Anything But Ordinary
21 Andar na linha faria da minha vida um tédio
CAPÍTULO 21: Andar na linha faria da minha vida um tédio
MEU SORRISO SE DESFAZ SOZINHO. A Nonna desliga a ligação com um meio sorriso e o Nonno coloca uma mão no peito, jogando um beijo no ar.
— Não fica assim, Lali! — Namjoon me diz —, tudo vai se resolver!
— Eu sei, mas… eu vou ter que abandonar tudo que eu quero fazer? E… e o meu nome, Namjoon? E o meu ateliê? Eles… eles não falaram nada da faculdade! Hoje já é… Deixa eu ver!
Desbloqueio a tela do celular dele.
11 de outubro de 2025, 12:00
— …dia 11, Namjoon! Falta dois meses e pouco pra viagem! Eles falaram que iam cuidar de tudo, então por que só me avisaram disso em cima da hora? Se eu soubesse de tudo antes, eu… tinha… eu… eu…
Namjoon ri.
— …não sei mais o que pensar!
Tudo que minha mente faz é criar uma fantasia de mim mesma: eu, sozinha, chorando no avião, com os braços cruzados contra o peito e o rímel borrado.
— Olha o que eu te encaminhei no e-mail.
São detalhes do TCC dele.
— Você sabe que se tudo der certo, eu vou fazer de tudo pra abrir a minha marca e lançar a coleção de verdade. A porta sempre vai tá aberta pra você.
Eu o abraço.
Namjoon faz carinho no meu cabelo.
Meu celular apita.
Abro a boca. — A Nonna me mandou um link.
BERGAMASCHI TESSUTI RICONOSCE LA NUOVA EREDE DELLA FAMIGLIA
Tem uma foto minha, a logo da marca e uma foto da minha família no artigo.
LALI FA PARTE DELLA NOSTRA FAMIGLIA
È sempre stata una di noi.
Ativo a tradução simultânea.
“Quando a Bergamaschi Tessuti foi fundada em 1960, seu objetivo principal era transformar sonhos em realidade com tecidos da mais alta qualidade. Hoje, somos reconhecidos em todo o mercado por nossos acabamentos meticulosos, linhas limpas e detalhes artesanais. Evoluímos junto com a indústria da moda italiana, preservando nossas tradições e atravessando gerações graças ao trabalho duro.
A Bergamaschi Tessuti lamenta a propagação de comentários infundados sobre a vida de pessoas que já não podem contar suas próprias histórias. Pedimos respeito aos nomes e à memória de Jacopo Bergamaschi e Beatriz Carvalho. Quaisquer comentários que fomentem ataques, preconceito ou alegações sem fundamento estarão sujeitos a medidas legais.
Jacopo escolheu construir sua própria família fora de Milão e encontrou a felicidade. Beatriz juntou-se a ele na construção de uma nova vida.
Dessa história, nasceu Lali. Nascida em 13 de maio de 2007, ela sempre carregou consigo o legado e talento da família Bergamaschi.”
Bloqueio a tela. — P-por quê eles só falaram agora? Pra me… me confundir? Que golpe baixo!
— Descansa, Lali. — Namjoon me deixa sozinha no quarto.
Reativo os comentários nas minhas publicações.
Em meia hora, meu celular é inundado por notificações. Mais de 300 novos seguidores. Comentários. Compartilhamentos. Curtidas.
Meu olho arde.
Minha mão treme.
A garganta dói.
VCS VIRAM O PRONUNCIAMENTO DA FAMÍLIA BERGAMASCHI?
DIVA QUE EU NUNCA JULGUEI!!!
EU SEMPRE SOUBE QUE VC ERA UMA QUEEN!!!
MOSTRA PRA GENTE A SUA ROTINA DE HERDEIRA!!!
COSTURA O VESTIDO DO MEU CASAMENTO!!!
QUE DESIGNS PERFEITOS!!!
LALI RAINHA, KIRA NADINHA!!!
KIRA FILHA DA PUTA, VAGABUNDA, MENTIROSA, SALAFRÁRIA!!!
ESSA KIRA MERECE MORRER!!!
NUNCA FIQUEI DO LADO DESSA KIRA!!!
MOSTRA PRA ELES QUEM É A PLAGIAMASCHI DE VERDADE!!!
A KIRA MORRE DE INVEJA DE VOCÊ, POR ISSO ELA APAGOU OS VÍDEOS!!!
PERFEITAAAAAAAAAA!!!
DIVA MARAVILHOSA QUE NUNCA ERROU!!!
SE ERROU, FOI TENTANDO ACERTAR!!!
NUNCA ERROU!!!
VC É A MAIS MAIS DE COSTARÉ!!!
APAGA QUE AINDA DÁ TEMPO, HATERS!!!
BORA DERRUBAR A CONTA DA KIRA DINIZ!!!
NÃO TINHA VC NÃO SER DESSA FAMÍLIA!!! OLHA O TALENTO!!! TÁ NO SANGUE MESMO!!!
Demoro uns minutos pra bloquear a tela e puxar o ar com força.
Me jogo na cama. — Então é isso?
Repasso cada frase da Nonna na cabeça:
— Você deve trabalhar como a Bergamaschi Tessuti sempre trabalhou!
— Mesmo mantendo os nossos traços, você criou peças muito diferentes da nossa marca e nós não gostamos disso!
— Respeite o nosso legado!
— Existem coisas que não podem ser mudadas!
— Seu estilo atual infelizmente não é profissional o suficiente!
Meu celular apita de novo. — SACO! Vou te jogar longe!
A tela vibra com uma ligação do Jungkook.
— Que é?
— Cê vai amanhã?
— Ah, é… Desculpa, eu tô com tanta coisa pra resolver que tinha até esquecido!
— Se você desmarcar, eu não vou ficar bravo.
— Não, quê isso! Eu vou sim! Pode marcar!
— Então tá…
— Você tá meio triste, Jungkook…
— Tô não…
— Tomara que seja legal porque eu não quero acordar 5 da manhã à toa!
— Vai ser.
Alice me liga um minuto depois.
Merda, esqueci!
— Cê tá pronta? A gente tá te esperando!
— Cinco minutos!
Disparo pro banheiro.
A água quase fura o meu cérebro de tão gelada.
Participação de 12%.
12%.
12.
Seco o corpo.
Aqui, eu vou ganhar pouco! Vou praticamente trabalhar de graça!
Lá é melhor!
É melhor!
É—
Penteio o cabelo com força. — Eu não posso virar escrava do dinheiro!
Não. Posso.
