Anything But Ordinary
1 Morrer é o suficiente?
O CAPACETE DESPENCA DO BAÚ. Limpo a testa com o dorso da mão direita. Com a esquerda, pego a lista e releio tudo pela 12º vez.
Preciso mesmo fazer isso? Eu topei — mesmo?
Os olhos da Sra. Park brilham na minha mente.
Droga, Yoongi. Você precisa sim!
O relógio marca 22:22.
Ótimo. Eles ainda podem esperar!
Removo a poeira dos joelhos. Bato os coturnos um no outro, e a maior parte da lama gruda na calçada, respingando no couro da jaqueta. Meu cabelo reflete em uma das poças d’água, e nessa luz, está mais preto e suado do que nunca.
Enquanto ando até a porta, o letreiro da Hong’s Mart pisca com a mesma intensidade que eu. Devagar. Quase bocejando.
Não lembrava que Costaré ficava tão azul assim de noite… e tão gelada…
Os postes também quase não piscam, e o vento traz o cheiro salgado do mar.
Um Celta turquesa me faz girar os calcanhares. Luz baixa. Retrovisores imundos. Um rock horrível ressoa pelas janelas semiabertas. Uma careta escapa dos meus lábios ao imaginar um adolescente punk cheio de tatuagens na cara, moicano de arco-íris e fedor de maconha.
Quem deixa o carro no meio da estrada deserta numa terça-feira à noite?
É. Parece que alguém vai ser assaltado hoje.
Mexo os ombros. Foda-se! Não é o meu carro!
Apresso o passo e entro na Hong’s Mart. A temperatura muda, ardendo minhas bochechas.
As maçãs nas prateleiras me distraem. O aroma me deixa salivando, mas logo volto a me concentrar na lista.
Desamasso o papel.
Uma garota ruiva passa atrás de mim segurando um banana milk e um ramyeon numa cesta transparente. O vapor me obriga a recuar. Controlo a vontade de gastar o resto do salário em comida enlatada e sachês de café. Não tô afim de falir antes do vestibular.
Chacoalho a cabeça e releio a lista. Sabonete, pasta de dente, desodorante Luxyz… Abro a boca, sem som. Desodorante Luxyz? Gringos folgados! Ah, mas que novidade!
Pego os itens com a maior rapidez que existe dentro de mim e ando na direção do caixa. Por sorte, não vou precisar enfrentar fila.
— Boa noite, senhor! — a senhorinha do caixa me cumprimenta com um sorriso comercial. Ensaio outro de volta.
Aproximo o cartão.
O bip me interrompe.
— O senhor tem outro?
Inflo as bochechas. — Um momento, senhora.
Ela responde “sim” com um gesto curto. Desbloqueio o celular. “Sra. Park” surge na tela.
— Que bom que a senhora me ligou. O cartão não tá funcionando, Sra. Park. Como eu vou pagar?
— Yoongi, como você é desligado, minha criança! Deixei uns trocados na sua carteira. Dá uma olhada!
— Valeu. Chego em 10 minutos. Tomara que eles não estejam de cabelo em pé.
— Quase. Vem logo! Lembra que a gente tá apertado aqui!
Estalo a língua. — Tchau, Sra. Park.
Termino de pagar e me reverencio para a senhora do caixa.
Saio, dando de cara com a lua minguante. Agarro um dos bolsos da jaqueta. O ar gelado invade minhas narinas.
Abro o baú da moto. Passeio os olhos pela estrada. Nem sinal do Celta.
Dou de ombros.
Ahn?
Viro a cabeça.
Tem uma garota no chão.
Porra! Mas que merda! MERDA!
O gosto do calor perfura minha língua.
Esfrego os olhos com força.
O desodorante Luxyz estoura no chão.
Corro, tropeçando sobre as minhas canelas. O barulho do asfalto debaixo dos meus pés é como um grilo cantando na hora errada.
Pedras rolam.
