Antigo novo amor

42 Capítulo 42 - O macarrão



A chuva começou ainda durante a madrugada.


Primeiro distante, quase tímida, mas aos poucos tomou conta da chácara inteira. O vento passou a bater nas janelas, as árvores começaram a se movimentar mais forte do lado de fora e o barulho constante da água no telhado trouxe aquela sensação estranha de isolamento que só existia ali.


Paula acordou antes das sete. Ficou alguns segundos encarando o teto, ainda meio perdida entre o sono e a consciência, ouvindo a chuva cair. Então se lembrou completamente da noite anterior.


Da conversa na cozinha. Do jeito como Vitor tinha ficado. Do jeito como ela tinha ficado e principalmente do momento em que o tempo começou a virar de verdade.


Ela lembrava da ventania aumentando, das luzes oscilando por um instante e do desconforto silencioso que aquilo despertava nela desde criança. Vitor percebeu. Como sempre percebia.


Ela ainda lembrava da própria relutância antes de finalmente admitir:


— Você pode dormir aqui hoje?


A frase tinha saído baixa, quase contrariada pela própria necessidade.


— Eu só… não quero ficar sozinha com essa chuva.


Vitor não fez graça. Não interpretou além. Só assentiu.


— Claro.


E foi para o quarto de hóspedes. Sem insistir. Sem invadir espaço. Sem transformar aquilo em outra coisa.


Paula puxou o cobertor um pouco mais para si ao lembrar disso e então pegou o celular na mesa de cabeceira.


Havia uma mensagem dele enviada perto das duas da manhã.


“A Lilika ronca muito.”


Ela soltou um riso baixo imediatamente. Outra mensagem logo abaixo:


“E o Tutti tentou dormir na minha cabeça… com certeza acha meus pés frios, assim como você achava.”


Paula balançou a cabeça sorrindo.


“Eles claramente te amam mais do que a mim.”


A resposta veio rápido demais para alguém que supostamente ainda estaria dormindo.


“Isso porque eles convivem comigo poucas horas por mês. Imagine se fosse diariamente.”


Ela ainda estava sorrindo quando ouviu passos pela casa.


Pouco depois, a porta do quarto abriu devagar e Lilika entrou tranquilamente, como se estivesse apenas trocando de ambiente depois de passar a madrugada muito bem acompanhada. Atrás dela, Tutti apareceu também, espreguiçando-se antes de subir sem cerimônia na cama.


Paula estreitou os olhos imediatamente.


— Ah, então vocês abandonaram ele cedo?


Lilika ignorou completamente a acusação e se acomodou ao lado dela. Tutti ronronou como se estivesse absolutamente satisfeito consigo mesmo. Traidor também.


Paula saiu da cama pouco depois, vestindo um roupão largo por cima da camisola. O cheiro de café já vinha pelo corredor antes mesmo que ela chegasse à cozinha e aquilo a fez desacelerar.


Vitor estava de costas para ela diante do fogão, usando a mesma camiseta da noite anterior e o cabelo ainda levemente bagunçado de sono. A mesa já estava posta.


E não improvisada.


Ele claramente sabia exatamente o que ela gostava.


O pão específico que ela sempre comprava, porque não podia comer glúten.

Mamão cortado pequeno porque ela implicava com pedaços grandes.

Ovos cozidos, cortados pela metade com uma pequena pitada de sal.

O chá mais fraco, porque ela não tomava muito café.

E queijo branco separado porque ela odiava quando encostava nas frutas.


Aquilo apertou o peito dela de um jeito silencioso porque não era um gesto grandioso. Era atenção.


Ele ouviu os passos dela e virou o rosto.


— Bom dia.


A voz ainda rouca de sono.


— Bom dia…


Ela respondeu mais baixo, aproximando-se da mesa. O olhar caiu automaticamente nos detalhes e Vitor percebeu.


Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.


— Eu ainda lembro…


Paula puxou a cadeira devagar.


— Isso é meio assustador.


Ele riu baixo.


— Você reclamava do tamanho do mamão quase toda manhã. Impossível esquecer!


Ela soltou um riso curto, sentando-se.


— Porque ninguém merece pedaço gigante de fruta sete horas da manhã.


— Eu sei.


A resposta veio natural demais e esse era exatamente o problema.


Paula se serviu primeiro, pegando alguns pedaços de mamão antes de levantar o olhar para ele novamente.


— A Lilika realmente dormiu com você?


Vitor puxou a cadeira e se sentou à frente dela.


— Dormiu.


Pegou a xícara de café.


— E ocupou quase a cama inteira.


Paula riu imediatamente.


— Aquela cachorra dorme atravessada e ainda empurra.


— Porque ela gosta de encostar.


— Ela gosta de dominar território, isso sim.


Ela sorriu, levando o chá até os lábios.


— E o Tutti?


Vitor soltou um pequeno riso desacreditado.


— O Tutti apareceu no meio da madrugada exigindo atenção.


Paula apoiou o cotovelo na mesa.


— Claro que apareceu.


— Eu acordei com ele sentado no meu peito me encarando.


Ela gargalhou baixo imediatamente.


— Ele faz isso quando quer alguma coisa.


— E conseguiu.


Paula estreitou os olhos.


— Você deu comida para ele, não deu?


Vitor fingiu pensar por um instante.


— Talvez.


— Vitor.


— Olha o tamanho daquele cachorro…


Apontou para o corredor, como se o animal fosse aparecer a qualquer momento.


— Ele claramente passa fome.


Ela balançou a cabeça rindo.


— O Tutti pesa cinco quilos e vive como um príncipe. Ele não passa fome!


— E ainda assim conseguiu me fazer sentir culpado às três da manhã.


Paula observou ele por alguns segundos enquanto sorria e era engraçado como aquela cena parecia antiga. Familiar.


Os cachorros sempre tinham amado Vitor. Desde o começo.


Lilika praticamente esquecia que Paula existia quando ele aparecia na chácara, e Tutti desenvolvia uma devoção absolutamente inexplicável por ele.


— Impressionante como eles ficam mansos com você.


Comentou, mais distraída.


— Acho que eles só sabem reconhecer caráter.


Ela revirou os olhos imediatamente.


— Convencido.


— Estou sendo acolhido por dois cachorros durante uma tempestade.


O canto da boca dele subiu de leve.


— Deixa eu aproveitar minha vitória.


Paula ainda sorria discretamente quando levou a xícara até os lábios outra vez. A chuva seguia caindo do lado de fora, constante, e por alguns minutos ela quase conseguiu esquecer o restante do mundo ali dentro daquela cozinha.


Quase. Porque a realidade continuava esperando.


Ela ajeitou a postura na cadeira devagar, apoiando a xícara sobre a mesa com mais cuidado do que o necessário. Vitor percebeu na mesma hora a mudança sutil no semblante dela.


O sorriso diminuiu. Os ombros ficaram um pouco mais tensos e ele conhecia Paula o suficiente para saber quando ela estava organizando um assunto difícil dentro da própria cabeça.


— O que foi?


A pergunta veio calma. Ela soltou o ar devagar antes de responder.


— A gente precisa falar sobre a gravidez.


Vitor manteve o olhar nela, atento.


— Sobre contar.


Uma pequena pausa.


— Para a mídia.


O ambiente pareceu mudar discretamente de novo. Não pela tensão entre eles, mas pelo peso do que aquilo significava, porque, até então, aquela gravidez ainda existia quase só dentro da bolha deles. Família. Pessoas próximas. A chácara. Consultas. Mensagens de madrugada. Mas o mundo lá fora era outra coisa. E os dois sabiam disso.


Vitor apoiou os braços sobre a mesa, mais sério agora.


— Já começou a chegar alguma coisa para você?


Paula assentiu de leve.


— Algumas mensagens. Perguntas indiretas. Gente tentando entender por que você está vindo tanto para Minas.


Ela desviou o olhar por um instante.


— E eu já não consigo esconder tanto assim.


A mão repousou quase automaticamente sobre a barriga. Ainda pequena, mas presente.


Vitor acompanhou o gesto em silêncio.


— Eu não quero transformar isso em espetáculo.


Ela voltou a olhar para ele.


— Nem deixar que descubram de qualquer jeito.


Ele assentiu devagar.


— Eu também não.


O silêncio veio curto dessa vez. Mais alinhado. Paula respirou fundo antes de continuar:


— E tem outra coisa.


Vitor esperou.


— Nós precisamos decidir o que exatamente vamos dizer sobre… nós.


Aquilo pairou entre os dois. Porque anunciar uma gravidez era simples. O difícil era explicar o resto.

Ou não explicar.


Vitor inclinou levemente a cabeça.


— Você quer assumir que estamos juntos?


Paula ergueu os olhos imediatamente na direção dele. O olhar foi tão direto que ele percebeu na mesma hora a própria pressa e começou a rir baixo.


— Tá… calma.


Ergueu uma das mãos em rendição.


— Reformulando.


O sorriso ainda permanecia no canto da boca dele.


— Você quer assumir que estamos caminhando para talvez, em algum momento, voltarmos a ficar juntos?


Paula tentou sustentar a expressão séria por mais dois segundos antes de acabar rindo também.


— Você consegue piorar as frases muito rápido.


— Eu percebi.


Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas o sorriso diminuiu aos poucos conforme a sinceridade voltava.


— Eu ainda não consigo dizer que nós voltamos.


A voz saiu mais calma agora.


— Porque eu realmente ainda preciso de tempo.


Vitor assentiu imediatamente. Sem resistência.

Sem insistência. Ela continuou:


— Mas também não quero transformar isso numa situação estranha publicamente.


Ele ficou em silêncio por um instante antes de responder:


— Então talvez a gente não precise definir tudo agora.


Paula franziu levemente a testa.


— Como assim?


— A gente anuncia a gravidez.


O tom dele permaneceu tranquilo.


— E só.


Uma pausa.


— Sem dar nome para o resto enquanto o resto ainda está acontecendo.


Paula ficou olhando para ele por alguns segundos. E, honestamente… aquilo fazia sentido.


Mas então a expressão dela mudou outra vez.

Mais séria agora. Mais cuidadosa. Como se estivesse entrando num assunto que nem ela mesma sabia exatamente como conduzir.


