Anything But Ordinary
12 Se você olhar direito, vai perceber
LALI ESTALA OS DEDOS.
Recupero o ar, sem acreditar no que acabei de ler. Sem raciocinar direito.
Ela… ela se apaixonaria por mim? Como assim? Então eu… eu não tava delirando? Ela ter falado sobre Deus, ter me dado a máscara de presente e ter chorado quando eu falei do Duri realmente significou alguma cois—
Lali estala os dedos outra vez.
Pisco com força.
— Gostou, gatinho? O vestido da Alice é quase igual esse!
Balanço a cabeça.
Dificilmente alguma coisa não combinaria com você. Talvez só as minhas roupas ridículas.
— Ahn?
Merda. Eu falei isso em voz alta.
Eu.
Quero.
Morrer!
— É… — Solto um pigarro. — Vim só te entregar o tecido que a Alice pediu. Já vou indo.
— Ah, não! Espera aí! Deixa eu te mostrar minhas ideias!
— Agora eu vou virar crítico de moda?
— Lógico! — Ela me empurra pra que eu me sente na beirada da cama.
Batuco os dedos nas correntes da calça e tento focar no piso de madeira.
Minha mente me lembra que eu estou no quarto dela.
Com vista pras camélias do jardim.
Sozinho.
Sozinho e com ela.
Como se eu já não estivesse tremendo o suficiente, Lali sai do banheiro usando um vestido que contorna sua cintura. É laranja, com pedras e glitter.
— Eu tô gata, né? Cê tá babando há mó tempão!
Meu nariz pega fogo. — É… como você faz tudo isso sozinha?
— Nem tudo eu faço do zero, tem vez que eu só dou uma pinça ou colo uns strass.
— Uns? — Paro de piscar. — Isso vai acabar cegando alguém!
— Eu nem coloquei muito!
Balanço a cabeça. — Ainda não entendi porque você não facilita sua própria vida, Lali: imagina o tanto de roupa que você já teria costurado se usasse a máquina! Se você tem uma, por que não usa?
Os olhos dela umedecem. — Meu pai costurava tudo na mão… eu… eu nunca tentei fazer de outro jeito… tenho medo… de… de não conseguir…
Minhas pernas tremem. — Engraçado…
— O quê?
— Eu fiquei só 2 semanas fora e… cê já até tirou o passaporte!
— Eu tinha que fazer alguma coisa, né? Eu preciso ir logo!
Preciso ir logo.
Ir logo.
LOGO!
É a minha vez de suspirar. — Entendi… E quanto tempo mais ou menos demora pra costurar uma roupa assim na mão?
— Semanas, mas é como você sempre diz: questão de prática.
— Mas não te cansa? Não dói sua mão?
O sorriso dela fica maior. — Sim. E muito. Mas tem uma coisa que eu tô tentando colocar em prática: se isso é o que eu amo, como eu vou fugir disso?
Perco o ar.
— E você? Fala coreano com os seus pais? Eles são legais?
— É… pra quê você quer saber?
Lali cruza os braços.
— Ah… eles são muito… chatos...
Ela ri. — Então cê puxou eles!
— Não! Um tipo diferente de chatice!
— Entendi: você é o rebelde da família.
— Quase isso. Sou o que quer fazer arquitetura numa família de médicos.
— Uau! Você é mesmo maravilhoso!
Fico ainda mais quente.
— Me fala mais dos seus pais! Qual nome deles?
— É… Adriano e Jussara.
— Legal.
— Meus avós queriam que eles não tivessem problemas pra se adaptar.
— E o que mais?
A empolgação dela me faz rir.
— Eles se conheceram em Minas na adolescência.
— E quem chegou em quem?
— Acho que nenhum dos dois… Eles eram os únicos coreanos do bairro e tinham amigos em comum, então meio que foi acontecendo.
Lali gargalha. — Eu lembro que uma vez minha tia me contou que foi amor à primeira vista: meu pai chamou minha mãe de gatinha com um sotaque horrível e ela chamou ele pra sair!
Dou risada. — Agora eu sei quem você puxou.
— E como você era quando era criança?
— Do mesmo jeito.
