Antigo novo amor

40 Capítulo 40 - Liso ou Cacheado?



Vitor segurou o celular por alguns segundos antes de abrir. O polegar pairava sobre a tela enquanto o olhar alternava entre aquele pequeno resultado e o rosto dela, como se aquele gesto simples carregasse mais do que ele estava pronto para sustentar. Paula não apressou. Não disse nada. Só ficou ali, observando, sentindo o próprio coração acelerar enquanto respeitava o tempo dele.


— Pronta? — ele perguntou baixo, quase como quem pede permissão.


Paula respirou fundo, deixando um pequeno sorriso nervoso escapar.


— Não… mas abre mesmo assim.


Ele soltou um sopro leve, quase um riso contido, e então abriu.


Os olhos dele percorreram a tela devagar. Não era leitura apressada, era confirmação, era entendimento. O tempo pareceu desacelerar naquele instante. O rosto dele não mudou de imediato, e foi isso que fez o peito de Paula apertar. Ela tentou encontrar a resposta nele, mas não conseguiu.


— Vitor… — chamou, num sussurro.


Ele não respondeu na hora. Continuava olhando. Parado. Como se tivesse esquecido de respirar.


E então veio.

Não na palavra.

Mas antes dela.

O olhar dele mudou.

Sutil, mas profundo.


Paula percebeu. Porque conhecia. Porque sempre soube reconhecer quando ele sentia mais do que conseguia dizer.


— O que foi…? — perguntou, agora mais frágil.


Ele piscou algumas vezes e levantou o olhar para ela. Os olhos estavam cheios.


A voz demorou a sair.


Quando saiu, veio falha, mas inteira:


— É uma menina…


O mundo pareceu parar dentro dela.


Paula olhou para a tela, mas já não precisava confirmar. Ainda assim, leu. Como se precisasse tocar aquilo com os próprios olhos.


E então as mãos subiram até a barriga, instintivamente, como se quisesse segurar aquela vida ali dentro.


— É uma menina mesmo? — perguntou, com a voz quebrada.


Vitor sorriu. Um sorriso atravessado, molhado.


— É… — respondeu baixo — é a nossa menina.


Aquilo desfez tudo. As lágrimas vieram de vez. Sem controle. Sem tentativa de segurar. O corpo dela cedeu um pouco, como se tudo que estava acumulado finalmente encontrasse saída, o medo, a dúvida, a confusão… mas também o sonho.


Ele não pensou. Só foi. A puxou para um abraço firme, cuidadoso, envolvendo ela como se quisesse sustentar aquele momento inteiro. A mão dele subiu devagar pelas costas dela, acariciando, enquanto ele encostava o rosto nos cabelos dela e deixava um beijo silencioso no topo da sua cabeça.


— Calma… — sussurrou, mesmo com a voz embargada.


Mas ele também chorava e não tentou esconder.


Paula não se afastou. Não tentou se recompor. Apenas ficou ali, sentindo. Vivendo.


E então, ainda próxima dele, ela deslizou a mão até a dele. Entrelaçou os dedos por um instante, como se precisasse ter certeza de que ele estava ali, de verdade. O gesto foi calmo, mas carregado de intenção.


Vitor sentiu.


O olhar desceu para as mãos unidas, depois subiu para o rosto dela. Havia algo ali. Um pedido que não precisava de palavras.


E ela não explicou. Só conduziu. Levou a mão dele até a própria barriga.


Quando chegou, ela ainda segurou por um segundo. Como se marcasse aquele lugar. Como se dissesse, sem dizer: é aqui. E então soltou… Devagar…


A mão dele permaneceu ali, parada por um instante. Como se ele ainda estivesse entendendo o que aquilo significava. O toque veio com cuidado, quase hesitante no início, até que a palma se acomodou de verdade.


E tudo mudou. O ar dele falhou. O peito apertou de um jeito mais fundo. Mais real. Não era mais ideia. Não era mais notícia. Era presença. Ele estava ali. Desde agora. Sentindo. Participando.


As lágrimas voltaram, silenciosas, escorrendo sem que ele tentasse conter. Paula observava, deixando que ele vivesse aquilo no próprio tempo.

