Anything But Ordinary

17 Desaparecer é o suficiente?


ALGUÉM PUXA AS CORTINAS DO QUARTO. Solto um grunhido enquanto a pessoa clica várias vezes na minha playlist.

— Só tem música do The Maine… do Nickelback… e do Evanescence na sua playlist, Lali! Misericórdia!

A pessoa puxa o cobertor e se senta de frente pra mim.

Pisco forte.

— …o que que fizeram contigo? Cê virou emo, gótica, vampira… ou o quê?

O perfume de cereja da Rosé está forte, a salopete jeans toda amarrotada e o cabelo castanho-escuro preso de qualquer jeito.

— Pintou de novo?

Rosé enrola um fio no dedo. — Pintei. Tava só o tédio.

Fecho um olho. — Prefiro verde.

— Ainda bem que o cabelo é meu e eu não te perguntei nada.

Rosé ri.

— Ué. Cê não vai me expulsar daqui?

— Como você entrou aqui, Rosé? — sussurro.

— Simples — a voz dela soa mais aguda que o normal —, cheguei na recepção, pedi a chave reserva pro Namjoon e ele me deu. Aí eu entrei! Pronto!

Pisco forte.

Pela janela, a entrada do Solaris está vazia.

As camélias amarelas balançam com o vento gelado.

O céu está nublado. Escuro. O relógio marca 5:47 da manhã.

Meus pôsteres do Nirvana na parede parecem tortos.

Os cordões da Rosé batem dentro da minha cabeça quando ela ri, amarrotando o lençol do meu lado esquerdo.

Raspo a garganta.

Me sento. — Me dá licença. É sério.

— Minha filha, cê tá há 3 dias sem postar vídeos da Jonas!

— Tô.

Ela tira o celular da bolsa. — Olha esse gráfico que eu montei, Lali: o seu engajamento tá péssimo! Logo agora que você tava quase voltando pros 9 mil!

— Tá.

— Se você tivesse mantido o ritmo, ia bater 20 mil seguidores até agosto! Já ia tá conseguindo monetizar!

Coloco as mãos na testa. — Ah, puta que pariu, Rosé! Cê não tá querendo falar de TikTok às sete da manhã, né? Me deixa dormir!

— Eu tô falando de tudo: TikTok, Instagram, da sua vida social, Lali! Do seu trabalho!

Me escondo com o cobertor. — Que trabalho?

Rosé puxa o tecido pro chão de novo. — Logo agora que eu tinha te convencido a voltar a postar conteúdo, você desiste? Levanta!

— Não. — Me viro de lado, bocejando. — Some!

— Se juntar todos os views dos vídeos da capivara, das roupas que você costurou pra Alice e pros outros clientes… isso dá quase 200 mil visualizações, Lali! 200 mil! Cê tem noção disso? Isso é muito pra uma pessoa que começou não tem nem dois meses!

— Me deixa quieta!

— Você tá sendo muito burra, sério! Vai ser fraca e desistir assim tão fácil?

— SAI! Fraca é você!

— Mas e o meu vestido? A gente tá quase na metade de julho e você nem começou a costurar ele ainda!

— SAI!

— Eu preciso acabar com todo mundo naquela premiação, eles têm que falar de mim por meses! Semanas!

Fungo. — Eu já tenho outros clientes pra agora, Rosé.

Rosé pega meu caderno de anotações. — Deixa eu ver… Você só tem… duas bainhas pra Irmã Mariana, um ajuste na cintura da Josiane da padaria Céu Azul e uma touca de dormir pra Luíza filha do Reverendo Kim. Para de enrolar!

— Tá, depois eu começo seu vestido. Ainda tenho 4 meses.

— Levanta! AGORA!

Grunho, me sentando na cama. — Que que você quer?

— Sai desse buraco! Você tá horrível!

Bocejo. — C-Cala a boca!

— Eu fui no quarto do Yoongi e…

Arregalo os olhos.

Rosé sorri de lado. — …ele tava com a olheira do tamanho da sua. A diferença é que ele não me deixou nem entrar.

— S-sério?

— Sim. Agora vai logo, Lali. Cê tá há 3 dias enfiada nesse quarto!

— J-Já passou tudo isso?

— Sim. E vocês deram a mesma desculpa pra Sra. Park… virose…

Seguro a risada. — Eu tô mal de verdade, tá?

— Ai, que preguiça! Cês tem que parar de ficar agindo como se fosse o fim do mundo!

— Você veio aqui pra me deixar pior?

— Não. Vim pedir pra você parar com essa palhaçada e voltar a viver!

— Dispenso.

Me jogo na cama.

Rosé se deita do meu lado, sacudindo meus braços. — Lali, eu lutei pra conseguir 3 mil seguidores postando vídeo todo dia! Você viralizou e conseguiu quase 10 mil em uma semana e… agora não vai fazer mais nada?

— Não. — Mordo o lábio inferior.

— Certeza? É… por causa da Kira?

— N-não… — Meus olhos pegam fogo.

— Por que você não processou ninguém ainda? A Alice disse que ia te ajudar, Lali!

— Pra quê? Pra quê? Pra QUÊ, Rosé? Me diz! Pra eu ser chamada de prostituta de novo? De Plagiamaschi? De… de soberba? Fútil? Tavam… tavam falando até da minha mãe, Rosé! Da minha mãe! Eles não conhecem ela! Nem eu conheci direito, eles não tinham esse direito! Eu… não tenho nem como provar nada pra ninguém! Não tenho grana, nenhum contato, tô sem nada! Nada! NADA! Eu… eu não quero mais saber de vídeo nenhum! Foda-se o Tik Tok e o Instagram! Não quero mais saber da internet, do Yoongi, do Solaris, de ninguém, de nada! Nem de você! E nem de viver! Só quero ficar enfiada aqui até eu desbotar, até eu desaparecer! Até eu decompor! Só. Me. Deixa. Aqui. Quieta!

Soluço.

Rosé me abraça, espalhando perfume de cereja pelo meu braço.

Normalizo a respiração devagar.

O cabelo da Rosé me faz cosquinha e sua risada me faz rir no meio das lágrimas.

Paraliso, respirando rápido.

— Só me diz uma coisa! — Rosé seca minhas bochechas.

— O-o quê?

Por acaso… alguma das coisas que eles tão falando de você e a sua família é verdade?

— N-não.

— Então foda-se! Você mesma disse isso! Pronto! A opinião deles é irrelevante!

— É muito fácil falar.

— Mas eu sei do que eu tô falando.

Bufo. — Sabe… sabe muito!

— Muda seu perfil então! Sei lá… se você não quiser mais postar seus vestidos… posta dicas de costura, faz consultoria, ou outra coisa!

— Não quero!

— Todo mundo vende curso hoje em dia! Só não… não perde essa chance!

Rosé digita depressa no celular.

— Lá vem!

— Se uma coisa não funciona, muda!

Ela vira a tela e me mostra inúmeras abas:

“Quanto custa pra montar um ateliê do zero começando com pouco?”

“Aluguel de espaço barato no Centro de Costaré.”

“Formalização como MEI.”

“Alvará”.

“Parcerias”.

Não acompanho nada, perdida entre os artigos e as letras enormes.

— Tá vendo? Pra tudo tem um jeito, Lali.

— Isso não serve pra nada.

— Pra nada? Me respeita que eu tenho quase 10 anos a mais que você, pirralha! Me escuta!

— Agora você vai querer dar uma de minha mãe?

Rosé força uma cara de choro. — Quê isso? Achei que a gente era amiga, Dona Bruxilda! Eu sou nova demais!

Reviro os olhos.

— Mas é sério, Lali: junta 6 mil reais que você já faz alguma coisa!

Respiro alto.

— …e é mais barato do que ir pra Milano — Rosé imita meu sotaque —, se você quer saber! Existe outros lugares onde você pode morar e estudar Moda, tipo São Paulo, Rio e—

Fecho os punhos. — Não quero saber! Não perguntei nada! Vaza!