Espalho a maquiagem. — Mas eu não quero demorar pra ganhar dinheiro!
Não. Quero.
Afivelo o cinto do macacão. — Eu não quero depender 100% deles!
Encosto a testa no espelho.
Que merda! Merda! MERDA!
Pego um Uber até a Serra Dorata.
A recepção do Village do Sol está lotada de caixas e móveis. O vento arrepia a pele, mas o sol e os meus passos me esquentam depressa.
Limpo o suor da testa na terceira subida.
— O mundo tá aqui dentro, Rosé? Cê precisava mesmo ter escolhido um prédio tão longe?
— ANDA!
Firmo a caixa nas mãos, me arrastando pelos degraus.
O quartinho está cheio de poeira, quadros mal-pendurados e paredes descascando. “ELEANOR INTERIORES” brilha no topo do lado das fotos dela.
— Tá ficando massa.
Alice coloca mais uma caixa no chão e tira um cacho do rosto, fazendo suas argolas balançarem. — Bora?
Enquanto Namjoon e Jimin pintam as paredes do estúdio da Rosé de branco, Alice e eu pintamos as da sala de verde menta.
E Rosé só fica nos dando ordens, se abanando com um pedaço de papelão. — Mais pra esquerda, caubói. E você vai mais pra direita, Parquinho.
Parquinho?
Prendo a risada.
Namjoon quase se engasga de tanto rir da cara do Jimin.
Jimin suja Namjoon e Rosé de tinta.
Ela corre atrás deles.
Varro o chão. Passo pano. Troco lâmpadas. Meus shorts e minha regata ficam mais desfiados do que a salopete da Rosé.
Alice traz pão de queijo pra mim. — Come tudo antes que alguém devore.
Jimin e Alice tentam roubar o pratinho de mim.
— EI!
Me escondo na área de serviço.
Jimin e Namjoon voltam pro Solaris.
Rosé está roncando no sofá. Eu a derrubo no tapete.
Ela se levanta, me xingando em coreano.
— Já que você não vai ajudar ninguém a reformar um negócio que é do seu interesse, dá adeus pro seu vestido!
Ela corre atrás de mim com o rodo. — Você vai deixar meu apartamento horrível desse jeito, Lali?
Rosé tropeça no balde de tinta roxa.
Alice gargalha.
Tomo um banho e visto meu pijama de cetim.
Alice vai logo depois de mim e volta usando um conjunto de moletom de coraçõezinhos roxos.
Esperamos Rosé na sala com o YouTube Music ligado na minha playlist.
— Foi difícil convencer seus pais que cês iam morar sozinhas? — pergunto.
— Sim. — Alice sorri de lado. — Meu pai surtou, mas depois ele relaxou.
— Eu já imaginava.
Rosé entra na sala, espalhando cheiro de sabonete de coco no ar. Seu pijama de zebra me faz rir.
Ela mexe os ombros. — Meu pai jogou na minha cara que eu não sei nem usar a máquina de lavar. Logo ele que já brigou com a minha mãe porque jogava detergente no lugar do sabão em pó.
— Você mal mal sabe fritar um ovo, Rosé — Alice diz.
— Falou a maior cozinheira da Camélia!
— Sou mesmo!
— Então prova fazendo uma pizza pra comemorar a nossa mudança!
Elas se olham por um segundo antes da Alice bater palmas.
— Boa ideia, vou pedir agora! — Alice desbloqueia seu celular.
Rosé enche um colchão inflável no centro da sala.
Me jogo no meio das duas.
— Engraçado — Alice diz —, pela primeira vez você não tá com ciúmes de mim. Você aceitou de boas que eu ia morar com a Rosé, Lali.
— Tô sim, só que agora eu sei disfarçar melhor.
Rosé esfrega os olhos. — Credo, você ficou com ciúmes só dela? Achei que eu era importante pra você!
Dou dedo pra ela.
Rosé gira a chave no dedo. — Ah, tinha esquecido! Pega!
— P-pra quê?
— Pra você abrir a porta e ver se acha os neurônios que tão te fazendo falta. É pra você usar, né? Óbvio!
— Sério?
— Claro. — Alice me abraça. — Sempre que você quiser, é só vir aqui.
— Mesmo se vocês não tiverem?
— Aham.
Seco o rosto. — Cês confiam em mim tanto assim?
Rosé boceja. — Você vai roubar o quê de duas fodidas que saíram de casa só com a roupa do corpo? Nem o meu telescópio eu trouxe. Se não fosse o Namjoon e o Jimin, ai, ai. Quero nem pensar…
Respiro fundo. — Vocês têm sorte de ter eles, né? Dê valor!
— Eu? Dar valor? Esse apartamento é quente, longe de tudo e o aluguel é caro.
— É mais barato do que o que você queria Rosé — Alice diz.
— Mas isso não vem ao caso, Alice.
— Vem sim! Para de reclamar!
— Vai pra merda!
— Quanto amor — Alice exclama —, acho que vou até chorar de emoção!
— Vocês não tão bem da cabeça — digo.
Rosé ri. — Só bate na porta antes de vir, tá, Lali? Vai que você pega eu e o Namjoon tran—
Alice e eu tapamos a boca dela.
Rosé se joga no colchão. — Eu ia falar trancando a porta, suas imundas!
Solto o ar devagar.
Giro a chave. — Cês… têm coragem de ir comigo na Casa Jovem amanhã de tarde?
— Pra quê? — Rosé pergunta.
— Eu quero saber se eles têm o endereço da minha tia.
— Tá.
— Ok.
— E… me fala uma coisa! Vocês…
Elas me olham.
— …acham que a gente tem que fazer só o que ama?
— Não — Alice diz —, porque isso não combina com a vida adulta.
Faço uma cara de choro. — Valeu por estragar meu sonho.
— Você que perguntou!
— Vou ter que concordar com a Liz. — Rosé liga a TV. — Inventaram essa historinha e tem gente que acredita.
— Se eu fizesse só o que eu amo, acho que eu ia passar fome — Alice diz.
— Maquiagem? — pergunto.
— É. Foi por isso que eu entrei no Direito.
— Mas têm um monte de maquiador rico, Alice!
— Sim… Mas eu não tinha o apoio dos meus pais. Eles achavam que era loucura. Eu ia ter que cobrar barato no começo até conseguir ter um público fiel. Fazer muita divulgação. Não sei se eu ia ter cabeça pra tudo isso. Por isso, eu segui o caminho mais fácil.
Rosé e eu arregalamos os olhos juntas. — FÁCIL?
