Anything But Ordinary
15 Ficar é o suficiente?
QUANDO PISO NA CALÇADA DO SOLARIS, MEU CELULAR VIBRA.
Sexta-feira, 20 de junho23:43Respiro fundo.
Ajeito a touca na cabeça e desbloqueio a tela do celular. A barra de notificações do meu TikTok está lotada, cheia de menções, comentários e compartilhamentos da Kira Diniz, do Portal das Agulhas e dos Alfineteiros de Plantão de Costaré.
Fecho as mãos em forma de soco.
Tem pessoas compartilhando #JustiçaPorKiraDiniz.
— CARALHO! Quando vocês vão me deixar em paz?
BORA DERRUBAR A CONTA DA @LALIBERGAMASCHIVOCÊ NÃO VAI SE PRONUNCIAR, SUA IMUNDA?
TEM CORAGEM DE COPIAR E DEPOIS SOME?
ARREGONA!
MARQUEM O PERFIL DA BERGAMASCHI TESSUTI!
SUA CASA CAIU, LALI PLAGIAMASCHI!
Rio pelo nariz. — Plagiamaschi?
Deus quando eu falei que preferia ter haters do que ter fãs iguais aquelas malucas que dão em cima do Yoongi, eu tava brincando!
Abro o perfil da Bergamaschi Tessuti. Está cheio de postagens estilo retrô com roupas de grife dos anos 70. Nem parece algo que meu pai faria. Ao mesmo tempo, é exatamente o que ele falaria pra eu costurar.
Se você tiver vendo tudo que tão fazendo comigo, nonna, me dá um sinal, por favor!
Me ajuda, Deus!
Paro de ler as notificações, grunhindo.
Rosé e Namjoon estão cochilando na parte de trás com as mochilas apoiadas no banco do carona enquanto Alice e Jimin cantam junto com o rádio.
Yoongi está de moletom mostarda, capacete apertado no queixo e com um cotovelo encostado no espelho da moto.
Mordo o lábio ao me aproximar dele, sorrindo de lado.
— Oi — sussurro.
— Oi!
— Ei!
— Ei!
Yoongi guarda minha mochila no baú da moto.
— Vamos? — Ele me estende o capacete.
— Dá quanto tempo daqui até lá?
— Uns 30 minutos.
— Nossa! É tão longe assim?
Yoongi assente.
— E eu achando que Costaré era um ovo.
— Que nada: é do tamanho de umas 10 Itálias.
Prendo as calças do capacete. Pra quê cê tinha que falar de lá logo agora?
— Vamo logo, Yoongi!
Subo na moto e agarro a cintura dele. Ele avança. Quero fazer cosquinha nele, mas estou tremendo demais.
Os pingos de chuva caem no asfalto escuro e o frio bate na pele com força.
Quando paramos no sinal, vozes gritam:
— O Namjoon roubou pão na casa do João!
— Quem eu?
— Você!
— Eu não!
— Então quem foi?
— O Jimin!
— Cês têm 10 anos? — Yoongi ri.
Alice acena pra nós pelo vidro da janela. — Cê tá pilotando igual uma lesma, Yoongi, quê isso?
— Ele tá com medo de cair, Lice!
Jimin gira o dedo no volante. — Pra quem sempre pilotava na velocidade do desespero, esse medo dele duplicou, hein? Ai, ai. Falo nada! Deve ser pra ele não cair mesmo, cê tá certa!
Franzo as sobrancelhas.
Alice e Jimin voltam a conversar com o vidro fechado.
Abro um sorriso. Isso tudo é pra gente poder passar mais tem—
Não viaja, Lali! Para!
— Aff, eu queria ter ficado com eles no carro, não aqui com você, mas fiquei com a consciência pesada de você ir sozinho pra lá!
Yoongi me olha pelo retrovisor. — Ah, tá. Até parece que fui eu que disse que não queria ficar de vela, Lali!
— Você disse que tinha uma vaga na sua moto primeiro.
— Disse?
— Cê não vai me responder porque sabe que é verdade, né? Eu sei que você quer ficar perto de mim, gatinho!
Sua burra! Já falei que não é mais pra ficar chamando ele de gatinho!
Respiro fundo. — Se desse pra ver por baixo desse capacete, cê ia ver que eu tô te dando língua!
Ele ri pelo nariz. — Você assim… usando rosa claro sem nenhum brilho parece até uma miragem! E ainda por cima… touca de tricô?
— Na verdade é crochê.
— Achei que era tudo a mesma coisa.
— Não é.
— Também acho que… é a terceira vez na vida que eu te vejo usando calça.
Dou risada. — É a quarta!
— Isso é camurça?
Fofo.
— Errou feio: é suede.
— Entendi.
— Não quis me arrumar muito. Vai que você não resiste e me beija aqui mesmo, né? A gente não pode cair dessa moto, vai que você não tem seguro?
Yoongi brinca com o guidão.
Solto um riso pelo nariz. — Ah, é, tinha esquecido: é mais fácil você fugir de mim, né?
Antes que ele me responda com qualquer desculpinha idiota, o sinal abre.
Quando Yoongi estaciona a moto do lado do carro do Jimin, já para de chuviscar e já são mais de meia-noite. O ar está mais gelado do que eu esperava.
Funcionários de uniforme verde militar empurram carrinhos com tesouras, regadores e pincéis, enquanto os seguranças se comunicam pelo radinho, e seus crachás balançam.
— Bem-vindos ao céu! — Rosé diz.
Pés de maracujá, pedras empilhadas e lanternas verdes contornam a entrada. “HOTEL FAZENDA IMPERIAL RESORT” brilha no topo em letras douradas. O cheiro de mato é forte e tem placas marrons espalhadas por cada canto.
— Eu não sabia que era tão chique, achava que nessa região só tinha pé de maracujá e vaca — cochicho com Alice.
— Nem eu! Aqui é enorme!
Me sento em um banco de madeira molhado de chuva. Rosé mostra sua carteirinha de sócia e liberam nossas entradas, e nós amarramos pulseiras verdes no braço.
Rosé nos guia pelo caminho. O Imperial é cheio de placas em zigue-zague, piscinas vaporizadas, tobogãs coloridos e cachoeiras. Os chalés têm janelas enormes que parecem embaçadas de fumaça, cercas e telhados de madeira.
— Meus pais compraram alguns chalés aqui e vivem alugando pra recém-casados no Airbnb. Cês sabem como é, né? Essa é a melhor época pra—
Alice tapa a boca da Rosé.
Prendo a risada.
— …pra admirar a paisagem! Isso que eu ia falar!
— Mas por que cê não falou que era tão grande? — digo.
— Cês adoram ficar fazendo média eu então achei que… cês não iam topar!
— Cê tá brincando, né? — Jimin arrasta suas malas pelas pedras. — Aqui é maravilhoso!
Rosé não para de falar:
— Não alimentem os animais da Mini Fazenda!
— FAZENDA?
— A tirolesa dura um minuto então façam o favor de não desmaiar no meio do caminho!
— TIROLESA?
