Anything But Ordinary
22 Amar é o suficiente?
JIMIN PUXA A PINÇA. Seguro a vontade de xingar.
— Cê vai arrancar a minha cara fora?
— Fica quieto! — Ele limita o movimento das minhas mãos.
— Pra quê eu fui topar isso, Senhor?
Jimin me obriga a ficar sentado na cadeira por mais uma hora, platina meu cabelo, hidrata meu rosto com argila e faz a minha barba.
— Pronto!
— Finalmente!
Ele tira fotos minhas e as posta na página de clientes dele com a legenda “Um novo homem. A Jimin Cosmetics é muito mais do que só produtinhos caseiros, é um estilo de vida.”
— Valeu. Agora eu posso roubar um banco sem ninguém me reconhecer. Meus pais vão morrer ainda mais de orgulho de mim. Cê não tem ideia.
— Isso que dá ajudar gente feia a ficar bonita.
— Claro, cê tem experiência nisso, né?
Ele chuta minha panturrilha sem usar força.
Recebo uma mensagem.
Sexta-feira, 24 de outubro19:07— Bora ir logo porque o Seu Marcelo já tá apressando geral no grupo — digo.
As máquinas de fumaça do Solaris Bar disparam luzes rosas, pretas e verdes.
Namjoon chama atenção de um hóspede que ultrapassa o tempo limite na piscina de bolinhas.
Hoseok quase é esmagado ao monitorar a porta da fila pro karaokê.
Maia acha graça dos hóspedes na cabine de vento.
Jungkook corre na direção do palco central, desamassa o uniforme e pega as baquetas, se juntando com o restante da Camellia Seeds. Hoseok afina sua guitarra. João Vitor faz a segunda voz pro Rafael.
— Cê ficou sabendo? — Jimin sussurra.
Dou de ombros. — Do quê?
— Que o Kookie e a Lali ficaram.
Enfio as mãos nos bolsos. — Não tava sabendo de nada não.
— …mas… aí ela deu mó toco nele.
— Ahn?
— É. Ela me falou que gosta de outro cara.
— Outro cara?
— De quem será, né? — Jimin semicerra os olhos.
Tusso e sorrio ao mesmo tempo.
Jimin estapeia minhas costas e me serve um copo d’água. — Ela também me falou outra coisa…
— O-o quê?
— Por que cê tá tremendo tanto, véi? Eu nem falei nada ainda!
— Eu tô normal.
— Você por acaso disse que ia conversar com ela hoje?
— Ela te falou?
— A Alice me falou.
— Tendi, mas que que isso tem a ver?
— Ela vai ficar só um ano em Milão pra resolver a papelada da cidadania, depois vai voltar pra estudar Moda na UDCC.
— Um ano? Estudar na… na UDCC?
— Aliás… eu também tô indo atrás da minha papelada…
— Ah, tendi. Vai ser Seul ou São Paulo?
— Eu vou ficar aqui, mano. — Jimin dá um tapinha no meu ombro.
Raspo a garganta.
— …vou te ver todo dia na UDCC. Vou precisar de modelos bonitos de verdade pra quando eu abrir a Jimin Cosmetics de verdade.
Rio.
Jimin ri também. — Cê tá feliz, né?
Continuo em silêncio.
— Agora sobre a Lali, não é possível que vocês não vão esperar! Passa muito rápido! Ninguém merece jogar uma história inteira no lixo por burrice!
Levanto as mãos. — Alô, alô, alô: liçãozinha de moral às sete da noite? Peraí, Jimin! Hoje é dia de festa! E de trabalho, com licença!
Me posiciono na frente da placa “LET’S PRACTICE KOREAN”. Thaíssa está do meu lado, embaixo de “LET’S PRACTICE GERMAN”.
Bruno registra foto de cada um dos 15 encarregados dos idiomas e nos incentiva a tomar alguns shots (sem exagero).
Tirando o fato de que alguns clientes me perguntam se eu conheço todos os grupos de K-Pop da face da Terra, não é tão ruim.
Alguém me abraça.
Sorrio pra Caroline e me afasto.
— Yoongi, what ya up to?
— Hi… Nothing much…
Recuo antes que ela me beije na boca. — I’m no longer in the mood…
— Why? We had so much fun yesterday!
— It’s all in the past now. Sorry. Have a nice stay.
— Ok. You too! — Ela gira a taça, dançando na direção da pista.
Lali acena pra mim enquanto serve canapés pros clientes que conversam comigo. Seu cabelo bate nos ombros, e parece estar mais dourado que o normal. Sua maquiagem é rosa-claro igual os laços do nosso uniforme. Suas pernas estão mais grossas e com um bronze diferente.
Quando Lali chega perto de mim, consertando os botões da saia preta e o caimento do colete, seu perfume parece ter alguma coisa de laranja. E seus cílios estão bem maiores do que o normal.
É. Cê tá mal mesmo, Yoongi: reparando nos cílios de uma pessoa!
Continuo falando em coreano com mais um grupo de clientes sobre procedimentos estéticos, globalização e rap.
Lali compete contra uma cliente no hóquei de mão e só falta perder os discos de tanto que se estica. Troca as fichas por caipirinha. Ganha de lavada de um hóspede no basquete. Troca as fichas por uma dose de soju.
Ela para na minha frente e sorri. A forma como ela pronuncia “annyeong” me arranca uma risada.
— Aff, para de rir, idiota!
— Não é isso. É que você não pode chegar falando informal com um estranho.
— Estranho? A gente já quase namorou, Yoongi!
— M-me expressei mal. É… nós estamos num ambiente profissional, entendeu?
— Não entendi nada! A ideia do Solaris Bar não era fazer amigos e praticar outras línguas?
