ficou bravinho! Eu sabia!

A risada da Nina me faz bater um coturno no outro e cruzar os braços.

— Sabe de um negócio?

Bocejo. — Do quê?

— Cê ainda não perdeu seu sotaque mineiro 100%!

— Nem você.

Nina pisca. — Tá pronto?

— Não, e você?

— Mais ou menos. Cê ainda lembra de como era a casa? Tá muito diferente. Não sei se você chegou a ver a foto no grupo.

— Vi sim, mas lembro muito pouco.

Ela ri. — Cê sente saudade de morar aqui?

— Não.

Nina estaciona na garagem do quintal frontal. O portão ainda é vermelho e enferrujado N° 63. O pé-de-manga quase bate no poste da rua de tão longo.

— Pra quê a Halmeoni inventou que queria essa casa de presente? — Nina suspira, descendo junto comigo. — Meu pai querendo dar um AP pra ela na Vila Dorata… Ela escolhe esse muquifo e ainda faz a gente voltar pra cá! Aff!

Rio, balançando a cabeça.

— Escolhi porque você não manda em mim! — A voz da Halmeoni soa atrás da gente, fina e cansada.

Ela nos beija no topo da cabeça.

— A senhora tá mais baixinha — Nina diz.

— Baixinha é você!

— Seu português melhorou, hein?

As vozes dos meus tios e pais se aglomeram nos outros andares. Tenho certeza que o Yuri já chegou também.

— Não lembrava que a varanda da sua casa era tão estreita, Nina — digo, erguendo o queixo. — Como que cabia 11 pessoas ali?

— Era muita vontade de comer!

— Não, mas a proporção dos—

— Não começa com as suas nerdices! — Nina me dá uma bicuda e eu tropeço nos pisantes.

Halmeoni ri. Ela nos direciona pro apartamento dela. A sala continua com o mesmo ventilador barulhento e cheiro de hotteok vindo da cozinha. Nem parece que foi reformada há pouco tempo.

Largo os tênis na entrada e piso no carpete com os chinelos que a Halmeoni separou pra mim.

— Parece que foi ontem que eu brigava com vocês pra não entrarem descalços. Você escondendo o Hot Wheels dele. E você colando chiclete no cabelo dela.

Nina e eu rimos.

— É muito amor envolvido.

— É, essa garota sempre foi uma peste, Halmeoni. A senhora foi guerreira por aguentar ela por tanto tempo!

— Some, estrupício! — Nina crava as unhas do tamanho de um tamanduá no meu braço.

Controlo o xingamento, rangendo os dentes.

Nina mostra o WhatsApp de um garoto loiro pra Halmeoni. — Vem meu namorado, Halmeoni!

Coragem.

— Cadê? Ele é bonito?

Elas saem na direção da cozinha.

Minha mãe está finalizando uma chamada de vídeo com os pais dela na Coreia, sentada num banquinho de plástico no quintal. Ela me vê só depois de desligar.

Quando ela me diz “sabia que você ia vir, filho”, eu forço um sorriso.

Halmeoni volta da cozinha, me perguntando que dia eu vou trazer minha namorada pra ela conhecer. Respondo com “não sei.”

Ela diz que eu estou vermelho igual gochugaru.

E então uma imagem me atravessa: Lali rindo do lado da Halmeoni e tricotando.

— Tô normal, Halmeoni. — Coço as bochechas.

Halmeoni me diz que eu preciso colocar uma meia. Que vou gripar. Pergunta se eu trouxe sombrinha. Se vou voltar de moto porque a estrada vai me fazer escorregar. E me diz pra dormir ali com ela como nos velhos tempos, como quando ela me botava pra dormir cantando Arirang, e quando me deixava colocar feijão tropeiro na lancheira ao invés de bulgogi escondido dos meus pais porque eles queriam que eu só levasse comida coreana pra escola. Ela diz que eu nunca reclamei de estudar integral, ao contrário da Nina que matava aula direto.

Finjo que lembro de cada detalhe, balançando a cabeça.

Ela diz que se sente velha por eu estar beirando os 20 e ela os 80.

Faço uma piada sobre 80 serem os novos 40.

E ela ri, me fazendo cafuné.

Cochilo no sofá com aquele cobertor de estampa xadrez verde e vermelha que a Halmeoni usa com tudo.

Quando acordo, ela me pede pra ir no quarto dela buscar o presente que ela comprou pro meu pai. Fuço o guarda-roupas dela e acabo encontrando uma caixa com o meu nome.

— Ahn?

Minha avó ainda tem todos os desenhos que eu fiz pra ela na época da escola. Em alguns, ela parece o Drácula por culpa das minhas habilidades artísticas do ensino fundamental.

