Anything But Ordinary

2 Respirar é o suficiente?


ANYTHING BUT ORDINARY VIBRA DENTRO DO CARRO.

Bato os tênis no tapete.

O cheiro da gasolina entra pelas janelas e se mistura com o calor do estofado.

Limpo o retrovisor e checo o horário.

11:11. Terça-feira, 13 de maio.

Isso, Lali! Vamos!

Abaixo a janela.

O vento chicoteia meu cabelo.

A maresia gruda na pele.

Um frentista abastece uma moto vermelha enquanto o outro limpa um capô amarelo.

— Vai! Vai! VAI!

Giro as chaves e dou uma gargalhada, jogando a cabeça pra trás.

— AGORA!

Piso forte no acelerador.

Engato a marcha.

O carro anda rápido demais.

Escorrego pelo banco.

Me ajeito depressa.

Tento de novo.

O motor finalmente obedece.

Deixo um gritinho escapar.

Foi mais fácil do que eu pensei!

— Eu sou foda! FODA! Foda-se todo mundo!

Mostro o dedo pra janela, mesmo sabendo que a Juliana não vai me ver. Suas ondas castanhas e longas refletem nos vidros amarelados da conveniência. Ela se aproxima do caixa com um saco de biscoito de polvilho e um vidro de suco de caju, sorrindo.

Puxo o câmbio e firmo os dedos no volante.

O sol se esconde atrás das nuvens e do mar de Costaré.

Finalmente posso respirar!

Respirar. Respirar! Respirar!

RESPIRAR!

Pisco com força. A luz invade as minhas vistas. Branca demais. Da cor das paredes.

Cortinas verde-água de vinil caem pelas paredes. Pesadas. Velhas.

Um pé de ingás se estende pela janela. O céu está nublado, meio morango.

Ainda… tá… de noite?

O som de gotinhas pingando zumbe dentro da minha cabeça, e o soro me obriga a torcer o nariz.

Afasto o lençol branco que cobre o meu corpo.

Calça imunda…

Uniforme da Casa Jovem…

Arranhões no braço…

Nenhum sapato…

Eu… eu tô… num… num…

Uma mulher de jaleco rabisca uma prancheta. Os cachos loiros decoram suas bochechas, e ela conversa com um homem à minha esquerda. Ele é baixo, de olhos puxados e cheira à açúcar.

…hospital?

O uniforme marinho do homem diz “Investigador Pinheiro, Polícia Civil de Costaré”.

FODEU!

Eu vou ser presa!

PRESA!

O chiado de um sapato chocando sobre o chão me dá um calafrio. “Delegado Albuquerque” está escrito na camisa do outro, que para à minha frente. Careca. De pele escura. Sua arma estala alto na coxa.

O distintivo arde os meus olhos.

O ar fica difícil de puxar. Meu pescoço dói. Tudo dói.

O Delegado fede à cigarro. Não faço uma careta como eu queria, mas congelo. Amasso o lençol nos dedos. Áspero. Gelado. Me dá mais um calafrio.

O Delegado limpa a garganta.

O Investigador e a médica me encaram.

— A-ahn?

— Você tá num pronto-socorro — o Investigador diz —, hoje é 14 de maio de 2025, quarta-feira.

— 4:47 da manhã — o Delegado acrescenta.

A Doutora confirma com a cabeça. Não dá pra ler direito sua especialidade, mas ela deve ser uma daquelas pediatras chatas que passam xarope, só que pra adultos.

— Você enfrentou golpes com estilete e levou pontos no abdômen. Agora está tudo bem, Lali. — A Doutora sorri sem me mostrar os dentes.

— Eu… vou… ficar internada? Vou ter que fazer cirurgia?

A Doutora nega com o indicador. — Não. E você vai receber alta hoje mesmo.

— Vai… vai ficar… marca?

A Doutora suspira. — Pode ficar uma cicatriz, sim. É cedo pra dizer. Com tempo e os cuidados certos, quase não vai dar pra perceber.

Suspiro. Adeus, croppeds e biquínis.

— Você se lembra do que aconteceu? — o Investigador pergunta.

Nada dói mais do que a pressão na barriga quando eu a contraio no meio de cada respiração.

Mas que merda! Adultos são insuportáveis! Eu vou mesmo ter que contar tudo… TUDO? E… pra… pra polícia?

O Delegado pigarreia.

É. Melhor eu contar antes que dê merda!

Fecho os olhos. As imagens correm como pontos de luz. Minha cabeça pulsa nas laterais.

Um homem feio aparece. Pálido demais. Velho demais. O cabelo liso e loiro dele está todo sujo de fumaça.

