Anything But Ordinary

18 Arriscar é o suficiente?


MAIA SORRI PRA MIM NA RECEPÇÃO. A luz amarela ilumina suas olheiras, o macacão azul e o carrinho com o rodo, álcool e Cif.

— Ei, Lali, o Caíque limpou a sala de estudos e achou isso aqui! Por acaso, cê sabe de quem é?

Maia estende o chaveiro de maracujá do Yoongi. Limpo. Sem nenhum amasso.

Minha cara arde. Nossa, como ele consertou rápido!

Paro de digitar no WhatsApp do Solaris. — Ah… deve ser do… do… Yoongi! Pode deixar que eu… que eu entrego pra ele!

Guardo o chaveiro no bolso.

Maia continua varrendo a recepção.

— Cê quer ajuda?

Ela nega com a cabeça.

— Conseguiu matricular a Gabi na natação?

— Que nada! Ela quis mudar pro balé de última hora, cê acredita? E o tio ainda dá corda! É mole?

Caíque passa pelo corredor, arrastando o carrinho amarelo e sorrindo pra mim.

— Ah, mas balé também é massa! E se eu fosse o Caíque também ia querer mimar a minha sobrinha!

— Vocês são dois ridículos, Lali! — Maia chuta o carrinho, rindo. — Cê acha que eu não sei que foi vocês que deram aquele monte de Fini escondido pra ela?

— Não me mata, por favor!

— Você é péssima, menina!

— Mas todo mundo me ama!

Ela me mostra a língua, limpando a bancada. — E… como foi lá ontem?

Estalo as costas. — Complicado.

— Você tá bem?

— Tô. Do jeito que dá…

— Imagino. A Sra. Park tava um caco. Cê precisava ver. Eu nunca vi ela tão mal. O Namjoon e o Caíque tiveram que levar ela no PA.

Sacudo os ombros. — Ainda bem que eu não vi… porque eu já não consegui dormir direito sem ver, imagina se tivesse! Misericórdia!

— Seu pescoço ainda tá doendo?

— Não! Por quê?

— Milagre! Do jeito que cê dormindo no colo do Yoongi quando cês chegaram de madrugada, eu achei que cê ia acordar com torcicolo! Ainda mais depois de tudo que você passou…

Minha voz soa gritada na minha cabeça:

“Minha arara arlequim.”

“Não me deixa cair, gatinho.”

“Se segura em mim, Lali!”

Aperto os olhos. Merda!

— É… você… sabe se… ele… ele… tá…

— Ele tá descansando. Todo mundo tá, na verdade.

Bufo. — Menos eu que caí na escala justo hoje! Que sorte!

— Pelo menos você tá viva. Podia ter sido bem pior, Lali.

— E-eu sei…

Passos se aproximam da bancada. O barulho é de um scarpin vermelho. Uma clutch dourada da Saint-Laurent aparece logo em seguida, e uma hóspede de cabelo ondulado, curto, escuro e franja pisa na recepção. Seu tubinho preto está tão colado na cintura fina que eu me pergunto como ela respira.

E como alguém usa tantas joias ao mesmo tempo.

Welcome to Solaris!

Antes que eu diga qualquer coisa, a hóspede mexe no blazer de alfaiataria nos ombros e faz carinho na cachorrinha de pelo preto e lacinho rosa (que dorme no braço dela).

— Estou com pressa, então preciso que façam o meu check-in imediatamente! — a voz dela é fina e tremida, mas me arrepia.

Abro o site do Solaris.

Maia levanta o olhar da bancada e larga o paninho verde no carrinho. — Ah, não, Senhor, aí é sacanagem! Hoje não! Não é possível isso!

A hóspede deixa a cachorrinha no sofá.

Tira Vida Secas da bolsa.

E acena pra Maia. — Samara, querida, quanto tempo!

— É, Jennifer. Muito tempo.

Minha sobrancelha ainda está erguida quando a Jennifer sorri.

— Achei que você não tinha me reconhecido agora que eu dei um upgrade, Samara! Morena iluminada combina mais com a minha cartela, right?

Maia nem pisca.

— Não queria atrapalhar seu trabalho, querida. Gostaria apenas de realizar o check-in. Já começou, chouchou?

Que abusada! Agora eu tenho que correr?

Escondo a língua no céu da boca pra não xingar ela.

— Sinto muito, moça — suavizo meu tom —, mas não se pode entrar com animais no Solaris! A senhora já tinha feito a reserva pelo site? Qual seu sobrenome, por gentileza?

Jennifer me mostra seu passaporte vermelho. — Não fiz. Fecha dois quartos pra mim e pro meu namorado under Sartori. A gente tá de celibato, you know?

Bocejo. É cada uma…Um foda-se do tamanho de Costaré pra vocês dois!

Jennifer apoia a cachorrinha na bancada e faz sinal pra eu agilizar.

— Moça, eu não tenho nada contra animais de estimação, muito pelo contrário, mas vou repetir pra ficar bem claro: aqui no Solaris não é permitida a entrada deles. Não pode mesmo! Eu não tô afim de tomar esporro hoje!

Desço o olhar pro nome dela no passaporte. — É… Senhorita Jennifer Sartori Romano…

Ahn?

Jennifer?

A cachorrinha late.

Maia se escora na vassoura, massageando os ombros.

Franzo o nariz.

— Xiu! Quiet, Nari Sartori Romano!

Nari?

Jennifer fala uma frase em inglês que eu não entendo.

Maia e eu trocamos um olhar.

— Ninguém vai me responder?

— P-pode repetir? — digo.

— Impressionante como alguns lugares ficam sempre na mesmice. Ô povinho sem cultura! É por isso que Costaré não vai pra frente nunca!

Dou um tapa na bancada. — Do que que cê tá falando, eu posso saber?

— Para, Lali! — Maia toca meu ombro.

— Vocês só têm três funcionários que falam inglês fluente! Nem a Sra. Park sabe direito! Uma ver-go-nha! Não é à toa que… cês tão falindo, né?! Well done!

Cerro os punhos. — Como é que é, idiota? Repete!

Maia me impede de avançar na Jennifer. — Para, Lali.

— Eu estava registrando cada mísero detalhe da minha avaliação como Cliente Oculto, mas irei parar por aqui. Até mais ver!

— C-cliente Oculto? — Maia e eu sussurramos.

— Ah. Claro. Nem pra isso treinaram vocês direito! Interesting… E bem engraçado. Serves y’all right!

— O que que é engraçado? Isso aqui? — Mostro os dedos do meio pra ela. — Cê acha que eu tô com medinho da merda de uma avaliação ruim?