— E eu sou dois anos mais velho que você.
— Foi por isso que cê pintou seu cabelo dessa cor? — Lali abafa a risada. — Combinou com você, ficou bem cara de ancião. Brincadeira. Ficou bem descolado.
— Essa cor que você pintou também combina bastante com você.
Lali tenta disfarçar seu rosto vermelho, se abanando. — Você percebeu? É tão perto do meu natural que até agora só a Alice e o Jimin sacaram.
— Percebi. Mas… eu tô aqui pra entreter os hóspedes e clientes e ajudá-los a praticar coreano. O que mais você sabe, senhorita?
— Não sei mais nada.
— Com licença.
— Aff, como você é estraga-prazeres! Pelo menos eu tentei aprender alguma coisa! Você por acaso sabe alguma coisa de italiano?
— Sei.
— O quê?
— Eu aprendi a letra toda de Bella Ciao depois de assistir La Casa de Papel.
— Canta aí então pra eu ver!
— Ver?
Lali revira os olhos e diz “Meu nome é Lali e eu sou brasileira” em coreano.
— Melhorou.
— Agora eu tô focada em aprender inglês, espanhol e italiano.
— Não dá um nó na sua cabeça?
— Dá.
A gente ri ao mesmo tempo.
— Cómo estás? Sabías que… yo solo me voy a quedar… I’ll only stay for one… Como é que fala mesmo… um ano? É… é…
Então era verdade.
Lali desvia o olhar pra porta. — Deixa pra lá!
— Seu espanhol não tá mais tão ruim, Lali.
— Brigada. Eu… eu…
— Que foi?
— Nada…
Ela arrasta a bandeja na direção do balcão. Caíque está ajudando Fernanda a preparar bombas de soju com cerveja, e vários clientes os aplaudem. Lali vira dois shots seguidos.
— Que que tá rolando, hein? — Alice me dá uma cotovelada de brincadeira. — Você e a Lali voltaram?
Jimin ri. — Eu falei que o meu ácido hialurônico era mágico!
Contenho o impulso de empurrar ele na piscina de bolinhas.
— Some daqui vocês dois!
Eles saem, gargalhando.
— Aproveitando a festa, rapaz? — Vinicius dá um tapa fraco nas minhas costas.
— Sim, Seu Vinicius!
Marcelo me cumprimenta com um aperto de mão. — A equipe toda tá de parabéns! A Angeline ia ficar super feliz de ver como o Solaris ficou.
Sorrio. — Ia mesmo.
— Pode curtir bastante, rapaz! Hoje a noite é nossa!
Mexo a cabeça.
Lali me oferece mais canapés. Mordo um recheado com patê de frango e azeitona.
— Muito bom.
Lali limpa minha boca com o guardanapo. Dura um segundo, mas é o suficiente pra deixar minhas mãos tremendo.
Ela raspa a garganta. — Desculpa… Foi o impulso…
— Tranquilo…
Jimin nos serve uma bandeja com doses de gin, piscando e rindo.
Lali o espera sair pra dizer:
— É… eu… queria te perguntar uma coisa…
— O quê?
— Eu… eu vi você com aquela gringa… A tal da… da Caroline… Cês… cês tão ficando?
Escondo o sorriso atrás do copo de gin. — A gente tava.
— Tendi. Eu também fiquei com o Jungkook uma vez… Não deu muito certo…
— Saquei.
— Pena que… que eu ainda gosto de outra pessoa…
Engasgo com o ar.
— Yoongi…
Levanto a cabeça. Os olhos da Lali estão cheios d’água e seu queixo está tremendo.
— O-o que você queria falar comigo? Eu vi a sua mensagem e tô esperando você falar.
— Ah, é… É só que…
Eu tava feliz pelo meu pai e acabei enchendo a cara de cachaça. Acabei dormindo com você. Passei uma vergonha sinistra e não sei como te falar isso.
E eu nem devia mais gostar de você, mas eu gosto.
Eu sou muito idiota mesmo!
— É… me desculpa por aquele mico ontem…
— Desculpo. — Lali funga. — Eu me precipitei… Eu me arrependo…
— Se arrepende do quê?
— De ter falado com a minha família que eu ia embora e que ia ficar um ano direto…
— Ué, cê não vai mais?
— Não é isso… É só que… se você pudesse prometer que ia esperar por mim… A gente ia voltar a ficar junto, Yoongi… Pena que… eu estraguei tudo sendo tão idiota…
Meu rosto arde.
Abro a boca três vezes.
Lali aponta pros laços rosas do meu paletó preto. — Quem foi que deu a ideia de customizar o nosso uniforme assim, hein? Ficou horroroso!
— Acho que foram duas pessoas que queriam todo mundo pagar mico.
— Ei! Era o mínimo depois daquela polo preta básica que o Vinicius fez a gente usar na recepção! Eu e o Jimin arrasamos nessa inauguração, né? Fala a verdade!
Solto uma gargalhada.
— Mas eu ainda prefiro você de gola v marrom listrada — Lali diz.
Prendo o fôlego.
Ela volta devagar pro bar e eu paro no meu posto debaixo da placa.
Se você pudesse prometer que ia esperar por mim…
Voltar a ficar junto…
Junto…
JUNTOS?
Lali passa servindo os hóspedes na minha área.
— Yoongi, seu aniversário é domingo, né?
— É.
— Quer dançar comigo pra comemorar?
— Não… Valeu…
Jungkook apresenta sua banda de rock depois deles finalizarem a terceira música.
— Essa eu vou dedicar pra uma garota que trouxe buquês pra todo mundo pra comemorar a nossa estreia: Lila Bergamota!
Lila Bergamota?