— 사랑해, 할머니… — Leio, rindo. — Tudo torto.

Reconheço a caligrafia da Halmeoni em várias caixas.

Tem fotos do casamento dela com o Harabeoji em 70.

“최순자 🖤민영호”.

“Nosso amor nasceu em tempos instáveis, mas veio pra ficar.”

— Nossa, como a senhora era brega, Halmeoni!

Passo por imagens dos meus avós chegando em Costaré em 71 e por todas as gravidezes da Halmeoni.

No casamento da Tia Iris com o Tio Vitor, ele está com cara de que vai desmaiar. Meu pai toca na barriga da minha mãe por cima do vestido lilás e sorri pra foto. Halmeoni está de Hanbok roxo, recepcionando os convidados.

Eu bebê no colo da Halmeoni.

Meus pais se beijando na formatura em 98.

A família toda no teleférico da Torre Namsan. Nina e eu com 4 anos chorando no colo do Tio Claudio e da Tia Sueli.

A próxima foto me faz congelar: meu pai está com uma bag nas costas e minha mãe sinaliza “paz e amor” atrás dele. Parece ser uma pizzaria.

Bufo. — Ah, então não era só eu que “mendigava”.

“05/02/1988

Primeiro trabalho do meu filho mais velho amado. Eles prometeram que vão esperar até a formatura pra se casarem, mas eu já dei a minha benção.”

Certeza que ela mandou a minha mãe escrever isso.

— Pra quê guardar tudo isso?

Volto pra cozinha com o presente debaixo do braço. — Halmeoni, tá aqui o seu kit de pesca!

Ué… cadê ela?

Subo pro segundo andar. Transformaram meu quarto num quarto de hóspedes onde a cuidadora da Halmeoni mora. Faço uma reverência breve pros meus tios na sala. Minhas tias me beijam na testa, me entupindo um de perguntas.

Digo que estou cansado e volto pro térreo.

Minha mãe sorri, acenando pra mim e me puxando pra varanda.

— Aqui, filho! — Ela tira um caixote preto artesanal com fecho metálico de dentro do armário. — É um presente do seu pai pra você.

Abro a tampa e a boca ao mesmo tempo.

Um moedor de café.

V60.

Uma de metal.

Uma chaleira bico de ganso.

Xícaras pretas e pires personalizados com meu nome.

Um vidro de doce de leite.

Queijo Minas.

Café em grãos do Caparaó.

“COM AMOR,

DE: ADRIANO

PARA: YOONGI”

— Isso… é pra mim? Como ele sabia que eu queria uma cafeteira? E… e pra quê ele me deu… tudo… tudo isso, mãe? Hoje não é dia dos filhos!

— Foi o seu amigo Jimin que falou pra ele.

— Aquele bocudo do caralho! — digo, entre dentes.

— Quê?

— Nada não!

— Ele falou que você queria estudar sem precisar sair do quarto pra beber café, aí o seu pai te deu como um presente de aniversário adiantado.

Eu a abraço. Minha mãe ri de novo, beijando minha bochecha e bagunçando meu cabelo.

— C-cadê o meu pai?

Halmeoni está consertando o cabelo dele quando eu chego no terceiro andar.

— Por que o senhor tá de jaleco? — pergunto em português. — A gente nem almoçou ainda!

— Seu pai vai trabalhar — Halmeoni me responde em coreano.

— Agora?

— É — ele afirma em português —, agora. Vou cobrir o Doutor Paulo.

— Mas—

— Leva um pouco de hotteok, Diano! — Halmeoni diz.

Meu pai beija a mão dela e a testa da minha mãe.

O celular dele toca e ele desce as escadas correndo.

Eu o sigo até o quintal, sem fazer barulho.

— Eu sei disso sim, Seu Antônio. — Meu pai gira uma das mãos, andando de um lado pro outro no quintal. — Não, eu não estou dizendo que não vou! Eu só estou te pedindo algumas horas. O trajeto até Costaré é demorado… Já estou terminando de ajeita—

Meu pai treme. — Não, por favor! O senhor não precisa falar assim comigo. Jamais iria te faltar com respei—

— Não, Seu Antônio, eu não estou levantando a voz, eu

Meu pai me vê.

— Eu já estou indo. — Ele desliga a chamada.

Nem penso duas vezes. O palavrão sai da minha boca. Meus passos se embaralham no chão, e eu quase tropeço na grama ao encostar nos ombros do meu pai.

— Então é pra isso, Abeoji?

— Ahn?