Ela fala sobre a história da fundação do Imperial em 1989. Diárias de R$1500. 1 milhão de metros quadrados.
Me perco no cheiro doce da vendinha de chocolate artesanal.
As telhas terracota do nosso chalé são em forma de triângulo. Parece muito espaçoso, mesmo de longe.
— O teleférico funciona até de noite? — Jimin pergunta.
— Sim. 24 horas por dia. Sem tempo pra perder dinheiro. Tem quase 60 cadeiras, para num mirante lá em cima e dá pra ver o Arraial do Tatu todinho quando o céu tá limpo!
— UAU!
— O dono quase declarou falência na pandemia porque era muito focado só em família rica, mas aí começaram a investir em publicidade e os influencers tomaram conta de tudo! A maioria vem em casal e fica tudo extremamente lotado. Cês vão ver de manhã na fila do restaurante!
— RESTAURANTE?
— Relaxa: cês podem usar meu cartão de sócios e comer à vontade!
Alice cruza os braços. — Mas… aqui tem tudo isso mesmo? Tá meio escuro e—
— Cês ainda não se tocaram da onde a gente tá?
— Deixa eu ver se entendi! — Jimin diz. — Isso é um mix de pousada com resort, chalé, cachoeira artificial aquecida privativa, e—
Yoongi para do meu lado.
Lindo.
O piso range quando eu subo a escadinha do chalé.
Rosé liga o aquecedor. — O que mais tem aqui é gente que vem só pra tirar foto de roupão com vinho pra fingir que é europeu. Ataca minha alergia à pessoas cafonas. Se vocês forem assim, podem ir embora já!
Abro a boca e ela continua tagarelando sobre pontos de sombra, texturas e revestimentos.
Suspiro com a vista dos sofás caramelo, dos móveis prateados e das luzes amarelas.
Têm espelhos até na cozinha e na sala.
Cabideiros.
Frigobar.
E tudo é de madeira.
Cada um dos três quartos têm suíte privativa com hidromassagem, camas de casal e varanda com vista pros pés de maracujá e pras flores meio brancas, meio roxas do jardim.
Antes de atravessar o corredor, beijo a bochecha do Yoongi. — Ai, ai, amanhã promete!
Ele ri, mas não dá tempo de eu gravar as bochechas dele na memória.
Deixo a mochila no quarto e divido a cama de casal com a Alice. Rosé não para de falar sobre investimentos, taxa de ocupação, modernização, turismo ecológico, empreendimentos de risco…
Minha cabeça dói.
Por sorte, o Namjoon aparece. — Bora dormir? A Alice e a Lali já tão cansadas de ouvir você se gabando!
Rosé pula nas costas dele. — Eu tava treinando elas pra quando eu me aposentar!
— Aposentar de quê sendo que cê é mó cansada?
— Idiota!
Ela corre. No meio do caminho, Namjoon a prende pela cintura e eles caem de barriga pra cima no corredor.
— Devolve meu celular, bebê?
— Vem pegar, Joonie!
Alice e eu abrimos a boca.
Rio pelo nariz. — Joonie? Bebê?
Alice bufa. — Isso é porque eles se odeiam, né?
— Imagina se se odiassem, misericórdia!
Fecho a porta, balançando a cabeça e capoto em minutos.
Pela manhã, me arrumo rápido: regata, legging, chinelo e perfume. Meus olhos deslizam pela cozinha.
Ué.
Um cabelo verde menta e outro azul surgem na luz amarela da sala.
Uma risada.
Todo Mundo Odeia o Chris passa na TV.
Outra risada.
Namjoon e Rosé estão deitados no sofá, brincando de roubar o boné um do outro.
Jogo uma almofada nos dois. — É sábado 8 da manhã e cês já tão desse jeito? Será que dá pra parar, per favore?
Seus joelhos se tocam e eles ficam vermelhos.
Ai, ai, hein!
Alice e Jimin estão fazendo skincare do lado de fora, grudando adesivos um na pálpebra do outro e escutando um instrumental de modão de viola.
— Deixa eu ver se tá fazendo efeito, linda!
Alice levanta o rosto e ele dá um beijo na testa dela.
— Tá fazendo muito efeito, amor!
Alice arruma o cachecol do Jimin e o abraça por trás.
Eu sou mesmo obrigada a ver isso, Deus?
Coloco a água pra esquentar no cooktop e me debruço na bancada da cozinha.
Faço uma careta. — Cês prometeram que eu não ia ficar de vela!
— Chama o Yoongi — Rosé diz —, aí a sua vela apaga rapidinho!
Mostro o dedo do meio pra ela.
— Ou vira tocha, né? — Namjoon concorda.
Trago uma mão pro peito. — Você realmente escolheu um lado, hein, sua cobra?
Namjoon me mostra a língua e volta a brincar de pegar o boné da Rosé.
Bocejo.
— Bora fazer um churrasco agora de manhã, gente? — Jimin diz.
Alice entra na sala junto com ele.
Levanto as mãos. — Eu nunca fiz! É tipo… muito difícil?
Rosé ri. — Mas o que que cê sabe fazer direito, menina?
Meu rosto esquenta. — A-ah… De comida? Mal mal um ramyeon! Talvez um spaghetti bem vagabundo e olhe lá!
— Tô falando num geral! Cê fala isso toda hora, Lali! Eu hein! Cê já tá com 18 anos nas costas, tem que aprender a se virar! Como que cê vai sobreviver nesse mundo desse jeito?
Jimin e Namjoon riem.
Alice raspa a garganta. — Ela vai me ajudar com o pão de alho.
— É-é…
Enquanto tomo meu chá, Rosé e Namjoon cochicham:
— Cala a boca! Você não vai falar nada! Pra ninguém!
— Vou sim! Gente, escuta aqui!
Ela tenta tapar a boca dele.
Giro a xícara antes de dar um gole. — Ih, tá grávida, né?
Rosé faz sinal de cruz. — Deus que me livre!
— Ontem foi o aniversário da Rosé, por isso ela chamou a gente pra vir pra cá!
Deslizo o olhar pro calendário.
20 de junho.
— MENTIRA! — Jimin e eu gritamos juntos. — Você é… de Gêmeos?
O adesivo desgruda das pálpebras dele.
Alice bufa. — Se concentra!
Jimin ri. — Então bora comemorar o da Alice também! É segunda-feira! Aqui tem uma lojinha, não tem? Eu, o Yoongi e o Namjoon vamos comprar as coisas!
Dou de ombros.
Alice também.
Rosé está com as mãos no pescoço do Namjoon, fingindo que vai enforcar ele.
— Então vaza logo daqui! E é melhor cês não acordarem o Yoon!
Faço uma careta. Yoon? Hum! Ai, ai!
Namjoon e Jimin atravessam a ponte de madeira e passam pelos pés de maracujá, pelas lanternas e somem no meio da fumaça do frio.
O termômetro marca 11°.
— Bora se maquiar enquanto isso? — Alice diz.
Concordo com a cabeça.
Antes que ela separe qualquer produto, meu celular apita.
