Antigo novo amor

43 Cap. 43 - Pijamas e poesia


Vitor ficou olhando para ela por alguns segundos em completo silêncio.


Claramente processando o fato de que Paula Fernandes — grávida, sonolenta e fugindo de trovão — tinha acabado de entrar no quarto dele, se enfiado debaixo da coberta e ainda encontrado energia para provocar ele daquele jeito.


Então passou a mão no rosto lentamente e soltou uma risada baixa, incrédula.


— Você realmente escolheu esse momento pra me atacar psicologicamente?


Paula puxou melhor a coberta até o colo.


— Você sobrevive.


Outro trovão ecoou do lado de fora e ela automaticamente se aproximou mais do centro da cama. O movimento foi involuntário o suficiente para fazer os dois perceberem ao mesmo tempo.


Vitor não comentou de imediato. Só puxou a coberta melhor sobre ela e os cachorros, ainda segurando o riso.


— Impressionante.


Paula fechou os olhos por um instante.


— O quê?


— Você entrou aqui assustada com a tempestade e conseguiu inverter completamente a situação em menos de três minutos.


Ela abriu um olho lentamente.


— Que situação?


Vitor virou o rosto na direção dela com uma calma perigosamente divertida.


— A situação em que eu agora estou tentando manter alguma dignidade mental.


Paula soltou um pequeno riso nasalado.


— Ah, para. Você é um homem adulto, plenamente desenvolvido, emocionalmente funcional e perfeitamente capaz de controlar os próprios instintos.


Ele começou a rir imediatamente.


— Eu sou.


O olhar dele desceu rapidamente para a camisola azul-escura antes de voltar.


— Só não muito quando se trata de você usando algumas camisolas específicas.


Paula arqueou lentamente a sobrancelha.


— Acho que você tem algum fetiche nas minhas roupas de dormir.


Vitor apoiou melhor a cabeça no travesseiro, já derrotado pela própria sinceridade.


— Tenho.


A resposta veio simples demais.


— Confesso oficialmente essa perversão.


Ela começou a rir baixo enquanto ele continuava:


— Inclusive, sou perfeitamente capaz de lembrar exatamente o que aconteceu em cada noite que você apareceu com determinados pijamas.


Paula virou o rosto devagar na direção dele, incrédula.


— Isso é bizarro, você sabe, né?


— Não, isso é memória afetiva altamente especializada.


— Coisa de gente safada, isso sim.


Ele ignorou completamente.


— Aquele conjunto preto de malha, de manga longa, que gruda bem no seu corpo, por exemplo…


— Vitor.


— O azul claro de cetim…


— Vitor, não é possível…


— O moletom gigante que você fingia que era inocente mas sabia perfeitamente o efeito que tinha…


Paula começa rir.


— Meu Deus. Você é realmente pervertido.


— Estou apenas sendo transparente.


Ela balançou a cabeça desacreditada.


— Você realmente lembra dessas coisas!


Vitor soltou um pequeno riso.


— Paula, eu lembro até do cheiro de alguns hidratantes seus em determinadas noites. Você acha mesmo que eu esqueceria os pijamas?


Ela ficou olhando para ele por um segundo inteiro, entre divertida e genuinamente chocada.


— Isso é um nível preocupante de observação.


Ele deu de ombros, tranquilo.


— Você deixava difícil não reparar.


Paula começou a rir outra vez, abafando parte do som na coberta. Então resolveu entrar na provocação também, tentando se distrair dos trovões.


— O mais engraçado é que no dia que fizemos a bebê eu estava usando o pijama mais comportado possível.


Vitor virou o rosto imediatamente na direção dela. Interessado demais.


— Ah, eu lembro perfeitamente.


Ela apontou um dedo na direção dele.


— Está vendo? É exatamente isso que me preocupa.


— Branco de bolinhas pretas.


Ele já sorria enquanto falava.


— Shortinho. Manga curta.


Paula arregalou os olhos.


— Você está brincando…


— E a gente estava sentado conversando, tomando vinho, até aquela goteira começar a pingar em você.


O sorriso dele aumentou um pouco mais conforme a memória vinha inteira.


— Você reclamando que eu nunca arrumava aquilo na fazenda…


Paula começou a rir imediatamente.


— Porque você realmente nunca arrumava.


— E aí você resolveu sentar mais perto de mim…


Ela balançou a cabeça desacreditada enquanto ele continuava:


— E depois acabou sentando no meu colo.


O silêncio durou um segundo.


— Vitor…


— Estou apenas relatando fatos históricos.


— Isso continua sendo assustador.


— E foi exatamente nessa hora que eu pensei que aquele pijama aparentemente inocente era uma armadilha.


Paula olhou para ele completamente incrédula.


— Você realmente lembra disso tudo.


— Infelizmente pra minha paz mental, sim.


Ela balançou a cabeça ainda divertida.


— Isso continua sendo preocupante.


Ele deu de ombros, tranquilo.


— O problema nunca foi o pijama.


Ela estreitou os olhos imediatamente.


— Vitor Chaves, deu por hoje!


O sorriso dele aumentou devagar.


— Foi você.


Paula sentiu o rosto esquentar no mesmo instante e puxou a coberta até metade do rosto, ficando de costas para ele, numa tentativa inútil de esconder o próprio sorriso.


Vitor observou ela por alguns segundos antes de completar, já rindo outra vez:


— Inclusive, começo a desconfiar seriamente que você usa tempestade de propósito.


Ela abaixou lentamente a coberta.


— Como é?


— Porque é muita coincidência.


Ele apontou discretamente para ela.


— Sempre chove, você aparece com uma camisola bonita e, misteriosamente, acaba na minha cama.


Paula virou novamente e ficou encarando ele por dois segundos antes de rebater imediatamente:


— Nós não fizemos a bebê na sua cama.


O silêncio durou exatamente um segundo. Até Vitor começar a rir de verdade. Daquele jeito desarmado, quase sem conseguir responder.


— Paula…


Ela agora ria também, completamente satisfeita consigo mesma.


— Estou apenas corrigindo fatos históricos.


Ele balançou a cabeça desacreditado enquanto passava a mão pelo rosto.


— Você ficou perigosamente provocativa depois da gravidez.


— Mentira. Você só está mais impressionável com tudo que digo… acho que é porque estou carregando sua filha.


— Não, eu estou sendo atacado às três da manhã durante uma tempestade.


Paula afundou mais no travesseiro ainda sorrindo.


— Drama.


Outro trovão ecoou mais distante dessa vez. Automaticamente ela se aproximou mais dele de novo, agora sem nem perceber que fazia isso.


Vitor olhou rapidamente para ela, depois para Tutti enroscado perto da barriga dela e Lilika ocupando metade da cama e alguma coisa naquela cena inteira ficou silenciosamente bonita outra vez.


Então ele apenas puxou a coberta melhor sobre ela e falou baixo:


— Dorme, Paula.


A voz saiu mais suave agora. Ela fechou os olhos devagar, ainda sorrindo de leve.


— Você também!