— Foi pra isso que você estudou por mais de 10 anos? — solto em português. — Pra trabalhar mais de 60 horas por semana, chegar em casa destruído e passar o dia reclamando? Pra… pra ter que abaixar a cabeça pra uma pessoa que não estudou nem metade do que você estudou? Esse… esse diretor idiota sabe alguma coisa de medicina pra te mandar substituir outra pessoa em cima da hora sem te avisar? Por que sempre é você que vai? Por que? POR QUÊ?

— Foi essa vida que eu escolhi, Yoongi! Tem muita gente pior que eu. Não cabe a mim ficar reclamando. Você… você tá novo, filho. Cê não vai me entender!

Rio pelo nariz. — Eu não vou viver a sua vida, pai.

Ele coloca uma mão na cintura e joga os documentos no ar, fazendo um barulho alto. — Foi essa vida que te fez estudar em escola particular a vida toda, Yoongi! Foi essa vida que te fez conseguir comer, dormir, viajar, ter plano de saúde, roupa lavada… tudo na mão! TUDO! Sem você precisar conquistar nada! NADA! Sem nem precisar pedir! Foi essa vida que me permitiu te dar tudo que eu não tive! Você sabe o quanto os seus avós tiveram que sacrificar pra criar eu e as suas tias? Você não passou nem 1% da dificuldade que a gente passou! Você simplesmente não aguentaria o tanto que a sua avó sofreu aqui em Costaré! O que que você sofreu, Yoongi? Me fala! Me. Diz! O máximo que você escutou foi “abre os olhos”! Se te chamavam de “japinha”, você já começava a espernear pelos cantos! Demorou muito pra você entender que a vida não tinha gosto de rapadura!

Prendo o fôlego.

— Experimenta ser o único homem da família beirando a fome! Experimenta perder seu pai com oito anos e ver a sua mãe passar por tudo sozinha! Experimenta se casar e ter um filho, sendo que você nem sabe se você tá pronto ainda! Experimenta perder o sono pra cuidar do seu filho! Experimenta pagar aluguel caro e só conseguir comprar sua casa com quase 50 anos! Experimenta viver com medo de perder tudo que você demorou anos pra conquistar num piscar de olhos! Experimenta crescer vendo sua mãe ser excluída por não saber português direito! Ter que dizer todos os dias pra ela que ela tá sendo bem-tratada quando na verdade… eles só tão rindo dela! Ter que comer carcaça de galinha porque o salário da faxina da sua mãe ainda não caiu! Jurar pra si mesmo que o “pastel de flango” — a voz dele quebra —, vai salvar a família!

A gente enxuga o rosto ao mesmo tempo.

— Experimenta se matar de estudar to-dos-os-di-as da sua vida, mesmo que todo mundo duvide da sua capacidade! Até porque você “só serve pra fazer continhas de matemática”, né? Experimenta realizar o seu sonho de infância pro seu filho ter uma vida mais fácil que a sua e… e saber que ele te ouviu sendo humilhado mais uma vez no trabalho! Experimenta, Yoongi! Só… experimenta me entender! Pelo menos… pelo menos uma vez!

— O senhor tá me chamando de ingrato? Se… se o senhor ia fazer tudo isso pra vir jogar na minha cara depois, sinceramente: era melhor não ter feito nada!

Ele respira fundo.

Limpo o queixo. — Se eu não aguentaria… então por que você quer que eu siga a sua carreira? Se eu não sei nada da vida, então porque eu me virei sozinho?

Vou até a sala e pego o Ferrero Rocher e o vale-compras.

Meu pai abre a boca, segurando os presentes devagar.

— Você — ele gagueja —, gastou mais de 200 comigo?

— Eu sou uma das pessoas que mais te respeita, pai. Nunca duvide disso! Ah… Feliz Dia Dos Pais. Desculpa por não ser o… o filho que você sonhava…

Me escondo atrás da porta da sala. Ele olha pros lados e come um pedaço do bombom, soluçando.

Seco o rosto.

Durmo o dia todo no sofá da Halmeoni até a hora de voltar pra casa.


Meu celular pisca às 00:00. Jimin está horrível com a cara toda cheia de olheiras na chamada de vídeo.

— Você me ligou pra quê, Jimin?

— Você me ligou primeiro. Eu só retornei.

Estalo a língua. — Liguei, é?

— Ligou!

— Liguei nada.

— Não importa! Cê lembra que dia é hoje?

— Sim. Sexta-feira, dia 05 de setembro de 2025, exatamente meia-noite. O seu aniversário de 19 anos. Parabéns.

— Não, idiota! Hoje é dia dos irmãos! — A voz dele quebra do outro lado. — Parabéns, Yoongi!

