Anything But Ordinary
16 Eu quero saber que eu cheguei ao extremo
LALI PRENDE MINHA CINTURA DE UM JEITO FORTE DEMAIS. E eu gosto. O vento bagunça o cabelo dela ao sairmos do Imperial.
Meu corpo treme.
Que bom que esse capacete esconde o meu sorriso de idiota.
Não quero que ela me ache idiota.
Sorrio de novo quando ela me faz cócegas e joga a cabeça pra trás. Ela quer ficar em Costaré! Eu sei que vai! Ela quer!
Quando chegamos no Solaris, uma garotinha de franja rosa acena pra Lali.
— Oi! Você é a Lali Bergamaschi do TikTok, né?
Lali se aproxima devagar. — Sou… Por quê?
— Eu amo seus vídeos da capivara e quando descobri que você trabalhava aqui pedi pra minha mãe me trazer pra te conhecer!
— S-sério?
— Sim! Tira uma foto comigo?
— Claro!
Abro um sorriso e entro no Solaris enquanto Lali ainda está sem piscar.
— Eu tenho uma fã! Uma fã! Ai, que legal!
A última vez que você sorriu assim foi ontem na cachoeira.
Meu sorriso se fecha sozinho. Não era pra você ter chorado, Yoongi!
— Ela nem deve ter percebido por causa da água, relaxa! — sussurro, sacudindo os ombros.
— GATINHO!
Lali corre na minha direção.
Paraliso.
— Cê não vai mesmo dizer onde a gente vai? Por quê? Eu preciso saber pra me arrumar!
Talvez seja porque eu também não faço ideia!
— É… é surpresa!
Lali beija minha bochecha.
— Hum, é o seu namorado, Tia Lali? — a garotinha ri, apontando pra nós com o queixo.
Lali fica vermelha.
Coloco a mão nos bolsos, mais vermelho ainda.
— Tenho que atender minha fã, gatinho! Até daqui a pouco!
Pra quê eu fui inventar que era um encontro?
Ela deve tá achando que eu vou me entupir de glitter, que vou soltar fogos de artifício com os nossos nomes ou costurar um colete do Fluminense pra ela!
Caminho devagar até meu refúgio. Tá, tá: além de gostar de laranja, rock e costurar… o quê mais eu sei dela que possa ser útil?
Me jogo no sofá e grudo o olhar nas camélias.
— Dançar! Isso! Ela gosta de dançar. E dança mal. Não Mal demais, misericórdia! Mas o sorriso dela fica bonito quando ela sorri dançando, fica bonito até quando ela desafina e—
Alguém pula do meu lado. — Cê tava falando sozinho?
— Que susto, Jimin puta que pariu!
— É. Você tava!
— Claro que não!
— Tendi.
— Que foi? Cê tá todo sério.
— Preocupado, Yoongi. Minha mãe até hoje não mandou um pedreiro pra pia da recepção.
— Não? Estranho…
— Demais. Já faz dois dias que a gente tá tendo que usar a da cozinha. Não aguento mais vir na sua toca!
— Talvez ela só esteja ocupada, Jimin. Ou…
— Tá. Eu sei que ela deve tá namorando, mas, eu sinto que talvez tem mais alguma cois—
— Ih, lá vem a paranoia! É o quê agora?
— Paranoia, não, Yoongi! Ela nunca fez isso! E se a memória dela tiver mesmo ruim? E se ela tiver doente?
Bocejo. — Relaxa. Se ela não mandar o dinheiro até terça, eu vou dar um jeito.
— Anda logo porque vai ser o último turno da Alice e eu quero que ela tenha tudo do bom e do melhor.
Solto o ar. — Então tá.
Jimin vira de lado no sofá, cruzando as pernas. — Mas aqui! Você e a Lali realmente foram picados pelo maribondo da putaria, hein?
Estapeio a testa dele. — Cala a boca!
— Cê acha mesmo que eu não vi vocês se pegando na cachoeira, mano?
Jimin abafa a risada e boceja, se espreguiçando. — Ai, ai, eu sabia, né? Te falei que eu vi esse filme mil vezes!
— Tomara que esse não tenha um fim triste.
— Quanto pessimismo, mano! É só você dar play várias vezes!
Faço uma careta. — Você tá sendo otimista demais.
— Tenta ver pelo lado positivo: vocês têm gostos em comum e—
— Que gostos?
— Comida?
— É. Você tem um ponto.
— E os dois são muito insistentes quando gostam de alguma coisa. Se você realmente gosta dela, então vai com tudo.
— Com tudo? Cê tá…
— Isso. Pede ela em namoro logo, e lembra que mulher gosta de flor e de chocolate. E anel.
— Valeu pelo conselho que eu não pedi.
— Cê não entendeu que eu quero que cê saia logo dessa seca, meu filho? Tá sem transar tem quase 1 ano! Tá só o pó da rabiola, criando teias, subindo pelas paredes, todo enferrujado, todo largad—
Finjo enforcar seu pescoço e Jimin engasga com o ar.
— SOME!
Ele desvia da almofada e me joga um beijo.
— Yoongi, cê pode até achar que eu tô blefando, mas… eu quero muito que você seja feliz!
Cruzo os braços. — Ah, não! Vai começar?
Ele limpa os olhos e se aproxima da saída do corredor.
— É sério. Seja feliz. Por mim e pela Lali. Que vocês sejam muito felizes.
— V-valeu.
— Mesmo se eu não tiver mais aqui, quero conhecer os filhos de vocês nem que seja por videochamada!
— Filhos? Pera… cê vai embora também?