Não havia distância entre eles. Só existia o instante. O toque. E a certeza silenciosa de que aquela menina… já tinha os dois.


O silêncio durou mais alguns segundos, até que Paula, ainda com os olhos marejados, soltou um pequeno riso entre as lágrimas, como quem precisava respirar de outro jeito.


— Pelo menos… — disse, limpando o rosto de leve — não vamos ter um filho chamado Trovão.


Vitor soltou um riso baixo, ainda emocionado, balançando a cabeça.


— Olha… perigoso eles quererem uma Ana Raio…


Paula riu de verdade dessa vez, mais solta, o peso quebrando aos poucos.


— Não… esse nome já deu o que tinha que dar na minha vida.


Vitor ainda estava próximo, a mão repousada na barriga dela por alguns segundos a mais do que o necessário, como se ainda não quisesse sair dali. Quando percebeu, retirou devagar, quase com cuidado, como se aquele gesto também precisasse de tempo.


Paula acompanhou. Não disse nada. Mas sentiu.

Não houve aquele desconforto imediato. Só… consciência.


Ele passou a mão pelo rosto, soltando um pequeno suspiro, ainda meio sem acreditar.


— Eu nunca imaginei…


A frase começou baixa, quase pra ele mesmo. Ele levantou o olhar pra ela.


— Viver isso assim também...


Não havia reclamação. Só constatação.


Paula inclinou levemente a cabeça, observando ele com mais calma agora.


— Bom… Já vimos que nem eu.


Respondeu, simples. Uma pausa.


— Mas… a gente está vivendo.


O olhar encontrou o dele.


— É isso que importa no final, não é?


Ele assentiu de leve, absorvendo.


— É… é exatamente isso.


Vitor olhou de novo para a barriga dela, como se ainda estivesse tentando conectar aquela ideia com a realidade.


— Você já pensou em nome?


Perguntou, agora com um tom mais leve. Paula soltou um riso curto.


— Você acha que eu já consegui chegar nessa parte?


Ele sorriu.


— Justo.


Ela cruzou os braços de leve, ainda sorrindo.


— Mas… não sei.


Pensou por um instante.


— Sempre gostei de nomes mais simples… mas, de verdade, não venha com “Ana Raio”.


Provocou. Vitor riu.


— Já tinha até pensado no quanto ficaria legal meu trio: Maria, João e Ana!


Riram e então ele fez uma pausa, como se pensasse também.


— Mas… eu gosto de nome que tenha força… Que combine com ela.


Paula arqueou uma sobrancelha.


— Com ela?

— Uhum.


Ele olhou pra ela de novo, agora mais presente.


— Porque ela já vai nascer no meio de uma história complicada…


Um pequeno sorriso apareceu.


— Tem que ser forte.


Paula segurou o olhar dele por um segundo a mais.


E, pela primeira vez, não houve defesa ali.


— Ou muito amada… porque não deixa de ser bonita.


Ela completou, mais baixo.


O silêncio voltou. Mas agora… mais quente.

Mais conectado. Vitor assentiu.


— Isso ela já é… muito amada. E você tem razão… apesar de ser uma história complicada, isso nunca chegará até nossa filha. Ela é e vai ficar só com a parte mais bonita disso tudo!


Paula desviou o olhar por um instante, sentindo aquilo atingir mais do que gostaria de demonstrar. Respirou fundo, se recompondo aos poucos.


— A gente devia ir…


Disse, mais prática agora, voltando um pouco para a realidade.


— Antes que todo mundo comece a estranhar.


Vitor assentiu. Mas não se moveu imediatamente.

Ficou mais um segundo ali. O suficiente para marcar. E então:


— Obrigado…


Disse, olhando pra ela.


— Por isso.


Não precisava explicar. Ela entendeu. Paula apenas assentiu, com um pequeno sorriso.


— Eu também precisava.


E, sem dizer mais nada, os dois se prepararam para sair.


Mas não eram mais os mesmos que entraram naquele quarto. Porque agora eles não carregavam só a confusão. Carregavam também uma filha. E um começo que, mesmo imperfeito, já era deles.


