Antigo novo amor

2 Capítulo 2 - AS MALAS


Notas iniciais
... foi me amando, foi te querendo que me vi te deixar, deixar meu lugar.

Paula resume um pouco do que enfrentou nos últimos quatro anos, mas principalmente o que enfrentou no último ano, quando começou a se dar conta de que realmente algo estava errado.

— Como é? — olha incrédulo para ela.
— É… Ele me convenceu que deveríamos buscar alguém para nos orientar e superarmos o que estava acontecendo.
— Paula…
— Vitor, no fundo eu já sabia que aquilo tinha chego ao limite… Mas eu não quis enxergar naquele momento.
— E quando enxergou?
— Não sei dizer o momento exato… Mas teve alguns acontecimentos que pesaram pra mim, principalmente quando me vi longe da minha mãe. Me senti muito, muito sozinha mesmo ele estando ali. Percebi que não dava. Que podíamos tentar absolutamente tudo e não dava mais. Eu comecei sofrer pelas coisas que abri mão por conta dele. Pelo tempo que eu perdi. Pelas pessoas que me afastei. O pior é que era tão nítido para todo mundo, menos para mim. Não conseguia mais olhar para ele do mesmo jeito e eu não queria mais isso na minha vida. Se eu não conseguia olhar para ele, como ia viver o resto da minha vida com ele? Eu tinha raiva.
— Sim… Você foi muito forte, mais uma vez. Não é nada simples sair de um relacionamento tóxico.
— Pois é… Mas ainda é difícil pra mim aceitar que foi tóxico, por mais que eu saiba que foi. Entende?
— Entendo! — sorri. E não espere que isso vai acontecer do dia para noite!
— É… Eu sei. O hotel é o Ibis. — avisa ele.
— Estamos chegando. Pega suas coisas e vamos pra minha casa também.
— Está tudo bem! — ri — Estou bem.
— Paula, você não vai ficar sozinha em um quarto de hotel, pensando em tudo isso. Tenho mais um quarto de hóspedes e você fica nele. Vou me sentir mais confortável. — estaciona o carro em frente ao hotel.
— Agradeço, mas estou realmente bem. — retira o cinto. Você não tem que se preocupar! — sorri. Ter me convidado para esses dias já está sendo ótimo.
— Por favor… O André também está lá. Você ficará mais confortável, pode dormir até mais tarde, não vai ficar o dia todo olhando para parede. Tem academia, piscina…
— Ok! — a convence. Vou subir e já volto.

Enquanto sobe até seu quarto se questiona a todo instante se está fazendo a coisa certa. Não seria demais? Para que ir para casa dele se poderia dormir ali no hotel? Pega o celular e manda mensagem para ele, informa que não precisa se preocupar e que se veriam amanhã.

Vai para casa, já está tarde!
Eu estou bem, obrigada pela preocupação. Mas, vou me sentir mais confortável aqui no hotel.

No mesmo instante ele visualiza e começa digitar.

Bom… Se você prefere assim, respeito.
Mas, caso mude de ideia, só me avisar.
Durma bem!

Ela visualiza e não responde.

Após algumas horas de sono, desperta com as ligações da mãe. Quando pega o celular vê que há 5 chamadas perdidas e se desespera, retornando a ligação.

— Oi mãe! — se senta.
— Paula, meu Deus… Por que não atende?
— Estava dormindo! O que aconteceu?
— São quase meio dia. Você nunca dorme até esse horário minha filha.
— É que fui dormir muito tarde. Fiquei até tarde no estúdio.
— Onde você está?
— No hotel. O que houve mãe?
— Nada! Só fiquei preocupada. Você não me ligou ontem, não me ligou hoje.
— Quase morri aqui achando que tinha acontecido algo.
— No que você está trabalhando?
— Estou gravando algumas músicas.
— Mas a Universal te ligou para fazer isso?
— Não. Estou fazendo sem eles saberem…
— Por que?
— Quando chegarmos em casa conversamos sobre isso, ok? — se levanta — eu estou bem, não precisa se preocupar.
— A Flávia telefonou. Disse que você não atendeu ela. Ela está com as suas malas que faltavam.
— Que ótimo! Vou pegar com ela depois. Mais alguma coisa?
— Não! Vai me mandando notícia, por favor.
— Vou sim. Fica tranquila que estou bem! Te amo.
— Também te amo! Se cuida. — desligam.