Ele ri alto, puxa um estilete vermelho e me acerta com tudo embaixo do umbigo.

— Um homem… me machucou… com… com um estilete…

Na hora, não tenho reação. Nada me afeta.

— Tinha outro junto… que riu… pegou minha chave e me… me empurrou…

O Investigador troca um olhar com o Delegado e anota alguma coisa no tablet.

Vocês acham que eu sou mentirosa?

— Tinha algo de valor? — o Delegado pergunta.

Flashes cortam o ar.

O carro.

O asfalto.

O frio.

— Não encosta na minha caixa, seu velho imundo! SAI!

A risada dele ecoa. — Cê acha que eu quero esse lixo, pirralha? Me dá a porra da chave, caralho! Me dá logo, vai! ANDA!

Encolho o corpo. A caixinha balança contra o meu peito.

Ele arranca as chaves de mim.

E me machuca de novo.

Solto um grito.

O fedor da maconha me deixa sem ar.

Cambaleio pra trás.

Minha caixa voa pra longe.

Tento gritar.

Minha voz não sai.

Minhas costas gelam e meus joelhos fervem.

E eu rolo pelo asfalto.

O carro desaparece, com um barulho trincado que pega fogo na minha orelha.

Passo as mãos pela barriga.

Levo os dedos até os olhos, que se arregalam.

— Puta… merda!

Limpo a baba da boca. Gosto de ferro. Horrível.

O céu pisca num tom tão azul que não dá pra saber se são estrelas ou se é só culpa da dor.

Um moço aparece. Ele deve ter a minha idade. Seu cabelo preto cola na testa enquanto me analisa. Penso em dizer que ele é gato. Não sei se realmente digo ou se os delírios me atrapalham.

Ele me põe pra cima. Um calor passa pelo meu bolso. As mãos dele se firmam na minha cintura. Ele pergunta coisas que não entendo direito e eu só murmuro que não quero morrer.

Minha barriga segue em chamas, como se alguém tivesse pisado no meu esôfago ou em algum outro órgão que eu não sei o nome.

Tento pedir socorro. Juro que tento. Peço. Ou continuo chorando. Ou orando.

Morrendo.

Subo numa moto. É da cor do céu.

Um capacete cobre a minha testa. — Frio… frio… frio!

Fivelas espremem o meu queixo.

Agarro as costelas do garoto.

Ele acelera.

O tempo passa. Depressa. Devagar.

Devagar. Depressa.

Só existem borrões.

Quando eu acho que finalmente é a hora de ir pro caixão de tanta ardência na barriga, uma cruz vermelha surge no meio das faíscas.

Caio em cima de uma cama macia. Muito macia.

E apago.

— Eu… eu… não lembro direito… mas um carinha… ele… ele me falou alguma coisa… me colocou numa moto… e depois… depois eu acordei aqui…

— Coletamos as suas digitais e puxamos seu cadastro no banco de dados — o Delegado informa —, e entramos em contato com a Casa Jovem de Costaré.

Bufo. Que legal!

— Eles disseram que você não tá mais sob tutela. Consta no registro 15 saídas sem autorização nos últimos… 2 anos!

Bufo de novo. Como eu explico que eu só queria respirar?

— …entendeu? — A Doutora pergunta.

— Aham.

— Nos passaram o contato de uma familiar sua — o Delegado continua —, mas ela disse que não pode te ajudar.

Balanço os ombros, fazendo uma careta. Ela nem faz diferença!

— O caso já virou inquérito — o Investigador afirma. — A gente tá atrás dos responsáveis. Não tenta localizar o carro sozinha e não negocia nada com terceiros.

Sem carro.

Sem dinheiro.

Sem identidade.

Agora só falta eu morrer!

— …muito triste. Mas você se lembra do porquê tava na estrada? — a Doutora pergunta, tocando meu ombro. Finalmente leio “Doutora Michelle Sotero, Plantonista” no bolso da frente.

— Eu… precisava chegar lá, Doutora…

Ela ergue as sobrancelhas. — Lá… onde?

— No Consulado… em São Paulo…

— Consulado? — os três perguntam.

— Eu… queria ir pra Itália…

— Pra Itália… — o Delegado sussurra. — De carro?

— Não exatamente, mas…

Perdi. Tudo.

Até. A. Minha. Caixa!

Eu vou chorar. Juro que vou.

Torço os dedos debaixo do lençol, desejando que esse interrogatório acabe logo.

Os três continuam em choque por alguns segundos.

O Investigador dá uma risadinha. — Aquela estrada que você pegou dava no Rio de Janeiro… não em São Paulo! Agora… Itália? Ia dar uns bons meses de estrada, criança!

