Anything But Ordinary
10 A vida é um acidente bonito
FINALMENTE, É A ÚLTIMA SEXTA-FEIRA DE MAIO.
Jimin aparece na sala de jogos do Solaris às 20h em ponto.
— Yoongi, meu mano!
A regata branca, calça jeans e colar de cruz dele até que estão modestos pra essa noite, e nem parece que ele passou o perfume de menta de sempre.
— De novo você passou aquele sabonete horroroso? Sua pele tá resecadíssima.
Faço uma careta.
— Já falei que você vai ficar cheio de rugas e vai acabar com—
— A barreira natural da pele.
— Então cê só finge que não ouve nada, né?
— E você não desgruda mais desse cachecol.
— Já falei que é echarpe.
— É tudo a mesma coisa.
— Não é.
Bufo.
Ele veste a jaqueta jeans na bancada.
Paro de piscar. — Você também tá obcecado por essas pedrinhas.
— Os strass? Ah, a Lali me influenciou!
— Cês ainda vão cegar alguém com isso.
— Larga de ser exagerado, moleque! Até parece que você não me conhece: eu sempre fui assim!
— É. Agora tá pior.
Jimin me mostra a língua.
— Quer me beijar, é?
Jimin segura o próprio pescoço. — Que nojo, Yoongi, que nojo! Prefiro lamber cloro! Eu tenho bom gosto!
Reviro os olhos. — Claro. Bom gosto e experiência, né? Cê já namorou quantas vezes mesmo?
— Todas me querem, eu é que não quero ninguém!
Sei.
— Bora? — digo.
— Bora.
No caminho até a recepção, passamos pelo Namjoon na bancada. Ele está concentrado, atendendo a um grupo de hóspedes argentinos com um sorriso profissional.
— Ele tá mandando bem, né? — Jimin afirma.
— Sim.
— Parece que saiu um peso dos seus ombros. Tá gostando de ser gerente?
— É… Tem muito mais coisa pra fazer do que eu pensei. Sua mãe não tem nenhum pingo de dó da minha alma.
Jimin ri. — Normal. Eu fiz um creme novo, sabia?
Enquanto caminhamos, ele fala sobre pH, óleo de buriti e de babosa. Balanço a cabeça, fingindo entender cada detalhe.
As luzes ficam mais amarelas e o chiado de vozes em coreano mais intenso.
Talheres batem. Pessoas gesticulam. Um pagode vaza pelas caixas de som num tom baixo.
Cheiro forte de gordura e de alho.
Mesmo com o vento forte, escolhemos uma mesa do lado de fora da Seo Grill com vista pros tijolos desnivelados da decoração.
— Pois não? — O atendente sorri.
— Jokbal, por gentileza.
— E muito soju, por favor! — Jimin completa com uma risada.
— Posso trazer o soju agora?
— Claro! — Jimin ri.
O atendente nos serve uma dose e nós o agradecemos.
Jimin não para de se mexer na cadeira. — Tô com medo do vestibular.
— Eu também.
— Se eu não passar, eu vou decepcionar a minha mãe. Ela tá botando muita fé em mim.
Giro o copo e bebo mais um gole do soju. — Cê fez as pazes com ela?
— Pazes? — Jimin franze a testa.
— Ela tava meio séria. Achei que vocês tinham brigado ou algo assim.
— A gente não brigou. Mas eu também percebi. Senti ela meio abalada esses dias. Queria que ela arrumasse um namorado logo.
— Agora cê vai meter essa? Ela disse que você teve ciúmes dela a vida toda!
— Mas agora eu sou adulto, Yoongi!
Balanço a cabeça.
— E você? Fez as pazes com os seus pais?
Tomo mais um gole do soju. — P-pra quê se eu nem briguei com eles?
Jimin ri pelo nariz. — Olha, sinceramente: nem vou opinar!
— Olha só que maravilha: ao mesmo tempo que você me entende, você discorda de mim, cara. Como você é difícil! Me irrita!
— Qual seria a graça se eu só passasse a mão na sua cabeça? Eu não seria seu amigo, e sim um interesseiro.
— Interesseiro só porque eu tô te pagando churrasco e cachaça? Achei que você tinha mais ambição, mano.
Os olhos dele ficam vermelhos. — Depois que a gente se conheceu, tudo mudou. Você é meu irmão!
— Cê tá tentando me fazer chorar, vei? Já não basta a sua mãe com as terapias grátis dela!
— Pode chorar agora, Yoongi. Não tem ninguém olhando.
Não queria que a ardência nos meus olhos fosse por culpa das lágrimas, nem que as pessoas estivessem comentando sobre mim.
Mas o meu corpo não está nem aí.
Jimin bate nos meus ombros devagar. — Isso. Põe pra fora. Foda-se todo mundo!
Só paro de chorar quando o atendente traz o jokbal.
— Obrigado — Jimin diz.
Ele prepara rolinhos de alface com molho de camarão, se balançando na cadeira.
Regularizo a respiração e faço minhas porções.
— Amanhã eu vou junto com a Lali comprar o celular dela. Ela tá muito animada. Cê vai com a gente, né? Isso é muito importante pra ela!
Com certeza ela vai ficar falando alto na loja.
E vai salvar o nome de todo mundo como “gatinho”.
— Valeu, mas eu dispenso. Já tô por aqui com ela! — Estico uma mão no ar.
— Você é muito exagerado.
— Exagerado? Ela deixou a recepção sozinha várias vezes pra ficar fofocando com os hóspedes. Eu podia ter sido demitido por culpa dela! Fora que ela fala demais. Só você e a Alice que aguentam!
— Eu sei, mas se você tiver paciência, vai ver que ela é legal.
— Eu sei que ela é legal, mas continua me irritando!
— Até eu acho ela irritante às vezes, Yoongi! Mas eu também te acho.
Bufo. — Tá. Já te conheço e sei que você vai me encher até eu aceitar, então eu vou!
— Licença… Cês são tão lindos! Cês são namorados?
Eu e Jimin levantamos a cabeça ao mesmo tempo.
A garota usa uma saia rodada rosa, meias longas e uma trança no cabelo laranja.
Não é possível isso, Deus! Será que eu posso só beber em paz hoje?
Jimin força um sorriso. — A gente é melhor amigo.
— Solteiros?
— Sim!
Não acredito que você vai dar bola pra ela.