— Não falo fácil no sentido de ser uma profissão simples, mas no sentido de seguro. Só de saber que meus pais não foram contra, eu fiquei feliz.
— Entendi.
— Pensa no nosso trabalho no Solaris. Foi desse jeito, não foi? Você entrou lá porque precisava da grana. Só depois você começou a gostar.
— Ainda não gosto 100% de tudo. Tem uns hóspedes idiotas e… eu não sou a melhor pessoa do mundo com atendimento. Cê sabe.
— É a vida, né?
— Mas você não se arrependeu em nenhum momento de ter ido pela cabeça dos outros? — Rosé pergunta.
— Não.
Rosé se debruça no sofá. — Eu acho que tem que ter um equilíbrio. Não precisa ser uma profissão que você ama, mas também não tem que ser uma coisa horrorosa.
— Que engraçado vocês duas sem brigar — digo.
— Isso é porque você não viu o tanto que a gente já brigou. — Alice finge enforcar a Rosé e beija a bochecha dela. — Tá pra nascer alguém mais desorganizado que essa garota.
— Ela me ama. — Rosé joga um beijo no ar.
— Quem me dera morar aqui com vocês.
— Se um dia você voltar pra Costaré, é só falar. — Alice entrelaça nossos braços.
— Mas até lá eu já vou ter casado — Rosé exclama —, cês acham que eu vou ficar namorando pra sempre?
Alice e eu tapamos a boca.
— Cê acabou de assumir o Namjoon, é isso mesmo? — grito.
Rosé fica da cor de uma beterraba. — Ca-la-da!
Alice e eu tombamos no chão.
Depois de três episódios de Todo Mundo Odeia o Chris, pergunto:
— Cês acham que eu devia ir mesmo?
— Pra Milão ou pro Solaris? — Rosé ri.
Reviro os olhos. — Milão.
— Cê quer que eu destrua seu sonho ou que eu minta?
— Quero uma resposta sincera.
— Acho. Você finalmente vai morar com a sua família, vai ter uma vida confortável e vai fazer o que gosta. É burrice fugir do óbvio.
— Mas…
Alice se senta do meu lado. — Por que cê tá assim?
— É que… eu sempre sonhei em ter um ateliê com o meu nome em Milão… Estudar no Marangoni… Poder sentir aquele cheiro de livro caro… O vapor dos ferros… Do couro… Os melhores linhos… Criar várias coleções… Só de imaginar os desfiles, eu já quero chorar… Todos os strass que eu ia usar… As paletas de cores… Os quadros na parede… As visitas dos designers famosos que eu ia receber… Mas… isso tá longe de acontecer um dia… Porque… eu não vou poder fazer nada sem a autorização da minha família… Tudo tem que seguir o estilo deles… Tudo. Eu só fico pensando que eu sou ingrata porque era tudo que eu queria. Ir pra lá… Estudar. Morar. E… e agora que eu vou… a minha mente fica me falando que eu tenho que ficar aqui… como se eu não fosse gostar tanto de lá como eu achava… como se eu tivesse traindo uma coisa que eu sempre quis ter… Não faz sentido, eu sei!
Rosé boceja. — Eita como é pessimista!
— Eu te entendo — Alice diz.
— Brigada.
— Só não entendi direito esse medo de não gostar de lá — Rosé diz.
— Nem eu entendi.
— Isso é só medo ou tem algo a mais?
Meus ombros doem quando eu respiro rápido. — Não sei!
— Ninguém tá pedindo pra você morrer lá ou aqui!
— Rosé! — Alice e eu gritamos.
— Eu menti? Você não tá indo embora pra sempre, tá?
A TV fica mais alta.
— …em qualquer canto, você vai ter problemas.
— Valeu por falar uma coisa que eu já sabia!
— Não parece! Pensa: qual lugar tem mais oportunidades?
Alice rói as unhas.
Cruzo os braços.
— Ahn? — Rosé bufa. — Fala, Lali: onde tem desfile? Onde tá a sua família?
— Milão — sussurro.
— Não entendi.
— MILÃO!
— E onde você tá agora?
— Costaré… Cê vai ficar me perguntando essas coisas pra quê?
Ela sinaliza “shh”, e continua:
— Onde você tem mais oportunidade de ter seu próprio ateliê e ficar com o dinheiro todo pra você?
— Mas—
— É pouco? É pouco! Mas onde, Lali?
— Costaré.
— Então pronto. Já te respondi.
— Isso foi pra me ajudar ou me confundir? Não ajudou em nada, sinceramente!
— Ai, como você é tapada, garota! Deixa eu te contar uma historinha: há cinco anos, uma jovem muito linda e inteligente vivia às custas dos pais dela. A família dela ganhava horrores de dinheiro sujo e queria que ela fosse médica pra tentar abafar as fofocas que faziam. Sabe o que essa garota fez? Ela cursou Design. Os pais dela disseram “cê tá doida?”, “você é muito ingrata”, “nós podíamos ter te mandado estudar fora do país”, e mesmo assim ela não quis. Ela se arrependeu? Se arrependeu, lógico, porque ela sabe que poderia estar ganhando bem mais agora. Tudo que ela queria era ter essa estabilidade que todo mundo fala. Mas… ela… ela simplesmente não conseguiu. Tinha alguma coisa entalada na garganta dela. Mesmo doando o dinheiro sujo que ela ganhava de mesada, ela ainda se sentia uma imundice. Ela nem sabia porque tinha escolhido Design de Interiores. Até que um dia… Ela viu que sonhar era bom, mas viver era melhor.
A imagem do Yoongi segurando as minhas mãos depois do nosso primeiro beijo na cachoeira cruza a minha mente:
— Sonhar e viver? Tinha que ser com você!
Abro um sorriso de canto.
— …e tudo isso porque um cliente disse a ela que ela o ajudou a realizar seu sonho de infância: ter uma suíte igual a do Stardoll.
Alice e eu rimos.
Rosé limpa as bochechas. — Lali, se você falar que me viu chorando pra alguém, eu juro que te jogo dessa janela! Você também, Liz!
Alice e eu rimos de novo.
— Não sei se eu entendi direito o que você quis dizer, — falo —, mas valeu, Rosé.
— Não precisa ter medo, Lali. — Alice sorri.
— Se até do insuportável do Yoon você começou a gostar, imagina não gostar de morar na Europa?
— Cala a boca, Rosé!
— Aff, pior que eu ainda shippo vocês! — Alice grita.
— Fica quieta você também!
Elas me fazem cócegas.
