Antigo novo amor
41 Capítulo 41 - A consulta
O som do carro subindo pela estrada de terra fez Paula levantar o olhar imediatamente. Ela já estava na varanda, como se soubesse exatamente o momento em que ele chegaria, embora não tivesse olhado o relógio uma única vez. Ainda assim, não ficou parada. Desceu os degraus com certa pressa, ajeitando o vestido no caminho, mais por hábito do que por necessidade.
O carro passou pelo portão e entrou devagar. Antes mesmo de parar completamente, o olhar dela já tinha ido direto para o banco de trás.
Vazio.
Ela franziu levemente a testa, sem esconder a surpresa, e caminhou até ele. Vitor abriu a porta, saiu do carro e, antes mesmo que tivesse tempo de dizer qualquer coisa, ela perguntou:
— Onde estão as crianças?
Ele ainda segurava a porta quando ouviu. Olhou para ela com um sorriso contido, claramente divertido com a pressa dela.
— Boa tarde, Paula — disse, com calma — Como você está? Fico feliz em saber que está bem, também estou, obrigado por perguntar.
Ela respirou fundo, percebendo o próprio atropelo, mas não recuou.
— Oi… — respondeu, um pouco mais contida, mas mantendo o olhar nele — e onde eles estão?
Ele fechou a porta com tranquilidade e deu alguns passos na direção dela.
— Não consegui trazê-los desta vez. A rotina deles está mais puxada, escola, provas… você sabe como é.
Paula assentiu devagar. Fazia sentido, mas ainda assim olhou rapidamente para dentro do carro, como se confirmasse a ausência.
— Senti falta deles — disse, sem rodeio. Jurava que iam vir…
Ele sorriu de leve.
— Eles também queriam vir.
Um pequeno silêncio se instalou, mas não foi desconfortável. Havia algo diferente ali, mais assentado.
— Boa tarde — ela disse novamente, agora com um leve sorriso.
— Boa tarde — ele respondeu rindo.
Ela se virou, indicando a casa.
— Venha. Você deve estar com fome.
— Não nego — ele respondeu, abrindo o porta-malas para pegar a mala.
Eles caminharam juntos até a casa, lado a lado, sem necessidade de preencher o caminho com palavras. Ao entrarem, o silêncio do ambiente chamou atenção.
Vitor olhou ao redor.
— Sua mãe não está?
Paula seguiu direto para a cozinha.
— Não. Ela e o Ildo viajaram para o Rio Grande do Sul. Foram visitar a família dele de novo.
Ele a acompanhou até a cozinha.
— E a Isabella?
— Ainda não conseguiu vir para a chácara.
Ela apontou para a mesa.
— Mas eu preparei um café.
E havia cuidado ali. Não era algo elaborado demais, mas tudo estava disposto com atenção — pão, bolo, frutas, café passado na hora.
Vitor puxou a cadeira, observando.
— Isso está longe de ser um café qualquer.
— Não exagere — ela respondeu, sentando-se também.
Por alguns instantes, ficaram apenas com o som dos talheres e do café sendo servido.
— Como estão as coisas? — Paula perguntou.
Ele apoiou a xícara na mesa antes de responder.
— Corridas. Os shows e o trabalho em estúdio têm ocupado mais tempo do que eu gostaria.
Fez uma pequena pausa.
— Mas eu tenho conseguido estar com as crianças como deve ser.
Aquilo tocou Paula de imediato. Havia um calor sincero naquele relato, mas junto dele veio um pensamento inevitável. Mais uma criança. Mais demandas. Mais presença necessária.
Ela não disse nada.
Mas ele percebeu.
Antes mesmo que ela formulasse qualquer pergunta.
— Eu já pedi para reduzir a agenda — continuou, naturalmente — não tenho mais idade para manter aquele ritmo.
Um leve sorriso surgiu.
— E eu quero estar presente. Nas consultas, no nascimento…
O olhar dele encontrou o dela.
— Pretendo passar o primeiro mês inteiro com ela. Se você estiver de acordo.
Paula sustentou o olhar por um instante, surpresa pela forma direta, pela intenção clara. Sorriu, um pouco sem jeito, mas sincera.
— Você não precisa pedir isso… — disse — é um direito seu.
Uma pequena pausa.
— E eu vou gostar que esteja por perto.
Ela desviou o olhar por um instante, organizando o pensamento.
— Vai ser importante ter alguém com experiência.
Ele inclinou levemente a cabeça, absorvendo, mas não comentou.
O silêncio voltou, mais confortável.
Paula levou a mão até a xícara, mas antes de beber, falou:
— Precisamos pensar em outra coisa também.
Ele levantou o olhar.
— O quê?
— Em como vamos contar isso.
Uma pausa curta.
— Para a mídia.
Ele se recostou levemente na cadeira, refletindo.
— Eu estava pensando nisso esses dias.
— E como você imagina?
Paula perguntou, observando com atenção.
— Com calma — respondeu — sem exposição desnecessária.
Uma pequena pausa.
— Mas também sem esconder.
Ela assentiu.
— Eu pensei em algo mais direto… talvez uma nota, ou até um anúncio simples.
— Pode ser — ele concordou — desde que seja respeitoso.
Os dois ficaram em silêncio por um momento, alinhando sem esforço.
E então, quase sem perceber, o olhar dele desceu para a barriga dela.
Dessa vez, não foi rápido.
Foi consciente.
Paula percebeu e não desviou.
Apenas apoiou a mão ali, de forma natural.
— Está começando a aparecer mais agora — disse, tranquila.
Ele assentiu, ainda olhando.
— Está.
E voltou o olhar para ela, sem desviar.
Terminaram o café sem pressa. A conversa foi se dissolvendo naturalmente, dando lugar a um silêncio confortável, daqueles que não exigem esforço. Vitor se levantou primeiro, juntando a xícara e levando até a pia.
— Eu vou até o chalé descansar um pouco antes da consulta — disse, pegando a mala.
Paula assentiu, acompanhando o movimento dele.
— Faz bem. Você veio de carro mesmo ou alugou um aqui?
— Dessa vez sim. Dirigir me relaxa um pouco…
— Não precisa ficar alugando carro quando vier de avião. Pode usar o meu.
— Obrigado!
Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, parou e olhou para ela com mais atenção.
— Você vai ficar bem aqui sozinha?
A pergunta veio simples, mas carregava um cuidado que ele não disfarçava.
— Eu sei que você não gosta muito…
Ela soltou um riso leve, já balançando a cabeça.
— Eu vou ficar bem, Vitor.
Deu um pequeno gesto com a mão, como quem afasta a preocupação.
— Pode ir descansar tranquilo.
Ele sustentou o olhar por um instante, como se avaliasse, e então assentiu.
— Qualquer coisa, me chama.
— Chamo.
Ele saiu, e o som dos passos se perdeu na direção do chalé.
A casa ficou em silêncio. Paula pegou o celular quase no automático e abriu a conversa com Isabella.
“Você vem?”
A resposta demorou poucos minutos.
“Paula, não vou conseguir… deu um problema com a faculdade do meu irmão e vou precisar ajudar ele. Mas se você quiser, eu tento dar um jeito e vou mais tarde.”
Paula ficou olhando a mensagem por alguns segundos.
Sentia falta da presença dela ali. Sabia que Isabella tornava mais leve, mais fácil… especialmente agora. Mas também não era justo.
Digitou de volta:
“Não precisa, resolve isso aí. Depois você vem com calma.”
Enviou e apoiou o celular na bancada.
Ficou ali por um instante, respirando, como se reconhecesse o lugar em que tinha se colocado: Sozinha com ele ali perto.
Sacudiu levemente a cabeça e voltou para o que estava fazendo. Organizou a cozinha com calma, guardou o que precisava, deixou tudo no lugar. Movimentos simples, repetidos, que ajudavam a organizar também o pensamento.