O vento corta a carne.
Derrapo de cara.
Minha boca seca. Minha pele empalidece como nunca. As pontadas nas veias pinicam, como se fossem cobras passeando da minha nuca até pararem dentro das solas.
E eu não respiro.
Mas. Que. Merda! Merda!
A garota pressiona o abdômen com os dedos. Comprime os lábios e os olhos. Deve sentir como se alguém estivesse pisando no estômago dela. Faz caretas. Solta gemidos. Sangue. Muito sangue. O cabelo vermelho quase laranja, meio ondulado cai pelos ombros e se espalha pela montanha de suor.
Bochechas vermelhas. Molhadas de lágrimas.
Ela reclama do gosto de ferro. Do frio. Muito frio.
Meus olhos escorregam pela calçada antes de parar na mancha na calça jeans dela. Suas unhas estão banhadas de óleo. Curtas. Gastas. Com rachaduras nas pontas.
Então… essa é a garota que… tava segurando o ramyeon e o banana milk?
Pelo visto, sim.
Ela tenta alcançar algo ao lado esquerdo da cintura. Sigo o olhar dela. Uma maleta marrom-claro de tamanho médio brilha sob a luz fraca.
Quando vou ler o nome bordado no topo, a garota puxa a alça da maleta e tenta se sentar.
Seu corpo tomba pra trás.
Ela treme, contorcendo o nariz.
Franzo os lábios. — Quê isso?
Ela não me responde.
A mecha verde no meio do cabelo destoa do conjunto. Bom, pelo menos ela tentou. E errou. Errou feio.
Arrisco dizer que ela tem a minha idade. Tem uma borboleta lilás na manga da blusa rosa. Seu cabelo tampa a lapela. A calça é uma daquelas dos anos 2000 com uma abertura nos tornozelos, o que a deixa mais alta e magra, mesmo deitada.
Nem sinal do nome dela. Documento. Celular. Chaves. Relógio.
Só a maleta. E a garota.
E na minha frente, só existe essa mecha ridícula.
Uma risadinha sem humor e quase sem som foge de mim.
Só podia ser.
Ela é a dona do Celta.
Agora faz sentido.
Provavelmente, isso foi uma faca na barriga, e uma daquelas de modelo bem vagabundo que os noias usam pra roubar as senhorinhas.
E funcionou com essa garota.
Minha coluna se enverga sozinha. Meu peito endurece e meu queixo se levanta, esmagando meu raciocínio.
Tudo que eu precisava pra minha vida ficar ainda mais interessante era de uma garota patricinha metida à rebelde e ensanguentada.
A gente tá no meio da estrada deserta. Quase onze da noite. Não tem ninguém aqui. E o hospital do Centro é uns 20 minutos daqui!
Mas que inferno!
E agora? O que eu faço? Como eu tiro essa garota daqui?
A Sra. Park vai desmaiar se eu demorar demais.
A polícia vai me encher o saco, mesmo se eu fugir.
Isso não vai mudar nada na minha vida.
Eu devia ir embora!
É, eu vou embora.
Acho que não me mexo já faz uns 2 minutos.
A garota finalmente abre os olhos.
— Eu… não… quero… morrer… não… me deixa… morrer!
— Você deixou o carro parado a essa hora na parte mais vazia do bairro… Isso parece uma tentativa de ir embora mais cedo.
— Você… veio aqui… só pra… me assistir… morrer? Você é… um… monstro?
Num impulso, envolvo minhas mãos no entorno da cintura dela e ergo seu corpo. Ela treme e tropeça nos próprios tênis. Mas que merda! Lama pura.
— Sou um monstro… — digo, entre dentes. — Um monstro… um pouco humano…
Ela ri pelo nariz. — Um humano… bem… gato…
Um frio aperta meu peito. Respiro fundo.
— Você… consegue se segurar em mim?
Ela sopra “sim” e se levanta com um pulo torto.