Lali mostra o dedo do meio pro Jungkook.
Gargalho junto com o restante da equipe.
Lali mexe a cintura no ritmo da música, sem parar de servir os hóspedes da minha área.
Esbarrando em mim de propósito, ela passa o guardanapo pelo canto da minha boca duas vezes.
Não é possível!
Minhas pernas formigam.
— Tem certeza que cê não quer dançar comigo?
Lali me puxa pra longe dos balcões. A gente atravessa a fumaça colorida juntos. O volume das caixas de som e dos fliperamas diminui.
— Você dança muito mal, Lali.
— Oxe, mas eu aprendi com você!
— Ah, é? — sussurro. — Fui eu que te ensinei a dançar tão mal assim, é?
— Sim. — Ela encurta o espaço, a um centímetro da minha boca.
— L-Lali…
— Sim?
— Você é leve.
— Eu sei! Eu peso 65. Queria chegar nos 70 pelo menos até final do ano porque naquele teste de IMC o robozinho do Google falou que o meu tava baixo por causa da altura!
Pisco forte e ela continua:
— Por isso que eu tô comendo bastante e até fazendo academia! — Lali me mostra os bíceps. — Tá vendo? A mãe tá ficando gigante!
— A sua energia é leve.
— A sua é pesada.
Paro de respirar. — Pesada?
— Você me irrita demais! Tipo… demais mesmo! Parece que eu desci na neve de escorregador, ralei o joelho e depois veio aquela dorzinha gostosa da adrenalina.
— Dorzinha gostosa da adrenalina? Isso é bom?
Lali enrola uma mecha de cabelo. — Não sei… Você acha bom? Acho melhor eu ficar longe de você, né?
Meu sorriso se alarga sozinho. — Então você quer ficar longe de mim?
Lali gruda nossos peitos e olha pra minha boca.
A dela está com hálito de limão.
A respiração acelerada.
As mãos quentes e suadas coladas na minha.
Sem que eu pense duas vezes, minhas mãos tocam na cintura dela.
— Olha sócomo eu gosto de ficar longe de você, gatinho.
Meu peito sobe e desce rápido.
Lali fica a um centímetro de me beijar e recua dois passos.
— Tenho que atender os hóspedes. Fui.
Me escoro na parede, tentando recuperar o ar.
No final da festa, Jimin me belisca.
— Ai!
— Bora ir na Hong’s Mart!
Só pelo sorriso dele eu já saco tudo.
— Eu vou ficar pouco tempo.
Jimin me empurra pelos ombros até a saída.
Na Hong’s Mart, Alice, Lali e Rosé estão enchendo um carrinho com doces e chips. Namjoon tenta acompanhar a conversa sobre a “noite das garotas”, enchendo uma cesta com soju.
— Noite dos abandonados. — Ele finge choro.
Jimin e eu seguramos a risada.
Lali está de moletom rosa, cabelo bagunçado num coque e zero maquiagem.
Quando ela sorri pra mim, eu desço o olhar pro chão.
Misericórdia, deviam consertar esse ar-condicionado, que lugar quente do caramba!
Jimin e Alice bocejam.
— Que que vocês acham da noite dos casais? — Alice diz.
— Bora, boa ideia, princesa! — Jimin ri.
Essa é boa.
Noite dos casais.
Mereço.
Lali cerra os dentes. — Por que que cês tão me excluindo?
— O Yoongi vai te esperar passar as compras, né, Yoongi? — Namjoon pisca pra mim.
— É, Lali, fica pra próxima, tchau! — Rosé arrasta o carrinho na direção do caixa.
Lali olha por cima do meu ombro, rosna e se joga num banco. — Cê tá com fome?
Faço que sim com a cabeça.
Ela prepara um ramyeon pra mim e eu espero, brincando com as pulseiras dela.
Ao comer, Lali bate seu recorde e não diz nada por pelo menos um minuto, até soltar:
— Foi aqui que a gente brigou pela primeira vez, cê lembra?
Impeço o engasgo, tossindo. Tomo um gole do Bong Bong de maçã verde.
— Eu não considero briga — gaguejo —, mas ok.
— Eu te falei muita coisa pesada naquele dia, praticamente te chamei de ingrato. Desculpa.
— Desculpa também.
A gente volta a comer.
— Sua prima falou comigo na festa.
— A Nina?
— É, e ela falou que o Jimin disse que a gente namorava.
Fecho as mãos ao redor da cintura. — Ela é assim porque comia lixo no lugar do arroz e feijão quando a gente era criança. Abstrai, abstrai!
Lali pende a cabeça pra trás, gargalhando. — Eu vou falar pra ela, tá? A gente pegou o Whats uma da outra!
— Era só isso que tava faltando!
— E… os seus pais?
Paro de mastigar. — Que que tem eles?
— Eu vi uma mensagem da sua mãe sem querer… quando a gente… dormiu junto e… você ficou pedindo pra eu te chamar de gatinho…
— F-fiquei?
— Ficou.
Soco meu peito pra desengasgar, com a cara ardendo.
— Ela tinha falado que “deu tudo certo” na mensagem. Tudo certo o quê?
— Ah… é que eu discuti com o meu pai um dia desses e a minha mãe disse que ele vai tirar férias, tipo, depois de um tempão. Eu fiquei feliz porque ele sempre vendia.
Lali sorri e suga o ramyeon depressa. — Tendi. Agora tô aliviada. Foi uma comemoração então.
O bip do microondas da Hong’s Mart soa de novo. Um grupo de uns seis adolescentes fantasiados de Naruto esquenta pratos de ramyeon do nosso lado.
— Eu vi a Tia Margot esses dias, cê acredita? Ela não mudou nada. Continua me odiando e não querendo saber de mim. Só que eu decidi que não vou mais correr atrás dela.