Depois seguiu para a casa principal. Ainda havia tempo até a consulta, e ela queria se arrumar sem pressa.
Foi para o quarto, separou a roupa, deixou tudo pronto e entrou no banheiro. Abriu a torneira da banheira, ajustou a água, deixando o ambiente tomar aquele vapor leve que sempre a ajudava a desacelerar.
Vestiu o roupão enquanto esperava. Foi então que ouviu. Um barulho vindo da casa.
Seco.
Rápido.
Ela parou. Ficou em silêncio por um segundo, prestando atenção.
Outro ruído.
Paula fechou melhor o roupão, instintivamente, e saiu do quarto com cuidado, caminhando pelo corredor até a sala.
— Tem alguém aí?
A voz saiu mais baixa do que o normal. Ela deu mais alguns passos e, ao virar a esquina da sala…
— Vitor?!
O susto veio na hora.
Ele também se virou, surpreso por encontrar ela ali daquele jeito.
— Desculpa — disse, levantando as mãos de leve — não queria te assustar.
Paula levou a mão ao peito, ainda recuperando o fôlego.
— Você quase conseguiu.
Ele soltou um pequeno riso, meio sem graça.
— O chuveiro do chalé queimou.
Apontou para trás, como se justificasse a presença.
— Vim pedir pra usar o daqui… você se importa? Preciso tomar um banho…
Ela ainda ficou alguns segundos olhando para ele, assimilando a cena, o inesperado, o susto… e o fato de que ele estava ali, de novo, dentro daquele espaço.
Respirou fundo.
— Não… claro que não.
Deu um passo para o lado, abrindo passagem.
— Pode usar o do quarto de hóspedes.
Ele assentiu.
— Obrigado.
E passou por ela. O cheiro do perfume veio junto.
Familiar. Paula ficou parada por um instante, observando ele seguir pelo corredor, e só depois voltou a se mover. Mas agora o silêncio da casa já não era o mesmo.
Vitor seguiu pelo corredor até o quarto de hóspedes e fechou a porta com calma atrás de si. Ficou alguns segundos parado, como se ainda estivesse voltando completamente para aquele espaço. A imagem dela vinha nítida demais… o susto no olhar, o roupão ajustado às pressas, o cabelo preso de um jeito simples… tudo tão cotidiano, tão íntimo, que por um instante pareceu deslocado no tempo.
Como se não houvesse distância entre o que tinham vivido antes e o que estavam vivendo agora.
Ele respirou fundo, fechando os olhos, tentando organizar o próprio pensamento, e entrou no banheiro.
A água começou a cair, mas não levou aquilo embora. Pelo contrário.
Sob o chuveiro, a lembrança voltava com mais força. Não era apenas sobre a imagem dela. Era o conjunto. A casa silenciosa, o cheiro familiar, a forma como ela se movia naquele espaço… como se, de alguma maneira, ele ainda pertencesse ali.
E aquilo mexia mais do que ele gostaria de admitir.
Paula também voltou para o quarto ainda com o coração um pouco acelerado. Fechou a porta atrás de si e encostou por um segundo, respirando fundo.
Olhou para o banheiro… A água da banheira já estava no ponto. O vapor subia leve, convidativo.
Mas ela não entrou.
Ficou parada, olhando, como se avaliasse uma escolha simples… que não era simples.
O cheiro dele ainda estava ali. Na casa. Nela.
Entrar naquela banheira seria prolongar aquilo.
Se permitir ficar ali, sentindo, lembrando, pensando mais do que deveria.
Ela desviou o olhar.
— Não.
Disse baixo, quase para si mesma.
Foi até a torneira e fechou a água. O som cessou, e o silêncio voltou a ocupar o espaço.
Tirou o roupão e o deixou sobre a cama, já se organizando para entrar no chuveiro. Movimentos mais objetivos, como se precisasse se manter ocupada para não voltar àquele lugar.
Mas, ainda assim, a imagem não saía… O olhar dele. O silêncio entre os dois. A forma como aquilo parecia… fácil demais. E isso, talvez, fosse o que mais a desestabilizava.
Vitor terminou o banho, se arrumou com calma e voltou até o chalé apenas para deixar a mala. Não demorou. Logo retornou para a casa principal, caminhando sem pressa, já mais assentado depois do susto e do que aquilo tinha despertado.
Ao entrar na sala, sentou-se no sofá, apoiando os braços com um suspiro leve. Não ficou sozinho por muito tempo.
Lilika apareceu quase imediatamente, vindo na direção dele como se estivesse esperando. Pulou no colo sem cerimônia, e ele riu, começando a acariciá-la com naturalidade.
— Você continua mandando em tudo aqui, não é?
A cachorra se acomodou, completamente à vontade. Foi quando o celular vibrou. Ele olhou a tela e atendeu na hora.
— Oi, filha!
— Pai! — a voz veio rápida — você pode me ajudar? Eu não estou entendendo essa conta!
Ele ajustou a postura, já entrando no ritmo dela.
— Calma… lê o problema para mim.
— Tá… — ela começou — “Um trem sai de um lugar…” — fez uma pausa — mas eu não sei o que eu tenho que fazer primeiro!
Vitor sorriu de leve.
— Lê tudo primeiro, sem tentar resolver.
Ela continuou, mais concentrada dessa vez. Ele ouviu até o final e então conduziu:
— Certo… agora me diz: o que ele está pedindo?
— Ah… ele quer saber o tempo…
— Isso. Então a gente não resolve tudo de uma vez. Divide.
— Mas eu não sei como dividir!
— Eu sei que você sabe — ele respondeu com calma — começa pelo que você tem de informação.
Ela ficou em silêncio por um segundo.
— A velocidade…
— Isso. E o quê mais?
— A distância…
— Então pronto — ele disse, tranquilo — agora pensa na relação entre esses dois.
— Ai, pai… — ela reclamou — você fala como se fosse fácil!
— É porque é.
Ela riu do outro lado.
— Não é, não!
— É sim. Você só está tentando fazer tudo ao mesmo tempo.
Enquanto ele falava, a mão ainda repousava sobre Lilika, que já estava completamente relaxada.
Foi nesse momento que Paula apareceu no corredor.
Ela vinha ajeitando a manga da blusa, já pronta, e desacelerou ao ver a cena. Não interrompeu. Ficou ali por um instante, observando, a forma como ele explicava, paciente, o tom de voz mais baixo, a leveza… era uma cena simples, mas difícil de ignorar.
Ela então se aproximou.
Vitor levantou o olhar no meio da explicação e a viu chegando, mas continuou falando com Maria.
— Faz assim… tenta resolver até essa parte que eu te falei. Depois a gente termina juntos mais tarde, pode ser?
— Tá… — Maria respondeu — mas você não vai desligar, né?
— Vou sim — ele disse, com um leve sorriso — mas a gente continua depois.
— Ah…
— Confia em mim.
— Tá bom…
Ele então completou, ao ver Paula pedindo o celular dele:
— E antes de desligar… tem uma pessoa querendo falar com você.
Paula já estava ao lado dele quando ele estendeu o celular. Ela pegou, sorrindo.
— Na verdade… duas pessoas.
Levantou levemente a blusa, mostrando a barriga.
— Olha aqui.
Do outro lado, Maria reagiu na mesma hora.
— Paula!!
Veio uma risada cheia de animação.
— Eu quero ver melhor!
Paula riu.
— Calma…
Olhou para Vitor e estendeu o celular.
— Segura aqui.
Ele pegou, já entendendo, e ajustou o enquadramento.
— Assim?
— Mais perto! — Maria pediu do outro lado.
Vitor aproximou um pouco mais, agora com o olhar dividido entre a tela e ela.
Paula apoiou a mão na barriga, de forma natural.
— Está vendo?
— Sim! — Maria respondeu, animada — cresceu muito!
— Um pouquinho…
— Eu quero ver mais!
Ele ajustou novamente, tentando atender à exigência da filha, mas, sem perceber, o olhar dele se demorava além da tela.
