Anything But Ordinary

14 Não quero te deixar escapar


ÀS SETE DA NOITE, PISO NA RECEPÇÃO. O freelancer da última semana e sua namorada estão no balcão, atendendo os hóspedes com plaquinhas escrito “ANARRIÊ”.

— …mas o Bruno e & Marrone são outro nível, Lice!

— Não fala mal do César Menotti! — Ela dá um tapa no chapéu de palha do Namjoon.

Alice e eu desviamos o olhar ao mesmo tempo.

Ergo o queixo.

Jimin me abraça.

— Cês tão tratando por causa de sertanejo? — Torço o nariz. — Mas não é tudo igual? Música pra chorar e limpar os chifre?

Namjoon concorda com a cabeça. — A Alice não aceita que o Bruno & Marrone é a melhor dupla!

— César Menotti!

— Bruno & Marrone!

Finjo uma cara de choro. — Desde quando cê gosta de sertanejo, Namjoon?

— Desde sempre!

— Achei que cê só gostava de rap e rock! Vai trocar a Avril por eles?

— Vou!

— Você traiu a nossa amizade, sua cobrinha disfarçada de humano!

— Eu sou um mistério, gatinha! — Ele pisca. — Você nunca vai cansar de explorar as minhas nuances artísticas!

— Ai, eu amo quando você fala difícil, Joon!

Ele me abraça de lado.

— Chitãozinho e Xororó.

Levanto as sobrancelhas.

Yoongi sai de trás da Alice, com o cabelo coberto de gel e os coturnos cor de café estalando no piso. A jaqueta xadrez vermelha modela seus ombros, e seu perfume de caramelo se espalha pelo ar.

Minhas mãos suam contra as fitas coloridas do meu vestido. Puta. Merda. Que. Homem!

— O Bruno & Marrone são bons, mas o Chitãozinho & Xororó mudaram a história da música sertaneja pra sempre. Eles deixaram uma marca.

Namjoon estala a língua. — Mas a história pode mudar!

— Não do dia pra noite. Eles chegaram muito antes na parada. São ícones. Inesquecíveis.

— Acho que o sertanejo tá mexendo demais com a cabeça de vocês! — digo.

Desde o primeiro passo que eu dou em direção à Rua das Rosas, o aroma de cera vindo das velas se intensifica, misturado com álcool, canela e o calor do carvão. As luzes de toda a Camélia estão amareladas, e o vento gelado. Tem bandeirolas enfileiradas no topo e espantalhos enfeitando as barracas de comida, rodeados por barris velhos e feno.

Chapéus de palha, gravatas borboletas xadrez e bastante milho. Amendoim. Manteiga.

Fogo.

Nenhum sinal do Namjoon.

Alice e o Yoongi conversam baixo perto da barraca de pipoca.

Jimin anda do meu lado.

— Eu pesquisei sobre a Festa Junina da Itália — ele comenta.

Congelo. — S-sério?

— Parece ser massa, Lali!

— É…

— Eu li que lá vocês têm uma festa parecida chamada Festa di San Giovanni. Acho que é na Florença… ou melhor, Lali: Firenze.

Meu rosto esquenta.

Tusso alto. — Sua pronúncia tá perfeita, Jimin!

E você sabe mais sobre a Itália do que eu!

Eu sou uma vergonha pra você, papà!

— Sua família é de onde, Lali?

Meus olhos já estão ardendo quando eu desço o olhar pros paralelepípedos, dançando e rindo.

— É de Bergamo, mas… mora em Milano. Até onde me deixaram saber.

— Entendi.

— C-como é na Coreia?

— Bem diferente.

— Você já foi lá, né?

— Eu vou quase todo ano passar 3 meses com meus tios.

— Mas você vai continuar indo todo ano? E a Alice? Cês vão namorar à distância nas férias?

Ele coça a nuca, vermelho. — A gente não falou disso ainda, Lali. Na verdade, a gente falou foi nada.

— Deve ser difícil passar tanto tempo longe de alguém que você gosta… mesmo se for só uns meses… imagina se for mais que isso?

— Olha, eu não devia me meter, mas… cês duas vão fazer as pazes quando, hein? Cês tão desde quarta-feira fazendo bico uma pra outra!

Cruzo os braços. — Eu sei que ela é quase sua namorada e que você vai ficar do lado dela, mas ela é muito chata! Ela que brigou comigo primeiro!

Jimin torce a boca. — Tem certeza?

— Tenho! Ela disse que eu sufoco ela, e me deixou falando sozinha!

Jimin respira fundo.

Eu sabia. Você acha a mesma coisa!

Jimin me abraça de lado. — Bora comer milho! Esquece essa briga! Hoje é dia de festa! Todo mundo tem que se divertir! Vem!

Sacudo os ombros.

Ao dobrar a esquina, paro do lado do Yoongi.

— O-oi, gatinho! Cê não tá me vendo aqui não?

Ele sorri.

— Tá vendo? — Sinalizo o tecido vermelho do vestido. — Eu não uso laranja.

Yoongi trava o olhar nos babados xadrez da minha saia e sobe pros laços coloridos das minhas maria-chiquinhas.

