Anything But Ordinary

11 Não use o senso comum


A GAROTA RI NO MEIO DAS LUZES VERDES DO PUB. Seus olhos são cor de avelã. Grandes. Ela é pálida e tem cheiro de cereja. Seu cabelo lilás e ondulado está preso numa trança mal-feita.

Pela maquiagem, acho que ela deve ser coreana.

— Bateu? — ela me pergunta outra vez.

Suas pulseiras prateadas balançam nos braços finos, fazendo um barulhinho irritante.

Murmuro “tisc”.

— Bateu o quê? — pergunto.

Ela ajeita a boina vermelha na cabeça. — A cachaça…

Sua voz é meio fina, meio grogue. Ela tem um sotaque diferente.

Desço o olhar pras bandeirinhas na roupa dela: Brasil. Austrália. Coreia.

Ela puxa um papo num sotaque coreano ininteligível. Deve ser o álcool.

Tento acompanhar o que ela diz, mas ela corta o assunto e desaparece.

Respiro fundo e volto a beber.

A garota reaparece.

Mais de perto, suas roupas ficam nítidas: jaqueta de couro caramelo, calça jeans larga e tênis, e uma bolsa de marca. Acho que é da Gucci, mas não tenho certeza.

Faço uma careta.

Ela gira a taça. — Cheers!

A conversa segue numa mistura de inglês, coreano e português.

— Você é coreano? — ela grita por cima da música.

— Pode se dizer que sim.

— Legal. Eu também sou um pouquinho. Meu nome é Rosé.

— Yoongi.

Ela sinaliza os banquinhos.

Nos sentamos de frente um pro outro.

— Me fala de você. O que alguém como você tá fazendo aqui?

Indico as bandeiras no peito. — Não tá óbvio?

— Cê só me falou o seu nome! Só isso já conta pra gente ser amigo?

Amigo? Outra Lali, Senhor?

Meu sorriso se abre sozinho.

Me escoro no banco e tomo mais um gole da caipirinha.

— Deixa eu ver… — Rosé solta um chiado. — Cê tá odiando esse lugar porque você odeia barulho e principalmente gente.

— Quê?

— É. Já me vacinei contra pessoas assim. Até porque às vezes o meu lado antissocial também ataca.

— Que elogio lindo, Rosé. — Raspo a garganta. — Agora a gente é amigo?

— Não! Primeiro cê tem que deixar eu clonar seu cartão, né?

Torço o nariz.

Rosé se mexe na cadeira e semicerra os olhos, me analisando devagar.

Tusso forçado.

— Cê nasceu aqui ou na Coreia, Yoongi?

— Aqui. — Corrijo a postura. — Sou da segunda geração nascida no Brasil.

— Então seus avós te livraram de ter que ir pro exército.

— É… Mais ou menos isso.

— Mamãe e papai não te deram atenção, né? Por isso que você é assim.

Engulo a seco.

Ela ri. — Ou será que você é quem não valoriza o esforço que eles colocaram pra te criar?

A pergunta me atravessa até os ossos. Minha coluna endurece. Meu queixo dói e as têmporas tremem. — Quê? Isso é pessoal! Como você tem coragem de falar isso pra um estranho?

— Você não entendeu: eu só tava tentando te mostrar o que eles falam pra gente. Tem estudos sobre isso, sabia? A influência do confucionismo, das guerras, da—

— Onde você quer chegar?

— Ah, eu só tava falando mesmo! Não tenho culpa se você não tem argumento!

Eu não tenho é paciência pra isso.

Prestes a me levantar e ir embora, Rosé suspende o corpo.

Em segundos, ela volta pra mesa com um balde cheio de garrafas de gelo e Pink Moon.

Franzo as sobrancelhas, ainda de pé.

— Pedi uma tábua de vinagrete, aipim e calabresa — Rosé diz, saltitando. — Ah! Mas cê já tá querendo ir embora? Não vou conseguir comer tudo sozinha, vou ter que jogar o resto todo fora! Que pena!

Seu sorriso me faz balançar a cabeça e estalar a língua.

Você é meio estranha, mas não parece ser uma pessoa ruim.

Solto o ar devagar.

Eu vim aqui pra me distrair, né? E praticar inglês!

Me sento outra vez. — Where ya from, Rosé?

Ela abre uma garrafa de Pink Moon antes de responder em português:

— Sou uma cidadã desse mundo insano.

— Como assim?

— Eu nasci no Brasil. Minha mãe é australiana e meu pai é coreano-brasileiro. O melhor dos três continentes.

Enquanto as pessoas passam atrás de nós cochichando num mar de línguas, Rosé desbloqueia seu celular e me mostra a foto de um casal num jardim de cerejeiras.

— Essa é a minha mãe Amelia. — Rosé aponta pra mulher loira. — E esse é o meu pai Ji-hoon.

— Você é a mistura certinha dos dois.

— Pois é. É genética. Cê já viu na escola, né?

Seguro a risada.

— E os seus pais, Yoon?

Congelo. Pais? Yoon?

— Enfim… Os meus me fizeram um favor me deixando em paz no meu escritório.

— Escritório?

— Sim. Eu sou designer de interiores.