Na forma como Paula se colocava ali. Na calma.
Na intimidade daquele gesto. Era simples… E, justamente por isso, era difícil de ignorar.
Do outro lado da ligação, a voz de Maria foi interrompida por outra ao fundo.
— Maria, vem aqui!
— Já vou! — ela respondeu, e voltou para o telefone — Pai, a mamãe está me chamando…
— Depois a gente termina, está bem? — Vitor disse.
— Tá… tchau! — ela respondeu, ainda animada — tchau, Paula!
— Tchau, meu amor — Paula respondeu, sorrindo.
A ligação encerrou.
Por um segundo, o silêncio tomou conta da sala. Não um silêncio desconfortável, mas aquele tipo que vem quando algo acontece e ninguém sabe exatamente como continuar a partir dali.
Paula abaixou a blusa devagar. Vitor ainda segurava o celular, mas não por muito tempo, logo bloqueou a tela e colocou no bolso.
Os dois evitaram se olhar imediatamente e foi ela quem quebrou. Apontou com o queixo para Lilika, ainda completamente acomodada no sofá.
— Você deve ter algum tipo de ímã… — disse, com leveza — até as cachorras ficam atrás de você.
Ele riu, passando a mão pela cabeça da cadela antes de se levantar.
— Eu nunca parei para pensar nisso.
Deu um passo para trás, ajeitando a camiseta.
— Vamos? Senão a gente se atrasa.
Ela assentiu.
— Vamos.
Pegou a bolsa, conferiu rapidamente o que precisava e saiu junto com ele. Lilika ficou para trás, ainda tranquila, como se nada tivesse mudado.
O trajeto começou em silêncio, preenchido demais para ser interrompido de qualquer jeito. O som do carro, a estrada, o movimento leve do lado de fora… tudo seguia em um ritmo calmo.
Paula olhava pela janela, pensativa. A mão repousava sobre a barriga, como vinha fazendo cada vez mais, sem perceber.
Vitor dirigia com atenção, mas em alguns momentos o olhar escapava para ela.
E foi nesse intervalo que ela falou primeiro.
— Você já imaginou como ela vai ser?
A pergunta veio sem pressa, quase como se estivesse pensando em voz alta.
Ele demorou um segundo.
— Em que sentido? Físico?
— Também…
Ele assentiu de leve.
— Já… mas sempre fico em dúvida.
Uma pausa breve.
— Não sei se ela vem carequinha ou com cabelo… se vai ser loira, morena…
Olhou rapidamente para ela antes de voltar a atenção para a estrada.
— É curioso pensar nisso.
Paula ouviu em silêncio, absorvendo.
— E você? — ele perguntou.
Ela pensou por um instante antes de responder.
— Eu fico imaginando coisas pequenas…
O olhar ainda na paisagem.
— O jeito de rir… se vai ser calma… se vai gostar das mesmas coisas que a gente…
Uma pausa curta.
— Ou se vai vir completamente diferente.
Ela respirou leve.
— Penso também em como vão ser os olhinhos…
Vitor sorriu de leve.
— Provavelmente um pouco dos dois…
Manteve o tom tranquilo.
— Porque isso depende muito de como a gente apresenta o mundo para ela… até ela mesma descobrir o que quer.
Paula também sorriu.
— É… isso parece ser responsabilidade demais.
Ele inclinou a cabeça, pensativo por um segundo.
— É.
Uma pausa.
— Mas também é um privilégio.
O silêncio voltou por um instante, mais leve. E então ele completou, ainda olhando a estrada:
— E sobre os olhos… eu acho que vão ser como os seus.
Ela virou o rosto para ele, surpresa pela certeza no tom. Ele não desviou dessa vez.
— Eu gostaria que fosse. Grandes, profundos…
Paula sustentou o olhar por um instante e então sorriu, desviando levemente para a frente.
— Os seus olhos também são bonitos…
Ele arqueou uma sobrancelha, curioso.
— São?
Ela assentiu, pensativa.
— São… mais rasos, pequenos… mas muito expressivos.
Uma pausa curta.
— E, sendo bem sincera, quando eu penso nela… eu quase tenho certeza de que ela vai puxar você.
Ele soltou um riso leve.
— Quase certeza?
— Quase nenhuma dúvida — ela corrigiu, sorrindo — a Maria é a sua cara… a sua irmã também… não tem muito para onde fugir.
Ele balançou a cabeça, rindo.
— Você está me acusando de dominar a genética agora?
— Estou sendo realista.
Os dois riram. O clima ficou ainda mais leve, mais solto. Paula então continuou, com um tom mais suave:
— Mas… se não vier a sua cara inteira…
Ela olhou para ele de novo, com mais calma.
— Eu queria que pelo menos tivesse o seu sorriso.
A frase veio simples. Mas carregada.
Ele diminuiu um pouco a velocidade, quase sem perceber, absorvendo aquilo.
— Por quê?
Ela deu de ombros de leve.
— Porque ele é fácil.
Uma pequena pausa.
— É leve… é daqueles que acolhem.
O silêncio que veio depois não precisou de explicação. E, dessa vez, foi ele quem ficou olhando para ela por um segundo a mais. Antes de voltar para a estrada.
Ela estendeu a mão até o painel do carro e ligou o som. Uma música suave preencheu o ambiente, acompanhando o trajeto sem interromper o silêncio confortável entre eles.
Quando chegaram à clínica, Vitor estacionou e desceu primeiro, dando a volta para acompanhar Paula. Ela saiu com cuidado, e os dois seguiram juntos até a recepção. O ambiente era claro, organizado, com aquele movimento típico de consultas no fim de tarde.
Paula confirmou o atendimento e logo se acomodaram.
Ela apoiou a bolsa ao lado e respirou fundo, enquanto Vitor pegava o celular.
— Olha isso aqui…
Ele inclinou o aparelho na direção dela. Paula virou o rosto e, ao ver a tela, o sorriso veio imediato.
— Vitor… — disse, já mais próxima — que coisa linda…
Aproximou-se um pouco mais para ver melhor.
— Esse aqui… — apontou — é muito delicado.
Ele passou para a próxima imagem.
— E esse? Cheio de borboletinhas!
Ela abriu um sorriso ainda maior.
— Esse eu gostei mais.
Observava com atenção, quase como se já imaginasse.
— Dá para imaginar ela usando isso…
A voz saiu mais baixa, mais envolvida. Ele continuou deslizando.
— Eu salvei alguns.
— Eu vi — ela riu de leve — e você tem bom gosto.
Uma pausa.
— Esse com a manga mais soltinha… — comentou — eu escolheria.
Ele inclinou um pouco mais o celular.
— Então salva esse.
Ela assentiu, ainda sorrindo e clicou na tela.
— Salvo!
Ficaram ali por mais alguns segundos, olhando juntos, trocando pequenas impressões, sem pressa.
— Paula? — a recepcionista chamou.
Ela levantou o olhar.
— Sou eu.
Os dois se levantaram ao mesmo tempo. Vitor guardou o celular, e ela ajeitou a bolsa.
Seguiram juntos pelo corredor, ainda com aquela leve animação silenciosa que vinha do que tinham acabado de ver.
Entraram no consultório e foram recebidos com cordialidade. O médico os cumprimentou, pediu que se acomodassem e abriu a ficha de Paula enquanto iniciava a conversa.
— Então, Paula, me conta… como você tem se sentido nas últimas semanas? Teve enjoo, tontura, cansaço fora do habitual?
— Mais tranquila — ela respondeu — um pouco mais cansada, mas nada muito diferente.
Ele assentiu, fazendo algumas anotações.
— Isso é esperado nessa fase. O corpo começa a demandar mais, então esse cansaço aparece mesmo.
Levantou o olhar.
— Alguma dor, sangramento, desconforto abdominal?
— Não.
— Ótimo.
Fez mais algumas anotações e então perguntou:
— E o sexo do bebê, já descobriram?