Ela respirou fundo antes de falar:


— Tem outra coisa que eu acho que a gente precisa alinhar.


Vitor permaneceu atento. Paula girou lentamente a xícara entre os dedos antes de continuar:


— Nós estamos certos sobre algumas coisas.


A voz saiu calma.


— Sobre você não fugir mais.


Uma pausa curta.


— E sobre eu ainda precisar de tempo.


Ele assentiu devagar. Até ali, acompanhava. Mas ela desviou o olhar por um instante antes de voltar e ele percebeu que vinha algo mais delicado.


— Só que… nós também precisamos falar sobre uma possibilidade.


O semblante dele mudou discretamente. Mais atento agora.


— Que possibilidade?


Ela respirou fundo.


— A de nós conhecermos outras pessoas nesse meio tempo.


O silêncio caiu imediato. Pesado. Vitor ficou completamente imóvel.


Paula continuou antes que ele dissesse qualquer coisa:


— Principalmente você.


A frase pareceu incomodar ela antes mesmo de terminar de sair.


— Porque, sendo muito sincera… eu não vou fazer isso.


Deu um pequeno gesto em direção à barriga.


— Ainda mais grávida.


A voz não tinha cobrança. Nem drama. Era honestidade crua.


— E eu sei que isso provavelmente não faz parte da sua índole…


Ela escolheu as palavras com cuidado.


— Mas eu precisava deixar claro que eu não quero que isso aconteça.


Agora o silêncio ficou ainda mais profundo. Vitor continuava olhando para ela sem sequer piscar direito. Como se estivesse tentando entender se tinha ouvido corretamente.


Paula sustentou o desconforto da própria fala com esforço visível.


— Porque eu consigo lidar com muita coisa entre nós ainda em aberto.


A voz baixou um pouco.


— Mas eu não conseguiria lidar com isso.


A sinceridade dela atravessou o ambiente inteiro. E talvez fosse a primeira vez que Paula admitia um limite tão claramente emocional diante dele.


Vitor passou a mão devagar pela cabelo, ainda processando e então soltou um pequeno riso desacreditado. Não de deboche, mas de surpresa genuína.


— Paula…


Balançou levemente a cabeça.


— Você realmente acha que eu estaria pensando em outra pessoa agora?


Paula sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de responder.


— Eu não sei o que você pensa, Vitor.


A frase saiu mais honesta do que dura.


— E acho que esse sempre foi um dos nossos maiores problemas.


Ele ficou em silêncio. Ela respirou fundo antes de continuar:


— Você sente muita coisa… mas guarda quase tudo até decidir sozinho o que vai fazer com isso.


A chuva seguia caindo lá fora, constante, enquanto o clima na cozinha voltava a ficar mais íntimo outra vez.


— Então eu precisava falar.


Ela desviou o olhar rapidamente para a própria xícara.


— Porque eu não saberia lidar com isso acontecendo enquanto eu estou aqui… vivendo tudo isso com você. Ainda mais grávida da sua filha.


Vitor acompanhou e alguma coisa no olhar dele mudou completamente. Mais sério agora. Mais profundo.


— Paula… eu não quero outra pessoa.


A resposta veio imediata dessa vez. Sem hesitação.


— Honestamente, eu nem consigo imaginar isso.


Ela ergueu os olhos para ele outra vez e ele continuou:


— Eu passei tempo demais tentando entender por que, mesmo longe de você, nada parecia realmente fazer sentido.


A voz baixou um pouco.


— Então não… eu não estou pensando em conhecer ninguém.


Um pequeno silêncio.


— E também não quero que você ache que eu vou simplesmente seguir minha vida como se isso aqui fosse só uma fase confusa.


Aquilo apertou o peito dela sem aviso. Vitor apoiou os braços sobre a mesa, mais próximo agora, mais presente.


— Porque não é.


Os olhos permaneceram nela.


— Você está grávida da minha filha.


Uma pausa curta.


— E eu amo você.


A simplicidade da frase tornou tudo pior ou melhor. Paula já nem sabia mais distinguir. Ele respirou fundo antes de completar:


— E eu também não fiz isso nos meses em que nós ficamos separados.


Ela sustentou o olhar dele imediatamente.


— Eu não procurei outra pessoa. Não tentei seguir em frente com ninguém.


A honestidade vinha tranquila agora. Sem peso performático.


— Então eu não teria motivo nenhum para fazer isso agora.


Uma pausa.


— Muito menos depois de tudo que aconteceu entre nós.


O silêncio voltou emocional demais. Paula baixou o olhar por um instante, tentando reorganizar o próprio coração, porque ouvir aquilo dele daquele jeito… sem jogos, sem fuga, sem defesa… era perigoso. Muito perigoso.


Era isso que tornava tudo tão difícil com Vitor. Ele dizia as coisas de um jeito que não parecia esforço. Parecia verdade. E Paula sempre teve dificuldade em se proteger da verdade dele.


Ela soltou o ar devagar antes de erguer os olhos novamente.


— Obrigada por me falar isso.


A voz saiu baixa. Sincera. Vitor observou ela em silêncio e então um pequeno sorriso cansado apareceu no canto da boca dela.


— Embora isso complique um pouco a minha tentativa de continuar racional.


Ele riu baixo imediatamente. O suficiente para aliviar discretamente o peso do ambiente.


— Você ainda está tentando?


Ela estreitou os olhos.


— Muito.


— E está funcionando?


Paula sustentou o olhar dele por dois segundos antes de responder:


— Claramente não tão bem quanto eu gostaria.


O sorriso dele aumentou um pouco.

Não convencido. Só… aliviado, porque ouvir Paula voltar a brincar com ele daquele jeito parecia um privilégio enorme depois de tudo.


Ela tomou mais um gole do chá antes de apoiar a xícara na mesa novamente.


— Mas eu estou falando sério sobre uma coisa.


Vitor assentiu de leve.


— Eu sei.


— Não quero que você ache que porque estamos nos aproximando… tudo voltou ao normal.


A voz dela voltou a ficar mais cuidadosa.


— Porque ainda não voltou.


Ele não tentou discordar.


— Eu sei.


Paula observou ele por um instante.


— E eu também não quero que a gente fique vivendo como se estivesse namorando escondido sem conversar sobre isso em momento nenhum.


Aquilo fez ele prestar ainda mais atenção. Ela respirou fundo antes de continuar:


— Porque uma hora a nossa filha vai nascer… as pessoas vão falar… as crianças vão perceber mais coisas…


Uma pausa.


— E eu não quero confusão emocional em volta dela.


Vitor assentiu devagar, com maturidade agora.


— Nem eu.


O silêncio voltou curto. Mais alinhado dessa vez.

Até que ele apoiou melhor os braços na mesa e perguntou, com calma:


— Então o que você acha que a gente deve fazer?


Paula pensou por alguns segundos antes de responder.


— Acho que, por enquanto… a gente devia continuar exatamente assim.


Ele franziu levemente a testa.


— Assim como?


Ela olhou diretamente para ele.


— Sendo honestos.


Uma pausa curta.


— Sem fugir. Sem fingir que está resolvido. Sem pressionar o outro para definir coisas antes da hora.


Vitor permaneceu olhando para ela. Aquilo parecia a coisa mais madura que eles já tinham construído juntos.


Ele inclinou um pouco a cabeça, observando ela com um traço de humor surgindo devagar no olhar.


— Então…


Paula arqueou levemente a sobrancelha.


— Então?


O canto da boca dele subiu.


— Isso significa que não vai rolar beijo… ou qualquer outra coisa… ainda?


A pergunta veio calma. Quase casual. Mas o olhar entregava claramente que ele sabia exatamente o efeito daquilo.


Paula ficou encarando ele por um segundo, completamente pega de surpresa pela mudança brusca de assunto e então soltou uma risada curta, desacreditada.


— Vitor…


— Eu só estou tentando entender os limites do nosso acordo.


Ela negou com a cabeça, ainda rindo contra a própria vontade.


— Você realmente consegue destruir qualquer clima sério em menos de trinta segundos.


— Isso não foi um “não”.


Paula estreitou os olhos imediatamente.


— E isso não foi uma autorização para continuar investigando.


O sorriso dele aumentou. Mais leve agora. Mais solto.


— Justo.


Ela tentou voltar para a própria xícara, mas já sentia o rosto mais quente do que gostaria e percebeu exatamente quando ele notou isso também.


— Paula…


— Não começa.


— Você ficou nervosa.


Ela apontou o garfo na direção dele na mesma hora.


— E você está perigosamente confortável para alguém que quase foi embora ontem à noite.


Ele riu baixo, abaixando a cabeça por um instante.


— Tem razão.


O olhar voltou para ela mais tranquilo agora.


— Vou me comportar.


Paula soltou um pequeno som de descrença.


— Isso definitivamente não me tranquiliza.


O riso foi diminuindo aos poucos, mas a leveza permaneceu. Paula terminou o chá mais tranquila agora, embora ainda sentisse aquele estado estranho de alerta constante que Vitor despertava nela sem esforço nenhum porque bastava ele olhar um pouco mais demoradamente ou falar baixo demais, ou simplesmente existir naquela cozinha como se nunca tivesse ido embora e tudo nela ficava perigosamente vulnerável outra vez.


A chuva seguia forte do lado de fora, preenchendo a casa inteira com aquele som contínuo que deixava o tempo mais lento.


Foi então que o celular dela vibrou sobre a mesa. Paula pegou o aparelho distraidamente, mas o semblante mudou no instante em que leu a tela.

Ela passou os olhos pela mensagem outra vez antes de responder:


— Um jornalista…


A frase soou pequena demais para o efeito que causou. Paula desbloqueou o telefone e leu rapidamente mais uma vez, como se esperasse ter entendido errado. Não tinha.


Vitor observava em silêncio agora. Ela apoiou o celular sobre a mesa devagar.


— Eles começaram a ligar os pontos.


Ele estendeu a mão.


— Posso ver?


Paula entregou o aparelho sem hesitar. Vitor leu a mensagem rapidamente:


“Confirmamos que você esteve recentemente em Minas Gerais acompanhada do vitor em consultas médicas. Gostariam de se pronunciar?”