— É verdade que cês são românticos igual nos doramas?
Jimin balança a cabeça. — Depende. Se eu participasse de um, acho que eu seria.
Mas que merda!
A garota solta uma risada escandalosa. — Ai! Eu quero um coreano só pra mim! Qual de vocês dois eu posso levar pra casa hoje, hein?
Estendo a mão. — Eu. Porque é óbvioque vou namorar alguém que faz esse tipo de comentário, né? Mal posso esperar pra conversar sobre o quão coreano eu sou enquanto você dança K-pop na sala.
Ela empalidece.
Jimin engasga com o ar. — D-desculpa pela grosseria dele.
Grosseria?
A garota sai tropeçando nos mocassins vermelhos, sem olhar pra trás.
— Precisava falar assim?
— Se você gosta de chamar atenção, parabéns! Aproveita! Eu não tenho mais paciência pra essas idiotas! Já falei com a sua mãe ontem: eu vou meter o pé daqui!
— Como assim?
— Eu vou entrar de férias.
Jimin respira tão fundo que seus ombros relaxam. — Ufa! Eu já tô ficando paranoico porque acho que a Lali vai embora, quem dirá você!
Paro de respirar. Ué! Ela não te falou nada?
— Você também não tá sentindo ela… meio estranha ultimamente? Ela disse que quer juntar dinheiro e começar a gravar vídeo, mas tem alguma coisa a mais! Eu tô com um pressentimento ruim de que ela vai sair do Solaris!
Estico o cotovelo na mesa. — Cê acredita que eu não percebi nada?
— Pois eu sim! E eu vou descobrir o que é! Eu sempre descubro!
Idiota! — Boa sorte.
No dia seguinte, acordo cedo demais. Tomo um banho e um café reforçado pra aguentar a Lali de novo.
E muita paciência.
Uma regata branca. Calça jeans. Jaqueta listrada preta. Cinto. Coturno.
E muito perfume.
Pronto.
Quando piso na recepção, minha boca se abre sozinha.
Alice está atendendo um hóspede. Sorrindo de forma contida. Com a postura impecável e os olhos atentos no check-in.
Lali está sentada no sofá. Falando sozinha. Rindo pro vento, como se estivesse numa entrevista. Ela usa um top laranja. Não dá pra ver sua cicatriz na barriga, mas a saia curta deixa suas pernas à mostra.
Fixo os olhos na parede. Meu rosto esquenta e eu coloco uma mão no bolso.
Meus olhos voltam pra Lali sem o meu consentimento.
Xadrez. Laços. Borboletas. Babados.
Como você não endoidou costurando tudo isso?
Deve demorar.
Deve ser muito difícil.
Tento calar meu cérebro, assobiando pro vento.
Lali acena pra mim.
Se inclina.
E beija as minhas bochechas.
O cabelo dela cheira à fórmula de lavanda da nova máscara do Jimin, acabando com qualquer chance que eu tenha de respirar.
Ótimo. Agora eu vou ficar suando desse jeito num dia frio.
— Oi, gatinho!
Minha tentativa de não sorrir falha. — Oi, Lali.
Tem uma manga sozinha no braço esquerdo dela. Parece feita de renda, num tom laranja bem mais claro, quase branco.
Isso é proposital ou… você esqueceu de costurar a outra manga?
A bolsa é uma daquelas sacolas de universitários que o pessoal usa no Centro, estampada com maracujás.
Até. O. Colar. Combina.
Como você faz isso?
Como inventa tanta coisa?
E por quê? Pra quê?
E por que eu não consigo parar de te olhar?
Balanço a cabeça.
Lali me chacoalha pelos ombros. — Me responde, gatinho!
— Aham. É! — Forço uma risada.
— Eu também tô super animada! O Jimin vai me emprestar o cartão de crédito dele, sabia?
Abro um sorriso lateral. — Só ele mesmo pra confiar numa estranha.
Lali me mostra a língua. — Ele confia porque é nosso amigo.
— Cê não vai desistir dessa ideia nunca, né?
— Não. Até o dia que você disser “sim, Lali. Eu sou seu amigo.”
— Espera sentada porque em pé você vai cansar.
— Você que vai, gatinho.
— Que amizade boa. Não tenho nem direito de descansar.
Lali ajeita o laço do cabelo. — Você é o meu gatinho favorito daqui, sabia?
Diminuo o sorriso. — Você não cansa dessas cantadas ultrapassadas?
— Aff, você é o único que não sabe brincar!
Estalo a língua. — É porque eu não quero.
Lali encurta o espaço entre nós. — Bora ver até quando.
Ela desce o olhar pra minha boca.
Grudo as costas na parede.
Meu estômago revira.
— Confessa: você gosta de mim, né? Tá doido pra me pegar que eu sei!
— Q-quê? De onde você tirou isso?
Ela joga os cabelos de lado. — Argh! Bem que eu falei: você não sabe brincar.
Passos soam no porcelanato.
— PRONTOS?
Jimin usa um blazer preto de lantejoulas, como se tivesse saído direto do camarim do Michael Jackson.
— Jimin. — Respiro fundo. — A gente tá indo no shopping, não num desfile! E tá de manhã!
— Não escuta ele, Jimin! — Lali sorri. — Você tá arrasando!
Ele gira em torno de si mesmo e se debruça no balcão. — Eu sei!
Mereço.
— Oi, Alice. Fala se eu não tô maravilhoso?
Ela para de mexer no computador e arregala os olhos. — Misericórdia!
Lali e eu abafamos o riso.
— Eu sei. Eu sou irresistível!
Alice mostra a língua pra ele.
— Tchau, Lice. — Ele acena antes de sair.
Jimin desliza os dedos pela lataria do Corsa vinho dele antes de entrar. Lali se senta no banco do carona e eu me jogo no passageiro.
Jimin dá partida e liga o rádio. — Quer ouvir o quê, Lali?
Lali balança os ombros. — Você já sabe!
Encosto a cabeça na janela. Tocam músicas da Pitty e do TWICE no último volume. O cabelo da Lali fica todo arrepiado com o vento. Ela canta alto com os braços levantados, e vez ou outra chacoalha o Jimin. Ele balança o volante e bate os mocassins no ritmo das músicas.
O trânsito é terrível, nem parece sábado.
Aos poucos, o ar salgado dá lugar à sensação de asfalto quente. As camélias somem. Tudo que existe são os prédios mal planejados do Centro, a correria das pessoas com cafés na mão e as buzinas altas ao redor.
