Antigo novo amor
1 Capítulo 1 - UM ENCONTRO MUSICAL
A paixão é como uma correnteza que atravessa o corpo, carregando tudo e muitas vezes destruindo. Mas o amor, ah... o amor... O amor é um verdadeiro oceano.
Um mês após sua separação, Paula já havia retornado a Belo Horizonte, reclusa em sua chácara. Ainda organizava seus pertences, coisas que havia levado a São Paulo e tantas outras que permaneceram ali.
Nenhum término é tão simples. A vida prega peças que jamais imaginamos. Um dia, acreditamos estar perdidamente apaixonados, ter de fato encontrado o que chamam de “metade da laranja” até nos darmos conta que isso não existe; que, se não formos nós a nossa própria laranja, ninguém preencherá nossos vazios intermináveis. E ela descobrira isso. Não tarde demais. Seria injusto pensar assim. Foi no tempo certo. Mais que certo.
— Você vai querer essa peça? — mostra.
— Hum....- analisa — não mais! — decide. Pode colocar na mala de doação.
— Quem te ligou ontem às quatro da manhã? A vi levantando...
— Ninguém importante!
— Se não fosse importante você não teria atendido! — a encara.
— É! — olha-a — você tem toda razão! — ri. É uma pessoa muito importante.
— Até imagino! — ironiza.
— O que?
— Imagino quem seja! Para ligar naquele horário...
— Vou arrumar a penteadeira no banheiro! O que acha de colocar meus perfumes lá?
— Não mude de assunto!
— Já mudei! Acho que vou deixar aqui mesmo. Disseram que não pode ficar no úmido.
Desconversar aquele assunto, naquele momento, para ela foi mais que essencial. O término não foi fácil, por mais que tenha sido uma conversa amigável de duas pessoas que descobriram que suas vidas ansiavam por caminhos distintos e que não havia amor ali para que um abdicasse de sumas ambições em prol do outro sem que no futuro não houvesse arrependimento. Paula estava bem, apesar dos pesares. Após quase 5 anos vivendo com um homem em um local totalmente diferente do seu habitual e lidando com vidas que não faziam parte da sua, ela aprendeu mais do que poderia imaginar. Não negava que as vezes sentia falta da companhia e aí percebia que durou o que tinha que durar exatamente por isso, pela carência de uma companhia. Estava em paz sobre a decisão. Viveu muito aqueles momentos e estava pronta para viver os novos.
Há quase 10 horas do Rancho Sensações, estava ele, não sabendo ao certo se azul com verde dava roxo ou qualquer outra cor. Não tinha resposta cabível e aceitável para a filha, mas ele continuava tentando.
— Essa cor ficará linda! — mostra.
— Não acho! — continuou a molhar a camiseta sobre a mesa com uma bisnaga de tinta. Prefiro o rosa mesmo!
— Tudo bem! — ri. E você Jojo? — olha para o filho no chão brincando com um trem. Não quer fazer sua camiseta?
— Não! Tô cansado disso. Já fiz um monte.
— Ok! — volta-se para a filha. Vitória, termine aí que já venho! Tenta não derrubar tinta no chão.
Caminha até o celular sobre o balcão da cozinha e analisa as últimas mensagens. No fundo parecia lidar com um certo sentimento de ansiedade, como se esperasse alguma resposta que nem ele sabia ao certo qual era. Ou sabia e não queria aceitar isso. O que sabia é que precisava se desculpar, coisa que não gostava muito de fazer, mas não poderia agir como se não tivesse uma vida do outro lado da tela. Com o WhatsApp aberto, digita e apaga até enfim enviar sem medo.
“Me desculpe pelo horário ontem! Espero não ter causado problemas. Te encaminho a letra assim que possível até o fim da noite. Abraços, Vitor!”
Procura pela letra da canção nas suas notas e antes mesmo de editar um parágrafo, um dos filhos o chama atenção. Deixa o celular sobre o balcão novamente e sai em direção para atende-lo.
Dulce tinha esperança de conseguir a confirmação sobre a pessoa da ligação. Temia quem pudesse ser, mas ainda assim queria a verdade. Mas Paula seguia irredutível a não tocar no assunto.