Pé ante pé, caminhamos na direção da moto. Ela segura a maleta com a ponta dos dedos, e com a mão livre, prende minhas costelas. Dói, mas eu finjo que não.
Paramos na frente da moto, e ela sussurra “dor, muita dor…”.
Um ruído sutil atravessa meus ouvidos.
Uma foto flutua. Um polaroid manchado de fungos nas bordas.
Deixa isso pra lá, Yoongi!
— Se apoia na minha cintura! — peço, tentando agachar. A garota se aninha ainda mais em mim e não sobra espaço pra eu respirar direito. Estico uma perna e dobro metade da cintura no chão, com ela tremendo contra o meu corpo.
Seguro a foto com dificuldade, e minha boca se abre sozinha.
O Cristo Redentor brilha atrás de um casal que sorri sem mostrar os dentes. O sol ilumina a pele bronzeada e o cabelo ondulado volumoso da garota. Ela usa uma blusa floral e uma saia jeans. Deve ter uns 20 anos. O cara é loiro. Acho que tem uns 25. A camisa listrada e a calça jeans dele são meio chiques. Parece que saiu direto dos anos 80 ou 90.
Mexo as sobrancelhas. — Isso… tava no seu bolso?
A garota não me responde, resmungando “frio, frio!” outra vez.
Penso em jogar a foto fora, mas o que está escrito atrás me força a abrir a boca de novo.
— A… — sussurro —, a mia… figlia… Ti amo… B & J…?
Figlia…
Figlia…
Filha.
— Isso… isso é italiano? S-São os seus pais?
Meu estômago ferve.
Ela continua respirando pesado.
— Você é de fora? Fugitiva? Tava presa? Tem alguém atrás de você? O que… o que fizeram com você? Te bateram?
Continuo sem respostas.
E ela chora. Chora muito.
— Não… posso… morrer… antes… de… chegar… lá… me… ajuda… por… favor!
Lá onde?
Formigas passeiam pelas minhas pernas.
Se essa garota tiver matado os pais dela e eu tiver ajudado uma criminosa, acabou pra mim.
Meu peito dói.
As mãos ardem.
O ar foge.
— Ajuda… frio… respirar… morrer… dor… minha caixa… minha… caixa… leva… minha… caixa!
Merda, ela tá sangrando demais!
— Calma… calma… eu vou te tirar daqui!
Ajusto meu capacete na cabeça dela. Guardo a maleta no baú. Apoio a garota sobre a moto. Devagar. Ela cambaleia levemente e prende minha cintura com as mãos tremendo.
Lá vou eu de novo.
Mais um dia normal.
Não desgrudo os olhos da estrada, com os dedos suados sob o guidão. Ela se escora em mim cada vez mais, a cada segundo resmungando “frio, frio, frio”.
Os faróis me cegam.
Meu peito pega fogo.
E eu não respiro.
Não penso.
Quando a fachada do pronto-socorro aparece, finalmente meus ombros relaxam. Estaciono com pressa e com medo de que ela caia da moto. Fixo o olhar no retrovisor. Não sei se ela está dormindo. Se está chorando. Ou se está só respirando.
Ela murmura “respirar” sem parar enquanto eu a puxo de cima da moto — com dificuldade, mas sucesso. Por um milagre. Talvez agora eu comece a acreditar que eles existem.
Pego a maleta no baú e caminho até a recepção, com a garota ainda se escorando em mim. Nem preciso dizer nada. Um enxame de enfermeiros surge, cheirando a soro. Terrível. Pelo menos abafa o fedor de sangue dela. A levam pra longe. Pra sala de cirurgia, chuto. Não me deixam sair — preciso esperar pela polícia.
Rampas mal-feitas. Porcelanato barato. Luz velha. Quando foi a última vez que eu vim aqui? Não lembrava que era tudo tão estreito. Tão duro. Tão improvisado.
Nada aqui foi feito pra durar.