Coloca para tocar a música que Vitor mandou enquanto toma um banho de banheira. Fecha os olhos e permite que a voz dele penetre em sua alma, trazendo um refresco de paz.

Há poucos quilômetros, Vitor desperta meio sonolento. Encara o teto por alguns segundos e então pega seu celular para conferir se há alguma ligação. Levanta-se, toma seu banho e segue para a cozinha, encontrando-se com André preparando um café.

— Bom dia!
— Bom dia! Servido? — oferece.
— Por favor! — pega a xícara e aguarda ele colocar o café. Gostou da gravação ontem? — senta-se.
— Se eu gostei? — encara ele — Eu já sabia que ela era uma baita cantora, mas caramba… que voz! — se senta. A forma dela cantar ecoa na gente.
— Sim! — sorri — Quando ela canta somos atingidos em todos os tecidos. A voz dela faz uma bagunça dentro da gente, tira tudo do lugar.
— Isso, definição perfeita! — riem. E ficou muito bonito vocês cantando… Juro. Ainda comentei com ela que é surreal a sintonia que vocês tem, uma voz se encaixa perfeitamente na outra. Poderiam ser uma dupla.
— Uhum… — bebe o café — tirando a parte de shows e decisões?
— Ela falou a mesma coisa. — ri. Mas que se tivesse que escolher alguém, seria você.
— Creio que também a escolheria. Já sabia que ia gostar do resultado das gravações, mas não esperava que seria tanto. E olha que sequer fizemos as faixas inteiras!
— Sim!
— Você quer almoçar?
— Estou bem, já comi pão com ovo.
— A Lucy mandou mensagem cedo dizendo que não viria hoje. — leva a xícara na pia. Pensei em chamar a Paula para almoçarmos. Ela está sozinha no hotel.
— Podem ir, vou aproveitar para ligar para minha esposa e comprar umas coisas no centro pro meu filho.
— Ok… Vou ligar para ela.

Se retira da cozinha e disca o número dela duas vezes e não é atendido. Somente na terceira tentativa tem uma resposta.

— Estou atrapalhando?
— Não! Estava no banho.
— Quer almoçar?
— Agora?
— É… Daqui uns 30 minutos. Te pego aí no hotel.
— Ah… — pensa — Tá… Pode ser! Vou te aguardar aqui então. O que vamos comer?
— Não sei. Você escolhe. É a convidada! — sorri.
— Mas nunca fui em nenhum restaurante por aqui! Então me leve em algo incrível porque estou com muita fome.
— Vou pensar em algo incrível então! — ri. Jaja passo aí. Beijos!
— Te aguardo! — desliga.

Beijos? Nem ele sabia porque disse isso. Era abraços. Amigos se despedem com abraços. Não que ele não quisesse beijos, mas não. Não era assim e nem seria. Sobe para o quarto e acontece algo raro: não sabe o que vestir. Se irrita profundamente com essa sensação, tentando afastar esses sentimentos bobos. Só não era muito bobo ficar pensando nela tomando banho. E mais uma vez, se culpa mentalmente. Escolhe uma camisa preta, manda 3/4. Deixa três botões abertos. Uma calça jeans comum e botas pretas. Perfume, nada de mais para não enjoar. Cabelo penteado para trás ou para frente? Faz o teste na frente do espelho e resolve deixar pra trás. Vai até o espelho maior e novamente confere o look, se condenando mentalmente por isso. O que estava acontecendo?

— Uau… Caprichou, hein? — André o observa.
— O de sempre!
— Botões abertos, cabelo para trás… Está para caça hoje.
— Como é? — pergunta irritado.
— Nada! — ri. Está bonito e bem estilo Vitor.
— Está demais?
— Como assim?
— Está muito arrumado? Se estiver vou trocar de roupa.
— Vitor… — se levanta e vai até ele — Você está bem?
— Que?
— Você está preocupado com sua roupa. Alguma coisa está acontecendo… Está com febre?
— Por favor! — entende — Vai para você sabe onde. — pega a chave do carro e sai, deixando André rindo para trás.

Paula se olha no espelho. O vestido estava curto demais. Se tiverem que sentar perto, ele vai ver além do que deve. Então tira. Calça? Nesse calor? Joga em cima da cama. E calça e cropped? Barriga de fora demais para um almoço. Pega o celular e liga para a Bia.