O silêncio que veio depois foi inevitável… até então, tudo ainda existia dentro daquela bolha pequena que tinham construído sem perceber. A chácara. As consultas. Os áudios de madrugada. O café da manhã. Agora o resto do mundo começava a enxergar também.


Paula apoiou os braços sobre a mesa e soltou o ar devagar.


— Eu odeio isso.


A voz saiu cansada.


— Parece que as coisas deixam de ser nossas quando viram notícia.


Vitor manteve o olhar na tela por mais alguns segundos antes de devolver o celular a ela.


— Ele ainda está perguntando.


Disse com calma.


— O que significa que ainda dá tempo da gente decidir como quer fazer isso.


Paula assentiu levemente, mas permaneceu em silêncio.


Pensando.


Organizando mentalmente uma situação que ela sabia que chegaria… mas não tão rápido.


— Eu não queria esconder a gravidez.


Falou depois de alguns segundos.


— Só queria viver isso um pouco mais em paz antes de abrir para todo mundo.


Vitor apoiou os braços sobre a mesa, observando ela com atenção.


— Então vamos tentar fazer do jeito menos invasivo possível.


Ela ergueu os olhos para ele.


— Você acha mesmo que existe jeito pouco invasivo para isso?


Ele soltou um pequeno riso pelo nariz.


— Não.


A sinceridade fez ela sorrir sem querer.


— Mas acho que existe jeito mais respeitoso.


Paula permaneceu olhando para ele em silêncio por um instante e então perguntou, mais baixa:


— Você tem medo?


A pergunta pegou ele de surpresa. Mas não fugiu dela. Vitor pensou por alguns segundos antes de responder:


— Da exposição? Não muito.


Uma pausa curta.


— Do que isso pode fazer com você… um pouco.


Aquilo atingiu ela de imediato porque era exatamente esse o medo dela também. Não da notícia, mas do barulho que vinha depois dela.


— Você gostaria que a gente fizesse uma nota simples?


Paula observou ele por um instante antes de responder.


— Se a gente simplesmente postar alguma coisa sem responder ele… ele vai atrás.


Uma pausa curta.


— Vai perseguir nós dois, vai inventar coisa.


Vitor soltou o ar devagar, entendendo imediatamente. Ela continuou:


— E, sinceramente… eu prefiro que isso saia porque nós decidimos contar, mas que ele publique, para pensar que demos essa exclusiva e nos deixar em paz.


Ele assentiu de leve.


— Faz sentido.


Paula pegou o celular novamente.


— Acho que precisamos dar a ele a chance de noticiar isso com respeito antes que vire caça.


Vitor recostou na cadeira por um instante, respirando fundo. Claramente não gostava da ideia de entregar algo tão íntimo daquele jeito. Mas sabia que ela estava certa.


— Certo.


Disse por fim.


— Então vamos fazer direito.


Ele puxou o próprio celular e começou a escrever. Paula observava em silêncio enquanto ele digitava com calma, apagava partes, reescrevia outras.


Não era só uma nota.


Era a primeira vez que aquela gravidez deixaria de existir apenas entre eles.


Depois de alguns minutos, ele virou a tela na direção dela.


— Vê se você gosta assim.


Paula leu em silêncio:


Paula e Vitor confirmam que estão esperando uma menina. A gravidez vem sendo vivida com muita felicidade, carinho e respeito entre as famílias.


Os dois agradecem o cuidado e o carinho das pessoas que acompanham essa nova fase, e pedem compreensão para que esse momento continue sendo conduzido com discrição e afeto.”


Paula releu mais uma vez antes de erguer os olhos para ele.


— Ficou bonito.


A voz saiu baixa porque tinha ficado mesmo.


Simples.

Maduro.

Sem espetáculo.


Exatamente como ela queria.


Ela então abriu novamente a conversa com o jornalista e começou a digitar devagar.


“Ainda não me sentia preparada para tornar a gravidez pública, mas acredito que você conduzirá isso com cuidado e respeito.


Então estou encaminhando uma nota para que a informação seja publicada de forma correta.”


Antes de enviar, Paula ficou alguns segundos olhando para a tela.


Vitor percebeu.


— Quer que eu envie?


Ela negou de leve com a cabeça.


— Não… acho que preciso fazer isso eu mesma.


Ele apenas assentiu e então ela apertou “enviar”.


O som da mensagem enviada pareceu absurdamente pequeno para uma coisa que mudaria tanta coisa dali para frente.


Paula respirou fundo antes de desbloquear o celular novamente.


— Acho melhor eu avisar o restante das pessoas antes que isso saia.


Ele assentiu de leve e ela começou.


Primeiro os empresários. Uma mensagem objetiva, direta, avisando que uma matéria sobre a gravidez seria publicada ainda naquele dia e pedindo discrição até a confirmação oficial.


Depois a equipe de mídia. Essa parte foi mais delicada, porque nem todos sabiam ainda. Na verdade, quase ninguém sabia.


As respostas começaram a surgir quase imediatamente. Surpresa. Felicitações. Perguntas atropeladas. Áudios longos que Paula ignorou por enquanto porque ainda não tinha energia para lidar com a dimensão emocional daquilo tudo.


Ela apoiou o celular sobre a mesa e soltou o ar devagar.


— Pronto.


Vitor observou ela por um instante.


— Como você está?


Paula pensou antes de responder.


— Acho que ainda estou entendendo que minha vida vai virar pauta daqui a algumas horas.


Ele soltou um pequeno riso pelo nariz.


— Infelizmente essa parte eu conheço bem.


Ela sorriu sem muita força. Foi então que o som da porta da cozinha abrindo interrompeu o momento.


A funcionária da chácara entrou rapidamente, ainda segurando um guarda-chuva fechado.


— Bom dia!


O olhar dela alternou entre os dois sentados juntos à mesa e um sorriso discreto apareceu imediatamente.


— Bom dia — Paula respondeu.


Vitor também cumprimentou com educação antes de se levantar da cadeira.


— Eu vou até o chalé tomar um banho e trocar de roupa.


Paula assentiu automaticamente, acompanhando o movimento dele.


— Você vai embora hoje ainda?


A pergunta saiu antes mesmo que ela percebesse. Vitor pegou o celular sobre a bancada antes de responder:


— Não.


O olhar voltou para ela.


— Ainda quero passar na casa das minhas tias e da minha madrinha antes de ir embora.


Uma pequena pausa.


— Inclusive… você podia ir comigo.


Paula piscou, claramente surpresa.


— Eu?


Ele assentiu com naturalidade.


— Elas vão gostar de te ver.


O canto da boca dele subiu levemente.


— E minha madrinha provavelmente vai ficar ofendida se descobrir depois que eu estive em Minas e não levei você.


Paula soltou um pequeno riso, mas ainda parecia processando o convite porque aquilo tinha um peso diferente agora.


Ele percebeu a hesitação dela e suavizou o tom:


— Sem pressão.


Uma pausa curta.


— Eu só achei que talvez fosse bom.


Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos e percebeu uma coisa quase irritante: Ela queria ir.


Talvez porque estivesse cansada de viver tudo aquilo pela metade. Talvez porque, apesar do medo, começar a ocupar novamente aqueles lugares ao lado dele parecesse… certo.


Ela respirou fundo antes de responder:


— Está bem.


O sorriso dele apareceu imediatamente. Pequeno. Mas impossível de esconder.


— Está bem?


Ela negou levemente com a cabeça, já rindo da própria decisão.


— Eu claramente perdi a capacidade de tomar decisões racionais perto de você.


Vitor riu baixo.


— Eu preferi fingir que ainda não tinha percebido isso. Vou trocar de roupa antes que você desista da ideia.


Paula ergueu imediatamente uma sobrancelha.


— Eu não costumo voltar atrás quando tomo uma decisão.


— Costuma sim.


Ela cruzou os braços.


— Não costumo.


Vitor olhou para ela por cima do ombro, claramente divertido.


— Paula… você administra fazenda, empresa, agenda e praticamente a vida de todo mundo ao seu redor com uma firmeza assustadora.


O sorriso dele aumentou um pouco.


— Você só fica indecisa quando o assunto sou eu.


Aquilo pegou ela desprevenida o suficiente para fazê-la ficar em silêncio por um segundo.


E ele percebeu.


Claro que percebeu.


— Vou considerar isso como confirmação — disse antes que ela respondesse.


Paula estreitou os olhos imediatamente.


— Vai para o chalé logo.


Ele riu baixo, satisfeito consigo mesmo, e saiu pela varanda em direção ao chalé.


Ela ainda ficou alguns segundos parada na cozinha, ouvindo a chuva bater do lado de fora e sentindo a estranha mistura de ansiedade e expectativa crescer devagar dentro dela.


Ela realmente tinha aceitado. Aceitado encontrar as tias dele. A madrinha. Entrar de novo naquele espaço da vida dele depois de tanto tempo.


Grávida.


A palavra ainda parecia absurda às vezes. Paula respirou fundo antes de ir para o quarto.


No caminho, pegou o celular outra vez. As notificações já começavam a aumentar depois das mensagens enviadas para a equipe e empresários, mas ela ignorou todas por enquanto.


Precisava se arrumar primeiro. Precisava organizar a própria cabeça antes.


Ao entrar no quarto, abriu o guarda-roupa e ficou alguns segundos olhando as roupas sem realmente enxergar nenhuma. Porque, de repente, tudo parecia carregar significado demais.


Arrumado demais.

Casual demais.

Íntimo demais.


Ela soltou um pequeno suspiro, passando a mão pelos cabides até escolher um vestido confortável e um casaco leve para o frio da chuva.


Enquanto se arrumava, o celular vibrou novamente sobre a cama.


Paula pegou o aparelho distraidamente.


E o coração apertou no instante em que viu a notificação.


A matéria tinha saído. Ela abriu devagar.


“Paula Fernandes e Vitor confirmam que estão esperando a primeira filha juntos.”


Os olhos dela desceram automaticamente para a foto escolhida na publicação. Uma imagem antiga dos dois, sorrindo um para o outro durante um evento anos antes.


