Anything But Ordinary

13 Grite pra sentir a vida


PARALISO NO MEIO DA RECEPÇÃO.

— Oi, Lali — Rosé me cumprimenta com um sorriso e um aceno.

Ela tem o cabelo roxo pastel. Ondulado. Longo. Sua pele é pálida, num tom rosado frio.

Ela veste um macaquinho curto de tweed azul bebê, desfiado nas bordas, de altíssima qualidade, e segura uma clutch dourada da Chanel que combina com os botões do tecido. Seus scarpins brancos a deixam quase da minha altura. Seus olhos são escuros, grandes e dourados.

Perdi. Perdi. PERDI!

Não disfarço minhas sobrancelhas arqueadas e ombros caídos.

Então. É. Ela!

É (mesmo) ela!

A curitibana.

Droga!

Ela é muito mais bonita que no Instagram!

E é a maior patricinha!

É.

Agora o Yoongi vai ser feliz de verdade.

Longe de mim.

Ele encontrou a alma gêmea dele.

Uma garota bonita que vai ser chata junto com ele.

Eu vou ficar pra escanteio.

Depois de tudo que eu fiz…

Não serviu de nada!

Eu não sou importante!

Nem sei porque eu me iludi!

— Lali? — Yoongi estala os dedos.

Rosé se aproxima e espalha perfume de cereja pelo ar.

Merda, e ainda é cheirosa!

— Oi, Lali! Meu nome é Rosé!

E simpática!

— P-prazer! — Forço um sorriso.

Prazer é o caralho!

— Adorei seu estilo: é uma coisa meio… coquette, né? Ou melh—

— Não — digo, entre dentes —, meu estilo não tem nome! É único!

Os olhos dela ficam pequenos, mas os lábios se alargam. — Era isso que eu ia dizer: é bem único porque você mistura várias tendências!

Seco as palmas no vestido. Por que eu tô falando assim?

— B-brigada…

— O Yoongi me mostrou seu perfil e eu a-do-rei seus vídeos costurando! Me mostra suas roupas? E eu já aproveito e conheço o hostel todo, pode ser, Yoongi?

Ele concorda e volta a conversar com um dos recepcionistas freelancers sobre os horários.

Relaxo os ombros enquanto atravesso o corredor com Rosé à direita.

— Cê é daqui de Costaré mesmo? — solto.

— Sim, da Vila Dorata.

— Achei que cê era lá de Curitiba!

Em dois minutos, Rosé troca de assunto umas cinco vezes: fala sobre seu hamster, sobre os cafés australianos, o clima da Coreia, sua vida de designer e os atores famosos que conhece.

— Desculpa, eu me distraí! — Ela estapeia a testa. — Do que que a gente tava falando mesmo?

— Não lembro! Acho que nunca conheci alguém que fala mais do que eu, mais rápido que eu e que consegue falar de tudo ao mesmo tempo!

— Pera: cê tá sendo fofa comigo? — Rosé abafa a risada. — Ai! O que a gente é agora? Noivas?

Pisco de volta, gargalhando. — Era uma crítica, mas até na hora de responder você divou! Amei! Mas… de onde você conhece o Yoongi mesmo?

— Conheci ele no Mundo Lingo de Curitiba. Eu tava viajando a trabalho.

Mexo no cabelo, forçando uma risada.

— Legal — gaguejo —, cês viraram amigos, né?

Rosé exclama algo em coreano. — Eu virei amiga dele! Agora se ele virou meu também, aí eu já não sei!

— Tendi…

— Mas pra quê cê quer saber, hein?

Fecho a boca.

Quando passamos pelo jardim, o cheiro de cloro se intensifica. Tem hóspedes ao redor da churrasqueira, e outros na sala de jogos brincando nos totós.

— Aqui cês fazem fila pra pegar ele?

Fecho as mãos. — Quê? Quem? O Yoongi?

— Eca, que mau gosto! Deus me livre gostar de nerd!

Ai, sua idiota! Pra quê que eu aceitei te mostrar o Solaris?

Respiro fundo.

Então aquela mensagem que ele me mandou em Curitiba… não foi da boca pra fora? Ele… ele sentiu minha falta de verdade! Ele gostou de costurar comigo! Ele ficou arrepiado quando eu caí em cima dele no meu quarto…

Ele…

Será que ele…

Não! Não! Claro que não, Lali!

Não é possível que ele não gostou nem 1% da Rosé!

Ela é perfeita! Olha só pra essa garota, Lali: você já era!

Raspo a garganta. — Vamos?

No final do jardim, Rosé para de andar.

Namjoon espalha tinta dourada da cor da tarde pelo mural, formando a bandeira do Brasil. Seus fios azuis escapam pelo durag vermelho, e a barriga suada se mexe toda vez que ele se inclina na escada.

Eu até diria que ele é gato.

Mas o Yoongi me vem à mente.

E eu abro um sorriso.

— Esse é o Namjoon, Rosé. Ele também trabalha aqui, na recepção.

— Já vi que ele deve trabalhar bem até demais!

— Ei! Calma! — Tento puxar Rosé, mas ela se solta, dá um passo à frente e prende os olhos nas tatuagens da barriga do Namjoon.

— Pra mim isso parece vandalismo! — ela diz.

Aperto os lábios. Maluca!

Namjoon faz uma careta e volta a apertar a latinha de spray amarelo, se chacoalhando na escada.

— Ei! — Rosé grita. — Eu tô falando com você, moleque!

Namjoon deixa um chiado escapar em coreano.