A manhã seguinte começou silenciosa na chácara. A chuva tinha diminuído bastante durante a madrugada e o céu ainda permanecia nublado quando Isabella chegou pouco depois das oito. Entrou na casa principal praticamente sem fazer barulho, já acostumada com a rotina dali.


— Paula?


Chamou enquanto deixava a bolsa sobre a bancada da cozinha. Nenhuma resposta. Franziu levemente a testa.


A funcionária provavelmente ainda estava na área externa porque a casa permanecia quieta demais. Isabella então seguiu pelo corredor, imaginando que Paula ainda estivesse dormindo depois do cansaço dos últimos dias e da gravidez.


Abriu primeiro a porta do quarto dela. Vazio.


A cama arrumada de qualquer jeito, como se tivesse sido usada durante a madrugada e abandonada depois. Ela estranhou imediatamente.


Foi então que ouviu um barulho abafado vindo do quarto de hóspedes. Lilika e provavelmente Tutti também.


Isabella caminhou até lá já imaginando que Paula pudesse ter ido dormir no quarto por causa da tempestade da noite anterior, já que o quarto dela era todo de vidro.


Bateu de leve uma vez na porta. Nenhuma resposta. Então girou a maçaneta devagar e abriu e congelou.


Paula estava deitada de costas, completamente encolhida sob a coberta e Vitor atrás dela. Abraçado nela em um reflexo claramente inconsciente de sono, o braço envolto na cintura dela enquanto os dois dormiam profundamente, perfeitamente encaixados um no outro.


Lilika ocupava metade da cama aos pés deles e Tutti dormia praticamente atravessado entre os dois.


Aquilo não parecia improvisado. Não parecia estranho. Parecia íntimo. Antigo. Natural demais.


Isabella ficou parada por dois segundos encarando a cena inteira. Então lentamente fechou a boca, claramente tentando reorganizar os próprios pensamentos.


— Meu Deus…


Murmurou quase sem som. Porque aquela definitivamente não era a imagem de duas pessoas tentando “resolver as coisas com calma”. Aquilo era praticamente uma família.


Ela observou mais um instante. Paula dormindo tranquila daquele jeito… Aquilo mexeu nela mais do que gostaria de admitir.


Então, antes que algum dos dois acordasse, Isabella simplesmente recuou devagar e fechou a porta com cuidado absoluto e saiu de fininho pelo corredor com uma expressão entre choque, incredulidade… e vontade de rir sozinha.


Pouco depois Paula despertou devagar, ainda sonolenta, sentindo um calor estranho nas costas e um certo volume que há algum tempo atrás mudaria completamente os segundos seguintes da manhã dela. Mas ali, naquele momento, só permaneceu imóvel, tentando entender por que estava tão confortável.


Então percebeu.


O braço de Vitor envolvia sua cintura de forma completamente inconsciente, o corpo dele colado ao dela em um encaixe tão natural que parecia antigo demais para ser improvisado.


Ela abriu os olhos lentamente, encarando o quarto ainda escuro pela manhã nublada e ficou completamente imóvel. Porque, pior do que perceber que tinham dormido abraçados… era perceber o quanto aquilo mexia com ela.


Respirou fundo devagar, tentando organizar os próprios pensamentos sem acordá-lo. Conseguia sentir a respiração tranquila dele perto de sua nuca, o peso do braço sobre sua cintura e aquele conforto perigoso que sempre existia quando estavam assim.


Por um instante, teve vontade de continuar exatamente daquele jeito. O que era uma péssima ideia.


Ela fechou os olhos rapidamente, quase irritada consigo mesma. Precisava sair dali antes que começasse a romantizar demais aquela cena.


Tentou mover a mão devagar para afastar a coberta sem acordá-lo, mas Vitor resmungou alguma coisa incompreensível e apertou ela ainda mais perto num reflexo automático de sono. Paula arregalou os olhos imediatamente.


— Vitor…


A voz saiu quase num sussurro incrédulo. Ele não respondeu. Só continuou dormindo como se aquilo fosse o lugar mais natural do mundo para os dois estarem.


Paula ficou parada por mais alguns segundos, completamente sem coragem de se mexer.


Aquilo era absurdo. Porque não havia tensão ou pressa naquela cena. Só intimidade. Daquelas perigosas. Construídas em anos.


Ela soltou o ar devagar e tentou afastar com cuidado a mão dele da sua cintura.


Dessa vez Vitor finalmente começou a despertar. Primeiro franziu levemente a testa, ainda sonolento. Depois abriu os olhos devagar, claramente confuso com o próprio nível de conforto… Até perceber Paula nos braços dele.


O cérebro dele pareceu levar dois segundos inteiros para funcionar. Então fechou os olhos de novo e soltou uma risada baixa, rouca de sono.


— Bom dia…


Paula permaneceu imóvel olhando para frente.


— Você está muito confortável aí.


Ele abriu os olhos outra vez, agora já acordando de verdade.


— Você também não pareceu sofrer muito.


Ela finalmente virou o rosto minimamente na direção dele.


— Porque eu acordei faz literalmente um minuto.


O canto da boca dele subiu devagar.


— Então ainda dá tempo de fingir que isso não aconteceu.


Paula estreitou os olhos imediatamente.


— Ah, aconteceu sim.


Vitor riu baixo. Só então pareceu perceber de verdade o jeito que estavam posicionados e como o corpo dele estava reagindo e afastou um pouco o braço da cintura dela, embora devagar demais para alguém realmente querendo distância.


Paula percebeu. Claro que percebeu. E ele percebeu que ela percebeu.


O silêncio ficou perigosamente estranho por meio segundo. Então Lilika resolveu levantar abruptamente e atravessar os dois na cama, quebrando completamente o clima.


Paula soltou o ar numa risada involuntária enquanto a cachorra praticamente empurrava Vitor para trás.


— Obrigada, Lilika.


Tutti ainda dormia profundamente enroscado perto dos pés deles, completamente indiferente ao caos emocional humano acontecendo ao redor.


Paula então se sentou devagar na cama, ajeitando o cabelo bagunçado enquanto tentava recuperar alguma dignidade mental.


— Que horas são?


Vitor pegou o celular no criado-mudo e arregalou levemente os olhos.


— Oito e meia.


Ela virou imediatamente para ele.


— Oito e meia?


— Uhum.


Paula passou a mão no rosto.


— Isabella vinha hoje.


Os dois se olharam ao mesmo tempo e congelaram porque nenhum deles fazia ideia se Isabella já tinha chegado. Ou pior: se tinha entrado naquele quarto.


Vitor se levantou primeiro, ainda claramente acordando enquanto passava a mão pelo cabelo bagunçado. A coberta escorregou um pouco quando ele saiu da cama e Paula automaticamente desviou os olhos… Só para olhar de novo no segundo seguinte e infelizmente perceber que o homem continuava tendo uma bunda irritantemente bonita.


Ela estava no meio dessa observação absolutamente imprópria quando ele se virou segurando a própria calça e pegou ela no flagra.


— Você estava olhando minha bunda?