Rosé abre a galeria de novo. Seu cabelo está mais roxo nas fotos, e menos seco também. O escritório é uma bagunça. Nem o meu quarto quando era semana de prova na escola tinha tanto papel espalhado.

— Interessante.

Paraliso na próxima imagem: prateleiras cheias catálogos e livros de ciências, biologia, psicologia e marketing.

E…

— Você tem… um hamster de estimação? E… um telescópio?

— Sim, o nome dele é Leptus. O telescópio eu comprei esses dias!

— Cê tem um estilo muito…

— Muito o quê? — Ela ri.

— Estranho.

— Eu sou igual aquela música do Raul Seixas… Aquela da borboleta, sabe?

Tranco o riso na garganta. — Metamorfose Ambulante?

— Acho que o álcool tá batendo, foi mal!

— Cê tem o quê, Rosé…? Uns… 30 anos?

— 30 anos? Eu acabei de enfiar botox até na goela e você mete essa? Eu tenho 24!

— Prodígio.

— Eu fui criada pra ser um, né? Eles queriam que eu fosse médica.

Engulo a seco. — Sério? E você não morreu de nojo? Ou não quis nem tentar?

— Simplesmente —, ela prossegue —, não fazia sentido me importar com isso. E eu não sou do tipo de pessoa que se arrepende de nada.

Solto o ar. — Como é a vida de designer?

— Tranquila. Eu gosto do que eu faço. E você?

— Tô estudando pra passar em arquitetura.

— Ah, com certeza você consegue! Cê é inteligente.

— Legal cê falar isso. Não tem nem 10 minutos que a gente se conhece.

Rosé arqueia as sobrancelhas. — Só falta marcar um X na sua testa e escrever “eu não sei me divertir”.

Dou uma risada leve.

Meu peito aperta com os olhos da Lali brilhando na minha memória.

“Perder tempo? Ou… aproveitar?”

“Ai! Eu vou dançar horrores hoje!”

“Você devia vir também, Yoongi!”

Droga.

— …cê fica cronometrando? — Rosé apoia o queixo nas mãos. — Seus pais te deram um horário pra voltar pra casa? Você por acaso é de menor?

Apoio os cotovelos na mesa. — Eu não moro com eles. E eu tenho 19.

— Então você que é o prodígio, né? — Rosé gira a taça. — Ai! A liberdade de poder chegar e sair a hora que quiser sem ninguém te incomodar... Eu tenho o meu próprio escritório, mas ainda moro com o meu pai em Costaré!

Paro de piscar. — C-Costaré?

— Sim, é uma cidadezinha meio esquecida, sabe? Fica perto d—

— Eu também moro lá.

É a vez dela parar de piscar. — MENTIRA! Que mundo pequeno! Como que eu nunca te vi lá?

— Talvez porque na verdade esse mundo seja grande, grande demais.

— Eu moro na Vila Dorata.

— Eu devia ter desconfiado — murmuro quase sem som.

— Quê?

— Eu falei que eu moro na Camélia. Infelizmente. E trabalho no Hostel Solaris.

Rosé sacode os cotovelos na mesa. — Vou aparecer lá qualquer dia!

— Apareça.

— Mas… Por quê cê disse… infelizmente?

— Sério mesmo que eu vou ter que explicar?

Rosé suspira. — Acho que eu sei do que cê tá falando… Eu também demorei pra me identificar com a cultura coreana! Tudo é formal demais. Me cansa!

— Faz sentido.

— Os australianos eram quentes demais e gostavam do meu lado brasileiro, e mesmo assim pra eles eu era coreana demais. E aqui… aqui eu não sou nenhum dos três e ao mesmo tempo eu sou tudo! Mas hoje em dia eu taquei o foda-se!

Dou risada. — Percebe-se.

— Tem o lado positivo também, né, lógico? — Rosé estende os braços. — Pra mim a comida coreana é a melhor do mundo!

— Concordo. Eu também gosto de treinar.

— Cê também foi obrigado a fazer taekwondo? Ai, que saco!

Dou risada de novo. — Agora é a hora de reclamar do Brasil.

— Quer que eu comece falando da corrupção, da poluição ou do desmatamento?

— Melhor voltar pro papo de antes. Enfim, depois que teve esse monte de de gringo em Costaré, minha vida virou um inferno!

— Nossa! — Rosé aumenta o tom, gesticulando. — Te entendo super. Eu saí de “nerd” pra “gata” do nada. Todo mundo queria me pegar pra me exibir pros amigos.

— A diferença é que comigo elas são barulhentas.

Rosé tapa a boca. — Te chamam de Oppa?

— Sim.

— Boa sorte! Você não é tão bonito que nem eu, não, mas... deve entender como dói ser popular. Lá na Vila a gente também faz sucesso. Não tem pra onde correr em Costaré.

Acabo balançando a cabeça.

— Antes, — Rosé acrescenta —, eram os loiros jogadores de futebol americano que elas queriam, depois os italianos ricos, agora os coreanos. Uma hora essa moda passa. Fica tranquilo.

— Deus te ouça.

— É questão de tempo. Mas até que eu gosto de me vingar desses idiotas que acham que podem se aproveitar de mim, não vou mentir!

Meu peito dói. Você é uma pessoa horrível!

— Você… gosta disso?

Rosé levanta a sobrancelha. — Disso o quê?