— Nerd e chato?
— Ah, falou a Miss Simpatia da Camélia, né?
Lali chia. — Como era aqui antes?
— Não sei. Não mudou quase nada desde que eu cheguei. O Jimin fala que era tudo meio esquecido, não tinha tanto turista.
— Quando “você chegou”? — Lali gesticula rápido, rindo.
— Faz uns 5 anos. Eu nasci lá em Minas e cresci no Rio. Vim pra cá na adolescência.
Lali ri. — Meus pais se conheceram no Rio, sabia?
— Sério? — Simulo um tom calmo. — Não fazia ideia.
— É, acabou num desastre: eu!
Congelo.
— Desculpa. Essa piada foi horrível. Eu sei. Mas me responde uma coisa: por que você ainda não foi embora já que odeia tanto morar aqui?
Respiro fundo.
Meus pais. O vestibular. A chance de provar que todo mundo tá errado.
Entulho as palavras na garganta.
Balanço os ombros. — Não sei. Acho que acabei gostando bem lá no fundo.
— Sei… e como era no Rio? Você tinha amigos?
Gesticulo. — Eu era o “japinha” e o “china” em qualquer lugar que eu ia. O garoto do “pau pequeno”. “Abre os olhos”. “Xing ling”.
Lali faz uma careta. — E ninguém fazia nada? Os professores não brigavam com esses idiotas?
— Eles tavam ocupados demais consolando quem tirou 6. Enquanto isso eu tomava esporro por tirar 9 e não 10.
O sorriso dela se desfaz. — Fico triste por você! Mas pelo menos agora você tá sendo valorizado.
— Valorizado é uma palavra muito forte.
— Sufocado. Infelizmente, gatinho.
Me aproximo da bancada e encosto os dedos nos tecidos. Alguns eu reconheço: algodão e cetim. Os outros me deixam na dúvida do nome, mas são de várias cores e texturas diferentes.
— É… Mas… pra quê você coloca esse monte de detalhe na roupa mesmo? Ainda não faz sentido!
— Porque eu gosto, ué! — Lali chacoalha a cintura. — Você acha feio?
— Não… É que… — Coço a nuca.
— Você percebeu, né? Eu deixei a bainha dessa saia meio torta.
— Não. Não percebi. É só que tudo que você faz é bonito, até porque você é linda. Acho que não tinha como ser de outro jeito.
Minha voz vai e volta pelo ar como uma tempestade de sílabas tortas que quase arrancam meu peito fora.
Tento prestar atenção na janela.
— Finalmente você admitiu, Yoongi! Eu sabia que você me achava gata! — Lali sacode os meus ombros.
Acabo rindo junto, e quando pisco de novo, estamos deitados de lado.
Puta. Merda!
O top verde contorna a cintura dela. Sou obrigado a desviar o olhar pro lençol.
— Isso aqui se chama corset, sabia? — Lali puxa minhas mãos. Entreabro a boca, com os dedos tremendo ao tocar nos nós laterais do tecido. É macio e quente como sua pele, quase do mesmo tom dos olhos dourados dela nessa manhã.
Não acredito que eu tô reparando nos detalhes de uma roupa brilhosa! Eu não ligo pra moda! Não era nem pra eu tá aqui! Preciso sumir! SUMIR!
— É… é bonito!
Lali ri. — É. Mas não é o meu favorito. Agora vou te mostrar o melhor de todos!
Ela vai até o banheiro. Me sento na cama, esticando os cotovelos no lençol.
Saio.
Não saio!
Não saio!
Saio!
É! Vou vazar antes que eu me ferre!
Lali atravessa a porta do banheiro.
Meu queixo dói.
É agora que eu morro.
Babados. Flores. Corações. Borboletas. Tudo de uma vez. Num top só. Sua barriga está à mostra, mas a cicatriz não aparece, coberta pela saia fina.
Uma verdadeira confusão. Laranja. Roxo. Amarelo. Azul. Verde.
Não sei onde eu foco, se respiro, se a elogio ou se só saio correndo.