Prendo o ar.

— É. — Ele segura a risada. — Vermelho, rosa e laranja. Corset com ilhós. Mangas bufantes de renda.

— Andou estudando, é?

— Você meio que me deu aula grátis, né? Tive que estudar tudo que você fazia igual uma prova.

— Foi seu castigo por você não ter deixado eu costurar uma roupa pra você. A gente ia andar combinando.

Yoongi ri baixo. — Péssima ideia.

— Ah, é? Então cê tá reprovado: as mangas são verde chartreuse!

Ele tenta pronunciar.

Acho graça.

— Cê tem que parar de inventar cor, Lali.

— Eu não inventei. Mas bem que eu podia mesmo criar uma, né? Vou pensar e te aviso, gatinho.

Me mexo sem pensar demais, puxando o Jimin pra dançar.

— Por favor, senhor — peço.

— Claro, senhorita! — Ele dobra o corpo.

As franjas da jaqueta dele raspam no meu braço, me fazendo cócegas enquanto nós giramos. Tento adequar as nossas alturas, e rio pelo nariz.

— Por acaso essa sua bota é de plataforma?

— É tratorada, por quê?

— Nossa, nem parece!

Jimin chia. — Que que cê tá insinuando: que eu sou baixo?

— Insinuando não! Tô falando mesmo!

— E você é uma girafa chata!

Gargalhamos, sem parar de dançar. Alice nos filma enquanto Yoongi se encosta num balcão, bebendo um gole de vinho.

Ai… será que—

Sorrio.

Alice puxa Jimin pra dançar.

Ao perceber que estamos sozinhos no canto, Yoongi enfia a mão nos bolsos e encurta nosso espaço lateral.

Nossos ombros se esbarram.

Roio as unhas.

Yoongi caminha do meu lado esquerdo.

— O que você achou da arquitetura da festa? — solto.

— Ah… Tudo é bem exagerado e… meio perigoso até, eu diria.

— Como assim?

— Sei lá. É como se… fosse feito de propósito pra ninguém vazar daqui antes das 5 da manhã.

— Como assim? Essa não era a ideia?

— Sim. Eles lucram bem mais desse jeito, traz mais impacto pro nome do evento e fora que sai todo mundo fedendo a milho. Melhor que isso impossível.

Rio. — Mas pra algumas pessoas pode ser que… a vontade de ficar seja maior…

Meu sorriso se desfaz. Por que eu falei isso?

Sem pensar, dou um passo.

Yoongi para de piscar. — Maior quanto?

Entrelaço os dedos atrás do vestido, mordendo o canto da boca.

— Não sei — gaguejo —, acho que tem algumas pessoas que… vão querer ficar por muito mais tempo aqui. Tipo… por muito mais tempo mesmo.

Muito tempo? Exatamente quanto tempo?

Os olhos dele me dizem “me diga você”.

— Tempo pra… aproveitar a festa? — Yoongi aponta pra barraca de caldo e quentão ao redor.

Meus lábios se abrem sozinhos, mas não fazem nenhum barulho. Por que cê tá me falando essas coisas?

— E também — Yoongi completa —, faz algumas pessoas terem ilusões de quererem ficar aqui pra sempre.

Ilusões. Ilusões. Ilusões.

Ficar aqui pra sempre.

Aqui pra sempre.

Pra sempre.

SEMPRE!

Você… quer que eu…

Que eu…

Balanço a cabeça.

Guio Yoongi até a barraca da pescaria, o segurando pelos ombros.

Estou quente e tremendo. E rindo. E dançando.

Yoongi tenta puxar um peixinho verde.

Depois da terceira rodada, ele larga a vara na areia.

Bato palmas. — Minha vez!

Fisgo o primeiro peixe que a varinha encontra, espalhando areia pra cima. O prêmio é uma bolha de sabão. Saio assoprando, com Yoongi bufando atrás de mim.

— Não vem dar uma de recalcado e dizer que eu tive sorte, tá? A culpa não é minha se você é ruim de prova!

— Eu não ia falar isso.

— Mas você pensou.

— Pensar não é falar.

— Aff, gatinho, nem hoje você vai parar de ser chato?

Quando pisco, estou assoprando as bolinhas contra o rosto dele.

Yoongi sorri.

Morde os lábios.

Fecha os olhos.

E sorri de novo.

Esse jeito dele me olhar tá MUITO diferente. Eu sei que tá! Mas por quê?

Não! Não! Claro que não! Ele não gosta de mim também!

Ou gosta?

— Bora tirar uma foto? — digo, sacudindo os pés.

Yoongi assente. Aproximo o celular do rosto e passo uma mão pelo ombro dele.

Ele segura minha cintura. Tremendo que nem eu.

Ou mais.

Travo.

Meu queixo dói ao forçar o sorriso.

— Pronto.

— Manda pra mim, Lali.

Meu rosto arde quando eu clico na tela.

— V-Você também vai fazer um álbum de recordação nosso, gatinho?

Ele desvia o olhar e bebe um gole do quentão.

O ar está tão quente, tão frio, e minhas pernas tremem tanto, minha barriga dói tanto que cada passo faz minha cabeça rodar.