— Proíbem que os hóspedes tragam animais, mas deixam funcionários terem gatos de estimação. Que conveniente, oh my gosh!

— Você… você…

A voz do Yoongi soa na minha cabeça:

— Não tinha um nome mais original, não?

— Sei lá…

— Luna? Nari?

Ah, Yoongi…

Entendi qual é a sua!

— Parabéns por perderem mais dois clientes.

— Vaza daqui, minha filha, cê nem vai fazer falta aqui! Vai fazer esse seu celibatinho lá na casa do caçamba!

Jennifer ajeita o óculos e a bolsa antes de parar na porta. — Mande lembranças à Angeline, Samara. See ya! Se é que… vocês vão continuar aqui, não é mesmo? What a shame! XOXO, flor!

Jennifer sai, rindo baixo.

Os nós dos meus dedos estão brancos, a respiração acelerada e o suor escorrendo pelos lados da cabeça.

— Nem parece que o ar tá no 18° — falo.

— Você se exaltou demais, Lali!

— Eu sei, Maia, eu sei! Mas… ah, que vontade de voar no pescoço dessa sonsa! Eu odeio gente assim! Odeio! Você ouviu ela ameaçando a gente?

— Não era uma… ameaça, né?

— Como assim? Do que que você tá fal—

Maia sai pelo corredor.

Fico parada por uns dois minutos só respirando devagar.

Mais volta e se joga no sofá do meu lado, me oferecendo um copinho de café. Bebo tudo com uma careta.

— Você conhecia essa imbecil da onde? Por que ela ficou te chamando de Samara? Só pra irritar, né?

Maia massageia as mãos. — É, mas… ih, é melhor você nem querer saber muito porque é uma história longa! Tem a ver com o Yoongi! Nem vou me meter!

Jennifer.

Jennifer.

Jennifer!

A yorkshire.

O namorado obediente.

A carteira!

Agarro meu couro cabeludo. — Merda, como eu não saquei antes?

Como o Yoongi foi namorar uma garota assim?

A imagem dela brincando com o Duri no quarto do Yoongi faz meu estômago revirar. Sua voz voz e risada soam gritadas dentro da minha cabeça.

Aff. Até o Duri ela conheceu! Ele devia gostar muito dela! O Yoongi também pelo visto!

Eu sou bem mais bonita que ela, mas…

A Jennifer deve ter uma família. Nome. Dinheiro.

Então… como o Yoongi ficou comigo?

Eu sou…

O que sobrou?

Me estico no sofá. Olha o nível que eu cheguei: tô delirando por causa de um garoto que nem meu namorado é! ARGH!

E também… eu…

Eu só ouvi a versão dele! Pode ser tudo mentira!

Ela com certeza ia me falar outra coisa!

Ia falar mal dele?

Pior: ela pode ter mudado!

Como… como eu vou confiar?

— …tá me escutando, Lali? Eu não vi graça nenhuma nesse seu comportamento, muito pelo contrário!

Salto do sofá.

Não tem nenhum hóspede na recepção. Nenhum sinal da Maia.

Minha playlist de Hits da Pitty está desligada.

Quanto tempo passou?

Só existe o cabelo dourado da Angeline, seu macaquinho de linho mostarda e seus olhos semicerrados.

Seco o suor das mãos no uniforme. — O-oi, Angeline. Pode falar. Desculpa… Eu me distraí.

— O que você fez foi inadmissível!

Antes que eu a interrompa, ela ergue um dedo. — Você foi treinada pelo Yoongi! Eu tenho certeza de que ele não te ensinou a tratar ninguém desse jeito! A família Sartori é muito conhecida aqui em Costaré! Ai meu Deus… É uma resenha negativa deles e… e… você tem noção disso?

Minha risada sai grave e curta. Fodeu mesmo!

— Tem, Lali?

Meu sorriso murcha. — D-desculpa… é só que… eu… nunca tinha te ouvido falar tão sério assim com alguém!

Angeline coloca as mãos na cintura. — Eu quero que você me explique o que aconteceu tim tim por timtim!

— É… você não consegue olhar na câmera? Não sei se eu vou conseguir lembrar de todos os detalhes!

— LALI!

Me retraio atrás da bancada. — Tá, tá! Ela veio toda arrogante pro meu lado e da Maia e eu não gostei. Só faltava ela esfregar o passaporte na minha goela! Eu tinha que retrucar! Não consegui ficar quieta!

— Eu te entendo, Lali, mas aqui no Solaris você precisa manter a postura profissional! Não é assim que se trata um possível hóspe—

— V-você vai ficar do lado dela?

Angeline respira devagar. — Não, Lali! Não é questão disso, eu só dizendo que o cliente sempre tá certo! A última palavra é deles! Nós de-pen-de-mos deles!

— Ela queria desmerecer a gente só porque a gente não entendia quando ela ficava misturando inglês com português! Tava me dando agonia já! Se ela tá no Brasil, ela que lute pra falar português! Eu hein!

— LALI!

— Ai, mereço, Angeline! Que que é, hein? Você queria que eu implorasse de joelhos pra ela parar de me humilhar? É isso?

— Não—

— Faz o seguinte: já que você quer continuar atendendo gente sem educação aqui, então fecha essa merda desse hostel de uma vez!

Angeline para de piscar, com a boca aberta.

Tapo a minha. — D-desculpa! Foi sem querer! Eu juro! É… se… se você quiser me demitir, eu vou aceitar!

Angeline passa as mãos na cabeça. — Só preciso que você se retrate com a Jennifer. Não quero ter que tomar nenhuma medida drástica!

— Eu não vou! Não. Vou! É humilhação demais! Eu me recuso!

Angeline segura a nuca. — Lali, por favor, quando você vai crescer?

— O que que isso tem a ver?

— Tudo, Lali. Tudo!

— Mas o que que eu fiz de errado? Eu não entendi!

— Você não consegue fazer nenhum esforçozinho sequer? Tenta entender: isso aqui é um negócio!

— Eu sei, Angeline, mas—

— Você precisa fazer coisas que não gosta!

— Mas—

— Nem tudo é sempre do nosso jeito, Lali!

— Mas—

Ela me cala com o sinal de silêncio. — O Solaris já existia muito antes de você. Sempre foi assim. Não é agora que vai mudar!

Balanço a cabeça pros lados três vezes. — Por que vocês não mudam então?

— Depois a gente conversa, Lali. Tô com zero paciência hoje. É, sério. Cresce. Vai ser bom pra você!