— Se fosse qualquer pessoa usando isso, eu ia falar que é a coisa mais horrível do mundo, mas de algum jeito, você faz isso funcionar. Eu gosto e ao mesmo tempo odeio não conseguir parar de olhar pra você.
Lali me abraça.
Meus braços envolvem a cintura dela por impulso.
A respiração dela bate na minha clavícula. Merda! Por. Que. Você. É. Tão. Cheirosa. Assim?
Lali sorri e beija minhas bochechas.
Não penso em nada. Só existem os olhos dela. O sorriso. O cabelo. A pele. O calor.
Quando estou prestes a sair do quarto sem avisar, Lali me segura pelas maçãs do rosto. Quase tomo um choque.
— Costura comigo, gatinho!
— Q-quê? Mas eu não sei nada disso!
— Nem eu!
Giro os dedos ao redor do quarto. — Não sabe?
Lali suspira. — Na máquina!
— Você disse que não queria tentar!
— Mas eu quero costurar agora! Uma roupa pra Jonas!
Estico os dedos sobre a calça.
— Com você vai ser legal, Yoongi!
O sorriso dela me deixa sem palavras.
Respiro devagar. — Eu devo ser muito legal, né? Cê sempre fala isso.
— Isso o quê?
— Que comigo vai ser legal.
— Ah, sim! É porque você fica com essa cara de bravo e me faz rir. Por isso que é tão legal! Mas você continua sendo um gatinho emburrado muito chato!
Reviro os olhos. — Essa é a minha cara normal. Eu não tô bravo.
— Mas continua fofo.
Ela me dá mais um beijo na bochecha. Tropeço na quina da cama. A dor se espalha pelos meus pés e eu fico na dúvida entre rir, correr e me xingar ao mesmo tempo.
Lali continua gargalhando e apertando minhas bochechas.
— Eu devia mudar de carreira já que você gosta tanto de rir da minha cara, Lali.
— Mas eu não tô rindo da sua cara, tô rindo junto com você!
— Não parece!
— Mas… existe faculdade de comediante? Eu não sabia!
— Era uma piada.
— Tá bom. Tá bom! Você quer me ajudar ou não quer?
— Vai ser a pior roupa que você já costurou na vida.
— Então a gente vai catastrofizar juntos.
Dou uma risadinha. — Catastrofizar? Você por acaso andou lendo Machado pra ficar falando desse jeito?
— Você ainda não viu nada!
Mexo a cabeça. — Tá bom. Depois não reclama se a Jonas ficar “cafona” e “nada bafônica”. Aliás, não tinha um nome melhor, não? Sei lá… Nari? Luna?
Lali para de piscar. — Essas são as garotas de Brasília?
— Quê? Brasília?
Lali me dá uma cotovelada de leve. — Ah, não! É o nome das nossas filhas, né? Que gracinha: cê já até escolheu o nome!
Meu tombo é feio. Um daqueles que vira meme na internet. Por sorte, tem uma almofada pra amortecer a queda e evitar a dor eterna nos meus músculos.
— Ai, gatinho! — Lali gargalha, me ajudando a levantar. — Eu tava brincando.
— Você adora brincar com coisa séria, Lali! Não dá pra te levar a sério mesmo!
Lali para de respirar. — O que você tá insinuando? Que eu sou uma burra sem noção?
Abro a boca. — Não! Em que momento eu falei isso? Só não acho legal ficar brincando com essas coisas!
— A culpa não é minha se você não sabe levar as coisas na brincadeira!
Respiro fundo. É. Eu realmente devo ser uma piada pra você.
Lali se senta de frente pra bancada. — Vem logo!
Ela para do nada.
— Pode trazer o Duri pra cá?
— Agora?
— Ele pode ficar na minha cama. Prometo que não vou roubar ele de você! Até porque…
Estreito os olhos.
— Se eu não roubei ele até agora, não vou roubar mais, né? Mas eu sei que ele prefere eu!
— Você?
— Sim. Eu ajudei o Jimin a cuidar dele. Ele gosta do meu carinho, sabia? Até dormiu no meu pé!
— Sei. Ele continua sendo o maior traidor da Camélia!
— De Costaré todinha!
— Preciso tomar banho, trocar de roupa e tomar café antes, Lali. Só tomei três xícaras hoje!
