CAPÍTULO 25: Permanente

AS LUZES BRANCAS SÃO QUENTES. O ar-condicionado quase me congela na maca. Tiro o cobertor que me cobre e me sento de lado. Da janela, o mar do Centro se junta com as nuvens, e os tons de laranja-claro e rosa caem nos pés de ingá e no estacionamento do PA.

Minha mãe e meu pai se abraçam no canto do quarto, perto do Dr. Vidigal e das enfermeiras.

Um flash vibra na minha memória.

Faróis. Buzinas altas. Muito azul e vermelho, sirenes. Frio. Muito frio. E dor. Muita dor.

Toco a tipoia na minha clavícula esquerda e direciono o olhar pra minha perna direita engessada e esticada no ar.

A memória do acidente volta com força: os gritos da motorista pedindo a ambulância pra mim e desculpas ao mesmo tempo, eu resmungando que ela devia ter respeitado as leis, minhas costelas ardendo, eu tentando me levantar, meus joelhos ralados, sangue, suor, lágrimas e areia no asfalto…

Eu só pensava “preciso contar pra Lali que eu passei, eu passei, eu passei”!

Foi como uma dessas cenas de filme onde o protagonista fica a um fio de morrer, a diferença é que eu sendo o protagonista da minha própria vida, queria ter sido só um mero espectador.

— Amanhã de manhã eu já vou assinar a sua alta.

— Nada de treinar, pôr força nas costelas, pegar peso, nem usar mochila.

— A Jane vai te explicar como trocar os curativos do joelho e das costas.

Até as costas eu ralei?

— Brigado, Doutor.

Quando meus pais ficam sozinhos comigo no quarto, minha mãe soluça.

— E a minha moto?

— A gente mandou pro conserto — meu pai diz —, e também você vai ter que arcar com o carro da Talita.

— Ah, bom. Mais um processo nas minhas costas. Tudo isso porque eu furei um pare, pelo menos dessa vez eu não fui parar na delegacia.

Aponto pro quarto. — Um upgrade de respeito.

Minha mãe estala a língua. — Isso é hora de fazer piada, Yoongi?

— Mianhaeyo…

— Você tá bem, filho. Isso é tudo que importa pra gente. Tudo que sempre importou. Dane-se a faculdade que você quer fazer, dane-se o diploma que eu queria que você corresse atrás, eu só… só quero o meu filho!

Ela aperta meus dedos até a pele pinicar, manchando seu jaleco de maquiagem.

Minha mãe diz que me ama em coreano, num tom tão baixo que dá uma pontada no meu coração.

Meu pai também fala.

— Eu também amo vocês — digo em português. — Obrigado por tudo que vocês fizeram por mim. Por tudo que fazem. E obrigado por me amar… mesmo eu não sendo do jeito que vocês queriam…

— Você sempre foi do jeito que a gente queria. A gente sempre teve muito orgulho de você. — A voz do meu pai quebra.

Minha garganta dói, mas eu seguro as lágrimas.

— Eu passei a vida toda querendo mostrar você numa vitrine das minhas conquistas, como se você fosse a maior de todas, mas… eu nunca perguntei se você queria que eu saísse te mostrando pra todo mundo. Eu sei que eu fui o pior pai do mundo, que você me odeia, e que vai se afastar de mim depois que se formar. Eu entendo. Entendo!

Meu pai me puxa pela nuca e me deixa chorar no ombro dele.

— Parabéns, filho — minha mãe diz —, a gente sabia que você ia passar. Você vai ser o melhor arquiteto desse país.

O sorriso da Lali brilha dentro da minha memória e a voz dela sai gritada:

Melhor arquiteto. Melhor beijo. Melhor sorriso. Melhor tudo. Meu amor.

Balanço a cabeça. — É… vocês sabem se os meus amigos vieram?

Minha mãe arqueia as sobrancelhas e meu pai cruza os braços.

— Cê tá perguntando da sua namorada? — ele pergunta.

Tusso forte. — É. Desculpa não ter apresentado ela pra vocês ainda! Eu juro que eu—

— Ela é muito bonita. — Minha mãe sorri. — E parece ser bem simpática e inteligente.

Minha cara arde de um jeito que eu só consigo bufar pras cortinas verde-claro do quarto e me abanar.

— Liga o ar fazendo favor, pai.

— Tá no 18. E olha, rapaz, eu acho bom você não tratar essa garota mal, ela cortou o pé só pra vir aqui!

Meu peito acelera e eu ajeito a postura na maca.

— Como assim? — Aumento o tom.

— É. Cortou. Se uma garota cortasse o pé por culpa minha, eu casava com ela.

— Culpa minha? Eu não tive culpa de sofrer o acidente!

— Mas deixou todo mundo preocupado! — A voz da minha mãe soa tremida.

— E… peraí… — Limpo a garganta. — O senhor falou de casamento ou é impressão minha?

— Falei. Eu quero ser vô, né, meu filho? Se você só ficar estudando e nunca tiver um filho, como eu vou realizar o meu sonho?