Abro um sorriso sem mostrar os dentes. — Cê tá bem?
— Tô. Agora eu tô mais preocupada com a viagem… com a Nonna… em como tudo vai ser…
O olhar dela viaja por cada centímetro da Hong’s Mart, os doces, os salgados, os refrigerantes e até o teto com infiltrações e luzes amareladas, parando no porcelanato.
Lali bate mais um recorde e fica mais uns cinco minutos em silêncio. Limpa a boca com o guardanapo, puxa o couro cabeludo e gruda uma mão debaixo do queixo. Murmura alguma coisa sozinha e bufa no final.
Eu hein.
Ela sempre assim quando alguém fala da viagem.
Mas é tudo (só) por causa disso?
Estranho.
Deixo as perguntas travadas na garganta.
— Eu também vi o Leo.
Arregalo os olhos.
— Fica de boas. Eu só vi ele, não falei com ele.
— Mas por quê?
— Na hora, eu fiquei pensando… foi como se… eu não tivesse mais direito de exigir nada dele… Eu só queria que ele fosse feliz… E ele parecia feliz. Aí eu fiquei feliz também.
Lali coloca uma mão em cima da minha.
Coço o olho. — Vamo? Eu já terminei de comer.
— Eu quero só te perguntar uma coisa.
— Fala.
— Como é que você gostou da Jennifer?
Na dúvida entre rir ou sair correndo daqui, prendo a respiração. — Nem eu sei direito.
— Não sabe?
— Aconteceu, né? A gente se conheceu no Clube do Livro do Diamante Amarelo, aquele canal famoso do YouTube. Ela era divertida e engraçada. Sabia muita coisa de Arquitetura, Filosofia, Arte—
Lali faz bico. — Tá, não precisa jogar na minha cara que ela é o seu tipo!
— Não mais.
Lali se levanta. — Então cê conheceu ela na época que ela ainda era legal. Que sorte a sua.
Dou de ombros. — Eu conheci a versão fingida dela.
Ando pela Hong’s Mart com dois pacotes de Pepero na cesta. Lali enche seu carrinho com Melona de banana e manga. Bala de mirtilo. Até sorvete de pêssego e de milho ela enfia no compartimento inferior.
— Desculpa por ter te bloqueado em tudo, eu tava com muita raiva de você — sussurro na fila do caixa, tão baixo que eu juro que a Lali não entendeu.
Ela espalha os produtos na esteira.
— Tranquilo. Eu também fiquei com muito ódio. Era horrível trabalhar com você na recepção e não poder gritar e te chamar de idiota. E também não poder te abraçar e te beijar.
A atendente aponta as orelhas pra fofoca, enrolando pra solicitar a inserção do cartão na máquina.
Lali divide os doces comigo na rua.
— Onde gente tava indo onde mesmo? — pergunto.
— Não sei. — Lali abre mais uma bala de mirtilo. — Cê vai fantasiado do quê na festa de Halloween do Solaris?
— Eu não pensei em nada ainda.
— Tem que ser uma coisa bem assustadora. — Lali imita um vampiro.
— Já sei: vou de bolo, aí você vai ser o granulado.
— Granulado? Eu sou bonita demais pra ser só isso! Eu tenho que ser a cobertura completa! O glacê! As velas! Os enfeites! Tudo!
Seguro a risada. — Vale fantasia de time? Vou colocar a minha camiseta do Botafogo.
— Ah, não, não vale! É assustador? É! Mas não tem graça!
— Cê tá falando mal do meu time, Lali?
— Tô!
— E você tem alguma moral pra isso? Você é tricolor! Que que pode ser pior que isso?
— Ahn, torcer pro Botafogo?
Cruzo os braços.
— Você tinha que ir de Batman, Yoongi!
— Batman?
— Sim. E eu ia de Mulher Gato.
— Nossa! Jamais passou pela minha cabeça que a pessoa que chama todo mundo do planeta de gato ia vestida de Mulher Gato, jura?
Lali coloca um pé na frente pra eu tropeçar. — Cala a boca, seu ridículo!
Simulo um tropeço e a gente gargalha ao mesmo tempo.
— Mônica e Cebolinha?
Imagino uma fantasia impossível de respirar 70 vezes maior do que a minha cabeça.
— Não.
— Visconde e Emília?
Lali me chama de “Meu Sabuguinho” na minha imaginação.
— Não.
Ela sugere Boto-cor-de-rosa e Iara e meus ombros doem.
— Então… Sol e Lua?
Glitter e mais glitter. Lali me obrigando a tirar 490 fotos. Me chamando de “Luazinha”.
Me beijando no escuro.
Pra quê você só tá sugerindo fantasia em dupla?
Raspo a garganta. — Essa é até mais fácil de montar. Eu topo.
— Casamento de viúva — Lali canta.
— Mas não era pra ser “Sol e Chuva?”
Lali faz sinal pra eu ficar quieto. — Chuva e Sol, Casamento de Anzol!
— É de Espanhol!
Ela entrelaça nossos braços, saltitando pelos paralelepípedos. O cheiro do mar se intensifica e o vento bate forte na nossa pele. Demoro uns segundos pra piscar e assimilar que a pele dela está grudada na minha outra vez depois de tanto tempo.
Paramos na frente da pracinha da Camélia.
Como eu vim parar aqui?
— Me empurra no balanço, gatinho?
Lali sai tonta.
— Me empurra no gira-gira?
Ela sai mais tonta ainda. Tenta subir a escalada e descer pelo escorregador, mas gruda no ferro no meio do percurso.