— Merda, achei que tava no silencioso!
Meu coração dispara quando eu digito a senha no visor.
— A Kira Diniz... Ela... ela me mandou um áudio!
“Oi, querida, como vai? Você poderia estar checando seu e-mail, por gentileza? Foi enviado um comunicado para você e eu ainda não obtive retorno e isso está me prejudicando! Obrigada!”
Torço o nariz e a boca. Quando abro o G-mail, meus dedos tremem.
“luisjustinoadvogado.com.br”.
Viro a tela pra Alice.
— Um e-mail? — Ela aperta os olhos, pálida.
— Quê isso?
“Assunto: Violação de Direito de Imagem, Honra, Direitos Autorais e Solicitação de Remoção de PerfilPrezada Lali Carvalho Bergamaschi,Solicito a remoção IMEDIATA e DEFINITIVA do perfil indicado pelas imagens anexadas neste e-mail, bem como todo seu conteúdo, no prazo máximo de 24 horas, a contar pela data de recebimento deste comunicado.Caso meu pedido não seja atendido dentro do prazo estabelecido, todas as medidas cabíveis serão tomadas e os responsáveis serão punidos pelos crimes de danos morais e materiais, conforme a legislação vigente.Atenciosamente,Equipe Jurídica Kira Diniz Sampaio”.
Caio no sofá. Não!
Isso (não) tá acontecendo!
Tá?
Eu… eu vou tomar um processo?
Fodeu! Fodeu! FODEU!
Agarro meu couro cabelo, gritando pro teto.
Alice continua com o meu celular na mão e Rosé se aproxima pra ler a mensagem.
— Essa idiota tentou queimar a Lali e agora quer ameaçar ela de processo? — Rosé ri.
Alice cruza os braços. — Pra ser ruim, algumas pessoas só precisam de um pouquinho coragem.
Rosé e Alice dão passos apressados uma na direção da outra.
— Isso por acaso foi uma indireta, Alice?
Elas cruzam o braço ao mesmo tempo.
Erguem os queixos.
E semicerram os olhos.
— Não: foi uma direta mesmo, Rosé! Bem no meio dessa sua fuça de fingida! Cê sabe que vai ter que resolver isso, né? É tudo culpa sua!
Minhas mãos tremem sobre a calça.
— Minha?
— Como você é cara de pau!
— Pensa: pelo menos a amizade de vocês vai servir pra alguma coisa, Liz!
Arregalo os olhos. — Liz? Amizade?
— Liz? Amizade? — Alice fecha as mãos.
Ah, Rosé! Na moral, eu vou—
— Resolve isso, Rosé. — Alice grita. — Se vira!
— Não dá pra você fazer nada? Mas não era você que estudava Direito?
Os peitos das duas estão subindo e descendo depressa e seus narizes estão vermelhos.
— Se for pra eu fazer alguma coisa, vai ser pra ajudar a minha amiga e não você! Meu Deus! A gente veio aqui pra se distrair e acontece isso! Cê não ia apagar essa merda desse perfil?
— Mas eu apaguei, eu juro!
Levanto a cabeça.
Rosé sorri de canto. — Alice…
— Cê quer minha ajuda, né? Mas vai morrer entalada se falar isso!
Prendo a risada, intercalando o olhar entre elas e tentando puxar o ar de novo.
Rosé bate os pés. — Eu prometo que nunca mais grito com você, nem te chamo de inútil e nem falo mal da sua família! Agora será que você pode me ajudar a ajudar a Lali? Eu não posso perder a minha estilista por nada!
Soluço baixo e puxo os joelhos pra perto do rosto, deixando meu cabelo grudar nas costas.
— Cê viu o que cê fez? Ela tá chorando porque sua culpa, Rosé, você é muito burra!
— Ai, Alice, cê quer ajudar sua amiga ou não quer?
— Por que você não pede pro advogado dos seus pais?
— Tá doida? É capaz deles mandarem eu jogar a culpa na Lali! Eu… sei que foi tudo culpa minha!
Alice ri. — Ih, agora vai cair um toró!
— Eu quero quebrar a cara dessa Kira tanto quanto vocês, tá? Eu vi ela de papinho com o Ricardinho na Festa Junina e tive que me segurar pra não enfiar uma espiga na goela dela!
Seguro a vontade de rir no meio de outro soluço.
Respiro fundo. — Só você pra me fazer rir numa hora dessas, Rosé! Eu não sei em quem eu quero bater mais: se é na Kira ou em você!
Rosé estende uma mão. — Não me mata, eu tenho um hamster pra alimentar! Juro que vou me comportar!
— Quero só ver! — Alice diz.
Rosé ri. — Isso é uma trégua? A gente é amiga agora?
— NÃO! — Alice e eu rimos.
Rosé estala a língua. — Até onde eu sei, Lali, você só tem a gente de amigo! Ou será que alguém daquela Casa Jovem ia te aguentar falando que nem uma maritaca por tanto tempo?
Travo os ombros.
Rosé ri de novo. — Mas você tem sorte de não ter que aguentar todo mundo te chamando de filha de bandido.
O celular dela toca. Ainda estou sem piscar e Alice está fazendo uma careta.
— Alice, por que que cê não me defendeu?
— Agora eu virei guarda-costa?
— Então agora vai ser assim? Cê nem me ajudou com a Kira! Tá feliz que eu vou ser processada, é?
Alice ri. — Aquilo foi só pra te meter medo. Não vai acontecer nada, relaxa!
— Eu... não vou ser processada?
— Processar todo mundo processa, eu quero ver é ela ganhar!
— Como assim?
— Acho difícil ela arriscar abrir um processo contra você sabendo que você tem muito mai chance de processar ela e ganhar com as acusações de difamação. Você tem muito mais comentário e... ameaças. E se ela te mandou esse e-mail na quinta e até agora mandou mais nada, fica tranquila!
Meu celular apita outra vez.
Franzo as sobrancelhas. — Por quê a Rosé me mandou um vídeo?
— Ela me mandou também!
Oi, oi, povinho burro da internet que acompanha a tonhona da Kira Diniz! Vim aqui só pra pedir pra essa ridículaparar de ameaçar os outros na internet. Minha amiga Lali não vai se pronunciar pedindo desculpas pra nin-guém porque ela não precisa responder acusação nenhuma. Ela é inocente. Acabou. Eu que criei aquele perfil sem ela saber, e sendo bem sincera, eu me arrependo! Me arrependo de não ter feito bem pior porque você merece uma boa coça, Kira! Da próxima vez, eu gravo uma live pra vocês, Tonhoners! Se você for processar alguém, Kira, pode vir com tudo e se prepara porque eu tenho uma amiga que conhece os melhores advogados da cidade e você vai se foder muito, eu juro! E dessa vez vê se você ameaça a pessoa certa!”O barulho de sacolas chiando se intensifica.
— Cinquenta reais num carvão? — Jimin grita. — Quanto é um Airbnb aqui mesmo, Rosé? 8000 reais a diária? Só pode! Pelo amor de Deus, o restaurante tava lo-ta-do! Esse povo é filho do presidente?