Paula arregalou minimamente os olhos antes de recuperar a postura na mesma velocidade.


— Vai se ferrar, Vitor!


Vitor começou a rir enquanto vestia a calça sem a menor pressa.


— Paula Fernandes acabou de me secar as oito e meia da manhã e eu que sou convencido?


Ela cruzou os braços.


— Eu estava olhando para a janela.


— A janela fica atrás de mim agora?


Ela abriu a boca para responder, percebeu que não tinha argumento nenhum minimamente coerente e estreitou os olhos.


— Você está insuportável hoje.


— Hoje?


O sorriso dele aumentou ainda mais. Paula pegou um travesseiro e jogou na direção dele, fazendo Vitor rir baixo enquanto desviava.


Então ele apoiou uma das mãos na cômoda e perguntou casual demais:


— E agora? Vamos tomar um banho?


Ela ficou encarando ele por dois segundos em completo silêncio.


— Vitor…


— O quê?


— Você está extrapolando muitos limites nas últimas doze horas.


Ele fingiu pensar.


— Achei que estávamos evoluindo emocionalmente.


Paula revirou os olhos imediatamente enquanto saía da cama.


— Lilika, Tutti, vamos embora porque o dono desse quarto perdeu completamente o senso.


Os dois animais levantaram na mesma hora, obedecendo ela instantaneamente.


Vitor colocou a mão no peito, ofendido de brincadeira.


— Impressionante como eu sou desrespeitado dentro da minha própria hospedagem.


Paula já estava perto da porta quando virou o rosto só o suficiente para responder:


— E continue assim. Está mais seguro pra você.


O sorriso dele diminuiu um pouco dessa vez. Ficou mais calmo. Mais afetado também porque ela estava brincando com ele. De novo.


Paula seguiu pelo corredor tentando inutilmente conter o sorriso. Ainda conseguia ouvir a risada baixa de Vitor vindo do quarto de hóspedes enquanto Lilika e Tutti passavam correndo na frente dela como se nada naquele mundo estivesse emocionalmente desorganizado.


Ela abriu a porta do próprio quarto distraída, entrou e fechou atrás de si. Mas, quando se virou, levou um susto tão grande que colocou a mão no peito.


— Meu Deus, Isabella!


Isabella estava sentada na poltrona perto da janela, segurando uma xícara de café e claramente confortável demais naquela posição. E pior: com uma expressão perigosamente divertida.


Ela começou a rir imediatamente da reação de Paula.


— Bom dia pra você também.


Paula estreitou os olhos, ainda tentando recuperar o fôlego.


— O que você está fazendo aqui parada igual espírito obsessor?


— Esperando você aparecer.


A resposta veio rápida demais. Paula franziu levemente a testa.


— Como assim “aparecer”?


Isabella apenas tomou um gole do café, sem responder imediatamente. O sorriso dela aumentou de leve e, naquele instante, Paula entendeu. Os olhos se estreitaram devagar.


— Você entrou no quarto de hóspedes?


Isabella começou a rir na mesma hora.


— Então você admite que estava lá?


— Isabella…


— Eu não falei nada!


— Meu Deus…


— Olha, em minha defesa, eu achei que você pudesse estar lá por causa da tempestade.


Ela tentou manter a expressão séria. Falhou miseravelmente.


— Mas realmente não esperava encontrar aquela cena tão… doméstica.


Paula cruzou os braços na mesma hora.


— Não aconteceu nada.


— Uhum.


— Estou falando sério!


— Claro.


Isabella apoiou a xícara no braço da poltrona.


— Vocês só estavam dormindo juntos igual um casal casado há quinze anos.


Paula fechou os olhos por um segundo.


— Você está sendo insuportável assim como ele!


— E você está completamente sem argumento.


Aquilo irritou Paula porque era verdade. Isabella inclinou levemente a cabeça, observando ela com diversão genuína.


— Interessante você ontem falando que precisava sobreviver à consulta com ele…


O sorriso aumentou.


— E hoje acordando no quarto dele.


Paula apontou um dedo na direção dela imediatamente.


— Eu fui pra lá por causa da chuva.


— Ah, claro. A famosa chuva afrodisíaca de Minas Gerais.


Paula começou a rir contra a própria vontade.


— Isabella…


— O quê? Eu estou tentando entender a evolução da situação.


Ela fingiu pensar por um instante.


— Porque, sinceramente, pelo visto você não só sobreviveu…


Olhou ela de cima abaixo teatralmente.


— Foi além.


Paula simplesmente encarou ela sem responder e esse silêncio foi pior do que qualquer confirmação. Isabella arregalou minimamente os olhos.


— Meu Deus… você nem consegue me rebater direito.


— Porque você cria narrativas na própria cabeça, não vou me dar ao trabalho de ficar rebatendo.


Paula desviou o olhar automaticamente. Erro gravíssimo. Isabella começou a rir outra vez.


— Ah, não. Não faz essa cara não porque eu vou começar a acreditar que vocês realmente voltaram.


— Nós não voltamos, Isabella.


A resposta saiu rápida demais.


— Uhum.


Isabella pegou a xícara outra vez.


— Inclusive…


Paula já suspirou derrotada.


— O que foi agora?


— Você resolveu tornar realidade aquela mentira absurda que o Vitor contou sobre estar tudo ótimo na vida sexual de vocês?


Paula ficou absolutamente imóvel. Depois estreitou os olhos lentamente.


— Você realmente perdeu o medo de Deus. Vou tomar banho antes que você continue falando absurdos.


Isabella gargalhou enquanto Paula finalmente desaparecia no banheiro.


Enquanto isso, Vitor voltou para o chalé. Tomou um banho rápido, trocou de roupa e organizou a própria mala antes de levar tudo até o carro. O céu ainda permanecia fechado, mas a chuva finalmente tinha diminuído.


Quando retornou para a casa principal, encontrou Isabella já sentada à mesa da cozinha tomando café e mexendo no tablet.


Ela levantou os olhos na direção dele por um segundo e sorriu. Não um sorriso escancarado.

Só aquele tipo de expressão sutil que fez Vitor entender imediatamente que ela sabia mais do que deveria.


Ele apenas respirou pelo nariz, segurando um pequeno riso sem graça enquanto puxava uma cadeira.


— Bom dia.


— Bom dia.


E o assunto morreu ali. Pelo menos aparentemente.


Poucos minutos depois, Paula apareceu já pronta para sair. Cabelo arrumado, maquiagem leve e roupa impecável, daquele jeito que sempre fazia parecer que ela tinha dormido oito horas tranquilamente e não passado a madrugada fugindo de trovão para o quarto de hóspedes.


Vitor levantou os olhos automaticamente quando ela entrou e ficou olhando por um instante maior do que deveria, porque Paula tinha essa capacidade irritante de desmontar ele até quando estava apenas… bonita. E ela estava absurdamente bonita.


O sorriso surgiu no canto da boca dele antes mesmo que percebesse. Paula notou imediatamente e desviou os olhos primeiro.


— Bom dia.