Jimin murmura “tisc”. — Tomara que essas crianças puxem ela porque você é mó feinho!
Acerto uma almofada nele. — Vaza, estrupício!
— Mas cê precisa começar logo a agir, né? Senão essas crianças vão ser nascer só em 2049, e eu preciso ser tio logo!
— Q-Quê?
— Ah, e me chamar pra ser padrinho do casamento!
— Vagabundo! — Gargalho, balançando a cabeça. — Eu vou precisar usar a área de estudos. Não traz ninguém aqui, pelo amor de Deus! Em hipótese nenhuma!
Ele passa a língua pelos lábios. — Tendi. Senhor, chegou o dia! Que bom que eu não morri antes de testemunhar a volta do meu garoto! Finalmente! Agora vai!
Minha cara arde. — Ah, moleque, some daqui! ANDA!
A lapela dele apita.
Jogo várias almofadas pro alto e finjo pegar impulso pra acertar um Dollyo-chagi nele, mas Jimin desvia e desaparece corredor afora.
Talvez ele tenha razão. Preciso ir com tudo e mostrar pra ela o que eu quero. Talvez…
Me mexo de um lado pro outro.
— ISSO!
Depois de comprar os ingredientes, tento seguir a receita à risca. Minha testa sua frio com tanta gente entrando e saindo da cozinha. Deve ser a forma. Não, deve ser o mascarpone! Merda! Acho que eu joguei demais!
Tenho certeza que alguns hóspedes são italianos pela cara que fazem quando eu molho os biscoitos champagne no café. Mas não é assim que faz?
Credo!
Isso tá horrível!
Vai matar a gente!
A Lali vai se engasgar e rir da minha cara!
E a gente nunca mais vai se ver!
Parabéns, Yoongi!
Que droga!
5 horas depois, retiro o refratário da geladeira devagar e polvilho cacau na tigela.
Era pra ser mole desse jeito?
Respiro fundo e faço os pedidos no iFood, incluindo as flores.
Um anel seria demais, né?
Melhor não!
Vai que ela diz não.
Eu não vou saber onde enfiar a cara.
Com uma flor a humilhação vai ser menor.
Quando chego no meu refúgio, ativo o aspirador de pó.
Passo pano.
Cubro o chão com almofadas em círculos.
Guardo meus livros no armário.
Ajeito o ângulo do notebook e da TV.
— Ótimo. Assim ela não precisa mexer muito o pescoço.
Espano a mesa e a forro com uma manta quadriculada.
— Meio brega, mas dá pro gasto.
Ajeito as tigelas na mesa.
— Isso. Tteokbokki, kimbap, mandu e hotteok… Ok.
— Margherita, lasanha e nhoque… Ok.
Posiciono as garrafas de vinho e de soju ao redor dos banchans.
Reajusto o caimento das cortinas.
Dobro as cobertas.
Solto a playlist de rock acústico de fundo.
— Ufa! É três horas ainda!
Mordo o canto da boca e bato os dedos na calça.
A piscina e o jardim aparecem na beirada das cortinas.
Os pisca-piscas parecem mais dourados do que eu gostaria.
E o buquê pequeno demais. Merda, eu não era pra ter ido na onda daquele post! Acho que ela nem gosta de roxo! E…
Suspiro. — É. Exagerei. Tá horrível! Mas tomara que funcione!
Tomo um banho e faço o meu resquício de barba.
Visto meu conjunto de moletom azul.
Passo perfume.
Coloco o relógio.
Mais perfume.
Penteio o cabelo e calço os mocassins.
Passo mais perfume.
Faço uma careta. — Exagerei mesmo!
Volto pro meu refúgio.
“Pode vir, Lali.”
Ela vai achar essa decoração brega, dizer que eu sou fofo, me beijar, depois me puxar pra dançar e beijar de novo e de novo.
E eu vou ficar parado que nem um idiota. Pra variar.
Quando meu coração já não dá mais sinal nenhum, passos se aproximam e um perfume de melancia e limão se espalha pelo ar.
Puta. Que. Pariu!
O vestido dela balança quando ela chega perto de mim, roxo num tom quase branco, parece feito de seda, longo, cheio de rendas, com as costas abertas, estampa de flores e alças finas. O sapato dela é meio transparente, fino e com um bloco esquisito. Deve ser desconfortável, mas ela sorri o tempo todo.
Ela cheira o buquê de girassóis e lavandas e grita:
— AH! Que lindo! Quanta cor e… quanta comida! Uau! Aqui dentro parece que tá de noite! E tá quente! Lá fora tá o maior frio, sabia? E que cheiro bom, hein? Isso é lavanda e girassol! Ah! Pro nosso casamento? E por acaso… esse álbum é aquele que o Airbag lançou essa semana? Como cê sabia que eu gosto de rock argentino?
Mal tenho tempo pra responder. Ela tira foto de tudo, olha cada centímetro do meu rosto e me beija na bochecha várias vezes.
Tudo que eu faço é rir.
Piscar.
Sorrir.
Ela joga almofadas pro alto, dança no compasso errado e mexe nos piscas-piscas, se pendura na janela pra ver as camélias e a piscina e bebe um gole de soju.
Dança de novo. Gira de novo. Fica com o cabelo todo arrepiado.
E me abraça.
— P-pode sentar… — Coço a nuca.
Lali joga as sandálias no canto e se senta numa almofada de frente pra mim, brincando com o dedão do meu pé por debaixo da mesa e fazendo cócegas no meu calcanhar.
— Ai, Lali, que pé gelado!