Namjoon deixa o cartão da Rosé na mesa.
Ela entra na sala e eu a abraço. — Você é maluca!
— Maluca demais! — Alice nos abraça.
— Que fofinhas vocês se redimindo depois de me tratar igual uma caçamba de lixo molhada! Ouviu, né, Namjoon? Não fica com ciúme: agora a gente é um trisal!
Alice e eu gargalhamos.
Me jogo no banco do lado de fora do chalé. Está um pouco frio, e eu bebo um gole de caipirinha.
Enquanto Namjoon e Jimin arrumam a churrasqueira, um garoto cruza o limite entre o nosso chalé e o chalé vizinho. O grupo que o acompanha deve ter umas 10 pessoas, e todo mundo é muito jovem, muito pálido e muito loiro, veste roupas linho da Chanel e da Gucci e tem cheiro de perfume caríssimo.
— Charlotte, é você mesmo! Meu Deus, quanto tempo! Eu vi que você postou um vídeo aqui agorinha e passei pra checar, não tô acreditando! Que coincidência!
— É! Que coincidência eu trombar logo em você em época de alta temporada, né?
— Não sabia que cê tava fazendo caridade! Cês vieram comer carninha de cachorro? Foi mal… aqui no Imperial tem!
Rosé joga o boné do Namjoon no banco.
Namjoon e Jimin fecham as mãos em forma de soco ao mesmo tempo que eu e a Alice.
Rosé dá um passo à frente. — O caminhão de lixo vai passar só segunda-feira 7 horas, Henrique! Volta outra hora!
Alice e eu seguramos a risada.
Alguém toca minhas costas de leve. Num impulso, quase dou uma cotovelada no vento.
Paraliso.
Meus olhos param no rosto da pessoa que está segurando a minha cintura e o perfume dela se espalha pelo ar.
— Gatinho, você acordou! Dormiu bem?
— Fica aqui. — Yoongi me posiciona pra trás. Pelo ombro dele, o sorriso do Henrique se alarga. Ele desce o olhar pelo vestido da Alice e ela aperta a mão do Jimin.
— Pelo menos esse ano cê não passou seu aniversário sozinha, Charlotte!
Arregalo os olhos.
Rosé morde o canto da boca e tenta avançar pra cima do Henrique.
Namjoon entra na frente dela. — Na moral, mano, vaza daqui!
Os amigos dele riem e ele para na frente da Rosé, rindo.
— Ah, Charlotte, cê deu sorte que seus pais ainda não perderam todo os chalés, a justiça foi boazinha, até! Já era pra ter congelado tudo, tudo!
— Vai se foder, Henrique! Eu vou te quebrar! Mete o pé!
— Eu vou, mas só porque eu sou civilizado. Lembra que se eu quisesse, eu mandava o meu pai te chutar daqui!
Rosé tenta avançar bele de novo, mas o Namjoon entra na frente dela.
— Vai! Volta pros Estados Unidos que você ganha mais! Não deve ser tão difícil entrar em Harvard já que um canhão igual você tá lá! Cê comprou a vaga, né?
Henrique some com o restante dos amigos, rindo.
— Achei que era os vampiros de Crepúsculo — digo.
Rosé respira fundo. — Tô tão puta que não consigo nem rir!
— Era verdade? — Alice diz.
— O quê? Que eu só chamei vocês aqui pra eu não passar meu aniversário sozinha? Cês acham mesmo que eu tô tão desesperada assim?
— SIM!
Namjoon ajuda Rosé a se sentar.
— Se alguém contar que me viu chorando, eu mato um por um!
Namjoon ri. — Você precisa parar de tentar morder todo mundo!
— Cala a boca, idiota!
— Bora começar, gente! — Jimin grita, espetando as brasas.
O celular dele apita.
— Mãe? — Sua voz fica mais aguda. — Tá sim! Tá! Falo sim! Tchau!
Os olhos dele umedecem. — Ela disse que tá tudo tranquilo no Solaris e que é pra gente aproveitar o dia!
Alice passa a mão nas costas dele.
— Cê tá bem? — pergunto.
— Tô… É só que minha consciência pesa um pouquinho: eu tô aqui me divertindo enquanto ela tá lá trabalhando pra eu poder pegar folga!
— Não se culpa! — Alice faz carinho no cabelo dele.
— Vou ligar pra ela de novo. Esqueci de falar eu te amo!
Jimin entra no chalé.
Rosé e Namjoon viram a carne e os pães de alho, espalhando fumaça e tossindo alto.
Me sento de frente pra Alice. Do lado do Yoongi.
Alice ri baixo. — Você viu que meus pais são uns amores, mas… a gente nunca falou eu te amo um pro outro, acredita?
— NÃO?
Yoongi abaixa o rosto.
Aperto os dedos dele por debaixo da mesa.
— Pelo menos não foi da boca pra fora igual os meus. — Rosé se joga no banco do lado da Alice.
— Obrigada por me amarem… — Alice sorri.
Meus olhos ardem. — Obrigada vocês por me aguentarem!
Jimin volta do chalé com os olhos vermelhos.
— Aproveitando que tá todo mundo numa vibe meio culto de ação de graças: valeu por serem meus ratinhos de laboratório!
Rosé gira sua garrafa de soju. — Valeu por deixarem o meu aniversário mais legal!
Namjoon dobra o corpo até os joelhos. — Valeu por serem meus amigos! Cês são massa demais!
Nos viramos pro Yoongi.
Ele se encolhe no banco, coçando a nuca. — É… valeu pelo convite!
— Ah, mano! — Jimin espalha pingos de soju pelo ar.
— E a sua família, Joon? — pergunto.
— Se bestar, minha mãe fala “eu te amo” 24 horas por dia e o meu pai é pior ainda: eu tive que implorar pra ele parar de me levar na faculdade e pra não ficar me chamando de “filhão” na frente de todo mundo, porque se dependesse dele…
Rio pelo nariz. — Eu não lembro se já vi meu pai chorar, mas eu lembro dele falando que me amava. Agora a minha mãe… nem deu tempo de eu ver ela e nem de falar nada com ela, né?
Todo mundo arregala o olho.
— Sério! — Rosé diz. — Pesou!
Brinco com as cordinhas do meu capuz e com a manga da blusa do Yoongi. Ele massageia minhas mãos.
Rosé entrelaça os dedos com a Alice. — Cê ainda acha que a gente é… a extensão dos nossos pais? Pra falar a verdade, isso me deu medo. Uma hora eu… vou acabar virando uma bandida também?
Alice sorri sem mostrar os dentes. — Desculpa, eu falei da boca pra fora! Eu não acho isso!
Elas se abraçam.
Alice ri. — A gente não precisa ser… como é que fala mesmo? Ah! Tonhoners igual eles!
Rosé gargalha. — Ai, você viaja!
— Desculpa, eu não sei as gírias dessa época direito!
— Alice, você é mais nova que eu! Por acaso cê tá insinuando que eu tenho cara de velha?