— Aff! Não dá mais pra brincar direito! Esses brinquedos são tudo sem graça! Sem vida! Eu hein! O Ricardinho devia reformar logo! Eu nem dou pé direito!
— É, tá tudo enferrujado mesmo — diminuo o tom —, ou talvez você só não é mais o público alvo, né?
— Quê? — ela grita, tentando descer de novo. — Não entendi! Fala mais alto!
— Nada não!
— Bora ir na gangorra?
— Tá, né?
Deixo ela presa no alto por quase um minuto.
— Você é um idiota, garoto! Me deixa descer!
Eu deixo.
Lali afunda pra trás na areia. Por um segundo, acredito na encenação de que ela está mesmo desmaiada, mas ela dá risada e se levanta, jogando areia pra cima.
— Ai! Ai! Ai!
— Pegou no seu olho? — Lali corre na minha direção.
— Aham!
Lali me segura pelas bochechas. Quase caio pra trás. Seu perfume me faz prender o ar.
— Até quando eu não quero eu te machuco, gatinho.
— E-eu falei brincando.
— Mas eu não.
Antes que eu pisque, beije ela ou peça desculpas, Lali gargalha. — Canta aquela música do Bruno & Marrone pra mim, gatinho! Eu esqueci a letra!
— É melhor a gente voltar logo pro Solaris. Tá ficando tarde e deserto.
Lali se senta num banco de frente pro meu, para de sorrir e diz algo num tom tão baixo que eu juro que é só o barulho do mar.
— Cê falou alguma coisa?
— Não.
Ela enxuga o rosto e abraça os joelhos. Trava o olhar na areia. Se balança.
— Gatinho…
— Fala — sussurro de volta.
— Cê vai sentir saudade de mim, não vai?
— Vou. Muita.
— Eu… sei que eu só te machuco, eu… só faço merda… me perdoa… de verdade… eu errei!
Minha garganta emperra. — Acho que… eu que era pra tá te falando isso…
Respira fundo. Devagar. VAI!
— …eu também não tava certo, Lali… mas eu não gostei do jeito que você falou comigo na última vez que a gente discutiu. Eu… eu nunca quis usar você… eu só…
— Eu… eu devia ter me controlado mais, gatinho… eu falei muita coisa da boca pra fora… forcei várias coisas só pra você prestar atenção em mim… mesmo você falando que não queria mais nada comigo… Eu perdi você por burrice… Eu sei que eu vou continuar fazendo merda… Esse é o problema… Por minha culpa, você vai continuar afastado de mim… Eu queria que tudo fosse diferente… que você me esperasse voltar… que a gente ficasse junto de novo… que você ainda gostasse de mim… porque eu… eu ainda gosto de você, gatinho…
Lali corre pra me esmagar num abraço. Eu a seguro pela cintura, rindo enquanto a minha voz quebra:
— Eu falei que eu sabia como tudo ia acabar sem nem ter acontecido, Lali… Mas se for pra acabar… eu quero que acabe com… com você junto comigo…
— S-sério?
— Me perdoa… Eu falei que não queria nada de você, mas eu quero quero tudo…
Eu a beijo. Devagar. Rápido. Rápido. Devagar. Com gosto de sal de e caipirinha. Lali morde meu lábio inferior. Me deixa com o cheiro dela e com o estômago ardendo. Ela está quente. Tremendo que nem eu.
— Gatinho… — Lali roça nossos narizes.
Sorrio no ombro dela.
— Você não tá mais com medo, gatinho? Não… não liga mais se alguém ver a gente junto? V-você quer ficar comigo de verdade? Voc—
Seco o rosto dela. — Claro que eu quero ficar com você, e claro que eu também tenho medo!
— Você sabe que eu também…
Solto o ar devagar. — A gente… a gente pode tentar… Eu… eu quero… arriscar… Eu… eu decidi parar de querer decidir o nosso futuro por você… Eu só tava enxergando o meu lado… Me… me desculpa, Lali… Era isso que eu queria falar com você… que se você tivesse certeza e quisesse tentar, eu ia te esperar… mas eu não tinha coragem… quando você falou “a gente ia voltar a ficar junto” hoje cedo… eu travei… eu… eu quero ficar com você, Lali… eu nunca deixei de querer e de gostar de você…
Ela me abraça, soluçando.
— Ah, Lali, se você soubesse o quanto me custou pra conseguir te falar tudo isso sem querer desmaiar, cê não ia tá me sujando todo de base igual cê tá fazendo agora.
Ela me dá um selinho. — Agora eu vou sujar é a sua boca de gloss, se prepara!
Lali me deixa sem ar de tanto beijo seguido.
— Eu prometo que eu vou te ligar de vídeo sempre que der. Vou até dormir com o seu perfume! Eu não vou te esquecer nunca! Nunca! Você… você vai me esperar mesmo?
Meu sorriso se abre várias vezes e eu sussurro:
— Vou.
— Promete?
— Prometo.
Lali me rouba um beijo rápido. — Você já sentiu isso com alguma outra mulher?
— Não…
— Nem tem ninguém igual a você, gatinho. Você tem o melhor beijo do mundo! O melhor cheiro! Melhor abraço! Melhor tudo!
Mexo uma sobrancelha, prendendo a risada. — Ah, é? Então você já experimentou? Você não tem medo dos germes?
— NÃO!
Ela faz a gente quase cair na areia, me beijando e rindo. — Bora pro nosso lugar, gatinho?
— Agora? É quase duas da manhã!
— É.
— No meio do mato, Lali?
— Leva uma mochila com coberta e travesseiro.
— Pra quê?
Lali faz “xiu”. — Leva repelente também. E alguma comida que você gosta. Canga. Vai com uma roupa confortável. Eu vou levar vinho e a minha câmera de Polaroid.