— Vai precisar de mim ainda?
— Não! Pode ir.
— Não queria te deixar sozinha!
— Estou bem! — ri — e vou ficar sozinha de agora em diante — riem.
— Certo! — sorri. Qualquer coisa me ligue!
— Ligo sim, mãezinha! — a beija. Vá com Deus! — a acompanha até a saída do chalé.
A vê partir e sente o coração comprimir. Mas sabia que essa sensação logo deveria ir embora. Que esse novo capítulo era parte da sua história. O celular toca e ela retorna para atender. Monteiro do outro lado da linha confirma sobre os novos arranjos para o show. Marcam o ensaio e ela desliga, passando os olhos pelas notificações, se intrigando com uma.
Jura que você está se desculpando?
é até estranho. Não me deixou em apuros. Por que deixaria? Está tudo bem. Me mande a letra quando puder! Estarei no aguardo. Beijinhos!
Volta-se ao closet, organizando-o ao som de Lady Antebellum. Mil coisas passam na cabeça e de todas essas coisas ela consegue se esquivar. Mas da estranha, talvez conhecida mas não assumida, sensação em seu coração, é praticamente impossível.
Descarrega o restante das malas na manhã seguinte. Deixa muita coisa encaixotada porque ainda estava a procura de um apartamento, não tinha pretensão de morar na chácara para sempre, afinal, ali seria apenas um refúgio, precisava de algo mais no centro da cidade.
Enquanto termina de dobrar algumas calças é surpreendida por Beatriz.
— Está na arrumação?
— Oi franga! — sorri. Estou terminando algumas coisas… Senta! — aponta a poltrona logo à frente.
— Como você está?
— Bem! Sem choros ou drama.
— Paula…
— Estou bem, Bia! — tenta tranquiliza-la. Só estou me sentindo um pouco humilhada… Sei lá… Parece que fui tão burra! — emociona-se.
— Não… Não foi! Você viveu o que tinha que viver.
— É… Mas fui para casa de outra pessoa que desde o início não me fez se sentir em casa e ainda assim eu achava normal. Como não percebi, Bia? Como eu não pude perceber o quanto ele estava me afastando de tudo que eu sou, do que eu gosto? Eu era outra pessoa lá…
— Franga, você não tem que pensar mais nisso! — vai até ela. Já acabou, ok? Agora é vida nova… — sorri. Você já visitou alguns apartamentos?
— Não! — enxuga as lágrimas. Eu nem sei na verdade o que fazer… Se espero a cobertura desocupar, se pego outro local e começo do zero.
— Vamos visitar alguns locais… Você não tem pressa mesmo. Aí você vê o que é melhor.
— Sim, você tem razão!
— Estava com sua mãe tomando um café.
— Sim.
— Ela comentou que alguém ligou… — Paula ri. Ela está preocupada. Ele está te incomodando?
— Incomodando? — não entende — Como assim?
— Sei lá… Ás vezes ela está com medo dele ficar te ligando e tentando te convencer de algo.
— Hã? — para de dobrar as calças — Não estou entendendo…
— É que ele te fazia mal, você vinha para cá. Depois ele simplesmente ligava e você voltava. Creio que ela tenha medo dele acabar te ferindo mais…
— Bia… — se levanta do chão e senta na cama. Quem minha mãe acha que está ligando?
— Uai, Paula! Quem mais?
— Meu Deus… Ela acha que é o Rony?
— Claro, não é óbvio?
— Não! — começa gargalhar. Não é nada óbvio… — ri. Não estou acreditando que ela está pensando que é ele desde ontem… — não consegue parar de rir.
— Mas pela forma que ela falou até eu achei…
— Claro que não!
— E quem é?
— Então… Isso eu prefiro ainda manter só para mim. — volta dobrar as calças. É meio complica…
— Vitor… — observa ela — Desculpa, não resisti.
— É tão na cara?
— É que complicado remete a ele! — ri.
— Não é nada de mais! Ele só me mandou uma música. Ele nem sabe que estou em BH.
— Como assim? Ele não sabe que você terminou?