— Das pessoas chegando em você porque você é coreana.

— Cê não ouviu o que eu acabei de falar? — Rosé arrasta as palavras. — Eu gosto de dar o troco! Cê tá me olhando como se eu fosse uma vilã de novela, credo!

Reviro os olhos. Claro. Você é igual o Jimin.

A garçonete traz a porção. Tem até torresmo e torrada na bandeja. Entreabro a boca.

Publico uma foto da comida no meu perfil do Instagram.

— Um brinde, Yoon! — Rosé grita.

Deixo o celular na mesa.

— Que venha muita cachaça e viagens sem pessoas perturbadas na fila do ônibus do INSS da 3ª dose do PIB mundial no País de Gales da União Musical dos pinguins e das pessoas mestiças!

Arregalo os olhos. — É. Agora sua cachaça bateu mesmo.

Ela gargalha.

— Cê quer rachar um barreado? — proponho.

Fazemos o pedido e dessa vez, tudo chega rápido.

Quando dou a primeira garfada, meu celular toca.

“Gatinha” brilha na tela.

Me levanto num pulo, limpando a boca com o guardanapo.

— Gatinho!

Meu coração acelera.

— Eu li a sua mensagem agora! Eu também queria que você tivesse aqui comigo! Que saudades de você, gatinho! Eu sabia que você também queria falar comigo, eu sabia: você é meu amigo sim! Voc—

Antes que eu vire a esquina e entre no banheiro, uma voz grita:

— Que foi, Yoon? Sua namorada descobriu que você trai ela?

Perco o ar.

Me controlo pra não xingar “merda” em coreano.

Lali murmura “ahn?” do outro lado.

— Gatinho? Cê tá aí?

Ela desliga.

Aperto os olhos.

Rosé força uma cara de choro. — Já até salvei seu número no meu celular sem nem você ver, Yoon: “O lobo solitário de Costaré!”

Meu celular apita com áudios da Lali.

Agora eu sei a resposta: não era Brasília, era Curitiba, né?

Meu coração dói de tão forte que bate no peito.

Arrasto o botão do áudio, sem piscar.

Tremendo.

Eu acabei de conhecer essa garota, Lali. Não pensa besteira, por favor!

Lali não me responde mais.

Encosto a testa na parede. QUE MERDA!

Rosé salta da cadeira. — Bora esquecer isso, Yoon!

Um pedaço de torresmo cai perto da bolsa dela. Ela o sopra e o morde mesmo assim.

— Te vejo amanhã na Estação!

Rio pelo nariz. — Cê só pode tá brincando com a minha cara, Rosé! Eu não vou em lugar nenhum com você!

— Olha que carinha mau humorada! Ah! Pelo menos você tá se divertindo comigo!

Rosé cai no sofá, roncando.

Estapeio minha testa. — Era só o que me faltava!

Depois de deixar Rosé no hotel dela, chamo um Uber até o Airbnb e capoto.

Quando acordo, meus pés me direcionam sozinhos pro banheiro.

Meu celular apita na pia.

Número desconhecido?

Clico no áudio.

Onde cê tá hospedado mesmo, Yoon? Vou passar aí pra gente ir juntos pra Morretes!

Suspiro. Mereço.

Vou te encontrar na Estação.

Não acredito que eu topei!

Chego 5 minutos antes da partida. Compro o bilhete e Rosé surge, usando um vestido rosa forte, moletom preto, olhos borrados de maquiagem, e o cabelo lilás preso de qualquer jeito.

— Hoje a sua borboleta acordou roqueira, foi?

Quando ela para na minha frente, a grama cede sob suas botas longas, e as correntes da mochila se sacodem com o vento.

Ela faz o sinal do rock n’ roll. — Acordei pronta pra lacrar. E você não dormiu, né? Olha o tamanho dessa olheira, cruz credo!

Lali entra na minha mente. Está na recepção, dançando uma música barulhenta da Avril Lavigne com os braços estendidos e o cabelo arrepiado.

Dou uma risadinha.

A voz dela reverbera:

— Esquece que eu existo!

Meu sorriso murcha em seguida.

— Se eu soubesse que era pra ficar dormindo na fila eu tinha ficado no hotel, Yoongi.

Pisco forte.

— Foi mal. — Coço a nuca.

Me acomodo de frente pra Rosé no vagão. Ao debruçar os cotovelos no couro do estofado, um leve choque passeia pela minha pele.

Gatinho.

Abro um sorriso.

As pessoas se enfileiram lado a lado pra assistir cada segundo da paisagem da Serra.

Cachoeiras despencam como véus nas montanhas. O ar fica cada vez mais gelado. Rios em formatos de serpente. Pedras arredondadas. Aroma de terra e folhas.

O sorriso da Lali me invade outra vez. Dessa vez, vem junto de uma borboleta no estômago e uma fisgada no peito.

Droga. Por que tudo me lembra você? Por que eu queria tanto que você tivesse aqui comigo? Que você…

Ficasse.

Que você fique!

Fique?

YOONGI! PARA!

Chacoalho a cabeça. — Vou pedir um café. Cê vai querer também?

Rosé para de tirar selfies. — Quero, mas tem que ser doce bem porque esse café do Brasil é água pura! É quase um chá! O da Austrália é cem mil vezes melhor!