— Oi, está ocupada?
— Não, o que foi?
— Tenho um almoço para ir, coisa simples. Porém, não quero ir de qualquer jeito. O que sugere?
— Você realmente está ligando para mim para falar disso? Não faço ideia!
— Não quero mostrar demais. Mas não quero parecer uma freira.
— Que almoço é esse?
— Um almoço! — vai tirando roupas da mala. E ainda preciso passar uma maquiagem.
— Onde você está, Paula?
— Em São Paulo.
— Ele te chamou para almoçar?
— Quem?
— Rony.
— Não! — repugna a ideia — Não, não. É um almoço simples, mas não quero ir feia. Não é ninguém de mais, não. — mente.
— Entendi… Bom, coloca algo que fique confortável. Só isso que eu sei te dizer.
— Não me ajudou em nada.
— Eu sou personal, dançarina e não estilista. Por que não ligou pra seu amigo Eduardo?
— Não quero que ninguém daqui saiba que estou aqui.
— Entendi. Escolhe aí e me manda foto! É só um almoço, não pira.
— Você está certa! Vou me arrumar, tchauuu — desliga.

Encara a cama bagunçada e começa ter um ataque de nervos. Mas, respira fundo e se concentra. Pega um vestido longo, prende meio cabelo com uma presilha e começa uma make leve. Olha no relógio do celular, ainda faltam 15 minutos até ele chegar. Antes que termine de passar o rímel, ele liga.

— Oi… — atende. Não vai poder ir?
— Que? — ri — Estou aqui embaixo. Nossa, você achou que eu desmarcaria?
— Não! É que está adiantado. — ri. Estou terminando e já desço.
— Ok! Aguardo.

Finaliza a make no modo 2.0. Pega a bolsa e desce até a entrada do hotel, onde ele a espera do lado de fora do carro.

— Meu Deus… — olha para ele — Tenho que trocar de roupa. Você está muito gato! — fala sem pensar. Quero dizer, está chique, né?
— Não retire o fato de ter me chamado de gato! — sorri.
— Não retiro! — riem.
— Você não tem que trocar de roupa, está uma gata também! — abre a porta. Entra!
— Muito obrigada! — entra, com o coração chegando na boca. Se acalma Paula… — diz para si mesma enquanto ele dá a volta no carro.
— Não sei se será um lugar incrível para você… — fecha a porta e coloca o cinto — Mas é um lugar incrível.
— Confio no seu julgamento!
— Então vamos…

Os primeiros cinco minutos são guiados pelo completo silêncio. Mas, ele quebra o gelo falando sobre Campinas.

— Foi uma decisão certa.
— Sim, foi. Não me arrependo… As crianças estão aqui, não poderia fazer de outra forma. Mas, confesso que estou sempre em Uberlândia. Fico geralmente 10 dias lá no mínimo…
— Na fazenda?
— Sim! — sorri. Cuido das minhas plantas, dos meus peixes, dos cavalos… — riem.
— Deve ser muito bom!
— Você não ia tanto para BH?
— No máximo uma vez ao mês… Ficava poucos dias, a não ser quando brigávamos e eu acabava ficando mais. Até disso eu tenho raiva quando lembro… Deixei absolutamente tudo por uma pessoa que ligou o foda-se para mim.
— Não sinta! Na época você não tinha essa visão de fora que está tendo hoje. O importante é que está livre.
— Sim! E você?
— O que? Se estou livre? — ri.
— Não… — se arrepende de ter perguntado.
— Estou livre, há um bom tempo… Tive alguns relacionamentos curtos nesse meio tempo. Mas estou livre e tranquilo!
— Entendi. Isso é bom. Estarmos tranquilos.
— Você está?
— Acho que estou! — ri. Tirando a raiva por ter sido burra nos últimos quatro anos… — ri.
— Você não foi burra! Foi só um ser humano tentando viver um relacionamento…
— Sim. Vou começar a pensar assim! — riem.

Chegam ao restaurante e seguem para uma mesa próximo a uma vidraça, refletindo parte da cidade. Escolhem os pratos e começam a conversar sobre música, gravadoras, contratos, perrengues por falta de investimento e novos cantores.

— Sabe quem encontrei há uns seis meses atrás? — limpa a boca com um guardanapo.
— Quem?
— Aquele babaca que não quis a dupla na época para investir no filho. Não lembro o nome dele, mas nunca vou esquecer o rosto!
— Paula! — ri. Você sempre lembra disso… Até mais do que eu!
— Claro que eu lembro! Esperávamos por aquilo.
— Sim! Mas não deu certo para que a gente entrasse pela Sony e se transformasse no que nos transformamos.
— Ainda assim não anula absolutamente nada do que todos sentimos. Ainda mais vocês dois. Se eu sofri…
— No fim das contas, é uma época saudosa. Não vou mentir. Mesmo com tudo isso que aconteceu.
— Eu também acho! — sorri.