— Não tô falando pra você não ir pra Itália. Só te falando que se você começar a trabalhar do jeito certo, vai juntar dinheiro muito mais rápido.

— Pra quê você quer tanto me ajudar?

— É que eu gosto de mandar nas pessoas, e você parece perdida. Então eu estou unindo o útil ao agradável, Senhorita Bergamaschi.

Congelo.

Senhorita Bergamaschi.

Bergamaschi.

Bergamaschi.

— Brincadeira, Lali. Eu tô fazendo isso porque odeio ver gente jogando talento no esgoto.

Me levanto num pulo, quase tropeçando na quina da cama. — Onde você quer ir?

Rosé ri pelo nariz. — No zoológico.

— Ah, legal. Lá na Vila?

— Cê ficou tão animada que eu já vi que vou perder a minha estilista! Como você é sem coração, Lali!

— Ai, garota! — Jogo o travesseiro nela.

— Promete que você não vai fazer roupas pra gente cafona?

Entrelaço nossos mindinhos.

— Menos pra Alice porque pra ela você já fez!

— Ei, não fala mal dela!

Rosé abre a bolsa. — Esqueci!

Ela me entrega um cordão de cristal roxo.

— Quê isso?

— Contra o mau olhado.

— Pra quê?

— Eu também não faço ideia. Não tem comprovação científica, mas… vai que ajuda, né?

— Cê quer que eu vire hippie?

— Ué, cada um tem a sua estratégia!

— É… acho que eu vou limpar as energias negativas! Parar de usar internet! Meditar todo dia e—

Rosé puxa o cordão de volta. — Sai! Você vai costurar uma Birkin de pelúcia pra aquela capivara agora! E vai postar! Anda, tô esperando!

Rosé mexe no celular enquanto eu desenho os moldes.

Em uma hora, costuro as alças marrons de tricoline e grudo os botões dourados.

Gravo vídeos da Jonas com sua bolsa rosa. Parece mais uma bolsinha de Barbie velha, mas dá pro gasto.

Rosé edita os vídeos e posta tudo de uma vez.

Me jogo na cama. — Agora eu não vou mais ligar o Wi-fi por umas 100 horas!

— Tanto faz. Lá no zoológico nem funciona direito mesmo!

— Então tá bom.

— Agora anda logo, Lali! Eu preciso ganhar essa aposta!

— Que aposta?

Rosé me mostra o chat do celular dela aberto.

Ela dá play num áudio do Jimin.

“O Yoongi tá quase topando! Cê se ferrou, Rosé! Já prepara o bolso porque esse balde de Pink Moon vai ser meu!”

Semicerro os olhos.

Rosé dá play no próprio áudio.

“Prepara você porque eu vou te fazer falir!”

— V-vocês…

“Se depender de mim, eu já ganhei essa aposta: nem que eu tenha que arrastar a Lali pra fora daquele quarto!”

— …tavam apostando cachaça pelas minhas costas?

— É. Eu encontrei ele na porta tentando tirar o Yoon do cativeiro. Aí a gente apostou.

Finjo que vou enforcar Rosé com o travesseiro. — Sua cobra!

Ela faz cócegas em mim e eu a solto.

— Bora ir logo, Lali! Eu não posso perder pra uma pessoa que gosta de trufa de abacaxi e que usa renda de manhã!

— Ei! Eu também uso renda de manhã!

Rosé bufa. — Eu preciso desse balde de Pink Moon porque tenho um projeto pra terminar essa semana ainda!

Tiro o pente e a toalha da gaveta. — Achei que as pessoas tomavam café pra ficar acordadas, não álcool!

— …cê não tá vendo que o meu cabelo tá caindo? Nossa, eu tô com uma cratera dos dois lados, acho que vou ter até que tomar remédio! Ou vou me aposentar logo!

— Tá, tá, Rosé, já entendi! Quanto tempo eu ainda tenho?

— Diz o Jimin que o Yoongi ainda tá se arrumando, então você praticamente não tem tempo!

— Espera 10 minutos!

— Que seja, eu só preciso provar que a gente saiu antes e aí eu ganho!

Corro pro banheiro.

Ao sair do box, visto uma calça jeans clara, blazer xadrez vermelho e prendo o cabelo numa trança com bastante gel. Passo um pouco de rímel. Gloss. Escondo as olheiras com um corretivo mais frio.

Rosé sobe o olhar pra minha T-shirt off white escrito JARDINS DA BABILÔNIA e desce pra minha bota de salto agulha.

— Cê vai andar o dia todo com isso? Não vai te cansar?

— Achei que a gente ia no seu carro!

— Não. A gente vai de metrô pra você respirar.

Abro o armário e calço os tênis. — Rosé… por acaso cê sabe andar de metrô?

— Não, mas eu confio em você.

— Confia mesmo?

— Confiava até agora, mas já vi que você perdeu a noção e o bom gosto. Que roupa é essa? Tá caf—

— Se você me chamar de cafona eu não vou mais.

— Tá. Vou chamar de brega então!

— Idiota!

No momento em que eu piso no corredor, um peso faz meu ombro esquerdo doer. O Solaris está meio vazio e gelado, e as luzes da recepção meio esbranquiçadas.

O ar está com cheiro forte de Bom Ar de lavanda.

Rosé balança os quadris.

Tenho certeza que é o single que está tocando é aquele do último álbum do Kendrick.

Quero dizer que a batida me dá vontade de dançar.

Quero elogiar o cabelo do Namjoon.

Quero dizer que esse tom preto o deixa mais jovem.

Mas não sai nada.

Eu só mexo a cabeça.

Rosé dá oi pro Namjoon (e uns bons beijos enquanto os hóspedes não estão vendo se esquecendo das câmeras e que eu estou aqui do lado com os braços cruzados e bocejando a cada dois segundos).

— Bom dia, fiscal!

— Bom dia, caubói! Cê sai que horas hoje?

— 18h. Vou ter aula às oito.

Rosé faz bico. — Sempre tem um espaço no meu carro pra você, bebê.

— É mesmo, baby?

— Sim. No porta-malas.

Namjoon ri, abraçando Rosé pelo pescoço enquanto ela faz cócegas na cintura dele.

Ainda não tenho reação.

Namjoon tosse. — Falando nisso… o iFood que você pediu chegou agorinha!

iFood?

Rosé coça as bochechas e puxa a sacola da Céu Azul da bancada.

— Tchau, Lali! — Namjoon afina a voz, soltando a cintura da Rosé. — E tchau, baby!

Não faço força nem pra piscar, revirar os olhos ou xingar eles.

— Tchau, bebê!

Aceno pro Namjoon, apressando o passo.

A manhã está nublada e gela até os ossos. Rosé tagarela, tagarela e tagarela.

— CPM…

— Branding…

— … e marketing holístico…

— Não tem…

Quero descer daqui. Dormir por uma semana.

Finjo que estou prestando atenção em cada sílaba.

— Toma.

Rosé rasga a sacola da Céu Azul e me obriga a tomar o cappuccino.

— Eu te odeio por me fazer tomar café.

— Calada.

Ela me faz comer cada pedaço do croissant, do pão de mel e a tomar o iogurte de banana com mel.

Nada tem gosto.

Não respiro direito.

Limpa minha boca com o guardanapo. Ergue meu queixo quando ele treme.

— Não inventa de borrar o meu rímel porque ele custou mais que esse metrô!

Rio pelo nariz. — Eu odeio ser sua amiga.

— Obrigada pelo elogio, querida — Rosé imita minha voz.

— E-eu não falo assim.

— Pior que fala.

“PRÓXIMA PARADA: ESTAÇÃO DORATA.”

Pisco algumas vezes, saindo do metrô.

As luzes da Estação Dorata são mais brancas do que as outras. Todo mundo usa linho, dourado e sapatos que fazem barulho demais.

Minha mão formiga tanto que eu perco o ar outra vez.

Minhas pernas tremem.