Paula sorriu.
— Já… É uma menina.
O médico riu de leve.
— Vocês foram rápidos. Parabéns pela pequena!
Puxou os exames para si, ajustando os óculos, e começou a analisar com atenção.
— Vamos lá… hemograma…
Foi passando os olhos pelos resultados, com calma, sem pressa.
— Aqui está tudo bem… glóbulos brancos dentro do esperado…
Virou a página.
— Glicemia normal…
Assentiu.
— Ótimo.
Parou em um ponto específico.
— Aqui nós temos uma leve queda nos níveis de ferro.
Levantou o olhar para Paula.
— Isso é muito comum na gestação, porque o seu corpo está produzindo mais sangue para sustentar o desenvolvimento do bebê.
Vitor se inclinou levemente.
— Isso é preocupante?
— Não — respondeu com tranquilidade — mas precisa ser acompanhado.
Voltou a apontar para o exame.
— Vamos reforçar a ingestão de alimentos ricos em ferro, como carnes, folhas verde-escuras, leguminosas… e eu vou prescrever um suplemento para garantir que esses níveis se mantenham adequados.
Vitor continuou:
— Isso pode afetar o bebê de alguma forma?
— Só se não for tratado — explicou — e não é o caso aqui. Estamos identificando cedo e corrigindo. Isso é exatamente o que queremos.
Ele escreveu rapidamente na receita.
— É importante também associar com vitamina C, porque ajuda na absorção do ferro.
Entregou a orientação.
— Evitar tomar junto com café ou leite, porque pode atrapalhar a absorção.
Vitor assentiu, atento a cada detalhe.
— Em relação à alimentação, tem algo que ela precise evitar além do básico?
— Evitar alimentos crus ou mal passados, principalmente carnes e ovos, por risco de contaminação. Manter boa higienização de frutas e verduras… e evitar excesso de açúcar e ultraprocessados.
Olhou para Paula.
— Mas, no geral, uma alimentação equilibrada já resolve grande parte.
— E os exames agora? — Vitor perguntou.
— A partir de agora, o acompanhamento fica mais frequente — explicou — teremos a ultrassonografia morfológica em breve, que é muito importante, porque avalia a formação dos órgãos do bebê.
Fez uma pausa.
— E seguimos com exames periódicos para acompanhar sangue, glicemia e outros parâmetros.
Paula então perguntou:
— Doutor… eu posso cavalgar?
Ele nem hesitou.
— O ideal é evitar.
O tom foi firme, mas não alarmista.
— A equitação envolve impacto, instabilidade e risco de queda. Mesmo que você tenha experiência, o corpo muda durante a gestação, o equilíbrio não é o mesmo.
Ela assentiu, compreendendo.
— Certo. Já imaginava…
— Caminhadas leves, exercícios de baixo impacto, alongamento… tudo isso está liberado.
Ele então apoiou a caneta na mesa e mudou o foco, com naturalidade profissional.
— E quanto à vida íntima de vocês…
Olhou entre os dois.
— Vocês têm mantido relações sexuais?
A pergunta veio direta. Paula ficou imóvel por um segundo. Vitor também não respondeu imediatamente.
O médico continuou, no mesmo tom:
— Está tudo bem nesse aspecto? Algum desconforto, dor, sangramento ou incômodo durante ou após?
O silêncio se estendeu por um instante.
Paula desviou o olhar…
Vitor ajustou levemente a postura.
— Não… — disse, direto — está tudo correndo bem nesse aspecto.
Nem ele soube exatamente por que respondeu… Talvez tenha sido o impulso de encerrar o assunto rápido demais. Talvez o desconforto de deixar aquele silêncio se prolongar. Ou simplesmente o reflexo de manter tudo sob controle, como vinha fazendo desde que chegou.
A resposta saiu com naturalidade demais para algo que claramente não correspondia à realidade.
Paula virou o rosto para ele na mesma hora. O olhar veio imediato. Incrédulo. Não pela pergunta do médico, mas pela coragem dele de mentir com tamanha tranquilidade. Por um segundo, pareceu que ela diria algo, mas não disse.
Quando o médico voltou o olhar para ela, esperando a confirmação, Paula apenas sustentou aquele instante e então sorriu, leve, quase protocolar.
— Está tudo bem.
A resposta veio mais baixa, com uma pontinha de constrangimento que ela não conseguiu esconder completamente.
O médico assentiu, interpretando aquilo de outra forma.
— Perfeito.
Apoiou-se levemente na cadeira, mantendo o tom acolhedor.
— É normal que esse tipo de assunto gere algum desconforto para o casal durante a consulta, mas é importante falar sobre isso.
Olhou para os dois.
— A atividade sexual, quando não há contraindicações, é totalmente segura durante a gestação.
Fez uma pequena pausa, didático.
— Inclusive, ela é benéfica. Libera hormônios como a ocitocina, que ajudam no bem-estar, reduzem o estresse e contribuem para o vínculo entre vocês.
Vitor assentiu, ouvindo, mas agora um pouco mais rígido na postura. Paula manteve o olhar baixo por alguns segundos.
— Então, se estiver confortável para os dois, não há problema algum em manter.
O médico retomou o fluxo da consulta com naturalidade, reforçando as orientações, explicando novamente o uso do suplemento, horários, alimentação e sinais de atenção.
— Vamos dar uma olhada nela agora?
Paula se deitou na maca, ajeitando a roupa com cuidado. Vitor se aproximou mais, posicionando-se ao lado, atento.
O médico aplicou o gel e iniciou o exame. A imagem surgiu na tela.
— Aqui está ela… — disse, apontando — cabeça… tronco… membros…
Foi guiando com calma, ajustando o aparelho.
— O coração está com batimentos adequados…
O som preencheu o ambiente por alguns segundos.
Paula não desviava o olhar. Vitor também não.
O médico fez um pequeno ajuste no ângulo, observando com mais atenção uma região específica.
— E, confirmando aqui… — disse, com um leve sorriso — é uma menina mesmo.
Paula soltou um pequeno riso, como se ainda precisasse ouvir aquilo de novo.
Vitor olhou para a tela e depois para ela, com um sorriso contido, mas sincero.
— Confirmado então… — ele disse, baixo.
O médico continuou o exame.
— Está se movimentando bem — comentou — isso é ótimo.
Paula respirou leve.
— Eu sinto que a minha barriga está crescendo rápido…
O médico fez mais algumas medições, concentrado.
— E está mesmo.
Ajustou o aparelho, conferindo os dados.
— Pelas medidas aqui, existe uma tendência de ela ser um bebê maior.
Vitor olhou imediatamente.
— Maior como?
O médico sorriu de leve, olhando entre os dois.
— Dentro do saudável… mas acima da média.
Fez uma pausa breve.
— E isso, muitas vezes, tem relação com a genética.
O olhar foi direto para Vitor.
— Considerando o porte do pai, não me surpreende.
Vitor soltou um pequeno riso. Paula virou o rosto para ele, divertida.
— Está vendo?
O médico voltou à tela.
— Mas vamos confirmar isso com mais precisão na ultrassonografia morfológica.
Paula assentiu.
— Certo.
— Por enquanto, seguimos apenas acompanhando — ele concluiu — não é motivo de preocupação.
O exame seguiu por mais alguns minutos, com explicações técnicas, mas, naquele ponto, a atenção dos dois já estava completamente voltada para a imagem.
Para ela. Agora não apenas imaginada. Mas confirmada, medida… e cada vez mais real.
Eles saíram do consultório ainda em silêncio, cada um absorvendo o que tinha acabado de ver. Vitor parou na recepção para acertar a consulta, enquanto Paula aguardava ao lado, com o olhar distante por alguns segundos, como se ainda estivesse diante da imagem da tela.
Pouco depois, seguiram para o carro.
O trajeto começou tranquilo, até que Paula quebrou o silêncio, já organizando mentalmente as próximas etapas.