A refeição termina, eles conversam mais um tempo, rindo como se fizessem isso toda semana.

— Vamos para minha casa!
— Mas está cedo ainda…
— E você vai ficar no hotel fazendo o que?
— É… nada!
— Então vamos para minha casa. Eu nem consegui te apresentar os cômodos ontem. Vou te mostrar tudo hoje e algumas fitas que ainda tenho.
— Ta bom! — sorri.

Involuntariamente, dentro dela, a sensação de paz era imensa. Quando se dava conta disso, tentava se colocar em outra posição. Não podia permitir criar qualquer esperança. Mas, não contava com o fato de que para ele estava sendo da mesma forma.
Passam no hotel e ela troca de roupa. Amarra o cabelo e decide colocar a calça jeans com um cropped branco e tênis nos pés.

— Posso dizer uma coisa? — a vê entrando no carro.
— Uai, pode! — coloca o cinto.
— Você fica ainda mais linda assim! — funciona o carro.
— Assim? — ri.
— Assim… mais descontraída.
— Ah… — fica sem graça.
— Não que você não fique linda quando está mais produzida, longe disso. É que sem muita produção você está sempre mais confortável… Enfim, deixa para lá. Acho que não estou conseguindo explicar! — riem.
— Eu entendi! — sorri. Muito obrigada!

Almir começa tocar no som do carro. Ela fecha os olhos e sente a canção invadindo seu ser. Ele percebe isso e sorri sozinho, iniciando uma conversa sobre o poder de algumas vozes até chegarem na casa dele. Entram e se deparam com André na mesa da cozinha analisando uns documentos.

— Senti sua falta no almoço! — sorri.
— Não fui suficiente? — encara ela.
— Iiii… Me tira dessa, hein? — se levanta rindo. Não quero problemas com meu chefe!
— Ah… Você foi! — ri, sem graça.
— Ele até se arrumou todo…
— Pode parar! Já vou até trocar de roupa… — segue para seu quarto.

Ele retorna ao cômodo e a leva para conhecer a casa. Na tarde ela propõe já irem para o estúdio, mas ele se nega, dizendo que devem fazer outras atividades e só mais tarde irem. Enquanto André retorna ao centro para resolver outras questões pessoais, ele a convida para andarem pelo condomínio. Mostra o bosque e se deparam com alguns pássaros coloridos que ela fotografa.

No fim das contas, o que era para ser apenas algumas gravações em um estúdio na madrugada, se tornou incríveis três dias de muita aproximação e sensações que eles acreditavam que não sentiriam mais. Na sexta-feira ela agenda sua volta para Belo Horizonte, no voo das 22h. Até o horário do embarque, Vitor a convida para ficar na casa dele, se oferecendo para levá-la ao aeroporto à noite.

Enquanto ele prepara um café, ela observa as orquídeas que ele contou ter trago da fazenda. No instante que pega a garrafa, seu celular toca e ele estranha ao ver quem é.

— Alô?
— Vitor, boa tarde! Desculpa ligar sem avisar antes. Mas, aconteceu um acidente…
— Com as crianças? — se desespera.
— Não! Nada com eles, graças a Deus. É com meu pai… Preciso que você pegue as crianças na escola e fique com eles. Sei que não combinamos isso, mas preciso acompanhar meu pai.
— Está tudo bem. Pego eles.
— Obrigada! — desliga.

Paula observa ele, ainda tentando se acalmar do susto.

— Vitor, o que houve?
— Poliana telefonou, o pai sofreu um acidente e pediu que eu busque as crianças na escola.
— Meu Deus…
— Quando ela falou em acidente eu pensei ser com eles! — senta.
— Imagino! — pega um copo de água e dá para ele. Bebe… — senta ao lado dele. Que horas você precisa buscar eles?
— Agora… Eles saem daqui 15 minutos. — bebe a água. Obrigado! — levanta.
— Você pode me deixar no hotel?
— Por que? Você pode ficar aqui sem problemas. Eu já volto!
— Não quero atrapalhar, está tudo bem! — se levanta. Pego um Uber para o aero.
— Não está me atrapalhando, por favor! Fica aqui. Eu já volto! — pega as chaves do carro. Eles vão adorar te ver, eu garanto!
— Ok… Pode ir, fico aqui!