— Tá…
— Toma um banho e me espera na recepção, gatinho.
— Tá…
Separo meu cobertor mais grosso e travesseiro mais macio, e uma máscara de dormir pra Lali não acordar com os olhos doendo de manhã. Repelente. Carregador portátil. Identidade. A bolsa da Lali quase explode de tanta bebida. Até um balde de pipoca com calabresa ela inventa de comprar na sala de jogos.
O Uber estaciona em frente ao Parque Costarenho. Os postes piscam forte os grilos cantam alto.
O caminho até o topo do morro parece interminável nesse frio que trinca a pele. Lali não para de tremer, mesmo colada em mim. A grama e as pedras estão mais irregulares do que eu me lembrava.
— Cê acha que ainda é uma boa ideia a gente dormir aqui? Amanhã a gente vai acordar sem conseguir sentir as costas.
— Eu faço uma massagem em você.
— Vai fazer frio.
— Eu te esquento.
— Aqui de cima é muito alto, Lali. De dia, tudo bem. De noite fica mais perigoso. A gente pode acabar rolando e caindo lá embaixo. Alguém pode aparecer e denunciar a gente por atentado ao pud—
— Você é muito pessimista, gatinho. Relaxa um pouco!
A vista das casas, do mar e do céu me arranca uma risada. — Não dá pra ver nada direito agora, Lali. Acho que não foi uma boa ideia ter vindo aqui. Vamo voltar?
— Não tem?
Lali tira o sobretudo.
Seu vestido é rosa e laranja. Muito rosa. Muito laranja. Tem flores grandes no peito. Babados. Barriga à mostra. Ela desfaz o nó e o tecido cai como uma cauda longa e meio torta. A cicatriz no umbigo dela está menor. Menos vermelha.
Abro um sorriso.
— Feliz aniversário adiantado, gatinho. Eu tava guardando esse vestido pra usar numa data especial, mas aí surgiu essa oportunidade. Cê gostou?
— Sim… Brigado…
— É bonito?
— É.
— Cê faz ideia do quanto eu gastei de tecido? Se eu fosse cobrar de algum cliente, ia ser tipo 1000 reais! Eu sei que ele ficou meio fubanga, mas você tinha que falar que ele era excelente!
Fubanga? Quê?
— Excelente. Esplêndido. Maravilhoso. Perfeito. Deslumbran—
Lali beija meu queixo. — É tudo pra você. Só pra você, meu amor.
Sorrio, beijando ela de volta.
Lali monta a canga com travesseiros, cobertor, doces e vinho.
Ela me entrega uma taça cheia até o talo. — Um brinde.
— Brinde ao quê?
— Não sei, eu só queria brindar mesmo! Ai, eu sempre quis falar tim-tim! Que máximo!
— Tim-tim!
Lali passa um dedo pela cicatriz no seu umbigo. — Cê achou feia, né? Cê tá olhando há mó tempão!
— É só que… é legal que cê não tá mais tampando…
Nos deitamos de lado. Quase não tem estrelas no céu. Está bem frio. E Lali está quente demais. Fazia tempo que minha pele não se arrepiava desse jeito. E que meu estômago não doía por causa dessas borboletas malditas.
— Gatinho, eu sou o presente que você sempre quis?
— É.
Lali pula no meu colo e me beija, derrubando as taças e derramando vinho na canga.
Nossas risadas ecoam pelo nosso lugar.
É quatro da manhã de sábado.
Lali cheira à limão e álcool. Respira devagar e ronca baixo. Minhas pernas estão dormentes, e ao mesmo tempo, parece que eu dormi por 300 horas.
Me espreguiço em silêncio, me virando pro outro lado.
O cabelo da Lali está cheio de tufos, nós e folhas que me fazem rir ao tirar.
— Eu tô quebrada, acho que dormir aqui foi uma péssima ideia.
Quero dizer “eu te avisei”, mas até isso faria minha coluna pinicar.
Lali puxa a coberta mais pra cima. — Tá frio, gatinho.
— Eu sei. Seu pé tá quase me congelando. Vamo embora?
— Ainda não.
— Então tá…
Lali me ajuda a vestir regata e o moletom.
— Deixa eu ver seu celular, gatinho?
— Pra quê?
— É rapidinho, vai!
Bufo, desbloqueando a tela.
Lali abre a lista de contatos e procura por “Lali”.
Beijo o topo da cabeça dela.
— Aff, cadê? Você apagou meu número? Não desbloqueeou nunca mais?
Ela busca “Chata”. “Tagarela.” “Laranja”.
— Procura na letra G.
— G? Garota? Genial? Gostosa? Ah, não é possível! É o que eu tô pensando? — Ela desce a tela. — Gatinha? Emoji de coração? Ai, que tudo! Quando foi que cê mudou?
— No dia que eu percebi que eu gostava de você. Quando eu cheguei Brasília.
— Ah! — Lali fica vermelha. — Acho que eu percebi quando eu conheci o Duri… Me deu muita vontade de chorar.
— Sério?
— Aham. Você era meu amigo, e eu percebi que eu queria muito beijar você.
Gargalho.
— E o meu nome tá como? — Bagunço o cabelo dela. — Aposto que é alguma coisa com “Insuportável” no meio.
— Nada a ver!
Lali me entrega seu celular desbloqueado, mais vermelha que antes.
Estalo a língua. — Sabia! “Gerente Babaca do Solaris?”
— Desculpa… eu tava com raiva… Vou mudar…
— Tá bom…
Lali altera meu contato pra “애기” e um emoji gato preto.
Ela morde meu mindinho. — Troca o meu também!
— Ai, tá bom! — Configuro o contato dela como “Amore” e um coração laranja.