Angeline anda na direção da cozinha com as anabelas fazendo um barulhinho irritante.

Fecho as mãos em forma de soco. — Ai, mas se eu for demitida, eu mato aquela filha da puta! Eu mato! IDIOTA!

Só então meus olhos param no relógio. Estranho. 19:21 e o Jungkook não chegou ainda... Cadê esse garoto? Eu tô cansada!

O cheiro de terra molhada se espalha pelo ar junto com um barulho de sapato pesado.

Uma figura masculina alta, malhada e de cabelo escuro se aproxima da bancada.

— Desculpa a demora, Lali! — Jungkook tira a lama dos coturnos, a poeira da T-shirt branca e aperta as alças da mochila. — Minha aula acabou tarde hoje e eu peguei o ônibus atrasado!

— Tranquilo. O Yoongi já tá vindo pra continuar seu treinamento. Tchau. — Aponto pra pilha de papéis. — Tentei deixar poucos pra você. Me agradece depois.

— P-peraí! Preciso falar com você!

— Outra hora, Jungkook. Outra hora! Agora eu preciso descansar!

O sorriso dele se desfaz e seus olhos voltam a ficar grandes. Mal tenho tempo de deixar minha consciência pesar tanto quanto a dor nos meus ombros, correndo pro quarto.

Prestes a abrir a porta, uma voz me paralisa:

— …mas você tinha que ter me defendido, Alice! Cê ia gostar se a minha mãe ficasse fazendo piadinha de você na minha frente?

Ahn?

A luz do quarto ilumina o cabelo loiro do Jimin e o colete jeans de onças com os cotovelos pelados.

— Ele falou brincando, Jimin! E outra: eu te defendi sim, mas você tava falando com a minha mãe lá fora na hora!

Me escoro na porta do quarto do Jimin. Nem preciso levantar a cabeça pro cabelo afro dela. Só pelo vestido florido, alpargatas e perfume de morango eu já sorrio.

Mas meu sorriso se desfaz quando o Jimin grita:

— Não espera eu ir embora pra começar a valorizar, Alice!

— Não fica de ameacinha, não, Jimin! — Alice grita de volta. — Cresce!

— Olha como você tá falando comigo, Alice! Eu não sou criança!

— Mas tá parecendo, Jimin, tá parecendo! Se você quer terminar comigo, fala logo e termina de uma vez!

Eita!

— Ah, então esse papo é porque você queria terminar muito antes, né? Bem que eu desconfiei… Não era só paranoia das vozes da minha cabeça!

— Me economiza, Jimin!

— Manda a real, Alice! Fala na minha cara de uma vez: sem joguinho!

— Na moral: me dá um tempo! Deixa eu respirar!

Jimin estala a língua. — Tempo, Alice?

Nossa!

— É, Jimin! Tempo! Tempo! TEMPO!

— E eu sou algum relógio?

Prendo a risada. Besta!

— Olha, Jimin, me escuta bem: esse seu jeito já tá me cansando!

— Você… você cansou de mim?

— Jimin, a gente não tá conseguindo conversar direito e…

— Não, Alice! Agora eu que não quero mais te ouvir! Vou te dar o tempo que você queria! Me esquece! Tchau!

— Peraí, Jim—

Jimin para na porta. — Segue sua vida, Alice! O bom é que… é que agora você pode achar um “partido melhor”, um cara menos “mulherzinha”. Leva ele pra um churrasco! Seu pai vai a-mar ele!

Ele corre até o jardim, chorando até soluçar. — Me esquece, Alice! Não quero mais saber de você! Não olha mais na minha cara! Tá? Nunca mais!

Alice enxuga as bochechas e bate a porta. — Por que eu fui gostar logo de você? Idiota! Infantil! Mimado! Que ódio!

— Lice…

Ela sinaliza “me deixa sozinha”.

Levanto as mãos. — Não tô mais aqui!

Caminho até o final do jardim.

Me agacho na altura do Jimin (que está arrancando as pétalas de uma camélia com força).

— Oi.

— Oi.

— Bora pra mostrar quem é criança pra geral!

Jimin me olha de canto de olho. — Dispenso.

— Eles vão tudo pagar a língua, Jimin!

Ele funga. — Do que que cê tá falando?

— Me aguarde! Melhor: vem comigo!

Eu o direciono até o meu quarto. A cada passo meu sorriso fica maior.

— Eu não sou ingrata. Não sou soberba. Nem feia. Puta. Vocês vão se foder, Kitters!

— Lali…

— Quê?

Monto uma pilha de roupas na cama.

— Você tá me assustando! — Jimin limpa o suor da testa e murmura “tisc”.

— A gente vai unir o útil ao agradável, Jimin! É isso! A Alice e o Yoongi vão chorar de arrependimento e de quebra o pessoal da internet vai calar a boca!

— Ainda não entendi do que que você tá falando!

— Tá! Senta aí!

Ele se joga na beirada da cama, entrelaçando os dedos nos joelhos.

— Não… — Deixo a blusa rosa no chão. — Muito cara de figurino!

— Essa tá muito cafona…

— Muito pelada!

— Muito caricata!

— Lali. — Jimin raspa a garganta. — Me. Explica!

Bufo. — É meu plano pra… pra…

— Saquei… Arrependimento, né?

Uma lágrima escapa de mim. — J-Jimin…

— Ahn…

— Desculpa.

— Pelo quê?

— Eu fiquei com muita raiva ontem quando o Tio Eduardo falou aquilo de você e… e na hora… eu não consegui falar nada… eu… a minha consciência pesou porque… porque antes de eu te conhecer… eu também achava que você era… que você era… sabe? E mesmo se fosse, eu não ligava! Eu nunca quis te magoar! Me… me desculpa mesmo! Não… não ouve ninguém, tá? A Alice gosta de você! Eu ouvi ela te defendendo! Eu sei que vocês vão voltar!

Jimin seca meus olhos. — Lali, eu também te julguei, sabia?

— S-sério?

Ele me belisca na bochecha, sem fazer força. — Sim. Eu achava que você era bonita, mas aí depois vi que você era feia.

— Sai, canhão! Agora bora voltar pro meu plano! Preciso ver o Yoongi cho-ran-do!

— Ah, na moral, Lali: você e o Yoongi são duas antas!

— Cala a boca!

— Desculpa, antas, ofendi vocês!

Dou um tapa no ombro do Jimin. — Falou o inteligente! Você acabou de brigar com a Alice igual uma criança!