Rosé balança a cabeça. — No último capítulo que eu vi dessa novela, você tava quase pegando aquele novinho lá.
Alice abafa a risada.
Enrugo a testa. — Novinho? Que novinho?
— O Jungkook. Ah, é. Ele tem a sua idade. É que pra mim ele é meio infantil, mas ok. Desculpa.
— Cê tá me chamando de criança?
— Não. Você não é tanto quanto eu pensava na primeira vez que eu te conheci. Agora voltando ao assunto: o que aconteceu depois do episódio do primeiro encontro?
— Que encontro? A gente só é amigo!
— Amigo dá aula de bateria um pro outro?
— Ele me chamou pra assistir o ensaio da banda dele, e daí?
Alice ri. — Você é amiga dele. Agora se ele é só seu amigo, aí já não sei de mais nada.
Rosé me dá uma cotovelada. — Ele tá doido pra te pegar, sua sonsa! Acorda! Vai falar que cê também não quer pegar ele?
— Não, eu não quero!
— SEI!
Rosé segura Alice pelos ombros. — Se eles se pegarem em menos de uma semana, você me deve um balde de soju.
Alice aperta a mão da Rosé. — Não dou nem dois dias.
Desvio das cócegas delas, recuperando o fôlego.
Às 3:30, peço um Uber moto pra voltar pro Solaris.
Me arrumo depressa.
Ajeito os shorts-saia antes de sair do quarto.
Jungkook está escorado no balcão da recepção às 4:40, mexendo no celular. Seu macacão de neoprene é azul do mesmo tom claro do meu conjunto florido.
Perco o tempo de fazer uma piada sobre estarmos combinando.
Meu olhar trava no Yoongi. Conversando com a mesma gringa de ontem. Os cachos loiros dela estão presos num coque e ela sorri pra ele, se inclinando e falando sobre os passeios do Solaris.
Ergo o queixo. — Cê sabe quem é essa mulher?
Jungkook mexe a cabeça. — Sim. Eu fiz o check-in dela ontem. Caroline.
— Ela é de onde?
— Se não me engano, da Austrália.
— Tendi. Que mais você sabe?
— Que ela é arquiteta.
— Arquiteta?
Ah… então ela combina com você, Yoongi.
— E também sei que a gente vai perder o nascer do sol se demorar mais tempo aqui.
Minha cara pega fogo.
Tusso forçado.
Yoongi me olha por um segundo.
Desce os olhos pras Havaianas dele nos meus pés.
E coloca uma mão na cintura.
Os olhos dele me perguntam “Você não vai me devolver mesmo, né, garota?” e os meus o respondem “Nem morta!”
Caroline sorri, acenando pra nós. — Hey! Good morning!
Morning? Por acaso você é maluca? Acordou 5 da manhã só pra ficar conversando com o Yoongi?
— Hey! — digo. — E bye!
Puxo Jungkook pra rua, batendo as Havaianas no chão com força.
— Você fica bonita assim toda de azul, Miss Renda.
— V-valeu, Mister Alpargata.
Jungkook morde o piercing do lábio inferior, encurtando o espaço entre nós.
Congelo.
Ele tira uma camélia amarela da mochila e me faz cheirar as pétalas devagar.
— Uma flor para outra flor.
— Isso foi muito brega.
Jungkook me faz cosquinha. — Mal-educada, era pra você me agradecer! Cê tem muita sorte de me conhecer, sabia? Eu nunca ganhei flor de ninguém!
— Obrigada. Um dia eu te dou um buquê.
— Vou cobrar. — Ele pisca, beijando minha bochecha.
Travo de novo.
— A gente conseguiu escolher o nome da banda.
— Sério?
— Sim. “Camellia Seeds”.
— Gostei. Vai ser top vocês tocando na inauguração.
— Vai.
Na Praia dos Pescadores, me desequilibro na prancha a cada dois minutos, mas no final pego a manha. A vista do nascer do sol me arranca algumas lágrimas junto dos primos do Jungkook brincando de correr na areia. Me faz lembrar da Casa Jovem. Dos poucos momentos que eu sorria quando ganhava de todo mundo apostando corrida.
Sem pensar duas vezes, eu corro.
Jungkook me segue.
A gente cansa de correr e volta pra água e se senta cada um na sua prancha. Paro de remar quando estamos perto da Pedra Haru.
Nem tenho tempo de piscar direito. As ondas balançam alto ao nosso redor quando ele aproxima a boca da minha. Cada vez que eu mexo a cabeça, tento me concentrar no movimento dos lábios macios dele, mas o calor trava minha garganta.
Jungkook se separa de mim com vários selinhos e um sorriso que me faz tremer e querer nadar pra bem longe ao mesmo tempo. Os braços dele estão quentes na minha cintura. Ele cheira à sal.
Me afasto dele, com as vistas ardendo. — Desculpa, Jungkook… eu… eu…
— Eu sei. Você não tá afim de mim que nem eu…
— É legal ficar perto de você… Eu amo a sua companhia. A gente se diverte horrores, mas… mas eu não acho justo eu… eu mentir pra você desse jeito… não… não é…
— Não sou eu, né?
Balanço a cabeça, soltando um soluço baixo.
— Bem que eu queria que as vozes da minha cabeça tivessem mentindo, Lali
— E-então por que cê me beijou mesmo assim?
— Porque eu me enganei… achei que eu tinha alguma chance, bem lá no fundo… Eu… tô atrasado, né?
Sorrio de canto.
— Mas… acontece, né?
— Você é legal e beija super bem, mas… não é justo eu mentir pra alguém tão legal que nem você. Perdão.
— Tudo bem, Lali. A gente pode ser amigo? Não quero que fique um clima ruim.
— Pode.
Jungkook se despede de mim e me deixa na recepção.
Preciso falar pra Rosé cobrar o balde pra Alice. Mereço pelo menos uma garrafa pra desestressar.
Caroline e Yoongi ainda estão inclinados um na direção do outro, conversando baixo como se ele não estivesse no meio do expediente. Rafael não se importa de trabalhar sozinho.
Cerro os punhos. Por que você passou horas conversando com essa mulher?
O que ela tem de tão interessante que eu não tenho?
Comigo você mal fala! Já faz meses!
Passo a língua pelos dentes, soltando uma risada sem som. Claro. Ela é nerd que nem você. Vocês devem ter um milhão de coisas em comum.
Continua seu papinho!
Eles riem baixo, falando algo que eu não entendo.
E nem quero.
Era pra você ter me visto com o Jungkook! Era pra tá chorando de ciúme agora!
Idiota!