— Então agora a gente tá junto de verdade? — Lali ri.
— Se você quiser, sim… Eu ainda não tive tempo de comprar o anel, mas… eu tenho outra coisa…
Lali bate palmas, se ajoelhando. — O quê? Cadê? Deixa eu ver!
Tiro o par de chaveiros de maracujá de crochê da mochila.
— Ahn?
— Eu fui no Museu das Sementes um dia desses e… Nem sei porque eu comprei, mas… Acho que no fundo… Eu tinha a expectativa de que—
Lali me abraça. — Eu também comprei!
— Comprou?
— Eu… acho que eu também tinha essa mesma esperança que você, gatinho…
— Desculpa ter jogado tudo fora… A máscara de gato que você costurou pra mim… As fotos… Tudo…
— Desculpa eu por não ter devolvido as suas Havaianas.
— Isso eu não vou perdoar! Eu usava pra tudo e fiquei sem poder usar por sua culpa!
— Cê não vai me perdoar?
Lali me dá vários selinhos até a gente cair de lado.
— Tá, tá. Eu perdoo.
— Olha pelo lado bom, gatinho: agora a gente tem quatro chaveiros, e pode tirar mil fotos! Você pode me dar outro buquê. Um anel. E muito, muito beijo pra compensar!
Lali rola comigo pela grama, mordendo minha bochecha e enchendo meu cabelo de folhas e terra. Tudo que eu faço é rir e beijar ela de volta.
— Então o nosso aniversário de namoro vai ser dia 25 de outubro, pertinho do seu aniversário? — Lali pergunta. — Comemoração em dobro!
Balanço a cabeça. — Tinha que ser no dia que a gente se beijou pela primeira vez. Ou no dia do nosso primeiro encontro.
— Não! É melhor dia 1°!
— Por quê?
— Porque eu gosto do primeiro dia do mês!
Solto o ar. — Tá, né? Dia 1º.
— Agora me fala as suas condições!
— Condições?
— É! Não é possível que você não vai reclamar de nada!
Bufo. — Acabou a minha paz, Senhor.
Lali tira um caderno da mochila e me entrega uma caneta vermelha.
— Pra quê isso?
— Pra você escrever!
— Tá… Deixa eu pensar…
— Não vale bizoiar o meu! — Lali esconde o caderno com um cotovelo.
— Eu nem olhei!
— Sei…
Depois de meia hora, Lali lê as minhas condições:
Não quero discutir coisa séria pelo telefone.Não gosto de dormir brigado.Quero tomar café da manhã com você todo dia, mesmo se a gente tiver brigado.Ela levanta a cabeça. — Por quê?
— Ah… é que… eu queria fazer alguma coisa diferente…
— Dos seus pais?
Engulo a seco.
Não visite a minha família sem me avisar bem antes.Não mexa nas minhas coisas sem eu saber.Não poste vídeos ou fotos de mim sem me avisar.— Avisar. Avisar. Avisar! Aff! Isso é medo da sua família gostar mais de mim do que de você? Ou medo de ficar feio nas fotos? Fica tranquilo: eu uso filtro! Se bem que você nem precisa, né, amore?
Paro de piscar.
Não faça festas surpresas pra mim.Ela quase assopra a folha do caderno. — Ah, não! Que saco!
— Termina de ler, Lali!
Não espere eu adivinhar o que você tá pensando ou sentindo. Me diga.— Olha quem fala!
— Foi justamente por isso que eu escrevi.
Não faça planos malucos sem me avisar.— Oops. — Ela aponta pra mancha de vinho na canga.
Não fique brava se eu sumir por uns dias. Eu provavelmente tô estudando ou trabalhando demais. Ou só quero ficar na minha.Lali deixa o caderno em cima da canga. — Aff! Era pra ser passeio romântico de barco com champanhe e um buquê enorme vibes Pinterest… Rolês românticos tipo saltar de paraquedas juntos… deixar eu usar seu moletom… ter um Instagram de fotos fofas de casal… Você tirou toda a graça de namorar!
Aperto as bochechas dela. — Então termina comigo!
Lali me mostra a língua. — Saco.
Paro a cada dois segundos pra corrigir mentalmente os erros de escrita e decifrar os garranchos dela:
A gente vai viajar pelo menos uma vez por ano.— Ahn? Uma vez por ano?
— É! Continua lendo!
— Mas com qual dinheiro?
— Não precisa ser pra fora do Brasil, gatinho! Pode ser pra alguma cidade aqui perto tipo Guarapari!
— Perto? Guarapari é umas 12 horas daqui, Lali! No mínimo!
— Foi pra lá que os meus pais viajaram um mês antes de eu nascer. Tinha várias fotos deles no meu carro. Se eu não tivesse perdido ele, ia poder te mostrar agora…
Deslizo uma mão pelo cabelo dela.
— Eu queria ir lá só uma vez, nem que fosse só pra tirar uma foto e voltar… Sabia que com ID Jovem é tipo uns 30 reais?
Solto o ar devagar. — Tá bom. Viagem todo ano. Eu aceito. Mas só se a gente se organizar financeiramente bem antes.
— Ok. Agora para de enrolar.
Se a gente começar a ver uma série junto, tem que terminar junto.Não pode esconder comida um do outro.A gente vai beijar na boca todo dia.— Mas se a gente tá namorando… beijar na boca não é óbvio, Lali?
— Tem casal que para depois de um tempo.
É. Realmente.
— …pelo menos é o que eu vi nas novelas.
A gente vai cozinhar um pro outro pelo menos uma vez no mês.— Quê? Não! Essa condição eu não aceito, Lali!
— Por quê?
— Você cozinha mal demais!
— Cozinho nada!
— Cozinha sim!