Me sento num banco gelado e deixo a maleta do lado direito. Está cheia de arranhões e detalhes dourados nas bordas. O couro deve ser de verdade.
— Ber…ga…mas…chi… — Tento ler o que está escrito no topo, em uma letra dourada no estilo de cartas antigas. Venço a curiosidade e mantenho o zíper fechado.
Evito os pensamentos por alguns segundos.
O rangido das macas furando o chão deixa minhas mãos suadas, se abrindo e fechando sozinhas.
Penso em assistir um suspense. Ler um artigo de física.
Mas me distraio com as luzes insistentes da sala de espera.
Me deito no banco. Repasso plantas, linhas e proporções no celular.
Tento. Tento. E tento de novo.
Sempre que respiro fundo ou pisco um pouco mais forte, o cabelo vermelho da garota volta. A pele pálida pegando fogo. Os olhos grandes e dourados brilhando no asfalto. O jeito de tremer. De soluçar. De puxar minha jaqueta e implorar pra viver.
Tranco a tela do celular e esfrego o rosto.
Quem é essa garota? Como ela veio parar aqui? Logo aqui? Por quê?
Já era pra eu ter chegado em casa e entregado as coisas pra Sra. Park. Aqueles franceses metidos iriam parar de reclamar.
Eu ia tá dormindo agora.
Ia acordar cedo. Revisar Newton e Platão. Tomar café. Ler um pouco. Começar meu turno.
Mas tô aqui.
E mal consigo pegar no celular!
ARGH!
Passo uma mão no cabelo. Um oceano de suor desce pra minha língua. Faça várias caretas, e estico os cotovelos sob a cabeça no banco. O teto todo despedaçado do pronto-socorro é meio riscado.
E me lembra dos olhos da garota de novo.
Será que ela é daqui? Ou é de São Paulo? Talvez de BH? Ela falava tudo muito embolado… não deu pra pegar o sotaque direito… mas não deve ser de muito longe…
Se bem que, do jeito que ela tava, não tinha como ser diferente.
Aperto os punhos.
As imagens insistem em me persiguir a cada passo que eu dou em direção ao filtro.
Pelo parapeito da janela, Costaré se mostra quieta como nunca antes. Sem muitos carros. Um pé cheio de ingás me lembra da fome que arde na barriga. O vento chicoteia minha pele e me lembra do frio. O mar brilhando atrás do prédio naquele tom azul fechado me arrepia de novo, trazendo a garota pra minha memória outra vez.
Minutos — ou milênios depois —, dois homens de uns 45 anos atravessam as minhas vistas.
— Estou indo, Delegado! — um deles exclama, bufando. Ele é baixo e seus olhos se curvam quando ele sorri, e me lembram dos meus. Não é tão pálido quanto eu, sua pele é mais amarelada e as pernas não são tão finas, mas ele parece refletir a minha preguiça. Usa uma boina verde fluorescente estilo fantasia. Na lapela do lado do brasão de sementes de maracujá, “Investigador Pinheiro” brilha. Lembra a estética da bandeira de Costaré.
Ele logo se encaminha para o corredor atrás de mim, com a arma estalando na coxa a cada passo.
O outro policial me saúda e se senta do meu lado. Na lapela, “Delegado Albuquerque” grita num prata tão forte que eu coço os olhos.
Hospital já é um saco. Agora uma delegacia dentro de um hospital é a coisa mais irritante do mundo.
Fala sério, Yoongi! Não era pra você ter se metido nisso!
Se o arrependimento fosse me levar preso…
Suspiro.
O Delegado Albuquerque limpa a expressão do rosto e endireita a postura. Abre o zíper da pasta de couro marrom. Canetas, folhas e um tablet dourado pulam, formando uma bagunça com cheiro de canetinha e papel queimado. Sua careca escura reflete na tela antes dele inserir a senha e se virar pra mim, com uma perna dobrada e o maxilar travado. O fedor de nicotina me tira do foco.