Aquilo atingiu ela de um jeito silencioso. Porque parecia íntimo demais para estar exposto assim.


As notificações começaram a subir imediatamente.


Mensagens.

Chamadas.

Parabéns.


Paula sentou na ponta da cama por alguns segundos, absorvendo o impacto estranho de perceber que agora o mundo inteiro sabia da existência daquela menina.


Foi então que ouviu uma batida leve na porta.


— Paula?


A voz de Vitor veio abafada do outro lado. Ela respirou fundo antes de responder:


— Pode entrar.


Ele abriu a porta já trocado, usando um casaco escuro por causa do frio, mas desacelerou no instante em que viu o celular nas mãos dela.


— Saiu?


Paula apenas virou a tela na direção dele. Vitor leu rapidamente a manchete antes de levantar os olhos para ela novamente.


— Pelo menos foram respeitosos.


Ela assentiu de leve. Ainda processando. Ele entrou no quarto devagar dessa vez.


— Como você está?


Paula pensou antes de responder.


— Acho que ainda tentando entender que isso deixou de ser só nosso.


A voz saiu baixa. Sincera.


Ele permaneceu olhando para ela por alguns segundos antes de se aproximar mais.


— Continua sendo.


Disse com calma. O olhar dele desceu brevemente até a barriga dela antes de voltar.


— Só existem mais pessoas sabendo agora, mas ainda continua sendo só nosso e não saberão de nada além do que nós vamos decidir compartilhar.


Paula permaneceu sentada na ponta da cama por mais alguns segundos, ainda segurando o celular, até finalmente bloquear a tela e deixá-lo de lado.


Respirou fundo uma vez. Depois outra. Como se estivesse tentando acompanhar a velocidade com que a própria vida tinha mudado nas últimas semanas.


Vitor observava em silêncio, respeitando o tempo dela.


Foi então que Paula desviou o olhar para o chão, onde a bota tinha ficado ao lado da poltrona.


— Você alcança para mim?


A pergunta veio simples. Natural. Vitor abaixou o olhar, pegou a bota e caminhou até ela. Mas, ao invés de apenas entregar, parou diante dela por um instante.


— Posso ajudar?


Paula ergueu os olhos automaticamente e havia alguma coisa perigosamente íntima naquele gesto tão pequeno.


Talvez porque fosse cuidado.

Talvez porque fosse costume antigo.

Talvez porque Vitor sempre tivesse feito as coisas mais simples parecerem carregadas de significado.


Ela hesitou por um segundo curto demais para ser chamado de dúvida.


— Pode.


A resposta saiu baixa.


Vitor então se abaixou diante dela com calma, apoiando a bota perto dos pés dela antes de ajudá-la. Os movimentos eram tranquilos, naturais, mas Paula sentia cada segundo daquela proximidade de um jeito absurdo. Porque fazia tempo desde a última vez que estiveram assim.


Perto sem tensão.

Sem fuga.

Sem pressa.


Ela apoiou uma das mãos automaticamente no ombro dele para se equilibrar enquanto ele ajustava a bota e os dois perceberam o gesto no mesmo instante.


Vitor levantou os olhos devagar. Paula prendeu a respiração sem querer porque ele estava perto demais agora e havia uma calma no olhar dele que sempre desorganizava ela inteira.


— Pronto.


A voz saiu mais baixa do que o normal.


Ele ajudou com a outra bota também, ainda em silêncio dessa vez.


Quando terminou, permaneceu ajoelhado diante dela por um segundo a mais do que precisava.


Não por insistência.


Só porque nenhum dos dois pareceu apressado para quebrar aquele momento.


Foi Paula quem desviou o olhar primeiro, tentando recuperar algum controle interno.


— Obrigada.


Vitor se levantou devagar.


— Disponha.


Mas o pequeno sorriso no canto da boca dele deixava claro que ele sabia exatamente o efeito que aquela proximidade tinha causado nela.


Pouco depois, os dois deixaram a chácara. A chuva tinha diminuído para uma garoa fina, constante, deixando a estrada úmida e o céu completamente cinza. Paula foi em silêncio boa parte do caminho, observando a paisagem pela janela enquanto tentava ignorar a sensação estranha de normalidade que existia entre eles naquele dia.


Como se, por algumas horas, tivessem encontrado um jeito mais leve de existir juntos.


Vitor dirigia tranquilo, uma das mãos apoiada no volante enquanto o som baixo da música preenchia o carro sem exigir conversa o tempo todo.


— Minha madrinha vai querer fazer umas duzentas perguntas sobre o bebê.


Comentou em determinado momento.


— Isso é um aviso?


— É um preparo psicológico.


Ela riu baixo.


— Ela já sabe da gravidez, então?


— Já.


O canto da boca dele subiu um pouco.


— E provavelmente já está me esperando para perguntar se você está se alimentando direito, dormindo direito e tomando as vitaminas.


Ela balançou a cabeça sorrindo, olhando novamente para fora.


O trânsito começou a diminuir quando chegaram em uma avenida mais movimentada da cidade. O semáforo fechou, e Vitor parou o carro com calma.


Paula apoiou o braço na porta, distraída, olhando as vitrines ao redor enquanto esperavam o sinal abrir.


Foi então que uma loja chamou sua atenção. Uma vitrine inteira montada como quarto infantil.

Delicado. Havia um berço branco, flores pequenas nas paredes, uma poltrona clara ao lado e um móbile girando lentamente perto da vitrine por causa do ar-condicionado.


Paula ficou olhando por alguns segundos sem perceber. Até que levantou a mão discretamente apontando:


— Olha…


Vitor acompanhou a direção do olhar dela e ficou em silêncio também. Era a primeira vez que os dois olhavam para algo assim pensando na própria filha.


Paula sorriu quase involuntariamente.


— Achei bonito.


A voz saiu mais baixa. Mais distante. Como se ela mesma já estivesse imaginando.


Vitor observou primeiro a vitrine. Depois ela.


— Você já pensou no quarto dela?


Ela demorou um pouco para responder. Ainda olhando para o berço exposto.


— Já…


Uma pausa curta.


— Mas ainda não defini exatamente.


O sinal continuava fechado, e ela parecia tão envolvida naquele pensamento que continuou falando naturalmente:


— Eu quero transformar o quarto ao lado do meu.


O olhar ainda estava na vitrine.


— A janela dele fica virada para a mesma árvore que eu vejo do meu quarto.


Um pequeno sorriso apareceu.


— De manhã fica cheia de passarinhos… e eu acho que ela vai gostar disso.


Vitor permaneceu ouvindo em silêncio. Atento.


— Quero cores claras… — ela continuou — nada muito exagerado.


Pensou por um instante.


— Não quero aquele rosa muito forte… pink…


Ela riu de leve.


— Mas quero rosa.


O sorriso dele apareceu automaticamente enquanto observava ela imaginar aquilo tudo em voz alta.


Porque Paula falava da bebê de um jeito diferente agora. Mais materno. Mais concreto.

Como se começasse, aos poucos, a construir um lugar real para aquela menina dentro da própria vida.


— Você quer pintar a parede?


Ele perguntou tranquilo. Paula virou o rosto para ele.


— Talvez…


— Eu conheço uma pessoa que faz aquelas pinturas infantis à mão.


Ela arqueou levemente a sobrancelha, interessada.


— Sério?


Ele assentiu.


— Muito boa, inclusive.


Uma pequena pausa.


— Dá para fazer bichinhos, flores…


Paula sorriu imediatamente.


— Eu quero.


A animação surgiu sem que ela percebesse.


— Quero bichinhos… borboletas…


Pensou mais um instante antes de completar:


— E fadas também.


Vitor olhou para ela com um começo de riso já surgindo.


Paula sustentou a expressão séria por dois segundos antes de completar:


— Em homenagem ao pai da criança.


Ele soltou uma gargalhada baixa na mesma hora.


— Muito obrigado pela delicadeza da homenagem.


Ela riu também, agora completamente leve outra vez.


— Achei coerente.


— Claro. Afinal, eu tenho fama oficialmente registrada.


— Exatamente.


Vitor então fingiu pensar por alguns segundos antes de perguntar:


— Você vai querer desenhar um pássaro de fogo na parede também?


Paula virou o rosto para ele imediatamente, incrédula e então começou a rir.


— Aí já é exagero.


— Achei que estávamos trabalhando o conceito completo.


Ela negou com a cabeça, ainda sorrindo.


— A nossa filha merece crescer em um ambiente minimamente saudável visualmente.


Vitor colocou a mão no peito, ofendido de brincadeira.


— Você acabou de chamar sua obra artística, inspirada em mim, de insalubre?


— Não. Só intensa demais para um bebê.


Ele riu baixo, voltando a atenção para a estrada.


— Está bem… sem pássaro de fogo.


E os dois sorriram quase ao mesmo tempo, enquanto o carro seguia pela avenida molhada e, pela primeira vez, o futuro começava a parecer menos assustador… e mais deles.


Ao chegarem no prédio, quando a porta do apartamento abriu, a madrinha de Vitor apareceu imediatamente com expressão satisfeita, como se já estivesse esperando os dois há algum tempo.


— Finalmente.


A voz veio carregada daquele tom típico de quem reclama só por carinho. O olhar dela passou rápido por Vitor, mas parou em Paula e suavizou completamente.


— Meu Deus… você está linda.


Paula sorriu, um pouco sem graça com a atenção imediata.


— Oi.


A senhora se aproximou devagar, segurando as mãos dela entre as próprias antes de olhar discretamente para a barriga ainda pequena.


— E como vocês estão?


A pergunta saiu naturalmente no plural, como se Paula e a bebê já fossem uma unidade inseparável.


— Bem — Paula respondeu — está tudo correndo bem.


— Está se alimentando direito? Tomando as vitaminas? Dormindo?


Vitor fechou a porta atrás deles já rindo.


— Madrinha, o médico já fez esse interrogatório inteiro.


— E eu vou perguntar de novo porque você sempre minimiza tudo quando alguém pergunta se está bem.


Ele riu imediatamente.


— Isso é verdade.


A madrinha então voltou a atenção para Paula.


— Entre, minha filha.