O perfume terroso dele se mistura ao doce da Rosé, e a tinta fresca entra no meio. Não é a melhor combinação do mundo, mas faz meu nariz arder.

Namjoon desce um degrau. — E você por acaso sabe alguma coisa de arte pra tá aqui dando opinião que ninguém pediu?

— Sei. Eu sou designer de interiores.

Abro a boca.

— Não parece.

— Pra mim isso ainda parece vandalismo.

Prendo a risada outra vez.

Namjoon desce mais um degrau. — E quem é você?

— Rosé. Ou melhor: Rosé-Harper-Charlotte-Eleanor-Park.

Tapo a boca. — E eu achando o meu nome grande.

— É. Meus pais me amam demais.

— Você tá mais pra fiscal de arte — Namjoon diz —, só que sem estilo. Nem as criancinhas da Paróquia da Maré usam essas roupas de Barbie!

— Então você é da Maré? Interessante…

— Ah. Claro. E você deve ser da Vila Dorata!

— Gênio.

Parece um filme.

Cruzo os braços e me escoro na parede, perto o suficiente pra que eles me vejam, e longe o bastante pra não atrapalhar a conversa.

Namjoon pula o último degrau da escada.

Rosé não disfarça o sorrisinho pro tanquinho do Namjoon.

Balanço a cabeça. — Loba! Atacante! Queen!

Ela dá uma risadinha e passa a língua pelos lábios.

— Ah, oi, Lali! — Namjoon sorri e acena pra mim. — Pelo menos uma pessoa aqui entende de arte de verdade.

Idiota!

Rosé morde o canto da boca e aponta pra bermuda dele. — O que te faz pensar que eu não sei nada de arte?

— Você deve ter uns 25 anos e ainda usa cabelo colorido. Isso não é muito profissional pra alguém da Vila Dorata que diz que é designer.

— Você também tem o cabelo colorido ou esse azul é ilusão de ótica?

— A diferença é que eu estudo Moda.

— Pelo menos eu não uso esse monte de trapo, né? Na Maré cês são bregas?

Descruzo os braços.

Namjoon coça a bochecha. — Sabe o que você não usa? Esse seu cérebro, baby!

— Como é que é?

Eles respiram rápido.

Eu perco o ar.

— O máximo de arte que você deve entender é quanto custou essa bolsa da Chanel na sua mão.

Mesmo longe um do outro, as narinas dele estão vermelhas.

— Você tem cheiro de trambique! — O tom dele é baixo e firme ao mesmo tempo. — Deve tá metida em um monte de coisa errada igual aqueles políticos de merda! Cês só usam a Comunidade pra se dar bem!

Os olhos da Rosé lacrimejam e ela corre pra dentro do Solaris.

— Namjoon! — grito. — Eu não sabia que você era assim!

Ele ri pelo nariz. — Assim como?

— Você tá sendo muito preconceituoso! Cê nem conhece ela direito!

— Eu, Lali? — Ele gesticula rápido. — Foi a Rosé que começou falando das minhas roupas de “trapo” e me chamando de vândalo! Eu só me defendi! Ela é que não me conhece!

— Aff, como cê é sonso, Namjoon! — Agarro meus cabelos. — Homem não percebe nada mesmo!

A latinha de spray escorrega da mão dele e cai no balde.

Pisco forte. — Arranja um jeito de pedir desculpa, Namjoon! Se vira!

Espero pela Rosé na porta do banheiro. Ela sai depressa, ajeitando a roupa e sacudindo os ombros.

Mordo o canto da boca. — Já falei com o Namjoon. Depois ele vai te pedir desculpa!

— Ele bem é gostoso, mas só tem dois neurônios, então nem faz diferença porque eu não gosto de homem burro!

Seguro a risada. — E… e como é a sua família?

— Uma porcaria.

Arregalo os olhos.

Rosé suspira. — Meus pais se odeiam. Eles são donos de uma corretora de imóveis. Quer dizer… eram. Minha mãe fez o favor de chifrar meu pai com um cliente, aí eles viraram inimigos e um tentou ferrar o outro na justiça. Agora os dois tão competindo pra ver quem é mais podre.

Ainda estou sem piscar quando ela ri.

— Eu era jogada da Coreia, depois pra Austrália e e pro Brasil toda hora igual uma peteca.

Sorrio sem mostrar os dedos. — Fico triste por você.

— Cê sabe que eu não ligo, né? Eu quero que eles se explodam: o problema é deles, não meu!

— Não parece!

Empurro a porta do quarto.

Ajeito o lençol da cama os materiais na bancada antes que a Rosé entre. Ela passa os olhos pelo tapete felpudo, pelos meus pôsteres novos da Tina Turner e pelos moldes na bancada.

Ligo o ar-condicionado e afasto as cortinas. As camélias e o ar gelado do mar se misturam com os nossos perfumes, e um beija-flor bate na janela.

Aperto o tecido da minha regata. — Tô com um pouco de frio. Vou trocar de roupa rapidinho.

Volto do banheiro usando meu shorts jeans desfiado, moletom e rasteirinhas.

Rosé passa os dedos pelo cabelo. — Eu já fiz curso de Moda, sabia? Na Itália.

Travo os ombros. — S-sério? E como era?

— Cansativo e ao mesmo tempo revigorante.

Minha mente visualiza os manequins brilhantes, as araras lotadas de tecidos pesados e meu nome escrito em laranja com glitter no topo.

Balanço a cabeça.

— Isso aqui é linho e seda purinhos. — Rosé desce o olhar pra minha caixa. — Mas as roupas que você costura têm uns tecidos bem méh. Por que você não usa esses? Você comprou lá fora? Você já foi pr—

Guardo a caixa.