Minha primeira reação é me afastar rir, mas ela se aproxima de novo, debruça um braço no meu ombro pra pegar mais vinho e derruba a bandeja de kimbap.
Dou um mini salto na almofada. — Cuidado!
— Nossa, gatinho, quando você me chamou pro seu quartinho de estudos, eu já tava pronta pra aprender trigonometria, mas você ar-ra-sou na decoração!
Respiro fundo. — Q-que bom que você acha isso…
Lali come uma garfada enorme do nhoque, e eu não seguro a risada.
— Quanto deu essa brincadeira?
— Quase 350 reais.
— P-Pra quê tudo isso? Fala a verdade: cê tava querendo me impressionar, não tava?
Desvio o olhar pra bandeja de hotteok. — Nossa! Isso aqui é bom demais, eles acertaram muito na canela, tá muito crocante e—
Lali me dá um selinho.
Acabo rindo, e meus ombros distensionam um pouco.
— Brigada, gatinho!
— Cê… gostou mesmo?
Lali termina de cortar uma fatia de lasanha. — Eu amei!
Solto o ar. — Que bom. Achei que eu tinha exagerado.
— Ih, que nada: eu aguento muito mais!
Rio. — Cuidado pra você não passar mal!
— Olha só que maravilha: assim você pode me salvar de novo! Qualquer coisa a gente coloca o que sobrar de marmita pra semana toda!
Minha cara pega fogo. — E-eu não tinha pensado nisso…
— Ah, pensei que essa era a ideia…
— N-não era não…
Lali pisca. — Mas deu certo, né? Assim cê me ajuda a economizar!
— Eu ainda não me acostumei com isso.
— Com o quê?
Com você. Com tudo!
Por que só eu tô tremendo?
Entrelaço nossos dedos devagar. — Ficar assim… desse jeito… com alguém.
— Já eu me acostumei rapidinho! Inclusive para de sorrir pra mim desse jeito!
Rio pelo nariz. — Te assusta?
— Não, é porque assim eu vou me apaixonar ainda mais, amor!
Amor?
Meu sorriso se abre sozinho.
Escondo o rosto na curva do pescoço dela.
— E para de me cheirar, Yoongi, senão eu vou ficar te beijando toda hora!
Cheiro o cabelo dela novo. — Mas… você tá linda e cheirosa, e eu… tenho que ficar longe de você?
Meu estômago revira quando ela roça o nariz contra o meu.
— Ai, fala linda de novo!
— Linda.
— Lindo.
O olhar dela trava na tigela vermelha. — Ah, eu não tinha visto: cê comprou tiramisù também? Brigada!
— Na verdade, esse eu fiz…
— F-fez?
— É… você tinha dito que te lembrava do seu pai e—
Lali me beija, beija, beija com gosto de soju.
E fura meu raciocínio.
Que se dane o que que eu ia dizer!
Eu só deixo, deixo, deixo.
Faz frio. Faz calor. Faz meu corpo tremer todinho que nem um frango, um idiota, uma pessoa que eu não conheço.
Meu estômago dói tanto que eu me questiono se isso são borboletas mesmo ou se só uma gastrite não-diagnosticada.
É melhor eu parar!
Ir pro meu quarto e dormir por umas 367 horas.
Preciso ficar sozinho!
Me controlar!
A gente se inclina um na direção do outro e bate os cotovelos. Lali tenta me ajudar, mas rola pelo tapete até cair do lado de uma montanha de almofadas.
Merda. Eu quero ficar aqui! Tinha esquecido de como ficar assim era bom!
Igual filme.
FILME!
Passo o braço em volta dos ombros dela. — É… bora assistir Star Wars?
— Ah, não, gatinho, eu não quero ver filme: é muito chato, me dá sono!
Lali sorri contra o meu peito.
Perco o tempo de soltar uma piada sobre eu não ser o motivo do sono dela dessa vez.
As batidas do meu coração estão tão altas que eu fico a um fio de desbloquear meu celular e marcar um eletrocardiograma com o meu pai.
— Eu quero ficar aqui. Assim.
— E-então tá bom…
Os olhos dela parecem enormes, com um brilho diferente, como se ela tivesse me esperando fazer alguma coisa, analisando cada ângulo do meu rosto.
Fecho os olhos. Lali passa a ponta dos dedos pelas minhas bochechas e gruda as nossas testas.
— Gatinho, sabia que eu poderia ficar aqui admirando o seu sorriso… por tipo… por uma eternidade?
— Uma eternidade, é?
— Não, pode ser só hoje mesmo!
Lali me puxa pra dançar. Não penso em mais nada quando ela gargalha perto do meu ouvido e dança comigo da forma mais ridícula do mundo.
Tudo parece quente, perto e real demais.
Lali coloca uma almofada no chão, senta de costas pra mim e puxa meus braços ao redor do pescoço dela, levantando a cabeça pra me beijar a cada dois segundos.
Não respiro, nem falo nada, só continuo sorrindo.
— Por que você não foi pra Coreia nas férias ao invés de Curitiba?
— Sei lá. Não é a minha prioridade. Quero explorar mais o Brasil por agora.
— Entendi, mas você já foi pra Coreia?
— Eu ia todo ano até fazer 7 anos.
— Por que você parou?
— Porque é caro.
— Ué, mas seus pais não são médicos?
— Justamente por isso. Não queria ter que ouvir eles reclamando que tavam gastando dinheiro comigo. Fora que os meus tios e os meus avós já vêm pro Brasil todo ano, então eu não preciso ir pra lá.
— V-você tem avós?