— Você e o Yoongi só ficam discutindo desde que você pisou aqui no Solaris.

— É. Cê tá certo! Pior é que é tudo culpa minha…

— Cês não vão parar nunca? Eu consigo ver certinho: vocês daqui a 40 anos brigando por você fez uma festa surpresa pra ele… ele colocando ketchup na pizza pra se vingar… você desmaiando e vocês fazendo as pazes no hospital! E aí brigando de novo!

— Isso foi muito específico! Mas bora mudar de assunto, né? Tá pesando o clima já!

Portas batendo.

Cabides e mais cabides.

Gel.

Coque.

Gel.

Lip Tint.

Mais gel.

Blazer.

Coturno.

— Você entendeu tudo, né?

Jimin morde as unhas. — Cê acha que isso vai dar certo mesmo?

— Claro, confia na mãe!

— Se der merda, eu vou passar uma semana chorando e você vai ter que comprar trufa pra mim todo dia!

— Mas e a sua dieta?

Jimin corre atrás de mim pelo corredor.

— Eu furo!

— Fura nada!

— Volta aqui, ò trambiqueira!

— Sai, estrupício!

— Bora, Lali, vamo!

Ajeito o blazer. Arrumo a postura do queixo, das costas e do ombro. — Vamo repassar tudo antes!

— Tá.

Gesticulo rápido. — Eu vou primeiro, te mando a mensagem e você entra depois!

Jimin concorda com os polegares.

— Mas cê tem certeza que ela tá lá agora? — sussurro.

— Tenho. Eu mandei mensagem pedindo pra Alice me esperar lá. O Yoongi deve tá fazendo vários nadas na frente do computador fingindo que tá trabalhando.

Gargalho. — Ok!

— Eu queria ser uma abelhinha pra poder ver a cara dele, Lali! Vai ser foda!

— Vai mesmo!

— Com certeza cê vai deixar o menino desnorteado, coitado! Mas a Alice… ela… ela vai parar de falar comigo e vai querer terminar de vez comigo! Se vocês já brigaram antes no dia que a Rosé veio aqui da primeira vez… Quando ela souber que você que deu a ideia… É capaz… dela nunca mais querer saber da gente, Lali!

Bato os pés um no outro. — Cê quer desistir? Fala logo!

— Não, Lali! É só que eu tô me sentindo no meio de uma daquelas pegadinhas e justo nessa tem um daqueles botões que diz “não aperte” e eu vou lá e aperto! Aí… BOOM!

— Já entendi: você tá assistindo filme demais. Chega!

— Você não tá com medo de dar merda?

— Tô.

— Então?

— A minha vontade de ver a cara daquele insuportável é maior!

Jimin endireita a postura e coloca as mãos nos bolsos. — Então bora! Para de enrolar!

— Isso, Jimin! Como é que fala mesmo? É… Fighting!

Ele ri. — Anda logo!

Entro na recepção, controlando meus passos. Minha saia plissada balança conforme eu me aproximo da bancada. As meias pinicam nas canelas e meu coque dói na nuca.

— Ah, Beethoven? Muito me aprazem seus cânticos tão genuínos!

Falei certo?

Alice ri. — Quê isso, Lali? Cê não dormiu?

Estico o primeiro par de óculos até a cabeça, prendo o segundo no suporte do blazer e ajeito o terceiro na altura dos olhos.

Merda, quase que espatifa tudo no chão!

Forço um sorriso.

Me sento de lado no sofá.

Apoio os livros e o copo de café vazio no móvel.

Tomo um gole de ar.

— Ah! Está deveras saboroso este líquido marrom nesta noite gélida do dia oito de…

Viro pro calendário.

— Três de julho de 2025.

Alice se senta do meu lado. — Lali? Cê tá bem?

— Bom dia, Srta. Almeida, como vais vós nesta noite tão bem climatizada neste ambiente globalizado?

— Quê isso: um clone? — Ela me belisca.

Sou obrigada a ranger os dentes pra não gritar.

Merda.Não ri, Alice. Não ri!

O Jimin vai me matar se eu estragar tudo logo agora!

Tomo mais um gole do café invisível. — Não, apenas passei a noite em claro estudando para tornar-me uma pessoa de sucesso. Sabes… onde estás o…

Pelo barulho do computador, sei que ele está mexendo no computador (e provavelmente me olhando como se eu tivesse bebido café com brita).

E como eu vou poder julgar?

— Com licença, Felis Catus. Isto é assunto particular entre eu e a minha melhor pessoa.

— Que porra é essa, Lali? — Alice coloca uma mão na minha testa. — Para com essa maluquice, menina! Desde quando você fala desse jeito e… lê Dom Casmurro?

Isso, Lali! Do jeito que a gente ensaiou!

Raspo a garganta. — Pois este são os meus olhos de ressaca!

— Então cê tá mesmo lendo? Que legal, mas pra quê ficar falando desse jeito esquisito? E… pra quê esse monte de óculos… essas roupas? Nunca vi você assim!

— Não tô entendo merda nenhuma — sussurro.

Levo meu olhar pro Yoongi por um segundo. Lindo.

Puta merda.

Que ódio!

Yoongi continua digitando no computador.

Alice limpa a garganta. — Que que você achou quando leu, Yoongi?

— Não lembro. Isso faz bastante tempo, mas… cada um tem sua própria interpretação — Yoongi arrasta o tom no final da frase.

DROGA!

É AGORA OU NUNCA!

— Há questões que nenhum ser irá esforçar-se para captar suas nuances intempéries e adversidades cotidianas.

Alice ri. — Acho que essa frase não faz sentido.

— Não é pra fazer.

Yoongi faz uma careta. Não sei se esse olhar dele está me chamando de doida em silêncio, se ele só está bravo ou se está triste, mas me faz engolir a saliva e descruzar as pernas.

Alice estala os dedos. — Cê tem que parar de ser amiga da Rosé, sério! Ela tá mexendo com a sua cabeça!

— Tens deveras sentido, Alice!

— Aliás, cê sabe do Jimin? Ele tá demorando! Minha pausa acaba daqui a pouco!

Uma risada curta sai de mim. Ergo o queixo e travo a postura.

— Com licença, Alice. Preciso seguir com os meus estudos. Serás que podrías pedir pro Yoongi pôr-me uma canção daquelas bem barulheiras? Aquelas de homens de rímel preto e senhoritas das guitarras?

Alice diz que sim com as sobrancelhas ainda franzidas e volta pro lado do Yoongi na bancada.