Estalo a língua. — A gente é o maior produtor do mundo.

— Agora popularidade virou critério? — Ela pisca.

— É uma consequência.

— Vocês têm tradição e influência, mas não têm gosto!

— O de vocês é amargo e esquecível. A gente é referência. Ponto.

— A gente tem um cultivo mais sustentável, menos uso de pesticidas e um maior controle climático. E quem me garante que vocês não exploram as populações pobres dos outros países?

Levanto as sobrancelhas. — Cê vai pedir ou não vai?

— Gostei de você — Rosé solta, acenando pro garçom.

Conserto as costas no banco.

— Um café na prensa francesa, por favor — digo.

— E pra mim o expresso mais forte que vocês tiverem, por favor — Rosé pede.

O garçom assente antes de sair.

— Ouviu o que eu falei? Você até que é legalzinho, Yoon!

Gesticulo uma cruz. — Sem flerte.

— Relaxa. Eu não flerto. São vocês que tentam flertar comigo. Fora que cê nem faz meu tipo!

— Eu devia dizer “obrigado”?

Rosé aponta pra minha roupa com o queixo. — Eu gosto de garotos mais alternativos.

— Não me diga?

— Então… qual é o seu tipo ideal?

— Rosé, você é extremamente inconveniente, sabia? Eu não gosto de falar dessas coisas. E eu não tenho tipo.

— Caô! Isso é papo de quem já tem tipo, tapa e tupo.

— Não fica tirando conclusão precipitada, tá?

— Acertei, né? Ela deve ser super estilosa.

Desvio o olhar pra janela.

Um sorriso curto escapa de mim. — É… Ela é estilosa mesmo. Até demais.

— Eu sabia! Me fala quem é essa azarada porque essa sua namorada deve sofrer, coitada!

Faço uma careta. — Não é isso. É só um flerte.

— Ué, achei que você não flertava!

Bufo.

Os cafés chegam.

Rosé e eu agradecemos ao mesmo tempo.

O vapor do café esquenta minha pele.

Esfrego as mãos e bebo o primeiro gole. Rosé já está no terceiro dela.

— Vai, fala! Eu sou mulher! E eu conheço gado de longe!

Contenho a vontade de rolar os olhos. — Valeu, mas no momento eu não tô precisando de apoio emocional!

— Quem falou em apoio emocional, Sr. Gado?

Mexo as sobrancelhas. — O efeito da cachaça ainda não passou?

— Sem cachaça eu sou ainda melhor! E outra: eu quero conhecer ela! Você vai me levar pra conhecer o Solaris, não vai? E…

Escorrego pelo estofado.

Paro de prestar atenção no podcast gratuito da Rosé.

Nunca que eu vou te apresentar pra ela! NUNCA! Vocês. Não. Vão. Parar. De. Falar!

As risadas delas invadem minha cabeça como água quente trincando dentro da orelha:

— Essa ankle boot é maravilhosa, Rosé!

— Awn, Lali! Queen! Eu amei sua segunda pele!

Se juntar o Jimin então…

SENHOR!

Rosé segue tagarelando. Chacoalho a cabeça, sem entender uma palavra.

Meus ombros relaxam quando o trem apita.

— Vai ficar até quando aqui? — Rosé me pergunta, saltando do vagão.

Bocejo. — Amanhã cedo.

— Ainda preciso fechar alguns trabalhos aqui no Sul. Se tudo der certo, volto na semana que vem pra Festa Junina da Camélia.

— Ah, é! Tinha esquecido.

— Cê vai, né?

— Talvez.

— Talvez? Não senti firmeza, mas eu vou te ligar quando for o dia!

Dou de ombros.

— Só não demora muito pra decidir, tá? Minha agenda é lotada, Yoon!

Engulo a seco.

A voz da Lali me perturba outra vez:

“Gatinho, você é o milho da minha pipoca!”

Meu coração acelera.

Até parece que ela diria algo assim…

Diria?

Pelo jeito que ela falou comigo ontem, é mais fácil ela não querer olhar na minha cara nunca mais!

Aperto os polegares.

A gente vai se ver de novo amanhã.

Preciso resolver essa situação.

Mas… como?

— Yoon, sabe por que eu gosto tanto de design?

— Não.

— Porque sonhar é bom, mas viver é melhor ainda.

Meu peito acelera.

Paro de caminhar.

— Quando eu vejo um trabalho concluído, me dá um gás absurdo, aí eu lembro do porquê eu comecei tudo. Do porquê eu amo tanto isso. — Rosé dá de ombros. — Fora que dá dinheiro também, né?

Acho graça.

— Mas não vai achando que eu termino tudo que eu começo, não, tá? Eu quase nunca termino.

Balanço a cabeça.

Uma loja de souvenirs surge sob a luz. Gelada. Colorida. Lotada.

Rosé se empolga.

Por mais que o meu peito aperte, minhas mãos suem e minha mente grite “NÃO!”, acabo comprando um presente pra Lali.

Respiro fundo ao pagar.

No dia seguinte, Namjoon me busca na rodoviária com o Corsa do Jimin às 9 da manhã.

O Centro de Costaré está com o mesmo brilho cinza e o frio que eu já esperava, mas nem parece que é segunda-feira.