— Acho que não… Ah não ser que tenha visto na internet. E se sabe está fingindo muito bem.
— Por que?
— Porque depois que me ligou me mandou mensagem pedindo desculpas pelo horário…
— Entendi… Talvez queira que você conte.
— Mas eu não vou. Não vou criar isso de novo, Bia. Eu e Vitor somos ótimos assim. Só assim como estamos.
— Certo!
— Você concorda?
— Com o que?
— Que somos ótimos só assim?
— Ah, como eu posso dizer? Você quem sabe.
— É… Mas é só uma conversa como sempre, ele acha que estou namorando. Só isso.
Não era só isso e ela sabia muito bem. Não só ela. Bia também. Mas nenhuma comenta nada. Na tarde visitam alguns apartamentos, Paula sinaliza gostar de dois, mas o corretor informa que tem mais dois para mostrar no bairro Luxemburgo, porém não estavam à venda.
— Ah… Acho que por mim, tudo bem!Realmente não sei ainda o que fazer ao certo.
— São apartamentos muito bons… Foram reformados recentemente e os antigos donos o preservaram muito bem. Vamos até lá?
— Vamos!
Ao chegarem ao prédio Paula se dá conta do local que está, mas não comenta nada.
— Temos dois, o de cima e o de baixo. O de cima tem um ar mais feminino… Mas te mostrarei os dois.
Entram no elevador e ao ver o andar que o corretor coloca, sabe exatamente para onde está indo. Só podia ser brincadeira. Ou destino?. Não. Não tinha que pensar assim e nem queria.
— Paula… — Bia sussurra.
— Sim! — a responde antes dela perguntar.
— Você sabia?
— Claro que não!
— Chegamos! — o corretor se retira do elevador e as aguarda. Vamos ver esse primeiro… — abre a porta. Entrem…
O corretor mostra os detalhes do apartamento, mas todos os cantos ela praticamente conhecia. Só não um em especial.
— Essa é a suíte principal… — mostra.
— Com todo respeito… Não gostei desse apartamento. Podemos ver o outro?
— Ah sim… Claro!
Seguem para o outro andar e mesmo que internamente já havia se decidido em não querer nenhum, acaba se encantando mais que o normal com o imóvel.
— Ainda que eu não alugue, queria para mim… — ri.
— Sim… — sorri. Infelizmente o proprietário não quer vender. Mas, posso tentar…
— Certo… — observa a paisagem pela janela. É inacreditável de tão bonito…
— E é mesmo! — Bia a acompanha.
Saem do prédio e seguem destino até o apartamento de Bia.
— Tem certeza que não quer descer?
— Tenho! Ainda tenho muita coisa para arrumar e vou ligar pro corretor, ver se ele conseguiu falar com o proprietário.
— Não é muito maluco ele ter ido te mostrar logo o apartamento do Vitor?
— Sei lá… Coincidência. Mas jamais moraria lá.
— Eu sei.
— Só que aquele outro eu fiquei muito besta… É perfeito! Mesmo que eu não more nele, quando entrei pensei em tanta coisa que dá para fazer… Seria um bom investimento.
— Sim! — sorri. Vou indo, qualquer coisa me liga. — desce.
Já na chácara, cavalga um pouco, finaliza algumas roupas que ainda precisavam ser guardadas e janta com a mãe e o padrasto, seguindo para o quarto logo depois. Na cama, olha o celular, vê algumas notícias e publicações no instagram, mas sente seu corpo todo corresponder quando recebe notificação de uma mensagem.
Oi… Atrasei mais que o normal, mas aí está a música. Depois me fale o que achou! Abraços, Vitor.
(Anexo)
Escuta a canção e já nos primeiros acordes se emociona. É surreal a sensação de ouvir algo tão genuinamente puro. Não se contenta em apenas mandar mensagem e então disca o número dele sem pensar muito.
⁃ Pulinha! — sorri do outro lado da linha. Ouviu?
⁃ Ainda estou tentando digerir! — ri. Vitor, é simplesmente incrível. Estou chorando, acredite.
⁃ Eu acredito, fiz o mesmo quando ouvi concluída.