Jungkook entra na recepção e conserta a plaquinha escrito “TRAINEE” na lapela. Ele e Yoongi conversam sobre a agenda dos passeios dessa semana, sem nem me olhar.

Será que eu fui grossa com ele?

Putz!

Balanço a cabeça. Foco, Lali!

Abro o chat com o Jimin.

“Pode vir.”

Ele caminha devagar, mordendo o lábio inferior e passando a mão pelo cabelo.

Isso!

Arrasou!

Jimin paralisa no meio da recepção. Bem no refrão de No One Like You.

— Yoongi, meu mano! E aí, gatinhas!

Alice e Yoongi trocam um olhar.

Jimin e eu sorrimos.

Deu certo! Deu certo! YES!

I Was Made For Lovin’ You começa a tocar.

Jimin tira o celular da jaqueta. Faço bico pra câmera enquanto ele faz sinal de paz e amor.

— Você está diferente hoje, Lali — ele me diz —, parece mais… inteligente!

— E vós… estás mais perigoso!

Rimos juntos.

Jimin olha pro relógio no pulso. — Tô com pressa. Os manos tão me esperando lá no racha!

— RACHA? — Deixo os óculos no sofá. — Peraí também, Jimin! Cê tá falando racha de mulher ou racha de corrida?

— Quê? E tem isso?

— Tem! Você nunca viu no Twitter?

— Aff, a gente tinha combinado de você pagar de fodão, mas… cê tava mesmo indo pegar outras garotas? Mas e a Alice?

Alice cruza os braços. — Do que que cês tão falando? Pelo amor de Deus!

— E-eu — ele aumenta o tom — preciso pegar as chaves da motoca do meu mano Yoongi, tô com pressa, Alice! Depois a gente se fala, gatinha!

Jungkook e Yoongi trocam um olhar, sem nem piscar.

Yoongi ri pelo nariz. — Motoca.

— Merda! Você estragou o nosso plano, Jimin! Eu te falei que não era pra ficar inventando coisa!

— Foi você que teve a ideia de falar difícil, Lali! Você estragou tudo!

— Ai, cala boca, na moral!

— Cala você, Lali!

— Vem calar!

Alice bufa. — Dane-se, eu tenho que terminar um trabalho hoje! Vim aqui só pra falar com você e com a Lali, mas cês parece que fumaram pó de suco de uva! Não é possível! Só pode! AH! Perdi meu tempo!

Yoongi e Jungkook seguram a risada.

Jimin funga. — Eu vacilei com você, Alice.

Ela descruza os braços, apertando o vestido. — Vacilou mesmo…

— Mas você também vacilou comigo!

— Eu sei, Jimin.

— Me perdoa por não ter cumprido com que a gente prometeu um pro outro! Eu não devia ter sido imaturo e gritado com você! Não devia ter batido a porta! Devia ter tentado te entender melhor! Eu—

— Me perdoa por não ter te defendido na sua frente! Eu não era pra ter falado com meu pai longe de você… Era pra eu ter brigado com ele lá na hora! Você não ia ter entendido tudo errado, não ia ter se chateado e…

Jimin desliza os polegares pelas pálpebras da Alice.

— Eu te desculpo, princesa…

— Eu te desculpo também, Mimi!

— Se você me der uma chance… eu juro que eu vou melhorar!

— Eu também vou! Ah, vem cá logo, Mimi!

Alice enxuga as lágrimas do Jimin.

— Quê isso: um filme? — digo.

Alice e Jimin gargalham no meio do abraço.

Que bom que o meu plano foi pro beijo.

Tento esconder as lágrimas atrás do óculos.

Eles me escutam fungando.

— Se vosmecêzes me dáis licenças, estarei me retirando. Estou com deveras alergias nestas noites.

Jungkook acena tchau pra mim, meio vermelho.

Alice e Jimin riem.

Yoongi nem me vê saindo.

Estou sozinha no corredor com Dom Casmurro espremido contra o peito.

O barulho de um mocassim off white fica mais forte no corredor.

O perfume no ar é doce.

A luz amarelada ilumina o Yoongi. Maxilar travado. Mãos no bolso. Ombros retos.

— A gente pode conversar?

— Merda, que susto! — Coloco uma mão na boca.

— C-cê tá bem?

Pigarreio. — Perdoe-me, senhorito Felis Catus, mas tenho necessidade de afastar-me de vossos encant—

— Para, Lali. Sério.

Paro.

— Então dêi-me um abraçus, Felis Cactus.

Meu corpo se curva sozinho e eu o beijo, o puxando pela cintura.

Mal dá tempo de juntar nossos lábios. De tocar na pele dele. De dizer que ele está lindo de terno, como sempre. E cheiroso. De chamar ele de meu gatinho emburrado.

De dizer “tava com saudade.”

Yoongi recua um passo. — A gente tá no meio do Solaris, Lali! E eu tô no meio do meu turno! Eu tô treinando o Jungkook, esqueceu? E se ele vê?

Eu o abraço.

Yoongi se afasta de mim.

— Eu te beijo e você não quer! Te abraço e você não quer também! Tá vendo só? Você não gosta de mim! Eu tava certa!

— Cê vai começar com isso de novo?

— Se você gosta de mim, então por que fica fugindo?

Yoongi pigarreia. — Ah. Você voltou ao normal, que bom!

— Eu tô tentando mostrar pra todo mundo da internet que eu não sou puta e que eu possosim ser séria! Você também me acha tudo de ruim que eu sei! Você… você é que nem eles!

Yoongi toca minhas bochechas. — Eu não falei nada disso, Lali! Ah, e… eu… eu prefiro você de laranja com brilho! É só que—

— Não falou? Falou o quê então? Não é suficiente, né? Eu me doei 100% e você… você não fez nenhum esforço pra ficar comigo, nem quis me ajudar com a agência, só me atrapalhou!

Ele caminha na direção do quarto dele e gesticula pra que eu o siga.

Nem me atrevo a fazer carinho no Duri. Ou a passar os olhos pelos livros e pelas camélias amarelas da janela, mantendo a cabeça baixa.

— A Sra. Park me pediu pra falar com voc.

Limpo o canto das pálpebras. — Tá.

— Aquilo tudo foi muito sério, Lali: você não brigou com uma hóspede. O Solaris brigou. Não é o seu nome que vai lá na frente. A sua reputação continua intacta. Você comprometeu o trabalho de todo mundo!

Entrelaço os dedos atrás da saia. — Sabia que cês iam me chutar!