E minha voz falhar.

— É… Gatinho, quando é o seu aniversário?

— 26 do dez.

Nossa! Os nossos aniversários combinam!

A boca dele está brilhando na luz, longe demais da minha.

Balanço a cabeça duas vezes.

Solto uma risada. — E você… vai… vai me chamar pra sua festa?

— Festa? No máximo do máximo eu vou comprar um bolo, e olhe lá!

— Eu faço um pra você!

Yoongi balança a cabeça. — Pior ideia que você já teve.

Ponho a língua pra fora. — Sem graça!

— Eu sou mais você costurar a roupa que eu vou usar no dia.

Meus olhos se enchem d’água e eu o abraço pela cintura, o chacoalhando. Yoongi retribui. Suas mãos estão quentes. Muito quentes. Na minha cintura. Sua respiração perto do meu pescoço.

Por um segundo, eu não o beijo.

Tusso forçado. — Você vai abalar, gatinho! Vai ser o escorpiano mais lindo de todos!

Ele faz careta. — Eu não acredito nessas coisas, mas se você tá dizendo… tudo bem.

— Você também passava seu aniversário sozinho quando era pequeno?

Repito a frase dentro da cabeça.

Arregalo os olhos.

Tapo a boca. — D-desculpa…

— Cê já sabe a resposta.

— Agora cê vai ter que me aturar em outubro: vai ser um mês in-tei-ri-nho te perturbando! — Rio alto. — Tô brincando.

— É só você não inventar de me fazer usar laranja e nem cozinhar nada que já tá de bom tamanho.

— Combinado. No meu aniversário do ano que vem eu quero ir num show de rock com você!

Yoongi revira os olhos e diz algo que eu não entendo.

— Não entendi! Fala mais alto! — grito por cima da música.

— Cê acha que cê vai tá aqui ainda?

Cê vai tá aqui ainda?

Tá aqui ainda?

Aqui ainda?

Ainda?

O frio que passa pelas minhas costas é forte, forte, forte demais. Tudo é escuro. Meus pelos se arrepiam e minha nuca sua, sua e sua.

— Se eu tiver… você… você vai tá também?

Ele sorri, piscando. — Claro. Eu não vou sair daqui.

Evito os pensamentos que me fazem querer arranhar a pele e coçar a sensação de escuridão pra fora do corpo, e mexo os quadris ao som do baião que está tocando.

— Você odiava dançar quadrilha na escola, né?

Yoongi ri. — Nem preciso falar. Cê sempre adivinha tudo. Engraçado.

— É porque tá muito óbvio. Sabe… — Giro ao redor de mim mesma. — Eu não sei porque eu gosto tanto de ficar perto de você, mas eu gosto! Agora você que lute, gatinho!

Yoongi empalidece. Não pisca. Abre a boca.

Pode ser que ele me ache maluca. Ou só esteja pensando em como fugir da festa sem ser visto.

Talvez seja só eu refletida nele.

Continuo dançando, fingindo que não estou vermelha da cor do meu corset.

E se eu chamar ele pra dan—

Melhor não!

Quando paro de dançar, me aproximo do Yoongi outra vez. Ele passa os dedos pela nuca, desviando o olhar pro centro da festa.

As maçãs do amor brilham na barraca do nosso lado direito, e a fumaça sobe da barraca de canjicão à esquerda. O cheiro do açúcar cristalizado me deixa salivando.

— Quer uma? — Yoongi sussurra, tirando a carteira do bolso.

Sorrio e levo o olhar até o céu, inclinando o corpo pra frente.

Aff. Nada. Nada. NADA!

Quando quebro a casquinha, o gosto da maçã me faz fazer careta.

— Nossa, essa é a melhor maçã que eu já comi na vida!

— De zero a zero, que nota você dá?

— Dou dez—

Yoongi prende o riso. — Eu sabia!

— É porque você pagou pra mim, né? Como eu vou falar mal?

— Você pode falar a verdade. Eu não vou achar ruim.

Mexo as sobrancelhas.

Ahn?

Alice compra um algodão doce, Jimin uma pamonha e Yoongi um caldo verde.

Namjoon some no meio das crianças brincando de passa-chapéu. Os adultos dançam em grupos e entre casais, sacudindo cordas presas nas cinturas.

Eu, Yoongi, Alice e Jimin continuamos andando lado a lado, até que uma figura surge sob a luz.

— Ricardinho!

Aplausos e mais aplausos soam por toda a festa.

— Boa noite, Costaré! Gostaria de agradecer a todos os patrocinadores e a todos os responsáveis pelo São João da Camélia. A colônia coreana contribui com expansão do nome da nossa cidade para o mundo há anos, e hoje, reunindo o bairro da Camélia e todas as regiões de Costaré, declaro iniciadas as festividades de inverno!

— Vamos começar pelo casamento caipira — Irmã Bomi anuncia —, depois teremos a apresentação da Companhia do Frevo de Pernambuco e em seguida, as crianças do Colégio Municipal de Costaré com a dança dos ritmos!