Ela faz careta e aponta pra máquina. — Você costura com esse troço velho? Ah, pelo amor de Deus, Lali: compra uma nova que presta!

Engulo a seco.

Rosé ri e mexe nos meus moldes. — Tem certeza que você não é filha de um estilista famoso e seu sobrenome não é Gucci?

Congelo.

— Ah, lembrei! — Rosé passa as mãos pelo cabelo antes de destravar seu celular. — Quanto você cobra pra fazer um desses?

O vestido é longo. Furta-cor. Tomara-que caia. Coberto por tules nos ombros. Pedraria de altíssima qualidade nas fendas da barriga.

— Ah, uns… 500 reais.

Rosé empalidece. — Só isso? Cê quer falir, menina?

— Quem vai querer pagar caro numa roupa que eu fiz?

— Ahn?

— Fora que… se eu cobrasse o valor normal, eu não ia ter cliente. Ia ser tipo uns 1500 reais. O pessoal aqui na Camélia não é pobre, mas não é rico igual vocês da Vila.

— Mas assim cê vai passar fome, garota! Eu hein! Eu te pago até o triplo se você quiser, mas eu preciso que você faça essa roupa!

Dou de ombros. — Eu não sei se vai ficar tão bom, mas… é pra quando?

— 16 de novembro. Vai cair num domingo.

Respiro fundo.

— Eu já fiz o orçamento com várias outras costureiras e um vestido desses pode demorar até 2 semanas pra ficar pronto, e ainda falta 5 meses pro Designer+ Awards, então eu não tô entendendo porque você tá me olhando com essa cara de quem bebeu caipirinha achando que era soju!

Respiro fundo de novo.

— Você parecia ser muito mais confiante nos vídeos, Lali. — Rosé estala a língua. — Que decepção, você era o meu ideal, agora virou meu ideal do que eu não devo seguir!

Reviro os olhos. — Não sei se eu te jogo por essa janela, rio da sua cara ou se choro, sinceramente!

— Nossa, nenhum beijinho? Achei que você fosse mais sensível, Lala!

Mostro o dedo do meio pra ela.

— Vai fazer o vestido ou não?

— Se você tem dinheiro pra contratar a estilista que quiser, por que veio logo aqui?

Rosé dá de ombros. — Eu vi seu trabalho na internet e te achei talentosa, ué! Não posso? Fora que a maioria queria me cobrar 3000 reais. Você exagerou querendo me cobrar 500, mas pelo menos não abusou.

Meu celular vibra debaixo do travesseiro.

— Cê não vai atender? — Rosé franze o canto da boca.

— Não. Quando eu tô focada no trabalho, eu deixo no mudo.

Tiro as medidas dela e desenho os tules no molde. Rosé abre a galeria do celular e me mostra memes de animes e doramas que me deixam boiando.

— Seu celular tá apitando toda hora, Lali! Vai que tem alguém te ligando?

— Ai, Rosé, sério: eu não aguento mais! Já tem quase dois dias que tão me xingando por causa do dobok rosa que eu fiz pra Jonas! Aí eu desanimei!

Rosé aponta pra minha cama. — Ah, Jonas é o nome daquela capivara de pelúcia dos seus vídeos?

— É.

— Menina, só agora que eu fui me tocar que você era a menina do dobok! Até hoje não entendi porque te cancelaram!

Puxo o ar.

— Desculpa, é que no meu tempo livre eu passo vendo vídeos de motoqueiros dando grau!

Bufo.

— Mas eu achei genial sua ideia das roupas pra Jonas! Cê devia postar mais coisa!

— Todo mundo falava isso, e eu fui na onda… e agora me ferrei!

Destravo a tela do celular.

99+ MARCAÇÕES NA PUBLICAÇÃO DE @KIRADINIZ
ESSA GAROTA É UMA ESCROTA!!!
ELA MERECE PERDER ESSA CONTA PRA APRENDER A PARAR DE SER UMA TONHONHA!!!
EU SABIA QUE ELA NÃO PRESTAVA DESDE AQUELE DOBOK ROSA!!!

Meus dedos gelam. — Kira? Ah! Que porra é essa?

— Lali? — A voz da Rosé soa longe demais. — Por que cê tá tremendo? Cê ficou pálida do nada, tá tudo bem? Me responde! Ei! Ei! EI!

Minha respiração vai.

Vem.

Vem.

Vai.

Rosé é um borrão.

O quarto é fumaça pura.

Talvez sejam as minhas lágrimas formando faíscas no ar.

Rosé estala os dedos, chacoalhando os meus ombros.

— Me responde! — ela grita e toma o celular da minha mão.

A voz de uma mulher sai gritada pelo meu celular:

Ei, ei, ei, meus amores! Kira Diniz na área direto do Centro de Costaré pra mais um #CostaNews pra vocês! Cês tão sabendo do mais novo babado do mundinho da Moda e da Alta Costura? Quer dizer: da Baixa, né? Cês se lembram da Lali Bergamaschi, aquela influencer metida à estilista que viralizou fazendo roupinhas pra uma capivara de pelúcia nessa semana? Todo mundo sabe que ela se passou muito quando desrespeitou a cultura coreana costurando aquele dobok rosa, né? E pra piorar: ela nem se retratou! Mas não foi só isso: acabou de sair uma notícia que vocês vão cair duros! Olha só!

Quero gritar por essa tal Kira ter pronunciado o meu sobrenome errado e xingar todo mundo de volta, mas a tela não para de pipocar.