— Bom dia.


A voz dele saiu mais baixa.


Isabella observou os dois em silêncio absoluto enquanto tomava café.bClaramente se divertindo sozinha.


Paula se sentou e rapidamente a conversa passou para a agenda do dia.


— A sessão de fotos foi confirmada?


Isabella assentiu enquanto desbloqueava o tablet.


— Depois do almoço.


Passou algumas informações rapidamente.


— E os jornalistas continuam ligando sem parar por causa da gravidez.


Paula fechou os olhos por um instante curto, já cansada antes mesmo de começar.


— Quantos?


— Muitos.


Ela deslizou a agenda na tela.


— E sua assessoria separou horários para algumas entrevistas ao longo da semana.


Paula começou a discutir os horários enquanto Vitor permanecia mais quieto, tomando café e ouvindo as duas conversarem sobre compromissos, fotos, possíveis perguntas da imprensa e posicionamentos públicos.


Foi Isabella quem levantou os olhos para ele em determinado momento.


— E você?


Vitor arqueou levemente a sobrancelha.


— Eu o quê?


— Não está sendo procurado desse jeito também?


Paula imediatamente olhou para Isabella num claro pedido silencioso para que ela parasse antes mesmo de começar, mas Isabella fingiu não perceber.


Vitor limpou a boca com o guardanapo antes de responder com tranquilidade:


— Honestamente? Não sei e provavelmente nem vou saber.


As duas olharam para ele.


— Eu não dou entrevista sobre vida pessoal.


A resposta veio simples.


— Nunca dei.


Isabella apoiou o cotovelo na mesa.


— Para homem realmente é mais fácil.


Vitor apenas soltou um pequeno sorriso sem graça porque entendia perfeitamente onde ela queria chegar. E, pior, ela tinha razão. Ele assentiu devagar.


— É.


O olhar caiu rapidamente sobre a mesa antes de continuar:


— Mas também porque eu realmente nunca falei sobre minha vida pessoal. Principalmente sobre os meus filhos.


A voz ficou mais séria agora.


— Isso sempre foi sagrado pra mim.


Paula observava ele em silêncio.


— Todo mundo que trabalha comigo sabe que eu jamais vou falar deles publicamente. Nunca usei isso pra mídia, entrevista ou qualquer outra coisa.


Isabella permaneceu ouvindo com atenção enquanto ele continuava:


— Mas ela tem razão numa coisa.


O olhar dele foi rapidamente até Paula.


— É um privilégio ser homem nesse cenário.


Paula sustentou o olhar dele por um instante.


— Porque ninguém questiona essa posição quando vem de mim.


A voz saiu calma.


— Ninguém me chama de frio, antipático ou ingrato por preservar minha vida pessoal. Pelo contrário, entendem que quero proteger eles.


Uma pausa curta.


— Se fosse a Paula dizendo “não quero falar da minha gravidez”, a reação seria completamente diferente.


O silêncio caiu por alguns segundos na cozinha porque os três sabiam que aquilo era verdade.


Então Vitor voltou a olhar diretamente para Paula.


— Mas… se em algum momento você precisar ou quiser que eu fale alguma coisa publicamente, eu vou falar.


A voz saiu tranquila. Sem hesitação.


— Sem problema nenhum.


Paula permaneceu olhando para ele por um instante mais longo dessa vez porque ela sabia exatamente o peso daquela oferta vindo dele.


O café da manhã seguiu mais silencioso depois disso. Isabella percebeu que talvez tivesse tocado mais do que devia em assuntos que ainda estavam sensíveis entre os dois e, pela primeira vez desde que chegou, resolveu apenas deixar a conversa seguir sem novas provocações.


Paula também não voltou ao assunto. Só mexeu distraidamente na xícara antes de comentar, mais tranquila:


— Eu realmente não posso simplesmente ignorar tudo isso agora.


O olhar caiu rapidamente sobre o tablet de Isabella.


— Mas também não pretendo transformar a gravidez num espetáculo.


Vitor permaneceu quieto ouvindo. Paula respirou fundo antes de continuar:


— Vou responder o básico. O necessário.


Uma pequena pausa.


— E qualquer coisa mais delicada… eu mando mensagem pra você me ajudar a me pronunciar.


O canto da boca dele subiu discretamente enquanto assentia.


— Pode mandar.


A resposta veio simples. Natural. Como se aquilo já fosse óbvio. Pouco depois, o café terminou. Vitor tomou o último gole e se levantou primeiro.


— Acho melhor eu pegar a estrada antes do trânsito piorar.


Paula apenas assentiu enquanto ele organizava algumas coisas sobre a mesa.


Vitor se despediu primeiro da funcionária da chácara, agradecendo pelo cuidado de sempre, depois passou por Isabella. Ela estreitou os olhos pra ele num silêncio claramente significativo demais, mas apenas abriu um pequeno sorriso.


— Boa viagem.


Ele riu baixo pelo nariz, entendendo perfeitamente que ela ainda estava se divertindo internamente com muita coisa.


— Obrigado.


Paula já esperava perto da porta quando ele se aproximou. Os dois saíram juntos para a varanda. O tempo ainda permanecia fechado, o chão úmido da chuva da noite anterior e o ar frio daquele jeito típico depois de tempestade forte.


Enquanto caminhavam até o carro, Vitor pegou a chave no bolso e começou a falar naturalmente:


— A próxima consulta vai ser em Campinas, em quinze dias.


Paula ouviu em silêncio.


— Com o médico da coleta das células-tronco.


Ele abriu a porta traseira para guardar algumas coisas antes de continuar:


— Já organizei tudo por lá.


Olhou rapidamente pra


— Não organizei hotel, você ficará na minha casa com Isabella.


Paula permaneceu quieta escutando ele falar sobre horários, médicos, organização e cuidados práticos como se aquilo já fizesse parte da rotina dos dois. Então, no meio da explicação, ela interrompeu baixinho:


— Da próxima vez…


Vitor levantou os olhos pra ela.


— Hm?


Paula desviou o olhar rapidamente para a estrada molhada antes de voltar.


— Não vem de carro.


Ele franziu levemente a testa.


— Por quê?


Ela deu de ombros de leve, quase tentando minimizar a própria preocupação.


— Porque eu fico preocupada com você pegando estrada sozinho.


A frase saiu simples, mas atingiu ele de imediato.

Vitor ficou olhando pra ela por um segundo inteiro sem responder. Então aquele sorriso apareceu devagar. Pequeno. Quieto. Bonito demais.


— Está preocupada comigo, Paula Fernandes?


Ela imediatamente estreitou os olhos.


— Não estraga o momento sendo convencido.


Ele riu baixo, mas o olhar permaneceu nela daquele jeito mais afetado agora.


— Tá bom.


Guardou a chave no bolso por um instante antes de completar:


— Da próxima vez eu venho de avião.


Paula assentiu de leve.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou mais nada.


O carro já estava pronto. A mala guardada.

A despedida claramente esperando acontecer, mas havia alguma coisa estranha agora porque, depois daqueles dois dias, ir embora parecia mais difícil do que deveria.