Já estou torcendo o nariz, com os olhos focados no porcelanato e com os pés se sacudindo sozinhos. Quero ir embora. Preciso ir.
— Então, meu jovem… No caminho, checamos as câmeras de segurança do estabelecimento onde você encontrou a senhorita. Ao que tudo indica, ela foi esfaqueada com um estilete na região do abdômen e teve o carro roubado por dois meliantes. Um deles foi identificado e nós já iniciamos as buscas.
Paro de piscar.
— Foi tudo muito rápido. Ela não reagiu. Mas por sorte, você apareceu na hora certa.
Hora. Certa.
Hora certa?
— Fica tranquilo! Você não é suspeito, tá bom? É só um procedimento padrão. Preciso te interrogar pra confirmar alguns detalhes.
Respiro fundo. — Claro, senhor.
Contenho a vontade de agradecer e fugir. De dizer que conheço as leis chatas da cidade, e que tudo isso é um porre de chato. Que entendo a tentativa de me deixar confortável pra falar, mas que se eles já descobriram o que aconteceu, deviam me liberar logo.
Pra variar, só continuo parado.
— Nome? Idade? Profissão? Onde mora? — ele me pergunta, digitando na tela.
Deixo os ombros caírem.
Minha mente se questiona as mesmas coisas sobre aquela garota. Pela 53° vez. Escondo a curiosidade e levo meu olhar até o Delegado.
— Yoongi Min. 19 anos. Recepcionista do Hostel Solaris. É lá que eu moro e trabalho, senhor.
Estendo meu RG e ele anota os dados. Seus olhos se perdem no meu endereço no banco de dados.
— Então… — O Delegado franze a boca, pousando uma mão debaixo do queixo. — Você mora perto da zona turística, rapaz? Na Camélia? Sua família é coreana?
— Sim, senhor. A Camélia sempre fica cheia de fãs de doramas e de K-pop. Uma maravilha.
Ma-ra-vi-lha!
Ele acha graça, sem entender minha intenção. Me seguro pra não revirar os olhos e acabar respondendo por desacato.
— Minha filha é fã dessas coisas. Sempre me pede pra levar ela lá.
Forço um sorriso até a mandíbula doer. — Seria incrível, senhor. Tem muitas atividades legais, a comunidade coreana é super receptiva.
Até. Demais!
O Delegado arqueia uma sobrancelha. — Então… você fala coreano, rapaz? Fala um pouco aí pra eu ver!
Minhas bochechas queimam.
— Ah… sei só algumas frases, Delegado — minto. — Nada de muito útil, juro.
— Então você é um... brazuca raiz? Come feijoada? Sabe sambar?
Seguro a vontade de fazer outra careta e aumentar meu tom. Finjo dar risada junto dele.
— Sim... sou um orgulho pros brasileiros. E pros costarenhos… nem se fala!
O silêncio atinge o corredor.
Minha respiração pesa.
O Delegado semicerra os olhos e mexe no tablet. — Me conta como tudo aconteceu, rapaz.
Massageio o pescoço. — Ah… Eu… fui comprar coisas pro Solaris porque a Sra. Park me pediu.
O Delegado mexe as sobrancelhas.
— A Sra. Park é a minha chefe… uma chefe meio mãe.
Ele confirma com a cabeça e pede pra eu continuar.
— Bem… e… e na saída, eu vi aquela garota… jogada no chão…
— Pelas imagens… você demorou uns minutos pra começar a se mexer. Quanto tempo você acredita que ficou parado? Você viu algum suspeito? Teve contato com quem feriu ela? Tinha algum funcionário ou alguma outra pessoa por perto? E como ela tava?
Pisco forte, negando com a cabeça. Continuo descendo minha automassagem para os ombros, e subo para as têmporas.