Lali faz careta. — Prefiro chá.
Rio pelo nariz — Você é uma vergonha pros italianos!
Ela fica vermelha.
Merda. — Eu falei br—
— Tranquilo!
Travo os olhos na janela. — Eu só tava… querendo ir lá na cozinha… talvez pedir alguma coisa no iFood… Não tô com o mínimo de paciência pra cozinhar hoje!
— Quer que eu faça um hotteok pra você?
Abro um sorriso. — Gostei da sua pronúncia… Desde quando cê sabe a receita?
— O Jimin me ensinou.
— O Jimin? Então é melhor eu não confiar muito.
Lali ri, apontando um dedo perto da minha bochecha. — Se enxerga, Yoongi! Até parece que você sabe cozinhar!
— Ah, é? Me fala uma comida então!
— Ah… Eu lembro que eu comia tiramisù na infância… Se eu não fosse uma vergonha pros italianos, eu saberia fazer!
Desmancho o sorriso. — Eu não falei por mal, Lali. Desculpa.
— Mas é verdade.
— O-o que você quer pedir?
Lali me ensina a pronunciar focaccia, arancini e fettuccine da forma correta e se empolga escolhendo os combos. Depois de gastar quase 200 reais em massa, vinho e gelato, ela busca o Duri no meu quarto. Ainda não acredito que ela entra e sai dele tão naturalmente.
E muito menos que o Duri gosta tanto dela.
Lali agradece ao entregador na recepção enquanto segura o Duri em uma mão e as marmitas na outra. Pego as embalagens e ando com ela até meu refúgio.
— Delizioso! — Lali ri, sentando de lado e encostando nossos ombros.
Desço o olhar pra boca dela. Tô deixando tudo óbvio demais?
Lali come depressa, sem mastigar direito.
— Cê vai aguentar costurar depois de comer isso tudo? Porque eu não!
— Aff, gatinho! Cê não vai dar pra trás logo agora, né?
Antes que eu a responda, Duri se acomoda entre as pernas dela e um flash passa diante de mim: Hotteok. Tiramisù. Crianças correndo.
Duri.
Lali e eu.
Anéis.
E um beijo.
Engasgo com o arancini. Que porra foi essa?
Lali me entrega um copo d’água.
— Brigado.
Duri me cheira.
Descruzo as pernas.
Passo o restante do tempo até voltarmos pro quarto com aquela imagem na cabeça. Eu. Delirei!
Duri dorme na cama da Lali, ronronando sem parar e espalhando pelo pelos lençóis. É. Isso mesmo, seu folgado! Me faça passar ainda mais vergonha na frente da Lali!
Lali se senta ao meu lado. — Vou começar pelo básico: nunca use a tesoura de uma costureira. Jamais! Em hipótese alguma!
Contraio os músculos, me sentando.
— Não sei se eu vou deixar você costurar na máquina, mas você pode me ajudar com a modelagem.
— Se você acha que eu não dou conta, me chamou pra quê, então?
— Eu gosto demais de você pra te ver machucado.
Lali está com a mesma expressão que eu: lábios entreabertos, olhar arregalado e respiração acelerada.
— Então. — Ela raspa a garganta. — Bora começar pela modelagem!
Lali me explica sobre medidas. A capivara tem 17 centímetros de pescoço, 34 de quadril e 32 de cintura. Até nisso ela me faz rir.
— Tá achando legal?
— É-é… Essa parte é tranquila. Eu vou trabalhar com medidas também.
Lali continua desenhando no papel amarelo devagar, mordendo os lábios, batendo os pés no ritmo do rock, arqueando as sobrancelhas e rindo sozinha.
Acabo descendo o olhar pra boca dela de novo.
Meu rosto esquenta.
— E-eu nunca tive uma paixão tão grande por nada assim… — Toco nos tecidos. — Por que você gosta tanto de costurar?
— Ah… eu só gosto. Eu nunca pensei no porquê.
— Mas o que você sente quando tá costurando?
— Alegria… me distrai… e eu gosto do som… de encostar nos tecidos…
— De qual parte exatamente? De qual aspecto do som você gosta?