— Seu sonho? Ah, pai, eu a-ca-bei de fazer 20 anos! Vou começar a faculdade daqui a três meses e só termino com 25! O senhor acha mesmo que eu vou ter tempo pra pensar em casamento?

— Não, garoto. Agora você vai descansar. Depois você pensa na faculdade. Sua mãe e eu vamos voltar pro trabalho. Qualquer coisa, pede pra alguém me chamar.

Me viro de lado. — Tá.

Minha mãe beija minha testa e diminui o volume da voz:

— Pior que ele casou mesmo. Sabe essa cicatriz que eu tenho no calcanhar?

— Sim.

— Foi culpa dele. Ele deu a ideia da gente roubar manga do pé da Dona Neide, aí eu pisei num caco de vidro sem querer.

Abro a boca.

— …aí ele cuidou de mim a semana toda, a gente já devia ter uns 15 pra 16 na época. Óbvio que eu aproveitei e fingi que não tava melhorar, eu já tava querendo paquerar ele mesmo, né? Mas não fala que eu te falei isso senão ele vai se gabar e falar “sua mãe que gostou de mim primeiro”!

Tento não rir. — Ai, mãe, não me faz forçar as costelas!

— Yeobo? — meu pai grita da porta.

— Tô indo!

Eles cruzam o corredor, com meu pai um pouco atrás dela como sempre faz, e minha mãe inclinando a cabeça pra ouvir as reclamações dele, rindo baixo.

Um perfume de melancia e limão enche o quarto. Ela entra com a trança suada, o pé enfaixado e a roupa faltando uma manga.

Lali puxa o tecido fino do vestido cor de água. — Olha como você me fez vir te ver. Olha o estado que eu fiquei. Você acha isso certo, Yoongi? Me diz!

— Você queria costurar uma roupa só pra me ver?

— Não ia dar tempo, mas pelo menos eu ia ficar linda, não parecendo que eu fui assaltada igual agora!

— Deus me livre. Se você ficar mais bonita que isso, vai ficar ainda mais insuportável.

Lali faz uma careta. — Cê só faz elogio estranho. É por isso que eu te amo tanto.

— Era pra rimar? Não funcionou.

— Ah, cala boca!

— E não era pra você tá deitada?

Os olhos dela se enchem de lágrimas. — Já falei pra você calar a boca, não quero papo!

— Quanta agressividade logo de manhã.

— Eu tô brava porque você me fez quase morrer do coração! Quem mandou você sair pilotando igual maluco na Alencar de Azevedo? Aquela estrada é mó perigosa, você é extremamente sem noção! Ai, que ódio! Eu—

Lali dá mais um passo na minha direção e seu queixo treme. — Você tá bem?

— Na medida do possível. Eu sempre fico bem quando você chega. — Viro a cara pras cortinas. — Até quando eu não quero, eu te machuco. E não. Eu não tô brincando.

Só percebo que minha língua está com gosto de sal as e as bochechas molhadas quando Lali seca minhas pálpebras.

Ela segura meu rosto, me dá um selinho e depois chora colada na minha clavícula.

— Você tá inteiro. Que bom que você não morreu. Eu achei que eu ia perder você pra sempre, que eu não ia poder te falar parabéns. Sua mãe me falou o resultado.

Lali sussurra “parabéns” em coreano, sem nenhuma formalidade e com o sotaque impecável.

— O Jimin tá te ensinando tudo certinho mesmo.

— É, e ele tá morrendo de chorar lá fora. A Sra. Park quase desmaiou na ligação.

— Fala pra eles que eu tô bem.

— Tá mesmo?

— Aham. Eu sempre me perguntei como ia ser morrer, sempre fiquei na dúvida se eu ia ter medo, se ia só aceitar… mas quando a morte apareceu, nem reação eu tive. Eu devo ser o maior covarde dessa cidade.

— Não fala isso! — Lali me abraça forte.

— Ai, Lali. — Me afasto dela. — Meus pontos na costela tão doendo. Eu quebrei umas duas… ou cinco. Não sei.

Ela soluça. — Como você vai fazer agora? Não vai te atrapalhar?

— Não. Não vai. Eu só vou demorar umas três semanas pra poder andar de moto de novo, e vou precisar de repouso.

Lali não presta mais atenção nas minhas palavras, escrevendo no gesso da minha perna.

“랄리 베르가마스키 🖤 윤기 민”

— Em hangul, o sobrenome vem antes do nome, Lali.

Ela faz bico, me mostrando a língua. — Inclusive, falando em nome, eu li que quando a gente casar, os nossos filhos vão ter só o seu e eu não vou poder colocar o seu? Como assim? Você é a favor?

Arregalo os olhos. — F-filho?

— Desculpa. — Lali ri.

— Tranquilo.

Lali encosta a cabeça no meu peito bem devagar.

Sussurro “eu te amo”.

Lali levanta o olhar. — Ahn?

— Se eu tivesse morrido, eu ia morrer sentindo culpa porque… eu nunca disse que eu te amo…

Ela sorri largo e seus olhos ficam úmidos outra vez.