Paula deu um passo em direção à porta, mas Vitor se antecipou. Caminhou até ela, girou a maçaneta e abriu, ficando de lado para dar espaço.


— Vamos…


Ela passou primeiro. Ele veio logo atrás, fechando a porta com cuidado.


O corredor estava silencioso, mas agora não havia tensão ali. Eles seguiram lado a lado por alguns passos, sem pressa, como quem ainda carregava o que tinha acabado de acontecer, mas já conseguia respirar fora daquele quarto.


Quando chegaram à varanda, Paula diminuiu o ritmo.


— Eu vou pra varanda…


Disse, olhando pra frente. Vitor assentiu.


— Vou ver se as crianças já terminaram e levo elas.


Ela confirmou com um leve movimento de cabeça. Não precisavam falar mais.


Ele seguiu pelo caminho do chalé, enquanto ela tomou a direção da casa principal.


Vitor chegou ao chalé e encontrou as crianças terminando de se arrumar, cada um no seu ritmo.


— Já terminaram?

— Já! — Maria respondeu primeiro, animada.


João apareceu logo atrás, ainda ajustando a camiseta.


— A gente já pode ir?

— Podemos!


Marisa observava de longe, percebendo o movimento, mas sem interferir.


— Então vamos, né? — ela disse, chamando os dois.


Eles saíram juntos, com Maria puxando o ritmo e João tentando acompanhar sem demonstrar tanta pressa.


Na área gourmet, Paula já estava com Dulce, ajudando a organizar algumas coisas sobre a mesa. Conversavam de forma leve, como se aquele momento pedisse normalidade, ainda que por dentro tudo estivesse diferente.


Pouco depois, o som de um carro se aproximando chamou atenção.


— Deve ser a Isa — Dulce comentou.


Paula olhou na direção da entrada e sorriu de leve. Maria foi a primeira a correr.


— Chegou!


João veio logo atrás. Isabella mal tinha descido do carro quando os dois já estavam em volta dela.


— Você sabe?! — Maria perguntou direto.

— É menino ou menina?! — João completou, tentando espiar a caixa que ela segurava.


Isabella segurou a caixa com mais firmeza e riu.


— Ei, calma! Vocês acham que eu vou contar assim?

— Conta! — Maria insistiu.

— Não!


Ela se inclinou um pouco na direção deles, entrando na brincadeira.


— Eu sei de uma coisa…


Os dois pararam na hora.


— O quê?!


Isabella fez suspense.


— Que vocês vão ter que esperar.


Maria fez uma careta dramática.


— Ah não!


João cruzou os braços.


— Isso é injusto.

— Injusto nada — Isabella respondeu, já caminhando com eles em direção à casa — vocês vão descobrir do jeito certo.


Vitor e Marisa chegaram logo depois, encontrando a cena já formada na entrada. Ele observou por um instante, um meio sorriso aparecendo ao ver a ansiedade dos dois.


Paula se aproximou também, ficando ao lado de Dulce.


— E aí? — Isabella perguntou, olhando para ela com um sorriso que dizia que sabia mais do que podia contar.


Paula apenas sorriu de volta.


— Trouxe o bolo?

— Claro!


Isabella levantou levemente a caixa.


— Mas ninguém mexe antes da hora.

— Nem um pouquinho? — Maria tentou.

— Nem um pouquinho.


As crianças ainda orbitavam a caixa, tentando negociar qualquer pista, enquanto os adultos conversavam, puxando assuntos leves, comentando sobre o dia, sobre a viagem, sobre coisas simples.


Paula tinha pensado em tudo com cuidado. Nada grandioso, nada que chamasse mais atenção do que precisava. Era um jantar simples, daqueles que acolhem. Mesa posta na área gourmet, comida caseira, luzes suaves… o suficiente para reunir todo mundo sem transformar aquilo em um evento.


Nilmar chegou com Isabelle pouco depois, trazendo ainda mais leveza para o ambiente. Cumprimentou a irmã com carinho, olhando para ela com atenção, como quem tentava entender o que havia mudado e havia.