Aos poucos, as pessoas se aproximam do centro do palanque montado com EVA’s e cartolinas coloridas. Padre, noivos, testemunhas. Remendos, bigodes, e giros.

Assobio junto com Jimin, aplaudindo e gritando durante a chuva de cores dos guarda-chuvas dos passistas. Os agachamentos e pulos na ponta do pé são tão rápidos que o meu corpo dança sozinho.

— Fiquei sem joelho! — reclamo com o Jimin.

Na apresentação das crianças, tento acompanhar cada passo, rodopiando e desafinando junto com o Namjoon num misto de forró, sertanejo, frevo e axé.

— A gente dança mal demais! — eu zoo.

— Mas pelo menos a gente se diverte!

Angeline passa por nós, usando uma salopete jeans de girassóis e conversando com um homem de terno de linho azul.

Cutuco Jimin pela costela. — É o seu padrasto?

Ele me mostra a língua.

Converso com o Ricardinho.

Com os pais da Alice.

Com os pais do Namjoon.

E com alguns hóspedes do Solaris.

Até que os meus olhos param no Yoongi. Encostado numa grade. Assobiando pro vento. Mexendo no celular.

— Seus pais não vão vir?

— Não. Tão de plantão.

— Os meus também não vão vir, sabia?

O barulho dos grilos parece mais alto.

— Foi mal. — Coço a bochecha. — Prometo que eu vou parar.

Ele fica ainda mais vermelho que eu.

Uma silhueta se forma no meio da multidão entre as barracas de pipoca e quindim: alta, magra, minissaia, colete caramelo e “SHERIFF” escrito na lapela.

— A Rosé pintou o cabelo de verde? — Jimin ri.

— E pelo visto errou o tema de propósito — Alice afirma.

— É. — Namjoon suspira. — Deve ter achado que era Halloween!

Ela se aproxima de nós. Seus fios verde menta estão presos numa maria-chiquinha de coques bagunçados, e os coturnos amarrados com nós frouxos.

Cê tinha que furar o tema, né?

— Oi, fãs! Sentiram minha falta?

Namjoon e Jimin acenam pra ela, desaparecendo no meio das barracas.

— Que que tá pegando? — Rosé me pergunta, rindo.

— Acho que os meninos tão bravos já que você esqueceu o tema da festa — Alice diz.

— Qual é a graça de vir que nem todo mundo?

Alice revira os olhos.

Tento não rir. Elas continuam discutindo e eu gasto várias moedas e fichas nas barracas de comida.

Alice toca meus ombros.

Rosé está do outro lado, comprando morango do amor.

— Lali, você já comeu tudo dessa festa: pela égua, pastel, todos os caldos… até papa! Vai acabar passando mal!

Arrá, eu sabia que você ia acabar falando comigo!

Não disfarço o sorriso.

— Se eu passar, vai ser por uma boa causa! — Respiro fundo, degustando mais um pedaço do bolo de fubá. — É tudo muito bom! Tem docinho e—

Limpo a boca com o guardanapo. — Já sei: amarelo maracujá!

— Ahn?

— Eu disse pro Yoongi que eu ia inventar uma cor!

— Mas essa já não existe?

— Ele não precisa saber, só precisa achar que fui eu que criei!

Alice acha graça.

— E como foi a formatura, Lice? Cê nem me falou!

— Tranquila.

Aff, eu sou muito burra, não era pra eu falar com você! Cê nem me pediu desculpa!

Eu e ela desviamos o olhar ao mesmo tempo.

— E quando você e o Jimin vão se assumir?

Alice arregala os olhos. — Fala baixo, Lali!

— Você… ligaria se o Yoongi ficasse com outra garota?

— Com quem: você?

— Por que cê tá falando isso?

— Tá bom, Lali: eu nasci ontem!

— Mas você não me respondeu!

— Lali, eu gosto do Jimin. Por que eu ligaria se o Yoongi ficasse com alguém?

Relaxo os ombros.

Rosé se aproxima de nós, deslizando as mãos pelos coques.

— Oi, divas. Bora no Correio Elegante? Quero frescar com a cara do Namjoon!

— Você quer é pegar ele que eu sei! — retruco.

— Mas e você? Não quer pegar ninguém?

Cruzo os braços. — Não é da sua conta! Aliás: você tá achando que eu esqueci daquele dia? Vocês duas, na verdade! O seu perfil fake e… você falando que eu te sufocava!

— Será que, — Rosé aumenta o tom —, você e o Yoongi não tão juntos porque você não gosta dele de verdade?

Quase saem faíscas pelo meu nariz.

— Como é que é?

— Não se mete nisso, Rosé! — Alice grita.

Rosé some no meio das barracas, rindo.

— Qual que é a dessa garota, hein?

— Abstrai! Bora dançar!

— Eu ainda não quero falar com você, Alice, mas… tá bom!

Ela sorri.

“CORREIO ELEGANTE” brilha na barraca tom de vermelho rubi com marcas de dedo e glitter dourado, com corações e uma fileira que vai até o final da rua.

Bufo.

Do lado oposto, Yoongi segura um leque de cartas em forma de coração com canetinhas coloridas e furinhos.

Que merda é essa?