⁃ Foram tempos difíceis ultimamente, uma cobrança excessiva por músicas mais chicletes e eu meio que acabei me perdendo… Mas ouvindo isso, nossa… Sei que sei o caminho. Se é que me entende!
⁃ Entendo sim… mas é preocupante você estar sentindo essa pressão toda!
⁃ É… — um silêncio se instala e ela não resiste e chora. Desculpa!
⁃ Faça o que for preciso… Estou aqui…
⁃ A questão é que eu não sei muito bem o que fazer!
⁃ Você não devia estar sentindo tudo isso… é a cantora mais talentosa que já ouvi na vida, além de ser a mais sensível compositora que também já conheci. Você deve fazer o que ama. A música te ama, deve aproveitar isso. Mas entendo bem sua apreensão.
⁃ Pois é… — enxuga as lágrimas.
⁃ Pode chorar. — respira fundo.
⁃ Ah… — ri — não, está tudo bem! Foi só um momento, hormônios.
⁃ Não posso dizer que sei…
⁃ É, não pode! — riem.
⁃ E então… O que faremos?
⁃ O que?
⁃ Com a música… Quer gravar?
⁃ Ah… eu queria muito, vou apresentar para a produção, ver se aprovam para um próximo disco.
⁃ Não… Não estou falando disso. Quero saber se você quer gravar, passar um dia no estúdio só gravando coisas que queremos ouvir e sentir que somos capazes de fazer música de qualidade! — ri.
⁃ Tipo… Um dia de gravação só com aquilo que a gente quer, sem pressão?
⁃ Isso, só cantando, ouvindo, produzindo, compondo, para nós mesmos e para quando você quiser apresentar, fazer isso já com tudo pronto.
⁃ Eu quero! Nem quero pensar. Só quero fazer isso. Eu preciso. Quando podemos?
⁃ Quando quiser. — ri. Estou sempre livre! Quero dizer… — pensa — a cada 15 dias eu estou com meus filhos e não abro mão de estar com eles desde quando acordam até dormirem.
⁃ Claro! — sorri — Quando você estará disponível?
⁃ Essa semana eu estou. Você consegue vir?
⁃ Sim! Pode ser, chego aí na terça.
⁃ Tá… Te aguardo. Vou falar com André para nos auxiliar na gravação.
⁃ Vou separar algumas músicas que não foram aceitas pela gravadora. Quero que de uma olhada, me diga se é tão ridículo mesmo.
⁃ Ridículo?
⁃ É… Inapropriadas para o momento, sem graça, etc.
⁃ Alguém falou algo assim da sua música?
⁃ Quase… — pensa. Mas, não importa. Você poderia olhar?
⁃ Poderia… Claro que poderia! Mas tenho certeza que não é ridículo. Ridículo é dizerem isso.
⁃ É… Nos vemos na terça? Qual horário?
⁃ Pode vir quando quiser. Vou deixar tudo preparado.
⁃ Gosto de gravar a noite, tudo bem?
⁃ Maravilha, porque é quando gosto também! — riem. Pode vir acompanhada para não ter que voltar sozinha para casa. Tenho um espaço aqui e ele pode ficar aqui acompanhando…
⁃ Ele?
⁃ Seu namorado, Rony. O traga pra não voltar sozinha para São Paulo.
⁃ Ah… Ok! — fecha os olhos em um misto de tristeza e decepção. Não se preocupe!
⁃ Ele gosta de beber algo? Posso deixar organizado. Tenho certeza que quando começar a cantar não vai querer parar, então sairemos tarde!
⁃ Vinho tinto! Mas, não se preocupe. Eu levo para ele.
⁃ Tá bom!
⁃ Preciso desligar… Boa noite! — desliga.
Não sabe definir o que sente. A conversa estava tão tranquila, leve, a proposta de um dia de gravação, a proximidade e ele simplesmente sugere algo assim. Parece até ser mestre em dar um banho de água fria em qualquer empolgação que ela tenha em relação a ele. Mas, ok. Pensa. É melhor dessa forma já que isso não é um encontro, não é nada amoroso e convidando Rony só fez isso ficar cada vez mais claro para ela. Mas também, como o culpa? O fato é que ele acredita que ela ainda está namorando, que ainda mora em São Paulo. O que mais pode esperar ou sugerir? Sente raiva de si mesma ao mesmo tempo que sente decepção. Racionalmente sabe que essa seria uma reação apropriada, mas o difícil é explicar para o coração.