O apartamento era elegante sem exageros. Muito organizado, aconchegante, com cheiro de café recém passado vindo da cozinha.


— Eu fiz bolo achando que vocês chegariam mais cedo.


— Então ainda dá tempo de esconder antes dele encontrar — Paula comentou, olhando rapidamente para Vitor.


A madrinha riu imediatamente.


— Tarde demais.


Porque Vitor já tinha seguido direto para a cozinha.


— Eu ouvi isso.


Paula acabou rindo também enquanto tirava o casaco.nA madrinha observava os dois discretamente. Com aquele olhar de gente mais velha que percebe muito mais do que comenta.


— E você? — perguntou para Paula enquanto caminhavam até a sala — como está se sentindo com essa repercussão toda da notícia?


Paula soltou um pequeno suspiro.


— Ainda tentando entender.


A senhora assentiu devagar, compreendendo perfeitamente.


— O importante é que vocês estejam felizes.


Paula ergueu os olhos para ela e antes que pudesse responder, Vitor apareceu novamente segurando um pedaço de bolo que claramente tinha pego antes mesmo de pedir. A madrinha olhou para ele imediatamente.


— Você mal chegou e já foi atacar minha cozinha.


— Eu passei horas dirigindo hoje. Estou sobrevivendo.


Paula começou a rir na mesma hora.


— Impressionante como você sempre encontra justificativa para comer.


— Eu tenho argumentos sólidos.


A madrinha balançou a cabeça, fingindo desaprovação.


— Não mudou absolutamente nada.


— Ainda bem — ele respondeu tranquilo antes de dar outra mordida no bolo.


O restante da manhã passou de forma leve.


A madrinha de Vitor insistiu para que eles almoçassem ali, e Paula acabou cedendo sem muita resistência depois de perceber que seria inútil tentar recusar. Entre uma conversa e outra, a senhora fez perguntas sobre a gravidez, contou histórias antigas de Vitor, reclamou discretamente da rotina excessiva dele e, em diversos momentos, tratou Paula com uma naturalidade acolhedora que a deixou mais confortável do que imaginava.


Vitor também parecia diferente ali.


Mais tranquilo.

Mais solto.


Ele circulava pela cozinha ajudando a madrinha, implicava com ela em alguns momentos e, de tempos em tempos, acabava olhando para Paula como se ainda estivesse tentando entender a cena dos dois ali outra vez.


Depois do almoço, a chuva voltou a cair mais forte, e o clima agradável do apartamento começou a pesar no corpo de Paula. A gravidez vinha deixando o cansaço mais presente nos últimos dias, e ela tentou disfarçar o máximo que conseguiu, mas Vitor percebeu quando ela começou a perder a atenção nas conversas e encostar mais no sofá.


Foi só quando ele viu ela piscando lentamente pela terceira vez seguida enquanto a madrinha falava alguma coisa sobre enxoval que tomou a decisão.


— Acho melhor a gente ir.


Paula virou o rosto imediatamente.


— Não precisa…


— Precisa sim.


A voz veio tranquila, mas firme.


— Você está com sono.


A madrinha olhou para Paula e concordou na mesma hora.


— Vai descansar... Gravidez cansa mesmo.


Paula ainda tentou argumentar um pouco por educação, mas já estava cansada demais para sustentar muita resistência. Acabaram se despedindo pouco depois. A madrinha abraçou Paula com carinho antes de pedir que ela voltasse mais vezes.


No elevador, enquanto desciam, Paula encostou discretamente a cabeça na parede espelhada.


— Eu não estava cochilando.


Vitor apertou o botão da garagem sem olhar para ela.


— Claro.


Ela estreitou os olhos.


— Eu só estava descansando os olhos.


Ele finalmente olhou para ela, segurando o riso.


— Paula, você quase dormiu sentada ouvindo uma história sobre cortina de quarto infantil.


Ela soltou uma pequena risada derrotada.


— Está bem… talvez eu estivesse um pouco cansada.


— Um pouco?


Ela ignorou a provocação e saiu do elevador primeiro, enquanto ele ria baixo atrás dela.


O caminho de volta para a chácara foi silencioso quase o tempo inteiro. Não porque houvesse algo errado. Paula simplesmente dormiu poucos minutos depois que saíram do prédio.


Primeiro tentou se manter acordada, respondendo alguma coisa que Vitor comentou sobre o trânsito, mas logo foi ficando mais quieta, até encostar a cabeça no banco e fechar os olhos.


Vitor diminuiu um pouco o volume da música ao perceber e durante boa parte do trajeto, acabou olhando para ela mais vezes do que para a própria estrada. Porque havia alguma coisa muito delicada em vê-la assim.


A chuva continuava fina quando eles finalmente chegaram à chácara. Vitor estacionou devagar perto da varanda, desligou o carro e permaneceu alguns segundos observando Paula ainda dormindo.


Ela parecia profundamente apagada. Os cabelos um pouco bagunçados, o rosto relaxado, uma das mãos repousada sobre a barriga quase sem perceber.


Ele soltou o ar pelo nariz com um pequeno sorriso antes de sair do carro. Deu a volta calmamente e abriu a porta dela com cuidado.


— Paula…


A voz saiu baixa. Ela demorou alguns segundos para acordar. Piscou devagar, claramente desorientada no começo, até reconhecer onde estava.


— Chegamos?


A voz saiu rouca de sono.


— Chegamos.


Ela tentou se ajeitar sozinha, mas o corpo claramente ainda estava pesado de cansaço. Vitor então estendeu a mão naturalmente.


— Vem.


Paula segurou a mão dele e saiu do carro devagar, ainda sonolenta o suficiente para não perceber o quanto ficou apoiada nele por alguns segundos.


Entraram na casa praticamente sem conversar. Assim que passou pela sala, Paula largou a bolsa na poltrona mais próxima e simplesmente se jogou no sofá do jeito que estava mesmo.


Vitor fechou a porta atrás deles e observou a cena com um começo de riso.


— Você está realmente cansada.


Ela soltou um pequeno som incompreensível em resposta, já de olhos fechados.


Ele caminhou até ela e se abaixou devagar para tirar suas botas. Paula nem protestou. Só mexeu minimamente os pés para ajudá-lo.


— Você está bem?


Perguntou enquanto deixava as botas ao lado do sofá. Ela assentiu de olhos fechados.


— Estou… só quero dormir um pouco.


O tom sonolento fez Vitor rir baixo.


— Um pouco?


Paula nem respondeu dessa vez. Já estava praticamente dormindo outra vez. Ele ajeitou a manta que estava encostada no braço do sofá sobre ela antes de se levantar.


— Descansa.


Vitor então foi até o chalé. O chuveiro já estava funcionando novamente, claramente alguém tinha providenciado o conserto depois que Paula pediu e ele aproveitou para tomar um banho rápido e trocar de roupa.


Quando voltou para a casa principal algum tempo depois, encontrou a funcionária organizando algumas coisas na cozinha.


— O senhor quer que eu prepare alguma coisa? Café? Um lanche?


Vitor negou com gentileza.


— Não precisa, obrigado.


Olhou rapidamente para a sala.


— Acho que vou ficar por aqui até a Paula acordar… e até a Isabella chegar.


A funcionária hesitou por um instante antes de responder:


— Então… a Isabella ligou mais cedo.


Vitor voltou a atenção para ela.


— Ligou?


— Pediu para avisar a Paula que não vai conseguir vir hoje. Disse que tentou falar no celular dela, mas ela não atendeu.


Ele olhou automaticamente para o sofá. Paula dormia profundamente, completamente alheia à conversa.


Vitor passou a mão pela nuca devagar, absorvendo a informação.


— Certo… eu aviso quando ela acordar.


A funcionária assentiu e voltou para a cozinha.


Ele caminhou até a sala outra vez e parou por alguns segundos observando Paula dormindo, Lilika deitada no chão perto dela como uma pequena guarda silenciosa e Tutti em cima do sofá, encolhido entre as pernas dela.


A casa estava calma. A luz baixa por causa do tempo nublado. O som da chuva preenchendo tudo.


Ele apagou algumas luzes, pegou uma manta para si e se deitou no sofá ao lado, sem intenção real de dormir. Mas o corpo também já estava cansado da viagem, do dia inteiro dirigindo, da tensão emocional das últimas semanas.


Demorou pouco… quando percebeu, o som da chuva tinha se misturado à quietude da casa e ele também já estava dormindo.


Ele acabou acordando primeiro. Ainda estava escuro do lado de fora por causa do tempo fechado, e a chuva seguia constante contra as janelas da sala. Por alguns segundos, ele demorou para entender onde estava exatamente.


Então viu Paula dormindo no sofá ao lado. A manta já meio caída, os cabelos espalhados pelo braço do sofá e Lilika ainda deitada perto dela.


A cena trouxe uma calma estranha. Quase doméstica demais.


Ele passou a mão no rosto devagar e pegou o celular no bolso da calça, mais por hábito do que qualquer outra coisa.


As notificações estavam acumuladas.


Mensagens da equipe.

Do estúdio.

Alguns compromissos confirmados para o dia seguinte em Campinas.


Vitor ficou olhando a tela por alguns segundos enquanto escutava o som da chuva aumentando lá fora.


Depois levantou os olhos para Paula outra vez. Ela dormia profundamente. Claramente exausta e ele soube antes mesmo de pensar muito: Não ia embora naquele dia.


Pegou o celular e mandou algumas mensagens rápidas reorganizando a agenda e desmarcando compromissos mais próximos. Nada muito explicado. Apenas o suficiente. Depois se levantou devagar para não acordá-la.


A funcionária já tinha deixado café fresco na cozinha junto com algumas coisas para eles comerem mais tarde. Vitor apenas abriu os armários procurando uma panela pequena.


Colocou água para esquentar e começou a preparar um chá para Paula.


O som baixo da cozinha acabou despertando Lilika primeiro. A cachorra levantou imediatamente e caminhou até lá.


Pouco depois, Paula começou a acordar também. Piscou devagar algumas vezes, ainda sonolenta, tentando entender por que o corpo parecia tão pesado.


Então percebeu o som da chuva. A manta sobre ela e o cheiro de chá vindo da cozinha.