O suor da nuca gruda nos meus indicadores.

Furo o semáforo.

Merda. Por que eu topei vir aqui (mesmo)?

Minha cabeça se levanta sozinha.

Só paro de tremer quando o letreiro em verde militar grita “ZOOLÓGICO DE COSTARÉ”.

Demoro uns segundos pra voltar a piscar.

Respirar.

Rosé me alcança, e me arrasta até o balcão, paga pelas entradas e continua falando, falando, e falando.

Ainda está nublado e frio.

Ainda parece que todos ao redor andam e falam rápido.

E riem.

E se mexem depressa.

E vivem.

Um pé de árvore faz sombra em cima de mim no meio de uma fresta do sol. As flores são amarelas num tom mais forte que as camélias do Solaris.

— Rosé… Qual nome dessa flor?

— Ipê.

Aperto os olhos.

O cheiro de mato e da terra se intensifica. Se mistura com perfume da Rosé. O abraço dela parece mais quente enquanto ela me ajuda a dar passos lentos pela grama.

— Poxa, cadê os bichos do filme? — murmuro.

Rosé ergue uma sobrancelha. — Filme? Que filme?

— Do Madagascar! Achei que aqui ia tinha elefante, hipopótamo… girafa… tigre… mas só tem isso?

— Oh, trouxa, cê tá no Brasil!

Copio a careta dela.

Rosé me empurra na direção dos saguis. Telas de vidros e árvores os separam dos mico-leões-dourados e dos macacos-pregos.

— Ah, eles são tão fofinhos! — Tento chegar perto das plataformas.

De longe, Rosé registra selfies com o jabuti, o tatu-bola, o tamanduá-bandeira e sai pra comprar pipoca. Volta com algodão-doce, mariola e picolé de jabuticaba.

E eu só continuo andando atrás dela.

— Rosé, você tá parecendo uma criança.

— Cala a boca.

“LOBO-GUARÁ” surge na placa de letras amarelas, seguido do seu nome científico e de curiosidades.

Maior canídeo da América do Sul.Corre longas distâncias.Inofensivo para o ser humano.Não é lobo.Não é raposa.

— Ele é o quê então?

— Monogâmico. — Rosé ri. — E solitário.

Bufo. — Tá, mas… o que que isso muda na minha vida?

— Eles são igual você, Lali: perna fina e longa. Bem orelhudos… meio ruivos, meio loirinhos!

— Cê me odeia?

— Era um elogio, sua anta! Aliás, cadê suas primas, hein? Não tô vendo elas aqui!

Semicerro os olhos. — Calma aí! Daqui a pouco a gente passa lá pra visitar sua família!

— Sério? Bora agora, já que você tem tanta intimidade com elas!

Antes que ela me xingue, paramos no centro.

Tem uma montanha de adolescentes usando uniformes verde menta alfaiataria e mochilas de couro escuras.

— O Zoológico de Costaré foi fundado décadas atrás como um zoológico tradicional — o guia explica.

Rosé sussurra “lhamas” e me puxa na direção oposta. Ando devagar do lado dela. Devagar o suficiente pra que a voz do guia soe alta:

— …e com investimentos, expandimos o foco para uma conservação mais focada na fauna brasileira. Hoje vocês conseguem ver uma variedade maior de espécies!

Rosé dá meia volta, ergue um dedo e grita “peraí”.

Tapo a boca dela. — Cê não vai discutir com o guia no meio do passeio, né?

— Lali, eu preciso saber se esse zoológico é mesmo de confiança: e se eles exploram os animais?

Estalo a língua. — Pelo amor de Deus, Rosé! Pesquisa no celular se você tá com tanta dúvida assim! Cê nunca veio aqui?

— Já, mas… como eu vou ter certeza? E se eles estiverem escondendo as provas? E se forem antiéticos? E se os animais estiverem sendo mal-alimentados, machucados, sofrendo longe do habitat natural e—

— Cê veio aqui pra relaxar ou pra caçar briga?

Rosé faz sinal de meditação. — Tá. É que às vezes eu não consigo me controlar.

— Sei. às vezes.

Ela me cutuca nas costelas.

Rosé e eu tiramos selfies na entrada do serpentário.

Bato palmas. — Ai, finalmente o reencontro da sua família aconteceu, Rosé! Que emoção!

Ela gesticula “banana pra você”.

Tem uma série de cobras vermelhas, verde-azuladas e amarelas espalhadas dentro vidros do serpentário.

— Ai, oi, sucuris! A maninha Rosé sentiu falta de vocês, viu? Cês são as caçulinhas, né? Dá oi!

— Suas tias, Lali! — Rosé aponta pros moldes de girafa no meio do caminho.

Uma garotinha registra fotos nossas com a cara enfiada nos moldes. Faço caretas, dedo e língua enquanto Rosé imita o Melman.

— Cê também era a girafa da sua sala, né? — ela grita.

Minha cara queima. — C-como cê sabe?

Ela dá de ombros, rindo e me puxando pra área dos felinos.

Meu coração dispara quando duas onças-pintadas brincam no chão.

Se lambem. Se cheiram. Se cheiram. E se lambem.

É. Até vocês são felizes.

Um guia explica com um sorriso no rosto:

— As manchas em forma de anel ou flor no pelo das onças são o que chamamos de rosetas. Elas funcionam como uma espécie de impressão digital. Assim, é possível identificar cada uma em qualquer lugar do mundo. Não existem duas iguais.

As onças rolam pela areia.

Por quê? Por que a gente foi brigar? Que droga!

A imagem do Yoongi bebendo em algum canto escuro e frio junto com o Jimin e faz o meu peito doer.

Contraio os ombros, tentando parar o formigamento nas pernas e nas mãos.

— Cê tá pensando no Yoon, né?

Sacudo a cabeça. — Quê? Claro que não! Mas… você sabe se o Jimin ficou bravo porque perdeu a aposta?

— Ele tá bem, Lali.

Que bom que você tá feliz, gatinho.

— Ah… que bom…

— Eles foram numa exposição no Museu das Sementes. Tão passando um filme lá.

— Tendi… — Levanto o queixo. — Mas eu vou ganhar quantas garrafas? Eu te ajudei a ganhar, então é o mínimo!

— Uma.

— Só uma? Você é uma pessoa horrível!

— Você já tá quase indo pelo caminho de virar gótica ou hippie, imagina se eu te deixo ficar bêbada? Deus me livre! A Alice me mata!

— Chata. — Mostro a língua pra ela.

— Sai pra lá, ridícula! — Ela me dá uma cotovelada fraca.

Abro um sorriso de canto. Queria que você tivesse vindo também, Lice.

Rosé tentando fazer seu 4G funcionar e postar nossas fotos no Instagram dela. Quando sua foto de bloqueio surge na tela, eu arregalo os olhos: Rosé estão sorrindo na frente de um espelho do quarto do Imperial, vestindo roupões e girando taças de vinho no ar.

Com os pescoços manchados.

— AH!

Rosé esconde o celular no bolso. — XIU! A gente tá num lugar público e lotado!

— Quê isso no pescoço de vocês? Você e o Namjoon…

Tapo os ouvidos. — Nossa, é sério, Rosé, que nojo! Que nojo! Vocês são ridículos! Nem pra vocês usarem base, né?

— Mas eu tô de base até hoje, querida! Isso foi no sábado! Você precisava ver! Ele—

Sinalizo “pare”. — Sem detalhes. Não preciso saber disso pra viver.

A boca dela treme em mais uma careta.

— E se os seus pais verem essa foto, garota? — rosno.

Rosé ri.

— Isso foi demais até pra mim, meu Deus, Rosé! Como eu vou superar?

Rosé dá um tapa leve no meu braço. — Até parece que você é santa, né? Pera! Não… não rolou nada ainda com o Yoon? Pelo amor, cês são devagar demais!

Finjo dar um soco na cabeça dela. — Fecha essa matraca! A gente… a gente dormiu junto domingo…

— E dormiu?