— Sabe, Lali… — Jimin diz —, eu tava aqui pensando: como seu carro ficou tanto tempo parado sem ninguém pra dirigir ele?
Lali passa os dedos pela manga no braço.
— Ah… — ela gagueja —, foi o advogado do meu pai. Ele que cuidou.
— E você não tem nenhum outro parente vivo?
Lali vira a cabeça pra janela. — Tenho uma tia.
Franzo a testa. Tia?
— E você já falou com ela?
— Poucas vezes. Ela me odeia.
Odeia?
— Sinto muito… Mas… e a família do seu pai? Você conhece eles?
— Eles tão na Itália, mas eu não conheço ninguém, e eles nunca vieram atrás de mim.
— Cê já pensou em ir pra lá?
Lali troca um olhar comigo pelo retrovisor.
Mordo o canto da boca.
— P-pensei. Mas não tenho certeza!
— É complicado, né? O Yoongi e eu vamos te ajudar a falar com eles!
— Pra quê? Eu estraguei a família quando eu nasci!
Os olhos do Jimin umedecem.
— Cê não estragou nada, Lali. Você melhorou. — Jimin estaciona o Corsa. — Aliás… Quando cê vai tirar sua carteira, hein?
— Não vou tirar aqui, só quando eu cheg— Lali corrige a postura e força uma tosse.
Jimin abre a boca.
— Vamo, gente? — Abraço os cotovelos.
Jimin continua com as sobrancelhas arqueadas, caminhando atrás de nós na direção do Shopping Costarenho. Palmeiras contornam a entrada, formando sombras. Pessoas balançam sacolas. Escadas-rolantes lotadas. Quiosques barulhentos. O cheiro de folhas secas e o ar gelado se misturam misturando com o calor do asfalto.
— Quem desenhou esse lugar esqueceu que existe verão! — solto. — Esses vidros espelhados cegam mais do que as pedrinhas que vocês enfiam na roupa.
Lali coloca uma mão na cintura. — Olha, garoto: se você é meu fã, fala logo, tá? Eu posso autografar meu nome na hora que você quiser. Ainda coloco um beijinho do lado.
— Não, muito obrigado.
— Ih, alá! — Jimin diz. — DR a essa hora? Cês tão namorando e eu não tô sabendo?
— Não. — Lali bufa. — Ele é cheio de regras e diz que a gente não pode namorar senão a sua mãe manda a gente embora. Ou você acha que logo eu desperdiçaria a oportunidade de namorar um gato desses?
Lali pisca.
Engasgo com o ar.
— Ah, vocês iam ser um casalzão da porra!
Casalzão da porra?
O sorriso dela murcha. — Acho que eu não sou o tipo dele! Ele tem cara de que gosta daquelas garotas frescas, nerds e chatas que são quietinhas, que gostam de ler livros difíceis e que não deixam a recepção sozinha. Uma garota que seria amiga dele…
Não sei se eu rio, se bufo ou se reviro os olhos. Tudo que faço é contrair os ombros e parar de piscar.
Lali e Jimin me encaram.
— Por que vocês tão falando essas coisas? Como assim? Cês não tão me vendo aqui? Eu sou algum tipo de piada pra vocês?
— Você é o tipo dele, sim. Ele gosta de garotas esquisitas.
Tipo?
— Cê tá me chamando de esquisita?
— Mais ou menos. Juro que é no bom sentido.
— Mesmo assim, ele não vai me dar bola nunca. Já perdi as esperanças. Por isso que ele é só o meu crushzinho, sabe?
Crushzinho?
— Cês tão me ouvindo? Eu. Tô. Aqui!
Jimin gargalha, e Lali faz um five high com ele.
— Eu shippo!
— Cês não levam nada a sério?
— Como cê é besta, hein, mano? — Jimin me dá um peteleco. — Minha mãe diz pra não misturar trabalho com namoro, mas não precisa ser extremo! Fora que… namorar em segredo é muito melhor, né? Eu guardo pra vocês!
— Então você gosta do perigo, Jimin? — Lali o cutuca pelas costelas.
— Se for com você, gatinha, com certeza!
— Deixa a Alice ouvir isso, Jimin!
— Retiro o que eu disse!
Eles beijam a bochecha um do outro e gargalham.
Respiro fundo. Me ajude, Senhor!
Lali para na primeira loja de celulares que vê. O ar é gelado e o cheiro de desinfetante é forte.
— É esse!
— Mas já? — Jimin e eu perguntamos ao mesmo tempo.
— Sim: tem glitter!
— Mas, Lali, — Jimin argumenta —, aquele preto ali tem muito mais espaço! É mais rápido! E também é muito mais barato!
— Mas eu quero o laranja com glitter!
— É mais fácil você comprar o preto e uma capa laranja com glitter — digo, piscando.
Lali faz bico. — Tá bom: cês venceram!
Ela chora ao passar o cartão. Jimin a abraça e a ajuda a configurar suas contas e a baixar os aplicativos, chorando também.
— Yoongi, cê vai salvar meu nome como? “Gatinha”, né? Óbvio!
Eu sabia!
Semicerro os olhos. — Uau, essa é nova! Achei que seu o nome fosse só Lali. Gatinha é seu sobrenome? E você não escutou o vendedor dizendo que era pra mexer só depois de carregar 100%?
— Aff! Você é sem graça demais! Eu coloquei o seu assim!
Lali vira a tela.
Meu nome em hangul. Gato em hangul. Emojis de gatos e um coração preto.
— C-como cê sabe escrever meu nome?
É a vez dela ficar vermelha. — É… Eu usei o tradutor e agora me perdi! Cê não tá vendo?
Você tá mentindo. Eu sei que tá!
— Pode colocar de volta em português?
Prendo a risada e configuro o celular.
— Parabéns pela conquista, Lali — solto meio sem querer, com uma pontada no peito.
Por que eu tô sentindo isso?
— Brigada, meu gatinho emburrado.
Ela me beija na bochecha de novo.
E isso também?
Mais um sorriso escapa de mim. — Quando cê vai parar com isso?
— Desculpa. Achei que você não gostava de abraço, não que não gostava de beijo!
— Olha ali, uma loja cheia de pedras!
Lali diminui o espaço entre nossos rostos.
— Cê acha que eu sou idiota, é?