— Tenho…
— Tendi…
Meu olhar trava no notebook, e eu puxo a corda do moletom.
Lali toma um gole de vinho.
A playlist do Airbag parece mais alta do que o normal.
— Ah! Bajos Instintos! Essa é a minha favorita deles!
Lali desafina do começo ao fim e eu rio, mexendo a cabeça e comendo um pouco do tiramisù. Até que não ficou tão ruim!
— Gatinho… cê acha que a sua família ia gostar de mim?
Impeço o engasgo, tomando um gole de vinho.
— Eu… sei lá… é… então eu… eu não sei direito…
Lali dá uma garfada na lasanha.
Eles iam perguntar porquê cê só usa laranja… e fala gritando… e mexendo as mãos… e
…quem são os seus pais.
— C-Cê nunca namorou sério na vida?
— Qual desastre você quer saber primeiro: o de 13 ou o de 18?
— Tanto faz.
O primeiro flash me faz rir: nossos uniformes azuis e o cabelo cacheado dela: vermelho, partido no meio e com cheiro de morango.
— Minha primeira “namorada” era uma garota que ia muito mal em matemática… ela disse que ia me beijar se eu ajudasse ela a passar de ano…
Demorei pra sacar que eu ia servir de calculadora.
Lali se senta de lado, com uma mão no queixo. Quase me distraio com os lábios dela, mas volto a comer um pedaço de hotteok.
— E aí, ela me beijou…
Nossos aparelhos batendo…
O gosto de picolé de graviola na língua…
A cara de nojo da Amanda…
Meu estômago revira.
— …e no dia que a gente saiu de mãos dadas pela escola com pulseiras combinando, todo mundo da escola riu. Aí ela nunca mais olhou na minha cara.
Lali franze as sobrancelhas.
Rio pelo nariz.
— Nossa, que… que menininha ridícula! Ela não sabia o que tava perdendo! Mas que bom: agora eu posso beijar meu gatinho a hora que eu quiser!
Meu. Gatinho.
Lali me dá vários selinhos depressa, mas é o suficiente pro meu peito doer.
— E… a outra…
Jennifer.
Respiro forte. Só a imagem dos olhos claros dela e o cabelo loiro platinado me dá um calafrio.
Demorei pra perceber que tinha virado carteira.
— Foi uma garota da Vila Dorata… Acho que durou tipo um mês.
— Só isso? Quê mais?
— Ah…
O Jimin odeia ela até hoje.
— Ela te traiu?
— Não. Eu descobri que ela tava comigo só por conveniência, aí eu terminei.
— Conveniência? Como assim “conveniência”?
— Ela fazia faculdade de psicologia e queria que eu pagasse até a tosa da Yorkshire dela.
Lali arregala os olhos.
— E… eu pagava tudo. Saía com ela todo final de semana até descobrir que ela me apresentava pras amigas como o “namorado obediente” dela.
Lali faz uma careta. — Comigo nunca aconteceria isso.
— Acho que é porque você não é coreana.
— Deixa eu terminar minha piada!
Levanto as mãos. — Termina.
— Eu ia dizer que nunca ninguém iria me namorar só porque eu sou “fofinha”. Eu sou muito mais que isso: linda, maravilhosa e inteligente! Fala a verdade: meu beijo não é o melhor da cidade?
Engasgo com o ar. — N-não sei. Eu teria que experimentar todos pra ter certeza.
Lali semicerra os olhos. — Ah, é, mesmo?
— É que—
— Cê tá atirado, hein?
— Mas eu tenho pavor de germes.
Tá, Yoongi. Você já foi esquisito o suficiente por hoje. Agora chega!
Lali joga a cabeça pra trás e solta uma risada ainda mais esquisita do que a minha. — Você não existe, gatinho! É por isso que eu gosto tanto de você!
— Sinto muito.
— Por que você sempre fala isso?
Minha boca se abre, mas não sai som.
Lali fica vermelha, brincando com o cordão do meu moletom.
— Com qual… das duas você perdeu a virgindade?
Arregalo os olhos. — É…
— Exagerei, né? Não fala se você não quiser…
— Com a segunda…
— E… foi ruim?
— Eu não lembro direito, mas… Não foi tão legal…
Lali junta as mãos debaixo do queixo. — Tendi… Foi… só com ela?
— Não.
Lali joga o cabelo de lado e abraça os cotovelos. — Tendi… Então você já viveu muito. Até mais do que eu.
Bebo mais um gole de soju.
— E ela… era mais bonita que eu?
N-não!
— Não!
— Beijava melhor que eu?
— Não!
Lali encurta o espaço entre os nossos rostos e encara minha boca.
— Você já ficou desse jeito — ela sussurra —, com alguma outra garota?
Engulo a saliva, balançando a cabeça.
— Menos mal… Eu… eu nunca senti isso com mais ninguém, gatinho… nem com o Leo…
Disfarço o sorriso com mais um gole de soju. — Como foi lá com a sua fã?
— Foi tu-do! Cê acredita que eu tenho até um fã clube?
— Sério?
— Sim! Tinha tipo umas 5 menininhas me esperando na salinha de jogos, elas deviam ter uns 10 anos no máximo! Elas tudo tinham ursinhos de pelúcia e queriam aprender a costurar… Elas falaram que eu… que eu sou a inspiração delas!
Abro um sorriso.
— …eu sou tipo a Avril Lavigne pra elas, Yoongi! Eu me senti foda!
Rio contra o ombro dela. — Você só não pode cantar, senão vai espantar elas!
— Sai, garoto, eu canto melhor que você!