Quem você pensa que é pra me esquecer assim tão rápido?
Hein…?
Hein, gatinho?
Enxugo o rosto. Eu sou uma idiota mesmo.
Volto pro quarto e tomo um banho. Faço uma trança meio largada no cabelo e passo bastante maquiagem.
Rosé e Alice continuam me apressando no grupo.
As borboletas laranjas da minha t-shirt refletem no monitor de check-in da recepção.
Vamos de metrô até o Centro. O caminho parece um borrão de suor, lágrimas e frio.
Quando o letreiro da Casa Jovem surge na luz da tarde, minhas pernas tremem.
Toco o interfone.
A voz de uma mulher soa alta no meio dos chiados:
— Serviço de Acolhimento Institucional Casa Jovem de Costaré, bom dia. Em que posso ajudar?
— É… Bom dia! Eu…
Tiro o suor dos dedos no macacão.
Alice e Rosé sorriem.
— Meu nome é Lali Carvalho Bergamaschi! Eu morei aí de 2015 até maio desse ano! Eu queria saber se… se eu posso falar com a diretora Juliana! Ela tá aí?
— Sinto muito. Ela foi desligada da Instituição no mês passado.
— D-desligada? Por quê?
— Não posso te dar informações adicionais pra não ferir a Ética. Posso te ajudar com mais alguma coisa?
— É… Você teria como ver se no meu registro tem o endereço da minha Tia Margot? Ela era uma das pessoas que podia ter me adotado, mas… Enfim. Tem?
— Não tenho autorização pra esse tipo de procedimento, moça.
Rosé me empurra. — Moça…
Alice e eu trocamos um olhar.
— Por favor! — Rosé força uma voz de choro. — Minha amiga saiu lá de longe!
Alice puxa Rosé.
— só pra ver essa tia dela…
— ROSÉ!
— …e a gente quase perdeu tudo no caminho! Você não tem coração, hein, moça?
— ROSÉ!
…a gente quase foi roubada vindo aqui! E se for a última chance dela amiga ver a tia antes de morr—
— ESPERA!
Outro bip soa.
Dou um tapa no ombro da Rosé. — E se isso acontecer de verdade, sua doida?
Rosé me mostra a língua.
— É. — Alice dá outro tapa nela. — Jogando praga na gente.
— Eu tinha que fazer alguma coisa.
— TINHA?
— Se vocês querem ficar aqui até de manhã, então fica, ué! O problema não é meu!
O bip soa de novo.
— Anota o endereço, por gentileza, moça. Talvez esteja desatualizado, mas é o melhor que eu pude fazer.
— Cê devia era me agradecer — Rosé sussurra.
— Fica em Campo Grande — exclamo —, bora?
Alice nos puxa na direção da entrada da Estação Juscelino Kubitscheck.
Como se hoje fosse um dia quente, um cachorro caramelo gordo dorme de barriga pra cima na calçada. Alice faz carinho nele.
Rosé toca a campainha.
Levanto a cabeça. A fachada e as paredes da casa são brancas, e um pé-de-goiaba se estende até o prédio do vizinho.
Minha mente fantasia a Tia Margot e eu assistindo TV na sala. Pipoca com grill, suco de goiaba e brigadeiro de ninho com Nutella.
Tia Margot me leva pra escola. As rodinhas se arrastam pelo chão irregular de Campo Grande. Ela briga comigo porque eu matei aula pra ir no Aquário de Costaré com os meus colegas.
Tia Margot me leva na igreja e eu fujo da tia chata da EBD.
Tia Margot e eu somos expulsas do cinema porque eu não calo a boca no meio do filme.
Na praia, finjo que sei nadar. Me afogo. Tia Margot me salva.
Ela transforma cada Natal triste num Natal feliz. Beija minha cabeça. Me põe pra dormir cantando Alecrim Dourado.
Diz que me ama.
Que vai me ajudar a encontrar o Papà.
E que eu não tive culpa de nada.
Nada.
Nada.
Nada.
— Lamento muito, queridas — a voz da proprietária soa gritada no interfone —, ela não mora mais aqui já tem uns três meses. E se ela voltar, eu vou ser a primeira a chamar a polícia!
Engulo a saliva. Polícia?
Alice massageia meus ombros. — Respira. A gente vai achar ela!
Dessa vez, as tentativas da Rosé não funcionam.
— Peraí. — Rosé tira uma mecha do olho e corre pra porta da casa ao lado. — Ô de casa! Ei! Ei! EI!
Ela bate palmas até o vizinho descer as escadas, vermelho da cor das paredes. É um homem gordo, barbudo e de roupão de bolinhas amarelas que deve ter uns 35 anos.
Alice e eu nos encolhemos.
— Que é? — A voz dele é fina. — Testemunha de Jeová? Desculpa, mocinha, eu sou satanista!
Rosé ri. Alice e eu levantamos as sobrancelhas.
— Não tem nada a ver com religião, moço. É que a minha amiga tá procurando a Tia Margot, mas como você pode ver, ela tá tremendo.
— Margot? Ah, aquela vagabunda deu o maior calote na Dona Vânia e sumiu daqui!
— CALOTE?
— Aham. Mó bafafá, menina! Diz ela que ganhou uma grana daquelas.
— Grana “daquelas”? — Alice cruza os braços. — Como assim?
— Até onde a Dona Vânia me falou, ela trabalhava com uma mulher aí. Acho que ela era daquelas bem ricas. Tava todo mundo suspeitando que elas tinham um caso.
— CASO?
O homem suspira. — Essa Margot era esquisita demais: a amargura em pessoa!
Antes que eu grite “lava sua boca pra falar mal da Tia Margot!”, Alice me segura pelos ombros.
— Sério? — Rosé coloca uma mão debaixo do queixo. — Conta mais!
— Sim. Ela só saía de casa pra trabalhar.
— Onde ela trabalhava? — pergunto.
— Num escritório de advocacia.
— A-advocacia?
— É. Aquele famosérrimo da Vila Dorata. Ferraz & Dorata.
— Sei onde é — Alice diz.
— E depois? — Rosé pergunta. — Conta o resto!
— Até onde a Dona Vânia me contou, essa tal patroa da Margot foi presa por maus-tratos infantis e tortura. Disseram que ela botava as crianças no milho e num quartinho sem luz e comida, desviava dinheiro pra esconder envolvimento com o tráfico da Maré Alta.
— TRÁFICO?