Rosé exclama “QUÊ?”

Enxugo o rosto. Kira deve ter uns 35 anos. Ela usa uma boina laranja, e seu cabelo cacheado laranja está cheio de gel num coque firme.

— R-Rosé, como que eu nunca vi o perfil dela antes? Ela tem 100 mil seguidores!

— Eu também nunca vi.

Seco as bochechas.

O vestido que eu costurei pra Alice aparece no vídeo.

— Ahn?

Surge outro com um tecido idêntico aos da minha caixa.

Esse vídeo aqui que tá passando atrás de mim voltou a viralizar agorinha nessa tarde de quarta-feira, 18 de junho, e eu vim trazer tudo em primeira mão pra vocês, minhas lindas! Vocês não paravam de me marcar! Que BABADO, né? Sim, é isso mesmo que vocês estão pensando: a Lali supostamente plagiou a Bergamaschi Tessuti na cara dura! Antes de começar a publicar os vídeos da capivara, ela postava vídeos mostrando o processo de criação à mão e ninguém tinha percebido ainda, mas finalmente perceberam inúmeras semelhanças dos traços das peças criadas por ela com os traços da Bergamaschi Tessuti! Pra quem não sabe, eles são uma família muito prestigiada de Bergamo que fornece peças pra grandes Casas feito a Gucci e a Versace! Vejam como desde a ponta até a bainha é i-gual. Talento ela tem de sobra, né? Não podemos negar! Mas imagina postar esse vídeo sabendo que você pode tomar um processinho? Ela é no mínimo corajosa, cês não acham? Enfim, gente! Por enquanto é tudo especulação, mas qualquer coisa eu volto aqui com mais notícias pra vocês, Kitters do meu coração!

Não sei onde apertar, perdida entre tantos cliques.

99+ MENSAGENS
99+ COMENTÁRIOS NA SUA ÚLTIMA PUBLICAÇÃO
PLAGIADORA DO CARALHO!!!
BORA DERRUBAR A CONTA DESSA FILHA DA PUTA!!!
SE EU TE PEGAR NA RUA, VOCÊ TÁ FODIDA!!!

— Cê copiou eles?

— Q-quê? — Soluço. — Claro… claro que não, Rosé! Cê tá achando que eu não tenho caráter? E nem talento?

Rosé mexe os ombros. — Ignora esse povo! Se essa Kira entendesse tanto de moda, ela não ia perder tempo criticando alguém que ela acha tão ruim, cê não acha?

— Aqui tá… tá falando que ela… ela se formou na Universidade do Centro!

— Será que ela não comprou esse diploma? Não dá pra confiar!

— Não… não sei!

Rosé toma o celular da minha mão de novo. — Bora denunciar essas contas antes que eles derrubem a sua!

Volto a soluçar, tentando recuperar o celular.

— Não, Lali! Me devolve!

— Deixa eu… eu vou postar um… um vídeo pedindo desculpas… por ter plagiado! Eu já devia… ter postado… desde aquele di—

— Se você não plagiou então não precisa pedir nada, Lali! Assim você só vai dar palco pra eles cantarem!

— Então eu… eu vou só aceitar… eles acabarem com a minha vida?

— É isso ou meter um processo em cada um, e pelo que eu tô vendo aqui tá beirando mais de 1000 comentários. Cê tem dinheiro pra tudo isso? Haja advogado, hein? Boa sorte!

Soluço.

— Então eu vou bloquear todo mundo pra você. Desbloqueia a tela e deixa eu mexer. Anda!

Franzo a testa.

— Que foi? Cê acha que eu vou postar nudes na sua conta, garota? Vontade não me falta, mas eu não seria tão burra de deixar provas, lógico!

Dou uma risada. — Você é doida.

— Obrigada pela parte que me toca.

Outro soluço escapa de mim.

Desbloqueio a tela e entrego o celular pra Rosé.

Ela some pelo corredor.

Um perfume de morango se espalha pelo quarto e uma figura alta de pele escura, black power marrom, sapatilhas e vestido florido surge na luz amarelada.

— L-Lice?

Ela me abraça.

Soluço de novo. — Você… você acredita em mim… não acredita, Alice? Você sabe… você sabe que é mentira e que… eu não copiei ninguém, né?

— Claro que sim!

Abro um sorriso no meio das lágrimas. — Eu sabia… eu sabia que você ia acreditar em mim, Alice! Obrigada por… por não me abandonar! Eu te amo!

Ela desfaz o abraço. — Não sabia que isso ia mexer tanto assim com você!

— Eu posso morrer amanhã, sabia? Então precisava me declarar logo: você é minha melhor amiga, Alice! Você me ouviu? Eu te amo, de verdade!

Uma lágrima escorre pelas bochechas dela.

Ela enxuga as minhas.

— C-Cê não vai falar também?

Alice desvia o olhar pra janela.

O gosto na minha língua é salgado e doce ao mesmo tempo.

E eu tremo, tremo, tremo.

— Sempre foi assim, né? — Rio baixo. — Eu… eu que nunca percebi antes… eu que… me iludi sozinha! Eu achava que… você… era minha amiga… de verdade!

— Lali, eu sei que você tá mal, mas não é isso!

— Não?

Alice faz carinho nas minhas costas. — É! Calma! Às vezes você tira conclusões sem saber direito das coisas!

— Quê?

— Para um pouco e pensa no que você tá falando!

— Cê tá me chamando de burra?

— Lali, eu não quero discutir com você! Você tá mal!

— Então você tá fugindo?