Um grupo de garotas está ao redor do Yoongi, Jimin e Namjoon. Todas elas estão sorrindo, balançando os pés no ritmo do forró e puxando assunto com eles, se inclinando de leve pra mostrar suas cartinhas.

Yoongi cruza os braços, bocejando.

Jimin força um sorriso e olha na nossa direção.

Namjoon fica parado, coçando as orelhas.

Rosé come, assobia e dança.

Alice está igual a mim, com os braços cruzados contra o peito, apertando os dedos até a dor chegar.

Tanto trabalho fazendo essa roupa…

Pra no fim ele nem ligar!

Nem dançar comigo!

E ficar lá.

Tô nem aí!

Coço a nuca, estalo a língua e agarro o couro cabeludo.

Yoongi amassa as cartas e as lança na lixeira do canto. Fico na dúvida entre rir e ceder a vontade do meu corpo de soltar as lágrimas.

As garotas continuam tagarelando, uma delas até puxa o Namjoon pra dançar e eles se beijam. Jimin tenta manter a conversa, se esquivando das tentativas delas de tirar fotos com ele.

— Cê não tá puta que o seu boy tá pegando outra? — Alice provoca Rosé.

Rosé passa as mãos pelos coques. — É ruim, hein? Meu boy? Mas mudando de assunto: cês não vão mandar nada pra ninguém, não?

Rosé aponta pra barraca.

— Pra quê se eu não vou receber nada de volta? — murmuro.

— Manda pra alguém que você acha especial! — Alice diz.

Pago pelo cartãozinho de coração e o apoio na bancada.

Respiro fundo.

Agora vai!

Para Alice:Eu queria que você me pedisse desculpas primeiro, tá? Não vou mentir! Mas eu prometo que vou tentar não te sufocar nunca mais! Você é a melhor amiga do mundo! Acho que Deus me deu você de presente pra eu perceber que ainda existe gente boa nesse mundo. Obrigada por existir na minha vida, e também por me ajudar a me sentir menos sozinha e inútil. Mesmo se você nunca disser que me ama, eu vou continuar te amando. Eu já sei que você me ama, Lice!Assinado: Anônimo!

Finalizo com um desenho de uma carinha irritada.

Coloco a carta dentro do Correio Elegante e espero Alice terminar de contornar as cartinhas dela.

Minutos depois, um garotinho me entrega uma carta.

Eu o agradeço e puxo o lacre com pressa.

Para Lali:Me perdoa por tudo que eu falei! Eu juro que foi tudo da boca pra fora! Eu não sei como a minha vida no Solaris seria se você não existisse. Acho que ia ser tudo meio cinza. Obrigada por tudo, gatinha! Você é o laranja do meu maracujá! Minha irmã!Assinado: Alice

— L-Lice? — Eu a puxo pra um abraço. Ela também está chorando.

Passos se intensificam pela areia falsa e espalham feno pelo ar. Levanto o olhar e o cabelo loiro do Jimin brilha sob a luz. Suas bochechas estão infladas e as sobrancelhas curvadas.

— Lali, eu não tô entendendo: pra quê isso?

Nas mãos dele tem uma cartinha colorida em forma de coração.

Quando ele me entrega o papel, minha boca se abre e minha testa se mexe.

Para: JiminEu sempre te amei, mas não sabia como me declarar pra você! Fica comigo hoje, gatinho!Assinado: Lali

Alice entorta a cabeça. — Por que você mandou isso, Lali?

— Eu tava aqui do seu lado o tempo todo, Lice! Eu só mandei aquela cartinha pra você! Você viu que eu só paguei uma!

— Então como eu recebi isso, Lali?

Fecho as mãos contra o vestido. — Vocês são dois falsos, sabia? Vocês trabalham no mesmo lugar que eu e me veem escrevendo direto! Cês acham mesmo que a minha letra é esse monte de garrancho?

Eles se entreolham.

— Já entendi. — Alice estala a língua. — Que novidade!

Seco o rosto. — É, né? Faz sentido. Ela sumiu de novo. Mas vocês… Vocês duvidaram de mim por causa dela!

— Deixa que eu converso com ela, princesa — Jimin diz, beijando a bochecha da Alice. Ela anda na direção do touro mecânico do lado do Namjoon.

Jimin me direciona até um dos bancos do canto. O cheiro de milho está mais fraco aqui, o vento mais frio e as vozes mais abafadas.

— Nunca que eu ia mandar uma cartinha pra você, Jimin! Até porque eu gosto do Yoongi, né?

Abafo o soluço.

Jimin gargalha.

— Para de rir, idiota!

— Ninguém sabia, nossa!

— Menos ele, que saco!

— Cê não percebeu ainda?

— Como assim?

— Acho que você tá passando pela mesma coisa que eu e a Alice!

— Quê?

— Cê já reparou que eu comecei a diminuir algumas brincadeiras com você? Eu não quero que ela interprete tudo errado.

Dou risada. — Como assim? Do que que cê tá falando?

Jimin assente.

— Tendi. Ele deve tá achando que eu só tô brincando, né? Na verdade, ele já meio que… me falou isso uma vez! E na hora eu continuei brincando! Droga!