— Eu não quero falar disso.

— Tá bom. Deve ter sido horrível então já que cê ficou três dias sem nem sair depois disso. Fala sério: ele tem bafo, né?

Dou um peteleco nela.

— Ai, garota!

— Ele é um idiota, mas eu gosto dele! Então não… não fala mal dele!

— Verdade: ele é mesmo. Em Curitiba ele ficou com essa mesma cara de paisagem que você tá agora.

— Ficou?

Rosé coloca uma mão no bolso da salopete. — Sim.

Respiro fundo.

— Minha bateria tá acabando! — Rosé resmunga, digitando uma mensagem pra uma cliente.

A tela do celular dela está escura, mas algumas notificações pipocam na frente:

99+ COMENTÁRIOS NA SUA ÚLTIMA PUBLICAÇÃO.
VOLTA PRA SUA TERRA!
VAI DANÇAR OPPA GANGNAM STYLE!
NÃO RESPEITAMOS NEPO BABIES!
DENUNCIEM O PERFIL DA @ROSEANNEPARK!
NINGUÉM FALA MAL DA NOSSA DIVA @KIRADINIZ!
ELA DEVIA TE PROCESSAR!
VAI COMER CARNE DE CACHORRO QUE VOCÊ LUCRA MAIS, SUA IMUNDA!
CUIDADO NA RUA, XING LING!

Meu peito ainda está doendo quando Rosé termina de digitar algo pra o contato “Apartamento Cris Gomes” e sorri pra mim.

— E-eu não sabia que os fãs da Kira tavam te ameaçando também! Desculpa ter falado que você não me entendia…

— Ai, nossa! — Rosé se espreguiça. — Me empresta seu celular pra eu avisar pra Cris que só vou poder atender ela amanhã?

— Rosé… Eles tão te xingando por minha culpa… se eu não tivesse começado a postar vídeos, nada disso ia tá acontecendo e—

Rosé boceja. — Nossa, eu vou comprar mais picolé!

— Por que você não deixa a sua conta no privado? Por que não silencia todo mundo?

— Tô cansada de pegar pistache! Vou provar um sabor novo, sabe? Ah, na sessão brasilidades! Qual você vai querer?

Bato os pés. — Rosé!

— O Namjoon me falou que tem um de acerola que é uma delícia… deixa eu ver… ah! Também tem de jaca, de cajá, até de cuscuz com tapioca, cê acredita?

— Rosé!

— Já sei: coco com abóbora! Ou seria melhor coco com abacaxi? Ai, mas também tem um que lançou que é muito bom! Acho que é de jambo!

Respiro fundo. — ROSÉ?

— Que é?

— Não adianta falar nada com você, né?

Ela cruza os braços. — Me empresta.

— Te empresto, mas cê promete que não vai xingar ninguém no meu perfil e nem criar nenhuma conta fake de novo?

Ela olha pras árvores e morde a boca.

— ROSÉ?

— Aff! Prometo! Me empresta logo!

— Desculpa… eu não queria atrapalhar vocês…

— Atrapalhar quem?

— Você… a Alice, o Namjoon e o Jimin… Eu sei que vocês tão tentando me ajudar a melhorar, mas… eu não quero atrapalhar ninguém! Pode ir embora e atender a sua cliente! Eu fico aqui e vou embora depois!

— Ai, garota, vai pastar! Tchau!

Rio pelo nariz.

Rosé se afasta de mim.

Quando paro na frente do aviário tropical, meus olhos se enchem d’água.

Tem tucano.

Papagaio.

E arara.

Uma delas é um mix de laranja, azul e verde. “ARARA ARLEQUIM” brilha no topo.

Minhas pálpebras tremem.

Ave híbrida.Não é encontrada na natureza.Criada exclusivamente em cativeiro.Tem comportamento dócil.Se reproduz.

Alguém grita “BUH!” e gargalha.

Trago as mãos pro peito. — Caralho, que susto, Rosé!

Ela usa uma máscara branca com olhos laranjas.

— Isso era pra ser um zumbi?

Rosé estica a máscara até a cabeça e assopra uma língua-de-sogra.

— É um lêmure, jumenta! Toma! Essa é a sua!

Ela me entrega uma máscara de jacaré e eu faço sinal de paz e amor pra câmera.

— Fala que tá feio que eu te jogo no lago! — Rosé diz, entre dentes.

Forço um sorriso. — Tá horrível!

Beirando às seis, Rosé e eu voltamos pro Solaris. Jimin está digitando no computador da recepção e assobiando.

Antes que eu faça uma piada sobre a aposta, Yoongi sai do banheiro.

Seu perfume está forte e seu cabelo úmido e penteado de lado. O paletó não tem nenhum amasso.

Idiota! Você nem vai me perguntar nada da agência?

Nem vai tentar puxar assunto comigo?

Nem vai perguntar como eu tô?

Minhas pernas fraquejam e eu tombo de lado no sofá.

Rosé se joga também. — Disfarça pelo menos, né, doida?

Corrijo a postura, como se estivesse prestando atenção nos stories que ela está postando.

Uma vibração na madeira nos interrompe.

Jimin para de assobiar.

Isso foi um… soco?

Um homem alto, loiro e barbudo se estica na direção da bancada, apoiando uma sacola na frente do sino.

Hello, sir. — Jimin sorri largo. — May I help you?

That room is…

— Rosé — gaguejo — ele chamou o quarto de merda, é isso mesmo?

Ela mexe a cabeça. — E agora acabou de dizer que pagou pelo mais caro e tá questionando se não tem outro mais espaçoso.

— Folgado.

O cara soca a bancada outra vez.

Hey, hey, hey! — Rosé me arrasta até lá.

A sacola do cara cai no chão com o nosso esbarrão. — FUCK! Are you blind?

Jimin e Rosé se agacham pra ajudar o cara a recolher seus pacotes de fralda e latas de leite.

Eu hein… Homem esquisito!

Jimin esfrega as mãos na testa, com os dedos tremendo. — Sorry again, sir! Uh… qual é o nome dele mesmo, Yoongi?

— Igor Oleg.

Jimin diz que vai resolver o problema pro Igor.

Pelo menos é o que eu entendo.

Uma mão toca minhas costas.

Meu rosto esquenta.

Gatinho?

— Licença, Lali. Pode deixar que a gente resolve o problema. Você e a Rosé já podem sair.

— A-A gente… a gente tava… tava só… só…

Yoongi sinaliza o corredor. — Fora daqui, por gentileza.

Meus dentes rangem sozinhos.

Ainda por cima vai me mandar vazar?

Ridículo!

Rosé entrelaça nossos dedos e me ajuda a erguer o queixo.

— E-então tá, gati—

Rosé pisa no meu dedão.

Prendo a careta com um sorriso. — Adeus, Yoongi.

Me viro de lado.

Os flashes passam na minha frente:

Os olhos da Alice vermelhos de tanto chorar.

Nossos vestidos combinando.

E os nossos corpos tremendo dentro do ônibus.

O rosto do homem fica mais nítido: ele ainda é pálido como naquela noite, as sobrancelhas estão mais falhadas do que antes e o sotaque em português bem mais suave.

Jimin tenta fazer o Igor parar de gritar.

— Yoongi… — digo. — Esse… esse cara… é… é o cara daquele dia… da… da… balada… que… que chamou a Alice e eu de putas e que… e que fez sinal de… de macaco pra ela! Eu dei um soco no nariz dele… e ele quase bateu na gente…

Rosé e Yoongi gritam:

— O QUÊ?

Jimin engasga com o ar. — C-como é que é?

— É! Esse lixo! LIXO!

Yoongi me segura pelos ombros. — Eu sei que ele é nojento, mas não vale a pena, Lali: você não vai querer meter polícia no meio, a gente tem que agir de forma civilizada!

— Civilizada?

— Lembra que aqui dentro ele é ainda um hóspede!