Lali dá de ombros, juntando os lábios num bico. — Acho que eu gosto mais das cores.
— De qual?
— Você já sabe: laranja!
— Mas por quê? Te lembra o pôr do sol? Ou a fruta? Ou… alguém?
Tá, eu fui longe demais. Cê já deve ter cansado.
— Acho que… — Lali passa uma mão pelas bochechas. — Tem a ver com… com o meu pai… ele usava muito essa cor… Ele não só me ensinou a costurar… ele vivia disso! Nisso eu dou orgulho pra ele!
Engulo a saliva.
— Minha mãe trabalhava no supermercado repondo arroz antes de morrer — Lali diz. — Ela também era órfã, sabia?
— Sim.
Eu vi no seu perfil.
— Eu fiz meu pai perder tudo duas vezes: a família na Itália e depois o amor da vida dele!
Não sei se eu devo abraçar ela, pedir pra ela não fale coisas tão negativas, ou se só devo continuar escutando tudo.
Lali escolhe um tecido leve e gelado. — Só tô fazendo isso porque você tá aqui!
— Como assim?
— Eu odeio malha. Nossa, é um dos piores tecidos que tem!
— Era pra ser um elogio?
— Sim. É pra você se sentir especial. — ela engrossa a voz. — Porque se fosse qualquer outra pessoa…
Congelo enquanto ela ri.
Talvez eu nunca vou saber quando você tá falando sério ou tá só brincando.
Bufo. Isso é injusto pra caralho! Eu aqui me sentindo um idiota e você nem percebe nada.
Talvez eu podia falar alguma coisa.
Mas o quê?
E como?
— Agora voltando ao assunto, — Lali diz —, cê sabia que eu postei minha história de vida todinha no Instagram?
— Não, é sério? — Forço um tom suave.
— O Jimin e o Joon me disseram que era bom pra “criar conexão” com o público.
— Você realmente tá empenhada. Eu vi alguns stories seus, mas não consegui pegar todos os detalhes.
Minha cara pega fogo até chegar nas orelhas.
— Minha vida ia dar quase uma novela daquelas bem baixa renda: minha mãe e a Tia Margot quase não tinham dinheiro pra comer, e aí minha mãe acabou engravidando de mim sem querer… então hoje em dia eu não julgo muito aquela demônia da Tia Margot me odiar!
Arregalo os olhos.
— Foi mal. É uma longa história, gatinho. Não vou perturbar você com os meus problemas!
— Você não tá me perturbando.
Lali desvia o olhar pro tecido, pisando na máquina.
Mordo o canto da boca. — Mas por quê você quer tanto ir pra Itália? Sempre que você fala de lá parece ter alguma coisa a mais… ou é só pela faculdade e a sua família mesmo?
Os olhos dela ficam úmidos de novo. — Por tudo: aprender italiano. Comer. Ir nos lugares onde meu pai morou… Como eu não sei nada da minha mãe e dos pais dela, seria legal saber mais sobre os pais do meu pai.
— Você já começou a estudar?
— Só quando eu tiver lá, não quero ficar quebrando a cabeça aqui!
— Mas você não acha que vai ser mais difícil se você chegar lá sem saber nada? Vai passar perrengue desse jeito.
— Eu me viro.
— Então tá.
— Mas por que você tá me perguntando esse monte de coisa?
Não. Era. Pra. Você. Ter. Perguntado. Yoongi!
— P-por nada.
— Já entendi tudo, Yoongi. — Lali funga. — Você é sempre muito chato, só vê o lado negativo de tudo!
Estendo as mãos em redenção. — Ei, calma! Eu não falei nada!
— Cê acha que tudo que eu faço é uma perda de tempo, né? Já sei: cê não quer que eu vá embora, né? Você gosta de mim?
Engasgo com o ar. — Q-quê?
— Eu sabia: você me odeia!
— Ahn?
— Você acha as minhas roupas feias. Exageradas. Acha que eu não vou conseguir ir pra Itália! Deve até rir de mim elas costas!
Quero dizer que ela enlouqueceu e simplesmente sumir daqui.
Mas ela me abraça, soluçando.