Vitor apoiou uma das mãos no teto do carro enquanto observava ela em silêncio por um instante.


— Então…


Paula respirou fundo devagar.


— Então.


Ele sorriu de leve. Os dois claramente sem saber exatamente como agir agora que não estavam mais brigados… mas também ainda não estavam oficialmente juntos outra vez, o que deixava tudo perigosamente mais íntimo.


Paula cruzou os braços por um segundo, olhando rapidamente para o chão úmido antes de erguer os olhos de novo.


— Me avisa quando chegar.


A frase saiu automática. Vitor sentiu o peito apertar naquele mesmo instante.


— Aviso.


O silêncio voltou pequeno. Até que Paula deu um passo na direção dele primeiro e abraçou. Sem pensar muito. Sem racionalizar. Só abraçou.


Os braços passaram pelo pescoço dele enquanto Vitor imediatamente envolvia a cintura dela num reflexo tão natural que parecia impossível terem passado meses separados e foi aí que os dois perceberam uma coisa perigosa: Nenhum queria soltar.


O abraço demorou mais do que deveria. Mais apertado também.


Vitor fechou os olhos por um instante curto quando sentiu ela se encaixar contra ele daquele jeito familiar demais. Então apertou ela um pouco mais contra o próprio corpo antes de falar baixo perto do cabelo dela:


— Esses últimos dois dias foram maravilhosos.


A sinceridade da voz dele desarmou ela inteira outra vez. Paula sorriu sem que ele visse.


— Foram mesmo.


A resposta saiu baixa. Quase tímida perto de tudo que normalmente existia nela.


Devagar, ela afastou só o suficiente para olhar pra ele de novo e o problema foi exatamente esse, porque Vitor olhava pra ela daquele jeito calmo, afetado, absurdamente presente… e Paula simplesmente esqueceu por um segundo toda a cautela que vinha tentando manter. Então se inclinou antes de pensar demais e beijou a bochecha dele.


Rápido.

Suave.


Mas íntimo o suficiente para pegar Vitor completamente desprevenido.


Ela percebeu no mesmo instante porque ele ficou imóvel por meio segundo, claramente surpreso.


Os olhos encontraram os dela imediatamente e Paula sentiu o próprio coração acelerar de forma ridícula ao perceber a expressão dele mudando completamente.


Mais vulnerável.

Mais afetada.

Quase emocionada, talvez.


Então ela recuou antes que tivesse coragem de fazer algo ainda pior.


— Vai logo!


A tentativa de brincar saiu levemente trêmula. Vitor soltou uma risada baixa, ainda olhando pra ela daquele jeito desarmado.


— Agora definitivamente não vou conseguir prestar atenção na estrada direito.


Paula revirou os olhos imediatamente, mesmo já sorrindo outra vez.


— Quanto drama, Vitor!


Ele abriu a porta do carro devagar, mas antes de entrar, olhou pra ela mais uma vez.


Como se estivesse levando aquela imagem embora consigo. E talvez estivesse mesmo.


Paula ficou parada na varanda mesmo depois que o carro desapareceu na estrada. Os braços cruzados por causa do frio, o cabelo sendo levado pelo vento úmido e aquela sensação estranha crescendo devagar dentro do peito.


Saudade.


E fazia literalmente menos de dois minutos que ele tinha ido embora.


— Isso é ridículo…


Murmurou para si mesma antes de finalmente entrar. Assim que fechou a porta da casa, encontrou Isabella sentada no sofá da sala mexendo no celular. Bastou levantar os olhos para Paula para perceber imediatamente a expressão dela e sorrir. Aquele sorriso insuportavelmente conhecedor.


— Nem começa.


Paula avisou antes mesmo que ela abrisse a boca. Isabella largou o celular no colo lentamente.


— Eu não falei nada.


— Mas pensou.


— Muitas coisas, inclusive.


Paula soltou um suspiro cansado enquanto passava pela sala.


— Você abraçou aquele homem como quem estava se despedindo de um marido indo pra guerra.


Paula virou imediatamente.


— Você estava olhando?


— Você literalmente parou no meio da varanda da sua própria casa abraçada nele por meia hora.


Paula fechou os olhos por um instante.


— Meu Deus.


Isabella começou a rir.


— E o beijo na bochecha?


Paula arregalou os olhos.


— Você viu isso também?


— Infelizmente sim.


Ela apoiou o queixo na mão, claramente se divertindo demais.


— E ele ficou tão desacreditado que achei sinceramente que ia te beijar ali mesmo.


O coração de Paula tropeçou no peito de forma irritante porque ela tinha pensado exatamente isso e talvez tivesse sido justamente por isso que recuou tão rápido.


Ela desviou o olhar imediatamente.


— Não exagera.


Isabella soltou uma risada curta.


— Ah, Paula… vocês estão perigosamente apaixonados de novo.


O silêncio veio pequeno dessa vez porque Paula não conseguiu negar imediatamente. Ela passou a mão pelos cabelos devagar antes de se jogar no sofá oposto.


— Isso é o que mais me assusta. Me apaixonar por ele a essa altura do campeonato não estava nos planos…


A sinceridade fez Isabella perder um pouco do tom brincalhão. Ela observou Paula em silêncio por alguns segundos antes de perguntar mais baixo:


— Porque você acha que vai sofrer de novo?


Paula demorou para responder. Muito mais do que gostaria.


— Porque eu conheço o Vitor.


A voz saiu calma.


— E conheço principalmente o efeito que ele tem em mim.


Ela respirou fundo antes de continuar:


— Quando eu estou perto dele… eu simplesmente paro de conseguir me proteger direito.


Isabella observou ela com atenção agora. Sem brincadeiras.


— E talvez isso não seja necessariamente ruim.


Paula soltou um pequeno riso sem humor.


— Isso vindo da pessoa que passou meses querendo matar ele?


— Continuo querendo às vezes.


As duas acabaram rindo baixo. Mas o sorriso de Isabella diminuiu logo depois.


— Só que eu também nunca vi você olhar pra outra pessoa do jeito que olha pra ele.


Aquilo silenciou Paula imediatamente. Porque era verdade. Sempre tinha sido.


Ela desviou os olhos para a janela por alguns segundos, pensativa, antes de murmurar quase para si mesma:


— O problema é que agora não sou mais só eu envolvida nisso tudo.


A mão desceu devagar até a barriga e Isabella entendeu imediatamente. Claro que entendeu.


Paula respirou fundo outra vez antes de se levantar lentamente do sofá.


— Eu vou trabalhar antes que você continue fazendo análise emocional gratuita da minha vida.


Isabella riu imediatamente.


— Você me paga muito mal pra isso, inclusive.


Paula balançou a cabeça sorrindo enquanto seguia pelo corredor, mas já sentindo aquela ausência dele ocupando a casa inteira de novo.


Os dias seguintes passaram rápidos demais. Talvez porque a vida de Paula tivesse virado uma mistura constante entre consultas, trabalho, entrevistas cuidadosamente controladas e uma enxurrada de mensagens que pareciam nunca terminar.