— Quê?
Namjoon se apoia no meu ombro. — Vai começar tudo de novo!
— É. Agora elas vão se dar bem!
Bem até demais.
Depois de comer quase 1 quilo de bolo de pão de ló, saímos do chalé cheirando à fumaça, chocolate quente e canela. Com poucos passos e uma leve subida, chegamos na fila da tirolesa.
— Próximo!
Yoongi fecha os olhos com força e termina de ajeitar os equipamentos de segurança. — Isso não é uma boa ideia. Que merda, Yoongi, por que você topou?
— Vai dar tudo certo, gatinho! Lembra das regras!
— Prontos? — a guia nos pergunta.
Ela nos solta. Inclinamos o corpo e seguramos a mão um do outro, gritando várias vezes. Os chalés ficam pequenos daqui de cima, e o sorriso do Yoongi, enorme.
Na fila do teleférico do outro lado, Yoongi empalidece. Toco suas bochechas vermelhas. Ele está fervendo.
— Foi legal, mas eu não quero nunca mais ir num troço desses!
— A gente já tá na fila do próximo brinquedo!
— Droga!
Os assentos do teleférico são amarelos, individuais e abertos. Yoongi se senta atrás de mim, reclamando que o celular dele vai cair no lago sempre que passamos pelo lago.
As máquinas fazem um barulho alto e sobem devagar.
A Mini Fazenda do Imperial surge na luz da tarde. Tem criança nos balanços, cheiro de pipoca no ar e bossa nova tocando.
Gansos nadando. Frio. Calor.
Meus pés me guiam até a beira do lago.
Estendo uma pipoca no ar.
Um apito soa.
Os dedos do Yoongi grudam nos meus. Puro suor. O perfume dele está a centímetros de mim. Doce na medida certa. Quente.
Minha boca se abre e eu sigo os passos dele.
— Quê isso, Lali? O guardinha ia expulsar a gente daqui!
Coro, com o coração batendo forte.
Meus joelhos gritam “perigo” e se arrependem no meio do caminho.
Me jogo num banco. — Desculpa! Você ainda quer ir no pedalinho?
Yoongi entrelaça os dedos atrás das costas. — Quero.
Suspiro. Ele volta a caminhar.
Num impulso, dou um selinho nele.
Arregalo os olhos.
Ele também.
Nós dois estamos vermelhos.
Nem assim você vai me beijar?
Seguro a vontade de xingar o mundo.
Me distraio com a fila da escalada.
— A gente precisa ir!
— Vou te esperar aqui!
— Não! A gente vai no pedalinho e depois na escalada juntos!
Yoongi solta o ar. — Tá bom!
Chegamos no Pedalinho.
— Será que você pode me ajudar a pedalar, Lali? Tá parada aí faz meia hora!
— Eu? Pedala, Robinho! Cê tá é merecendo um peteleco!
Yoongi bufa.
Voltamos pro chalé. Yoongi vai direto pro quarto, e Alice e Jimin deitam na rede, lendo um livro velho.
Me sento no sofá do canto.
Rosé está dormindo no colo do Namjoon quando eu tiro a foto.
— O casal mais doido de Costaré — digo.
Rosé pula do colo dele. — Casal? Tá doida?
— Ué! — Levanto as mãos. — Cês são o quê, então? Atores?
— Eu sou livre! Já te falei, Lali! E o Namjoon também é, não é?
Ele balança a cabeça, encarando a porta.
Ela corre na direção dos quartos, quase tropeçando.
— Desculpa — peço —, eu te entendo, Joon: eu também não sei o Yoongi quer a mesma coisa que eu!
Namjoon ri. — Eu não tô preocupado com isso, Lali. Se ela quiser me apresentar pros pais como colega, que seja! De qualquer forma, a gente tá junto, e isso é o que importa, tendeu?
— A-acho que sim… quem me dera!
— É papo de anos de sabedoria e de terapia. Muito autoconhecimento. Brincadeira: é só muita cachaça mesmo.
Dou risada. — Boa sorte. Já deu tudo certo!
— Pra você também!
Ele dá um soquinho na minha mão antes de sumir pelo corredor. Se ficar junto é o que importa… então a gente já tá, gatinho!
Caminho até o lado de fora do chalé e me sento na escadinha. O vento quase corta minha pele.
As estrelas brilhantes…
O cheiro do mato…
Os pés de maracujá…
Meus olhos se fecham e minha cabeça tomba pro lado.
Alguém sacode meus ombros. — LALI! Você é doida! Por que cê veio dormir aqui fora?
— Hm… — murmuro, abrindo os olhos e me levantando da escada.
Alice me enrola com um cobertor verde.
— Dio mio! Eu dormi por quanto tempo?
— É quase oito da noite! Se eu não tivesse chegado aqui antes, cê ia congelar!
— Desculpa. — Baixo o olhar, apertando o tecido do cobertor. — Eu só vim tomar um ar!
Alice empurra a porta. — Então vai tomar lá dentro, eu hein! Ainda bem que eu cheguei logo!
— Primeiro: você não me defendeu da Rosé aquela hora que ela me zoou, e agora… tá amiga dela?
— Eu tenho direito de ter outras amigas também!
— Você vai mesmo virar amiga dela?
— Por quê? Você não?
Bufo. — Mesmo depois de tudo?
— Mesmo depois de tudo, eu ainda sou sua amiga, Lali!
— Eu também sou sua amiga!
Alice ri. — Então pronto: você não vai perder seu lugar na minha vida nunca! Você é a Lali e ponto final! Relaxa!
Quando ela me abraça, eu desabo em lágrimas. — Eu te amo, Alice!
— Eu não mereço a sua amizade… nem o seu amor!
— Por que você tá me falando um negócio desse?
— É complicado!
— Então tá: não quero mais saber! Me diz uma coisa!
— O quê?
Alice me direciona até a cozinha e me ajuda a sentar em um dos bancos. Ela separa ingredientes pra fazer chá de camomila.
— Quando você parou de gostar do Yoongi e começou a gostar do Jimin? O que fez sua visão mudar?
Alice ri, fechando a torneira. Ela coloca o canecão no cooktop e se senta de frente pra mim.
— Quando eu parei de tentar justificar que eu gostava dele com a desculpa dele ser mais novo.
— Mas como eu vou saber se o que eu tô sentindo pelo Yoongi é amor ou não?
— Você ainda tem sessão com a Tatiane?
— O projeto só cobria 3 sessões, falta só mais uma.
— Então usa a última.
— Tem certeza?
— Sim.
Respiro fundo. — Tá bom… Vou sentir sua falta, Lice! Será que lá no Fórum eles vão deixar você ver a gente no Solaris?
— Bem que eu queria, mas estagiário é sempre explorado. Capaz de eu ter que ficar depois do horário!
— Se alguém mexer com você me avisa: vou chamar meu bonde!
— Bonde?
— É: eu, o Joon e a Rosé. O Jimin é o nosso líder.
— Nossa, cês metem muito medo, hein?