Meu peito dói e me deixa sem fôlego. Mas que merda, por que eu não fiquei quieto?
Lali limpa as lágrimas e ajeita a postura, como se nada tivesse acontecido.
Murmuro “tisc” e me recomponho.
A tesoura pesa nos meus dedos e a malha escapa do corte.
Ela prende o riso. — Bem que eu te avisei que ia dar trabalho! Mas a gente é uma dupla perfeita, né?
— É mesmo. Tá ficando perfeitamente horrível.
Ela me dá uma cotovelada de brincadeira. — Não. Eu tô falando da gente. De verdade! A gente super combina!
— Combina? A gente não tem nada a ver, Lali!
Lali cheira meu cabelo.
As veias do meu braço pulsam.
Ela beija o canto da minha boca. — Um dia você ainda vai mudar de opinião, gatinho!
Mais?
O ar some e faz minhas costelas arderem.
Lali passa os tecidos cor de cenoura pela máquina, cantando.
Chacoalha a cabeça.
Passa a língua pelos lábios.
Passa o tecido na máquina de novo.
A cabeça.
O lábio.
A boca.
Eu tô muito ferrado! Completamente FODIDO!
Em duas horas e meia, a capivara já tem 3 vestidos. Ombro frio. Babadinhos. Strass. Fendas.
E um milhão de coisas que eu finjo entender.
— Gente, olha como a minha capivara Jonas ficou um ar-ra-so!
Saio do quarto balançando a cabeça enquanto Lali edita os vídeos.
Treino.
Sigo o cronograma do vestibular.
Cumpro os turnos do Solaris.
Checo as redes sociais.
Lali não para de postar vídeos da Jonas: biquíni, cachecol e até mochila. Nem parece que ela trabalha na recepção de tanto vídeo que publicou em dois dias.
Quando chego na lavanderia na quarta-feira, Lali está com os cabelos presos num rabo-de-cavalo bagunçado na frente das bochechas.
Regata branca?
Saia jeans?
Sem maquiagem?
Chinelo?
Sem strass?
Aponto pro corredor. — Welcome to Solaris: you can check in right there!
Lali me mostra a língua.
— Sua capivara morreu afogada, foi?
— Pior: ficou órfã!
— Órfã?
Lali respira fundo e se joga num banco.
— Eu sou um incômodo pra você? — ela diminui o tom.
— Não. Por que cê tá me perguntando isso?
— Nada não.
— Então tá, né? Cê já costurou a roupa da Festa Junina pra Jonas?
— Cê não viu que tão me xingando por causa do dobok rosa?
— Ah, então é por isso que cê tá vestida assim e… tá tão séria?
— Sim. Eu ia fazer um pronunciamento pedindo desculpas agorinha, mas tenho que lavar roupa primeiro!
— Pra quê?
— Porque me disseram que funcionava, ué! Preciso limpar minha barra! Perdi mais de 1000 seguidores! Logo agora que eu ia bater 10 mil, gatinho! Depois daquela live com o prefeito na Maré, eu achei que ia dar certo, mas só me lasquei!
Cruzo os braços. — Que que te falaram?
— Que eu não conheço a história do taekwondo, que tô desrespeitando os coreanos e que devia morrer.
Um arrepio desce pela minha coluna.
Lali enxuga as lágrimas. — Que pessoas sem glamour e sem amor no coração! Eu só queria fazer uma homenagem pro meu gatinho favorito!
Abro um sorriso. — Aposto que essas pessoas são tão coreanas quanto o meu CPF.
Lali ri. — Mais do que eu elas devem ser.
— Em qualquer esquina você vai achar uma senhorinha dizendo que essa ideia foi “legal” e “fofa”. E também que os jovens de hoje em dia “poderiam seguir seu exemplo”.
— Yoongi! — Lali bate palmas. — Você é um gênio! Que ideia maravilhosa! Vou ignorar todo mundo!
Ela me abraça rápido. Rápido o bastante pro perfume de melancia e limão dela se espalhar pelo ar e me deixar arrepiado.
— É… mas… pergunta pro Jimin também. Vai ser bom pra você ter outro ponto de vista de alguém conhecido.