— Não, eu só não quero discutir mesmo!

Rio pelo nariz. — Eu sou muito idiota. Quer saber? Não fala mais comigo, Alice!

— Então tá, Lali! Se você vai duvidar de mim porque você criou uma ideia besta na sua cabeça, então eu acho que você é quem nunca foi minha amiga!

— Eu perdi tudo! Tudo! Até você! Merda! Merda!

Alice tenta segurar minhas mãos, mas eu cruzo os braços.

— Caramba, você já conquistou muita coisa, Lali! Por favor, não liga pra essas pessoas que nem te conhecem! Não fala assim!

— Fácil… falar… Se… se põe no meu lugar! Tão… me… me ameaçando! Não… não é tão… tão fácil… assim!

— Eu tô tentando te entender desde que eu te conheci, Lali! Se põe no meu lugar também!

— Então… então por que cê não me ama?

— P-Por que cê tá me perguntando isso?

Enxugo as maçãs do rosto. — Cê tá demorando me pra responder… então não, né? Eu sou sua amiga… mas… você nunca… foi minha!

— Bora focar no que tá acontecendo: cê quer que eu te ajude com os trâmites? Mês que vem eu já posso começar a pegar processo!

— Tanto faz! Eu me… esforcei pra nada mesmo! Eu… só sirvo pras pessoas rirem da minha cara!

— Lali, isso não define quem você é, o seu talento e muito menos toda a sua trajetória até aqui! Cada um tem seu tempo de brilhar! Seu próprio espaço! Seu tempo e—

Reviro os olhos.

Blábláblá!

— …e tem muita gente te xingando, mas também tem muita gente elogiando o seu trabalho! Todo mundo amou o vestido que você fez pra mim, sabia?

A esse ponto, já estamos falando uma por cima da outra, cara a cara, com os queixos travados e as vozes exaltadas:

— Não! Você só tá falando isso pra limpar sua consciência porque você sabe que você não me ama, Alice! Você só me suporta porque a gente trabalha juntas, né? No fundo no fundo, você nunca quis ser minha amiga! Você sempre deve ter me achado chata igual a todo mundo! Você, o Jimin, o Yoongi, a Rosé, o Namjoon e até a Angeline devem me odiar!

— Todo esse tempo que eu fiquei do seu lado não serviu de nada, Lali?

— Ah, então cê vai jogar na minha cara, Alice?

— Agora é é quem não quero mais falar com você! Eu sempre tento te ajudar, mas você não colabora! Quer saber? Você me sufoca! Na moral, cara: me erra, Lali! Me ERRA!

Alice bate a porta. Pelo barulho, sei que ela escorregou pelo chão e está chorando tanto quanto eu.

Meu peito arde e eu me jogo na cama, escondendo a cara no travesseiro.

— INFERNO! Eu sabia! Eu só atrapalho todo mundo! Ninguém reconhece meu esforço e nem tenta me entender direito! Só apontam o dedo na minha cara! Eu fui uma péssima filha! Uma péssima amiga! Uma péssima influencer! Eu devia mesmo era morrer logo de uma vez! Talvez… talvez isso resolveria!

Mais passos soam atrás de mim.

— SAI!

Uma risada escandalosa se espalha pelo quarto junto com um perfume forte.

— Ai, Lali! Cê precisa ver isso!

Rosé vira a tela pra mim. Esfrego os olhos, tentando me acostumar com a luz azul do meu celular.

— Kira Diniz… 34 anos… atriz pornô nas horas vagas e… jornalista de 5ª categoria nos dias úteis? Que que isso?

Tem fotos criadas por inteligência artificial por todo o perfil com legendas em letras garrafais:

O DIA QUE EU FUI CORNA E GOSTEI
SOU A RAINHA DA SONEGAÇÃO DE IMPOSTOS
COMPREI MEU DIPLOMA NUM BRECHÓ
COMPRO SEGUIDOR

— Cê criou uma conta fake, Rosé? — Alice grita, empurrando a porta. — Tá doida? Difamação dá cadeia, sabia?

Me levanto na cama num pulo. — Você tava escutando atrás da porta?

Alice cruza os braços.

Rosé gargalha.

Soluço. — Você… você exagerou, Rosé!

Ela gargalha de novo. — Que foi? Eu tava entediada, poxa! Aí surgiu essa oportunidade pra alegrar o meu dia! Eu não podia perder!

— Mas isso é sério, Rosé! — Alice grita.

— Ah, Alice, não fode o meu rolê! É uma conta fake! Ela não vai descobrir nunca!

Sorrio fraco. — Obrigada… por… tentar… me ajudar, Rosé! Você… não… não é tão metida… igual eu… achei!

Alice balança os braços no ar. — Rosé, isso foi feito no celular da Lali! Você fez isso de propósito?

Rosé e eu nos entreolhamos.

Alice ri.

Um arrepio passa pelas minhas costas.

— Isso se enquadra como crime contra à honra! Eles podem achar o endereço IP do celular da Lali e ferrarem ainda mais ela, Rosé!

Pisco rápido.

— Eita como você é exagerada, Alice! — Rosé ri.

— Você já sabia disso, né? — Alice balança a cabeça. — Cê tá se fazendo de besta só pra sair por cima da situação!

— Simples: eu apago a conta. Fim da história!

— Não é tão simples assim, não!

— Para porque cê tá me irritando já! Você só me tá atrapalhando! Eu tava tentando achar uma forma de vingar a Lali dessa imbecil, não vou entrar no seu mimimi!

