Anything But Ordinary
24 Chegar lá
CAPÍTULO 24: Chegar lá
AS CORTINAS VERMELHAS SÃO FRIAS. Eu e os outros modelos nos encolhemos atrás do camarim improvisado da UDCC. Conto os segundos pra entrar com o primeiro look no palco, com arrepios e lágrimas me perturbando.
Meu celular apita.
Nonna?
Desbloqueio a tela e meu sorriso morre por um segundo, mas volta. São comentários dos meus seguidores pedindo pra eu postar mais detalhes do meu vestido cor de água.
Se a Nonna tivesse aqui, ela ia elogiar o trabalho do Namjoon. Talvez ela diria que é diferente demais, mas ela ia gostar mesmo assim!
Contenho o soluço. Por que você não me responde mais, Nonna?
Yoongi segura minha mão, ajeitando seu Hanbok preto e as asas cor de bronze.
Mordo o lábio. — Vai dar tudo certo, né?
— Vai.
Ele beija minha testa e eu solto o ar devagar.
Rosé se posiciona atrás de mim, firmando o binyeo no coque de tranças. Seu cabelo está preto outra vez, destacando o terno branco. De perto, as asas de cristal são maiores.
Namjoon usa um paletó oversized metade azul-marinho, metade vermelho, durag branco e um cordão prateado.
— O Jimin pediu desculpas porque não vai conseguir vir — Yoongi diz —, ele teve que substituir o Rafa hoje pra um exame.
— E a Alice tá terminando uns trabalhos da facul — digo.
Namjoon mexe os ombros. — Tá de boas.
Quando as cortinas caem e as luzes quase me cegam, eu travo os ombros. Namjoon desfila devagar até o centro. Dá play na playlist no notebook, cumprimenta os professores e os espectadores. Responde algumas perguntas sobre o tema, materiais e inspirações.
E então diz que agora é a hora.
Yoongi desfila primeiro, tão lindo e sorrindo sem mostrar os dentes, sem errar, sem mal se mexer.
Subo no tapete vermelho, tentando manter a postura reta, mas acabo envergando com o peso das asas do Hanbok. A parte do terno de alfaiataria me deixa ainda mais alta e o tom dourado dos tecidos me faz parecer um anjo cheio de glitter e strass.
A música acelera o meu coração. Minha testa sua tanto que quase cai dentro das sapatilhas.
Yoongi, da cor de uma beterraba, se estica no banco e me aplaude com um sorriso. Sei que ele está babando em mim imaginando o nosso casamento daqui a uns sete anos em São Paulo.
Vai sorrir pra mim desse jeito quando a gente for morar junto. Quando a gente casar. Quando tiver filho.
No meio dos sorrisos que os professores e o Namjoon me dão, minha mente visualiza o da Nonna. Ela me aplaudiria e elogiaria minha coleção.
Idiota. Você nem tem uma!
Volto pra trás do camarim pra próxima troca de roupas, com os lados da cabeça pinicando.
O terno-Hanbok-vestido é marrom com verde, recortado nos ombros e vai até um pouco acima dos joelhos. Não sei como o Namjoon fez isso funcionar, mas é bem confortável no corpo.
Ele deixou um espaço tampando meu umbigo, mas eu puxo a braguilha.
Abro um sorriso e tiro uma foto na frente do espelho. Mexo nas tranças no cabelo.
Nem identidade visual você tem, idiota.
Nada marcante demais!
Quem dirá criatividade! Aiai!
A Nonna nunca ia te elogiar! Nunca!
E marca nenhuma vai querer fechar parceria com você!
Termino de abotoar a parte lateral da roupa e fecho o cinto. Pego o celular antes que a ideia suma e salvo uma pasta no Pinterest com o título “COLEÇÃO”. Não coloco nada no arquivo, mas o deixo destacado na página.