Lali confirma com os polegares.
— É… — Ela coloca as mãos no bolso da saia. — Tem certeza que você não ficou mal?
— Não. Um tecido rosa feito pra uma capivara de pelúcia nunca me ofenderia. Eu me ofenderia se você desistisse de todas as postagens que planejou por causa de uma besteira dessas.
Desvio o olhar pros meus pés. — E você fez um ótimo trabalho.
Os olhos dela se enchem d’água. — Ai, agora eu tô feliz porque a sua opinião era a única que importava!
Tento disfarçar o sorriso e a dor no estômago, mas meu corpo se inclina na direção de uma máquina e eu rio alto.
— Quanta responsabilidade! Sinto muito por você, Lali!
Ela dá risada e beija minha bochecha três vezes seguidas. O calor na minha pele é tão forte que o barulho das máquinas rodando soa distante demais.
— Nem acredito que agora eu tenho várias roupas pra lavar! E só minhas! E com o tecido que eu quero! Do jeito que eu quero!
— Com o tempo você vai odiar fazer isso, eu te juro!
— Tenta ver o lado positivo pelo menos uma vez, gatinho: você tá lavando roupa. E comigo. E eu sou muito legal!
Lali suja meu nariz de espuma.
— Cê é criança?
— Você que não aprendeu a brincar!
Desço o olhar pra boca dela por um segundo.
Não. Se. Mexe. Yoongi!
Minhas mãos estão a centímetros da cintura dela.
NÃO!
— É porque às vezes eu não sei a hora de parar, então eu prefiro nem começar.
Lali diminui o espaço entre nossos rostos.
FICA. PARADO!
O coração dela pulsa forte contra o meu.
— Mas quem foi que pediu pra você parar? Deixa acontecer!
PUTA. MERDA!
Lali para os olhos na minha boca. — Já falei que você fica lindo de azul marinho?
Colo as costas na parede. Olha. Pra. Cima. Yoongi!
Minha cabeça não me obedece, descendo o olhar.
Boca.
Pescoço.
Boca.
Olhos.
Cabelo.
Cintura.
Calor.
Boca.
— Esse terno. — Ela aponta para “MANAGER” grifado na lapela. — Te deixa ainda mais gato.
— V-você também é bonita.
— Só isso?
Vai, Yoongi. Anda. Logo!
— A gente devia tomar café nesse final de semana. Eu tenho um cupom de desconto, uma parceria do Solaris com a Coffee Brasa.
— Peraí: é aquela cafeteria chique que abriu no Centro?
— É.
— Eu vou, mas só pra tirar foto!
— Lá também tem aqueles chá horrível que você gosta.
Lali me mostra a língua. — Cê tá me chamando pra um encontro?
— C-claro que não! Eu tô com tempo livre e não posso perder café grátis, né? E você gosta de conversar! É uma conversa com café. Isso! Muito café!
Ela franze as sobrancelhas. — Tá, eu topo!
Respiro fundo.
Meu celular toca.
“CHATONILDA DE MELBOURNE” brilha na tela.
— Licença.
Caminho até a recepção.
— Tô chegando aí, querido.
— Ah, oi. Tô aqui na recepção.
O barulho de um sapato sendo arrastando pelo vinílico fica mais forte.
— Quem é?
— A Rosé.
— Rosé?
— Sim. Ela tá vindo pra conhecer o Solaris.
— É a curitibana? A garota da ligação?
— Sim, mas ela não é curitibana. Ela é—
— Cês são amigos?
— Não exatamente. Mas se você perguntar pra ela, acho que a resposta dela vai ser outra.
— Como assim? Cês ficaram?
— Claro que não!
— Então cês tão ficando.
— Não!
— Vocês se conhecem tem o quê: tipo dois dias?
— Uns quatro, sei lá.
Lali arqueia as sobrancelhas e dá uma gargalhada, jogando a cabeça pra trás. — Já entendi qual é a sua então, Yoongi! Ai, ai!
Antes que eu pergunte “que foi?”, passos soam atrás de mim.
— Ah. Ela chegou.
Me viro.
— YOON!
Fale com o autor