— Pior que canta mesmo…
Lali faz bico. — Ainda bem que você sabe!
A gente ri ao mesmo tempo.
— Quer jogar videogame?
Lali se levanta. — Quê?
— Tudo bem se não for sua vibe.
— Bora, agora! Eu vou acabar com você!
— Acho melhor você não cantar vitória antes da hora!
Ligo o Kinect. Ganho dela no boliche, no futebol, no vôlei de praia e até no atletismo.
— Não valeu!
— Não valeu de novo!
— Desisto!
Nos jogamos no sofá.
— Como você é tão bom nisso?
— Quando eu era criança, chegava da escola e ia direto jogar nos meus 30 minutos livres antes de ir pro Kumon.
— Kumon? Você… fazia Kumon? Uau!
Respiro fundo, balançando a cabeça.
— O bom é que agora a gente pode jogar junto, gatinho! Eu vou me vingar de você!
— Então você quer revanche, gatinha?
Lali e eu congelamos.
— Ai, amei, fala de novo!
Ela sacode os meus ombros.
Quando ela se afasta, seus olhos estão brilhando. — Eu quero ver é você ganhar de mim agora!
Lali corre, corre, corre.
Tento acompanhar seus passos pelo jardim, mas os joelhos dela parecem feitos de pregos na grama.
O sol está se pondo, e o céu está meio nublado, meio laranja, meio roxo.
Está frio.
Mas a gente corre tanto que dá até calor de novo.
— Calma, gatinho!
Ela põe a língua pra fora e finge estar sem ar, me deixa avançar e deslancha um segundo depois.
— Ei!
Lali sinaliza “banana pra você”, dá uma cotovelada no ar e seus cabelos voltam a voar.
Quando entramos no Solaris, minhas mãos estão tremendo.
— Te falei que eu era foda: eu ganhava de todo mundo na Casa Jovem!
Abro a porta do meu quarto. Lali desliza os olhos pelas cortinas, pelas camélias amarelas na janela e pro Duri dormindo de barriga pra cima na cama.
Depois de ligar o ar-condicionado, Lali me puxa pra deitarmos no chão com vista pras rachaduras no teto. Eu devia pedir dinheiro pra Sra. Park consertar isso.
— Gatinho… esqueci de te perguntar: o que você mais gostou na sua viagem arquitetônica?
Antes que eu a responda, Lali sinaliza “pare”.
— Às vezes eu esqueço que é com você que eu tô falando, né? É mais fácil eu te perguntar o que você não gostou!
Uma risada escapa de mim. — Como você me deixa mal!
Ela me dá um selinho. — Agora você vai ficar bem.
Nós dois ficamos vermelhos.
— É… pelo menos eu assumo que sou amargurado. Deve ser por isso que eu ainda tenho cabelo!
— Não entendi. Isso é uma gíria?
— Não, é que—
Ela se distrai com o Duri ronronando no lençol.
— Nosso filho não é fofo?
— Filho? Ele é no máximo seu conhecido.
— Cê tá com ciúmes do seu gatinho?
— Eu não tenho ciúmes de nada e nem de ninguém, já te falei.
— Sei…
Coloco as mãos embaixo da cabeça e me viro de lado pra ela.
Lali apoia o peso do corpo em mim.
— C-cê tá me esmagando!
— D-desculpa!
Enquanto passa os dedos pelo meu cabelo, bochechas e costas, Lali olha o tempo todo pra minha boca.
Desvio o olhar pro tapete.
— Me empresta seu celular, gatinho?
— P-pra quê?
— Posso ver suas fotos?
— Pra quê?
Lali bufa. — Eu quero ver se tem fotos de quando você era criança!
— Ainda não entendi pra quê.
— Pra ver como você era!
— Esquisito.
Lali revira os olhos e me estende as mãos. Desbloqueio o celular e o entrego pra ela, apertando os olhos. Eu sou muito idiota por aceitar isso!
— Ai, que fofo! Você usava franjinha cogumelo!
— Sim. Esse é o famoso corte esconde-testas.
Ela ri. — Aqui cê tinha quantos anos?
— 13.
— Você ia ser meu crush!
Lali beija meu queixo e eu sorrio.
— Queria te mostrar minhas fotos também… pena que ficou tudo no carro…
Toco a mão dela. — Eu sei.
Antes que eu a abrace, ela solta:
— Você ia ver como eu era linda! Eu também ia ser sua crush, tenho certeza!
— Cê já chamava todo mundo de gato naquela época?
— Cê tá com ciúmes?
— Já te falei que eu não sinto essas coisas. Só tava perguntando por curiosidade mesmo.
— Eu chamava o Leo de pirralho.
— Tendi.
— Queria ir lá um dia — ela sussurra, me abraçando por trás e entrelaçando nossos dedos.
— Na Casa Jovem?
— Isso!
Bocejo. — Pra quê?
— Sei lá… só me deu vontade…
— Me avisa o dia…
— Você vai mesmo?
— Vou.
Lali dá um pulo. — Ah, lembrei!
Ela some pelo corredor.
Me sento, balançando a cabeça.
A gente vai costurar um macaquinho pra Jonas, vai pintar o mural do Solaris de laranja ou vai ficar tirando foto fazendo dedo?
Reviro os olhos, rindo.
Lali volta com um tabuleiro de damas. — Esses dias eu achei isso no meu quarto, nem sabia que tinha!
— Sim, tem alguns jogos perdidos… E pelo visto você tá querendo perder mais uma partida, né?
— Ai, ai, meu querido, quem acabou de ser massacrado na corrida foi você!