A notícia da gravidez continuava repercutindo e ela aprendeu rapidamente a repetir quase sempre as mesmas respostas:


Que estava feliz.

Que vivia o momento com cautela e responsabilidade.

Que era uma fase muito especial.


Sempre gentil. Sempre educada. Sempre desviando elegantemente de qualquer pergunta sobre ela e Vitor. Porque era inevitável.


“Vocês voltaram?”

“Estão morando juntos?”

“O casamento está nos planos?”

“Foi uma reconciliação?”


Paula sorria daquele jeito treinado de quem sabia sobreviver à exposição pública há anos e nunca respondia de verdade.


Enquanto isso, Vitor permanecia exatamente como prometeu:


Sem entrevistas.

Sem pronunciamentos.

Sem alimentar curiosidade pública sobre a vida pessoal.


Mas presente. Muito presente. Eles se falavam todos os dias.


Às vezes sobre coisas importantes — exames, médicos, vitaminas, datas, detalhes da coleta das células-tronco.


Às vezes sobre absolutamente nada.


Fotos de roupinhas.

Prints de quartos infantis.

Vídeos idiotas que ele mandava de madrugada.

Áudios dele indignado porque descobriu o preço de um carrinho específico.


E aquilo começava a parecer rotina outra vez. Uma rotina deles.


Numa quinta-feira à noite, Paula estava sentada na cama revisando alguns horários da agenda do dia seguinte enquanto respondia mensagens atrasadas.


Lilika dormia aos pés da cama.

Tutti ocupava metade do travesseiro como se pagasse aluguel.


Foi então que o celular vibrou novamente: Vitor.

Ela abriu a conversa automaticamente.


“Maria surtou porque descobriu que talvez a bebê goste mais de cavalos do que de arte.”


Paula sorriu sem perceber.


“E João?”

digitou.


A resposta veio pouco depois.


“João perguntou se bebê nasce sabendo falar ou se precisa ensinar desde pequena.”


Ela começou a rir baixo sozinha.


“Conclusão: ele decidiu que vai ensinar a primeira palavra.”


“Qual?”


“Capivaras.”


Paula arregalou os olhos imediatamente.


“Meu Deus… acho que não estou muito preparada para isso.”


A resposta dele veio quase instantânea:


“Eu disse que talvez fosse melhor começar por ‘mamãe’”.


Ela ainda sorria quando viu a bolinha indicando que ele continuava digitando e, por algum motivo, o coração dela desacelerou um pouco.

Como sempre fazia quando era ele.


A próxima mensagem apareceu logo abaixo.


“E você?”


Uma pausa.


“Como você está de verdade?”


Paula ficou olhando para a tela por alguns segundos porque aquela pergunta tinha peso vindo dele. Sempre tinha.


Ela ainda pensava no que responder quando outra mensagem surgiu.


“Estou com saudade.”


O peito dela apertou imediatamente. Forte.

Silencioso. Perigoso.


Paula encarou aquelas palavras por tempo demais porque primeira coisa que sentiu foi felicidade. Uma felicidade absurda, quente, involuntária. E a segunda… Medo.


Ela fechou os olhos por um instante curto enquanto apoiava a cabeça no encosto da cama. A verdade era simples demais agora: Ela ainda precisava de tempo. Mas também sabia, com uma clareza quase irritante, que estava por um triz.


Mais alguns dias assim. Mais algumas conversas.

Mais alguns olhares daquele jeito calmo e afetado dele… E ela provavelmente deixaria de resistir completamente.


O celular vibrou de novo nas mãos dela.


“Desculpa…”


Paula franziu levemente a testa imediatamente.

Outra mensagem apareceu logo depois.


“Não quero te pressionar... Nem constranger.”


Aquilo apertou ainda mais o coração dela porque era exatamente isso: Ele não pressionava.


Vitor só… sentia e dizia. Com calma.

Com cuidado. Como alguém que finalmente tinha aprendido a não fugir mais do que carregava dentro de si.


Paula respirou fundo antes de finalmente digitar:


“Você não me pressionou.”


Ela ficou olhando a tela por um segundo antes de continuar.


“Só me deixou com saudade também.”


Vitor sorriu sozinho no instante em que leu a resposta dela. Um sorriso pequeno. Daqueles impossíveis de esconder.


Então reagiu à mensagem com um coração antes de apoiar a cabeça no sofá por um instante, sentindo aquele alívio silencioso ocupar o peito, porque Paula ainda tinha medo. Ele sabia. Mas também sabia reconhecer quando ela começava, aos poucos, a parar de fugir.


A bolinha apareceu novamente indicando que ele digitava.


“Aliás…”


Paula mordeu discretamente o canto da boca enquanto esperava.


“Vai ser meu aniversário semana que vem.”


Ela arqueou levemente a sobrancelha.


“Eu sei.”


A resposta veio quase imediata:


“Fiquei na dúvida se você lembrava.”


Paula revirou os olhos sozinha.


“Você está se tornando um idoso dramático, Vitor.”


Vitor riu baixo do outro lado da tela antes de continuar:


“Maria quer fazer bolo.”


Outra mensagem.


“E João decidiu que precisa organizar uma comemoração porque, segundo ele, ‘idosos precisam aproveitar o tempo’.”


Paula gargalhou imediatamente.


“Eu adoro seus filhos.”


“Eles são completamente sem respeito ás vezes.”


Ela ainda sorria quando a próxima mensagem apareceu.


“Vai ser só nós três.”


Uma pausa curta.


“Quer vir?”


O coração dela desacelerou de novo porque aquilo era perigosamente íntimo.


Não era um evento.

Não era festa.

Não era exposição.


Era casa.

Filhos.

Bolo.

Eles.


E talvez justamente por isso parecesse tão maior.


Paula ficou olhando a tela em silêncio por alguns segundos longos demais.


Até que outra mensagem apareceu:


“Sem pressão, tá?”


Ela soltou o ar devagar, sorrindo sem perceber porque ele sempre fazia isso agora. Convidava, mas nunca puxava.


Paula apoiou o celular no colo por um instante, tentando organizar o próprio coração antes de responder:


“João vai me expulsar da festa se eu não souber diferenciar um dinossauro de uma capivara até lá?”


Vitor respondeu quase imediatamente:


“Provavelmente.”


Outra mensagem.


“Mas acho que ele te perdoa porque você está carregando a irmã dele.”


Ela riu baixo outra vez e então, depois de alguns segundos encarando a conversa, finalmente digitou:


“Eu vou pensar…”


Vitor visualizou quase imediatamente e ela já imaginava perfeitamente o sorriso dele do outro lado da tela.


A resposta veio poucos segundos depois.


“Você pode trazer a Isabella, se achar melhor.”


Paula arqueou uma sobrancelha automaticamente.


“Pra quê?”


“Suporte emocional.”


Ela começou a rir sozinha.


“Está tudo bem.”


Digitou devagar.