— Ninguém vai chutar ninguém daqui. Isso é só uma formalidade. Só… não… não faz isso de novo! A gente já tem problema demais! Nem parece que a gente tava na delegacia agorinha mesmo de madrugada! Você…

Ele distensiona o pescoço. — …não aprendeu nada mesmo?

— Você por acaso sabe quem era a hóspede?

— Sei, mas—

— Você também vai defender ela? Você ainda gost—

— Isso é irrelevante. E eu não tô defendendo ninguém, só o nosso trabalho. Você tava certa, se quer saber.

— Eu sei.

— Só resolveu do jeito errado.

— Mas—

— Agora pode deixar que eu resolvo.

— Ma—

— Que nem eu fiz ontem.

— Você vai chamar a polícia pra mim?

Yoongi ri pelo nariz. — Não. Eu vou ligar pra ela, aí ela não vai fazer nenhuma resenha. Ah. E você vai receber uma advertência por escrito. A Sra. Park gosta demais de você pra te suspender ou demitir.

Imagina se me odiasse então.

Encurto o espaço. — Ótimo. Agora fala da gente, Yoongi: eu ainda não tô entendendo porque você tá fugindo!

Yoongi encolhe os ombros.

— A vida é um porre, Lali — ele diminui o tom —, eu só… só tô tentando facilitar a nossa ao máximo! Então… se for pra entrar num relacionamento… pra me machucar… pra te machucar, eu não vou! Me… Me desculpa!

— Relacionamento? Do que que cê tá falando, Yoongi? A gente podia só—

— Ser amigo colorido até você ir embora?

Tapo a boca. — Eu ia dizer ficar junto!

— Isso aqui é a vida real, Lali!

— Quê? V-você não quer ficar comigo? Mesmo?

— Quero, mas… e… quando chegar o dia de lidar com a rotina do dia a dia? Você lá com a sua família na Itália… eu aqui com a faculdade em Costaré… O seu trabalho. O meu trabalho. A sua faculdade. A nossa… vida… A nossa vida, Lali!

Pisco várias vezes e ele continua:

— Ou você me espera e eu vou pra lá depois, ou eu te espero aqui: não tem como ser de outro jeito!

— P-porque não?

— Eu… eu já sei como isso vai acabar, Lali!

— Como?

— De um jeito que a gente não vai gostar! Se a gente ficar junto, eu não vou conseguir te ver indo embora… te escutar dizendo tchau! Isso… isso vai acabar comigo!

Encosto o indicador no paletó dele. O tecido parece mais macio que antes.

E mais gelado.

Yoongi me abraça de volta por um segundo, acariciando meus cabelos.

Controlo o impulso de soluçar.

Me afasto um centímetro dele, colando nossas testas.

— T-também vai acabar comigo! Ou você acha que eu quero ficar longe de você, Yoongi?

— Não acho, mas—

— Precisa… sei lá, casar, pra tá junto? A gente já tá junto!

— Lali—

— Você não pode escolher tudo sozinho! Eu—

— Calma, Lali, eu não tô escolhendo nada sozinho! Só tô te explicando o meu ponto! Você é que tá tentando falar que a gente tá junt—

— Você não quer nem tentar ficar comigo tipo… agora? E depois… depois a gente vê o resto?

Meu peito sobe e desce correndo.

Yoongi me segura pela nuca. Suas mãos estão geladas e rachadas.

— Como eu posso ter certeza de que você não vai mudar de ideia sendo que não tem nem dois dias que você tava querendo ir atrás de uma agência que você nem sabia prestava?

— Eu… eu mudei de ideia, tá? Você… você tava certo! Eles… eles queriam cobrar muito caro! Mas não muda o assunto! E a gente?

— A gente? O que tem a gente? Eu acabei de te fal—

— Você só queria me usar? Você realmente… tem vergonha de mim? É isso? Você só quis o meu corpo, só brincar comigo? A gente passou aquela noite junto no seu quarto pra nad—

— Não! Não! NÃO! Me deixa falar! É só que—

Yoongi respira perto da minha nuca, me arrepiando e me deixando de dentes trincados.

— Lali… é… é melhor… melhor a gente continuar sendo… só amigo…

Eu o peito.

Yoongi assopra os fiozinhos do meu rosto.

— A-agora você quer ser meu amigo? Eu… eu não sou ninguém pra você mesmo! É isso que você tem pra me dar? A sua amizadezinha? Brigada, mas eu não aceito!

— Não fala isso!

— Vai ser melhor assim, né? Já que eu vou embora mesmo!

— Lali, tá sendo difícil pra mim também… Acredita em mim!

— Não sei como, mas eu vou esquecer que você existe, Yoongi! Me esquece também! Eu nunca vou ser sua amiga! Nun-ca!

Yoongi entreabre a boca, rindo. — L-Lali… Você não sabe nem o que você quer direito! Nada que você falou tá fazendo sentido!

— Quê? Eu? Você é quem não sabe!

Yoongi anda de um lado pro outro, e solta antes de sair:

— Já que você quer só uma metade de mim, eu é quem não quero nada de você.

Quero nada de você.

Nada você.

De você.

Você!

Corro pro jardim, fechando os punhos.

— Idiota! Era pra você ter implorado de joelho pra ficar comigo!

Empino o queixo. — Foda-se, eu não vou me humilhar! Eu vou balançar essa árvore e pegar todos os gringos desse hostel! Começando por esse!

Assobio pro loirinho que cruza o caminho. Ele não me ouve e continua correndo.

É. Do jeito que eu tenho sorte é capaz dessa árvore cair na minha cabeça!

Entro no meu quarto.

Baixo o Tinder.

Configuro a proximidade no raio de 1 km e deixo a aba do Google tradutor aberta.

Bloqueio e desbloqueio a tela várias vezes, pulando os gringos e costarenhos que surgem no visor quebrado.

— Sem graça.

— Sem graça.

— Sem graça também!

— Vish! Piorou!

— Ah… esse é gatinho!

Raspo a garganta, tentando repetir as frases escritas:

Is this your first time in Costaré?

Do you like to sew? Can I sew your heart forever?

Come here to see my capybara!

Let me teach you Portuguese: kiss me!

Um deles me responde com “Let’s Netflix & chill 2night”. Outro me envia emojis de diabinho e me chama de gostosa.

Puxo o lábio inferior, socando a cama. — Esses gringos só querem sexo! Um bando de sem noção! Tudo sem graça! Sem nenhum mistério… sem nenhum papo legal… nenhum tem…

Os olhos emburrados do Yoongi.

Nem aquela dobrinha no canto da pálpebra.

A voz rouca no meu ouvido.