— Você ainda pode mostrar pra ele que com ele é diferente. — Jimin se levanta. — Mas depois a gente conversa mais. Respira, tá bom? E desculpa por não reconhecer sua letra.

Solto o ar.

— Cês são muito amiguinhas, né? — Uma voz soa atrás de mim. — Deixam até recadinho pro namorado uma da outra!

Minha cara queima ainda mais.

— Some daqui! — grito. — Você é uma cascavel sucuri jiboia coral e todas as cobras juntas, Rosé!

Ela estende os braços. — Aff! Você não tem senso de humor, Lali! Olha a cartinha que eu mandei pro Namjoon e a que ele me mandou!

Vou te prender por ser tão lindo, cowboy
Me prende, xerife

— Daqui a pouco cês tão namorando aí, ó!

— Namorar? Nunca! Pra quê eu vou me prender? Assim eu posso pegar vários à vontade.

— Tomara que o Yoongi não esteja na sua lista.

— Já te falei: nunca que eu ia querer um nerd igual ele! Eca!

— Cala a boca!

— Me poupe! Cê não vai vir com aquele papinho brega de “eu conheço um lado dele que ninguém mais conhece”, né?

— Não! Até porque eu acho que não conheço ele direito!

— Então como você gosta de alguém que você nem conhece direito?

Você nem conhece direito!

Nem conhece direito!

Conhece direito!

Direito!

— …o que é até bom, né? Já que você vai embora pra Itália! É melhor não se apegar e evitar o pio—

Rosé para de falar ao escutar meu soluço.

— Foi mal, Lali. — Ela toca meus ombros, se agachando.

Quando ela seca minhas lágrimas, levanto o olhar.

— Você é uma idiota, sabia?

— Eu sei. Por isso que você me ama. Você não ia me amar se eu fosse básica e acessível.

Reviro os olhos, mostrando a língua pra ela.

— Ih, nem vem! — Rosé ri. — Não vou te beijar hoje! Cê tá com mó bafão de milho!

— Nem se eu me odiasse muito eu te pegaria, Rosé!

Ela finge uma cara de choro. — Essa doeu! Você é meu tipo, Lali!

Mostro os dedos do meio pra ela. — Vaza daqui, estrupício!

Passos soam atrás de nós.

— Melhorou, Lali? — Alice me segura pelas bochechas.

Rosé ri. — Lá vem a mãe de todo mundo!

— Cala a boca! É tudo culpa sua!

Rosé faz barulho de selinho. — Vem calar!

— Nem vou perder meu tempo!

— Então sai daqui, Alice! Eu tava tentando ajudar a Lali, mas você tá se intrometendo de novo, como sempre!

— Ela tá chorando porque você é uma imbecil que fica brincando com os sentimentos dos outros!

Rosé bufa. — Meus neurônios ficaram animados com o cheiro de milho. Cansei de gastar minha energia aqui!

Rosé some de novo no meio da multidão, soltando o ar pelo nariz com força.

— Você sabe que pegou pesado naquele dia, Alice. Falou até do pai dela.

— Eu sei. Depois eu pago um churrasco pra ela.

Balanço a cabeça.

— Cês tão juntos, Lali?

— Quem?

— Você e o Yoongi.

— Sim.

— Eu sabia!

— Não! Pera aí! Não exatamente… Eu quis dizer que a gente veio pra cá junto, né?

— Cês se gostam! Vivem grudados.

— Mentira!

— Mentira?

— Tá. Ele é fofo!

— E você não gosta dele?

— É só um crush!

— Você pensa nele toda hora?

— Não. Mas penso várias vezes.

— Sente ciúme dele?

— Sinto. Direto!

— Já beijou ele?

— Quase.

— Já imaginou vocês no futuro… juntos?

— Dire—

Alice sorri, acariciando meus ombros. — Tudo no seu tempo.

— Eu tenho que arrumar uma solução, Alice! Sei lá… me planejar melhor!

— Planejar o quê?

— Ter uma ideia muito boa! Me ajuda!

— Não conta comigo pra isso! Eu não sou boa com essas coisas!

Voltamos pro centro da festa.

Yoongi está comendo uma espiga, rindo e conversando com os pais da Alice.

É. Ele não vai vir me chamar! Não vai MESMO!

AH!

Jogo o pratinho com força na lixeira e arranco uma camélia do pé mais próximo.

— Bem-me-quer. Mal-me-quer. Bem-me-quer. Mal—

A última pétala voa longe, antes que eu a puxe.

Talvez Deus esteja tentando me avisar e eu tô aqui me fingindo de sonsa!

Fecho as mãos e as pressiono contra a bochecha.

— Tava brincando de Belém-Belém? — Namjoon se aproxima. — Tá parecendo uma criancinha, Lali!

Gesticulo “banana pra você”.

— Uma criancinha mimada ainda por cima!

— Pelo menos eu não finjo que não quero pegar as pessoas.

— Quê? Do que cê tá falando?

— O Jimin me disse que tá muito na cara que eu gosto do Yoongi!

Namjoon ri. — Tá mesmo.

— Igual você e a Rosé.