Virou o rosto automaticamente nessa direção. Vitor estava encostado na bancada esperando a água ferver, usando uma roupa confortável depois do banho, completamente à vontade dentro da casa.


Ela ficou olhando por alguns segundos porque tinha ido dormir acreditando que ele já teria ido embora quando acordasse.


Lilika percebeu que ela estava desperta e abanou o rabo imediatamente.


Vitor virou o rosto.


— Finalmente acordou.


A voz saiu baixa, tranquila. Paula se ajeitou devagar no sofá, ainda despertando.


— Que horas são?


— Umas cinco.


Ela soltou um pequeno som cansado e apoiou a cabeça no encosto outra vez. Vitor sorriu de leve antes de desligar o fogo.


— Fiz chá para você.


Vitor pegou a xícara com cuidado e caminhou até ela.


— Cuidado que está quente.


Paula se ajeitou no sofá para receber o chá e segurou a caneca entre as mãos, absorvendo o calor imediatamente.


O cheiro suave subiu junto com o vapor, familiar.


Ela tomou o primeiro gole ainda sonolenta enquanto observava ele encostado na bancada da cozinha, usando uma roupa confortável depois do banho, completamente à vontade dentro da casa. Foi então que percebeu outra coisa.


— Você não foi embora.


Vitor apoiou uma das mãos na bancada antes de responder:


— Não.


Ela observou ele por alguns segundos.


— E as crianças?


— Estão com a mãe essa semana.


A resposta veio tranquila.


— E eu já desmarquei o que precisava desmarcar.


Paula franziu levemente a testa.


— Você não precisava fazer isso.


— Precisava sim.


Ele olhou rapidamente para a janela, onde o tempo seguia fechado.


— Eu não vou deixar você aqui sozinha com esse temporal.


O coração dela apertou daquele jeito silencioso que vinha acontecendo cada vez mais porque ele dizia certas coisas como quem apenas informa um fato. Sem perceber o peso que tinham nela. Ela desviou os olhos para a xícara antes de responder baixo:


— Obrigada.


Ele apenas assentiu, como se aquilo já estivesse decidido desde o momento em que viu ela dormindo no sofá. Paula tomou mais um gole do chá e puxou a manta melhor sobre as pernas.


— Acho que meu corpo decidiu oficialmente que gravidez é um esporte de alto rendimento.


Vitor soltou um riso baixo.


— Você dormiu quase a tarde inteira.


— E ainda estou cansada.


Ela passou a mão pelo rosto, resignada.


— Isso é humilhante.


— Bem-vinda ao segundo trimestre.


Ela ergueu os olhos imediatamente.


— Você andou pesquisando.


— Muito.


A resposta veio rápida demais. Paula acabou rindo.


— Claro que andou.


— Inclusive, descobri que você provavelmente vai começar a sentir mais fome agora.


Ela ficou em silêncio por um segundo antes de comentar, quase distraída:


— Inclusive… eu sonhei com aquele macarrão que você fazia.


O olhar dele mudou imediatamente.


— Sério?


Ela assentiu de leve, ainda segurando a xícara.


— Comi no sonho inteiro.


Vitor começou a rir baixo.


— Isso é muito específico.


— Eu acordei com vontade de comer.


Ele cruzou os braços devagar, observando ela por alguns segundos.


— Isso seria uma indireta?


Paula tentou sustentar a expressão séria.


— Talvez.


O sorriso dele apareceu imediatamente.


— Entendi.


Ela desviou o olhar para a xícara, mas já sorria também.


— Grávidas têm desejos. Não fui eu quem inventou as regras.


— Então agora eu sou emocionalmente coagido pela gestação?


— Exatamente.


Vitor balançou a cabeça rindo antes de se afastar da bancada.


— Está bem.


O olhar dele permaneceu nela por um instante maior do que precisava.


— Vou fazer seu macarrão hoje!


O tempo passou devagar depois disso. Vitor ficou na cozinha separando algumas coisas enquanto Paula permaneceu mais alguns minutos na sala, observando a chuva pela janela e respondendo poucas mensagens no celular, incluindo a de Isabella que ela não tinha visto mais cedo. As notificações da notícia da gravidez continuavam chegando sem parar, mas ela já não queria pensar naquilo por enquanto. Queria só aquela pausa.


Em determinado momento, se levantou devagar do sofá.


— Vou tomar um banho antes de dormir sentada aqui de novo.


Vitor ergueu os olhos rapidamente da cozinha.


— Achei sensato.


Ela estreitou os olhos.


— Você está muito engraçadinho hoje.


— Estou descansado. É diferente.


Paula soltou um pequeno riso antes de seguir para o quarto.


Enquanto isso, Vitor finalmente começou o preparo do macarrão de verdade. Colocou água para ferver, separou os ingredientes e ligou a música um pouco mais baixa no ambiente.


A cozinha foi sendo tomada pelo cheiro familiar do alho refogando, molho aquecendo e temperos que Paula conhecia de olhos fechados.


Demorou algum tempo até ele ouvir passos vindo pelo corredor.


Vitor se virou automaticamente e travou por um segundo.


Paula vinha com o cabelo ainda úmido do banho, usando uma roupa confortável de frio, simples, mas nela tudo parecia perigosamente bonito. O cheiro do banho chegou antes mesmo dela parar perto da bancada. Ele soltou o ar devagar, quase sem perceber.


— Meu Deus…


Paula arqueou uma sobrancelha imediatamente.


— O quê?


Vitor ainda olhava para ela.


— Esse cheiro de pós-banho em você é maravilhoso.


A sinceridade veio tão automática que Paula ficou sem reação.


— Vitor…


— Estou falando sério.


Ela balançou a cabeça sorrindo enquanto se aproximava da cozinha.


— Você realmente perdeu qualquer filtro hoje.


— Talvez seja o clima.


— Ou o excesso de convivência, de confiança!


Ele apoiou uma das mãos na bancada, ainda olhando para ela com aquele ar perigosamente tranquilo.


— Pode ser também.


Paula desviou os olhos primeiro e subiu na banqueta que fica na bancada da cozinha como fazia antigamente, sentando-se ali enquanto observava ele terminar o preparo.


Por alguns segundos, ficou apenas acompanhando os movimentos dele.


— Você lembra onde fica tudo?

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Comentou ao vê-lo abrir o armário certo novamente sem hesitar.


Vitor soltou um riso baixo.


— Na verdade eu nunca soube direito.


Ela franziu levemente a testa.


— Como não?


— Porque eu tinha medo da sua mãe brigar comigo mexendo nas coisas dela.


Paula começou a rir imediatamente.


— A minha mãe adora você.


— Hoje.


Ele apontou a colher na direção dela.


— Mas durante muito tempo eu me sentia invadindo território proibido nessa cozinha.


Ela ria ainda mais agora.


— Coitado…


— Dulce me olhava como quem dizia “não encosta em nada”.


— Isso é completamente mentira.


— Não é não.


Paula balançou a cabeça desacreditada enquanto ele voltava para o fogão.


Ela então inclinou levemente a cabeça.


— Quer vinho?


Vitor nem pensou muito antes de negar.


— Não.


Ela arqueou uma sobrancelha.


— Nem uma taça?


Ele virou o rosto para ela novamente.


— Não beberia sem você poder acompanhar.


Aquilo pegou ela desprevenida por um instante. Paula sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de começar a rir baixo.


— Olha onde nos trouxe uma taça de vinho num dia de chuva…


Vitor imediatamente começou a rir também.


— É verdade.


Ela apoiou os braços sobre as pernas, ainda divertida.


— Porque foi exatamente assim.


Olhou rapidamente para a janela.


— Chuva, vinho… péssimas decisões…


O canto da boca dele subiu devagar.


— Discordo do “péssimas”.


Paula tentou sustentar a expressão séria. Falhou completamente.


— Bom… o final da história nós conhecemos e realmente não está sendo péssimo!


Ela levou a mão até a barriga de forma automática. Vitor acompanhou o gesto com o olhar, em silêncio, por um segundo e então o sorriso dele mudou. Ficou menor. Mais bonito. Mais afetado também.


— Conhecemos.


A resposta saiu baixa e, por um instante, nenhum dos dois pareceu com vontade de quebrar o que existia ali.


Paula ainda sorria por causa da conversa sobre o vinho quando resolveu inclinar um pouco a cabeça, claramente entrando no jogo também.


— Inclusive…


Vitor levantou os olhos na direção dela enquanto mexia o molho.


— Hm?


Ela fingiu casualidade demais para ser inocente.


— Você chegou a ver aquele pijama que eu deixei na fazenda depois… daquela noite?


O canto da boca dele subiu imediatamente.


— Ah.


Paula sustentou a expressão tranquila.


— Eu queria ele… Você consegue trazer?


Vitor soltou um riso baixo, já entendendo perfeitamente onde ela queria chegar.


— Achou mesmo que eu deixaria aquele pijama largado lá?


Ela arqueou levemente a sobrancelha.


— Então você pegou.


— Claro que peguei.


A resposta veio simples demais. Paula cruzou uma perna sobre a outra, observando ele com interesse divertido agora.


— E onde ele foi parar?


Vitor mexeu o molho devagar antes de responder, quase distraído:


— Campinas.


Ela arregalou minimamente os olhos.


— Você levou meu pijama pra Campinas?


— Uhum.


O sorriso dele aumentou um pouco.


— Está muito bem guardado, inclusive.


Paula começou a rir, incrédula.


— Vitor…


— O quê?


— Isso é completamente absurdo.


— Não achei.


Ele então virou o rosto para ela com calma demais.


— Só falta agora você pedir para eu trazer a caixa preta também.


Paula ficou imóvel por um segundo.


— Você ainda tem a caixa?


A reação dela foi tão genuína que Vitor começou a rir de verdade.


— Claro que tenho.


Ela encarava ele como se estivesse sinceramente tentando entender aquela informação.


— Pelo amor de Deus… por quê?


Vitor deu de ombros com tranquilidade irritante.


— Porque as coisas estavam juntas.


Paula piscou algumas vezes.


— Você guardou meu pijama junto com a caixa?


— Sim.


Ela levou a mão ao rosto, completamente sem reação.