— Mas com esse joelho de ferro também… eu nunca tive chance!
Lali me segura pelas bochechas e me beija no canto da boca. — Eu era uma criança atentada.
Meu estômago ferve. — Você é uma adulta atentada.
Lali recua um passo.
Nos sentamos de frente um pro outro. É mais fácil do que eu pensava, e Lali só falta arrancar os cabelos a cada jogada perdida.
— Acho que tem alguém perdendo — eu a provoco.
Lali se apoia nos joelhos e se aproxima do meu ouvido.
Meu pescoço se arrepia.
— Adivinha quem? — ela sussurra.
— Isso é roubo.
Não sei se o olhar dela é de raiva ou se é só seu lado irritante crescendo, mas me faz mover a próxima peça pro lado errado.
Lali avança a peça e bate palmas.
— Nossa, como é bom ganhar de lavada! Xeque-mate!
— Xeque-mate é no xadrez.
— Não estraga a brincadeira, garoto!
Estendo as mãos.
— Agora vem cá e me dá meu prêmio, gatinho!
Engasgo com o ar. — P-parabéns.
Lali me puxa pela nuca e morde meu queixo.
— Hum, que prêmio gostoso, você só tá ficando cada vez mais lindo!
Minha cara arde, mas eu rio. — Já eu achei esse prêmio… meio sem graça…
Lali estala a língua. — Ah, é?
Ela pula em cima de mim. Não tenho tempo nem de respirar, e caio com tudo no chão.
Ela continua me beijando e rindo. Rindo e beijando.
E eu só sorrio, segurando a cintura dela e a beijando de volta.
— Deita aqui do meu lado, gatinho! — Lali pula no sofá.
Corrijo a postura.
— E se o Jimin entra aqui e vê a gente?
— Ninguém vai ver nada! — Ela para de piscar. — Você por acaso tá com vergonha de mim?
— Não, claro que não! Só não quero que ninguém fique incomodando a gente!
— Cê só tem coragem quando não tem ninguém olhando, né? Vai ficar comigo só no off?
Bufo. — Você tá exagerando.
— Então arruma uma garota menos exagerada pra ficar com você que o seu problema acaba rapidinho, Yoongi!
Deslizo o corpo até o sofá. Lali finge não ter me visto e se senta com a postura reta, olhando pra janela e se balançando com as mãos nos joelhos.
Seguro a risada e a puxo pela cintura pra se deitar comigo.
Droga. Travo a respiração e cada músculo do corpo. Lali se aninha no meu peito e coloca minhas mãos no couro cabeludo dela.
— Cê tá respirando? — Ela ri.
— T-tô.
— Tá, então agora dorme, gatinho! E sonha comigo! Se bem que, você já tá realizando seu sonho de ficar perto de mim, né?
Rio. — Eu não acredito que a gente tá fazendo isso!
— Parece um sonho ficar assim… dormir de conchinha com o meu gatinho emburrado!
Rio de novo.
— Como eu gosto de ficar assim com você! Cê não faz ideia do quanto…
— A-ah… Se for tanto quanto eu gosto… acho que eu tenho uma noçãozinha…
Lali enrola a perna na minha e tenta me fazer cosquinhas. Não me mexo. Ela se vira pra mim e ri.
Se vira de costas de novo.
De frente.
Enrola nossas pernas.
Desenrola.
Entorta o pescoço.
E eu gargalho.
— Não acredito que a gente tá aqui junto, gatinho.
— Nem eu, gatinha.
— Você falou tanto que sonhar é bom, mas viver é melhor, Yoongi. Isso é viver. Agora você me entende? Me fala: o que você quer fazer agora?
Perco o ar.
Isso… isso é errado!
Errado pra caralho!
Você vai embora e eu vou ficar aqui igual um idiota!
INFERNO!
Foda-se, Yoongi! Foda-se!
— Ficar aqui — o sussurro escapa de mim —, ficar aqui com você… a noite toda…
— Então fica, gatinho.
Meu coração dói nas costelas, como se todas as borboletas abrissem as asas e me jogassem de cima de uma montanha-russa. É uma sensação ridícula. De repente, tenho 14 anos. Não sou mais eu.
Lali me beija.
E apaga minha mente por horas.
— Agora eu vou passar o dia cheirando à gato, tomara que nenhum cachorro tente me morder!
— Como você é besta!
— E você é lindo… cheiroso demais!
Ela morde minhas bochechas. A ardência é leve, mas me faz arregalar os olhos e me distanciar dela.
— LALI!
Ela ri, fazendo cosquinha no meu pescoço com o nariz. — Vai fazer o quê, Yoongi?
Mantenho o olhar fixo na bochecha dela. — Nada.
Ela bufa.
Mordo a bochecha dela de leve.
Faço cócegas nela.
Lali joga a cabeça pra trás. — Gatinho! Para!
Caímos um do lado do outro.
— Eu sempre quis saber como era ter um namorado. Brigada por me dar uma amostra-grátis.
Congelo. — N-namorado?
Lali esconde o rosto no meu peito.
Meu estômago ferve.
Namorado.
Namorado!
Namorado?
Talvez eu devia ter comprado o anel.
Ela… ela ia dizer sim!
Sim.
Sim.
Sim!
O celular dela apita.
Lali salta.
Minhas mãos deslizam pra fora da cintura dela.
Sem piscar, ela grita “Ai meu Deus!” e sai do quarto.
A cama fica gelada.
Minutos depois, ela volta com uma mochila, um moletom roxo e o cabelo preso de qualquer jeito.
— Lali?