— Se você começar a chorar, eu vou desligar.

— Tá, tá. — Ele prende o queixo. — Mas eu sei que você tá usando meu hidratante de babosa, mano.

— Tô nada.

— Sua cara tá brilhando.

— Tá nada.

— Como… tá o Solaris?

— Uma loucura por causa do aniversário de Costaré.

— Cê tá achando tudo estranho, né?

— Não muito. Dá pro gasto.

Mando fotos dos varais retráteis da lavanderia, das secadoras novas, dos fliperamas e dos karaokês da sala de jogos pra ele.

— Tá ficando muito bom. Parece que triplicou de tamanho.

— Você tá feliz?

— Minha mãe fez a escolha dela.

A gente boceja ao mesmo tempo.

— Vou dormir — digo —, Tchau.

— Cê ficou acordado até agora só pra me dar feliz aniversário, não ficou?

Sussurro “tchau”.

— Eu te amo, mano — Jimin diz antes de chorar.

Minha voz quebra antes que eu o responda.

Envio pra ele uma foto do hidratante de babosa com um emoji de coração azul.

Ele me entope de fotos da Beauty Fair. Curto todas.

Passo um pouco mais do creme antes de dormir, espalhando o cheiro de carne seca no ar.


Lali e Jungkook cruzam o jardim com baquetas na mão, rindo alto.


Lali e Namjoon correm com capas-plásticas de lavanderia nas mãos. Dentro de uma delas tem uma peça que parece um hanbok branco com enfeites esquisitos.

Isso… é uma asa?

Balanço a cabeça.


Namjoon passa por mim segurando mais um daqueles envelopes enormes de roupa. Dessa vez é um terno preto com detalhes dourados.

Ele ri baixo antes de se debruçar no balcão, e suas olheiras quase me fazem tropeçar de susto.

— Chefinho…

— Eu não sou mais seu gerente.

— Yoongi…

— Que é…?

— Você não liga?

— Pra quê?

— Pra essa “amizade” da Lali e do Kookie?

Faço uma careta. — Eu não poderia me importar menos.

— Queria que o Jimin tivesse aqui. Ele ia concordar comigo.

— Concordar com o quê?

— Namjoon! — Alice dispara na direção dele. — Desculpa, Yoongi! A Lali quer a sua ajuda na finalização da bainha!

Se o Jimin tivesse aqui ele ia… ia…

Fazer uma cara daquelas!

Mas qual?


Chega um pedido com 11 caixas na recepção.

Lali assina os documentos, sorrindo largo.

Eu a ajudo a carregar tudo em silêncio até a porta do quarto.

Ela só fica me olhando, com os olhos marejados e os dedos tremendo ao tocar nas cartas.

Os pôsteres de rock dela sumiram.

As paredes estão cobertas de artigos de moda da Bergamaschi Tessuti e pôsteres da Zuzu Angel, Chanel, Gucci, Versace e outras marcas e artistas que eu não sei pronunciar.

Tem um álbum de fotos de 2006 dos pais dela. Estão tão desbotadas que parecem dos anos 80.

Em outro álbum, tem fotos dela com 6 anos.

A risada dela ecoa na minha memória:

— Você ia ser meu crush!

— Eu também ia ser sua crush, tenho certeza!

Chacoalho a cabeça.

Lali fura uma das caixas com estilete. Sem tremer. Sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Rio baixo e saio devagar.

Quando chego no meu quarto, tudo está escuro.

Duri deita na minha barriga e ronrona alto, abafando o barulho das minhas lágrimas.


Instalam novas plantas na área da piscina, reformaram o deck. Novas espreguiçadeiras. E um mural pra que os hóspedes possam grafitar seus próprios trabalhos, mas mantiveram a arte do Brasil do Namjoon.


Fazia tempo que eu não entrava no meu refúgio. Hoje ainda é dia 2 de outubro.

Tem um balcão de madeira escura, um neon esverdeado escrito SOLARIS PUB, luzes rosas e pretas, mesas baixas e inúmeras almofadas. Programação de música ao vivo colada na parede com pagode, sertanejo e K-pop.

Mesas redondas. Mural com o mapa-múndi. Bandeiras. Placas.


Desço da van do Solaris. O Centro está lotado de pessoas pra comemoração dos 172 anos do Aniversário de Costaré do dia 10/10.

Durante o Hino, Lali congela do meu lado. Sigo o olhar dela. Tem duas mulheres conversando, elas parecem ter uns 50 anos. E elas não me são estranhas, mas nada me vem à mente na hora.

Isso vai dar muito ruim.