No final do desfile, Namjoon passa um vídeo no telão. Minha voz soa na narração e nem parece eu. Tem confiança. Alegria. Um frescor que eu nunca ouvi sair de mim mesma. E uma tristeza bem escondida no fundo:
Todos os dias, acordo nessa cidade insana chamada Costaré. Ah, Costaré, minha Costaré. Como eu te amo, mas também como eu te odeio!
Enxugo o rosto enquanto imagens de Costaré são exibidas.
Jungkook surfando na Praia do Lírio.
Yoongi e Jimin conversando com o Mestre Kang no dojang.
Eu costurando. Interagindo com os hóspedes.
Alice chegando no Fórum e cumprimentando seus colegas.
Namjoon e seus pais grafitando.
Rosé no seu escritório batendo a caneta na mesa (e fingindo que está trabalhando).
Yoongi me abraça pelos ombros. — Ficou massa.
Enquanto mini-cenas do Namjoon e eu trabalhando surge no telão, a voz dele narra o vídeo:
Perco a conta de quantas obras inacabadas você tem na Maré Alta, quantas ruas mal-iluminadas, sem sinalização adequada e com um quebra-molas a cada duas pedaladas, mal sobre espaço pro pedestre se espremer, mal vejo o sol nascer, mas eu não tô aqui só pra reclamar, tá? A gente tem gato de energia, fio sobrando na rua e mosquito no calor? Tem. Mas a gente também guarda feijão no pote de sorvete. Também pula Carnaval. Também tem vizinho fofoqueiro e o senhorzinho simpático do Barzinho da Ribanceira. Não somos bichos. Somos um lugar que precisa de investimento. Pra você tudo pode estar pichado, mas eu só vejo grafite. A Maré produz Arte. Cultura. Gente de bem. Feliz, apesar do caos e do abandono. Ah, Costaré, agora eu posso falar de outra coisa? Você também tem um outro lado que encanta além do glamour das noites badaladas da Vila Dorata, da riqueza performática do Arraial do Tatu. Você tem a Camélia. História. Tradição. Turismo. No meio disso tudo, eu nasci. A pracinha também não é lá essas coisas… ou eu devo mentir? As escolas são abastadas, as comidas, aluguéis e hospedagens são caras, mas os turistas vêm pra encher a cara e postar que se sentem numa novela coreana. Eu posso continuar te amando e te odiando, Costaré? Talvez eu nunca saiba encontrar no meu coração 100% de certeza pra só um sentimento desses, mas saiba que meus sentimentos por você sempre serão intensos. Seja vergonha, medo, ou alegria. Eu sempre vou nutrir os sentimentos mais sinceros por você. Em honra do labor. Em nome da dor. Juntos pela Maré, Magia e Moda. Fui brega demais até aqui, me desculpem o constrangimento. Não sei se isso foi uma tentativa de recitar qualquer coisa, de ser profundamente raso ou se eu só acabei sendo grosseiro, mas… Obrigado por cada ensinamento, Costaré. Obrigado por ter me dado essas Raízes. Com você, vivi meus melhores momentos. Nada disso seria possível sem os meus amigos. Sem você, Costaré.
Todo mundo no auditório aplaude de pé. Yoongi está com os olhos vermelhos. Meu peito dói.
Namjoon faz uma reverência pra mim e eu assobio. Tia Bomi e Tio Felipe choram lado a lado, e riem quando a Rosé corre pra beijar o Namjoon. Até os professores os aplaudem.
A imagem dos meus pais me assistindo no desfile invade a minha cabeça.
Eles ainda iam tá juntos, né? O amor deles ia durar. Igual o meu pelo Yoongi.
Espero.
Por que eu tô pensando esse monte de coisa logo hoje?
O sorriso da Nonna brilha na minha memória, seguido do seu olhar triste.
Ela deve me odiar agora.
Fazer o quê, né?
No Solaris, Yoongi diz que quer ficar sozinho e descansar pro vestibular no dia seguinte.
De manhã, eu o entupo de comida. O encho de beijos pra dar bastante sorte, cruzo os dedos e o beijo de novo. Ele só ri baixo e me beija de volta.