— Hóspede é o caralho! Vem cá, seu desgraçado! Eu vou quebrar seu nariz de verdade dessa vez! Você acha que eu esqueci? Olha pra mim! IÁ!

Igor se aproxima de mim. — Wait. A. Minute!

Seu perfume (ainda) é a mesma mistura de vinho com açúcar queimado.

E a cara que ele (ainda) me obriga a recuar os passos.

…you’re that bitch from that day, uh?

— Dessa vez você não vai me chamar de puta e sair de boa! Você vai se foder!

Respira, Lali.

Respira!

VAI!

Antes que eu avance na direção do Igor, Rosé gargalha.

Ela diz uma frase em inglês que me deixa boiando, mas sei que tem algo a ver com ele ser velho demais pra estar discutindo com crianças.

A imagem do leite e das fraldas caídas me faz morder o canto da boca.

Igor coloca a língua pra fora, e a gira, gira e gira.

Pisca pra mim.

E joga um beijinho no ar.

Travo o queixo.

Ele esbarra no ombro da Rosé, tentando agarrar meu cabelo.

— AH!

Rosé tropeça no pé do Igor e bate a cabeça na bancada.

— ROSÉ!

Jimin e eu a ajudamos a sentar no sofá.

Igor tenta me alcançar de novo.

Yoongi gesticula “sai”.

Move away, sir.

A frase que o Igor diz é rápida demais pra que eu entenda, mas as palavras que se destacam me fazem avançar nele de novo.

— Problema pra resolver com a bitch? Bitch é como a sua cara vai ficar: toda desfigurada depois que eu te comer na porrada, seu filho da puta!

Jimin encurta o espaço. — Já falei pra você se afastar! Please, sir! MOVE!

Igor aponta o dedo na minha direção e depois pro Jimin. — MOVE? Suma da meu frente… sua… uh… how… Oh… Bicha… Bichinha!

— Arruma outro xingamento, parceiro, esse tá velho já!

Igor dá um soco no Jimin.

Tapo a boca.

Rosé se pendura no meu braço, mostrando o dedo pro Igor.

— Merda. — Jimin sacode uma mão no ar, e fecha a outra. — Eu não quero mesmo ter que brigar, senhor. Tô te avisando ainda: vaza enquanto eu tô tranquilo. LEAVE! PLEASE!

Igor ri e tenta segurar meu braço. — I need to talk to her.

Yoongi entra na frente do Igor e toma um chute na virilha, quase perdendo o equilíbrio.

— PARA! — Minha voz sai abafada pelos soluços. Pelas lágrimas. Pelo calor. Pelo frio.

E pelas mãos grandes, sujas e quentes do Igor no meu pescoço.

Minha visão embaça.

Tento puxar o ar, mas engasgo.

Os gritos da Rosé e do Jimin soam distantes.

Os olhos do Igor estão vermelhos e arregalados. Do mesmo jeito da balada.

Dura dois segundos, mas é o suficiente pra minha T-shirt se encharcar de lágrimas e as minhas costas de suor.

Ar puro.

Ar. Puro.

AR!

Minhas pernas tremem tanto que eu caio de joelhos com as mãos no colo.

Yoongi xinga em coreano antes de chutar a cara do Igor.

— YOON! — Rosé grita, encostando os dedos no galo da cabeça. — Ai, lá se vai o meu botox!

Eu a abraço. Rosé aperta os dedos no tecido do meu blazer, tremendo tanto quanto eu.

Touch her again! Touch her! TOUCH. HER!

Mais um chute.

E outro.

E mais outro.

Rosé e eu escondemos o rosto no ombro uma da outra, de costas pro barulho. A luz amarelada ilumina ainda mais os nossos cabelos, e o calor no meio do frio triplica.

Os gemidos e as pancadas são altos demais.

O relógio marca 19:03.

Bitch.

Bitch.

Bitch.

Os lados da minha cabeça doem.

Os minutos não passam.

Hóspedes e mais hóspedes se enfileiram no centro.

Não sei mais quem está gritando.

As palavras do Yoongi ecoam nos ritmos dos chutes e socos.

You. Should. Not. Mess. With.

The. People. You. Know. Nothing. About!

Faço sinal da cruz. — Deus, por favor!

Jimin gira o corpo e dá mais um chute na cara do Igor.

Um.

Me escoro no balcão.

Dois.

Escorrego pelo tapete.

Três.

A voz do Yoongi soa gritada:

— Mano, que bom que cê é meu amigo porque puta que pariu, hein? Que Dollyo foi esse, doido?

Seco o rosto com a parte de trás da palma.

Yoongi controla o gesto de “isso” e torce o braço do Igor pra trás.

Jimin tira o celular do bolso e se afasta por um minuto.

Yoongi mantém Igor imobilizado contra a parede. — Agora chega, Seu Igor: cê já pode ficar bem quietinho enquanto a polícia não chega.

Shit! Get off me! Let. Me. Go!

— Se a gente quisesse — Yoongi diminui o tom —, a gente te matava na porrada, então acho bom o senhor continuar bem mansinho.

Os hóspedes exclamam “UAU” e o aplaudem.

Jimin amarra Igor no sofá do centro.

As veias do pescoço do Yoongi estão quase explodindo e sua pele está mais pálida do que nunca.

Até assim você é gato.

Yoongi xinga em coreano.

Em inglês.

Agarra o couro cabeludo.

Olha pro teto.

Bufa.

E anda de um lado pro outro.

— Isso vai dar muita merda, Jimin. Como a gente veio parar aqui? Como isso foi acontecer?

Ainda estou com as mãos grudadas no peito, jogada no chão, respirando rápido.

Só não mais alto do que o Jimin.

E do que o Yoongi.

E do que o Igor (que está rolando, rolando e rolando pelo tapete se balançando e contorcendo os lábios).

Ele ficou com riscos na sobrancelha, e sua mão esquerda está sangrando.

Jimin tem cortes nos dedos e a boca roxa.

Meu sorriso se abre de lado, mas logo se desfaz. Por que eu fiquei aqui pra ver isso?

Se eu tivesse ido pro quarto.

Talvez isso não…

Isso não…

— Para de se culpar, garota — Rosé sussurra, enxugando meu rosto. Seus polegares tremem nos meus cílios.

— C-como, Rosé? Como?

Jimin e Yoongi se agacham aos pés do Igor.

— Não é nada pessoal. Eu juro. — Jimin limpa o sangue do canto da boca. — Mas tu passou do limite, parceiro.

Igor abraça os joelhos. — Impressive…

— Tu tem filho, né? Imagina que vergonha ele ia sentir se soubesse que o pai é desse jeito. Ainda bem que ele é pequeno.

— Seu… seu… sua…

A última palavra dita em português pelo homem faz todo mundo se entreolhar.

Jimin ri. — E se eu for gay? Que que cê tem a ver com isso, mermão?

Quando o Investigador Pinheiro chega junto com os policiais na recepção, pedindo silêncio para os hóspedes ao nosso redor, eu congelo.

Não dá nem tempo de perguntar como ele está. De perguntar se ele sabe algo do meu carro, dos meus documentos ou do Delegado Albuquerque.

Ele ajeita o óculos e diz:

— Quem é o responsável daqui?

Yoongi se aproxima dele, dobrando o corpo de leve.

— Quem começou?

— Quem revidou?

— Quem se machucou?

Jimin mostra as imagens das câmeras de segurança pro Investigador Pinheiro sem parar de pressionar as costelas.

Os policiais algemam o Igor e o levam pra viatura.

Rosé morde as unhas. — Ele esbarrou em mim e eu tomei uma pancada na cabeça na bancada por causa do susto, mas eu… não sei se foi por querer.

Na minha vez, coloco as mãos no peito, tentando puxar o fôlego.

Um dos policiais me dá um copo d’água.

— B-brigada.

— A senhorita vai precisar de atendimento médico? — o Investigador Pinheiro me pergunta.

Coloco o copo no móvel do centro. — Não! Eu… eu tô bem!