“Eu já não tenho tanto medo de bicho-papão assim.”


Demorou exatamente dois segundos para a resposta dele aparecer.


“Interessante…”


Outra mensagem surgiu logo abaixo:


“Porque da última vez que você ficou sozinha comigo numa fazenda durante chuva, acabou grávida… Sem contar que da outra vez que ficou sozinha comigo em uma chácara, também durante a chuva, acabou dormindo nos meus braços…”


Paula arregalou os olhos imediatamente antes de começar a rir sozinha na cama. Então digitou:


“Vou olhar a previsão do tempo.”


Vitor respondeu tão rápido que parecia já estar esperando.


“Covarde.”


Ela sorriu automaticamente.


“Prevenção.”


“Você sabe que eu sou cantor e compositor, mas não faço pacto com fenômenos naturais, né?”


Paula mordeu o canto da boca antes de responder:


“Ainda estou investigando.”


Ele mandou um áudio dessa vez.


Curto.


A risada dele veio primeiro, baixa, completamente desarmada.


— A gravidez te deixou mais engraçada!


O coração dela apertou de novo ao ouvir a voz dele daquele jeito leve. Íntimo. Quase perto. Então o áudio continuou:


— Mas olha… independentemente da previsão do tempo…


Uma pausa curta.


— Eu vou gostar muito se você vier.


A sinceridade da frase desmontou completamente o tom de brincadeira.


Paula ficou alguns segundos olhando o áudio na tela sem responder imediatamente porque era sempre isso. Ele brincava, provocava, desarmava ela inteira e então, no meio de tudo, dizia alguma coisa honestamente bonita sem perceber o tamanho do efeito que causava.


Ela respirou fundo antes de finalmente responder:


“Boa noite, Vitor.”


A resposta veio quase instantânea:


“Está fugindo…? Achei que não tivesse medo!”


Paula sorriu sozinha outra vez e, irritantemente, ele estava certo.


Os dias continuaram passando naquele equilíbrio perigosamente delicado entre cautela e intimidade e Paula percebeu uma coisa: Vitor tinha voltado a ocupar espaço na rotina dela sem fazer esforço nenhum.


Quando acordava, já havia mensagem dele.

Quando saía de consultas com a ginecologista, as únicas que ela conseguia ir sem ele estar atrás, ele perguntava como tinha sido. Quando via alguma coisa de bebê, automaticamente queria mandar pra ele primeiro e aquilo começava a assustar menos.


Numa tarde de domingo, Paula estava sentada no sofá da sala revisando algumas fotos de um show quando Isabella apareceu segurando o celular.


— Você viu isso?


Paula ergueu os olhos distraidamente.


— O quê?


Isabella sentou ao lado dela e virou a tela.


Não era uma matéria invasiva dessa vez. Era uma entrevista rápida de Leo após um evento.


Paula leu em silêncio:


“Estou muito feliz de ser tio de novo. O Vitor está animadíssimo. Ele é um pai incrível e acho que todo mundo da família já está completamente ansioso pra conhecer essa bebê.”


A matéria continuava dizendo que Leo comentou, sorrindo, que o irmão estava muito envolvido e emocionado a gestação.


Paula ficou olhando a tela por alguns segundos a mais do que deveria porque conseguia imaginar perfeitamente Vitor falando da bebê. Mostrando ultrassom. Comentando a escolha de nomes e, de repente, aquilo aqueceu ela por dentro de um jeito absurdo.


Isabella observava tudo em silêncio.


— Ele realmente parece feliz.


Comentou mais baixo dessa vez. Paula desviou os olhos da tela lentamente.


— Ele está.


A resposta saiu automática demais. Carinhosa demais também.


Isabella percebeu na mesma hora. Claro que percebeu. Mas então a expressão dela suavizou um pouco antes de perguntar:


— E você?


Paula franziu levemente a testa.


— O quê?


— Você também está feliz?


A pergunta pegou ela desprevenida justamente porque era simples. Sem ironia. Sem provocação.

Sem análise escondida. Só sincera.


Paula baixou os olhos para o celular outra vez antes de responder devagar:


— Estou…


A voz saiu baixa. Honesta. Ela respirou fundo antes de continuar:


— Muito mais do que imaginei que ficaria. Nada disso aconteceu como eu queria, mas está tudo sendo incrível…


Os olhos pararam involuntariamente na frase da matéria dizendo que Vitor estava animado e estava mesmo. Ela percebia todos os dias. Nos áudios. Nas perguntas. Na forma como ele falava da bebê como se já conhecesse ela.


Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dela sem perceber.


— Acho que essa foi a primeira vez em muitos anos que eu vi ele realmente em paz.


Comentou mais para si mesma do que para Isabella.


O silêncio veio curto depois disso até Isabella inclinar levemente a cabeça.


— Você ama muito esse homem ainda, né?


Paula fechou os olhos por um instante porque aquilo já nem parecia mais uma pergunta difícil de responder. Parecia só verdade.


Ela soltou um pequeno riso cansado antes de murmurar:


— Infelizmente…


Isabella sorriu de leve.


— Acho que já passou da fase do “infelizmente”.


Paula encostou a cabeça no sofá, ainda segurando o celular no colo e talvez, no fundo, Isabella tivesse razão.


Ela percebeu que não estava mais tentando decidir se queria voltar pra vida dele. No fundo… ela já estava voltando.


A semana correu rápido. Entre gravações, reuniões, entrevistas cuidadosamente filtradas e consultas médicas, Paula mal percebeu os dias avançando até Campinas começar a se aproximar de verdade. Mas, no meio da rotina, havia sempre ele.


Uma ligação no fim da noite. Uma mensagem perguntando se ela tinha comido direito. Fotos aleatórias enviadas pelas crianças. Áudios indignados sobre preços absurdos de móveis infantis. E, sem perceberem exatamente quando aconteceu, os dois tinham voltado a se procurar para tudo outra vez.


Na noite anterior à viagem, Paula estava sentada na cama organizando algumas roupas na mala quando o celular vibrou.


Vitor.


“Confirmando oficialmente: você vem mesmo amanhã ou ainda existe risco de desistência emocional?”


Ela sorriu sozinha antes de responder:


“Vou.”


A resposta veio quase imediata.


“Ótimo.”


Paula hesitou um instante antes de digitar:


“Você consegue me buscar no aeroporto?”


Demorou poucos segundos para outra mensagem aparecer.


“Consigo.”


Logo abaixo:


“Mas, não precisa se preocupar com voo.”


Ela franziu levemente a testa enquanto continuava lendo.


“Já falei com o Leo.”


Outra mensagem.


“Ele vai te buscar em BH, com o jato.”


Paula soltou um pequeno riso desacreditado.


“Vocês realmente vivem como uma companhia aérea.”


O áudio dele chegou logo depois. A risada baixa veio primeiro.


— Às vezes eu acho que a gente passa mais tempo organizando logística do que cantando.


Ela continuou ouvindo.


— E eu prefiro saber você está vindo assim do que pegando voo comercial sozinha. Já falei que isso é uma questão meio inegociável.”