Aquele beijo.

Aqueles braços.

Muito menos aquela personalidade de limão azedo.

Ninguém.

AFF!

Jogo o celular no canto e as lágrimas se espalham pela fronha.

Ainda estou com a cara enfiada no travesseiro quando Rosé entra no meu quarto, puxa as cortinas e desliga o YouTube Music.

— Cê tá acabada mesmo, hein, garota? Antigas do Jorge & Mateus? Cadê aquela sua playlist que tinha o NX Zero? Fresno? Pitty?

— SAI!

— Pelo amor de Deus, Lali! O Yoon é legal, mas o que mais tem no Solaris é homem! Não é possível que você vai chorar as pitangas por causa dele! Levanta daí!

— Pra quê?

— Reage! Pensa na sua viagem! Nos seus seguidores!

Rosé limpa o meu rosto e me dá uma mariola. — Come.

— Não quero.

— Chega de criancice! Bora reagir!

Ela me mostra uma caixa de papelão no chão do corredor. — Ah… é dele.

Mastigo a mariola.

— Rosé, não quero nada dele! Nada! Manda o Jimin devolver!

— O Yoongi tava indo jogar fora, mas aí ficou com “preguiça” e pediu pro Jimin jogar fora pra ele. Até parece que ele é bobinho e não sabe que o Jimin é futriqueiro e que ele ia te devolver, né?

Jogar fora?

Devolver?

De-vol-ver?

Jo-gar…

FORA?

O quê?

— Anda logo! Você tem mais o que fazer!

— V-você tem um estilete?

— Lógico!

Rosé rasga a caixa pra mim.

O chaveiro de maracujá do Yoongi.

Nossas polaroids…

A.

Máscara.

De.

Gatinho.

Que.

Eu.

Costurei.

Pra.

Ele.

— Quer saber? Foda-se! É melhor assim: fica mais fácil pros garis limparem a nossa cidade. É bom contribuir com o trabalho dos outros, né? Eu sou uma ótima cidadã! Isso!

Não vou mais atrapalhar o trabalho de ninguém.

Arremesso o buquê de lírios e girassóis dentro da caixa. — Mais um pra coleçãozinha desse babaca!

— Lali…

Deixo meu chaveiro de maracujá do lado do dele. — Volta pro seu par! Pelo menos você não vai ficar sozinho!

Rosé coça os joelhos.

Revira os olhos.

E finge me enforcar ao escutar meu soluço. — Acorda! Você não vai morrer por causa disso.

Seco o rosto.

— Lembrei: ele também pediu pro Jimin pegar com você a Havaianas.

— Havaianas?

— É. Aquela que você levou depois do encontro lá no tal refúgio do Yoon, ou melhor, a caverninha de estudos dele.

Empalideço. — O… o Yoongi te falou do encontro? Do refúgio? Ele não queria que ninguém ficasse sabendo e agora tá fazendo fofoca?

— Que fofoca? O Jimin viu vocês correndo no jardim e se pegando escondido na grama! Mandou o vídeo no grupo até! Depois eu e o Namjoon que somos os errados!

— Desde quando vocês têm um grupo sem mim?

— Ninguém mandou você ser idiota!

— É. Ninguém mandou mesmo. Mas eu vou parar! Eu juro! Eu… vou bloquear ele!

As fotos dele no Instagram e no WhatsApp já sumiram.

IMBECIL!

— Agora o Yoongi vai ficar nessa palhaçada? Vai me… me bloquear e jogar tudo nosso fora? Avisa pra ele que eu não vou jogar a Jonas fora!

Troco o contato dele pra “Gerente Azedo do Solaris”.

Rosé me abraça de lado.

— Tá! Agora bora continuar o meu vestido, né, querida? E adianta a agenda dessa semana porque você ainda tem mais 7 vídeos pra postar! Bora pro refúgio do Yoon!

Solto um grunhido.

Rosé desce o olhar pelo meu vestido florido, sobe pras tranças e faz uma careta pras tiras da minha gladiadora.

— Nananinanão! Quem aprovou essa ideia? Eu já falei que era pra ser um look elegante!

— É vintage! Já elegante!

— Não passa confiança! Nem parece que você quer parecer séria!

— Eu tentei hoje, e… virei piada na recepção.

— Mas também, né? Cê pediu! Que ideia foi aquela que você e o Jimin tiveram? A inteligência passou longe!

Bato os pés.

Rosé aponta pro banheiro. — Vai logo!

Vou e volto do meu quarto pro refúgio do Yoongi a cada mudança de look, apertando os punhos.

— Isso tá horrível, Rosé.

— Esse piorou.

— Eu nunca vou usar isso!

— Vou virar chacota!

— Desis—

— Xiu! — Rosé ajeita meu tubinho tweed verde menta e meu coque, posicionando a câmera no tripé.

— Três, dois, um… Gravando!

Salut, everyone! — Sorrio. — Pessoal, hoje eu vim falar com vocês sobre—

Rosé pausa o vídeo. — Cadê a naturalidade? Você tá muito quadrada!

Conserto a postura. — Pessoal, sabem que dia é hoje? Dia de repaginada nesse perfil! Irei iniciar uma nova fase aqui nas redes sociais! Irei estudar francês juntamente com vocês nas quartas, darei dicas de livros na sexta e toda segunda nós discutiremos geopolítica! É isso! Venham comigo! Não desistam dos sonhos de vocês!

Me jogo na cama. — Tem certeza que isso vai funcionar? Eu não entendo nada disso!

— Você só precisa fingir.

Murmuro “aham”.

— Eu só sugeri de você melhorar os seus vídeos de Moda, foi ideia sua mudar de nicho. Não reclama depois.

— Tá, mas… ficou bom?

— Dá pro gasto! — Rosé diz no meio de um bocejo. — Mas bora gravar o restante porque eu tenho cliente amanhã cedo!

Quando saio do refúgio do Yoongi às 22h, esbarro nele no jardim. Ele sequer levanta o olhar pros meus olhos cansados, pras bijuterias e pra bolsa cara da Rosé que eu estou segurando.

— D-desculpa. Eu tava no seu refúgio gravando conteúdo pro Tik Tok. Se você quiser, eu… eu paro. — Rio. — Já sei: cê vai talar que aqui é “de uso de todos funcionários”, né? Que—

Yoongi anda na direção da estufa, assobiando com as mãos no bolso.

Torço os lábios. — Idiota!

Na domingo, Yoongi conversa com o Namjoon perto da piscina, bebendo soju e comendo pão de alho e picanha. Nem parece que o vento está gelado pela quantidade de hóspedes dentro da água.