— Tá tudo pronto? — ele perguntou, baixo.

— Tá… — Paula respondeu com um sorriso tranquilo.


Dulce terminou de organizar os últimos detalhes, e logo todos estavam sentados.


Ou quase… Porque as crianças não conseguiam parar.


Maria olhava o tempo inteiro para a caixa onde estava o bolo, como se aquilo fosse mais importante que qualquer outra coisa ali.


João até tentou se sentar, mas mexia no garfo sem realmente comer.


— Vocês não vão jantar? — Dulce perguntou, divertida.

— Depois — Maria respondeu rápido.

— Depois quando? — Marisa provocou.

— Depois que a gente descobrir — João completou.


Isabella riu.


— Vocês estão achando que isso aqui é rápido assim?

— Tinha que ser! — Maria rebateu.


Vitor observava os dois, com um sorriso discreto, encostado na cadeira.


— Se vocês não comerem, vão desmaiar antes de cortarem esse bolo.

— Eu não vou — Maria respondeu, confiante.

— Eu também não — João completou, mesmo já claramente inquieto.


Paula assistia à cena em silêncio, mais leve agora, deixando aquele momento acontecer. Em alguns instantes, o olhar dela cruzava com o de Vitor, rápido, mas carregado de algo que ainda estava ali, só deles.


A conversa começou a fluir naturalmente entre os adultos. Assuntos simples, risadas pontuais… até que, inevitavelmente, alguém puxou o tema que estava rondando todos.


— E os nomes? — Isabella perguntou, curiosa — já começaram a pensar?


Paula soltou um riso leve.


— Ainda não…

— Já sim — Vitor respondeu, sem perder o tempo.


Paula virou o rosto para ele na mesma hora.


— Já?


Ele assentiu, segurando o sorriso.


— Já!


Maria se inclinou sobre a mesa.


— Qual?!


Vitor apoiou o braço na mesa, olhando para as crianças com ar sério demais para quem estava claramente provocando.


— Paula já sugeriu um, caso seja menina… Um nome muito importante para ela, porque ela já se chamou assim.


João já começou a rir antes mesmo de saber.


— Qual?


Vitor não segurou mais.


— Ana Raio!


Um segundo de silêncio. E então…


— O QUÊ?! — Maria arregalou os olhos, completamente indignada.


João caiu na risada.


Paula fechou os olhos por um instante e depois olhou diretamente para ele.


— Você vai me pagar por isso!


O tom veio calmo. Mas muito claro.


Vitor riu.


— Eu só tô sendo honesto, um nome importante assim…

— Honesto não — ela rebateu — você está sendo engraçadinho!


Maria ainda estava chocada.


— Paula… não pode!


João continuava rindo.


— Eu gostei!

— Claro que você gostou — Maria respondeu, cruzando os braços. Você adora coisas sem pé e cabeça.


A mesa inteira riu. O clima ficou mais leve ainda, mais solto, com aquela mistura de expectativa e brincadeira que só aumentava a ansiedade.


Paula apoiou o braço na mesa, ainda olhando para Vitor com um meio sorriso.


— Eu não acredito que você fez isso.

— Eles precisavam saber… — ele respondeu, simples.


Ela balançou a cabeça, rindo baixo e então olhou ao redor. Para todos. Para aquele momento. Para o que estava prestes a acontecer.


Respirou fundo e decidiu…


— Tá bom… chega de suspense! Vamos cortar esse bolo?


Disse, levantando levemente o corpo da cadeira. Olhou para Isabella.


— Vamos deixar eles descobrirem logo antes que alguém invente um nome pior…


Maria já levantou na mesma hora.


— Finalmente!


João empurrou a cadeira.


— Bora!


E, dessa vez ninguém segurou. Porque o momento tinha chegado.


As cadeiras foram ficando para trás quase ao mesmo tempo, arrastadas com pressa pelas crianças. Maria já puxava João pela mão, enquanto ele tentava fingir calma, mas não escondia a ansiedade.


— Vem logo!


— Eu tô indo!