Os dias passam e eles mantêm contato por mensagens. Pede para Nilmar entrar em contato com o corretor e cuidar da negociação do apartamento que visitou. Não comenta com absolutamente ninguém a respeito da ida a casa de Vítor em Campinas. Apenas informa a mãe que irá trabalhar uns dias em São Paulo e ficará em um hotel. Chega em Campinas por volta das 16h da terça, segue até o hotel que reservou e se instala.
Em casa, Vitor organiza uns últimos detalhes com André que já havia chego.
— O que está fazendo? — questiona ao vê-lo organizando o sofá.
— O namorado dela vem.
— Você convidou o namorado dela? — ri.
— Não entendi a graça… — o encara. Queria que eu fizesse o que? É muito tarde para ela voltar sozinha. Ela já sofreu um acidente, não vou ficar tranquilo se ela vier sozinha.
— Ok… — sorri. Como vai ser quando resolverem cantar essa aqui? — levanta uma partitura.
— Do que está falando?
— Sei lá… Só achei que fosse para ela. Fala sobre a voz doce, como se remetesse a uma cantora… Não sei de outra cantora que tenha saído. — ri.
— Foi.
— Que?
— Foi para ela!
— Como você consegue?
— O que?
— Cantar uma música para ela com ela aqui do seu lado e o namorado?
— Se ela estiver feliz, vou estar feliz. Nós já resolvemos nossa história. Somos adultos. Torço por ela e ela por mim. Colocamos nossa relação onde deve estar e seguimos em frente. Isso me conforta e é o que importa.
— Quando eu crescer vou ser maduro assim!
— Vai procurar o que fazer! — riem.
André se volta para sua mesa de produção e segue ajustando os comandos. Exatamente às 19h Paula está na porta da casa do Vitor com um vinho em mãos.
— Em ponto! — abre a porta.
— Virgem!
— Que? — ri.
— Meu signo! — entra.
— Ah… — fecha a porta. É verdade!
— Você não é bom mentindo… — o encara. Mal sabe sobre signos! — riem.
Riem enquanto se encaram por um tempo, frente a frente. Após alguns minutos se abraçam, apertando um sobre os braços do outro. Afinal, são meses sem se verem pessoalmente e se dão conta disso quando demoram se largarem.
— Bom… — se afasta. Obrigada pelo convite! Estou ansiosa. Não vou mentir! — sorri.
— Você veio sozinha?
— Vim… Ele estava ocupado. Mas, está tudo bem. — mente.
— Paula… Antes da gente ir quero dizer que estou feliz por você.
— Feliz… ?
— Por estar bem! Por estar viva.
— Ah… — se lembra do acidente.
— Sei que falamos sobre isso no telefone no dia que ocorreu, mas quero reforçar! — sorri.
— Estou feliz em estar viva! — sorri. Vamos?
— Vamos! — aponta para o estúdio.
— O vinho… — entrega para ele — espero que goste!
— Vamos beber!
Paula cumprimenta André e já se familiariza com o estúdio.
— Por que eu nunca fiz um estúdio? — olha ao redor.
— Boa pergunta… — olha para ela admirada — Mas se fizer um, não vai querer sair dele!
— É isso que você faz?
— Tirando os dias que as crianças ficam aqui, sim… — entrega a taça com vinho pra ela. Quer André?
— Não, obrigado!
— Nossa… Esse é bom! — experimenta. Ainda bem que peguei… — olha para taça.
— Pegou?
— É… Da adega! — ri.
— Você não tem um estúdio, mas tem uma adega.
— Aham… — mente. O que faremos hoje? Selecionamos as músicas? Fazemos arranjos? — vai até sua bolsa. Trouxe as canções pra você ver. Preciso te contar da experiência que tive no meu último trabalho… Enfiaram na minha cabeça que eu precisava experimentar compor em grupo. — entrega para ele — fiz um clube de composição, mas foi tão confuso… Até que saiu umas canções lindas como Antigo Novo Amor, Flor, Tá de Mal Comigo… Mas para mim que fazia um álbum inteiro de música boa, compor só umas 5 excelentes foi um martírio. Ainda está sendo.