— Isso é o nível máximo do apego emocional clandestino e pervertido.


— Discordo.


Ele apontou a colher na direção dela.


— Apego emocional clandestino seria se eu escondesse de você. Sobre o pervertido eu não tenho muito o que dizer… talvez seja mesmo!


Paula começou a rir contra a própria vontade.


— Você é inacreditável.


— E você deixou o pijama lá de propósito.


Aquilo fez ela estreitar os olhos imediatamente.


— Não sei do que você está falando.


Vitor soltou uma risada baixa.


— Paula… você literalmente deixou aquilo dobrado na ponta da cama olhando para mim como quem queria deixar uma ameaça psicológica permanente.


Ela tentou sustentar a expressão séria. Falhou miseravelmente.


— Talvez eu quisesse que você lembrasse daquela noite.


O olhar dele mudou na mesma hora. Menos brincalhão. Mais atento.


— Como se eu tivesse alguma chance de esquecer… Eu lembro de cada segundo, da primeira, da segunda vez…


A resposta saiu baixa demais. Paula sentiu o coração tropeçar um pouco dentro do peito e imediatamente resolveu voltar para a provocação antes que o clima mudasse demais.


— Bom… considerando o conteúdo da caixa preta, talvez fosse difícil esquecer mesmo.


Vitor apoiou as duas mãos na bancada e começou a rir outra vez.


— Agora quem está perigosamente sem filtro é você.


— Estou apenas preocupada com a preservação do meu patrimônio.


— Seu patrimônio?


— Aquilo tudo foi caro. Sempre comprei as melhores coisas, das melhores marcas…


Ele balançou a cabeça desacreditado, ainda sorrindo.


— Impressionante como você consegue transformar uma conversa dessa em discussão financeira.


Paula ergueu o queixo com falsa dignidade.


— Sou uma mulher prática e muito segura…


— Ah… isso você é mesmo!


Vitor sustentou o olhar dela por dois segundos.


— Até porque mulheres práticas deixam pijama de propósito na fazenda de um homem para desestabilizar ele emocionalmente por meses.


Paula abriu a boca para responder e percebeu, irritantemente, que ele tinha razão.


O macarrão ficou pronto pouco depois. Vitor serviu os pratos enquanto Paula ainda permanecia sentada na bancada observando ele terminar os últimos detalhes. O cheiro da comida tinha tomado a cozinha inteira e, honestamente, ela já estava com fome de verdade agora.


— Você fez quantidade para alimentar um batalhão.


Comentou ao ver ele levar a panela até a mesa.


— Experiência.


Ele puxou a cadeira para ela.


— Você sempre repetia.


Paula arqueou levemente a sobrancelha enquanto se sentava.


— Isso foi uma indireta me chamando de gulosa?


— Isso foi um elogio à sua capacidade de valorização culinária.


Ela soltou um pequeno riso.


— Melhorou rápido agora.


Vitor sorriu de lado antes de se sentar também.


Por alguns segundos, o único som foi o dos talheres e da chuva distante do lado de fora. Paula experimentou a primeira garfada e fechou os olhos automaticamente.


— Meu Deus…


Vitor já começou a rir.


— Está bom assim?


Ela apontou o garfo na direção dele sem nem abrir os olhos direito.


— Não fala comigo agora.


— Sinal excelente.


Paula finalmente abriu os olhos outra vez.


— Isso continua ridiculamente bom.


O sorriso dele aumentou discretamente.


— Minha avó Beatriz fazia muito esse macarrão quando eu ia pra casa dela.


A voz saiu mais baixa agora. Mais nostálgica.


— Eu acho que aprendi o começo da receita observando ela.


Paula apoiou o garfo devagar no prato, olhando para ele com mais atenção.


— Você também era muito apegado à sua avó paterna, né?


Vitor assentiu levemente, já sorrindo daquele jeito diferente que sempre aparecia quando falava da família.


— Muito.


Ele girou lentamente o garfo entre os dedos antes de continuar:


— Ela e meu avô Tunico eram as pessoas que mais me deixavam fazer bagunça sem me matar depois.


Paula riu baixo imediatamente.


— O que significa que você aprontava bastante.


— Um pouco... não mais que Leo!


O sorriso dele aumentou um pouco.


— Meu avô até fingia que brigava comigo, mas minha avó passava pano pra tudo.


— Claro que passava.


— Ela me dava comida escondido antes do almoço porque dizia que eu estava “em fase de crescimento” até os vinte anos de idade.


Paula começou a rir.


— Isso explica muita coisa sobre você.


— Explica principalmente porque eu acho que comida resolve quase qualquer situação emocional.


Ela balançou a cabeça sorrindo antes de tomar mais um gole de água.


Vitor ficou alguns segundos em silêncio, como se preso numa lembrança específica.


— Ela escrevia o tempo inteiro também.


Comentou depois, mais distraído.


— Às vezes eu acordava cedo na fazenda e ela já estava sentada na varanda escrevendo alguma coisa enquanto tomava café e depois tudo isso virou os dois livros dela sobre a cidade que ela cresceu…


Paula observava ele atentamente agora porque havia alguma coisa muito bonita no jeito como Vitor falava daqueles dois. Sem esforço. Sem transformar em discurso emocional. Só… carinho verdadeiro.


— Você puxou isso dela.


Comentou baixo. Ele ergueu os olhos para ela.


— O quê?


— Esse jeito de sentir as coisas profundamente e transformar em palavra.


O olhar dele sustentou o dela por um instante maior. Então um pequeno sorriso apareceu no canto da boca.


— Acho que ela gostaria de ouvir isso.


Paula sorriu de leve.


— Acho que ela já sabia!


Paula voltou a comer devagar enquanto observava Vitor servir mais molho no próprio prato, mas a conversa sobre os avós dele ainda permanecia pairando em algum lugar dentro dela.


Talvez porque ela gostasse de descobrir aquelas partes mais antigas dele.

As raízes.

As pessoas que tinham ajudado a construir o homem que ele era.


Vitor apoiou o braço na mesa depois de alguns segundos e olhou para ela com um traço de curiosidade surgindo no semblante.


— Você pensou sobre os nomes?


Paula ergueu os olhos imediatamente.


— Os que você falou?


Ele assentiu.


— Pensei.


O sorriso dele apareceu de leve.


— E?


Ela soltou o ar devagar antes de apoiar o garfo no prato.


— Eu gosto de Flora.


Vitor pareceu genuinamente satisfeito com aquilo.


— Eu também gosto muito.


Paula fez uma pequena careta logo depois.


— Mas quando eu falo “Flora Fernandes” parece nome de personagem infantil.


Ele soltou uma risada baixa imediatamente.


— Agora eu nunca mais vou conseguir desassociar.


— Parece que ela vai nascer sabendo conversar com passarinhos e morar numa árvore.


— O que, honestamente, combinaria um pouco com a nossa filha.


Paula começou a rir.


— Com você principalmente.


— Justo.


Ela apoiou o rosto na mão por alguns segundos antes de continuar:


— E Estela…


A voz suavizou um pouco.


— Eu acho lindo.


Vitor permaneceu olhando para ela em silêncio.


— Mas?


Paula pensou antes de responder:


— Parece um nome muito grande.


Ele franziu levemente a testa.


— Grande como?


Ela tentou explicar com as mãos, como sempre fazia quando não encontrava exatamente as palavras.


— Não sei… parece grande demais.


— Isso é ruim?


Paula negou devagar.


— Não.


Uma pausa curta.


— Só acho que eu queria um nome que fosse profundo… intenso… mas que também tivesse alguma coisa nossa nele.


O olhar dele mudou discretamente ao ouvir aquilo. Mais atento agora.


Ela desviou os olhos para o prato antes de continuar:


— Não queria escolher só um nome bonito.


A voz saiu mais baixa.


— Queria um nome que significasse alguma coisa pra gente.


Vitor ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo com cuidado. Porque conhecia Paula o suficiente para saber que ela não falava apenas de sonoridade.


Ela falava de memória.

De afeto.

De pertencimento.


Ele apoiou melhor os braços na mesa antes de perguntar, mais tranquilo:


— Tipo o quê?


Paula pensou por alguns segundos.


— Não sei ainda.


Um pequeno sorriso cansado apareceu.


— Mas acho que vou reconhecer quando ouvir.


— Isso ficou muito mais difícil agora.


Ela arqueou levemente a sobrancelha.


— Por quê?


— Porque antes eu estava pensando em nomes bonitos.


O olhar dele sustentou o dela.


— Agora eu estou pensando em nomes que eu consiga olhar daqui vinte anos e sentir exatamente o que estou sentindo hoje.


Aquilo atingiu ela de imediato. Paula desviou os olhos para o prato numa tentativa inútil de se reorganizar emocionalmente.


— Você realmente não facilita minha vida.


— Você literalmente pediu profundidade emocional.


Ela soltou uma risada baixa.


— Tem razão.


O silêncio voltou curto entre os dois. Mais íntimo agora. Vitor girou lentamente a taça de água entre os dedos antes de comentar, quase distraído:


— Minha avó dizia que nome é destino.


Paula ergueu os olhos imediatamente.


— Ela implicava que ninguém deveria escolher nome só porque soa bonito.


— E ela escolhia baseado em quê?


— No que a pessoa carregaria pela vida.


A resposta veio tranquila.


— Ela dizia que alguns nomes parecem nascer com luz… outros com força… outros com delicadeza.


Paula ficou em silêncio por alguns segundos absorvendo aquilo porque era exatamente o tipo de coisa que ela mesma acreditava também.


Vitor então recostou um pouco na cadeira, ainda olhando para ela.


— E você?


Paula inclinou levemente a cabeça.


— O que tem eu?


— Qual tipo de nome você acha que combina com a nossa filha?


Ela demorou alguns segundos para responder. Quando falou, a voz saiu mais suave.


— Acho que ela vai precisar de um nome forte.


Os olhos dela baixaram involuntariamente até a própria barriga antes de voltar para ele.


— Porque ela já vai nascer no meio de muita coisa.


Vitor acompanhou o gesto em silêncio.


— Mas também queria que fosse um nome delicado.


Um pequeno sorriso apareceu.