Alice aperta um travesseiro. — Você tá sendo egoísta e muito, mas muito irresponsável, Rosé! Você é uma manipuladora do caralho!

— Você xinga? — sussurro.

Os lados da minha cabeça doem.

As lágrimas me cegam e tudo o que eu faço é chorar e chorar, soluçar e ficar cada vez mais sem ar, caída no chão, com os dedos tremendo.

— Se você se acha tão fodona, Alice, então por que o Yoongi é o gerente do Solaris e não você, hein?

— Como é que é?

— Pois pelo que ele me falou, você tá aqui há muito mais tempo que todo mundo! Talvez cê não é tão foda, né? Vai saber!

— Rosé! — eu a repreendo, no meio de mais um soluço.

Uma das duas estala a língua.

A outra ri.

— Cê não sabe de nada, Rosé! — A voz da Alice quase quebra. — A Sra. Park e ele têm uma relação de mãe e filho, mas isso não significa que ela não gosta de mim! Eu não tô gostando desse jeito que você tá falando comigo porque eu não te dei essa liberdade toda, ok? Vai procurar outra trouxa pra provocar porque eu já tenho problema demais pra resolver!

Para! Para! PARA!

Alice grita:

— E cê acha que eu não sei que o seu pai tá sendo investigado por estelionato? Ele já até virou assunto na faculdade por causa da Park Imóveis, virou o maior escândalo em Costaré! Fora que, se você não sabe, o meu pai é dono da AlmeidaAutoLux e já me falou que o seu pai é o maior pilantra! Ele fica sempre falando no nome de Deus, mas não vai nas reuniões direito! Cê só podia ser filha dele mesmo!

Levanto o olhar, fungando.

— A-Alice? — Minha voz sai em um sopro.

Rosé fecha os punhos.

As respirações delas estão mais altas, e ao mesmo tempo é como se viessem de longe. O ar está frio, e o meu queixo dói tanto que eu não sei como ele ainda não caiu da minha cara.

As lágrimas borram a minha visão outra vez.

Rosé ri. — Cê tá certa, Alice: o meu pai é um bandido. Mas eu não sou ele!

— Não existe isso! Cê nunca ouviu falar que nós somos extensões do nossos pais?

Extensões?

Rosé faz uma careta. — Pois então corta ela, minha filha! Eu não acredito nesse seu papinho de gente idiota!

Gente idiota?

— Cê não liga pra reputação da sua própria família?

Levanto a cabeça. Reputação?

Rosé mexe os olbros. — Foda-se! É culpa deles, não tenho nada a ver com isso!

— E quem me garante isso?

— O que te faz pensar isso? Eu tenho que pagar o pato, é? Me mostra algum processo no meu nome, Alice, vai! Anda!

— CHEGA! — grito, me esticando pra fora do quarto.

As vozes delas ecoam uma por cima da outra enquanto eu me arrasto pelo chão:

— Viu, Rosé? É culpa sua: você não deixou ela respirar, ficou grudando nela igual carrapato!

— Ou será que você é uma amiga inútil que só ficou se lamentando ao invés de ajudar ela?

— Inútil? Cê tá doida?

— Doida é você!

— Cala a boca!

— Vem calar!

— Você tem 10 anos?

— Quase 25. Já você parece ter 5!

— Vai se foder!

— Vai se foder você!

Chego no quartinho de estudos do Yoongi. Está vazio. Meio escuro. Firmo os pés no chão gelado. A poeira se espalha pelo meu cabelo, costas e nariz. Puxo os joelhos pra perto até alcançar o peito e solto mais lágrimas, entre tosses, soluços e a falta de ar que se intensifica.

— Lali… — uma voz sussurra.

A pele macia e o cabelo penteado de lado do Yoongi surgem na luz branca. Não sei se o moletom dele realmente é verde menta ou azul turquesa, mas o deixa ainda mais pálido.

Ele abre os braços devagar.

Rio no meio de mais uma fungada. — Você quer me abraçar, gatinho?

Ele coça a bochecha.

— É que… Ajuda a relaxar. Cortisol. Ocitocina. Dopam—

Num impulso, envolvo meus braços ao redor do pescoço dele. Sua pele está tão quente que parece me dar um choque.

O suor faz meu moletom grudar nas costas.

Quando eu me separo do abraço, os olhos do Yoongi brilham. Tem alguma coisa que eu não interpreto direito neles.

Ou pelo menos é isso que eu tento me convencer.

— Me fala o que aconteceu: eu te ajudo a resolver!

— Desculpa. Eu… não quero… parecer fraca… na sua frente!

Yoongi abre um sorriso curto. — Você não parece fraca.

— Não?

— Você é…

— Chata?

— Intensa.

— E isso… isso é ruim?

— Tem gente que se assustaria.

— Tem?

— Mas tem gente que admira isso nas pessoas.

— Gatinho… cê tá me elogiando… ou me criticando?

Yoongi bufa.

Dou um sorrisinho, limpando as bochechas.

— Então. — Soluço. — Além de ser bonita, eu sou mais o quê? Me fala!

— Você não vai me fazer falar igual seus seguidores e ficar te chamando de “queen”, “diva”, e “gata”, né?

Reviro os olhos. — Chato. Sempre chato.

— É só que… pra mim não é legal ver ninguém chorando.

— Obrigada por se preocupar comigo, gatinho.

— Me fala o que foi. A gente vai achar uma solução juntos.

Minha cara arde. — É a Itália.

— Conta.