— Eu preciso encaminhar os documentos do meu plano para começar a cobrir o pré-natal…
Falou de forma prática, olhando para frente. Vitor respondeu com a mesma calma:
— Não precisa.
Ela virou o rosto, sem entender.
— Como assim?
— Eu já pedi para incluírem você no meu plano.
A frase veio direta. Paula franziu levemente a testa.
— Vitor, não precisa disso…
Ele nem deixou que ela terminasse.
— Não é negociável.
O tom não foi duro. Mas foi firme.
Ela respirou fundo, voltando o olhar para frente. O carro seguiu por alguns minutos em silêncio, até que o trânsito começou a reduzir.
Vitor diminuiu a velocidade, parando no sinal. Foi nesse momento que ele percebeu… Ela não estava bem. Não era algo explícito, mas era claro o suficiente para quem conhecia.
— O que foi? — perguntou, olhando para ela.
— Nada.
Resposta rápida demais. Ele sustentou o olhar por um segundo.
— Não está tudo bem.
Ela soltou um pequeno suspiro, mas não respondeu. Vitor apoiou uma das mãos no volante, mais atento agora.
— Se for por causa do plano… você não precisa se preocupar com isso.
Uma pausa.
— Aquele médico nem é coberto, de qualquer forma.
Olhou para frente, mas continuou:
— Eu já tenho pago as consultas e vou pagar o pré-natal.
O tom permaneceu tranquilo. Paula virou o rosto para ele.
— Eu tenho condições de pagar.
A resposta veio firme. Sem agressividade.
Mas com posição.
Ele assentiu.
— Eu sei.
Disse isso sem hesitar.
Uma pausa.
— Mas eu quero cuidar disso também.
Olhou para ela novamente.
— Não é sobre você não poder… é sobre eu querer estar presente em tudo que eu puder, inclusive financeiramente.
A voz ficou um pouco mais baixa.
— Eu não quero te ofender.
O silêncio se instalou por um instante. Paula então se virou completamente para ele. O olhar não era de confronto. Mas também não era de aceitação simples.
Era mais complexo. Mais honesto.
— Não é isso que me incomoda.
Disse, com calma.
Vitor manteve o olhar nela por um instante, esperando que ela continuasse.
— Por que você mentiu para o médico?
A pergunta veio direta. Sem rodeio.
Ele franziu levemente a testa.
— Mentir?
— Sobre a gente.
Ela sustentou o olhar.
— Você respondeu por nós dois… e nem me deu tempo de falar.
Um silêncio curto.
— Eu estava ali, Vitor.
Ele respirou fundo, apoiando melhor as mãos no volante.
— Eu só não queria entrar naquele assunto…
— Então você resolveu por mim.
A resposta veio mais firme.
— Você nem olhou para mim antes de responder.
Ele apertou levemente o maxilar, reconhecendo o ponto.
— Eu achei que você não ia querer falar sobre isso ali.
— Você achou.
Ela repetiu.
— E decidiu sozinho.
O trânsito voltou a fluir, mas o ritmo dentro do carro continuava outro.
— Eu não gosto disso — ela continuou, agora mais clara — não gosto quando você toma a frente de coisas que são minhas também e toma decisões por mim sem me consultar, sem entender se é isso que eu quero.
Uma pausa.
— Ainda mais assim.
Ele permaneceu em silêncio por um instante.
— Não foi minha intenção te desrespeitar.
— Mas foi isso que aconteceu.
A frase veio sem dureza, mas sem suavizar. Ela respirou fundo, como se organizasse o resto.
— Se for para ser assim… talvez seja melhor você não ir nas consultas.
Ele virou o rosto para ela na mesma hora.
— Como assim?
— Assim — respondeu, direta — eu prefiro ir sozinha do que ficar naquela posição… de alguém respondendo por mim.
O silêncio que veio foi mais pesado.
— Eu não quero te excluir — ela completou, com um tom mais controlado — mas eu também não vou me colocar nesse lugar.
Ele demorou um segundo para responder.
— Eu só quis facilitar.
— Para você.
Ela corrigiu.
— Porque para mim não foi. Para de achar que suas atitudes facilitam para mim!
O carro seguiu. Mas agora o silêncio já não era confortável. Não era discussão. Não tinha voz alta. Não tinha confronto direto. Mas havia um corte ali — recente, exposto.
Vitor manteve os olhos na estrada. A mandíbula mais firme, o pensamento correndo mais rápido do que o carro. Ele não respondeu de imediato.
E, dessa vez, não foi por descaso. Foi porque qualquer resposta naquele momento só pioraria.
Paula também não insistiu. Virou o rosto para a janela, apoiando o cotovelo de leve, como quem escolhe encerrar ali antes que aquilo cresça mais do que precisa.
O restante do caminho foi percorrido assim. Em silêncio, um silêncio cheio de coisa sendo processada dos dois lados.
Quando o carro entrou na estrada de terra da chácara, o som dos pneus mudando no cascalho quebrou levemente aquele clima.
Vitor diminuiu a velocidade, concentrado na direção.
Paula já se ajeitava no banco, como quem se prepara para sair assim que possível.
Ele estacionou. Desligou o motor. E, antes mesmo que o som cessasse completamente, ela já soltava o cinto. A mão foi até a maçaneta.
— Paula…
A voz dele veio mais baixa. Sem firmeza.
Sem defesa. Ela parou. Não saiu imediatamente.
Virou o rosto e foi nesse momento que ele falou.
— Desculpa.
Simples. Sem justificativa dessa vez. Sem explicação. Só a palavra.
Ela não respondeu na hora. Ficou olhando para ele por um segundo a mais, tentando entender se aquilo vinha do mesmo lugar de antes… ou de outro.
— Eu estou tentando acertar.
Ele completou, com mais cuidado.
— Mas eu sei que às vezes eu passo do ponto.
Paula respirou fundo. O olhar ainda firme, mas menos tenso.
— Você não precisa tentar sozinho.
Disse, com mais calma. Uma pausa.
— É só… me ouvir antes.
Ele assentiu. Dessa vez sem argumentar.
Sem completar. Só assentiu. E isso, vindo dele, dizia mais do que qualquer explicação longa.
Ela abriu a porta. Mas antes de sair completamente, disse:
— Você pode ir nas consultas.
Ele levantou o olhar.
— Só não responde por mim.
Um leve movimento de cabeça dele.
— Combinado.
Ela saiu do carro e caminhou em direção à casa.
Não era reconciliação. Mas também não era afastamento. Era… um ajuste sendo aceito.
Paula entrou na casa ainda sentindo o peso leve da conversa no carro. Não exatamente uma briga… mas também longe de ser algo completamente resolvido.
Deixou a bolsa sobre a bancada e respirou fundo antes de pegar o celular. A tela acendeu quase no mesmo instante, com uma mensagem de Isabella.
“Conseguiu sobreviver à consulta?”
Paula soltou um pequeno riso nasal antes de responder.
“Sobrevivi.”
A digitação apareceu imediatamente.
“E?”
Ela pensou por um segundo antes de escrever:
“Estamos vivos. O que já é bastante coisa.”
Isabella respondeu com um áudio na hora.
— Isso significa que vocês discutiram.
Paula caminhou devagar pela cozinha enquanto ouvia.
— Não foi uma discussão.
Respondeu também em áudio.
— Só… um desentendimento.
A risada de Isabella veio do outro lado.
— Ah, claro. O famoso “não brigamos”. Conheço.
Paula abriu a geladeira sem realmente prestar atenção no que fazia.
— Você quer saber o que aconteceu?
— Obviamente.
Ela respirou fundo antes de começar:
— O médico perguntou sobre nossa vida sexual.
Do outro lado veio um silêncio absoluto. E então:
— Meu Deus.
Paula apoiou uma mão na bancada, já rindo sem acreditar enquanto lembrava.
— E antes que eu respondesse, o Vitor respondeu por nós dois.