— M-maus-tratos? — Minha voz quebra. — Então era a Juliana? Ai meu Deus! É por isso que elas tavam conversando no desfile cívico? Eu vi duas mulheres conversando e… na hora eu travei porque eu… eu não tinha certeza se era mesmo elas… Ai, que arrependimento! Você tem alguma ideia de algum lugar pra onde ela pode ter ido, moço?
Ele se escora no portão. — Não tenho mesmo, moça. Só sei que ela vazou daqui pra não dar merda pra ela também e tá devendo dois meses de aluguel.
— Sinto muito. — Fungo. — Desculpa por tudo, moço. Você pode… me passar o número dela?
Ele digita no meu celular.
— Boa sorte aí na sua busca! — Ele acende um cigarro e volta pra dentro.
— Bora caçar no Instagram — Rosé diz.
Dou um tapa na testa dela. — Caçar onde? Eu já fiz isso! Ela não tem conta!
— Olha se ela segue a Ferraz & Dorata! Tenta um nome menos óbvio!
— Com certeza é uma conta privada, Rosé! E ela não vai dar informações assim tão fácil! É melhor eu desist—
— Achei! — Alice grita.
“Margot Carvalho
Made in 1977
Costaré
Trips”
Tem vários comentários na última e única publicação dela: uma foto do mar da Praia do Lírio de madrugada.
PAGUE O QUE ME DEVE!
CALOTEIRA!
VADIA!
Disco o número dela.
Três bips depois, uma voz feminina soa do outro lado:
— Alô?
Meu coração bate forte.
Tropeço na calçada, mas me levanto com a ajuda da Rosé e da Alice.
— A-alô? Tia Margot?
— Quem é?
— É a… a Lali!
Ela xinga “merda” do outro lado.
— Perdão, não conheço ninguém com esse nome.
— T-tia Margot, por favor! Me escuta! Sou eu! Eu… eu só quero te ver uma vez antes de eu ir embora!
— Olha, garota! — Ela estala a língua. — Eu saio do trabalho às cinco. Acho bom você não demorar.
— M-me manda seu endereço no WhatsApp desse número, Tia!
Ela desliga.
— D-deu, certo! Ela me mandou o endereço. Ela tá trabalhando na recepção de uma escola de inglês.
Alice me abraça de lado. — Tem certeza que cê quer mesmo ir atrás dela, Lali? Porque se ela tiver mesmo metida com esse monte de coisa, não acho que seja uma boa ide—
— Vai ou não vai? — Rosé bufa.
Um arrepio se espalha pelo meu corpo. — Eu… eu quero falar com ela. Eu preciso!
Alice e Rosé tentam me distrair durante o caminho até o metrô, mas minha barriga dói. Minha cabeça dói. Minha garganta.
O prédio é azul-claro com detalhes em amarelo e branco. “FLUENCY 2DAY”.
Às 17:07, Tia Margot desce o último degrau da escada.
Abraça a mochila.
E para na minha frente. Sem expressão. Suas sobrancelhas ainda são grossas, seu cabelo ainda é cor de chocolate e ela ainda não sorri pra mim.
O conjunto preto de alfaiataria alonga sua silhueta. Suas unhas são vermelhas. Ela usa vários colares dourados.
Erro um passo.
Me apoio na parede e Alice e Rosé se tornam dois pontos de luz na outra ponta da rua.
O barulho dos carros é abafado pelo som das minhas lágrimas. O gosto do sal é horrível. O frio é horrível.
Mas o jeito como a Tia Margot me olha é pior.
Ela tem cheiro de baunilha e cigarro. Olheiras. Pés-de-galinha. Franja. Fios brancos.
E uma voz mais fina do que eu lembrava. — Você veio pra quê? Ficar parada?
— Eu… eu…
— Fala logo!
— É verdade, Tia Margot?
— Verdade o quê?
— Você… você quase foi presa por maus-tratos junto com a Juliana? Você trabalhava pra ela?
— Eu cheguei a ajudar ela sim, mas não teve nada a ver com isso, e sim com informações suas.
— Então… foi você…
Tia Margot faz uma careta.
— …que contou tudo…
Outra careta.
— pra Kira?
— É isso mesmo! Fui eu! EU!
— P-por quê, Tia Margot?
— Eu vou te devolver o dinheiro.
— Devolver? Ah, e já foi meu, por acaso?
— Você entendeu, Lali. Não seja idiota!
— Eu? Idiota?
— Agora você não precisa mais de mim. Você tem a família rica do seu Papà. Eu li aquele artigo lá. Cê se deu mó bem, garota! Vai embora quando?
Fecho os punhos. — Quando eu precisei de você, cê não me ajudou, Tia Margot! E eu nem sei se eu vou mesmo pra lá, mas… isso não vem ao caso agora! Eu só… queria te falar uma coisa!
— Tá bom. Eu já sei que vou tomar mais um processo. Já pode ir embora.
— Não, Tia. Eu vou processar a Kira e a Juliana. Você não.
Tia Margot arregala os olhos.
— Pelo amor que eu tenho pela minha mãe —, gaguejo —, eu não vou te processar, Tia. Mas só por ela.
Tia Margot cruza os braços e trava o olhar no chão. — Eu não preciso de pena.
— Quando você… ficou sabendo que eu sofri o acidente… você falou pra polícia que não podia me ajudar… Como você teve coragem, Tia Margot?
— Mas era verdade. Como eu ia ajudar alguém mais fodido que eu?
Abro a boca três vezes.
Coço a nuca.
Dou um tapa no portão. Minha mão arde, mas eu grito:
— Quer saber, Tia Margot? Vai pra casa do caralho! Você sempre vai ser uma pessoa sozinha, sempre! SEMPRE!
Ela me empurra contra o muro, apertando meus braços.
Bato as costas — AI!
Alice e Rosé dão passos lentos na nossa direção.
Tia Margot afrouxa as unhas na minha pele, mas deixa marcas.
— Eu fui ameaçada — ela grita —, cê tá me ouvindo?
— A-ameaçada?
— Eu não queria ter contado nada pra aquela piranha da Kira, mas a Juliana prometeu que ninguém ia saber, ela entrou em contato, foi ela que insistiu! Ela me prometeu que a grana ia valer a pena! Prometeu que eu ia conseguir limpar o meu nome se falasse tudo que eu sabia de você! Mas… mas no final eu ganhei só uma parte!
— Como você pôde… me entregar assim, Tia? Agora eu tenho certeza: você não tem coração, não tem alma! Seu lixo! LIXO!
Ela estala o pescoço. — Quando… quando eu vi as pessoas distorcendo o que eu falei e chamando a Beatriz de puta, eu… eu queria morrer! Morrer, Lali! Eu juro! Mas… aí já era tarde demais!