— Você sabe que eu não sou a melhor pessoa do mundo planejando as coisas… quem me dera que fosse tão fácil igual costurar uma bainha… Quando eu penso no meu futuro, eu só consigo pensar em ir embora pra lá! E ao mesmo tempo, é esquisito… porque eu não consigo me ver 100% lá, mas também não me vejo 100% aqui!

— Você — Yoongi sussurra —, já foi no Consulado, pelo menos?

— Fui! Me deram uma lista de documentos, mas eu não tenho nenhum!

— Então… nesses 14 dias você já fez o passaporte e foi no Consulado? Você já fez muita coisa!

— De que adianta? Acabaram comigo na internet! Me chamaram de plagiadora! Além de ser xingada por causa de uma capivara, agora tão me des-cas-can-do por culpa de um vestido!

— Qual? O da formatura da Alice?

— Sim! A costura é parecida com as da Bergamaschi Tessuti!

— Peraí: tão te acusando de plagiar a sua própria família?

— Pra eles eu sou só uma costureirinha brasileira de quinta categoria. Eles não sabem de nada.

— Bem que dizem que tem gente que nasce com dom.

Abro um sorriso curto. — Você acabou de me elogiar de verdade.

A cara dele fica vermelha e ele tosse forçado. — É… Agora eu tô entendendo, eu acho! Cê imitou o estilo da sua família sem saber?

— Eu só faço do jeito que o papà me ensinou! Como eu ia copiar uma coisa que já é minha?

— Mas a sua família sabe disso?

— Não. — Comprimo os lábios. — Quem me dera! Ia ser muito mais fácil!

— Por que você não fala com eles? Ninguém no Consulado te ajudou?

— Eles não podem! Eu tentei ver com um advogado e com uma agência e… é muito documento: precisa de um tradutor. Pode chegar a 60 mil reais! Sessenta mil, Yoongi!

Ele para de piscar. — Mas a empresa não tem perfil na internet? Nem que seja, sei lá, num blog?

— Tem, mas não responde! E eu nem sei se é confiável mesmo! Eu já até mandei e-mail, mas… mas…

Tento respirar de novo.

Yoongi encosta nos meus ombros. — Mas?

— Nada! Nada! NADA! O advogado disse que o meu pai tentou tirar os meus documentos antes de morrer… Ele… ele queria me proteger, mas arquivaram tudo quando eu fui pra Casa Jovem! Eu cresci pensando que quando eu fizesse 18 anos, eu ia fazer faculdade de moda e conhecer os meus avós em Milão! Mas… mas eu… eu nem sei por onde começar! Eu não sei em qual cartório a morte do meu pai foi registrada! Eu não sei de nada! Eu não lembro nem da casa onde a gente morava! Eu… eu nem mereço ser dessa família, Yoongi! Eu quase nem lembro do meu pai, nem da minha mãe! A Juliana tava certa: ia ser impossível alguém querer adotar uma criança perdida igual eu! E… eu realmente virei uma adulta sem futuro! Eu não tenho o telefone dos meus avós! Não tenho o endereço… Nenhuma foto deles! Quando eu procuro o nome deles na internet, não dá nada! Não sei nem se eles… se eles tão vivos! Mas mesmo se eu encontrasse eles… eles iriam querer falar comigo?

— Respira! Cê tá embolando tudo!

Encosto o queixo no ombro dele. — Parece que tudo… tudo fica cada vez mais longe… você já se sentiu como se… se nada que você fizesse fosse suficiente?

— Mais do que você imagina…

— Então você sabe como é se sentir um lixo, como é querer que tudo acabe logo de uma vez… ou pelo menos que apareça… nem que seja só um sinalzinho de que tudo vai melhorar!

— Sei.

— A Tatiane me disse que meus pais fizeram o melhor que puderam! Que eu não posso julgar a minha família! Mas—

— Tatiane? Quem? Me explica melhor o contexto! Eu… eu tô boiando!

— Eu ganhei 3 sessões grátis de terapia por indicação do Jimin.

Yoongi sorri. — Isso é bom.

— Mas quando eu finalmente vou melhorar? Quando vai dar tudo certo, Yoongi? Quando? Só de lembrar: tradução juramentada, apostila, agência, advogado, passagem… eu… eu não vou aguentar!

— Respira. Respira. Só puxa o ar e—

— Eu preciso ir embora daqui! Logo! Não posso ficar presa aqui pra sempre! Ninguém aqui gosta de mim de verdade, ninguém! Ninguém! Quer saber? A Tia Margot tinha razão: meus avós devem me odiar porque eu a fiz minha mãe morrer no parto e meu pai ter depressão, eu que fiz a família acabar! Eu! EU! Eles vão me xingar! Me expulsar da Itália pra sempre! É o meu fim, Yoongi! O meu fim! E eu nem falo italiano! Pra quê eu fui inventar de ir pra lá? Pra quê? E eu nem costuro tão bem assim se você quer saber! Eu devia desistir da moda! Da minha família! De mim mesma! De tudo! Eu—

Yoongi me abraça de novo e eu pisco forte, soluçando contra a curva do pescoço dele.

— A gente vai ligar pra todos os cartórios de Costaré.

— Q-quê? A gente?

— Sim. A gente vai começar pelo básico: tudo que a gente conseguir juntar por nossa conta antes de contratar o advogado, vai facilitar.

— S-sério?

— Sim. Essas coisas levam tempo mesmo, Lali. E não é justo com você mesma se cobrar por isso.

— Eu sei, mas… eu não consigo parar de me sentir assim! Como eu faço?

Yoongi me abraça outra vez.nAjeito uma almofada no colo dele e me deito. Ele trava as costas no sofá e o rosto.