Isabella se levantou também, levando a caixa com cuidado até a mesa central. Dulce e Marisa se aproximaram, sorrindo, enquanto Nilmar e Isabelle vinham logo atrás, curiosos.


Paula caminhou até a mesa e parou diante do bolo por um instante. Não abriu a caixa de imediato. Respirou, como se marcasse aquele momento.


Vitor se aproximou também.


E ficou ao lado dela.


Próximo.


Natural.


Sem precisar pensar.


Paula levantou o olhar por um segundo e encontrou o dele. Não disseram nada, mas havia ali um entendimento silencioso. Um “agora” compartilhado.


Ela então abriu a caixa.


Devagar.


O bolo apareceu, simples, bonito, guardando o que todos queriam saber.


As crianças se aproximaram ainda mais.


— Posso? — Maria perguntou, já esticando o corpo.


— Calma… — Paula disse, sorrindo.


Ela pegou a faca e olhou para os dois.


— Vocês dois juntos.


Maria abriu um sorriso enorme.


João se posicionou ao lado, mais sério, mas com os olhos brilhando.


Paula entregou a faca nas mãos deles, ajustando com cuidado para que segurassem juntos.


— Devagar… — orientou, mais baixa.


As mãos pequenas seguravam com firmeza, mas com aquela mistura de nervosismo e empolgação.


Vitor deu um pequeno passo mais perto.


Sem invadir.


Mas presente.


— No três? — Maria perguntou.


— No três — Paula confirmou.


Todos ao redor silenciaram, naturalmente.


— Um…


João respirou fundo.


— Dois…


Paula sentiu o coração acelerar de novo.


— Três.


A faca atravessou o bolo com cuidado, as mãos dos dois guiando o movimento juntas. Por um segundo, ninguém falou nada, todos atentos, esperando que o recheio finalmente aparecesse.


E então veio…


Rosa!


Maria foi a primeira a entender.


— É MENINA!!!


O grito saiu alto, cheio, e ela não esperou mais nada. Soltou a faca, virou-se e correu direto para Paula, envolvendo ela num abraço apertado, pulando junto, rindo, quase sem conseguir conter a alegria.


— Eu sabia! Eu sabia!


Paula riu, ainda emocionada, recebendo aquele abraço com as mãos indo instintivamente até a menina.


— Calma… — disse, mas sem realmente querer que ela se acalmasse.


Maria se afastou só o suficiente para olhar de novo, como se precisasse confirmar mais uma vez… e então virou para Vitor.


— Pai! É menina!


E correu para ele também, se jogando nos braços dele com a mesma intensidade.


Vitor a segurou, rindo, ainda com os olhos carregados de emoção.


— Eu vi…

— Eu sabia!

— Eu sei que sabia — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela.


João olhou para o bolo, depois para todos, e soltou, meio em choque:


— Mais uma menina?


Fez uma pausa dramática.


— Meu Deus… eu tô ferrado.


A mesa inteira riu. Maria virou na hora.


— Ei!

— Tô brincando! — ele levantou as mãos, rindo também — mais ou menos.


Paula olhou para ele com um sorriso divertido.


— Você vai amar.

— Eu sei… — ele respondeu, já se aproximando mais, ainda meio sem jeito, mas claramente envolvido.


Marisa levou a mão ao peito, visivelmente emocionada, e foi até Vitor. Parou na frente dele por um segundo, olhando como se enxergasse muito mais do que aquele momento… E então o abraçou. Forte.


— Mais uma menina… — disse baixo, emocionada.


Vitor fechou os olhos por um instante, recebendo aquele abraço sem dizer nada.


Dulce, por outro lado, levou alguns segundos para reagir.


Olhou para o bolo.


Depois para Paula.


E então…


— É menina?!


A incredulidade virou alegria em questão de segundos.


— Meu Deus!


Ela praticamente correu até Paula, abraçando-a com força, emocionada de um jeito que nem tentou disfarçar.


— Uma neta!


Paula riu, sendo envolvida naquele abraço cheio, sentindo a emoção dela atravessar também.


— Eu não acredito…

— Eu acredito — Dulce respondeu, ainda abraçando — e já amo essa menina.