Você vai passar hoje, gatinho! Não vejo a hora de te contar tudo! Você vai cair duro pra trás! Vai morrer de alegria!
Espero no refeitório. Os minutos estão congelados como o meu corpo no banco, minhas pernas colam de suor debaixo da calça.
Yoongi não faz nenhuma expressão quando a prova termina, só fica brincando com meus dedos o caminho todo até a saída.
Na moto, ele vai bem devagar.
Não pergunto nada.
Eu sei que você passou.
Falta pouco pro dia 8. Vai sair esse resultado. Essa agonia vai acabar.
Você vai sorrir de novo.
Dia 8, salto da cama. Cruzo o caminho de guirlandas, luzes verdes, vermelhas e douradas e paraliso na frente da árvore da recepção. Não aguento mais escutar Bate o Sino Pequenino, Jingle Bell Rock e a coletânea da Cantata da Camélia no rádio. No Solaris bar, sorvem biscoitos de gengibre e sorteiam panetones que deveriam ser proibidos em sociedade.
Jimin sorri pra mim. — E aí? Tá animada pra hoje?
— Tensa. Se ele não passar, ele vai ficar super mal.
— Ele vai passar. Relaxa!
Jimin desvia os olhos. — Eu sou uma pessoa horrível, né? Por sentir inveja.
— Não, tá tudo bem. É normal ficar assim depois de criar tanta expectativa. Só de você saber que não é legal, já mostra que você tem consciência.
— Preciso urgentemente tomar uma hoje.
Rio pelo nariz.
— Ah, é, falando em álcool. — Jimin pressiona o borrifador vazio. — Vou pegar mais.
— Beleza.
Mudo a playlist. Ajeito o protetor do mouse. Aumento a temperatura do ar. E respondo algumas dúvidas dos hóspedes e clientes do Solaris Bar no WhatsApp.
O bolo de panfletos voa. — Merda.
Me agacho e junto cada papel.
Me levanto. Um vulto cruza minha visão. Tropeço no banquinho atrás de mim, xingando baixo.
O vulto era a Nonna.
Esfrego os olhos várias vezes.
O vulto é a Nonna. Tem cheiro de flores. Pele pálida.
E sorri pra mim.
Arregalo os olhos, tapo a boca e atravesso o balcão, correndo. Meu coração bate tão forte que as minhas costas doem. Minha garganta se fecha.
A Nonna está sorrindo pra mim, usando um conjunto de alfaiataria verde pastel, cabelo preso num coque e um colar de pérolas.
Zio Lorenzo ajuda Zia Margherita a carregar as malas, e os dois estão combinando com roupas em tom terracota.
O Nonno usa uma bermuda de linho clara, camisa social amarrotada e se abana, caindo no sofá.
— Mammamia… — ele grita, gesticulando. — Lei è qui!
Forço o ar a sair dos meus pulmões, e minhas narinas pegam fogo.
Mattia puxa a bainha do meu uniforme, coçando os cachos ruivos com a outra mão. — Cugina? Sei viva?
Meus olhos ardem.
Ainda não sai nada, e a Nonna me abraça. Seu colar de pérolas está gelado contra minha pele, fazendo um barulhinho engraçado.
Jimin traz o álcool e para de piscar. — Lali?
— Me… me…
— Hello. — Jimin aperta a mão do Zio Lorenzo. — I’m her friend. My English’s not the best, but…
Zio Lorenzo sorri.
— Eu achei que você tava brava comigo, Nonna. — Soluço.
O inglês da Nonna não é dos melhores, mas ela se vira, chorando também. — Como eu ia ficar brava… com você se tudo que eu mais queria… era te ver… te abraçar… te cobrir de presentes e carinho? Se tudo que eu mais queria… era ter você perto da nossa família? Óbvio que eu queria que você usasse os presentes que eu te dei… e que não rejeitasse o nosso sobrenome… mas se você quiser se afastar de nós para sempre, nós vamos te respeitar! Pode considerar essa visita como o nosso último adeus!