— Gatinho, eu tenho muita dificuldade pra dormir, — confesso, bocejando —, mas quando eu tô com você sempre me dá sono, sabia?

Yoongi sorri de canto. — Então eu sou mesmo tão chato assim?

— Não, você é lindo.

— Não dá pra ser os dois?

— Você é os dois.

— Eu só fico com a minha cara de “gatinho emburrado”, mas se isso te ajuda de alguma forma, então eu fico feliz.

— Só de você ficar aqui comigo… já tá bom demais…

Yoongi suspira e desvia o olhar pra janela. — Você precisa tomar cuidado! Tem muita gente aproveitadora, principalmente quando é com cidadania!

Dou uma risada. — Até pra provar quem eu sou eu preciso da porcaria de um papel! Não tenho paz nessa merda!

Yoongi abre mais um sorriso.

Estranho…

Ele tá triste.

Ele…

Ele vai sentir minha falta?

Não, Lali! Para de ser louca!

Não tem porquê.

Até porquê agora ele vai ser feliz com a Rosé!

Mas ela disse que eles são só amigos! Não viaja!

Ela pode ter mentido!

E ela é bem nerd! Ela faz muito mais o tipo dele do que você!

Se enxerga, garota!

Mas tem alguma coisa de diferente nele!

Ou eu tô enxergando tudo errado de novo?

MERDA!

— Me diz quando você quer começar, Lali. Eu vou com você.

— Mesmo?

Não penso direito, apenas me sento sobre meus joelhos e o abraço de novo.

Quando pisco, estamos separados, a centímetros de distância. A única coisa que existe na minha frente é a boca do Yoongi.

Ergo o olhar.

Ele. Também. Tá. Olhando. Pra. Minha!

Minha perna treme.

Minha garganta nunca ficou tão seca.

Meu coração bate alto e forte.

As borboletas voam na minha barriga.

Me aproximo mais do rosto dele, e o som do coração dele triplica.

Ele pula do sofá.

Pálido. Pálido. Pálido.

— Cê vai fugir assim desse jeito? — sussurro, apertando os olhos. — Logo agora?

— Eu… preciso respirar, Lali. É… me deixa pensar!

Yoongi apressa o passo na direção do corredor.

Me jogo no sofá.

As rachaduras no teto me fazem bufar, puxando meu couro cabeludo.

— Pensar? Pensar no quê, seu idiota?

Me viro de lado. — É. Ele não gosta de mim. Não gosta MESMO!

Viro pro outro lado. — Ele só devia tá querendo me dar uns pegas! Ele não quer nada sério comigo mesmo!

Mas eu quero?

Eu nem posso!

Por que eu tô achando ruim?

Por que eu tô sendo tão idiota hoje?

Você. Não. Devia. Sentir. Isso. Lali!

Respiro fundo. — Eu sinto! Eu sinto! Eu sinto! Meu tempo tá con-ta-do aqui! E eu preciso focar em aproveitar meus últimos meses no Brasil! Eu sei que eu vou dar um jeito de resolver tudo, mas também preciso me divertir!

Digito rápido no celular.

“Gente, já pensei nas roupas da Festa Junina: a Lice e o Jimin vão ser o casal da sofrência! A Rosé, uma camponesa meio fofa, o Joon pode ser um caipira de macacão e o Yoongi—“

Bloqueio a tela.

Ele provavelmente vai vestido super simples…

E nem deve querer que eu faça nada pra ele…

Bufo.

Mordo os lábios e volto a pressionar a tela.

Clico no perfil do Yoongi.

62 seguidores.

Seguindo 50 pessoas.

Fotos do Duri. Do céu. De livros. Frases filosóficas que eu não entendo.

Abro nossa conversa.

“Gatinho, quer que eu costure um colete pra você usar no sábado? A gente podia ir combinando!”

Seu sorriso e bochechas vermelhas surgem na minha imaginação.

“Pra quê?”

“Você nem quer ir, né?”

“Acertou.”

“Tá. Vai do jeito que você quiser. Mas se você ficar lindo demais, a gente vai acabar se pegando!”

Ele não me responde mais.

Solto uma gargalhada.

“Se você me deixar no vácuo, é porque você quer.”

Ele reage com um joinha.

“Emoji não conta. Pode ser só um beijinho então já que você tem cara de que não sabe nem beijar direito.”

Ele reage com uma cara revirando os olhos.

Gargalho.

“Pode deixar que eu te ensino, gatinho! Só não foge de mim de novo senão eu vou ser obrigada a te dar um beijo e você vai sair perdidinho!”

Ele some da conversa de novo.

Abro o meu grupo de fofocas com o Namjoon e o Jimin.

“Vcs podem vir aqui no quartinho de estudos? É uma EMERGÊNCIA!”

Em três segundos, eles empurram a porta.

— LALI! — Jimin grita. — A gente descobriu o que aconteceu com você! Cê tá bem?

— Desculpa assustar vocês, mas é que eu preciso de um help: vou precisar de retalhos de bolinhas e de xadrez, também estampas de girassóis, cetim, sarja, bandeirolas, fitilhos, cola quente, e—

— Isso é muita coisa, Lali! — Namjoon diz, andando de um lado pro outro. — Não é nem pelo dinheiro, mas você por acaso vai fazer roupa pra todo mundo? Vai dar tempo? Não é melhor alugar?

Levanto o queixo e aponto pra máquina. — Eu sei, mas eu que mando aqui! Se vocês quiserem arrasar, é melhor me ouvirem!

Eles batem continência e somem pelo corredor.