— Sim, a gente vai usar alfinete, ferro e vitamina C!
— Cês podem me visitar no intervalo! É só 15 minutos, mas já dá pra reclamar de alguma coisa!
— Eu vou! Eu gosto tanto de você que até iria num rodeio assistir um daqueles shows horríveis!
— Então bora!
Depois de tomar o chá, nós nos sentamos no sofá. Alice faz carinho no meu cabelo, e eu volto a chorar em frente à TV.
Passos se aproximam da sala.
— Alguém quer chocolate? — Rosé pula em cima de nós.
Fungo no meio das lágrimas. — Queria ter conhecido vocês duas na época da escola.
— Querida, naquela época eu era a maior nerdola esquisita, provavelmente ia te odiar porque cê não cala a boca!
— Mas quem falou que eu gosto de você hoje em dia?
Alice prende a risada.
Rosé me abraça de lado, beijando minha bochecha. — Eu sei que eu vacilo muito, mas tenta encontrar algum lugarzinho no seu coração de tricoline pra me perdoar!
Faço bico.
— Eu não quis falar dos seus pais, nem da Casa Jovem, eu juro! Eu sei que eu sou tipo uma Birkin cheia de lama, mas eu juro que vou me entupir de Cif porque não quero ser pega pela receita federal e nem perder vocês!
Alice e eu enrugamos a testa.
— Tá tudo bem. Pra falar a verdade, você não mentiu: lá na Casa Jovem quase todo mundo era horrível.
— Mas você ainda vai fazer o meu vestido?
— É só com isso que você se importa, né, garota?
Rosé e eu congelamos.
Alice ri. — Eu tava brincando.
Abraço Rosé de lado. — Vou colocar muito strass pra você ofuscar geral!
— Quero só ver, hein?
Rosé e Alice me deixam sozinha.
Suspiro.
“Posso te ligar, Tatiane?”
“Pode”
Alguém murmura “Lali” num tom meio agudo.
Me viro.
Jimin empurra Yoongi na direção do quarto. Ele está com as bochechas vermelhas, os olhos semicerrados e uma garrafa quase vazia de Chandon debaixo do braço.
Jimin coloca a garrafa na bancada. — Deixa isso aqui, mano! Vem, bora dormir!
— Me dá, me dá! Eu… eu quero mais!
Ergo as sobrancelhas. — Quê isso?
— Pode deixar que eu cuido dele, Lali! Descansa, viu?
— Quando foi que você bebeu tanto que eu nem vi?
Yoongi tropeça no sofá. — Quando ninguém tava olhando, lógico!
Me levanto.
Jimin sinaliza “tudo bem”.
— Tá sendo uma noite complicada pra todo mundo, Lali — Jimin pisca antes de sair.
Respiro fundo, a um fio de ficar sem cabelo, ar e lágrimas. Ai, por quê? Por quê? Por quê?
Demoro uns segundos pra clicar no número da Tatiane. Ela também demora a me atender. Quando o cabelo afro vermelho dela e seu sorriso quadrado surgem na tela, sorrio.
— Eu sei que você disse que eu podia te ligar a hora que eu quisesse, e eu não queria te incomodar mesmo, Tati, mas…
— Pode falar. Tá dentro do horário ainda e eu só tenho o próximo paciente daqui a uma hora.
— Eu conversei com os meus amigos hoje e isso me deixou bem triste… Eu… tô refletindo muito esses dias…
— Que tipo de reflexão?
— Sobre um monte de coisa: os meus pais, o meu crush… eu não sei mais o que fazer! Você me disse pra eu não julgar os meus pais, que eles fizeram o melhor que podiam com o que tinham, mas… como eu vou fazer isso? Por que ao invés de ter desobedecido os meus avós, o meu pai não ouviu eles? Por que a minha mãe não ouviu a minha tia? Por que eu simplesmente não posso julgar as escolhas burras dele? Eu sei que eu sou egoísta pra caramba! Eu… eu sei que eles não vão voltar pra terra nunca, e sei que eu não devia sentir raiva, mas… por que eles tinham que ter deixado tudo tão difícil pra mim aqui? Por que tá tudo bem eles terem sido egoístas e eu não? Por que eu tenho que pensar em todo mundo? Por que eu não posso só ir embora também? Por que eu… por que eu comecei a querer ficar aq—
Não, que ideia é idiota! Eu… Eu ainda preciso ir pra lá!
Tatiane mexe a cabeça. — É importante que você saiba que isso tudo que você tá sentindo é humano, e muito comum.
De novo isso?
— Sobre os seus pais: eu vou te passar um exercício por PDF. É importante que você faça tudo com calma quando estiver sozinha e num dia mais tranquilo.
Nossa, grande ajuda! — Ok.
— Agora vamos com calma, Lali: pelo que você me contou, seus pais lutavam pra sobreviver na sua idade, e também se sentiam confusos. Você… já parou pra pensar que se eles não tivessem feito todas essas escolhas que você chama de “burras” hoje, talvez você não estaria aqui falando comigo agora?
Abro a boca diversas vezes. Nenhum som sai.
Uma lágrima escapa no meio dos meus olhos ardidos, e eu mordo o canto da boca.
— Lali, você tá aí? Travou a tela aqui pra mim.
Fungo, mudando a posição do telefone. — Melhorou?
— Sim.
— A internet não é tão boa aqui.
— Agora eu tô te ouvindo perfeitamente: pode continuar. De que mais você quer falar?
— E eu… eu não sei se eu gosto do Yoongi mesmo ou se eu só tô carente! Eu não sei nem se eu quero ficar aqui em Costaré ou não! Eu… eu não sei mesmo!
— Carência é mais normal do que você imagina.
— Então eu não gosto dele de verdade? — sussurro. — Eu só quero pegar ele? A Rosé tava certa?
Tatiane ri pelo nariz. — Não posso falar por você, você é quem tem que se questionar isso.
Respiro fundo.
— É possível amar e honrar a memória dos seus pais e ainda assim sentir raiva deles, e também é possível amar uma pessoa e estar carente.
Ótimo. Ótimo. Ótimo!
— Uma coisa não anula a outra! Lembra que você está passando por uma fase de transição pra vida adulta: você ainda vai misturar muita coisa!
— Pois é, Tati, eu já misturo: burrice e amor!
Ela ri. — Eu confio em você e sei que você vai saber tomar a melhor decisão.
Soluço. — Obrigada por confiar em mim porque eu não confio.
— Você tem uma mão pra segurar sempre que quiser se levantar, Lali! Mesmo depois do fim dessa última sessão, você pode me ligar pra pedir conselho ou desabafar! Tudo de bom!
Quando volto pro quarto, Alice já está dormindo.
Me deito em silêncio.
Tomara que você também sonhe comigo.
Que pense em mim.
Que me ame.
E me beije amanhã!
Finalmente!
E que a gente dê certo.
Mesmo se eu for embora.
Tomara que a gente encontre um jeito.
Eu quero.
Eu sei que eu quero!
Mesmo?
Viro de barriga pra cima na cama.
Carência. Amor.