— Merda, eu esqueci o cartão! Peraí!
Eu a seguro pelos ombros. — Respira. Que que tá acontecendo?
Lali me entrega o celular, mordendo a unha.
“Olá, Lali,
Hoje é o último dia para dar a entrada nos processos de junho. Somente HOJE, está saindo a R$1578,67. A partir de agosto, retornaremos ao valor original! NÃO FIQUE DE FORA!
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Abaixo, deixaremos nosso telefone, e-mail e endereço!”
Fecho os olhos.
Lali pega o celular e o guarda no bolso. — Preciso ir lá resolver isso agora! AGORA! Eu vou… eu vou na rodoviária comprar uma passagem pra São Paulo! Vem comigo! Se eu chegar cedo, dá tempo de negociar com eles e explicar que eu não tenho o dinheiro todo e talvez eles entendam a minha situação e—
— Quê? — Respiro fundo. — Você pelo menos checou se essa agência é de verdade?
— Sim! Têm vários relatos de gente satisfeita no perfil deles!
— Como você sabe se não é comprado?
— Comprado?
— Você conferiu o CNPJ?
— N-não!
— Então como você sabe se eles…
Coço os ombros. — Pelo amor de Deus, Lali! Por que eles tão te cobrando sem nem ter feito a pesquisa genealógica? Isso não faz sentido nenhum!
— Gatinho, eu não posso perder essa chance!
— Você não vai perder nada porque eles tão mentindo!
— Como você tem tanta certeza?
— Sei lá.
— Ah, se eu for te explicar… Você vai ficar ainda mais confusa! Eu nem sei por onde começar
— Então nem começa!
— Eu… eu só… sinto!
— Só “sente”?
— Não tá óbvio? Presta atenção, Lali: isso tem cara de golpe!
— E como eu vou saber se você tá falando a verdade?
— Você não entende, Lali? Eu não quero que você se ferre!
— Não, Yoongi, você é que não me entende: você so tá querendo me fazer sentir culpada!
— Culpada?
— Sim! Isso tudo é porque você não quer que eu vá embora, né? Você… você é um mimado! Egoísta!
Abro a boca. — Egoísta?
— Sim!
— Em que momento eu tentei fazer você se sentir culpada?
— O tempo todo!
— Eu só tava tentando avisar que você pode acabar tomando um golpe!
— Eu só quero que… que você vá comigo, Yoongi! Bora! Preciso ir!
— Lali… quando cê faz isso… é como se eu… fosse invisível! Como se eu não fosse importante pra você!
Ela fecha os punhos.
— Pode até parecer que eu não me importo com você, mas eu me importo! Me importo sim! Me importo muito! Você não entende o quanto eu gosto de você e o quanto tá me matando por dentro te ajudar mesmo sabendo que você pode largar tudo do nada? Eu pensei que… que você tinha certeza que ia ficar aqui! Eu… Meu Deus, como eu sou idiota!
Lali soluça. — Yoongi, se eu não conseguir tirar essa cidadania logo, eu vou perder tudo! Tu-do!
— Tudo o quê? O que você tem?
— Como é que é?
Passo a mão pela boca. MERDA!
— Lali, eu…
— Tinha esquecido que gatinhos arranham.
Os olhos cheios de lágrimas dela me paralisam. Num impulso, eu a abraço pelo pescoço e ela me puxa pela cintura, soluçando.
Meu peito bate contra o dela.
— E-eu… eu sou muito burra por te deixar me abraçar assim tão fácil!
— Eu não quis falar mal de voc—
Lali levanta a cabeça.
— Você tem uma vida perfeita, né? Você tem tudo!
Dou um passo pra trás e coloco as mãos nos bolsos.
— Claro. Você convive comigo desde que eu tinha seis anos pra tá falando isso!
— Você—
— Melhor a gente parar por aqui, Lali! Preciso descansar!
— Eu sei, eu deixo todo mundo cansado da minha cara!
Seguro as mãos dela. — Por favor, Lali! Me deixa descansar hoje. Dorme um pouco! Vai ser melhor esfriar a cabeça, depois a gente conversa!
— Melhor mesmo! Eu não quero mais saber de você! Você disse que ia me ajudar e agora fica aí me atrapalhando!
Fecho os olhos. Tomara que dê tudo de ruim com essa agência! Talvez quebrando a cara voc—
Aperto meu couro cabeludo. Ah, que merda! Isso foi horrível!
— Você pode me achar maluca, mas e se eu acordo amanhã e não tem mais como eu fazer o que eu quero?
— E se você perder tudo?
— Não foi você que falou que eu não tinha nada?
— Eu me expressei mal! Eu quis dizer que você não tinha falado com eles ainda! Sem garantia nenhuma, o que você ia perder?
— Então… V-você… não vai me ajudar? Você prometeu que ia me ajudar com a cidadania!
Estendo os braços. — Desculpa, eu mas não vou entrar nessa furada!
Lali me impede de sair, me segurando pelos ombros com os olhos marejados.
— Você não pode me impedir!
Fecho os olhos. — Se você quer ir, vai!
— Vai?
— Sim! Vai resolver a sua vida, Lali!
— E-eu pensei que—
— Eu não vou ficar no meio. Tchau, Lali.
— Você é a distração mais linda do mundo!
Me afasto devagar. — É sério, Lali! Tchau!
Ela faz bico. — Tchau?
— Depois a gente se fala.
Lali limpa o rosto com a manga do meu moletom e para na porta.
— Finge que isso nunca aconteceu, tá?
Mexo as sobrancelhas.