Perco o fôlego.
— Então quer dizer eu não posso te beijar aqui?
Lali desce o olhar pra minha boca.
Meu peito dispara. Puta. Que. Me. Pariu! É como se eu estivesse andando de montanha-russa de tanto que meu estômago se mexe. De cabeça pra baixo. Sem aviso.
— Bom saber, gatinho.
Tusso forçado. — Vamo! O Jimin tá esperando a gente!
Entramos na loja de cosméticos. Jimin está enchendo um carrinho e conversando com as atendentes sobre skincare. Elas elogiam a pele dele, que aproveita pra se gabar.
Quando pisco, estou na sessão de perfumes. O ar é uma mistura de aromas cítricos, frescos e amadeirados. Me perco nos vidros e nos valores elevados.
Lali para na minha frente e seu pescoço toca o meu nariz: melancia com um toque de limão no final.
— Esse é muito bom, né? Vou levar dois! Tá na promoção!
O ar some.
Minhas mãos são duas chamas.
Aquela sensação horrorosa de pressão, embrulho e dor ataca o meu estômago.
Mais forte do que da última vez.
Minha perna nunca tremeu desse jeito. Nem com um yop chagi.
Essa dor no estômago que eu tô sentindo é…
Borboleta?
Não. Não. NÃO!
— Sim. — Me afasto. — Muito bom.
Tento normalizar a respiração e os passos aos poucos, mantendo o máximo de distância possível da Lali.
Lali passa em mil lojas. Maquiagem. Roupa. Até colchão ela quer levar.
Acabo sendo obrigado a carregar um manequim. Pelo menos é útil.
— Essa sua ideia de comprar colchão foi péssima. — Fecho o porta-malas do Corsa. — Cê não precisa disso, a gente mora no Solaris.
— Mas eu precisava ajudar o vendedor a ganhar comissão! E eu ia parcelar no cartão! Cê tá achando que eu vou dar calote no Jimin, é?
— Não é isso, Lali. — Jimin toca o ombro dela. — A gente só não quer que você gaste o seu dinheiro todo.
— Valeu, mas eu sei me virar!
E como sabe!
— Trufas! Trufas!
Uma senhorinha arrasta o carrinho com um letreiro enorme em azul escrito “TRUFAS R$10 CADA!”. Ela tem olheiras enormes e a voz extremamente fina.
— Podem me ajudar? — ela pergunta.
Lali sorri. — Sim, moça. Tem de quê?
Respiro fundo e troco um aceno de cabeça com o Jimin.
— Tem de pistache, de napolitano e de abacaxi.
— Me vê uma de cada, por favor.
— Obrigada, mocinha.
— De nada.
Lali se vira pra nós. — Qual cês vão querer? O meu é o de pistache, nem vem!
— A gente tá aqui de enfeite, né? — digo.
— Ah! Eu tava ajudando a moça!
— Vamo, Lali! — Jimin a apressa, se aproximando da porta do Corsa.
Os olhos dela marejam. — Aff, Jimin, cê tá me apressando igual a Alice! Se vocês puderem… Antes da gente ir embora… Vamo… passar num lugar?
Jimin aceita.
Puxo o ar com força.
Quando eu menos espero, “AQUÁRIO DE COSTARÉ” grita em azul marinho. Tem uma fila enorme que me faz prender a respiração.
Mas eu fico parado.
Lali e Jimin riem e tagarelam.
O tempo passa rápido.
Lali paga nossas entradas, dando pulos e gritos.
Por dentro, tudo parece um labirinto de peixes. Tubarões. Golfinhos. Tudo é muito azul, cinza e verde. Tem cheiro de maresia, e o ar é bastante abafado.
— Ah! Era o meu sonho vir num aquário! — Lali sorri.
— Também era o meu quando eu era criança, mas não tinha aquário onde eu morava. — Sorrio.
Encosto a testa no vidro gelado.
— Achei que cê era de Costaré!
— De coração.
— Você não é quem eu pensava, Yoongi.
Junto as sobrancelhas. — E isso é ruim?
— É ótimo. Parece que sempre tem alguma coisa nova pra descobrir de você. E com você. Sobre você.
Do nada?
Quero agradecer. Perguntar o porquê dela estar falando essas coisas, mas só continuo parado, com o peito acelerado, as mãos suadas contra a calça e a expressão travada.
— Parece que… sempre vai ter alguma coisa pra gente conversar. Nem que seja só pra você ficar reclamando de tudo.
Minha garganta seca.
— Você é chato e ao mesmo tempo é legal… Não sei como, mas… eu acho que eu nunca vou me cansar de você!
Pisco forte. — É…
— Aqui tem até ursos! Olha! Eles são tão fofinhos!
Dou risada do olhar dela pros vidros.
— Achei que você ia levar a gente lá…
— Onde? No nosso lugar?
— N-nosso?
— Sim. — Lali pisca, dando um beijo rápido na minha bochecha.
Meus ombros congelam de novo.
E meu estômago dói.
Além do xampu de coco, sou obrigado a aturar seu perfume de melancia e limão, seus dedos suados grudados nos meus, suas piadas ruins e suas risadas escandalosas enquanto ela observa os cavalos-marinhos.
Você é idiota! Extremamente sem noção, Yoongi! Tudo que é bom demais acaba em tragédia! Para de se deixar levar!
Distensiono o pescoço. Eu não tô me deixando levar!
Cruzo os braços. Cê sabe que gosta de ficar perto dela, Yoongi.
Fecho a expressão. Gosto nada! NADA!
— Cuida do Duri pra mim — digo, intercalando o olhar entre ela e o Jimin.
— Cuido. — Jimin bate continência.
Lali o abraça de lado e se emociona com a vista dos tubarões.
Quando voltamos pro Solaris, durmo por umas boas horas até acordar largado perto da porta com o Duri no meu colo e várias folhas e pelos espalhados pelo tapete.
Ando até a cozinha.
Tem dois refrigerantes de lichia na bancada.
Ah.
Pedras coloridas coladas em aventais laranjas.
Lógico!
Tinha que ser!
Jimin manuseia a batedeira, assobiando a melodia de um forró antigo.
O ar está abafado e a bancada gelada é farinha pura.
Murmuro “tisc” e me aproximo.
O cheiro de pão, açúcar queimado e café se misturam. Tem hóspedes cozinhando macarrão perto da janela, falando sobre quem vai pagar o próximo corn dog do grupo.