— Ah… foi porque eu… eu… fiquei pensando no que podia acontecer, senhor. Não tinha ninguém ali perto. Fiquei pensando em como ia tirar ela dali… Ela tremia… e… e sangrava muito… muito mesmo… as mãos dela tavam todas sujas de ramyeon e de banana milk… Eu… eu fiquei em choque…
A imagem me rouba o ar e o movimento das pernas na cadeira.
— Conhece a região do crime? — O Delegado digita ainda mais rápido no tablet.
— Sim… É uma lojinha de conveniência… uma das poucas que funciona 24 horas na Camélia… fica perto do meu trabalho… É um caminho que eu sempre pego…
— Ela tava inconsciente?
— Não muito…
— E o que você fez?
— Peguei ela no colo e trouxe ela pra esse pronto-socorro… Na minha moto…
Ele pensa por alguns instantes. — Então ela conseguia falar e caminhar?
Cruzo as pernas e bato os dedos nos coturnos. — Andava e falava sim, mas com muita dificuldade.
— Já tinha visto ela antes? Sabe o nome dela?
Inclino a cabeça, entrelaçando as mãos na frente dos joelhos. — Não conheço essa garota. Foi a primeira vez que eu vi ela.
— Isso tava com ela desde o início? — O Delegado aponta pra maleta.
— Sim.
— E você mexeu no conteúdo?
— Não, senhor. Só trouxe pra cá porque ela ficou repetindo “minha caixa, leva a minha caixa”.
O Delegado abre o lacre. Dois rolos grandes saltam. Estão amarrados com laços de cetim no meio, um deles é rosa e parece feito de seda. O outro é cinza de um tecido mais duro. Em cima, tem uma tesoura dourada e enferrujada presa num elástico. “Alta Moda” está escrito no topo em dourado.
Não disfarço o olhar arregalado.
De onde é isso?
O Delegado abre a mini gaveta da parte debaixo. Botões, alfinetes e linhas rangem.
Por que ela tava carregando isso? Será que… ela roubou? E… tava fugindo?
— Ok. — O Delegado trava o fecho. — Itens pessoais. Nada de relevante.
Antes que eu pergunte se estou liberado, o Investigador Pinheiro surge segurando um papel fluorescente da mesma cor do uniforme dele.
— Coletaram as digitais, Pinheiro?
— Sim, Delegado. Acabou de sair o resultado: Lali Carvalho Bergamaschi. Faz 18 anos hoje. Última instituição registrada: Casa Jovem de Costaré.
Levanto as sobrancelhas.
Lali? Isso não era pra ser um apelido? E Berga… o quê?
É… o nome na maleta?
Então era mesmo dela?
Ela… ela costura?
O Investigador Pinheiro confirma com a cabeça.
— De acordo com o médico — ele prossegue —, o corte da lâmina foi superficial. Não atingiu a parede abdominal e nenhum músculo ou órgão interno.
Puxo o ar devagar.
— Não fica assustado, rapazinho! — ele me diz, pousando um dedo sob o próprio queixo. — Esse tipo de corte sempre sai muito sangue. Aqui nesse hospital tem psicólogos de plantão, pro caso de você ficar com trauma.
— Eu tô bem, senhor. Acho que quem vai precisar disso é a garota.
— A ficha dela é limpa, Delegado — o Investigador acrescenta. — Sem antecedentes, sem passagem. Só histórico institucional.
Então ela não é uma bandida… mas… que doideira… como ela foi parar no meio do nada?
Suspiro.
Casa Jovem de Costaré.
Casa.
Jovem.
Cas—
Sabia que eu já tinha visto aquela borboleta!
— Calma! Essa Casa Jovem não é aquele orfanato… daqui do Centro?
O Delegado apoia os documentos no colo. Na foto, a tal Lali usa a mesma blusa rosa de borboleta lilás. Ela parece ter uns 14 anos no registro. Sua pele está com um tom mais quente, meio rosado, quase dourado. Seu cabelo é loiro escuro. Sem aquela tinta vermelha. Sem aquela mecha verde ridícula.