Deixo as malas no banco do carona e me acomodo no do passageiro. — Não precisava ter vindo, Namjoon. Eu ia chamar um Uber.

— A gente sentiu sua falta.

Ele finaliza a frase com uma palavra em coreano que me faz abrir a boca.

— Cê me chamou de… patrão?

Namjoon liga o carro. — É o que você é, né?

— Bem lembrado: eu trouxe isso pra você.

Tiro o chaveiro de capivara de uma das sacolas.

Namjoon afrouxa os dedos no volante. — Não acredito! Um chaveiro de Morretes pra mim? Valeu, patrão!

Seguro a risada. — Comprei lembrançinha pro pessoal todo.

Ao cruzarmos o viaduto, as buzinas e as luzes se amplificam e o vento bate na pele.

— Novidades? — Namjoon quebra o silêncio.

— Não. Espero que o Solaris não tenha pegado fogo.

— A gente segurou as pontas… ou pelo menos a gente tentou!

Aos poucos, os prédios do Centro são substituídos pelas casinhas da Camélia. Neon. Maresia. Kimchi. De longe, as gaivotas cortam o céu nublado e os barcos flutuam na Praia dos Pescadores.

Namjoon estaciona na frente do Solaris.

— Vou indo, patrão. Tenho que me arrumar porque eu e o Jimin vamos levar a Pretinha na formatura.

Levanto as sobrancelhas. — A Alice?

— É. Na formatura dela de meio advogada, cê lembra, né? A gente tá na maior correria!

Meu rosto esquenta. — Ah sim. Eu vi. A Lali que costurou o vestido, né?

— Sim. A Lalá mandou bem demais nesse projeto. Bom, vou indo.

Cê colocou apelido em todo mundo?

Desço do carro.

A estufa, os ladrilhos e as camélias amarelas me fazem sorrir.

É como se fosse a primeira vez que entro na recepção. Como sempre, nada está fora do lugar. As paredes terracota e o sofá de couro gasto combinam com a bancada e o piso e eu nem me lembrava que era tudo tão rústico.

Alice sorri. — Ei, Yoongi! Como foi a viagem?

Me inclino levemente sobre a bancada. Alice está com os cachos meio presos, meio soltos, com um volume alto. Bonito. Ela cheira ao xampu do Jimin, usa um vestido rosa forte cheio de pedras e maquiagem roxa.

Seguro a vontade de rir.

— Oi, Alice. — Aceno de volta. — Foi uma viagem tranquila. Mas… o que fizeram com você?

— A Lali e o Jimin me ajudaram a ficar mais “divônica”.

— Mas você gostou? — Aponto pros brilhos da roupa.

— Gostei.

— Gostei do seu cabelo natural. Deixa seu rosto mais harmônico e combina com seu estilo.

Ela fica vermelha. — Obrigada.

— Eu trouxe um presente pra você.

Tiro a capinha de morango da sacola.

— Ah, obrigada! Mas n—

— Precisava. É um presente. Cê sabe do Jimin?

— Ele foi no banheiro, mas já deve tá voltando.

— Valeu.

— Ela sentiu sua falta.

Quase tropeço. — E-ela quem?

— Você sabe. Fala com ela!

Dois segundos depois, Jimin pisa na recepção com o uniforme mais amarrotado e o cabelo mais bagunçado do mundo. Sem perfume.

E com as bochechas infladas.

— Sua animação é contagiante — digo.

Ele cruza os braços. — Vim pra te receber como você merece!

— Por acaso a Sra. Park sabe que cê tá trabalhando assim todo largado?

Jimin me mostra a língua e me abraça de lado.

Alice ri baixo.

Estendo a sacola no ar. — Pega: é seu.

— Pra mim cê trouxe um… chaveirinho de abacaxi, mano? Acha que isso é suficiente pra eu te perdoar?

Bufo.

— Mas eu gostei. — Jimin ri.

— Pra sua mãe eu trouxe isso.

Jimin abre o saquinho e vasculha os ímãs de geladeira de Morretes.

— Ah, ela ama essas cafonices mesmo. Valeu!

— E pra Lali? — Alice pergunta com um sorriso largo. — Ela ficou chateada com você depois da… ligação.

Meu rosto arde. — Eu já imaginava.

— Ela tá furiosa — Jimin afirma —, e com razão já que você é um idiota, né?

Finjo dor no peito ao fazer uma careta.

Aliás — Alice diz —, eu vim aqui porque precisava entregar um pedaço de tecido pro retoque final, já que eu vou fazer as unhas daqui a pouco…

Jimin e Alice se entreolham.

— Mas você vai entregar a sacola pra ela, Yoongi — Alice diz.

Empalideço. — E-eu?

— Sim. Aproveita e faz as pazes com ela.

— Boa formatura, Alice — eu a desejo —, e parabéns.

— Brigada. — Ela faz uma reverência e dá um selinho no Jimin antes de sair.

Arregalo os olhos. — Quê isso, mano? Eu fiquei 2 semanas fora e você já começou a namorar? Por que cê não me falou nada?

— Meu mundo não gira em torno de você, e se girasse, eu já teria mandado ele parar de ser tão burro!

— Ai, essa doeu!