Namjoon engasga com o ar. — Quê?

— Não se faz de besta! Aposto que vocês vão se beijar hoje!

— Eu hein! Ela é insuportável!

— Mas é linda e inteligente. E você também. No fundo vocês querem se pegar.

Namjoon mexe nos strass da jardineira. — Não dá pra mentir pra você, né?

— É. — Suspiro. — A gente tem que parar de mentir!

Namjoon suspira também.

Alice e Jimin brincam no tomba-latas do nosso lado, e Rosé tenta acertar a boca do palhaço logo atrás.

Me levanto. Pago pelo ingresso. Entro quase cambaleando no touro mecânico. Acomodo as pernas no assento, o segurando pelas alças.

— Irrá!

O touro sacode e meu cabelo vai junto. Tento não me desequilibrar. Tento manter a postura, os pés e mãos firmes. Tento não errar. Mas tudo acontece ao mesmo tempo: os movimentos bruscos, o vento gelado, o cheiro de milho…

E os olhos escuro do Yoongi bem ali no canto, escorado contra uma barraquinha de licores, com os braços cruzados, rindo sozinho.

Desço, tontíssima.

Quando pisco, Yoongi está do meu lado.

Me apoio nos ombros dele, recuperando o fôlego.

— Cê tá bem? — Ele tenta não rir de novo.

Dou uma cotovelada de brincadeira nele.

— Por acaso —, digo, ainda sem ar —, eu tenho cara de quem tá mal? Se eu pudesse eu ia de novo, mas a Alice vai reclamar que eu tô gastando meu dinheiro todo!

Yoongi gargalha.

Dobramos a esquina.

Jimin e Alice estão sentados perto da fogueira, com as mãos entrelaçadas e os rostos quase colados.

— Eu sempre brinco com todo mundo, mas com você eu quero ser sério. Mesmo. Porque você merece, anjo. Você é a garota mais linda do mundo!

Preciso mostrar que com o você é diferente, gatinho!

Mas… a Rosé tava certa: a gente mal se conhece!

Então… por quê eu gosto tanto dele?

E por quê?

Lágrimas se formam no canto dos meus olhos.

— …também! — Alice sorri. — Eu gosto muito de você, Mimi!

Balanço a cabeça.

— Mimi? — eu e Yoongi perguntamos ao mesmo tempo.

Yoongi enfia as mãos no bolso.

Alice segura Jimin pelas nuca e gruda a testa na dele.

— Pode ser meu lindo, meu bem ou meu amor!

— Claro, princesa! Então… você vai aceitar o meu pedido ou não? Cê não quer namorar comigo?

O beijo deles é tão lindo que me deixa suspirando.

Um homem de pele escura surge sob a luz, com o chapéu preso pela cordinha nas costas e os braços cruzados.

— Epa, epa, epa! Que que tá acontecendo aqui? Posso saber, Maria Alice D’Almeida Monteiro?

— É o Tio Dudu! — Tapo a boca.

— Fodeu! — Namjoon estapeia sua testa, se aproximando junto com Rosé de mim e do Yoongi.

Fodeu mesmo!

— Ô boca suja! — Rosé resmunga.

Eles trocam um olhar rápido antes de virarem pra Alice e Jimin.

— Você é o rapazinho que quer namorar a minha filha?

Estremeço. A voz do Tio Dudu nunca ficou tão alta.

Alice e Jimin pulam do banco.

— Pai! O que o senhor tá fazendo aqui?

— Seu Eduardo! — Jimin se inclina várias vezes, até chegar nos joelhos, com as mãos no peito e as pernas tremendo.

— Você sabe o tamanho da responsabilidade que é namorar a minha filha, rapaz?

— Pai! — Alice tenta entrar no meio.

Tio Dudu encurta o espaço entre os eles, segurando cada um pelos ombros.

Mordo as unhas. Ai. Meu. Deus!

— Eu sei sim, Seu Eduardo. Vou cuidar muito bem da Alice! Eu prometo! E eu ia falar com o senhor pra pedir a sua benção e…

Tio Dudu gargalha. — Calma, rapaz! Não precisa se assustar!

Alice e Jimin respiram fundo.

Trago uma mão pro peito. Como você é sortuda, Alice!

Afasto a vontade de chorar.

Não acredito que tô pensando tanta besteira hoje! Preciso beber mais!

— Ouvi dizer que você disse que a máquina que eu dei de presente pra Lali era velha, Rosé! — Namjoon diz.

Yoongi e eu levantamos as sobrancelhas.

— Rosé, sir? Cadê o respeito? Eu sou a xerife da cidade! Não tá vendo?

Namjoon revira os olhos. — Essa sua fantasia de xerife é a coisa mais feia que eu já vi na minha vida. Mas eu já esperava isso de você, né? A inimiga número um da moda.

Rosé cruza os braços. — MULTA! Pague agora, sir!

Namjoon estende sua maçã do amor no ar. — Eis a minha fiança, xerife.

— Só isso? MULTA!

— Já que você é australiana… churrasco?

— Café? Você quer me comprar com café? — Rosé grunhe. — MULTA!