Jimin termina de traduzir com os olhos pingando lágrimas.
Agarro as mãos da Nonna. — Eu… eu tava com vergonha, Nonna… Medo de usar essas bolsas caras… Medo de vocês ficarem com raiva de mim… De nunca me perdoarem… Eu nunca quis desprezar a nossa família…
— N-nossa família? — Nonno repete, tremendo. Rio do sotaque dele.
— Se tem alguém que tem que te pedir desculpas, sou eu — ele continua. — Somos nós.
— Mas eu… eu já perdoei vocês…
Zio Lorenzo e Zia Margherita me abraçam.
Marcelo me libera mais cedo.
Escolho a clutch da Chanel branca que a Nonna me mandou. Combina com meu vestido cor de água, com os brincos dourados de folhas e com a sombra cor de pêssego. Puxo o baby hair depois de firmar a trança e saio.
Quando chego na recepção, todos ficam em silêncio por uns segundos.
— Hai fatto un ottimo lavoro. — Zio Lorenzo beija minha testa e aponta pro vestido. — È bellissimo. Jacopo sarebbe orgoglioso di te.
Minha voz quebra. — Não posso borrar minha maquiagem! Il mio… trucco… rovinato!
— Ma sei bella anche così, Lali! — Mattia estica os braços. Eu o pego no colo, balançando o caminho inteiro até chegarmos no Farol da Barra. Apesar do vento forte, minha família queima ainda mais fácil do que eu no sol de 27º.
Zio Lorenzo fica com uma marca ridícula de óculos de sol. Zia Margherita se empanturra de picolé de maracujá e graviola.
Nonno aluga uma bike do CostaréExpress e convence a Nonna a andar na garupa com ele. Eles terminam a volta com os joelhos ralados, dor nos quadris e areia nos cotovelos.
Me seguro pra não rir.
No Aquário, Mattia pede o Zio Lorenzo chaveirinhos de golfinho e me dá um, dizendo que vai me trazer sorte. Só sorrio, e tiro mil fotos com ele.
Eles experimentam pão de queijo. Brigadeiro. Mariola. Suco de caju. Bobó de camarão.
De noite, jantamos no Vila Dorata Grill. Nonna elogia o vinagrete, o feijão tropeiro e a caipirinha, mas fala que eu preciso ir pra Milano experimentar sua coleção de vinhos.
— Eu não sei quando eu vou conseguir ir — falo devagar.
Zio Lorenzo limpa a boca com o guardanapo. — Ah, non c’è fretta!
Eles tocam no assunto faculdade.
— Università? — repito. — Não, cês não precisam pagar pra mim! Non… dovete… pagare… ahn… pagarlo… per me!
O Nonno termina de mastigar seu pedaço de picanha. — Parliamo della cittadinanza.
— Pode ser outra hora? Eu só queria… restare qui… con voi… oggi… per questa sera…
Zia Margherita enche minha taça de vinho.
Mattia está tirando selfies no meu celular quando uma notificação chega.
— Lali, guarda!
“JOVEM COLIDE CONTRA CAMINHÃO E É ATROPELADO DE MOTO NA CAMÉLIA”. Depois de “ESTADO GRAVE”, paro de ler. Dou play nos áudios do Jimin chorando no grupo:
“Que merda, mano! Foi na esquina com a Álvaro José de Azevedo Pitanga, ele tava indo pra casa dos pais dele contar do vestibular”
“Os pais dele tão indo pro PA agora, a Alice e eu vamo correndo pra lá”
“Alguém avisa a Lali, ela não tá me atendendo”
Rosé e Namjoon dizem que estão à caminho, estavam indo pro Arraial do Tatu, mas contornaram a rota.
Meus dedos tremem, tremem, tremem. Meu celular escorrega pra dentro do balde de gelo e o Zio Lorenzo o futuca com o pegador, rindo pelo nariz.
O sorriso dele morre quando ele vê a foto da moto do Yoongi quebrada e o capô do caminhão amassado.