Criança? Rolo os olhos e rio junto deles.

— É… não foi minha melhor ideia.

— A diretora não gostou muito de ter sido abandonada no meio do posto de gasolina, — o Delegado diz —, nem de ter ficado sem os pertences dela!

— Ninguém mandou ela deixar a bolsa e a chave dentro do carro! Eu aproveitei e saí! O carro era meu, então era óbvio que não ia ter problema!

— É aí que você se engana: agora você é adulta! Sem CNH, somos obrigados a registrar essa ocorrência, mesmo com o veículo constando no seu nome.

Faço um bico. — Eu ia dizer que vocês eram adultos legais… mas pelo visto… são chatos igual a todo mundo!

O Investigador sorri e seus olhos se transformam em tracinhos. — A gente sabe como na sua idade é difícil. Tudo é muito intenso. Mas… você precisa pensar nas consequências!

O Delegado assente. — A gente vai facilitar pra você dentro do que a lei permite. Se a gente achar o veículo, te devolve, mas só se você se comprometer em tirar a habilitação. Os projetos sociais de Costaré agilizam a papelada em casos de vulnerabilidade como o seu.

Cruzo os dedos sob o lençol. — Tá bom. Eu prometo!

— E não faz isso de novo, garota! — O Delegado exclama. Meus olhos se enchem d’água. Controlo a vontade de soluçar e de dizer que quero ficar sozinha.

— Tem uma equipe psicológica aqui… se você quiser conversar depois — a Doutora diz com um sorriso fraco. — Depois de um susto desses, é normal se sentir confusa.

Agradeço com um sorriso mais fraco ainda.

— Delegado... Vocês… viram a minha foto? E a minha caixinha? Cadê?

— A gente não encontrou foto, só uma maleta de costura.

Meus ombros quase explodem de tanto alívio quando solto o ar.

— A maleta já foi conferida e tá sob custódia na delegacia — ele finaliza.

— Inclusive, o rapaz que te trouxe aqui sugeriu que você ficasse no Solaris — o Investigador adiciona.

— S-Solaris?

— Sim. É um hostel na Camélia. Seu carro parou lá no final do bairro. Você lembra?

Sinalizo “não” com a cabeça. — Foi sem querer… É… eu já tinha ido na Camélia no passeio da escola. Na Praia do Lírio.

O Investigador ri. — A Praia do Lírio não fica na Camélia.

— Não?

— Fica na Vila Dorata.

Franzo o nariz.

— É normal confundir porque fica na divisa entre os dois bairros.

— Ah… eu achei que ficava lá! Mas… o que é um hostel?

— Quartos compartilhados por um preço mais em conta do que um hotel. Você já tá familiarizada com a estrutura, então talvez se sinta mais à vontade lá do que num abrigo. Sempre tá cheio de pessoas do mundo todo. Assim fica mais fácil socializar… encontrar trabalho… se reerguer.

Respiro fundo.

Posso ganhar dinheiro.

Comer bem.

Dormir bem.

Trabalhar.

E juntar dinheiro pra ir embora!

Fora que… se tem gente do mundo todo… deve ter um monte de gringo gato!

Um sorriso escapa de mim.

O Delegado sorri de volta. — É uma ajuda. Se você aceitar ir, a gente manda uma assistente social pra checar se você tá se adaptando lá e te auxilia com a parte burocrática.

Mas… por quê? Por que esse garoto me ajudou assim do nada? Como ele me achou? Só tinha ele perto na hora?

Tá, isso não importa agora! Se esse tal Solaris for pelo menos 1% igual a Casa Jovem, então eu vou SURTAR!

— Não, Delegado! Eu não vou pra lá! Vou me virar sozinha! Muito obrigada, mas… eu não confio em gente que eu não conheço!

Ele estreita os olhos.

— Vai que… ele faz alguma coisa comigo?

— Sem querer ser muito intrometida, Lali — a Doutora afirma —, mas se esse rapaz quisesse mesmo ter feito alguma coisa contra você, ele já teria feito. Não teria nem te ajudado, pra começo de conversa! Ele salvou a sua vida.

Engulo a saliva. — Mas… como eu vou pagar pra ficar lá, Doutora? Eu nem tenho documento! Roubaram tudo! Tu-do! Nem dá pra eu ser registrada! E até eu conseguir dinheiro… a dívida vai ser do tamanho dessa cidade!

— Justamente! — o Delegado concorda. — Eles precisam de uma recepcionista pra consertar a escala. A equipe ficou desfalcada porque o último funcionário se demitiu sem avisar.