— Clube de composição? Me explica isso…
— É… — senta-se — você se reúne com um monte de gente e compõe.
— Por que te colocaram nisso?
— Eu apresentei 50 canções para serem selecionadas para o 11:11 e eles não aceitaram nenhuma. — sorri, com tristeza.
— Quando você fala eles… — analisa as músicas.
— A Universal. Estou em uma luta interna com alguns diretores… — coloca a taça sobre uma mesa de centro. Mas estou meio cansada… Aconteceu muita coisa ao mesmo tempo na minha vida, então… Estou cansada demais para brigar, só aceitei o que queriam e sigo.
— E as pessoas ainda ousam me perguntar se sinto falta de gravadoras…
— Para que você ia querer uma? — sorri — Você e André são incríveis nas produções. O Projeto VC é uma fênix… Tem sua identidade em cada arranjo e o principal, percebe-se claramente que você está descansado e em paz cantando.
— Acho que ninguém definiu tão bem até agora! — André diz.
— O que temos aqui? — levanta e pega umas partituras na mesa do André.
— Algumas que eu separei.. — vai até seu violão. Deixa eu te mostrar uma coisa… — começa a tocar uma música que ela trouxe. Acho que se mudássemos esse acorde… — faz no violão. O que acha?
— Eu tinha pensado em mudar ele só para o baixo e deixar o violão mais suave.
— Boa! — olha para ela — Não tinha pensado nisso.
— Quer fazer? Posso pegar seu baixo? — vai até o instrumento.
— Claro! — indica. Quer que eu inverta as cordas?
— Não! — ri. Me viro aqui…
— Inverter? — pergunta curioso.
— Paula é canhota… Quando eu ensinava ela a fazer alguns acordes, invertia as cordas do meu violão… Ela não levava o dela nas aulas. — riem.
— Por que não trouxe hoje?
— Muita coisa para trazer no avião. — pega o baixo, sentando-se em uma banqueta.
— Você veio de avião de São Paulo até Campinas? — a encara.
Fica perdida. Não havia mencionado ainda que não estava em São Paulo. Não havia sequer contado nada e nem pretendia. Pensa em uma desculpa rápida e sente o coração pesar por estar entrando em um emaranhado de mentiras.
— Estava em BH… — se volta para o baixo.
— E cade suas coisas?
— Que coisas?
— Mala, etc… Você veio com um vinho de BH? — ri.
— Sim. Olha… — muda de assunto — faz aí no violão… Vou mudar aqui no baixo para ver se fica como imaginei.
— Vamos lá…
Tocam da forma que ela havia pensado e se surpreendem, pois ficou melhor do que podiam imaginar. Fazem algumas anotações nas partituras dela, conferem mais arranjos e seguem para as partituras dele. Selecionam o que querem cantar, o que acham ser necessário mais alguns ajustes e voltam para as dela, repassando música por música.
— Pessoal… Estou adorando isso, vocês são feras… Mas, estou bem cansado!
— Que horas são?
— Já são 4:30!
— Caramba, já? — se espanta.
— Estou falando… Se você tiver um estúdio, vai viver nele. — riem. Está cansada?
— Nada de mais… Mas podemos parar e retomamos amanhã. Por você tudo bem? Se não der, ok…
— Por mim tudo bem… André vai ficar até sexta em nossa disposição!
— Que bom! — sorri. Então ok… Começamos mais cedo? — se levanta.
— Pode ser… Ás 18 horas. Paula, você não está com fome? Passamos batido, sem comer nada… Nem me passou pela cabeça…
— Estou bem! Comemos amendoim… — aponta para a vasilha de amendoim que ele havia trago.
— Mas isso não é comer! — coloca o violão no suporte. Amanhã vou preparar algo.
— Não se preocupe! — pega sua bolsa.
— Você veio de que do aeroporto?