Ao redor, todos falavam ao mesmo tempo, riam, comentavam, se abraçavam.


Mas, no meio de tudo aquilo Paula e Vitor se encontraram de novo.


Por um segundo.


Sem dizer nada.


E, dessa vez não era mais só um momento entre eles. Era real. Era família. Era uma filha. E ela já estava sendo recebida com amor.


O clima na casa mudou completamente depois da descoberta. A energia ficou mais leve, mais viva, como se tudo tivesse encontrado um novo lugar ali dentro.


Maria não parava um segundo.


— Ela vai usar laço, né? — perguntou, já empolgada, olhando pra Paula — eu tenho vários… posso emprestar!


Sem esperar resposta, já continuou:


— E o cabelo? Vai ser cacheado ou liso? Porque se for cacheado eu sei arrumar…


Paula ria, acompanhando o ritmo dela.


— Estou curiosa para saber isso também, mas falta um pouco para descobrimos…

— Mas já tem que pensar!


Ela se virou para Vitor.


— Pai, você prefere cabelo cacheado ou liso?

— Eu acho que ela vai ser do jeito que quiser — ele respondeu, divertido.

— Mas eu vou cuidar dela — Maria completou, decidida — você vai deixar, né?


Paula sorriu.


— A gente vai organizando tudo isso com o tempo!


João, por outro lado, estava em outra preocupação.


— A gente vai poder trazer ela aqui?

— Aqui onde? — Vitor perguntou.

— Pra ver as capivaras.


A naturalidade dele arrancou risos.


— Acho que vai demorar um pouquinho pra isso — Paula respondeu.


— Mas depois pode, né?


— Depois pode.


— Então tá bom.


Simples assim.


Enquanto isso, os adultos conversavam, ainda envolvidos pela emoção, mas agora com mais leveza, mais troca, mais presença.


Na manhã seguinte, o movimento começou mais cedo.


Vitor já precisava voltar para Campinas, e as crianças acordaram agitadas, como sempre, mas agora com um assunto novo ocupando tudo.


— Quando a gente vem de novo? — Maria perguntou enquanto tomava café.


— Na próxima consulta! — João respondeu antes mesmo de alguém falar.


— A gente pode vir antes também — Maria completou, já planejando.


— Vamos organizar isso… E não sei se vocês virão na próxima consulta da Paula! Acho que ela precisa de um pouco de sossego. — Vitor respondeu, sorrindo de leve.


As despedidas aconteceram na varanda, com aquele clima misto de alegria e um pequeno vazio que sempre fica.


Maria abraçou Paula com força.


— Cuida bem dela, tá?


Paula riu, emocionada.


— Pode deixar.


João veio logo depois, mais contido, mas ainda assim abraçando.


— Quando ela nascer, eu vou ensinar ela a não ter medo das capivaras.


— Isso vai ser ótimo! — Paula respondeu, sorrindo.


Marisa se despediu com carinho, trocando um olhar mais demorado com Paula, como quem reconhecia tudo que ainda seria vivido dali pra frente.


E então foi a vez de Vitor. Eles ficaram frente a frente por um segundo. Sem pressa. Sem necessidade de fingir que era só mais uma despedida qualquer.


— Eu volto pra próxima consulta — ele disse, direto.


Paula assentiu.


— Tá bem.


Houve uma pequena pausa.


— E… — ele continuou — a gente precisa ver também como vai falar disso.


Ela entendeu na hora.


— Pra mídia.


Ele confirmou com um leve movimento de cabeça.


— É.


Paula respirou fundo.


— A gente resolve com calma depois... Até agora ninguém descobriu.


Não era um problema para agora. Mas já era parte da realidade deles.


Vitor assentiu e, por um instante, pareceu que diria mais alguma coisa. Mas não disse. Apenas sustentou o olhar dela por um segundo a mais.


— Se cuida.


— Você também.


Trocaram um breve abraço e então ele se afastou e entrou no carro.


As crianças ainda acenavam, falando ao mesmo tempo, enquanto o carro começava a se afastar.


Paula ficou ali na varanda, observando.