— E eu tentei te avisar, né? Mas eu fui blo-que-a-do.

— Já falei que eu não te bloqueei, eu silenciei!

— Dá no mesmo. E não, eu não tô namorando. Ainda…

Cruzo os braços. — Agora cê dá selinho nas suas “amigas”? Até na Lali?

Jimin dá de ombros.

— Eu sabia que você gostava da Alice. — Rio.

— Ela tá me dando uma chance, entendeu? A gente tá indo devagar. Você sabe que nenhum de nós dois têm experiência…

Confirmo com o polegar.

— E como tá a sua situação com a Lali?

Paro de respirar. — Situação? Que situação? Do que que cê tá falando?

— Yoongi, para de besteira! Pode se abrir comigo!

— Não tenho nada pra te falar. — Me aproximo do corredor. — E tchau: preciso entregar esse tecido pra Lali logo e ir pro treino. Esqueceu que hoje é segunda-feira? O Mestre Kang já tá me cobrando pra voltar! Cê vai faltar por causa da formatura, né?

Jimin estala a língua. — Não. Só os pais da Alice que podem ir. Eu só vou acompanhar ela como um amigo.

— Amigo. Sei.

— Cê realmente acha que eu sou idiota, né? Para de tentar mudar de assunto, cê já tá se passando!

— Passando?

— Ah, é uma gíria que as meninas vivem dizendo!

— Entendi, mas… essa conversa é sobre o quê mesmo? Cê vai me fazer perder mais quantos minutos aqui? Posso saber?

Jimin faz um bico ridículo. — Cê acha que eu não sei que cê tava tentando usar essa viagem só pra tentar esquecer dela?

O ar some.

Caio no sofá. — D-de onde que cê tirou isso? Você tava me espionando? E fala baixo, Jimin!

Ele dá uma risada alta. — Cê acha que eu não vi vocês quase se beijando no shopping? De mãos dadas no aquário? E aquelas cantadas dela pra você na cozinha? Ah, e você não fica vermelho assim perto de ninguém!

Minhas pernas tremem.

— E naquela ligação de vídeo em Brasília eu saquei tudo: o jeito que você ficou olhando pro nada quando ela apareceu na tela… tava óbvio demais!

Não respiro.

— Fica tranquilo. A gente só precisa bolar um plano pra você se declarar pra ela.

— Plano? Como assim plano?

— Cê não vai ficar fingindo que não gosta dela pro resto da vida, né? Por favor!

Respiro fundo. — Essa meio que era a ideia.

— Nossa, você é muito tapado, Yoongi! Isso me irrita! Acorda ou você vai perder ela!

Engulo a seco.

— Com todo respeito, mas a Lali é linda. Têm outros caras interessados nela. Vários. Até os caras do dojang já me pediram o número dela!

— E-ela foi lá?

— Sim. Ela e a Alice fizeram uma aula experimental. Até o Namjoon foi junto. Não tá na cara o porquê?

Meu queixo treme. — Nada disso me interessa. Até porque gente não tem nada.

— Cê não liga? O Namjoon deu uma máquina de costura pra ela esses dias… e você vai dar o quê? Um ursinho de pelúcia?

Tampo a sacola contra o peito, com os dedos gelados sobre a alça. Quê?

— Eu não acho que ele tá tão interessado assim nela, e nem ela nele, até porque ela não quis usar a máquina até hoje. Mas aí já são outros 500.

— Como assim?

— Isso é papo pra depois. Eu sinto uma vibe mais de amizade neles, mas você confia 100%? Porque eu não! Eu até desconfio que o Namjoon tá jogando uma asinha pro lado da Alice! Fica de olho!

Dou uma risadinha. — Você e as suas paranoias…

— Vai mesmo perder ela pro seu orgulho?

— Orgulho?

— É. Vai ficar vendo ela ser feliz com outro? Não vai tomar nenhuma atitude? Não vai nem chamar ela pra sair?

— Você exagera demais! Como você é insistente!

— Se depois você perder a chance de ficar com uma garota legal igual ela, não vem dizer que eu não te avisei, tá bom? Não é só a Itália que vai te atrapalhar, mano! Não quero que você fique chorando!

Endureço o maxilar, com as mãos ardendo. — Diz pra Alice que ela vai precisar de sorte pra namorar você, porque é só a misericórdia! Ô menininho chato!

Jimin tenta me acertar com uma almofada, mas eu desvio.

Saio pelo corredor.

Eu podia pedir pro Jimin entregar o presente pra Lali. Ou pra Alice. Talvez até pro Namjoon.

Argh! Eu já fui covarde o suficiente. Não tem como eu ser mais do que isso!

A cada passo meu peito arde mais.

Ela vai achar que essa capivara é uma piada.

Vai dizer que não quer nem olhar na minha cara.

Que eu bloqueei ela.

Que eu não respondi nenhuma mensagem dela.

Vai me expulsar do quarto!

Parabéns, Yoongi! Você conseguiu o que você queria. Agora vai lá receber o prêmio de consolação que você tanto merece: a solidão eterna por ser um tremendo babaca que não sabe lidar direito com as coisas!

Passo uma mão pelo cabelo.

Não posso ficar pensando nisso!

Tenho que agir!

Quando pisco, estou no corredor.