— Pode me relatar o ocorrido?

Yoongi fala em coreano no telefone à esquerda, e Jimin em inglês com os hóspedes à direita.

Rosé manda áudios pro Namjoon e pra Sra. Park.

Me encolho no sofá. — Eu… eu não conseguia pensar em nada direito na hora… só que eu… que eu precisava respirar… eu… eu já conhecia ele antes…

— Ok. — O Investigador digita no tablet. — O acusado e uma das vítimas já tinham um vínculo.

— Não é isso, é… ele tinha mexido comigo e com a minha amiga numa balada… mas na época a gente… a gente ficou com medo de denunciar ele…

— Ele ameaçou vocês?

— Não… foi porque a gente… a gente ficou com medo.

— Entendido, senhorita. Precisamos que você preste esclarecimento na delegacia junto com as outras vítimas e testemunhas. Você tem algum meio de locomoção ou gostaria de ir com a viatura?

Faço sinal de positivo com o polegar. — T-tenho já. Obrigada.

O Investigador sorri e seus olhos ficam pequenos. — Você é a menina da maleta, né?

— Sim…

— Vai ficar tudo bem, criança.

Meus olhos ardem ainda mais. — V-você lembra de mim?

Ele ri. — Claro.

Yoongi e Jimin vão em uma viatura enquanto Rosé e eu vamos no carro dela.

Na delegacia, os assentos estão mais azuis do que antes, as luzes mais brancas e o ar-condicionado no talo. Dessa vez, não tem nenhuma Tenente me oferecendo bala de caramelo ou um pedaço de lasanha. Nenhum policial sorridente.

A policial e o Escrivão que estão sentados na frente de uma pilha de papéis me mandam sentar. Mal tenho tempo de me acomodar no banquinho que machuca as costas ou de fazer careta pras sementes de maracujá desbotando na bandeira de Costaré.

Juntos pela maré, movidos pelo labor.

Esse lema é mesmo uma piada.

Tanto labor pra acabar desse jeito horrível.

Pisco forte e respiro até meus ombros relaxarem um pouco.

Alguém caminha do meu lado na direção da recepção da delegacia.

Esbarro no mocassim do Yoongi.

Ele não diz nada, mas a cara dele arde ao mesmo tempo que a minha.

Um homem careca de pele escura está na frente do computador, chocando os coturnos um no outro e assobiando. Seu uniforme está mais amarrotado do que eu me lembrava, a barba mais cheia e as olheiras tão ou mais fundas que as do Investigador Pinheiro.

— Delegado! — Yoongi e eu exclamamos, sorrindo largamente.

O Delegado Albuquerque sorri por um segundo antes de se levantar.

— Não esperava ver vocês aqui tão cedo, crianças.

Espalho o suor das mãos na calça. — Nem a gente… A gente veio… veio perguntar do meu carro… e saber como o senhor tava, né, Yoongi? Como vai a vida, Delegado?

O Delegado coça o queixo. — Ah, é mesmo?

Abaixo a cabeça.

— …porque eu fiquei sabendo que agorinha teve uma briga em um estabelecimento, e… olhando pelas suas roupas desfiadas, moça… e pelos seus hematomas, rapaz… vocês tavam metidos nisso.

Yoongi e eu desviamos o olhar pras cortinas com furinhos.

— É… o senhor descobriu a gente — Yoongi sussurra.

— …e pelas câmeras de segurança, foi legítima defesa.

Yoongi e eu trocamos um olhar rápido.

— …até você chutar a cara do sujeito quatro vezes, rapaz!

— Na verdade, foram cinco, Delegado.

O Delegado Albuquerque para de piscar.

— É sério! Eu contei! — Yoongi chacoalha a cabeça.

Não sei se rio, choro, corro ou só fico parada, mas ergo um dedo.

— D-Delegad—

Ele me cala com um gesto.

Yoongi respira fundo. — Olha, Delegado, eu—

— E você, moça? Achei que já tinha dado um jeito na sua vida!

Abro a boca.

— Você ganhou a oportunidade de continuar vivendo e de quebra conseguiu trabalho e moradia! Eu tava esperando alguém vir me contar “Delegado, o senhor se lembra daquela garota do Celta roubado? Olha, que legal: ela tá estudando, tirou a carteira de motorista e ainda conseguiu chegar na Itália!” Mas não! Sabe o que me falaram? Que você tava metida em confusão de novo!

Junto os dedos atrás das costas. — Que novidade: mais alguém que me odeia.

— Odeia?

— É. Mais alguém me culpando.

— Não tem ninguém culpando ninguém aqui, moça.

Minha cara arde o triplo, mas eu levanto o queixo.

— …só tô dizendo que tem coisa que pode ser evitada.

— Como? — minha voz sai baixa.

— Chamando a polícia, talvez?

— Mas—

— Acho que vocês tavam ocupados demais brigando pra se preocupar com as autoridades.

Yoongi e eu nos entreolhamos outra vez. Não sei se ele tá bravo, chateado ou só triste, mas faz meu coração disparar.

Aperto o tecido da calça.

O Delegado ri. — Você já prestou seu depoimento, moça?

— Sim…

— Agora pode ir porque eu preciso conversar com o rapaz.

Faço que sim com a cabeça. — T-tá…

Beijo a bochecha do Yoongi.

O Delegado não disfarça a gargalhada. — Então… qual é a novidade, rapaz?

Me xingo no pensamento, mas sorrio por fora, tão vermelha quanto o Yoongi.

Na entrada, Rosé dorme no colo do Jimin.

— Não faz barulho — Jimin me diz.

Me sento do lado dele em silêncio, fazendo cafuné no cabelo da Rosé.

A luz branca ilumina um homem baixo e gordo de terno bordô. Os sapatênis dele estalam alto, e ele contorce o rosto numa careta, com as bochechas vermelhas cheias de lágrimas.

Ele se abaixa na altura do rosto da Rosé e a chama de uma palavra diferente.

Rosé pula do banco. — AH!

Ela grita com o homem em coreano.

Franzo as sobrancelhas.

— Esse o pai dela, Jimin?

Jimin confirma com um aceno.

— Nossa, ela tava mentindo porque ele é mó bonito!

Jimin ri pelo nariz.

Rosé se afasta do pai.

Ele aperta a maleta de couro debaixo do braço, enrugando a testa.

— Jimin…

— Quê? Fala.

— Do que eles tão falando?

— Ela tá perguntando se ele não cansa de fazer ela passar vergonha.

Tapo a boca.

— Vergonha? Eu só tô preocupado com você, minha filha!

— Eu não preciso da sua preocupação!

Arregalo os olhos.

— De polícia você entende melhor do que eu, né, pai? Me deixa em paz! Vai cuidar dos seus processos que você ganha bem mais!

— Tudo que eu faço é pelo seu bem, Roseanne!

Uma mulher loira e alta, magra com um macaquinho de linho bege entra na recepção, segurando a Rosé pelo queixo.

— Ah, não, mom! You too! Puta merda! Stop. Embarrassing. Me!

— Nossa, a mãe dela também é mó linda! Elas têm o sorriso igual!

Jimin ri, com a mão na barriga. — Ai, Lali! Só você mesmo pra falar isso logo agora… Não me faz rir porque ainda dói tudo!

— Desculpa. — Massageio os músculos dele por cima do uniforme. — Nossa. Me passa seu treino.

Ele me dá uma cotovelada de brincadeira, contorcendo a cara no meio da risada.

O pai da Rosé pergunta porque ela desafiou o cara.

Ela chama o pai de machista por colocar a culpa nela e se afasta dele.

Ele vai atrás e diz que se expressou mal.

E diz que ama a filha mais do que tudo no mundo.

Leave.

Bother.

Cry.

Love.

Daughter.

Meus olhos ainda estão pinicando quando a pele do pai da Rosé rejuvenesce. Empalidece, empalidece, empalidece. Seu cabelo fica castanho-escuro, castanho-claro e então loiro mel. A voz afina.