A mão indo até a barriga quase sem perceber. E, dessa vez não havia dúvida. Nem susto. Só a sensação de que, mesmo com tudo ainda indefinido a vida dela já tinha mudado completamente.


Duas semanas se passaram e, aos poucos, as coisas começaram a se encaixar de um jeito mais natural. Não porque tudo estivesse resolvido — não estava — mas porque agora havia forma. Saber que era uma menina tinha mudado algo dentro de Paula. Antes era uma ideia distante, quase abstrata. Agora não. Agora era alguém. E isso, de alguma forma, trouxe mais calma.


Ela já não se pegava tão perdida nos pensamentos. Havia rotina, havia consultas marcadas, havia pequenas decisões surgindo… e, principalmente, havia uma presença constante que ela já reconhecia ali.


Vitor também estava presente. De um jeito diferente. Sem invadir. Mas constante.


As mensagens vinham quase todos os dias, geralmente na madrugada. Áudios curtos, às vezes longos, enviados entre uma pausa e outra no estúdio. Ele estava trabalhando em um projeto solo, e Paula sempre conseguia ouvir o som ao fundo — instrumentos, trechos de melodia, vozes ao longe.


E aquilo mexia com ela. Porque era familiar. Porque, por alguns instantes, parecia que o tempo voltava.


Ela fechava os olhos e lembrava de anos atrás, quando ele colocava fitas para rodar enquanto conversava com ela, como se quisesse dividir cada parte do processo.


E agora, de alguma forma, ele ainda fazia isso. Só que de outro jeito.


Em uma dessas madrugadas, enquanto ouvia um dos áudios, algo chamou a atenção dela. Uma melodia específica, suave, mas marcante, passando ao fundo.


Ela não pensou muito. Gravou um áudio de volta.


— Essa melodia aí atrás… é nova?


A resposta veio poucos minutos depois.

Ele riu logo no começo do áudio.


— Eu sabia que você ia perceber.


Havia leveza na voz dele.


— Seu ouvido é realmente treinado…


Ele fez uma pequena pausa, como se estivesse reorganizando o pensamento.


— É uma coisa que eu tô começando ainda… bem no começo mesmo.


Outra pausa.


— Se você quiser, eu te mando melhor.


Paula sorriu sozinha antes mesmo de responder.


— Quero.


Simples assim. Sem rodeio. E ele enviou.


Um trecho mais limpo, mais claro, quase íntimo. Ela ouviu mais de uma vez. E, de novo, aquela sensação de familiaridade voltou. Não era só a música. Era o gesto.


Era ele ainda dividindo aquilo com ela.


Alguns dias depois, já em outra madrugada, uma mensagem dele chegou diferente. Direta.


— Você já pensou em nome?


Paula leu e ficou alguns segundos olhando para a tela antes de responder.


— Comecei a ver algumas coisas…


Digitou, e depois apagou. Preferiu o áudio.


— Mas é uma responsabilidade grande demais decidir o nome de alguém.


Houve um pequeno riso no final.


— Você já pensou em algum?


A resposta veio rápida. Como se ele já tivesse pensado nisso antes.


— Já…


A voz dele estava mais calma naquele áudio. Mais próxima.


— Eu gosto de Flora…


Uma pequena pausa.


— Gosto do som… do significado também. Combina com a gente… com o que a gente gosta.


Outra pausa.


— Natureza… flores…


Ele respirou leve.


— Vi também Estela. Tem essa coisa das estrelas… de luz… Eu achei bonito. Mas são só opções…


Paula ouviu o áudio com atenção, deitada, o celular apoiado próximo ao rosto. Um sorriso apareceu sem que ela percebesse.


Repetiu o áudio. Mais uma vez. As sugestões ficaram ecoando.


Flora.

Estela.


Ela gostou. Não só dos nomes. Mas do cuidado por trás deles. Respondeu com a mesma calma.


— São lindos…


Uma pequena pausa.


— Gostei dos dois.


O sorriso ainda estava ali.


— A gente pode conversar melhor sobre isso.


E, pela primeira vez não parecia pesado pensar no futuro. Parecia possível.