— Se você contar pra alguém que a gente tava ficando, eu nego, Yoongi! Nego pra sempre! Eu nego! NEGO!
Lali calça minhas Havaianas. — Depois eu devolvo!
Travo os ombros.
Ela bate a porta. — ARGH! Esse garoto é um ridículo! Um ri-dí-cu-lo! Quem ele pensa que é pra me deixar com a cabeça toda lascada assim e viver como se nada tivesse acontecido?
Rio pelo nariz. Cê tá falando sozinha?
Uma risada ecoa.
Um cochicho.
Um suspiro.
— Ah, sai da minha frente, gringa! E você também!
É. Tá!
— AH! Ele não tem direito de mexer com os meus sentimentos, de me deixar abalada desse jeito, de sequer mexer um músculo pra tentar me ajudar! E ainda por cima teve a cara de pau de me chamar de gatinha! Vê se pode uma palhaçada dessas!
Ahn?
— Ele… ele é só mais um brasileiro no meio de um monte de gringo gato! Se eu balançar uma árvore vai cair uns 50 cem vezes mais bonitos que ele! Eu não vou sofrer! Me recuso! Eu vou me virar sozinha! Você vai se arrepender, seu idiota!
Meu sorriso se desfaz.
Fecho as mãos contra o peito e me jogo na cama.
O lençol e a fronha ainda estão amassados, cheios de fios dourados.
A fronha ainda está com o cheiro dela.
Ainda é o calor dela.
Fungo, esfregando a cara com o dorso da mão.
Minhas vistas embaçam. — É. Vou mesmo!
Minha língua fica salgada, meu peito sobe e desce rápido e meu queixo treme. É. A humilhação realmente foi menor, Yoongi.
Meu celular apita.
É um print e um link.
“Que isso, Jimin?”
Mexo as sobrancelhas quando ele grita no áudio, parece que está até tremendo pela intensidade.
“OLHA ISSO, YOONGI! A LALI PRECISA PROCESSAR ESSA GAROTA LOGO! ELA TEM QUE PARAR!”
É um vídeo da Kira Diniz.
“BOMBA! BOMBA! BOMBA! EX-CLU-SIVO em primeiríssima mão pra todos os meus #Kitters de plantão em Costaré: vazaram imagens das câmeras de segurança da rua em que a Lali Bergamaschi foi assaltada na noite em que roubaram o carro dela um dia depois dela sair da Casa Jovem! Isso mesmo! Aquela que fica no Centro! Segundo fontes próximas, ela era supostamente rebelde e maltratava todos os colegas do abrigo, grudava chiclete no cabelo, saía no tapa e tudo, meninas! Que bafão, né?”
Os comentários me fazem apertar os olhos e travar a mandíbula.
INGRATA DO CARALHO!
MERECE MORRER UMA PRAGA DESSAS!
SOBERBAMASCHI!
ACEITA QUE VOCÊ NÃO É CONCEITUAL E SIM CAFONA!
SEM ESTILO PRÓPRIO ESSA PLAGIAMASCHI!
“E sim, gente: o sobrenome era realmente dela! Não recebemos informações o suficiente pra ditar se ela é ou não da família Bergamaschi, mas especula-se que ela seja uma filha adotiva!”
UMA FILHA LARGADA!
QUEM VAI QUERER ESSE CHORUME?
ELA NEM É BONITA!
“Até onde se sabe, o herdeiro da família Bergamaschi morreu em meados de 2014 vítima de uma overdose de remédios, depois de ter conhecido uma prostituta no Brasil. Ele tinha fugido de Bergamo com ela, mas não se sabe se a moça realmente ficou grávida ou não!”
Aperto os dedos. — Prostituta?
ENTÃO A MÃE DELA TAMBÉM ERA PUTA?
CHOCANDO O TOTAL DE 0 PESSOAS!
ESSA LALI É SÓ MAIS UMA PIRANHINHA SEM TALENTO!
AGORA ELA VAI TER QUE SE PROSTITUIR PRA FAZER DINHEIRO!
PODIA SEGUIR O EXEMPLO DA MÃEZINHA, NE?
EU NÃO ENTRO MAIS NAQUELE HOSTEL SOLARIS!
LIXOOO!!!
DUVIDO QUE ALGUMA MARCA VAI QUERER PATROCINAR ELA!
“Por enquanto não temos provas de que a Lali seja dessa família, e não se sabe se o casal teve filhos ou não pois morreram muito jovens. A morte da mulher deu inconclusiva.”
“Não conseguimos entrar em contato com as câmeras de segurança da loja pra saber se a Lali é realmente dona do carro ou se é roubado ou ir no Detran. Infelizmente as leis desse país nos impedem de alimentar a alma fofoqueira dos meus #Kitters!”
“Enfim, pessoal: essa é a bomba de hoje! Espero que vocês tenham gostado da live e até mais!”
SUBAM A HASHTAG @BERGAMASCHITESSUTI! ELES PRECISAM SE PRONUNCIAR!
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#SUBAMAHASHTAG!
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Merda! Por que a gente tinha que ter brigado logo agora? Se ela já tava brava comigo, agora ela vai ficar triste. Desesperada!
Parabéns por ter piorado tudo, Yoongi! Você conseguiu perder a Lali! Conseguiu afastar de você a garota que você gosta no momento que ela mais precisa de você!
Bingo!
No final das contas, você tinha razão, Jimin! Não iam ser só outros caras dando em cima dela que iam me atrapalhar! Não ia ser só a Itália que ia tirar ela de mim!
Agora a culpa é minha…
Porque eu não vou ficar!
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