— Quanto ela te pagou, Tia?
— A minha vida já é uma merda mesmo, então… que diferença faz eu continuar sozinha ou não?
— Quanto. Ela. Te. Pagou?
— Eu… eu sei que eu cometi um erro quando eu não quis você, mas… mas eu… Eu não consigo mais viver na merda! Eu preciso sair disso!
— QUANTO?
— D-dois mil. Dois mil!
— Então eu valia dois mil reais pra você, Tia Margot? A história da sua própria irmã valia só isso? Como você conseguiu fazer isso? E… por quê? Você sabia que a Juliana fazia a gente ajoelhar no milho e que eu tenho marca até hoje? Sabia que ela incentivava a gente a brigar? Sabia que…
Passo um dedo na boca. — Corre, Tia Margot. Tô te falando sério!
— Você se acha muito corajosa, né? Você é só uma pirralha, Lali, já devia ter crescido! Ainda bem que eu não te adotei. Minha vida ia ter sido ainda mais desgraçada!
Acerto um soco na cara dela.
Tia Margot cai sentada na calçada, se contorcendo.
Sacudo a mão que pega fogo. Apoio a outra nos ombros da Alice.
— Respira fundo, Lali. Vamo embora!
Rosé torce um braço da Tia Margot pra trás. — Cê ajuda pra bater nela? Eu já fiz aula de defesa pessoal! Perdão, senhora, mas…
— Rosé!
— Alice!
Tia Margot ri pelo nariz.
Sorrio. — Você tá… tá vendo essas mulheres aqui, Tia Margot? Elas são as minhas melhores amigas. Uma delas tá me ajudando a reconstruir a minha carreira na internet. A outra vai me ajudar a acabar com a vida da Kira e da Juliana na Justiça. Você devia agradecer a Deus por ser irmã da Beatriz, senão você ia ser a próxima!
— Combina com você.
— O quê?
— Acho que você puxou mesmo a sua mãe. Ela a-ma-va novela e filme de ação. Você tá cumprindo o papel dos sonhos dela. Essa vingancinha… esse jeito tosco de falar…
— Não é vingança, Tia. Eu só tô me defendendo. — Agacho na altura dela.
Tia Margot esconde seu rosto com a mochila. — Que que você quer de mim?
— Qualquer coisa que seja da minha mãe. Uma foto. Uma roupa. Qualquer coisa mesmo, eu só preciso
Tia Margot tira uma chave da mochila, rosnando. — Eu já queria me livrar mesmo.
— Quê?
— Minha casa é aquela cinza ali, ó, atravessando a rua! Você tem 5 minutos pra pegar tudo no guarda-roupa roxo e sumir da minha frente de uma vez. Ah, aproveita e joga fora aqueles lixos que você mandava pra mim!
— L-lixos?
— SOME!
Me levanto, cambaleando. — Eu só queria que você tivesse me amado do mesmo jeito que eu te amava, Tia Margot! É tão difícil assim?
Ela limpa as pálpebras.
— Me falaram que… que a gente dá o que pode… Mas… isso é tudo o que você tem? Porque se for… não é o que eu queria!
Tia Margot solta uma risada enquanto derrama mais lágrimas.
— Mas… eu não vou mais carregar isso, Tia Margot: esse ódio. Essa dor toda… Eu… eu só quero ser feliz de novo!
Não tenho nem coragem de me mexer.
Rosé e Alice voltam com as caixas e caminham comigo até o ponto de ônibus.
Passo pela catraca com as vistas ainda doloridas.
Rosé carrega as fotos enquanto Alice me mostra os desenhos e cartinhas que eu fazia pra Tia Margot.
— Pra quê você trouxe isso, Alice? Ela… ela falou pra eu jogar esse monte de lixo fora!
— Lê.
A cada segundo, as cartas ficam mais molhadas.
“Costaré, 19 de setembro de 2013!
Minha Tia Favorita & Mais Linda Do Mundo Margot,
Eu Te Amo D+! A senhora é linda te comunico que eu te amo toda minha altura, todo meu peso, todo meu corpo, todos meus dentes, e… o céu inteiro! Essas só não são as quantidades que eu te amo não! Eu te amo os planetas inteiros e todos né!
Vem me ver na apresentação de Dia das Mães da escola!
E porque você nunca vem na Casa Jovem?
Tô anciosa!
Eu te amor
Você é meu amo
L & M”
— Quando foi que eu escrevi isso? Onde eu tava com a cabeça? Tá… tá escrito tudo errado, tudo rabiscado e… eu… eu odeio ela! Odeio! ODEIO!
Abafo o soluço.
Alice guarda as caixas na mochila.
Rosé me dá um lencinho.
— P-pra onde a gente tá indo, gente? A gente… não passou do ponto?
Alice balança os ombros. — Pro Museu das Sementes.
— Pra quê?
É a vez da Rosé dar de ombros. — Cê gosta de lá, ué.
Descemos em frente ao Parque Costarenho e andamos até o Museu das Sementes. A primeira coisa da nova decoração que surge é o letreiro da entrada:
“A PARTE MAIS FORTE DE UMA ÁRVORE SÃO AS SEMENTES.”
Entro na sala sensorial e o cheiro de laranja se espalha pelo ar. Rosé e Alice se aproximam do mural, sujando uma a outra de tinta amarela.
O nariz do Yoongi sujo de tinta rosa volta a minha memória, me arrancando um sorriso.
Me sento num banquinho e abro as caixas.
Numa das fotos, minha mãe bebe Skol.
Na outra, fala no orelhão da Oi.
Ela usava alpargatas, sapatilhas e tamancos horrorosos. Batas folgadas de estampa florida, saias indianas longas e até misturava balonê com legging (e todas as outras cafonices que os 2000 inventaram como verde neon, tique-taques coloridos, o cabelo quase sempre dividido no meio com ondas bem cheias, batom lilás, sobrancelha marcada e colar de concha.
Seus vestidos não cabem em mim, mas os sapatos são do mesmo tamanho. Suas revistas da Capricho estão desgastadas, seu celular não liga mais e sua voz é engraçada nos vídeos.
— Mamãe… — Esfrego os olhos. — Como eu queria que você ainda tivesse aqui pra eu te levar no Esquadrão da Moda!
Alice me dá uma cotovelada. — Ei, esse vestido de alcinha ficou lindo nela, eu amei a estampa de onça!
— Verdade, ela era tão bonita que nem parecia sua mãe!
— Obrigada pela parte que me toca, Rosé!
— De nada.