A gargalhada de Isabella veio alta agora.
— Não acredito.
— Acredite…
— O que ele falou?
Paula fechou os olhos por um segundo.
— Que estava tudo normal. Tudo ótimo. Nem sei te explicar porque fiquei tão perplexa! O médico lá perguntando se estava tudo ok, sem desconforto e ele dizendo que estava tudo tranquilo nesse quesito.
Isabella começou a rir ainda mais.
— Esse homem é completamente maluco!
— Isabella, eu fiquei sem reação!
— Eu imagino o médico olhando para vocês dois.
— O pior é que depois o médico ainda começou a explicar como sexo fazia bem para a gravidez.
A gargalhada aumentou.
— Não!
— Sim!
Paula balançou a cabeça sozinha.
— E eu fiquei irritada porque ele simplesmente decidiu responder sozinho. Nem olhou para mim.
A voz de Isabella suavizou um pouco.
— Ah… então foi isso que te pegou.
— Claro que foi.
Paula fechou a geladeira devagar.
— Não era sobre mentir ou não. Era sobre ele achar que podia responder por mim.
— E vocês discutiram no carro?
— Não exatamente.
Ela pensou por um instante.
— Eu falei que, se fosse para ele agir assim, talvez fosse melhor não ir mais nas consultas.
Dessa vez Isabella demorou um pouco mais para responder.
— Você falou isso mesmo?
— Falei. Até me arrependi um pouco depois… Mas, falei!
— E o que ele fez?
Paula respirou fundo.
— Ficou quieto o caminho inteiro.
Uma pausa curta.
— Depois pediu desculpas.
Isabella soltou um pequeno som de surpresa.
— Isso é praticamente um evento histórico.
Paula riu pelo nariz.
— Não exagera.
— Vitor é um cabeça dura e homens cabeça dura só pedem desculpas quando sente de verdade.
O silêncio ficou mais confortável entre elas por alguns segundos. Foi Paula quem o quebrou:
— Você vem mesmo?
A resposta demorou alguns segundos dessa vez.
— Não vou conseguir sair daqui hoje.
Paula fechou a porta da geladeira devagar.
– Tudo bem.
Isabella digitou quase imediatamente:
“Tudo bem MESMO?”
Ela mordeu o canto interno da boca antes de responder:
“Cem por cento não está.”
Uma pausa.
“Até porque o Vitor está aqui.”
Dessa vez Isabella mandou um áudio gargalhando.
— Paula, pelo amor de Deus…
A risada dela aumentou.
— Você engravidou desse homem numa casa cheia de gente. Ficar sozinha com ele agora é fichinha.
Paula fechou os olhos imediatamente.
— Isabella!
— O quê? Eu estou mentindo? Aliás… eu queria entender onde foi que vocês fizeram essa criança porque até hoje não consigo entender.
Ela levou a mão ao rosto, rindo contra a própria vontade.
— Você é insuportável e não vou ficar contando detalhes daquele dia!
— E você está nervosa porque sabe que eu estou certa.
Paula negou com a cabeça, mesmo sozinha.
— Não estou nervosa.
— Está sim.
Outra pausa dramática.
— E vou te falar uma coisa? O problema nem é o Vitor.
A voz de Isabella ficou mais divertida.
— O problema é você fingindo que não sente nada enquanto esse homem fica olhando para você como se já tivesse esquecido que vocês terminaram.
Paula soltou o ar devagar. Porque aquilo atingia onde precisava.
Ela apertou o botão para responder, andando devagar pela cozinha enquanto gravava.
— E novamente eu gostaria de te lembrar que ele foi embora.
A voz saiu mais baixa agora.
— Em mais uma dessas vezes em que ele toma decisões sem me consultar.
Enviou o áudio.
E foi só então que percebeu o movimento vindo da varanda.
Ergueu o olhar automaticamente.
Vitor estava entrando pela porta lateral da cozinha. Parou no instante em que os olhos encontraram os dela e alguma coisa no semblante dele entregou imediatamente: ele tinha ouvido. Talvez não tudo. Mas o suficiente.
Paula sentiu o corpo perder a naturalidade por um segundo. O celular ainda na mão, a mensagem recém-enviada na tela.
Vitor desviou o olhar primeiro. Claramente sem graça por ter escutado algo que não deveria.
— Desculpa… — disse, baixo — eu não sabia que você estava gravando áudio.
Ela bloqueou o celular devagar, tentando recuperar o eixo da situação.
— Tudo bem.
O silêncio ficou entre os dois por um instante. Até ele finalmente dizer o motivo de ter ido até ali:
— Eu vim avisar que vou embora.
Paula piscou, sem reação imediata.
— Embora?
Ele assentiu de leve.
— Achei melhor voltar hoje.
A frase veio calma demais. Como se já estivesse decidida. Ela demorou um segundo para organizar a própria expressão.
— Entendi…
Vitor apoiou uma das mãos na bancada por um instante antes de perguntar:
— A Isabella vai demorar muito para chegar?
Paula sentiu o impulso imediato de responder a verdade. Que Isabella não vinha. Mas não conseguiu porque aquilo transformaria a situação em outra coisa e ela não queria que ele ficasse por obrigação.
— Não… — respondeu, desviando levemente o olhar — ela não deve demorar.
Ele assentiu devagar, absorvendo a resposta, mas ainda permaneceu ali. Paula cruzou os braços de leve antes de completar:
— Você está cansado, Vitor.
Ele sustentou o olhar nela.
— Eu estou bem.
— Não está.
A resposta saiu automática. Ela respirou fundo, suavizando o tom:
— Você dirigiu hoje, mal descansou… não precisa pegar estrada agora.
Uma pausa curta.
— Ainda mais à noite.
Ele continuou olhando para ela em silêncio porque Paula não estava pedindo para ele ficar, mas também não estava conseguindo esconder completamente que não queria vê-lo ir embora daquele jeito.
— Eu provavelmente vou dormir na casa da minha madrinha e ir embora amanhã cedo.
A frase veio tranquila. Mas, por algum motivo, o peito de Paula apertou imediatamente. Talvez porque, querendo ou não, ela tivesse se acostumado com a presença dele ali depois das consultas. Com o som dele pela casa, com as conversas atravessando a cozinha, com aquela sensação estranha de que, por algumas horas, eles ainda funcionavam perto um do outro.
E ela sabia… Sabia exatamente por que ele estava indo embora. Aquilo não tinha a ver com a estrada. Nem com o horário. Tinha a ver com eles.
Vitor desviou o olhar por um instante, como se já estivesse se preparando para sair daquela conversa antes mesmo dela começar e foi exatamente isso que fez Paula respirar fundo. Porque, naquele instante, ela pensou na filha. Na vida inteira que ainda teriam que dividir e percebeu que não podia deixar aquilo continuar acontecendo.
— Posso ser sincera com você?
Ele voltou o olhar para ela imediatamente. Paula descruzou os braços devagar.
— Você me conhece e sabe que eu detesto briga. Discussão. Qualquer coisa nesse sentido.
A voz dela permanecia calma, mas firme.
— Mas eu acho que, pela nossa filha… a gente vai precisar conversar de verdade às vezes.
Vitor ficou em silêncio, atento.
— E é exatamente isso que me deixa triste.
Ela sustentou o olhar dele agora.
— Você se retira sempre que as coisas saem um pouco do seu controle.
Ele respirou fundo na mesma hora.
— Paula, eu…
— Eu estou falando, Vitor.
Ela ergueu a mão levemente, interrompendo. Não com agressividade, mas com clareza e aquilo sozinho já fez ele se calar porque Paula raramente fazia isso.
Ela deu um passo mais próximo da bancada, organizando o que queria dizer antes de continuar.
— Você faz isso o tempo inteiro.
Uma pausa curta.
— Você decide sozinho, age sozinho… e quando percebe que me magoou, que me irritou ou que as coisas ficaram difíceis, você simplesmente vai embora.