— Sim, rapaz. Mas hoje em dia não falam mais assim. — O Delegado respira fundo. — …trágico, não? Vamos ter que acionar a assistência social.
— Sobre o veículo, Delegado — o Investigador prossegue, sacudindo os papéis —, a placa tá no nome dela. Foi identificado pelas câmeras, mas ainda não consta como totalmente regularizado no sistema.
No nome dela? Como assim? Se ela é órfã… por que ela tinha um carro? Isso… tem a ver com o casal da foto? Eram mesmo… os pais dela?
Fico cada vez mais sem fôlego.
O Delegado responde algo que eu não presto atenção, e o Investigador continua:
— A Casa Jovem informou que ela saiu acompanhada da diretora no fim da tarde. Houve um imprevisto no caminho, e ela acabou dirigindo sozinha. Sem habilitação.
— Sem carteira? — As palavras escapam de mim.
O Investigador confirma com o polegar.
Ela tem um carro que nem pode dirigir.
Não tem ninguém pra buscar.
Então por que caralhos pegou ele mesmo assim?
Por que se arriscou desse jeito?
Onde ela queria ir que era tão importante?
Respiro fundo.
Ela pode até não ser criminosa, mas… é burra a esse ponto?
Ai. Meu. Deus!
Ela queria matar a diretora? Eu… fui cúmplice de um crime que deu errado?
O Investigador solta um riso leve.
— Calma, rapaz! Você tá olhando pra foto dela como se ela fosse maluca. Relaxa, os médicos disseram que tá tudo sob controle. Alguns detalhes eu não posso te contar, se não eu vou ferir a ética profissional.
Nem precisa falar! Eu já sei que essa garota significa problema!
Sinceramente, já perdi muito tempo aqui!
Sacudo a cabeça. — Ainda preciso ficar aqui, Delegado?
— Por hoje, você pode ir, garoto. Se a gente precisar de você, te aciona.
Faço uma reverência de cabeça e me levanto.
— Lembra do lema de Costaré? “Juntos pela maré, movidos pelo labor”?
Não escondo a testa enrugada. Pra quê isso agora?
Ele continua:
— Agradecemos pela contribuição com o nosso trabalho. Você tá fazendo algo que muitos jovens da sua idade não fariam: honrando o nome da nossa cidade e fazendo a sociedade funcionar! Ajudar uma garota desconhecida assim… isso é pra poucos, viu? Minha filha teria sorte de ter um amigo como você por perto!
O calor sobe pro meu peito e meu rosto arde.
Faço mais uma reverência.
Me viro e conserto o caimento da jaqueta nos ombros.
Volto a caminhar com as mãos nos bolsos.
Devo.
Não devo.
Mordo o dedo indicador.
Solto a língua no céu da boca.
Não devo.
Choco os cotovelos um contra o outro.
Devo.
NÃO!
Pelo jeito, essa garota é extremamente inocente… deixou o carro parado no meio da estrada…
Não deve ter muita noção da realidade!
Se ela ficar muito tempo sozinha, é capaz de tirar a própria vida…
E todo o meu esforço vai acabar indo pro lixo!
Passo a língua pelos lábios.
Fecho os punhos ao redor da cintura.
Não devo nada.
Pra ninguém.
Eu não.
Preciso disso!
Não!
Eu. Vou. Embora!
Contorno o caminho. — Peraí, Delegado!
Ele se vira, acenando.
Avanço um passo.
O arrependimento se instala na minha espinha sem que eu o autorize. Uma cobra traiçoeira que me enforca. Que me tira o ar. Me morde. Suas unhas são frias. Impiedosas. O veneno transborda pelos meus lábios sem que eu me solte há tempo.
— Sim, rapaz?
Aperto os olhos.
— Tive uma ideia melhor.
Fale com o autor