A frase veio natural. Como se fosse óbvia. Como se cuidar dela já tivesse virado parte automática da vida dele outra vez.


Paula apoiou o celular no colo antes de responder:


“Obrigada.”


A resposta dele surgiu quase instantaneamente.


“Você precisa parar de agradecer toda vez que eu cuido de você.”


Ela ficou olhando a tela por alguns segundos. Então digitou:


“Não se emociona demais.”


Demorou exatamente dois segundos para ele responder:


“Tarde demais.”


Depois de terminar de organizar a mala, Paula desceu procurando pela mãe.


Encontrou Dulce na cozinha, organizando algumas coisas sobre a bancada enquanto conferia instruções com uma das funcionárias da chácara. Assim que viu a filha entrando, o semblante suavizou imediatamente.


— Já terminou tudo?


Paula assentiu de leve.


— Mais ou menos.


Dulce percebeu na mesma hora o tom estranho da resposta. Terminou o que fazia, dispensou a funcionária com gentileza e voltou completamente a atenção para ela.


— Organizou as coisas da viagem?


— Organizei.


Paula respondeu baixo antes de puxar uma cadeira e se sentar à mesa e Dulce entendeu imediatamente. Aquilo não era sobre mala. Ela se sentou na frente da filha sem pressa.


— O que foi?


Paula ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.


— Estou receosa de ir.


A sinceridade veio baixa. Sem defesa. Dulce não pareceu surpresa. Só observou ela com calma.


— Porque você sabe que quer voltar para ele…


Paula baixou os olhos imediatamente e aquilo já era resposta suficiente.


O silêncio ficou entre as duas por alguns segundos até Paula respirar fundo outra vez.


— Acho que nunca deixei de querer.


A voz saiu pequena agora. Mais vulnerável do que ela costumava permitir.


— O problema é que amar o Vitor é muito fácil.


Dulce permaneceu quieta. Deixando ela continuar.


— Ridiculamente fácil.


Paula soltou um pequeno riso sem humor.


— Quando ele está perto… tudo parece seguro de novo.


Os olhos marejaram discretamente.


— E eu sei exatamente o tamanho do estrago que foi quando deixou de ser.


Aquilo apertou o peito de Dulce, mas ela manteve a calma.


— Filha… ninguém atravessa uma história como a de vocês sem ficar com medo.


Paula apoiou os braços na mesa devagar.


— Eu não quero viver esperando ele fugir outra vez.


Dulce segurou a mão dela com carinho.


— Então não volta fingindo que isso nunca aconteceu.


Paula ergueu os olhos lentamente.


— O Vitor te ama. Isso eu nunca duvidei.


Uma pausa curta.


— Mas amor nunca foi o problema de vocês.


Aquilo atingiu ela em cheio porque era verdade. Sempre foi. Dulce apertou a mão dela devagar antes de continuar:


— Faz o que precisa ser feito… mas sem atropelar nada.


A voz saiu firme agora.


— Sem pressa. Sem fingir que já está tudo resolvido só porque vocês estão felizes nesse momento.


Paula assentiu devagar.


— E deixa ele continuar sendo transparente.


Outra pausa.


— Não aceita silêncio onde deveria existir conversa.


O ambiente ficou quieto por alguns segundos. Até Paula respirar fundo outra vez e mudar discretamente o olhar… Como quem lembrava de algo importante.


— Mãe…


Dulce esperou.


— Acho que escolhi o nome dela.


O semblante da mãe suavizou imediatamente.


— Escolheu?


Paula assentiu devagar e só pelo jeito que sorriu, Dulce percebeu que tinha significado. Muito.


— Ainda quero conversar com o Vitor antes…


Ela passou a mão devagar sobre a barriga.


— Mas queria falar com você primeiro.


Dulce observou ela com atenção.


— Qual nome?


Paula demorou um segundo antes de responder. Como se sentisse o peso bonito daquilo dentro dela. Então sorriu pequeno.


— Beatriz.


O silêncio veio imediato e Dulce entendeu no mesmo instante.


A avó dele.


A escritora. A mulher de quem Vitor falava com um carinho raro na voz.


Ela olhou lentamente para a filha.


— Você escolheu um nome importante pra ele.


Paula assentiu devagar.


— Uma dia lembrei dele falando dela e comecei a pesquisar sobre ela.


Dulce permaneceu ouvindo em silêncio.


— Vi vídeos dela declamando poesias… entrevistas… os livros que ela escreveu…


Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dela enquanto falava.


— E tinha uma doçura tão grande nela.


A voz saiu mais baixa agora.


— Uma leveza…


Ela passou a mão devagar sobre a barriga antes de continuar:


— Foi estranho porque parecia que o nome me abraçou pra ser escolhido.


Dulce sentiu o peito apertar discretamente ao ouvir aquilo. Paula sorriu outra vez.


— Também vi fotos dela jovem.


Os olhos se perderam um pouco na lembrança.


— Ela era linda.


Outra pausa.


— E o Vitor tem traços dela.


Dulce observava tudo em silêncio porque conseguia enxergar exatamente o que estava acontecendo ali:


Paula já estava criando raízes naquela família outra vez. De um jeito profundo.


Ela respirou fundo antes de continuar:


— E eu queria um nome importante pra nossa filha também.


Um pequeno riso escapou.


— Pensei na vovó… Mas, definitivamente não queria que ela chamasse Francisca.


Dulce arregalou os olhos antes de começar a rir imediatamente.


— Paula!


Ela começou a rir junto.


— O nome não é feio…


Tentou justificar entre o riso.


— Só não acho delicado. E seu eu falasse para colocar Francesca, Vitor jamais aceitaria! Sem contar que fica pesado mesmo…


Dulce ainda ria.


— Sua avó vai puxar seu pé essa noite.


— Ela que me desculpe.


Paula apoiou o rosto na mão, divertida agora.


— E também já existe um Francisco na família.


Dulce assentiu entendendo na mesma hora.


O filho de Leo.


Paula continuou:


— Pensei em Antônia também… por causa do avô dele.


O sorriso dela suavizou um pouco.


— Mas aí lembrei que o Leo também já tem um Antônio.


Ela soltou o ar devagar antes de sorrir outra vez. Dessa vez diferente. Mais emocionada.


— Mas quando pensei em Beatriz…


Os olhos baixaram automaticamente para a barriga.


— Pareceu perfeito.


O silêncio veio bonito entre as duas. Até Paula murmurar quase para si mesma:


— Beatriz Fernandes Chaves.


A forma como ela falou o nome fez tudo parecer imediatamente real. Concreto. Como se aquela menina finalmente tivesse ganhado identidade dentro do mundo.


Dulce sentiu os olhos marejarem discretamente enquanto observava a filha.


— É um nome lindo!


Paula sorriu e pela o primeira vez desde o início da gravidez que ela sentia, de verdade, que a filha já existia muito além dos exames, consultas e notícias.


Agora ela tinha um nome. E, de algum jeito silencioso, aquele nome carregava amor dos dois lados da história.