Amor. Carência.
Raiva. Honra.
Medo. Desejo.
Culpa.
Itália. Costaré.
Costaré. Itália.
No sonho, Yoongi viaja comigo pra Itália. Vivemos felizes com o Duri, adotamos um poodle, e aparecem duas crianças loiras de olhos puxados num jardim de camélias.
Domingo, acordo 5 da madrugada com as lágrimas entaladas na garganta.
Ar puro. Ar puro. Ar puro!
Tomo um banho rápido, passo perfume e visto meu short-saia. Puxo os tênis e faço um rabo-de-cavalo firme.
Não tem ninguém na sala.
Corro pelo gramado do Imperial.
O vento gelado me mantém acordada.
Quando estou perto das pedras da cachoeira privativa do nosso chalé, alguém toca meu ombro.
Yoongi está de moletom cor de vinho, seu cabelo está úmido e o perfume de caramelo forte.
Me apoio nos ombros dele, recuperando o fôlego. — Gatinho!
— Tudo bem?
— Sim, e com você?
Yoongi franze a testa. — Também.
— Cê bebeu ontem.
Ele fecha as mãos em cima da cabeça, bufando. — Desculpa. Eu devo ter falado um monte de besteira!
Avanço um passo. — Falou nada não, só que a gente ia se casar hoje!
Ele arregala os olhos.
— Mentira, falou não, mas eu… tava preocupada!
Sem pensar, eu o abraço pela cintura. Suas mãos tremem de leve na curva do meu pescoço, mas eu sei que ele está sorrindo pela respiração acelerada e a voz baixa:
— Por que cê tava aqui sozinha?
— Eu vim pra assistir o nascer do sol e correr.
— Mas… tá nublado e… cê tá de saia. No frio.
— É o que tem pra hoje. Eu tava com saudade de correr.
— E como foi?
— Legal. Minha passada tá melhor que eu lembrava, e eu não fiquei tão sem fôlego igual achei que ia ficar!
— Tendi… Queria te ver no dojang um dia…
Jogo o cabelo pra cima. — Vou te mostrar meu Dollyo-chagi!
Estico minhas mãos até parar nos pés e alongo as costas.
— Tem certeza?
— AH!
Golpeio o ar.
Tropeço numa pedra. Grito, me sentando perto das pedras da cachoeira.
Yoongi massageia meu tornozelo e balança a cabeça, estalando a língua. — Tá doendo?
— Aff, não! Mas que merda, o Jimin tinha me ensinado certinho!
— Demora mesmo pra pegar o jeito. Eu demorei anos pra ficar bom, sabia?
— Mas eu queria pra ontem!
Yoongi endireita minhas costas. — Assim.
Meu olhar desliza da boca dele pros braços, pro sorriso, pro cabelo e pros olhos enquanto ele chuta o ar com cuidado e me explica sobre a posição dos pés e o controle respiratório e mental.
Base. Eixo. Alinhamento. Apoio.
— Tendeu?
Balanço a cabeça. — Aham, tendi… Já tô fera, já posso quebrar a cara daquele Gasparzinho Henrique!
Yoongi ri pelo nariz. — Quer tentar? Devagar!
Tomara que os nossos filhos não sejam ruins que nem eu!
Eu devia ir atrás de um professor mais feio.
Meu sorriso se desfaz. Cê já deve ter treinado várias garotas.
— É… Melhor não! Vai que eu caio de novo, né?
Ou tropeço em cima de você.
Ele ri.
— É… O que cê achou do chalé, gatinho?
— Bastante confortável. Tirando os pernilongos, o frio e os grilos.
— É... Tem um estilo meio roça chique os chalezinhos.
— Sim, se chama enxaimel. É uma técnica alemã.
— Enxaimel?
— É. Não tem prego.
Ponho uma mão no queixo. — Como assim?
— Colocam pedra e tijolos no lugar. Se você reparar, as vigas de madeira nas paredes formam uma coisa que chamam de treliças geométricas e—
Yoongi balança a cabeça. — Melhor eu parar de falar senão vou ficar até amanhã aqui...
— Pode falar. Mesmo se eu não entender nada, vou fingir que tô prestando atenção.
— Era pra eu ficar feliz?
— Cê queria que eu mentisse, então?
— Não!
— É que...
— A sua beleza me distrai, gatinho — ele imita a minha voz.
— Isso! Eu nunca vou cansar de ouvir cê falando das coisas que cê gosta!
Yoongi fica vermelho. — Eu só sei um bando de coisa inútil.
— Quantas pessoas da nossa idade você conhece que sabem tanto de arquitetura, hein?
— A agulha virou contra o costureiro?
É a minha vez de gargalhar. — Gostei. Além de lindo e inteligente, você ainda é criativo e engraçado.
— Você é a única pessoa que acha isso.
— E isso é ruim?
Yoongi mexe as sobrancelhas. — Depende.
— Tudo pra você é “depende”, né?
— É porque um mesmo assunto pode ter muitos pontos de vista, tipo muitos mesmo!
Estou com mais uma mão sob o queixo, perdida no formato dos lábios dele e suspirando… quando ele se cala.
— Que foi?
— Tudo que eu sei de arquitetura é muito básico.
— Se isso é básico, quando você se formar vai ficar in-su-por-tá-vel!
— Valeu, eu acho.
— Eu já vi foto de alguns arquitetos! Você vai ficar mó gato de uniforme!
Ele coça as bochechas. — Brigado. Cê só pensa em roupa, né?
— Cê queria que eu pensasse no quê? 50% do tempo você fica na minha cabeça e 50% eu tô costurando: não sobra espaço pra mais nada!
Yoongi desvia o olhar pros nossos tênis.
Toco o queixo dele. — Yoongi… segura minha mão?
Entrelaçamos os dedos, os dois tremendo.
Deito a cabeça no ombro dele e respiro fundo.
— Que que aquelas garotas escreveram pra você nas cartinhas?
— Cê quer saber mesmo? Era tudo besteira.
Faço uma careta. — Quem que eu mais queria não me mandou nada…
— Eu não sou bom nisso, Lali.
— Como não? Você é um poema vivo!
Yoongi gargalha.
— Exagerei, né?
Ele concorda com os polegares.
— Culpa sua eu ficar assim.
— Assim como?
Mexo os ombros. — Apaixonada.
Ele continua parado.
— Eu achei que tava óbvio, Yoongi. Bem que eu queria saber disfarçar, mas acho que nunca vou conseguir!
Yoongi coça a nuca e as orelhas, e brinca com as pontas dos meus dedos.
— Acho que… eu é que sou ruim em perceber, Lali! Ou melhor: eu sabia… só não queria acreditar que eu tava certo! De algum jeito… eu sabia que eu sabia, mas eu não sabia como eu sabia e muito menos se dava pra confiar em tudo que eu achava que eu sabia!
Beijo a bochecha dele. — Fofo.
Subimos o olhar ao mesmo tempo.
Colo nossos peitos. O coração dele bate forte contra o meu.
— Você tinha razão, gatinho.