Lali acena pra mim. — Gatinho, eu fiz café pra você! Já ia levar no seu quarto!
— Café?
— O Jimin disse que você é daquelas pessoas frescas que só toma café sem açúcar. — Ela vira o pacote e o lê. — Esse daqui é 100% arábica… direto do… Caparaó capixaba. É isso! Já misturei com leite em pó do jeitinho que você gosta!
Dou um gole e faço uma careta. — Puta merda! O dono do secador mandou o café ruim desse jeito?
— Tá queimado? — Jimin pergunta.
— Tá salgado!
— Culpa sua, Lali!
— Sua!
— Eu te falei que era a vasilha azul!
— Mas era igual!
Bufo. — Vocês não conseguem seguir uma receita simples?
— Eu não tive nada a ver com isso, mano!
— Receita é pros fracos. — Lali sacode os ombros. — Prefiro inovar!
Coloco uma mão no queixo.
— Mentira. Eu só não sei cozinhar mesmo!
— Ah, não me diga?
Lali se apoia em uma perna. E perde o equilíbrio.
Em. Cima. De. Mim!
Minhas costas doem quando o corpo dela se choca contra o meu.
Não mexo um músculo.
Meu estômago revira de novo. A última vez que eu senti isso foi... Ah! Nem lembro, mas essa praga dessas borboletas doem demais! Arde pra caralho! Eu não sou mais adolescente pra ficar assim! INFERNO!
O calor no meu rosto é insuportável.
Lali e Jimin gargalham.
Ergo o corpo. — Cê machucou sua barriga?
Lali fica a um centímetro do meu ouvido. — Se você queria me abraçar, era só ter falado!
Seu perfume me distrai. Penso em dizer “fica longe de mim”, “para de me fazer sentir dor” e até mesmo “você é chata”, mas termino apenas soltando uma risada baixa.
— Seu sorriso é muito fofo, Yoongi!
— E você é muito estranha.
Assustadora.
— Cê tá flertando comigo ou tá me xingando?
— Não é você que gosta de elogiar? Pois então: esse é o meu jeito. Cada um tem a sua peculiaridade.
— Cê tem mesmo 19 anos? Quem fala “peculiaridade” nessa idade?
— Cê não viu nada ainda, Lali! — Jimin ri. — Cê precisa ver ele falando sobre arquitetura!
— Eu ouvi ele falando sobre Machado de Assis, mas eu não entendi nada!
Solto um riso pelo nariz. — Então eu fiquei aquele tempo todo te explicando a minha teoria da Capitu pra nada?
— Quem mandou você ser tão lindo e ficar me distraindo? Mexe com o meu coração!
Minha cara arde pela 30° no dia.
Merda! Merda! Merda!
— Você também, Jimin! A culpa é sua que eu coloquei sal no lugar do leite em pó, seu palhaço!
Jimin respinga água no cabelo dela. — Palhaça! Aliás, cê quer que eu te leve no aeroporto amanhã?
— Vai me ajudar bastante.
Lali levanta as sobrancelhas. — Aeroporto? Como assim?
— Minha mãe obrigou ele a tirar férias logo.
Concordo com a cabeça.
Lali joga o cabelo de lado. — Cê vai pra onde?
— Vou fazer um tour arquitetônico por Brasília, Curitiba e Ouro Pr—
— Cê vai lá pra ver prédio? — Ela arregala os olhos.
Jimin faz que sim com os polegares. — E fumaça!
— É, mas até que combina com você, gatinho!
— Cê tá chateada por que ele não te avisou, né? — Jimin ri. — Vou assistir a primeira briga do casal de camarote?
Bufo.
— Eu não tava esperando… — Lali puxa o laço da blusa. — Mas eu não fiquei chateada porque quando eu for embora pra Itália, acho que também vai pegar muita gente de surpresa!
Jimin para de beber o refrigerante. — Quê?
Respiro fundo.
Os olhos dos dois se enchem d’água ao mesmo tempo.
— D-desculpa por não ter te contado antes, mas é por isso que eu tô aqui: tô juntando dinheiro pra ir embora! Não me odeia, por favor!
Jimin soluça. — Como eu vou te odiar, sua chata?
Eles se abraçam.
— Eu sabia que tinha alguma coisa muito esquisita! Eu vou sentir tanto a sua falta!
— Eu também, Jimin, me perdoa!
— Acontece… Mas você vai ser muito feliz na sua jornada!
Lali trava o olhar em mim.
Paraliso.
— Espero que sim. Mas me diz uma coisa: também demorou muito pro Yoongi virar seu amigo?
— Demorou acho que uns… três meses, mas uma hora você derrete esse coração de gelo.
Cruzo os braços. — Fiquei invisível de novo?
— Me dá dica, Jimin?
Jimin fala sobre paciência, presentes e comida coreana. Um blá blá blá que me deixa com vontade de rir, bufar e xingar ele ao mesmo tempo.
Estou prestes a sair da cozinha de fininho, quando passos apressados soam atrás de mim.
— Pera aí! — Lali toca meus ombros.
Um arrepio desce da minha coluna até as pernas.
— Eu tenho um presente pra você. — Ela me arrasta pelo corredor.
Dois segundos depois, ela volta com uma máscara de dormir em mãos. O formato é de orelhas de gato marrom com um tecido de pelos e olhos.
Olhos. Cansados.
E o meu nome…
O meu nome…
Meu.
Nome.
Em hangul.
Hangul.
Demoro alguns segundos pra segurar o tecido.
— V-Você costurou isso pra mim?
— Claro! Cê conhece outra pessoa mais genial que eu?
Penso em responder “eu”, mas ela continua:
— Foi o Jimin que me ensinou o seu nome! O bordado não ficou lindo?
Aperto os lábios. — Mas você fez essa cara entediada por quê? É assim que você me enxerga?
— Cê vive com essa cara de quem não quer tá nos lugares.
— Mas cê acha mesmo que eu vou usar isso?
Lali semicerra os olhos.
— Eu tava brincando. — Sorrio. — Obrigado.
Ela beija minha bochecha.
O arrepio é tão forte que eu erro um passo.
Lali gargalha.
Encosto uma mão na parede, voltando a caminhar.
Graças a Deus esse vôo é amanhã!
— Yoongi…
Minha cabeça não ouve o comando do meu cérebro e se ergue sozinha.