— Uber…
— Pulinha… Não vai ter uber a essa hora até São Paulo… Eu nem teria coragem de deixar você ir assim com um desconhecido.
— Está tudo bem!
— Eu vou te levar até sua casa… Só me dá meia hora pra tomar um banho, caiu vinho em mim e estou grudando… — puxa a camisa para mostrar.
— Não precisa! — fica apreensiva. Já deixei tudo combinado com um conhecido… Ele vai me pegar e levar até lá.
— Tem certeza?
— Sim… — pega o celular — Vou mandar mensagem para ele vir me pegar na portaria. — entra no app do uber e solicita uma corrida. — Pronto… Só aguardar. Pode ir tomar seu banho… Fico aqui até ele chegar.
— Eu fico aqui Vitor… Pode ir. — André se oferece.
— Eu já volto! Fiquem á vontade… Não saia antes deu sair do banho. — olha para ela. Vou te levar até a portaria.
Vítor se retira do estúdio e só restam Paula e André. Ela sorri sem graça e pega uma partitura, fingindo estar lendo as anotações.
— Te vi no aero… 4 da tarde! — ri.
— Você falou alguma coisa para ele?
— Não. Cheguei aqui ele estava arrumando sofá para seu namorado, imaginei que você não tivesse dito nada. Está em um hotel?
— Sim. Ele foi convidando Rony e eu fiquei sem graça de contar. E pensei também que talvez ele quisesse que o Rony viesse para que não tivesse nenhum mal entendido, vai que está saindo com alguém.
— Até onde sei, não está. E acho que ele pensou o mesmo… Vai saber, né? De qualquer forma, se quiser ir, pode ir. Falo pra ele que sua carona chegou antes. Você realmente tem como ir?
— Não… — olha pra ele desesperada. Pedi um Uber mas até agora nada.
— Vamos aguardar! Qualquer coisa, acho que seria bom você pedir pra ele te levar.
— É… Acabei me enfiando em uma cama de gato desnecessariamente! — riem. Ele tem esse efeito maluco…
— O que?
— Nada… — confere o celular e nada ainda. Será que se eu for até a portaria do condomínio consigo algo?
— A essa hora? Não.
— Quando está trabalhando com ele, fica onde?
— Aqui! — ri. Ele não me deixa ir para hotel.
— Entendi! — sorri. O que achou das músicas?
— Eu fico de boca aberta com o quanto vocês são talentosos! — riem — E vocês trabalham muito bem juntos, incrível. Poderiam ser uma dupla.
— E acabar antes de fazer a primeira turnê? — ri. Somos bons compondo juntos, cantando…Mas, tomando decisões, sei lá… Só que se eu realmente tivesse que escolher alguém para ser uma dupla, escolheria ele. — sorri. Acho que vale o risco! Não penso que ele me escolheria, obviamente, mas seria algo bacana, né? Em um mundo hipotético. — riem.
— Bom… Não posso dizer o que ele faria ou não, só ele para confirmar. Porém, trabalhando com ele nesses últimos anos, indico que não teria opção melhor que você e creio que ele sabe disso, principalmente quando cantam juntos. É harmônico, tem sintonia, tudo se encaixa.
Conversam por um bom tempo a respeito de música. Ela sempre conferindo o celular para ver se algum uber aceitou a corrida, porém constata que não terá opções. Vitor retorna ao estúdio e André se despede.
— Ele chegou?
— Quem?
— Seu uber.
— Ainda não aceitou a corrida! — olha para o celular e logo se da conta da cagada que fez.
— Por que está mentindo? — a encara — Você tinha dito que tinha combinado com um conhecido que viria te buscar. — Paula se entristece com o tom.
— Se está pensando que estou mentindo para ficar na sua casa está muito enganado! — pega a bolsa. Eu já estou indo!
— Paula, que loucura! Isso nem me passou pela cabeça.
— E por que está falando assim? — começa sair.
— Assim como? — a segue — Chateado por você estar mentindo pra mim a noite toda? Eu não tenho nada ver com sua vida, não me meteria nessa situação toda já que você não quis dizer a verdade, mas olha agora… Você não tem do que ir embora porque mentiu.