— E por que que ela tá com a camisa da França nessa foto?
— Não sei. Acho que ela torceu contra a Itália na final. Talvez foi só pra irritar o meu pai! Por isso que ele se apaixonou!
— Ela foi loba!
Alice pende a cabeça pra trás, gargalhando.
Nas fotos do aniversário de 18 anos da minha mãe, a torta é maior do que o bolo, mesmo minha mãe tendo só quatro convidados. Está cheio de papel crepom rosa-choque, línguas-de-sogra, apitos e balas de coco.
Meus olhos se enchem d’água.
— Quem são esses? — Alice pergunta. — Aquele ruivinho ali era namorado da sua mãe?
— Não sei, mas minha mãe devia ter um crush nele nessa época pela cara.
Passo os dedos devagar pelas fotos da minha mãe grávida de mim. O pôr do sol na Praia da Sereia em Guarapari brilha atrás dela. Canga vermelha. Beijos do meu pai na barriga dela. Beijos na bochecha. Mãos entrelaçadas.
— Foi a sua Tia Margot que tirou? — Alice pergunta.
Solto o ar. — Deve ter sido. Tinha mais fotos dessa viagem no carro…
— Sinto muito…
— Tudo bem…
Uma criança balança minha calça. É um menininho de uns 4 anos, pele escura e cachinhos grandes.
— Tia! Toma!
Ele me entrega um desenho de um rei com uma coroa de abacaxi.
— B-brigada.
O menininho abraça minhas pernas. — O Sr. Acabaxi não gosta de ver ninguém triste. Agora você pode ser a Sra. Acabaxi.
Me abaixo na altura dele. — Fala pro Sr. Acabaxi que eu vou ser muito feliz. E você vai também, meu lindo.
O menininho sorri e beija minha bochecha antes de sair pulando na direção do mural.
Enfio as mãos nos bolsos e vagueio pelo corredor. Deslizo os olhos pelas claraboias, pelos moldes de maracujá e pelos tubos de sementes.
Travo o olhar na mesa de degustação.
Os maracujazinhos de crochê estão dois reais mais caros.
Ai… será?
Mordo o lábio inferior, intercalando o olhar entre os chaveiros e a minha carteira.
No Solaris, a porta do quarto do Yoongi está aberta, espalhando fedor de álcool pelo ar.
Ele diz uma coisa em coreano num tom grogue.
Só entendo “Mianhae”.
Balanço a cabeça.
Não é da minha conta.
Eu não vou me meter. Não vou!
NÃO!
A Nonna me manda uma mensagem.
“Hai già una risposta?”
Digito devagar:
“Sì.”
Yoongi derruba alguma coisa no quarto e solta outro palavrão.
Guardo o celular no bolso.
Duri está dormindo no tapete, ronronando perto dos pés cheios de rugas do Yoongi.
— Cê… tava na piscina?
As mãos trêmulas do Yoongi tomam forma na luz amarelada. Ele termina de vestir a regata verde menta e se inclina pra fechar a porta depois que eu entro.
— Puta merda! Um pinguim ficou preso aqui?
Tem umas cinco garrafas de soju e pacotes de Choco Pie jogados no tapete, e o celular dele está aberto em uma conversa com letras em coreano.
Franzo as sobrancelhas. — G-gatinho?
Yoongi sorri por um segundo. Seu rosto está pálido, as bochechas molhadas e os lábios vermelhos.
Me sento do lado dele no chão.
Ele esconde o rosto no meio das pernas e murmura algo em coreano num tom baixo.
— Que que aconteceu? Você brigou com os seus pais?
— Você quer ficar sozinho, né?
— Como eu vou deixar você aqui… nesse estado?
— Yoongi…?
— Eu tô preocupada com você, gatinho… posso… posso te ajudar?
O que ele diria se tivesse no meu lugar?
Me sento na cama. — Gatinho, eu não sei o que aconteceu, mas… a gente… a gente vai… vai resolver… junto… eu prometo… eu te ajudo!
Ele levanta a cabeça, sorrindo.
— Eu sabia! Cê tava com saudade de me ouvir te chamando assim, né? Desculpa… Eu sei que eu não devia…
Rio no meio de um soluço. Merda, como eu vou consolar alguém sendo que eu tô nesse estado?
Yoongi nega com o indicador. — Eu só tava feliz, Lali…
— F-feliz?
Ele seca meu rosto. — E agora eu tô ainda mais.
Mais.
Mais.
Mais.
Corrijo a postura das costas, comprimindo os lábios.
Yoongi puxa minhas mãos até o cabelo dele.
— Descansa, gatinho.
— Fala de novo.
— Gatinho.
Ele passa as mãos pelas minhas bochechas. Bem devagar. Tremendo. Quente.
— De novo.
— Gatinho…
Yoongi se deita no meu colo e me abraça pela cintura.
— Q-que que você…
Pisco forte. — …tá fazendo?
Yoongi nos coloca de conchinha e gruda a cabeça no meu ombro.
As borboletas na minha barriga doem tanto que até respirar faz meu corpo todo pinicar.
Meu sorriso se alarga. — Como pode você continuar tão cheiroso mesmo depois de enfiar a cara na cachaça? Assim eu não vou conseguir mais sair daqui!
— É só não sair.
— Tô falando sério! Eu vou ficar te cheirando a noite toda!
— Então cheira.
— Não, gatinho!
Ele entrelaça nossos dedos na frente da minha barriga e murmura:
— Fala isso… de novo…
— Não.
— Fala…
— Só se você falar que eu sou linda primeiro.
— Linda. Agora fala!
— Gatinho, meu gatinho emburrado!
Yoongi resmunga “de novo” mais algumas vezes e capota.
Sem que ele perceba, tiro uma foto da mensagem e a traduzo no Google.
É uma mensagem da mãe dele.
“Deu tudo certo, filho!”
Certo o quê?
Duri dorme aos pés do Yoongi.
Cochilo por uns minutos e acabo acordando de madrugada. Yoongi ainda está roncando e me abraçando pela cintura.
Saio do quarto de fininho, sorrindo, pegando fogo e com cheiro de soju e caramelo.
No dia seguinte, entro no Solaris Bar às 18:43 pra inauguração da Caipi & Soju Night. As luzes estão piscando no mesmo tom rosa e preto dos nossos uniformes noturnos com alguns flashes verdes.
Recebo uma notificação no celular.
“A gente pode conversar?”
Minha perna treme. A mão. O queixo. A voz.
A última vez que a minha barriga doeu desse jeito foi ontem no quarto do Yoongi.
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