— Então eu vou fazer o quê?
— Troca essa condição por outra.
— Mas qual?
— Sei lá… ir uma vez por mês comer num restaurante diferente?
Lali bate palmas. — Ai, eu amei! Uma vez você paga e na outra eu! Aí uma vez é um lugar caro e o outro barato e—
— Tá bom, Lali!
— Falando nisso… Você me deu uma ideia! A gente tem que encontrar um lugar só nosso em cada viagem!
— Quê? Eu não vou ficar subindo morro, Lali!
— Pode ser só uma padaria, sei lá! Aí você toma seu café sem açúcar em paz!
Faço cócegas na barriga dela. — Chega, né?
— Faltou só a última condição que eu não escrevi.
— Qual?
— Fazer uma lista de quem vai limpar o quê.
— Como assim?
— Deixa pra lá. Vai demorar ainda!
— Fala. — Volto a fazer cócegas nela.
— É pra quando a gente for morar junto, gatinho!
Arregalo os olhos. — Morar junto?
— É. A gente vai casar um dia, né? Eu acho…
— Cê tá me zoando, né? Tem dois minutos que a gente começou a namorar, Lali!
— Eu vou casar com você daqui a uns sete anos, gatinho.
— Sete?
— É… Você… toparia morar comigo? Eu… quero morar com você numa cidade grande… tipo São Paulo… A gente já vai ter se formado na faculdade… Você vai ter o seu escritório… E eu o meu ateliê… Vou levar matchá dia pro trabalho e fazer café pra você… Engasgar com a fumaça da rua… Reclamar do metrô lotado… Adotar um irmão pro Duri… Comprar um Corsa vermelho… E depois… depois a gente vai vendo…
Lali boceja.
— Mas não era você que não gostava de planejar nada, Lali?
— É, mas agora eu quero porque é com você!
Minha cara arde.
— Cê nunca tinha imaginado nada do que eu falei?
— Não.
— Como você é mentiroso, Yoongi! Eu duvido! Logo você que pensa demais?
— Pra quê eu ia mentir?
Lali olha pra minha boca e circula os dedos nos meus bíceps.
Minha cara queima de novo.
Lali estica a coberta. — Amore…
— Ahn…
— Se o Solaris não existisse, qual ia ser a chance da gente se conhecer?
— Não sei.
— Você acredita em destino?
— Não.
— E em coincidência?
— Depende.
— Você ia ser a minha!
— Ia?
— É… Porque mesmo se eu não tivesse te conhecido no Solaris, eu ia esbarrar em você numa balada…
— Eu quase não vou em balada, Lali, então a probabilidade ia ser menos de 1%!
— Deixa eu terminar!
— Tá…
— Ou eu ia sentar do seu lado no 636, mesmo se tivesse vazio!
— Isso é inconveniente pra caramba, cê sabe, né? Se ia ter um monte de cadeira vazia, pra quê que você ia fazer iss—
— Mas eu ia!
— Eu ia levantar porque você fala demais!
— Mesmo assim!
— Por quê?
— Sei lá… Acho que… é porque ia continuar sendo você… Eu ia te ver e te perguntar se você tinha roubado toda a beleza de Costaré…
Rio pelo nariz. — Você me chamou de gato na primeira vez que a gente se viu. E olha que você tava inconsciente. Então não me choca.
— Mas pra quê quê que eu ia mentir?
Bato os dedos na calça.
— Eu amei dormir aqui com você no nosso lugar, gatinho.
— É. Eu, você e os pernilongos. Foi excelente. Maravilhoso. Incrível. Deslumbrante. Esplêndi—
— Cê vai ficar me zoando agora, garoto? — Lali cutuca minhas costelas.
A gente ri.
— Me empresta seu celular, gatinho!
— Ih, começou!
— É rapidinho.
Ela tira uma selfie sozinha, jogando beijo pra câmera. — Linda sua namorada, né? Pode colocar no seu papel de parede e na sua tela de bloqueio.
— Não.
— Você nunca vai aprender a brincar, Yoongi.
Respiro fundo.
— Deixa pelo menos eu mudar a bio do seu Instagram então! Não precisa colocar meu nome, só um cadeado e uma aliança!
— Isso é brega demais.
— Então eu vou ser cafona com orgulho! — Lali ri.
Ela coloca um emoji de gato preto na bio dela seguido de um cadeado e de uma aliança.
— Pronto.
Ela se deita no meu colo e seus fios brilham contra o meu rosto.
Sorrio.
A respiração dela está pesada de novo, e ela solta no meio de um bocejo:
— Mesmo se eu comesse todas as graviolas do mundo, como eu ia saber se elas não iam me engasgar? Eu quero ser a sua agulha, me dê seu coração de linho puro e o seu verdadeiro amor!
— Cê não mudou nada, né? — Rio pelo nariz. — Jagi…
Coloco uma foto dela dormindo no meu colo como papel de parede e tela de bloqueio, e um emoji de coração laranja na bio do meu Instagram.
Estou no 13° sono quando meu celular apita.
Sábado, 25 de outubro07:12O CPF da Lali.
O brasão de Costaré.
O endereço da Delegacia do Centro.
O número de identificação do Celta roubado.
ESSA MENSAGEM É AUTOMÁTICA. POR FAVOR, NÃO A RESPONDA.Prezada, LALI CARVALHO BERGAMASCHI,Seu veículo foi localizado e recuperado e encontra-se disponível para restituição no PÁTIO DO DETRAN-COS. Para informações complementares sobre a restituição ao portador, compareça à Delegacia de Polícia responsável pela ocorrência, munida de documento de identificação com foto.Aos sábados, o funcionamento dos pátios é de 9h às 12h.
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