— Essa situação é tão ridícula! — abre a porta da casa dele.
— Vou te levar até onde quer que você esteja! — calça os chinelos e pega a chave do carro.
— Não, obrigada! Dou meu jeito. — segue andando.
— Calma aí, Paula! Entra no carro. Por favor Paula… — segura o braço dela — Por tudo que a gente já viveu. Me deixa te levar até sua casa!
— Estou em um hotel! — se afasta dele. Só me deixa lá e pronto.
Entram no carro e o silêncio permanece por uma boa parte do trajeto, até que ele resolve entender o que houve.
— Por que não falou antes?
— Não quero falar disso.
— Eu sei. Mas, só queria entender…
— Não era para ficar na sua casa, isso te garanto!
— Paula, para com isso! Vou começar a ficar ofendido. Isso nunca passou pela minha cabeça, caramba.
— Ok. Quer saber mesmo? Vamos lá… Minha vida tá esquisita já tem um tempo. Se eu acreditasse em inferno astral, diria que é isso. Mas não sei se acredito. Acontece que terminei meu namoro, voltei para Belo Horizonte, estou tentando ainda um lugar para morar, não dá para ficar na chácara definitivamente. Me sinto uma idiota que me deixei levar por uma pessoa que estava me destruindo e eu permiti. Permiti tudo que ele fez comigo. Como se não bastasse, tem toda a pressão da Universal. Estou com poucos shows. Meu disco não rendeu o esperado, obviamente. Estou frustrada, me sentindo derrotada! Quando você ligou, me convidou, eu não pensei duas vezes e aceitei… Precisava pensar em outra coisa, viver outra coisa, sair do “looping” de me odiar por ter deixado tudo desmoronar bem debaixo do meu nariz. É isso! — enxuga as lágrimas.
— Não sabia do término, me desculpa ter falado dele.
— Imaginei. Na verdade me questionei se você não sabia ou se só queria fingir que não sabia.
— Por que eu ia fingir?
— Sei lá. Eu só não quis falar depois que você convidou porque fiquei com medo de certa forma você não me querer aqui se eu… — pensa — … De qualquer forma, obrigada pelo convite e eu gostei muito de estar aqui, me diverti e vivi como não tenho me divertido e vivido nos últimos meses.
— Você precisa parar com isso… Ficar se preocupando se vou achar A ou B sobre você.
— Não é tão simples, Vitor. Não foi você que expôs pro mundo que era apaixonado por mim e escreveu seu maior sucesso para mim. Tão pouco foi você que foi apontado por toda mídia como alguém que se joga pra cima mim. Então não é tão simples.
— Mas de onde você tirou que eu te enxergo assim?
— Eu não sei!
— Jamais te enxerguei assim. Toda vez que nos encontramos partiu de mim o convite. O fato de você ter escrito sobre nós não significa que eu não tenha vivido ou achado babaquice… Você falou comigo antes de colocar no livro, eu apoiei, mesmo que não tenhamos contado a história completa.
— Tem muita gente que interpreta o fato deu ficar bem e feliz ao seu lado como se eu estivesse me jogando, me oferecendo. Mas não é. Não quero que jamais pense nisso…
— Meu Deus, Paula…
— Eu só fico assim porque sou muito grata por tudo que você fez na minha vida e quando estou com você eu me sinto realmente bem, me sinto segura.
— Ainda estou tentando entender de onde você tirou que acho que você se joga pra mim.
— Eu não acho. Só fico com receio de você achar em algum momento… Ou qualquer pessoa que conviva com você, sua família, etc.
— Isso nunca aconteceu e nunca vai acontecer. Confie em mim.
— Ok…
— Faz quanto tempo que terminou? Se quiser falar disso…
— Tudo bem, já passou a fase do choro. Quase um mês… Mas eu diria que acabou já tem quase 01 ano.
— Quer conversar sobre?
— Você quer ouvir? Porque a história é longa…
— Quero, vai te fazer bem falar.
Paula resume um pouco do que enfrentou nos últimos quatro anos, mas principalmente o que enfrentou no último ano, quando começou a se dar conta de que realmente algo estava errado.
CONTINUA...
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