A porta está aberta. A luz amarelada se espalha pelo chão e ilumina os pôsteres de bandas de rock na parede, fazendo o quarto da Lali parecer maior do que os outros. Ao mesmo tempo, parece pequeno demais pelo tanto de coisas agrupadas num canto só.

Abajur. Guarda-roupas. Pisca-piscas rosas.

No centro, o manequim está coberto por um vestido. É longo, de alças finas e amarelo claro.

Gesticulo, prendendo a risada. — Então esse é o vestido da formatura de meio advogada da Alice? Bonito. Meus parabéns. Ela vai ficar “divônica”.

Eu falei isso?

Trago uma mão ao peito.

Lali está tão focada em passar a linha por um véu dourado que sequer levanta a cabeça.

As cortinas se sacodem com o vento velado e a janela traz o cheiro de terra e mar pro quarto.

Me escoro na porta.

Por sorte, Lali não me flagra.

Respiro fundo, dando dois soquinhos na porta.

— Para, Jimin! Não me distrai, por favor! Se eu errar um centimetrozinho dessa cauda, vai desmoronar tudo! Ou você quer ver a sua futura namorada triste?

Me aproximo do centro do quarto.

Minhas pernas formigam.

A garganta arde.

O ar foge dos pulmões.

Meu coração bate tão forte que as gaivotas da Praia dos Pescadores devem estar escutando.

A bandana no cabelo dela é laranja. As presilhas também. Os corações no vestido turquesa são laranjas. Os brincos. Até o colar de pérolas é laranja.

— Essa é a cor que você mais odeia, né? — ironizo.

Um segundo.

Lali abre a boca em “O”, e ergue o corpo da cadeira.

Dois.

O véu cai sobre a bancada.

Suas sardas ficam mais visíveis.

Seu perfume de melancia e limão se espalha pelo ar.

Ela abre um sorriso tão largo que eu acabo abrindo um também.

Três.

Ela corre.

Os braços dela envolvem a minha cintura.

Congelo. — Achei que… que você…

— Sim. Eu tava muito muito brava. Mas agora com você aqui perto de mim de novo… Ai, cê não faz ideia de como eu tô feliz de te ver, gatinho!

Lali toca minhas bochechas com a ponta dos dedos, os olhos brilhando e mais um sorriso largo.

Me desequilibro.

Ela cai em cima de mim, com o peito colado no meu, o queixo encostado no meu ombro e a respiração perto do meu ouvido.

Não movo um dedo.

Ela se levanta num pulo.

Tudo é rápido demais pra eu simplesmente absorver o impacto do que acabou de acontecer. A risada dela ecoa pelas paredes, e seu calor não desgruda da minha pele, mesmo de longe. É insuportável.

Cada alfinete, cada lençol, cada travesseiro…

O mundo ao redor é um borrão.

Não acredito que eu vou ser brega desse jeito! Que merda!

Enquanto isso, ainda estou no chão com as costas doloridas e o coração socando as minhas costelas. Não tenho um pingo de coragem de suspender a cabeça e encontrar o olhar dela, mas morro de vontade de tocar seu cabelo. De fazer ela rir. De ouvir ela me chamando de gatinho de novo.

Se você soubesse tudo o que eu tô pensando agora, você ia fugir de mim.

Por que você tinha que mexer tanto comigo?

— Desculpa, gatinho! Não queria ter te derrubado. Foi a saudade! Você também sentiu minha falta, né? Tenho certeza!

— É-é… sim… senti…

Enquanto estou me levantando e tentando recuperar o fôlego, levo o olhar até a bancada.

A máquina. Branca. Pequena. Cheia de marcas de uso.

E do lado…

Um passaporte.

Meu estômago arde.

Lali vê a capivara na sacola.

— É pra mim?

Estendo a sacola pra ela. — Sim…

Lali mexe as sobrancelhas. — É por algum motivo especial?

— Eu trouxe um presente pra cada pessoa que trabalha no Solaris.

— Igual pra todo mundo?

— Não. A capivara é só sua.

— Mas por que… logo uma capivara?

— É um dos símbolos do Paraná e… eu pensei que você ia gostar.

Os olhos dela marejam. — Fofo.

Coço a nuca.

— Mas cê tá querendo se vingar porque eu te dei a máscara de gatinho? É assim que você me enxerga? Feia desse jeito?

— Ei! Não fala assim dela!

Lali sorri, acariciando o pelo da capivara. — Obrigada. Vou chamar ela de Jonas.

— Mas ela é fêmea!

— A capivara é de quem?

Reviro os olhos. — Tá bom. Jonas. Só não maltrata ela, ouviu?

— Só se ela me arranhar.

Reviro os olhos de novo.

— Você usou o meu presente, gatinho?

Coloco as mãos no bolso, desviando o olhar pra porta. — Sim. Usei todos os dias.

— Ah, que bom!

— Você tá virando celebridade, né?

Ela acha graça. — É. Agora aquelas pirralhas que te enchem o saco vão pedir pra tirar foto comigo. E eu não vou tirar! Prefiro ter haters!

Rio baixo.

— Gatinho, agora que você tá comprometido, não esquece dos seus amigos, tá?

Seguro a risada. — Comprometido?

— É. Uma garota te chamou de Yoon. E você… tava se divertindo muito…

Levanto uma sobrancelha. — Talvez.