A Nonna me abraça de lado e sussurra “Respira”.
Pulo da cadeira, rodando a mesa e mordendo a boca. Agarro meu couro cabeludo. Desamarro as sandálias das canelas e corro porta afora.
Piso num caco de vidro, mas a dor não é mais forte que as batidas do meu peito.
— Merda. Merda. Merda!
Deixo uma trilha de gotas sangue atrás de mim, e encho os pés de poeira. Sinalizo “AQUI” pro taxista e puxo a bolsa. Dá tempo só do Zio Lorenzo me seguir, e o restante da minha família entra no táxi de trás.
— Moço… Por favor… É o PA do Centro… Vai… vai demorar?
— Dez minutos.
Dez minutos? E se o Yoongi morrer em dez minutos? Tem quanto tempo que levaram ele pra lá, e por que só me avisaram agora?
Zio Lorenzo faz carinho no meu cabelo e eu choro, o abraçando. Seu sorriso lembra o do papà e me arranca uma risada baixa.
Até a voz do Yoongi invadir a minha mente:
“Você vai chegar lá.”
“Onde? Na Itália?”
“Nos 20.”
“Você também.”
A imagem do riso dele contra o meu ombro me faz gritar. — Seu idiota, se você morrer, eu não vou conseguir te esquecer nunca! Nunca! Por que o Senhor não me leva no lugar dele, Deus? Eu… eu não tenho pai… pra sentir… a minha falta, mas… ele tem! Por quê? Por quê? Todo mundo… que eu amo… o Senhor tira de mim… Tira… o meu coração também! Eu… não… quero mais… sentir isso! Não quero!
Zio Lorenzo paga o taxista e me ajuda a caminhar pelos corredores do PA. As luzes brancas piscam na mesma velocidade que eu, acompanhando os meus passos tortos.
Zio Lorenzo tira a minha identidade da bolsa e tenta desenrolar as informações pra mim com seu inglês assustado. A recepcionista me deixa entrar depois de ver o meu nome, já que, pelo que ela soube, a Nina autorizou a minha entrada e dos meus amigos.
— Ala 9. Por aqui.
Nos sentamos num banco numa mini-salinha escrito “SALA DE ESPERA — CENTRO CIRÚRGICO”.
Um casal atravessa a porta. Mesmo com as vistas embaçadas, minha aparência me assusta no reflexo do vidro: estou com um brinco faltando e as tranças um furacão.
O casal tem uns 40 anos, jaleco amarrotado e os dois são altos. A mulher tem cabelo escuro preso num coque e suor escorrendo pelo pescoço fino. Sua pele é pálida, mas num tom quente. Ela se senta do meu lado. Balança a bolsa vermelha. Se levanta. E senta outra vez. Seu perfume é floral. O homem anda em círculos, checando o relógio a cada segundo. Ele cheira à uma erva forte, meio hortelã. Sua pele é menos pálida e mais fria que a dela. Ele tem bem mais cabelos brancos que ela, e mais rugas também.
— Você sabe se eles já deram notícias? — o homem me pergunta, mordendo o canto da boca.
Fungo. — Do Yoongi?
— Pera aí… Quem é você? Aqui é a área restrita do Central… Só entra familiar e…
Ele franze as sobrancelhas pro meu vestido desfiado.
— Meu nome é Lali — é tudo que eu sussurro.
— Ah! Então você que é a namoradinha do meu filho?
Arregalo os olhos. — Filho? Você que é o… o senhor é o… o… Adriano? Ele… ele falou de mim?
Adriano coça o queixo e eu aperto os olhos. Leio seus jalecos: “DRA. JUSSARA CHOI / PEDIATRIA” e “DR. ADRIANO MIN / CARDIOLOGIA”.
Como eu sou tapada!
— Que que você faz da vida, mocinha? Posso saber?
Abro a boca, sem som.