Namjoon dá um passo à frente. — Posso pagar de outra forma, então, xerife?

Eles se beijam.

Prendo a risada. Vou soltar fogos!

Yoongi arregala os olhos.

Eu o puxo para a direção oposta.

— Achei que eles iam brigar a noite toda — digo —, mas uma hora ia acabar rolando, né?

— É… ia…

Falta só a gente…

Cutuco Yoongi pela cintura. — Quer dançar comigo?

Yoongi sinaliza “não” com a cabeça.

— Por quê?

— Porque não.

— Nem sozinho?

— A cidade toda tá aqui.

— Até parece que você não me conhece, né? Eu já rodei tudo aqui e sei onde tem uma parte vazia pra gente! Vem!

Eu o direciono até os barris do fundo. A luz amarela está fraca e o vento meio gelado.

A melodia de Eu Só Quero um Xodó soa.

Yoongi hesita em tocar na minha cintura, em olhar pra mim, e até mesmo em respirar.

Vermelho, vermelho, vermelho.

Finjo que não estou tremendo.

Minhas mãos contornam a nuca dele.

Os nossos passos são tortos.

Juro que os pensamentos dele devem ser os mesmos que os meus. Ao mesmo tempo, juro que ele deve estar odiando, deve estar sentindo vergonha.

Vergonha de dançar comigo.

Vergonha de mim.

Mas ele continua aqui. Respirando pesado perto do meu ouvido. Quente, quente, quente. Tremendo, tremendo e tremendo. Eu o seguro pela nuca e o gel gruda na ponta dos meus dedos.

Cada vez que eu giro, a luz treme.

Cê acha que vai durar?

Cê vai tá aqui ainda?

Cê realmente gosta dele?

Paro de respirar, sem parar de dançar. Os ombros do Yoongi ficam cada vez mais congelados. A pele dele, mais quente. E eu, cada vez mais arrepiada.

Queria saber o que dizer, mas talvez nenhuma das perguntas que eu poderia fazer pra ele teriam resposta.

Merda!

Os dedos dele afrouxam na minha cintura. Sua respiração está perto demais da minha, e o calor sobe pelas minhas costas.

Eu… eu quero ficar aqui?

Aqui…

Pra sempre?

De verdade?

Quero mesmo?

Num impulso, beijo a orelha esquerda dele, talvez numa tentativa burra de calar minha mente.

Yoongi estremece.

Mas ele não recua.

Eu o faço girar pela gravatinha, o puxando ainda mais pra perto.

Ele ri.

Quando abro os olhos, ele está sorrindo de canto, deslizando as mãos pelas minhas costas.

Agora.

Agora.

Agora!

A barba dele é falsa, mas os nossos queixos estão tão próximos que eu juro que vou sair daqui arranhada.

Talvez seja a dor de querer ele demais.

Me inclino de leve.

O barulho da sanfona desaparece.

O gosto de milho na minha língua já não é mais um problema.

Encosto nossas testas.

A um centímetro da minha boca, Yoongi dá um passo pra trás.

Se vira de costas.

E some no meio da multidão.

Som.

Luz.

Frio.

O perfume dele ainda está no meu braço. O calor.

Tento respirar. Dizer qualquer coisa.

Minha cabeça dói nas laterais, em pontadas, e o suor escorre conforme eu corro de volta pro centro da festa.

A música soa alta de novo. Yoongi continua parado perto lado da Alice e do Jimin na barraca de pé-de-moleque. Em silêncio. Pálido.

Meu coração dispara outra vez. Que que foi isso? A gente ia mesmo se beijar? De novo? Por que você correu? Por quê? Por quê? Por—

Rosé grita, me puxando pra perto da barraca de amendoim:

— Nossa! Vou ficar sozinha no meu chalé hoje. — Ela força um bocejo, abraçando o Namjoon de lado.

— Ahn? — murmuro ao mesmo tempo que o Jimin.

— É. Minha família tem um Chalé lá no Tatu.

Cruzo os braços.

— No Arraial do Tatu? — Alice questiona. — Quase no final da cidade?

— Você tem um chalé, baby? — Namjoon dá um selinho nela.

— Tenho. Mas só vai ter graça se eu tiver pessoas pra limparem ele pra mim, né?

— Nossa — digo —, você é tão fofa, Rosé!

— Obrigada. — Ela me joga um beijinho.

Troco um olhar com o Yoongi. Ele morde o canto da boca e coça a nuca.

Idiota! Idiota! IDIOTA!

Me escoro na barraca, respirando rápido. Alto. Estou da cor de um jambo podre.

Yoongi sorri pra mim. Com todos os dentes à mostra.

Por um segundo.

E desvia o olhar.

Que isso?

Bufo, soltando uma risada pelo nariz. Cê só pode tá brincando com a minha cara, seu imbecil!

— Mas e aí: cês topam ou não ir pro meu chalé no Arraial do Tatu? — Rosé grita.

Namjoon coloca a mão no bolso traseiro da calça dela e a segue até o Solaris junto com Alice e Jimin.

Essa é a minha chance! Se você vai brincar, então eu também vou, gatinho! Você tá ferrado! FERRADO!