A voz começou a falhar muito discretamente no final da frase, mas ela sustentou.
— Foi assim quando terminou comigo.
O silêncio caiu entre eles. Vitor permaneceu imóvel.
— E agora, porque eu fiquei chateada com uma atitude sua, você já decidiu ir embora daqui também.
Ela negou de leve com a cabeça.
— Você percebe como isso é cansativo?
A pergunta não veio agressiva. Veio triste. Muito mais triste do que irritada.
— Nós vamos ter uma filha, Vitor.
O olhar dela suavizou um pouco.
— Ela não pode crescer vendo o pai fugir toda vez que alguma conversa fica desconfortável.
A frase ficou suspensa entre os dois.
Vitor permaneceu imóvel por alguns segundos, absorvendo cada palavra sem tentar interromper dessa vez. O olhar tinha perdido completamente qualquer defesa.
Paula respirou fundo, mais cansada emocionalmente do que irritada.
— E eu não estou dizendo isso para te machucar.
A voz suavizou.
— Estou dizendo porque… honestamente? Eu não quero viver assim com você pelos próximos anos.
Ele abaixou o olhar por um instante, passando a língua pelos lábios como quem procura a forma certa de responder.
— Eu não estou fugindo.
A resposta veio baixa. Paula soltou um pequeno suspiro.
— Você sempre acha que não está.
Aquilo atingiu. Ele apoiou as duas mãos na bancada atrás de si, mantendo a calma com esforço visível.
— Eu só achei que talvez você quisesse espaço depois do que aconteceu.
— E você perguntou isso para mim?
O silêncio respondeu primeiro. Ela assentiu devagar, como se confirmasse algo para si mesma.
— É disso que eu estou falando.
Vitor fechou os olhos por um segundo curto porque ela tinha razão. De novo.
— Eu não sei fazer isso direito, Paula.
A confissão veio sem orgulho nenhum.
— Nunca soube.
Ela observou ele em silêncio e aquilo era talvez uma das coisas mais honestas que ele tinha dito desde que reapareceu na vida dela.
— Então aprende.
A resposta veio imediata, mas não dura. Só verdadeira.
— Porque agora não é mais só sobre você.
Uma pausa.
— E nem só sobre mim.
O olhar dela desceu por um instante até a própria barriga antes de voltar para ele.
— Tem uma menina no meio disso tudo.
Vitor acompanhou o gesto automaticamente e aquilo desmontava qualquer impulso de defesa.
— Eu sei.
Disse baixo. Paula apoiou as mãos na bancada, respirando fundo antes de continuar:
— Você acha que ir embora evita conflito… evita desconforto… mas não evita.
O olhar dela encontrou o dele de novo.
— Só deixa as coisas inacabadas.
Ele sustentou o olhar dessa vez. Sem fugir. Sem desviar.
— E eu cansei de coisas inacabadas com você.
O silêncio voltou, mas agora diferente. Mais cru.
Mais verdadeiro.
Vitor soltou o ar devagar antes de perguntar:
— Então o que você quer que eu faça?
A pergunta veio limpa. Sem ironia. Sem defesa. E talvez fosse justamente isso que Paula esperava ouvir há muito tempo.
Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de responder e quando respondeu, a voz saiu mais baixa. Mais honesta.
— O que você quer verdadeiramente fazer?
Vitor franziu levemente a testa, como se não esperasse a pergunta de volta. Ela continuou antes que ele tentasse responder rápido demais:
— Não pensa no que eu quero ouvir.
Uma pausa curta.
— Me fala cruamente o que você quer fazer, Vitor.
O silêncio caiu entre eles. Ele abriu a boca para responder, mas ela ainda não tinha terminado.
— Você realmente quer fugir?
A pergunta veio sem agressividade e talvez exatamente por isso tenha doído mais.
— Mais uma vez?
O olhar dela permaneceu firme no dele.
— Porque toda vez que você decidir se retirar de uma situação… eu quero que você se imagine indo embora.
A voz falhou muito discretamente dessa vez, mas ela continuou.
— Se imagine partindo e me deixando para trás.
Vitor sentiu o peito apertar na mesma hora. Paula respirou fundo antes de concluir:
— Imagina a dor que isso causa em mim.
Agora os olhos dela já não sustentavam a mesma firmeza de antes. Havia cansaço ali. Verdade. Uma vulnerabilidade que ela claramente não gostava de mostrar.
— Então, de verdade…
Ela engoliu seco.
— Me diz o que você quer.
O silêncio veio pesado. Vitor permaneceu parado diante dela, sem resposta imediata. E, pela primeira vez desde que tinha chegado naquela chácara, parecia que ele não conseguia escapar nem se esconder atrás da própria racionalidade.
Porque ela não estava falando da estrada. Nem da consulta. Nem daquela noite. Ela estava falando da vida inteira deles.
Ele abaixou o olhar por um instante, respirando fundo, como se precisasse admitir algo primeiro para si mesmo antes de conseguir dizer em voz alta e quando voltou a olhar para ela, havia alguma coisa quebrada na expressão.
— Eu não quero ir embora.
A frase saiu baixa, mas inteira. Paula permaneceu imóvel.
Ele deu um pequeno passo na direção dela.
— Eu só… achei que talvez fosse o melhor para você.
Ela fechou os olhos rapidamente, cansada daquela resposta e ele percebeu na mesma hora.
— Está vendo? — ela disse, quase num sussurro triste — você continua fazendo isso.
Vitor passou a mão pela nuca, finalmente sem saber como se defender.
— Porque eu tenho medo de piorar as coisas.
A honestidade veio crua agora.
— E às vezes parece que tudo que eu faço com você… desorganiza tudo. Eu nunca consigo acertar.
Paula negou levemente com a cabeça.
— Você não desorganiza tudo.
O olhar dela encontrou o dele outra vez.
— Você só vai embora antes de tentar consertar…
A voz suavizou um pouco.
— E sabe quando você acerta?
Vitor permaneceu em silêncio, olhando para ela com atenção total agora.
— Quando você é honesto. Não comigo… com você.
Aquilo o fez prender a respiração por um instante. Paula continuou:
— Então, se você não quer ir embora, mas mesmo assim vai… você está sendo desonesto com você. E automaticamente comigo também.
O silêncio caiu entre os dois outra vez, mas agora não havia defesa possível porque ela estava enxergando exatamente o que ele fazia. Exatamente o que ele sempre fez.
Ela respirou fundo antes de perguntar, mais calma:
— Então me diz… o que você pretende fazer?
Uma pausa curta.
— Porque ir embora nunca melhora as coisas para mim.
Vitor abaixou o olhar por um instante, absorvendo aquilo de um jeito quase físico. A mão passou lentamente pela barba curta, num gesto automático de quem precisava de tempo para organizar a própria cabeça.
Mas, dessa vez, ele não saiu. Não desviou do assunto. Não recuou. Não se justificou.
Quando voltou a olhar para ela, havia menos orgulho ali. Menos defesa.
— Eu quero ficar.
A frase saiu baixa. Simples. Mas completamente diferente de tudo que ele vinha fazendo.
Paula não respondeu imediatamente, porque ouvir aquilo dele… daquele jeito… mexia mais do que deveria.
Vitor sustentou o olhar dela e continuou:
— Não porque você está grávida. Não porque eu ache que preciso compensar alguma coisa.
Respirou fundo.
— Eu quero ficar porque eu estou cansado de ir embora de você.
A garganta dele travou por um instante, mas dessa vez ele não recuou.
— Porque eu amo você.
A frase veio crua. Sem preparação. Paula sentiu o peito apertar imediatamente.
Ele passou a mão novamente pela barba, tentando organizar o resto.
— E porque quando eu estou com você… eu consigo acreditar numa parte boa de mim mesmo.
O olhar dele não saía dela agora.
— Você sempre fez isso comigo.
Uma pausa curta.