Entreabro a boca.

Prendo o ar. — Eu… eu posso falar com ele? Cadê ele?

— Sim! — O Delegado acena com a cabeça e se afasta. — Ele voltou pra cá agora há pouco… Só um minuto.

O garoto entra. Devagar. Sem dar um pio.

Ele é pálido, num tom meio frio, meio rosado. Magro, com um pouco de definição nas pernas. Se eu ficar de pé, acho que ele é pouca coisa maior do que eu. Sua jaqueta de couro é a mesma da minha memória. É o mesmo cabelo liso e preto. Curto. Agora tá menos suado, ainda assim, bastante bagunçado.

Seus coturnos se arrastam pelo chão como se batessem dentro da minha cabeça.

Meu coração não funciona direito.

Ele para bem na minha frente, e seu cheiro de café me arranca um suspiro. Meio queimado. Forte.

Endireito as costas.

Vai dar merda nesse Solaris. Eu sei que vai!

Os olhos dele faíscam. Escuros. Pequenos.

Meio… desconfiados?

Não tenho certeza.

Ele coloca as mãos nos bolsos traseiros. Respira fundo. Encara a janela.

E se inclina levemente na minha direção.

Meu olhar paralisa no rosto dele. Na expressão meio…

Isso é tédio ou é impressão minha? Ou ele tá… emburrado?

Mordo os lábios.

— Nossa, garoto! — exclamo. — Como você é bonito, hein?

Ele empalidece ainda mais e desce o olhar pros coturnos.

Imagina o tanto de gatinho que deve ter nesse Solaris! Ai meu Deus!

A Doutora Michelle, o Investigador Pinheiro e o Delegado Albuquerque não escondem as risadinhas, cochichando entre si.

— Ahn… que foi? Por acaso eu menti? Ele é bonito mesmo, ué!

Minha garganta seca quando o cheiro de café dele se intensifica. Ele para do meu lado. Mesmo que não toque em mim, sua pele está quente.

Eu tô toda suja. Você deve tá me achando horrorosa!

Por essa sua cara… você deve ser mó metidinho a bad boy! Ai ai! Mereço!

Levanto o queixo e passo uma mão pelos cabelos.

— Oi… — Forço um sorriso.

Minha barriga se contrai em mais uma pontada.

Mas… você…

Você…

Limpo a garganta, disfarçando o gemido. — Eu… eu quase morri ontem!

Ele assente e relaxa os ombros.

Baixo o olhar pro lençol.

— Obrigada… por ter aparecido. — As palavras se embaralham na minha língua. — Eu… eu… tô viva! Valeu. De verdade! Eu te devo uma!

Ele chacoalha a cabeça.

— Você sabe fazer alguma coisa? — Sua voz corta o ar. Meio cansada. Nem fina, nem grossa. Só… seca.

Não sei se rio, reclamo, choro ou só respiro fundo ao lembrar o que faço de melhor.

— Sei costurar — gaguejo —, e… e gosto de conversar!

— Sabe falar inglês ou espanhol?

Nadica de nada. Mas posso me virar! Posso aprender!

Ele coloca as mãos nos bolsos da frente. — Ótimo.

— Então… você consegue um trabalho pra mim? Sério mesmo?

— Sim, na recepção. 12x36.

Pela cara dele… isso não deve ser bom…

— …na Camélia. Se você cair na escala, também vai trabalhar final de semana e feriado. Se precisar dobrar pra cobrir alguém, recebe hora extra.

Balanço os ombros. — Qual é o salário?

— R$2400, mas como você vai ter o seu próprio quarto, cai pra R$2000. Já inclui todos os benefícios.

Talvez a gente vai dividir o mesmo quarto.

Será que ele ronca? Aff!

Minha barriga se contrai de novo.

Calma… próprio quarto?

— Próprio quarto? — Tapo a boca.

Os policiais riem baixo. A Doutora faz que sim com a cabeça e ri junto. O garoto continua sério. Ele diz algo que eu não presto atenção, presa nas imagens que me atravessam.

Babadinhos.

Laços!

Muito brilho!

BRILHO!

Qualquer coisa que seja diferente desse uniforme ridículo!

Da cor que eu quiser!

Do tamanho que eu quiser!

Meus olhos marejam.

— …e as férias são só depois de um ano — ele completa.

Eu nem vou precisar de um ano! Vou vazar muito antes!

— Vocês pagam em dinheiro? E quando?

— Pode ser por transferência bancária, se você preferir. Ou pix. Tanto faz. É a cada 15 dias.

Respiro fundo. — Melhor que nada, né?