— Porque… eu quero que ela continue sendo leve apesar do mundo em volta e porque eu, e sei que você também, não vamos deixar que o mundo dela não seja leve, inspirador, poético, apesar de tudo…


Aquilo fez alguma coisa mudar no olhar dele outra vez. Mais fundo. Mais afetado.


Paula percebeu imediatamente e resolveu aliviar antes que os dois mergulhassem emocionalmente demais outra vez.


— Além disso, precisamos pensar numa coisa importante.


Vitor arqueou a sobrancelha.


— O quê?


— O nome precisa combinar com sobrenome duplo de cantores.


Ele ficou alguns segundos em silêncio. Então começou a rir.


— Isso realmente entrou nos critérios?


— Claro.


Ela apontou o garfo na direção dele.


— Essa criança vai carregar Fernandes e Chaves. O mínimo que podemos fazer é colaborar sonoramente.


Vitor apoiou a cabeça na mão, rindo baixo.


— Meu Deus… nossa filha nem nasceu e já está sendo analisada foneticamente.


— Sou mãe. Tenho responsabilidades.


— E controladora.


— Principalmente isso.


Depois do jantar, os dois acabaram ficando mais algum tempo na cozinha. Entre uma provocação e outra, dividiram a louça sem sequer perceber o quão naturalmente funcionavam juntos naquele tipo de rotina pequena. Vitor lavava enquanto Paula secava algumas coisas apoiada na bancada, implicando quando ele molhava água demais no chão e ouvindo ele reclamar que ela estava “fiscalizando” o trabalho dele.


Quando terminaram, a casa já estava silenciosa outra vez.


— Vamos assistir alguma coisa?


Vitor perguntou enquanto apagava as luzes da cozinha. Paula soltou um pequeno som pensativo.


— Desde que você não escolha documentário triste ou filme existencialista às dez da noite.


— Então você realmente me conhece.


Ela lançou um olhar vitorioso na direção dele. Foram para a sala pouco depois. Paula se acomodou em um canto do sofá com uma manta sobre as pernas enquanto Vitor colocava qualquer série leve na televisão mais por companhia do que por interesse real.


No começo, ainda comentaram algumas cenas. Fizeram piadas. Paula implicou com o gosto duvidoso dele para escolher séries, ainda que ela gostasse das escolhas. Mas não demorou muito para o cansaço começar a vencer outra vez.


Vitor percebeu antes mesmo dela admitir. As respostas foram ficando mais lentas.

Os olhos demorando mais para abrir. Até que, em algum momento, Paula simplesmente acabou escorando nele sem perceber.


A cabeça apoiada no ombro. A respiração desacelerando aos poucos.


Vitor abaixou o olhar discretamente e encontrou ela já dormindo profundamente. Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele imediatamente.


— Paula…


Chamou baixo depois de algum tempo. Nenhuma resposta. Ele riu pelo nariz antes de tocar de leve no braço dela.


— Ei… vamos pra cama.


Paula fez um pequeno som sonolento, abriu os olhos por menos de dois segundos e então simplesmente virou para o outro lado do sofá, puxando a manta junto. Vitor começou a rir na mesma hora.


— Isso não foi uma tentativa válida de levantar.


Ela resmungou alguma coisa completamente incompreensível e afundou ainda mais no sofá. Ele observou a cena por alguns segundos, claramente derrotado. Então se levantou.


— Está bem.


Ela mal teve tempo de entender o que estava acontecendo porque, no instante seguinte, ele já estava se abaixando diante dela.


— Vitor…


A voz saiu arrastada de sono quando ele passou um braço por trás das costas dela e o outro sob suas pernas.


— Você não consegue nem manter os olhos abertos. Não vamos negociar agora.


Ela ainda tentou protestar minimamente, mas já estava cansada demais para sustentar qualquer resistência real.


No instante em que ele a colocou no colo, Paula automaticamente se ajeitou contra ele, apoiando o rosto no pescoço dele sem nem perceber direito o que fazia e Vitor sentiu o próprio coração apertar violentamente porque aquilo era familiar demais. Natural demais.


Ela sequer resmungou enquanto ele atravessava o corredor carregando ela até o quarto. Apenas segurou de leve na camiseta dele, ainda meio dormindo.


Vitor entrou no quarto com cuidado e a colocou devagar na cama. Paula se mexeu minimamente entre os travesseiros, já praticamente dormindo outra vez. Ele puxou o cobertor sobre ela e ficou alguns segundos observando.


Os cabelos espalhados no travesseiro. A expressão tranquila. A mão repousando instintivamente sobre a barriga. Alguma coisa dentro dele ficou absurdamente silenciosa naquele momento. Quase em paz.


Ele apagou a luz do quarto pouco depois e seguiu para o quarto de hóspedes. Tomou um banho rápido, tentando ignorar o quanto carregar Paula daquele jeito tinha bagunçado emocionalmente ele inteiro outra vez. Quando finalmente se deitou, o cansaço venceu rápido.


Algumas horas depois, Paula despertou de novo. Ainda completamente sonolenta no começo. Ela abriu os olhos devagar, confusa por alguns segundos ao perceber que estava na própria cama e não no sofá da sala. Então se lembrou vagamente de Vitor falando alguma coisa e sorriu sozinha ao concluir que ele devia ter levado ela até ali.


O corpo ainda parecia pesado de sono, mas o banho da tarde já tinha ido embora completamente e ela resolveu levantar.


Tomou um banho quente demorado. Fez a própria skin care lentamente diante do espelho, tentando aproveitar o silêncio da madrugada. Depois colocou uma camisola de dormir mais confortável e voltou para a cama.


A gravidez tinha transformado o sono dela em uma coisa quase absurda. Profunda.

Pesada Como se o corpo desligasse sem pedir permissão.


Ela adormeceu rápido outra vez e não fazia ideia de quanto tempo tinha passado quando um estrondo violentíssimo a despertou.


Paula sentou na cama no mesmo instante, o coração disparando.


Um raio. Muito perto.


A luz iluminou o quarto inteiro por um segundo e o barulho veio quase junto, forte o suficiente para fazer as janelas vibrarem.


— Meu Deus…


Ela levou a mão ao peito, ainda tentando respirar direito, quando outro clarão surgiu do lado de fora e então mais um trovão explodiu.


Paula levantou imediatamente da cama. O medo irracional de tempestade, aquele mesmo que carregava desde criança, voltou inteiro de uma vez só.


Tutti apareceu no quarto assustado também, vindo correndo pelo corredor. Paula o pegou no colo quase automaticamente e saiu rápido do quarto.


O corredor estava escuro, iluminado apenas pelos clarões ocasionais vindo das janelas. Ela chegou diante da porta do quarto de hóspedes e bateu duas vezes.


— Vitor?


Nenhuma resposta. Outro trovão fez ela estremecer imediatamente.


— Vitor…


Quando abriu a porta, a primeira coisa que Paula ouviu foi o som completamente regular da respiração dele. E então… um leve ronco. Ela ficou parada por um segundo, incrédula.


— Não é possível…


Outro trovão explodiu do lado de fora e Vitor sequer se mexeu.


Paula fechou a porta atrás de si rapidamente e caminhou até a cama ainda segurando Tutti no colo. Foi então que percebeu Lilika deitada tranquilamente ao lado de Vitor, completamente confortável, como se aquela tempestade fosse o ambiente ideal para dormir.


— Claro que você também está aqui…


Murmurou baixo, se aproximando mais da cama.


— Vitor…


Nada.


— Vitor!


Dessa vez ela tocou de leve no braço dele. O efeito foi imediato. Vitor despertou assustado, sentando parcialmente na cama enquanto tentava entender o que estava acontecendo.


— O que foi? O que aconteceu?


A voz saiu rouca e alarmada ao mesmo tempo.


— Paula?


Ele olhou rapidamente para ela, depois para Tutti no colo dela, depois para o quarto escuro.


— Você está passando mal? O que aconteceu?


Paula quase se arrependeu de ter acordado ele ao perceber o desespero instantâneo dele.


— Não, não… calma.


Outro trovão cortou a frase dela no meio e Paula fechou os olhos por um segundo automaticamente.


Ele então percebeu na mesma hora. O semblante dele mudou imediatamente de preocupação urgente para compreensão sonolenta.


— Ah…


Ela apontou discretamente para o outro lado da cama.


— Vai pro outro lado, por favor.


Ele ainda parecia meio perdido de sono.


— Hm?


— Eu vou dormir aqui.


A voz saiu mais rápida dessa vez quando outro clarão iluminou o quarto.


— Está trovejando demais e eu não quero dormir sozinha no quarto.


Tutti escolheu exatamente esse momento para pular do colo dela direto para o colchão, se enfiando sem cerimônia perto dos travesseiros.


Vitor observou a cena ainda tentando despertar completamente enquanto Paula já puxava a coberta e se acomodava do outro lado da cama junto dos cachorros.


Foi nesse momento que então o cérebro dele finalmente conectou todas as informações: Paula estava deitando na mesma cama que ele. Usando uma camisola azul-escura rendada que ele conhecia muito bem. Boa demais. Perigosamente bem. Porque não era a primeira vez que via aquela camisola nela, uma camisola que ele já havia tirado do corpo dela tantas outras vezes.


Vitor engoliu seco no mesmo instante e quando observava Paula ainda tentando se ajeitar entre Lilika e Tutti. Foi nesse instante que ele falou rapidamente:


— Paula.


Ela ergueu os olhos na direção dele.


— Hm?


Ele segurou a coberta do próprio lado com uma expressão quase alarmada agora.


— Eu estou só de cueca.


O silêncio durou dois segundos e então ela começou a rir. Um riso baixo, ainda sonolento, mas genuinamente divertido.


— Que bom que você ainda está de cueca.


Vitor fechou os olhos por um instante, já prevendo problema e então ela completou:


— Porque se tivesse ficado com ela há uns quatro meses… talvez a gente não precisasse estar dormindo juntos aqui agora.


Ele abriu os olhos imediatamente, encarando ela em choque desacreditado enquanto Paula afundava mais no travesseiro com um pequeno sorriso satisfeito por finalmente conseguir desestabilizar ele também.