— Só que eu também passo boa parte do tempo lutando com a sensação de que estou atrapalhando a sua vida.
A honestidade na voz dele era quase desconfortável.
— Que tudo fica mais difícil quando eu apareço.
Ele soltou um pequeno riso sem humor.
— E talvez por isso eu ache, às vezes, que ir embora é uma forma de proteger você de mim.
Paula permaneceu imóvel diante dele.
Pela primeira vez ele não estava tentando parecer certo. Nem forte. Nem no controle.
Só… verdadeiro.
Vitor respirou fundo antes de continuar:
— E eu também entendo que não é simples assim para você.
A voz saiu mais baixa agora.
— Eu machuquei você muito.
Ele desviou o olhar por um instante, como se admitir aquilo ainda custasse.
— Então eu não posso simplesmente aparecer aqui e esperar que você me deixe voltar para a sua vida como se nada tivesse acontecido.
Uma pausa curta.
— Principalmente porque eu ainda continuo repetindo os mesmos erros.
O silêncio entre os dois parecia cada vez mais íntimo. Mais exposto.
— Eu entenderia se você tivesse perdido o amor por mim.
A frase saiu com dificuldade.
— Ou a admiração…
— Vitor.
Paula o interrompeu imediatamente. O tom não veio duro. Veio quase cansado daquela ideia.
Ele levantou o olhar para ela outra vez e encontrou nela alguma coisa muito diferente do que esperava encontrar.
— Não faz isso.
A voz dela suavizou.
— Não tenta decidir por mim o que eu sinto também.
Aquilo o desmontou num nível silencioso. Ela deu um pequeno passo na direção dele.
— Você acha mesmo que uma mulher continua aqui… vivendo tudo isso… carregando uma filha de um homem… se não sentir mais nada?
A pergunta saiu baixa. Honesta.
Vitor não respondeu. Nem conseguiria.
Paula respirou fundo antes de continuar:
— O problema nunca foi amar você.
Os olhos dela sustentavam os dele agora sem fuga.
— O problema sempre foi a dor.
A voz começou a perder um pouco da firmeza conforme ela falava. Não por fraqueza. Mas porque estava cansada de esconder aquilo.
— Porque amar você… sempre foi fácil.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Aquilo atravessou ele imediatamente. Ela soltou um pequeno riso triste, negando de leve com a cabeça.
— Sempre foi muito fácil.
O olhar dela desceu por um instante, como se revisitasse memórias sem querer.
— Você sempre me ouviu. Mesmo quando eu falava demais ou não falava nada… mesmo quando eu mesma não conseguia entender o que estava sentindo.
Uma pausa curta.
— Você nunca me tratou com desrespeito. Nunca me diminuiu. Nunca tentou me moldar em alguém que eu não era.
Vitor permaneceu completamente imóvel porque ouvir aquilo dela parecia mais difícil do que ouvir acusações.
— Você sempre teve paciência comigo.
Ela voltou a olhar para ele.
— Com os meus medos. Com os meus silêncios. Com o meu jeito.
A garganta dela apertou antes da próxima frase.
— Você me fazia sentir segura.
O silêncio da cozinha parecia respirar junto com eles agora.
— Então nunca foi difícil amar você pelo homem que você é no dia a dia… pelo pai que você é… pela forma como cuida das pessoas que ama…
Ela sorriu sem força.
— Acho que esse sempre foi o problema.
Vitor franziu levemente a testa, sem entender.
— Porque quanto melhor você era comigo… mais doía quando ia embora.
A frase saiu inteira. Sem proteção.
E aquilo finalmente explicava tudo.
— Não era o amor que me destruía.
Os olhos dela já brilhavam agora.
— Era sempre a sensação de que, em algum momento, você ia decidir sozinho que precisava partir… e eu teria que sobreviver a isso de novo.
Vitor baixou o olhar imediatamente, como se aquela verdade tivesse peso demais para ser sustentada diretamente.
E Paula respirou fundo antes de concluir, mais baixa:
— Então não… eu não perdi o amor. Nem a admiração.
Uma pausa.
— Eu só fiquei cansada de sentir medo de ser deixada por quem eu mais queria que ficasse.
Vitor permaneceu em silêncio porque qualquer coisa parecia pequena diante da honestidade dela.
O som da cozinha, o vento leve entrando pela varanda, o relógio distante da sala, parecia absurdamente alto agora.
Paula limpou discretamente uma lágrima que tinha escapado sem que ela percebesse. E aquilo mexeu ainda mais com ele, porque ela claramente detestava se mostrar vulnerável daquele jeito.
Vitor deu um passo na direção dela. Dessa vez sem hesitação. Sem impulso.
— Eu nunca quis que você vivesse com medo de mim.
A voz saiu rouca. Paula soltou um pequeno riso triste.
— Mas vivi… com medo de você ir embora.
Aquilo atravessou ele inteiro. Ele aproximou mais um passo, devagar, como se ainda respeitasse cada limite invisível entre os dois.
— Eu sei.
O olhar dele permaneceu nela.
— Eu não estou tentando te punir com isso.
Disse mais baixo.
— Eu só preciso que você entenda.
— Eu estou entendendo...
Ela voltou a olhar para ele e havia tanta verdade naquilo que Paula sentiu a própria resistência vacilar um pouco.
Vitor respirou fundo antes de continuar:
— Eu acho que passei tanto tempo tentando evitar conflito… evitar errar… que nunca percebi que ir embora também era uma escolha.
Uma pausa.
— E talvez a pior delas.
O silêncio caiu outra vez, mas agora não havia tensão. Só dois adultos finalmente dizendo coisas que estavam guardadas há tempo demais.
Paula apoiou as mãos na bancada atrás de si, como quem precisava daquele apoio físico para sustentar a intensidade do momento.
— Eu não preciso que você seja perfeito.
Disse com calma.
— Nem que acerte sempre.
Os olhos dela encontraram os dele novamente.
— Eu só preciso que você fique quando as coisas ficarem difíceis.
Aquilo fez alguma coisa dentro dele ceder de vez porque, no fundo, era simples.
Vitor assentiu devagar e então perguntou, quase com cuidado:
— E como faço agora?
A pergunta saiu baixa. Honesta. Paula respirou fundo antes de responder.
— Agora… você fica.
O peito dele subiu lentamente numa respiração mais pesada. Ela continuou antes que ele interpretasse além do que ela queria dizer:
— Isso não significa que está tudo resolvido.
Uma pausa curta.
— Porque não está.
A sinceridade dela permaneceu firme.
— Eu ainda preciso de tempo. Ainda tem muita coisa em mim tentando entender tudo isso…
O olhar sustentou o dele.
— Mas eu quero resolver, Vitor.
A voz suavizou.
— E eu quero que isso dê certo.
Aquilo o atingiu de um jeito quase cruel de tão bonito. Porque talvez fosse a primeira vez, desde que tudo tinha desmoronado entre eles, que Paula admitia claramente que ainda existia um “eles” possível.
Ela respirou fundo e desviou o olhar por um instante, quase como quem se lembrava de algo.
— E… antes que você descubra sozinho depois…
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— A Isabella não vem.
Vitor ficou olhando para ela por um segundo e então começou a rir.
Paula fechou os olhos imediatamente.
— Não começa.
— Então você mentiu para mim agora há pouco?
Ela apontou o dedo na direção dele na mesma hora.
— Eu omiti uma informação.
O sorriso dele aumentou inevitavelmente.
— Claro.
Paula tentou manter a postura séria por mais alguns segundos, mas acabou rindo também.
— Eu não queria que você ficasse por obrigação, mas também que não fosse embora porque você está cansado e não é nenhum menininho mais para dirigir a essa hora sozinho.
O riso dele diminuiu aos poucos e o olhar mudou de novo. Mais profundo. Mais calmo.
— Eu fiquei porque você me pediu para parar de ir embora…
A frase veio simples e dessa vez ele ficou.
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