Os olhos dela estão úmidos.
Enrugo a testa. — Que foi?
— Cê acredita em Deus?
Ahn?
— Acredito… Eu ia na igreja quando era criança.., Por quê?
Ela funga. — É que eu… eu nunca acreditei.
— Sério?
— É. — Lali suaviza o tom. — Eu achava que Deus não existia porque… se existisse mesmo…
Uma fisgada aperta meu peito.
— …não teria deixado eu perder os meus pais… Nem deixado eu crescer naquele inferno…
Qualquer tentativa que eu pudesse ter de dizer algo se limita a uma respiração curta.
— Mas… depois que eu conheci vocês… eu comecei a acreditar…
— Sério? — Minha voz soa soprada. — Por quê?
— Se Deus não existisse, quem teria feito você aparecer pra me ajudar naquele dia? Quem teria feito eu te conhecer?
Minha voz gruda num nó que faz minha garganta arder. Antes que eu monte qualquer sílaba, Lali solta:
— Do que a gente tava falando mesmo?
Na recepção, toca uma das músicas barulhentas da Scorpions. Meus olhos acompanham os movimentos da Lali. Ela puxa Alice pra dançar, depois arrasta os hóspedes.
Quero ir pro quarto, mas o olhar dela me mantém parado.
Em um dos giros, Lali me abraça. — Vou sentir sua falta, gatinho, e você vai sentir a minha também: tenho certeza! Mas boa viagem!
Minha boca se abre.
Se fecha.
Fecha.
Abre.
Ela beija minha bochecha e sai, saltitando ao lado da Alice em direção à cozinha.
Droga. Droga. DROGA! Eu vou infartar com 19 anos! De-ze-no-ve!
Me dê forças, Senhor!
No dia seguinte, parto às 4 da manhã.
Depois de pegar um ônibus de 12 horas até o Rio de Janeiro, e um voo de duas horas até Brasília, finalmente aterrisso no aeroporto.
Quando pisco, estou na frente do Congresso Nacional. Ar seco. Poeira. Galhos com pouca flor.
O dia corre e ao mesmo tempo se engatinha.
Depois de mil corridas de Uber e dois rins vendidos pra comprar pão de queijo de frente pro Lago Paranoá, finalmente descanso no Airbnb.
Encaixo a máscara no rosto. Não acredito que tô fazendo isso!
Capoto em segundos.
Acordo com o celular vibrando sem parar.
Terça-feira, 3 de junho.Atendo a ligação, bocejando.
— Encontrou os corruptos aí? — Jimin grita a um fio de estourar o áudio do meu celular.
— Não.
— Poxa, eu ia pedir pra você mandar todos eles se foderem!
Me espreguiço. — Quanta agressividade logo de manhã!
Jimin chacoalha um papel na bancada da recepção. — Ah, eu vou me foder nas questões de trigonometria! Tô quebrando a cabeça aqui!
— Eu até te ajudaria, Jimin, mas eu t—
— Tá, eu já sei: tá aí pra esquecer de tudo.
Toco na máscara, com a cara ardendo. — Isso mesmo. De tudo.
A voz da Lali soa atrás dele:
— Terminei de colocar a comida do Duri, Jimin. Cê vai—
Ela paralisa quando a câmera capta seu cabelo preso num coque, uniforme amarrotado e olheiras fundas.
Passo uma mão no cabelo, nas bochechas e nos olhos e deixo a postura reta.
— Desculpa te atrapalhar, Jimin. Não sabia que você tava falando com certas pessoas…
Desvio o olhar pro céu nublado.
— Cês brigaram de novo?
— Nem precisou! Deixa ele lá com a namoradinha brasiliense dele!
Prendo o riso. Quê?
— Ahn? — Jimin gargalha.
— Eu não sou importante. Já entendi.
Deslizo uma mão pelo rosto. Droga!
— Eu não vou me humilhar. Agora sou eu que não quero mais falar com ele!
Ensaio um sorriso, esfregando os polegares suados no queixo.
Jimin se aproxima da câmera, com os olhos quase fechados. — Cê bloqueou ela, foi? Por quê, véi?
— Não. Só silenciei todo mundo pra ninguém encher meu saco me mandando mensagem na viagem. Pelo menos até eu voltar.
— Até eu?
— Sim.
— VOCÊ—
— Foi mal.
— TCHAU!
Que povo dramático!
Abro minha conversa com a Lali.
Tem vídeo. Foto. Áudio.
Milhares de emojis.
Não sei nem onde eu clico.
Minhas mãos tremem.
“Já chegou, gatinho?”
“Como é Brasília? Tem muito gringo gato aí? Aposto que nenhum deles é mais lindo do que você!”
“Cadê você?”
“YOONGI!”
“Qual cidade tem mulheres mais bonitas: Brasília ou Costaré? E por quê Costaré? Justifique sua resposta.”
Reviro os olhos.
Vestido amarelo. Risadas. Avril Lavigne de fundo.
“Tá vendo? O vestido da Alice tá ficando tão lindo! Ela vai arrasar nessa formatura e o Jimin vai levar ela de carro, vai comprar buquê e tudo mais, eles vão namorar, eu tenho certeza! Ai! Que tudo!”
“Agora cê virou cupido?”
Colo a testa na tela.
Respiro fundo.
Apago a mensagem.
A tela pisca outra vez, machucando minhas vistas.
“Cê tá online?”
“ME RESPONDE!”
“Já tô com saudades!”
“Vai me responder não?”
“EI!”
Escorrego pelo lençol.
Merda.
Travo a tela e me levanto. — Eu sou mesmo um idiota! Um IDIOTA!
Prendo o ar. — Quando ela não tinha celular, eu ficava querendo mandar mensagem pra ela! Agora que ela tem, eu não consigo fazer o básico: mandar uma mensagem simples pra garota que eu gosto!
QUÊ?
Tapo a boca, arregalando os olhos. — Não! Eu não gosto dela! G-gosto?
Não.
Não.
NÃO!
— Eu pirei!
Desbloqueio a tela.
A foto do sorriso dela me faz sorrir.
— Culpa sua, Yoongi! Você só se fode, né, cara?
Abro o contato dela na agenda.
“Lali do Hostel Solaris”.
Troco pra “Gatinha”.
— Ah, se ela souber disso! — Alargo o sorriso. — Não vai calar a boca nunca! E eu não vou poder fazer nada pra impedir!