Lali joga o cabelo de lado. — Eu também me diverti. Me diverti muito.

— Eu vi. Desde quando você é grafiteira?

— Desde que o Joon me convidou pra ir na Maré pro projeto do pai dele.

— Entendi. Ele te deu a máquina de costura de presente, né?

— Sim. Ele ganhou uma nova dos pais e quis me dar essa, mesmo sabendo que eu não sei usar direito.

Controlo o impulso de perguntar porquê.

— Sabia que eu vou diminuir meu turno no Solaris? Tô começando a ter cliente, e agora meu aluguel aqui vai ficar mais caro.

A risada dela me faz rir.

— A gente trocou de lugar então — murmuro —, agora sou eu que vou trabalhar em dobro.

— Logo logo a Angeline contrata mais gente.

Suspiro. — O jogo do Fluminense foi legal? Cês devem ter gostado de perder.

— Pera: não vai me dizer que você é botafoguense?

Ergo uma sobrancelha — E se eu for?

— Sai do meu quarto! — Lali sinaliza a porta.

Seu braço raspa levemente no meu.

Tento disfarçar o calafrio que passeia pela minha coluna, tossindo forçado.

— Já que eu tô aqui… Cê vai me ensinar a costurar? — brinco.

O sorriso dela morre.

— Tá tudo bem? — sussurro.

— É… sim… É que… deixa pra lá! A vida vai continuar, né?

Fixo o olhar no passaporte.

Meus ombros travam.

A voz do Jimin vibra na minha cabeça:

Não é só a Itália que vai te afastar dela.

Só a Itália.

Itália.

— É… a vida continua… Desculpa… por… por não ter te respondido.

— Tá. Eu entendo. Eu falo demais e acabo com a sua paciência, né? Você falava que eu era chata e que a gente não era amigo e eu ficava sempre forçando a barra, mas agora eu já aceitei. Agora você não precisa mais se preocupar comigo. Cê tá feliz com a sua curitibana.

Quero rir. Quero dizer pra ela encher até a paciência que eu não tenho. Pra fazer o que quiser. E que ela entendeu tudo errado.

Mas não sai nada.

— E… como você sabe que eu gosto de laranja? — Lali ri.

— Por que será, né? Parece que você só tem essa cor no seu quarto!

— Fazer o quê se eu fico gata assim, né? — Ela gargalha, enquanto eu escorrego o olhar pelo vestido na bancada.

Argh! Não quero ter que perguntar pra quê serve tudo isso.

O barulho que as pedrinhas da roupa dela fazem quando ela se mexe é irritante, mas me arranca risadas.

Devo estar há muito tempo parado só suspirando.

— Quê isso? — Aponto pros polaroids no quadro no canto.

— Tô montando um álbum de recordações.

Engulo a saliva. — Cê tirou fotos até com os freelancers do Solaris? Num mês cê falou com mais gente do que eu num ano inteirinho!

Lali ri.

Em um dos registros, Alice e Lali jogam as mãos pro alto na Praia dos Pescadores. O sol bate direto no sorriso delas.

“Essa é a minha melhor amiga. A única. Ela é fã de César Menotti & Fabiano, jazz, rock e botas de franja. É a pessoa mais inteligente que eu conheço. Responsável. Poliglota. Linda. Ela me inspira. Cuida de mim igual uma irmã mais velha. Vou sentir muita falta dela, de ir na balada e de falar sobre a vida como a gente sempre faz.”

Abro um sorriso.

Na fotografia do lado, Jimin e Lali mostram a língua pra câmera.

“Esse é o meu melhor amigo. Meu único amigo homem. Quase um irmão mais velho-da-mesma-idade. Vou sentir falta dos cremes dele. De cozinhar. Da gente rindo junto. Nunca vi uma pessoa que usa tanto strass de uma vez só, ainda mais sendo homem. Mas é legal. Isso prova que tenho bom gosto, até porque se eu tivesse mau gosto, ele não seria meu amigo.”

Paraliso quando a nossa foto brilha sob a luz. No nosso lugar. Na primeira vez que fomos lá.

Eu não me importava com você nessa época.

Mas você sim. Você já falava que a gente era amigo.

Meu sorriso diminui.

Eu mandei a foto pra Alice e apaguei ela da galeria no mesmo dia.

Não acredito que você imprimiu ela num polaroid. Isso me deixa mal.

Fico ainda mais tenso quando leio o que ela escreveu na página do caderno colado na parede:

“Esse é o meu gatinho emburrado. Ele insiste em falar que a gente não é amigo, mas eu sei que ele gosta de mim. Bem lá no fundo. Mas gosta. Ou pelo menos eu tento pensar isso pra não ficar triste. Ele finge que não me suporta, diz que eu falo demais. E eu acho graça porque é verdade. Acho que se eu não fosse embora, eu me apaixonaria de verdade por ele. Ele tem o sorriso mais lindo do mundo. Pena que ele não sorri muito.”

APAIXONARIA?

Lali está falando comigo, rindo e girando em torno de si mesma mostrando um vestido.

A-pai-xo-na-ri-a?

Ela desamassa o tecido com os dedos e joga a cabeça de lado.

Apai… xo… na… ria!