— …ele me falou umas coisas: que você era bonita, inteligente e que tinha visão de futuro. Ele não é muito fácil de lidar, como você já percebeu, então eu te peço de coração, tenha paciência com o meu menino. Não, ele já é homem. Ah, você entendeu, né? E—
Jussara recebe uma ligação, fala algo sobre cirurgia e pressiona o botão de desligar com força. Paro de respirar.
Cirurgia?
— Amor, não é hora disso! Desculpa, querida! Depois a gente conversa! Foi muito bom te ver! — Jussara arrasta Adriano porta afora antes que eu responda qualquer coisa.
Nem tenho tempo de rir, de ficar com vergonha ou de chorar.
Uma enfermeira abre a porta. — Licença, quem aqui é a Lali?
— Eu.
— O Dr. Adriano me pediu pra fazer um curativo bem reforçado no seu pé e conferir se você precisava de avaliação. Você pisou em vidro, né?
— Pisei. Peraí: curativo? Nem tá doendo, moça!
Ela desce o olhar pras batatas das minhas pernas manchadas de vermelho. Como veio parar sangue aqui? Areia aqui? E por que aqui dentro tá tão frio?
— E a Dra. Jussara me pediu pra providenciar um lanche pra você. Já deve tá chegando.
— Obrigada, moça, mas não precisava mesmo. Eu já tô bem!
A enfermeira estanca meu sangue, deixa a ferida ardendo e a protege com gaze. Coloca meu pé no outro banco. E se despede com um aceno.
Botas de cano alto estalam alto, e eu reconheço o colar de estrelas, a franja marrom e o perfume de baunilha da garota na minha frente.
— Oi, priminha!
— Oi, Nina.
— Relaxa, viu? Meus tios te acharam bonita e ficaram sabendo que você é estilista.
— Mas eu—
— O Tio Diano disse que vai ser bom o insuportável do Yoongi ter uma namorada que entende de Moda, assim você vai “ajeitar o menino”. Você vai ser a exceção da nossa família, porque tirando eu, só você tem bom gosto. Mas é segredo, tá? Eu nunca te falei isso!
Bom gosto?
Exceção?
Família?
Essas botas a deixam mais alta, e a maquiagem contornada demais nas bochechas esconde que ela tem só 20. Nina não desgruda por nada desse cropped de tricô roxo, e só de lembrar das piadas do Yoongi sobre a infância dos dois, meu peito dói de novo.
— …ele só usa roupa mal-arrumada, coitado! Mas aqui: ignora, tá? A nossa família é assim mesmo. Acho bom você se acostumar com seus sogrinhos. Preciso falar com o Yoongi. Aquela bagaça de UDCC só mandou o resultado no e-mail e não publicou o edital no site. Isso mata um fofoqueiro.
Aperto os lábios.
Eu sou uma namorada egoísta pra caralho. Uma namorada de merda! Eu nem te mandei mensagem perguntando!
Nina sai apressada pelo corredor atrás de um refrigerante pra acalmar seus nervos, dizendo que seus tios foram atrás de notícias da cirurgia. Alguma coisa a ver com fratura na costela e na clavícula, mas que não atingiu seu pulmão e nenhuma parte neurológica. Ela fala tudo tão depressa que eu choro e rio de alívio ao mesmo tempo, e o Zio Lorenzo me abraça de lado.
Uma senhora se senta do meu lado em silêncio. Ela é baixinha, e tem um cheiro de baunilha, ou de lavanda, as lágrimas são tantas que até atrapalham os cheiros.
Ela coloca as mãos quentes na minha bochecha.
— É você? — ela sussurra. — A Lali?
O sorriso dela é idêntico ao do Yoongi. Solto uma risada no meio de mais um soluço.
— A senhora é a avó dele? A senhora sabe se ele passou na prova? Sabe se ele tá acordado? Se ele perguntou de mim? Se tá respirando? Se tá vivo? Se—
Reconheço a última palavra que ela murmura em coreano:
Vai dar tudo certo.
— Você já já vai poder ver ele. Vai chegar lá.
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