Fecho os punhos. — Papà?

Figlia!

Ele me abraça.

— Eu tô errada por sentir como se você e a mamãe tivessem me abandonado? Eu sei que… que não foi de propósito! Eu só… eu só não queria ter perdido vocês!

Neanche noi, figlia… neanche noi!

Mamãe me abraça, fazendo carinho no meu cabelo. Seu rosto ainda não tem os traços nítidos, e sua voz ainda não tomou forma, mas ela está linda. Linda. Linda. Seu cabelo é longo cor de caramelo, e ela usa a mesma roupa florida do polaroid que o papai deixou comigo.

Os lábios dela se mexem em forma de “te amo”.

Rosé e seus pais ainda estão discutindo na mesma posição.

E eu ainda estou aqui na cadeira, soluçando.

Com frio.

O relógio marca 02:49.

Passou isso tudo?

— Lali! — Jimin me acorda. — Eu saio pra tomar café e você dorme na cadeira toda torta? Cê tá bem?

— Eu dormi? Eu nem percebi! Nossa…

Jimin me direciona pro corredor. — Quer um café?

— Vai ser o jeito, né?

Encosto os dedos na borda do bebedouro e tento normalizar a respiração.

Um telefone toca.

Policiais caminham com papéis e mais papéis.

E faz muito frio.

— Você ainda tá muito abalada! Vou pedir pro Yoongi te levar de volta pro Solaris! Pode deixar que eu resolvo tudo aqui!

— D-desculpa, Jimin… eu não era pra ter puxado a briga… Agora você e o Yoongi vão… vão se ferrar por minha causa…

— Vamo não, Lali. Não muito. Você… você não fez nada errado. A gente só vai ter que pagar o hospital do Igor.

— Sério?

— Sim. Ele disse que nunca mais vai aparecer em Costaré e… nem quis denunciar a gente.

— P-por que não?

— Essa história vai pegar muito mal na empresa dele… então eles devem mandar ele de volta pra Rússia.

— Tendi. Achei que iam deportar ele.

— Não, ele se safou por causa do bebê. E engenheiro não fica sem emprego nunca, né? Então digamos que ficou até que suave pro lado dele.

— É. Não serviu pra nada aquele monte de porrada, né?

Jimin ri, apontando pros machucados. — Não mesmo.

— Mas e… e você e o Yoongi?

Jimin se estica no banco. — É foda, Lali. O Delegado disse que ficou tudo registrado. Não tem garantia de nada. Mas hoje a gente se livrou, pelo menos.

— Quando eu prestei o meu depoimento me disseram que mesmo se eu não denunciar, ele pode responder por ter tentado me… me…

Toco meu pescoço. — T-Tá muito roxo?

— Um pouquinho.

— Merda, logo agora que a minha barriga tava começando a cicatrizar! Não é possível que eu vou arrumar outra cicatriz!

— Cê tem que ir no médico.

— Você também.

— Eu sei. Sinceramente… eu tô mais preocupado com o Mestre Kang…

Sorrio de lado. — Ele vai ficar muito bravo, né?

— Meu medo é ele não me aceitar mais no dojang. O Yoongi não vai falar nada, mas eu sei que ele também tá com medo. A gente quebrou a mão do Igor.

— Quebrou?

Jimin aponta pra portaria. Uma enfermeira está enfaixando a mão dele do lado de uma ambulância aberta. Um bebê dorme num carrinho com estampa de zebra enquanto uma mulher tão pálida quanto o Igor chora até soluçar.

— M-mas…

— É, Lali. Infelizmente é isso mesmo. Ele acabou de ter esse filho e… Você sabe como é difícil crescer sem seus pais.

Engulo a seco. — É. Sei. Mas… eu ainda tô com ódio da cara dele!

— Tá tudo bem, Lali. Esse é o mundo que a gente vive. Infelizmente.

— É. Infelizmente, Jimin.

— A gente precisa aprender a desviar de gente assim pra continuar vivendo.

Tiro as mãos do Yoongi da minha bochecha. — E a Angeline?

— Deve ter tido alguma reunião porque ela não me atendeu.

— Ela vai ficar brava com a gente, né?

— Brava não. Preocupada e chateada só.

— Não sei o que é pior, Jimin! — Bocejo. — Na moral, eu tô com tanta fome que comeria até trufa de abacaxi!

— É mesmo? Olha como você é sortuda!

Jimin me mostra o bolso do uniforme cheio de trufas.

— Eu tava brincando!

— É o melhor que eu posso te dar agora!

A gente funga ao mesmo tempo.

Jimin ri.

Eu rio também, limpando o rosto. — Obrigada por tudo! Mesmo! Já falei que eu te amo hoje?

— E eu já te falei que eu te amo também?

A gente se abraça de lado.

— Chama o Yoongi pra mim?

— Chamo.

Passos apressados nos paralisam.

A figura de uma mulher alta de pele escura e terno de alfaiataria toma forma na luz, e meu sorriso se abre sozinho.

— L-Lice!

— P-princesa!

Alice tira dois sanduíches naturais da bolsa e duas caixinhas de Del Valle de uva. Enquanto Jimin e eu comemos em silêncio, ela maquia os nossos machucados.

— Lice…

Ela se senta no banco do lado do bebedouro.

— Princesa… A gente…

Alice mexe no celular, respirando fundo.

— A gente tá falando com você, Lice!

Ela se levanta. — Por que ninguém me falou nada na hora? Por que eu tive que descobrir tudo só agora depois de todo mundo?

— A gente…

Alice estica uma mão. — Por que eu tive que descobrir tudo pelo pessoal da limpeza e não por vocês?

— Você disse que aquele processo ia ser importante, Alice! — Jimin diz, tentando tocar nas bochechas dela. — Você acabou de entrar nesse estágio, como eu ia te atrap—

— Mais importante do que vocês?

Jimin e eu soluçamos.

— L-Lice… eu juro que era pra ser um dia feliz! Eu tava no zoológico com a Rosé! Eu queria que você tivesse ido junto! A gente ia se divertir muito!

— Você não teve nem coragem de me ligar, Lali!

— Para de ser sem noção, Alice! Você acha mesmo que eu ia te ligar nessa situação? Eu voltei pro Solaris e… e vi aquele cara e… aconteceu… me desculpa… eu não queria te preocupar e—

Ela larga a prancheta no banco e me abraça. — Por que você não me avisou o que tava acontecendo? Eu não mereço o mínimo de consideração?

Jimin beija a testa dela. — Você é que tinha que ter me falado o que aconteceu, princesa! Desde aquela época!

Alice se separa dele. — Vocês têm noção do quanto eu tô tremendo? Você podia ter se machucado feio, Jimin! Podia ter sido indiciado por lesão corporal! E você, Lali, ele podia ter t—

Jimin a abraça outra vez.

Alice soluça contra o ombro dele.

Me afasto um pouco deles, enchendo um copo d’água.

Alguém arrasta um sapato social pela delegacia.

“Almeida Lux Automóveis” está escrito no paletó prateado do Tio Eduardo em letras azul-marinho.

— Lali! — Tia Soraya me cumprimenta, ajeitando o turbante florido ao redor das tranças marrons.

— Tia, você tá linda!

— Como você tá?

— Bem e você?

— Bem.

— A gente só ficou sabendo do que aconteceu agora pelo Namjoon! Viemos correndo! — Tio Eduardo diz, beijando minha testa. — No que cês foram se meter, hein?

— Desculpa…

Jimin e Alice se aproximam de nós.

— Boa noite, Seu Eduardo… Boa noite, Dona Soraya…

Tio Eduardo dá um tapinha no ombro do Jimin. — Ah, moleque, mas também, né? Se você não desse tanta pinta, o cara não ia ter te confundido com uma mulherzinha!

QUÊ?

Jimin petrifica.

Alice petrifica.

Eu petrifica.

— AMOR! — Tia Soraya cerra os dentes.