— Mas eu já sabia, né, gatinho? Tava óbvio. Ninguém ia ficar implicando com uma pessoa que odeia toda hora.

— Eu estraguei o seu plano com aqueles gringos, e você estragou o meu de entrar na faculdade sem tá namorando.

— Eu sei, eu sou genial!

Rio pelo nariz. — Mas… eu só falei te amo porque eu tô meio grogue. Quando eu tiver bem de novo e você vier me perguntar, eu vou fingir que nunca falei isso.

Lali me enche de selinhos. Finjo dor nas costelas e ela para, mas percebe a atuação e volta a me beijar.

— Eu tô com bafo, você tá toda suada, e nem assim você me deixa em paz.

— Eu nunca vou deixar.

Solto o ar devagar.

Por favor.

— Você… tá sabendo da novidade?

— Que novidade?

— Que eu falei com a minha família e… eu vou ficar aqui em Costaré…

— Eu suspeitava.

— Suspeitava?

— É, mas eu não acreditei na minha intuição e quebrei a cara. E que bom que eu quebrei.

— Agora você vai me aguentar por mais uns… não sei quantos anos.

— Bom saber.

— Eu não sei exatamente quando eu vou pra lá, mas eu quero que a minha vida continue aqui, então quando eu for, eu vou só pra visitar.

— Tendi.

— Falando em “daqui uns anos”, você vai desenhar a minha casa e não vai me cobrar nada, né? Lembra do nosso acordo?

— Claro que vou, cê quer me ver falido?

— Eu pago com beijo!

— Mas aí vai ser caro demais… você tem tipo… um milhão sobrando?

Lali beija minha bochecha umas 15 vezes.

E na boca umas três.

Só rio e seguro a cintura dela com a mão boa.

Lali me convence a tentar tantas coisas novas que até a ideia de cruzar a América do Sul de moto em fevereiro eu topo. Não do jeito que ela quer. Ela reclama que eu planejei cada mísero hotel, até as opções B, C e D pro caso da gente se perder.

Mas eu vou.

Obviamente, eu já tinha plantado as pistas do que eu queria. Fiz o algoritmo dela recomendar só viagens de moto pela América do Sul, e criar a expectativa de que iríamos assistir um show do Airbag.

Mal sabe ela que era El Festival de Las Camelias, e que a Avril Lavigne iria ser uma das headliners. Ela não sabe que eu comprei o ingresso de segunda mão e que a vista é horrível pro palco, não sabe que eu economizei mais de 5000 mil reais durante esses anos de trabalho e que até engoli o orgulho e aceitei ajuda dos meus pais.

Mas vai valer a pena ver ela sorrir, morrer de chorar no show e me beijar até eu ficar sem ar.

À caminho da divisa, a gente se perde. Paro pra abastecer a moto, ir no banheiro, beber água e esticar o corpo.

Lali grava uma live sobre suas expectativas e experiências, me pergunta “cê acredita que o Jimin e a Alice já fizeram as pazes? Ela acabou de me mandar mensagem!”

O meu “mas já?” é suficiente pra pelo menos mil dos 50 mil seguidores da Lali me encherem de comentários me chamando de machista, misógino, opressor e dizendo que ela deveria terminar com um “embuste de pensamento tão antigo”.

— Foi mal, não era pra eu ter gravado nada.

— Tudo bem. Se eles soubessem que eu tava falando do Jimin e não da Alice, acho que a mente deles ia explodir. Mesmo assim, eles iam inventar alguma coisa pra me chamar.

— É por isso que eu te amo.

Rio baixo. — Gosto de todos os lados seus, inclusive o lado que fez a gente se perder em Buenos Aires mesmo com o GPS ligado.

Lali me dá um tapa fraco no ombro. — Aff, eu me derreto quando você me chama de gatinha!

— Gatinha. Minha gatinha.

— Te amo, gatinho. — Lali mia e finge me arranhar.

Solto uma gargalhada. — Eu te amo, gatinha.

A puxo pra um beijo.

A gente se perde outra vez.

Ela desmaia quando vê a Avril, quase tem uma parada cardíaca quando pega um autógrafo e tira foto com a Airbag.

Me beija na frente do Obelisco.

Me faz aceitar estender a viagem até Santiago.

A ideia era voltar na primeira semana de março e chegar à tempo pras aulas, mas ela me faz voltar uma semana depois (cheio de chaveiros de lhamas e alpacas, ímãs de geladeira de tango, vinhos chilenos, um milhão de Polaroids e até roupas de frio que a gente nunca vai usar em Costaré).

Ela ainda ri alto demais pros lugares onde a gente vai. É ridículo, mas me faz rir junto. Demorei demais pra perceber que eu já não tinha mais vontade de ficar longe dela. Tive a chance de ir embora, mas estou aqui.

O mundo ainda é turbulento fora da viseira da minha moto, mas dentro do quarto de cada quarto hostel, tudo é opulento.

Pela primeira vez, algo na minha vida vai ser permanente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!