— No quê exatamente? Me fala. Eu adoro dizer “eu te avisei.”
— Que a gente nunca ia ser amigo.
Yoongi se afasta de leve. — A gente é o quê, então? Uma piada?
— É… que… amigo não…
Me viro de lado.
Droga. Flertar sendo amigo é fácil. Agora flertar gostando de alguém é a coisa mais difícil do mundo!
Yoongi me dá uma cotovelada de brincadeira. — Tá dizendo que você não quer mais ser minha amiga? Logo você que insistiu tanto nisso!
Respiro fundo. — É. Eu não quero mais. Na verdade, acho que eu… eu nunca quis.
Meu rosto se aproxima do dele sem que eu pense duas vezes.
Seu toque na minha cintura fica mais firme.
Eu tento voltar atrás e escutar a vozinha que me diz pra ir com calma. Que ele vai gostar mais se eu esperar. Que ele pode acabar fugindo de mim que nem fez ontem.
Mas eu continuo aqui.
Antes que eu conserte a postura das minhas costas, que eu destrave os ombros e erga a cabeça, Yoongi me segura pelas bochechas. Devagar. Devagar. Devagar. Os olhos dele estão brilhantes. O vento bate forte na nossa pele. Os passarinhos cantam. Rápido. Rápido. Rápido.
E tudo some quando ele me beija. Me beija com vontade. Com gosto de vinho. De frio. De sentimentos que fazem minha barriga doer de tanta borboleta. Calor.
E é. Leve. Leve. Leve!
— Nossa, menino, cê tava querendo arrancar minha boca fora, é?
Yoongi abafa a risada. — Desculpa!
— Você tava guardando tudo isso esse tempo todo? Nossa, que beijo bom! Eu tava morrendo de medo de não encaixar!
Ele passa os polegares pelas minhas bochechas.
A boca dele está vermelha, o peito subindo e descendo depressa igual ao meu.
Solto um grunhido. — Eu achei que ia ficar só na vontade de novo! Finalmente, hein? Se bem que… Ah, você estragou tudo, Yoongi!
— Ahn? Estraguei o quê?
— Ontem eu tava planejando um beijo de cinema com uma frase de efeito, flor e chocolates e você foi dormir! Agora você me beija antes de eu te beijar? Voc—
Yoongi me dá um selinho. — Assim é bem, melhor, né? Sem planejar.
— É bem melhor, mas eu achei que você não gostava de abraçar, de beijar e muito menos que você gostava de mim! Você fugiu de mim ontem no meio do forró!
Yoongi me abraça. — Eu tava tentando te mostrar tudo o que eu sinto esse tempo todo… Eu sei que… eu sou horrível com essas coisas, mas, por favor: me diz que você consegue me entender!
Balanço a cabeça, escondendo o rosto na curva do pescoço dele. Seu perfume e seu calor se espalham pelo ar. Sorrio.
— Sabe… uma coisa que me falaram um dia desses, Lali? Que sonhar é bom, mas viver é melhor ainda!
— Sonhar e viver? Tinha que ser com você, gatinho. Tem que ser!
Ele ri de novo.
— Eu cheguei a pensar que talvez que era tudo carência… no começo, eu te via como um herói, depois como um amigo meio chato…
— Chato?
— No começo, depois… eu continuei achando.
Ele dá uma risadinha. — Eu só falava com você porque a Sra. Park me obrigava, não vou mentir. Te achava muito tagarela.
— Mas eu ainda sou!
A gente ri junto.
— E depois…
Yoongi morde o canto da boca. — Depois?
É a minha vez de ficar vermelha. — Você continuou perto de mim. Mesmo sem precisar. Mesmo reclamando. Só… ficou!
Soluço sem querer.
Yoongi enxuga meu rosto.
— Eu ia passar o rodo naquele hostel, ia ficar com a língua doendo de tanto beijar aqueles gringos, mas você apareceu e não saiu mais da minha cabeça!
— Eu… eu nunca tive uma amiga assim.
— Assim como?
— Que… insiste tanto em ficar perto de mim.
— Mas a gente não é amigo. — Beijo a bochecha dele. — E mesmo sabendo que eu ia embora, você ainda gostou de mim!
— Ia? Eu pensei q—
Travo o queixo. — Agora eu sei porque você falava que a gente não era amigo: cê gostava de mim desde começo, né?
O olhar dele me diz muito sem precisar de nenhuma sílaba torta: ele quer que eu fique. Fique de verdade. Só de pensar nisso, minhas costas se arqueiam sozinhas, as pernas tremem e o peito dói.
Cruzo as pernas. — Eu te devo um encontro, né?
— Deve.
— Quando a gente chegar no Solaris, eu vou me arrumar e ficar bem linda!
— Fica um pouco mais do que isso e você já pode me enterrar.
Demoro um segundo pra sorrir e esconder o rosto no moletom dele.
— Para! Eu não posso ficar me derretendo assim em público, o Jimin e o Namjoon tão vindo bem ali!
Yoongi ri. — A gente tava se beijando agorinha mesmo, Lali. E todo mundo meio que já sabe!
— Mas cê não tava me falando essas coisas.
— É que eu sou um poema ambulante, né?
Rimos juntos.
Ele segura minha mão. — Mas eu também não quero que ninguém atrapalhe a gente.
Passos se aproximam das pedras.
Yoongi e eu endireitamos as costas.
Namjoon e Jimin pulam na cachoeira, gritando.
Alice e Rosé aparecem de braços dados, rindo e conversando. O que me assusta não é o vento gelado, mas seus cabelos voando enquanto elas correm e pulam na água. Parece cena de novela.
A imagem da minha cicatriz invade minha cabeça.
Desamarro o nó da jaqueta presa no meu quadril e a jogo por cima da minha barriga.
— Vem, Lali!
— Vem, Yoon!
Ele inclina a cabeça levemente. — Cê quer entrar?
— T-Tá frio.
— A água é aquecida, esqueceu?
Esqueci não.
— Mas é que eu…
Alice troca um olhar com Jimin.
Eles saem da água e vestem as roupas depressa.
Rosé e Namjoon os seguem.
Quando pisco, já estou descalça e caminhando do lado deles na borda.
A jaqueta ficou na grama.
Tudo é meio dourado, marrom e verde.
A água é morna, mas arrepia minha pele e deixa meu cabelo colado nas costas.
No meio da cachoeira, mergulho fundo.
Levanto o corpo num salto, batendo os dentes. — Cês falaram que a água não tava gelada!
Eles riem.
Yoongi me faz mexer a testa.
Cê tá… chorando?
Rosé e Namjoon me dão as mãos.
Alice e Jimin jogam água pra cima e me empurram na água.
Mal tenho tempo pra rir. Reagir. Gritar.
Ergo o corpo.
Todo mundo sorri largo, com os olhos e as bochechas vermelhas.
Mais um soluço escapa de mim.
Eu não… eu quero mais ir embora!
Eu quero ficar em Costaré!
Aqui!
Com eles!
AQUI!
Mas… eu…
Eu posso?
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