Minha língua coça pra dizer “me deixa em paz” num áudio.
Por que eu tô assim? Isso não é saudade… é?
E por quê raios eu gosto dela?
Logo dela?
Isso não faz o menor sentido!
Não tem porquê eu gostar de uma garota tão chata! Tão aleatória! Escandalosa!
Carinhosa.
Cheirosa.
AH!
— Massageio as têmporas. — Isso é só atração! Até porque o ser humano é masoquista! Eu sou só mais um tonto pra inflar a estatística!
Como eu posso gostar de uma pessoa que pode sumir daqui a dois dias?
Ela chama todo mundo de “gatinho”. Abraça. Beija na bochecha.
É. Eu não sou o “gatinho favorito” dela. É puro blefe.
Meus olhos descem pra máscara.
Mas…
Ela costurou uma máscara com o meu nome.
Ficou vermelha.
Me mostrou um lugar secreto da cidade.
Falou de Deus.
Isso tudo deve significar alguma coisa.
Agarro o couro cabeludo. — Como eu deixei isso chegar tão longe?
Você sabe que não dá pra ignorar o seu coração, Yoongi!
Tiro o chaveirinho de maracujá do bolso.
O dia que fomos juntos no Museu das Sementes…
Na Central…
No nosso lugar…
Nosso.
Nosso.
NOSSO!
— Tá, Lali: eu já entendi que eu gosto de você, mas o que eu vou fazer com isso?
Acabo capotando.
Na sexta-feira, chego em Ouro Preto. O vento gelado da serra me acerta com força. A cidade é triste e me deixa zonzo. Sem fôlego. Me faz imaginar como seria a vida longe do caos de Costaré.
Em cima do Mirante das Lajes, registro várias fotos do pôr do sol. Numa delas, imagino a Lali do meu lado fazendo “V” pra câmera com a língua de fora e resmungando que aqui é alto e frio.
Abro nossa conversa no Instagram.
“Queria que você tivesse aqui comigo”.
Apago a mensagem.
Ela não me mandou mais nada desde segunda!
Mas eu sou um hipócrita do caralho também, hein?
Que direito eu tenho de ficar triste?
Clico no perfil dela.
“Taurina. Costarenha. Costurar é a minha vida.”
486 seguidores.
Seguindo 9374 pessoas.
535 publicações.
Vídeos com a Alice na praia e com o Hoseok na balada.
Tem uma enquete na última postagem dela.
“Qual suco eu bebo, gente? Cupuaçu ou graviola?”
— Cupuaçu ganhou gente! — Lali ri. — Mas eu gosto mais de graviola. Sinto muito, mas eu vou beber graviola mesmo assim!
Balanço a cabeça.
Seguro o impulso de mandar mensagem pra ela perguntando sobre como estão as coisas.
— Gente, teve um hater que disse que eu falo demais nos meus vídeos. Meu querido, é só não assistir!
Prendo a risada.
— Tem uma outra recalcada aqui falando que as minhas roupas são curtas demais, que o tecido é barato e que eu sou cafona!
Lali coloca uma mão no peito e finge uma cara de choro. — Só por essa sua foto de perfil usando essa pantacourt horrorosa, eu já sei que você é a pessoa mais básica da face dessa terra! Meu anjo, você é inimiga do glamour!
Dessa vez, a gargalhada escapa de mim sem que eu pense demais. Controlo o impulso de comentar “acaba com eles!”.
Na próxima postagem, Lali estica os dedos até o joelho na recepção. — Gente, minha chefe tava usando um vestido divônico!
Divônico?
— Uma segunda pele preta de renda e uma ankle boot aberta na frente.
Segunda pele?
Ankle boot?
Bloqueio a tela.
— Eu não faço ideia do que seja isso. Mas também não preciso saber. E nem quero!
Quando me dou conta, já é dia 13 de junho.
“Hoje faz um mês que a gente se conheceu”.
Mando sem pensar muito.
Lali me responde com um áudio:
“Tá… E daí? Você tá me ignorando a mais de uma semana. Me esquece, Yoongi!”
Meus ombros doem.
Sua risada ecoa na minha imaginação.
Afasto os pensamentos.
Lali está fazendo uma transmissão ao vivo na Rua das Rosas, mexendo os tênis no ritmo do rap que toca e interagindo com os moradores da Comunidade.
Tintas respingam, contornando as paredes.
Gambiarras se estendem até os becos.
Cores explodem.
Um cachorro caramelo late.
— Você… — Abro a boca. — Tá no Morro da Maré?
“Além de costureira e influencer, você ainda é grafiteira? Você não cansa de me surpreender!”
Firmo a tela contra a testa de novo. — Por que eu não consigo mandar uma mensagem simples sem querer desmaiar? Ah. Deve ser porque eu acabei de tomar uma patada, né?
Lali sacode as mãos.
— Seguicats, — ela grita por cima da música —, o pai do Joon é professor de geografia e dá aulas de grafite e a mãe dele é enfermeira. Que sonho! Com quê os pais de vocês trabalha? Sabiam que o meu pai era italiano e alfaiate? Minha mãe era brasileira, mas a profissão dela eu conto outra hora: vocês têm que ir me conhecendo aos poucos! Eu sei que sou interessante, mas vai que vocês somem, né?
Lali está chorando.
Meus dedos gelam ao tocar na tela.
“DIVAAA, nós não vamos te abandonar!”, uma pessoa comenta na transmissão. Tem 34 pessoas assistindo.
“Por que vc tá chorando, gatinha? #Seguicat4Ever!”
Outra seguidora enche o chat de emojis de gato. Uma outra comenta em inglês.
— Oi, minhas lindas! — Lali faz sinal de arranhar e solta um miado. — Eu tô bem!
Meu sorriso desaparece.
Ela tá lembrando dos pais.
Não, Yoongi!
Meu coração bate forte quando ela sorri. Para. De. Se. Importar. Com. Ela!
— Tia Bomi! Tio Felipe! Dá oi! — Lali vira a câmera pra eles, que estão ao lado do Namjoon.
Agachada em uma das escadas tortas perto de uma goiabeira, Lali abraça um joelho. Seu moletom preto está sujo de tinta laranja, e a calça parece larga demais. Seu cabelo também está sujo. Dá pra imaginar o fedor de química e a textura pegajosa de longe.