— Oi, Joon!

Ele acena pra mim. — Ei, Lali! Senta aí!

Yoongi pega o celular e se joga na espreguiçadeira. O sol fraco bate nos gominhos pálidos dele de um jeito que me deixa suspirando.

— Depois eu quero falar um negócio com você, Lali. — Namjoon sorri.

Cruzo os braços, com o olhar ainda fixo no Yoongi. — Tá.

Yoongi bate os dedos na cadeira, como se eu não estivesse aqui, sentada na frente dele, com os olhos ardendo com a fumaça da churrasqueira, vestida com a saída de praia mais linda do Solaris (que esconde muito bem a cicatriz da minha barriga, e deixa minhas pernas ainda mais bonitas).

E que eu costurei. Só pra ele ver.

Hóspedes com a camisa da Seleção Argentina se aproximam do Namjoon e do Yoongi, sacudindo uma bola de futebol e os chamando pra una partida de pelota en el jardín.

Yoongi faz embaixadinhas. Todo suado. Sujo de grama.

Inferno. Nem assim você fica feio.

Posto stories com a capa de Vidas Secas, concentrada em terminar meu Corote de limão sem chorar.

Yoongi domina a bola no peito e faz mais embaixadinhas.

Os hóspedes o aplaudem ainda mais alto.

Namjoon dá uma cabeçada na bola.

Mais aplausos.

Tomo um gole de caipirinha.

Pior folga de todas.

Segunda-feira, na salinha de jogos, compro um refri depois de finalizar o turno às 19h. Alice e Jimin disputam no totó, enquanto Yoongi os assiste do outro lado.

Ah, mas você vai falar comigo sim!

Esbarro com força num puff, mas meu corpo tomba pra trás.

— AI! — Toco meu tornozelo, forçando uma careta.

Yoongi tosse forte. — Alguém ajuda ela aqui, por favor.

Alice e Jimin correm na minha direção.

— Eu já tô bem. Valeu!

Yoongi crava as bolas de bilhar no buraco.

Alice e Jimin se entreolham.

— Cês não sabem perder? — Yoongi ri.

— Cala a boca! — Jimin grita.

— Anda. Faz o pix.

Alice tira o celular do bolso. — Põe a chave.

— Foi bom fazer negócio com vocês. Fazia tempo que eu não me divertia tanto assim com alguém.

Com ninguém?

Dou passos rápidos na direção do meu meu quarto, manchando o blazer da Rosé de corretivo, rímel e Coca-Cola.

Faço um post lendo um capítulo de Guerra & Paz, ainda soluçando.

— De que adianta isso tudo… Se nem ver meus posts você vê mais?

Que raiva!

— Se você…

Mordo o canto da boca. — …nem me olha mais?

Eu só queria ser sua amiga.

Talvez ia doer menos.

Talvez não.

Não sei.

Eu só queria que…

Só queria que…

Queria que não doesse tanto.

Merda. Eu nem sei mais o que eu quero! Você tava certo!

Mas… de tudo que eu acho que eu sei… a única coisa que eu tenho certeza… É que queria ficar com você!

— Que merda! Até falar desse jeito esquisito igual você eu tô falando, Yoongi! Mas… mas foda-se! Eu vou viver! Antes de conhecer, eu já vivia!

Terça de manhã, Yoongi sai do refúgio dele. Sozinho. Cantando baixo.

Isso! Isso! ISSO!

Ergo a cabeça, calculando os passos.

— Yoongi!

Eu o puxo e fecho a porta atrás de mim. O cheiro dele se mistura com a poeira e o frio, me dando um arrepio.

Antes que ele saia, travo a maçaneta. — Olha pra mim. Me… só… só me ouve!

Yoongi guarda o fone no bolso.

Seguro seu queixo. — Se você não gostasse mais de mim… você… você não ia ficar fingindo que não tá me vendo!

Yoongi gira os dedos na maçaneta.

— Não sai — sussurro —, por favor! Não sai!

Encosto nossas testas.

— Ele recua um centímetro, desviando o olhar. — Você tem um minuto pra falar comigo.

— Eu não existo mais pra você, gatinho?

Antes que eu pense muito, estamos nos beijando.

Dura um segundo.

— Tô esperando você falar comigo direito, Lali. Beijo não é palavra.

Ele… ele tá bravo. Bravo!

Abro a boca várias vezes.

Yoongi torce o canto dos lábios. — Se você não tem nada pra me falar… me dá licença, Lali. Eu tenho que ir.

— N-não… não é bom ficar assim, gatinho? Junto? Aqui?

Cheiro o cabelo dele. Seu calor gruda na minha pele, apesar de fazer frio dentro do quarto de estudos. Frio até demais.

Eu o beijo de novo, e dessa vez, ele me beija até a língua doer. Seus dedos tremem nas minhas bochechas, e seu hálito de álcool me tonteia.

— É bom, Lali. — Yoongi endurece o queixo, recuperando o fôlego.

Largo a nuca dele.

— …mas eu já falei com você sobre isso.

— Yoongi… eu… eu também tenho medo de não conseguir voltar pro Brasil… Medo de a gente nunca mais se ver… será que… que você não entende? Eu. Também. Tô. Com. Medo! Entendeu?

— Eu entendo. E é por isso que eu não vou mais machucar ninguém aqui, Lali. Desculpa.

As lágrimas caem no meu casaco de tweed, borrando minha maquiagem e as joias da Rosé.

Covarde. Covarde. COVARDE!

É isso: eu vou embora do Solaris. Vou alugar aquele quartinho no Centro que a Rosé falou! Vou abrir meu ateliê, mesmo se for um ovo! Vou dormir no chão! Comer miojo todo dia!

Mas vou me virar! Ah, se vou!

Vou sobreviver!

Eu vo—

Meu celular apita.

“10 COMENTÁRIOS NA SUA ÚLTIMA PUBLICAÇÃO”.

— Aff. Lá vem!

Lali, vc não era assim!Saudades da verdadeira essência BergamaschiCadê os vídeos da capivara?

Os emojis pidões fazem meu coração acelerar.

Vai valer a pena no final, Seguicats… Eu sei que vai!

Meu celular toca e “Gatinho Grafiteiro” surge na tela.

— Joon? Aconteceu alguma coisa?

— Cê pode vir aqui na Universidade do Centro agora?

— Posso, mas… pra quê?

— Cê vai saber já já.

Chamo um Uber moto, mesmo que a vontade de roer as unhas me domine.