Os policiais e a Doutora riem.

Controlo a vontade de sorrir. — Vocês são chatos lá?

— Se você for responsável e não chegar atrasada, já tá de bom tamanho pra Sra. Park!

Sra. Park? Deve ser a diretora do hostel. Tomara que ela não seja insuportável igual a Juliana!

Fico em silêncio. Querendo fugir.

Mas com ânsia de arriscar.

O olhar do garoto grita “é pegar ou largar!”.

— Tudo bem… Então eu vou pra lá… só pra ver no que vai dar! Qualquer coisa eu pulo a janela, né, Delegado?

Ele ri junto da Doutora e do Investigador. O garoto não se mexe.

— Aliás, qual o seu nome?

— Yoongi.

— Tá. Yoongi… — Testo o som, que sai engraçado na língua. — Meu nome é Lali!

Ele fica vermelho. — É… Eu sei…

— Posso ir agora, Delegado? Por favor, Doutora!

Eu não presto atenção, mas sei que o Delegado está há uns 20 minutos me explicando sobre protocolos. Declaração provisória de identidade pra caso eu precise abrir conta no banco, entre outras coisas mais. Chatices e mais chatices.

Eu só balanço a cabeça.

Não vou desistir de você, Itália! E nem vou precisar da carteira! É claro que eu vou tirar lá, vai ser mil vezes melhor e mais fácil!

A Doutora fala sobre protetor gástrico. Antibiótico. Anti-inflamatório. Analgésico.

Me seguro pra não correr.

Ela continua tagarelando sobre a importância do sono. Hidratação. Verduras.

Nada de sexo.

Confirmo com a cabeça, com as bochechas pegando fogo.

— Troque o curativo sempre que molhar ou sujar o abdômen.

Bocejo.

Ela continua com a falação:

— …e não puxe os pontos. Volte daqui a 7 dias pra tirarmos tudo.

Depois de fingir que entendi cada sílaba, agradeço e quando menos espero, estou descendo o elevador.

Os policiais me levam até a delegacia, que cheira a café queimado e é menos gelada do que o hospital. Os policiais são todos simpáticos, uma Tenente até me oferece bala de caramelo e um pedaço de lasanha.

Adultos são tão legais assim… mesmo? Ou será que eu é que não consigo perceber direito?

Tô nem aí! Não quero saber de nada! Só quero chegar logo nesse tal Solaris e descobrir se é tudo isso mesmo que tão dizendo!

O Investigador abre uma das portas do armário.

Uma fisgada quase arranca meu peito fora.

— Minha caixa! — Uma lágrima me escapa. — Obrigada! Brigada! Brigada!

Abraço a caixa e molho toda a alça.

Tento não pensar muito sobre a foto e o carro.

Pelo menos você tá salva, caixinha!

— Qualquer notícia sobre o paradeiro do veículo, a gente entra em contato pelo telefone — o Investigador revela, apontando pro papel na mesa. — Pode anotar aqui.

Antes que eu o lembre que não tenho celular, Yoongi dá um passo à frente.

— Anota o meu, Delegado.

Não deixam o Yoongi me levar de moto até o Solaris porque ele só levou um capacete, então sou obrigada a entrar naquela viatura horripilante. É quente. Fede a suor.

Mesmo com o vidro meio embaçado, o mar está cristalino. Calmo. O sol, meio laranja, amarelo e vermelho no céu.un

As batidas do meu coração se intensificam quando chegamos na Camélia.

O mar daqui é mil vezes mais bonito do que no Centro.

Sei o que Costaré está me dizendo:

Viva! Viva muito, Lali!

Seu tempo tá chegando!

A viatura para. O painel mostra “6:32 da manhã”.

— Chegamos, criança! — O Investigador avisa. — Aproveita!

— Seja feliz, Lali. — O Delegado me deseja.

— O-obrigada.

Abro a porta devagar.

Gente do mundo todo conversando. Vento gelado. Pétalas se amarelas se espalhando pelas calçadas. igual nos filmes. Letreiros piscando com LEDs neon, senhorinhas passeiando com cachorrinhos beges e crianças passeando de triciclos pelas pedrinhas das ruas.

Meu olhar se fixa num ponto que dispara o meu coração.

Trago uma mão pro peito.

Já chegou?

Yoongi, escorado contra a moto com as mãos no bolso frontal, chuta pedrinhas devagar. Encara um pé de flores amarelo gigantesco. Respira fundo. E bufa.

Repete o processo.

Levanto o queixo.

Não. Creio!

Eu tava errada!

A energia daqui é totalmente diferente.

E isso dá medo pra caralho!