— Você se considera mais coreano ou mais brasileiro, Namjoon?
Ele agita o spray e continua desenhando a borboleta roxa na parede. — Os dois.
— Deixa um conselho pra próxima geração.
Agora cê vai virar repórter?
— Aceite suas raízes.
Minhas pernas formigam.
Uma lágrima escorre pelas bochechas da Lali.
Estou a um fio de desligar o celular, até que vozes soam no meio do vídeo. Umas 300 de uma vez. Gritos. Gente correndo.
Um homem gordo, baixo, calvo e de terno para no centro da gravação.
Ricardinho?
— Ricardinho! — Lali exclama. — Cê veio pra campanha do tio Felipe?
O prefeito sorri. — Sim, querida!
Os agentes do governo distribuem cestas básicas pras famílias. Lali grava tudo, acompanhando cada segundo com rapidez e cortando o meu raciocínio.
Lali suja o terno do prefeito de tinta verde.
Pede desculpas.
Gargalha.
E volta a filmar tudo.
Ainda estou boquiaberto.
Sem ar.
— Quando você vai consertar a pracinha do Morro, Ricardinho? Meu amigo foi me empurrar no balanço hoje cedo e eu quase caí! Aqueles brinquedos tão tudo velhos! Cê só faz reforma pros riquinhos da Vila Dorata, é?
Arregalo os olhos.
O prefeito dá risada, chacoalhando a cabeça. — É bom saber que temos cidadãos tão preocupados com a cidade assim! Vamos continuar sempre em busca de melhorias!
— Cê não consegue uma vaga pra mim na prefeitura, não, prefeito? Ou talvez cê podia me indicar pra ser a Miss Costaré!
Ele ri de novo.
Tapo a boca.
— É sério! Eu tô ficando famosa! Já tenho quase 1500 seguidores se você juntar o TikTok e o Instagram! Fora que eu sou linda, prefeito!
Alguém o chama.
Fico sem piscar por quase um minuto.
Desse jeito, até parece que você vai ficar no Brasil, Lali.
Na noite seguinte, chego ao Mundo Lingo de Curitiba e grudo as bandeirinhas no peito. Brasil, Coreia do Sul e Estados Unidos.
A música fica mais alta.
— Skank?
Você ia gostar daqui.
Meu peito dispara.
O cheiro do piso de madeira se mistura com o cigarro que algumas pessoas fumam do lado de fora.
Pigarreio e entro.
O bar é cheio de luzes verdes, glitter e folhas frescas nas paredes de tijolos.
Tem poucas cadeiras, mas gente demais.
Ninguém para pra falar comigo.
Me distraio com uma dose de caipirinha. O limão queima minha garganta e o estofado esquenta a pele.
Faço uma postagem no Instagram, com a legenda “#Curitiba” e um emoji de avião.
Lali curte na mesma hora.
“Que gato, pena que é insuportável!”.
Abro o perfil dela. Tem vídeos da manhã anterior.
“Seguicats, adivinhem pra onde a gatinha tá indo? Sim, gente: vou fazer um bate-volta pro Rio!”
“#Errejota!”
— Cês sabiam que os meus pais se conheceram no Cristo Redentor? Foi amor à primeira vista!
Os olhos dela umedecem.
— Queria ir lá — ela diminui o tom —, quem sabe eu não encontro um gatinho, né? Só que ele precisa gostar de mim de verdade sem ficar me achando uma chata e me ignorando! Façam filas!
Travo a tela.
Bem-feito, Yoongi! Ninguém mandou você ser burro e não saber responder ela direito!
Mexo no celular de novo.
Tem uma foto da Lali na frente do espelho. Pela primeira vez, ela usa uma roupa simples: saia jeans, boné e regata do Fluminense.
Mas na próxima imagem, o ângula foca no rosto dela.
Ela. Pintou. A. Bandeira. Do. Fluminense. Na. Bochecha!
É capaz de no aniversário dela, ela se vestir de bolo! De BOLO!
No próximo vídeo, Lali mostra meias de cano alto verde, cachecol vermelho e brincos brancos. Até pompons ela usa.
“O Natal chegou mais cedo no Rio? Ou cê tá indo pra uma festa tema Itália e nem me chamou?”
”Se colocar um pisca-pisca aí, acho que alguém sai direto pra uma consulta com um oftalmologista!”
Deleto os áudios antes que ela abra a conversa.
Sei que ela me responderia com “não preciso de pisca-pisca pra brilhar!”
Dou risada.
Respiro fundo. Isso devia ser mais fácil. Eu vou acabar afastando ela ainda mais desse jeito!
Rio pelo nariz. Mas era isso que você queria, né, Yoongi?
No último vídeo de uma hora atrás, o clima é descontraído: tem pessoas gritando, placas em preto e branco e outras em vermelho e verde. Apitos. Jogadores correndo. Grama verde.
Chuva.
— Até aí tá chovendo? — Rio.
— Ai, esse seu time é muito sofredor, Tio Eduardo! — Lali resmunga. — Eu vou virar botafoguense!
Ele fecha a cara. — Você não sabe o que é sofrimento, pirralha! Cê não entra mais na minha casa!
Eles gargalham.
Lali o abraça de um lado, e abraça a mãe da Alice do outro.
— Tia Soraya, deixa eu entrar na sua casa?
Ela alisa o cabelo da Lali. — Claro, querida. Sempre que quiser!
— E eu vou ficar sobrando? — Alice brinca.
Os quatro se abraçam.
O vídeo termina com os olhos úmidos da Lali, a câmera sendo chacoalhada no meio do abraço e a chuva cobrindo todos os ângulos.
“Como eu queria te ver agora… Mesmo que não fosse pra te dizer nada, nem que fosse só pra ficar te olhando e te ouvindo falar coisas nada a ver. Você vai embora, mas vai continuar na minha mente. E isso não é nenhum pouco justo.”
Travo antes de apertar o botão.
Como eu sou covarde!
Bebo um gole do gin e murmuro “AH!”.
Pressiono “enviar”.
Seco a boca e me levanto em direção ao banheiro.
Quero lavar as mãos. Ir embora. Dormir por umas 45 horas.
E esquecer o que eu acabei de fazer.
— Bateu? — Uma voz soa atrás de mim, arrastada, com um riso no final.
Me viro depressa.
Faço uma careta. Ah, não. Por favor, não!
Mais uma patricinha, Deus?
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