Tio Eduardo levanta os braços. — Eu tava só brincando, garoto! Mas tenta ser, sei lá, um pouquinho menos frouxo, poxa! Ou eu vou ser obrigado a pedir pra Alice escolher melhor o namorado dela!

Ai. Meu. Deus!

— Amor, para com isso! — Tia Soraya entra na frente dele.

Jimin, Alice e eu ainda estamos na mesma posição.

Sem piscar.

Sem ar.

Com as bocas abertas.

Tia Soraya sorri. — Jimin, meu bem, vem cá! Me desculpa, viu? Não é nada isso que ele tá falando! Deixa que eu falo com ele, Eduardo!

Me encosto na parede.

— …a gente tá feliz que você ajudou a nossa filha, meu querido! Não liga pro que o Eduardo falou, ele… ele ainda tem aquela mente meio… antiga, sabe?

Jimin faz que sim com a cabeça, mas não sorri.

Os olhos dele se enchem d’água ao mesmo tempo que os meus. Tia Soraya o leva até o lado de fora.

Do outro lado do bebedouro, Alice grita com o Tio Eduardo:

— Pai, pra quê o senhor e a mamãe tinham que vir atrás de mim? Eu disse que eu que ia conversar com o Jimin!

— A gente não pode apoiar você, minha filha?

— Apoiar, pai? O senhor… o senhor acabou de humilhar ele!

— Humilhar? Eu fiz uma piada, Alice!

— Foi de muito mau gosto, pai! Muito! Não era pro senhor ter falado nada!

Tio Eduardo ri. — Tá bom, filha: depois eu pago um churrasco pra ele.

Alice cruza os braços. — Ele já tá preocupado com um monte de coisa: a Sra. Park quase não aparece no Solaris, o vestibular tá chegando, e agora isso! Ai meu Deus! E se ele terminar comigo por sua culpa, pai?

Fico a um passo de me intrometer na discussão, mas Alice grita:

— Eu não quero ninguém se metendo no meu relacionamento, pai!

Tio Eduardo segura as mãos dela. — O problema, filha, é que tudo eu descubro depois de todo mundo. Se eu não tivesse visto vocês na Festa Junina, eu nem ia saber que vocês estavam juntos. Se essa discussão não tivesse acontecido…

Engulo a seco junto com a Alice.

— …eu nunca ia saber o que aconteceu naquele dia. Você sabe o quanto doeu saber que a minha filha passou por tudo aquilo numa balada e eu não pude fazer nada?

— D-desculpa, pai… Eu… eu não queria incomodar o senhor e a mamãe!

— Incomodar a sua própria família? Já te falei pra parar com isso, Maria Alice! Você é o amor da nossa vida, a nossa princesinha! A gente te ama!

Te ama!

Ama!

AMA!

— Então… por que... por que vocês nunca falaram? Por que só falavam que eu tava fazendo a minha obrigação na escola? Por quê? Por quê? FALA!

Soluço sem querer.

Alice me vê.

Enxugo o rosto, consertando a postura do queixo e das costas.

Meus pés se movem sozinhos até a saída.

Tropeço na calçada e caio sentada com as mãos debaixo do queixo.

O perfume de caramelo do Yoongi se espalha pelo ar, mas tem uma fumaça esquisita no meio.

— Você… você fuma? Achei que você odiava cigarro! Sabia que faz ma—

Ele se vira de lado e dá mais uma tragada.

— Achei que você era inteligente, Yoongi.

— É só quando eu tô estressado…

— Se eu fosse seguir essa ideia, eu ia ter que usar essa merda todo dia! Isso vai foder o seu pulmão!

Na mão direita do Yoongi, tem algo sujo de poeira. Me aproximo dele e a luz bate no crochê: seu chaveiro de maracujá está todo amassado.

— Cê ainda tem isso? Cê tinha odiado!

— Eu… ia… eu…

Yoongi pisa no maço.

E joga o chaveirinho no chão.

Meu sorriso se desfaz.

Yoongi abraça os joelhos contra o peito. — Eu tinha esquecido no bolso.

Mentiroso de uma figa!

Deito a cabeça no ombro dele. Yoongi se inclina pra frente, resmungando alguma coisa em coreano.

— Cê tava me xingando, é? Tomara que a sua língua caia, seu idiota!

Yoongi ri baixo. — Eu tava me xingando.

— Cê ainda tá bravo comigo que eu sei! Quer dizer… chateado.

Ele rói as unhas.

— Yoongi…

— Que foi…?

— Eu sei que não é hora de ficar falando da gente, mas… brigada. Mesmo. De verdade! Não precisa dizer que você só fez o básico, eu já sei que você vai falar isso.

Respiro perto do ombro dele, cheirando seu cabelo.

Yoongi se encolhe.

Toco na cintura dele. Sua camisa social está toda suada e a bainha desfiada do paletó me faz rir por dois segundos.

— Depois eu vou costurar pra você.

Ele murmura algo que eu não entendo outra vez.

— O Delegado falou alguma coisa do meu carro?

— Não.

Faço bico. — Que que ele falou?

Yoongi enfia as mãos nos bolsos. — Pra eu parar de arrumar briga e tomar um rumo na vida logo se não quiser ser uma vergonha pra minha família e… quiser passar dos 20.

Baixo a cabeça. — E-e o que que você respondeu?

— Nada.

— Nada?

— Tô cansado.

Chuto uma pedrinha da calçada.

— Acho que seus pais vão falar a mesma coisa que ele.

Yoongi me olha de lado. — Jura?

— A culpa foi minha — sussurro. — Desculpa mesmo.

Yoongi ri pelo nariz. — Eu não vou aceitar.

— P-por quê?

— Nem do Igor eu aceitei, quem dirá de você que… nem fez nada.

Minha garganta dói.

— Relaxa, Lali. Você vai chegar lá.

— Chegar lá onde?

— Nos 20.

— Tomara.

Pressiono um dedo na minha esquerda dele.

Yoongi abafa a risada contra o meu cabelo. — Tomara.

— E tomara que… que os seus pais não briguem com você. Mas se eles brigarem… aproveita e briga de volta! Você tem que aproveitar essa sorte, minha girafa!

Yoongi mexe as sobrancelhas.

Bocejo. — Deixa eu ver as suas rosetas, minha onça-pintada!

— A-as minhas ro… o quê?

— Você também corre longas distâncias?

— Vai dormir.

Entrelaço nossos dedos e Yoongi endurece o corpo.

A mão dele está mais gelada do que o vento, e o pescoço mais quente do que o calor na minha nuca.

— Que horas são?

— 03:19.

— E que horas você vai me levar embora?

Yoongi estala a língua.

— Me leva na sua moto, por favor!

— O Jimin vai com você de Uber.

— Não quero!

Yoongi boceja. — Então pode ficar aí.

Não sei se o que está na nossa frente são ambulâncias, postes ou pessoas correndo, mas faz barulho. Muito barulho.

Minha língua está salgada. — Q-que frio, Yoongi!

— Entra.

— Não! Eu quero ficar perto de você!

— Então continua aqui sentindo frio.

Encosto um dedo na bochecha dele. — Se eu balançar a árvore do meu coração e cair algum gringo nos meus galhos, ele não vai ser capaz que nem você!

Meu olho arde. — Mesmo me fazendo feder à cinzeiro, você ainda é…

Balanço a cabeça de um lado pro outro, coço a orelha, a nuca e as bochechas e gargalho.

— ...a minha arara arlequim… o meu lobo-guará… e a minha onça-pintada! Mas não me beije! Me queira bem e seja monogâmico comigo! Eu... eu posso ser sua sucuri! Eu…

Minha cabeça cai no ombro dele.

Bocejo pela terceira vez em menos de um minuto.

O policial de boné roxo passa pela entrada de novo, com mais um copo de café.

— Aquele zoológico fodeu a sua cabeça.

As mãos mordidas do Yoongi são a última coisa que eu vejo antes da luz desaparecer.