Ela o vê sair e é inundada por muitos pensamentos. O que significava ela conhecer as crianças pessoalmente? Ela já sabia tudo sobre eles, já tinha visto inúmeras fotos e vídeos. Mas conhecer eles era outra coisa. O que iam pensar? Como ela deveria falar?. Anda pela cozinha inquieta e decide fazer uma mesa de café da tarde, para o caso de chegarem com fome. Termina o café que Vitor estava preparando. Procura por algumas frutas na geladeira e faz um suco para as crianças. Vai colocando tudo sobre a mesa. André chega e se depara com a cena.

— Oi…
— Que cheiro bom de café…
— Pois é… Vitor estava fazendo e eu conclui. — sorri.
— Onde ele está?
— Parece que o pai da Poliana teve um acidente e ela ligou para ele ir pegar as crianças na escola.
— Caramba…
— Pois é… Será que ele vai achar ruim?
— O que?
— Eu ter feito isso… — mostra a mesa.
— Ah, claro que não! Fica tranquila. Você vai embora hoje? — pega uma xícara de café.
— Sim, ás 22h. Ele quis que eu ficasse aqui para ele poder me levar a noite.
— Entendi. Acho que nunca trabalhamos rindo e rendendo tanto ao mesmo tempo como nos últimos dias.
— Fico feliz! — ri. Digo o mesmo, viu? Foi muito divertido… Eu pensei que não sentiria mais prazer nenhum em gravar nada. Estava enganada.
— Sinto muito por tudo que te fizeram… Você é excelente, não merece essas coisas.
— Obrigada! — o celular toca — Só um minuto! — sinaliza para André e se retira da cozinha para atender — Oi Flávia, tudo bem? Isso… Pedi pro Junior pegar. Ele já pegou? — ela responde — Ok… Obrigada! . — encerra a ligação e já disca o número do Júnior — Oi Júnior! Você já está com as malas, né? Pode deixar na portaria do endereço que te mandei. Obrigada! — desliga.

Quando retorna a cozinha André já não está. Se sente mais ansiosa ainda por estar sozinha quando eles chegarem. Volta organizar a mesa e quando se senta para aguardar, os escuta chegar. Se levanta rapidamente e respira fundo.

— Oi! — sorri.
— Oi! — sorri, olhando aqueles olhinhos pequenos.
— Maria, a bolsa! — chega atrás dela.
— Aqui! — tira e entrega ao pai.
— Vocês lembram da Paula? — coloca as coisas deles sobre um balcão.
— Eu lembro! Você canta Não Precisa, né? Eu gosto de você cantando.
— Sim! — ri. Muito obrigada, fico lisonjeada.
— Eu acho que eu lembro também… — surge por detrás do Vitor.
— Oi João!
— Oi… — sorri.
— Vocês estão com fome? Eu fiz um suco! — mostra.
— Sim! — se senta. Eu não comi na escola.
— Eu comi — faz o mesmo — mas, eu tô com fome ainda. Você pode colocar para mim, por favor?
— Claro! — pega a jarra e serve Maria. Você quer? — olha para João.
— Quero!
— Aqui… — serve. Espero que vocês gostem!
— Obrigado — pega.
— Não precisava se incomodar, Paula! Muito obrigado… Vim no caminho pensando no que ia inventar para eles. — ri. Se senta, vou pegar algumas bolachas aqui… — abre os armários.
— Paula, o que você gosta de fazer?
— Hum… — pensa — eu gosto muito de andar a cavalo, gosto de desenhar, gosto de pintar, gosto de ficar com meus cachorrinhos. — sorri.
— Nós temos uma cachorrinha. Eu chamo ela de borboletinha… Mostra para ela Vivi a foto dela.
— Estou sem celular, ficou em casa. Pai, você tem a foto aí?
— Não sei filha… — se senta e pega o celular. Vou ver…

Vitor mostra a foto para Paula que fica encantada com a cachorrinha e resolve mostrar os seus para eles que ficam ainda mais eufóricos, pedindo para conhecer. André se junta a eles no café da tarde e depois de um tempo já segue para estúdio finalizar umas mixagens. Paula comenta com Vítor sobre as malas que receberá na portaria e ele se oferece para ir buscar. Ela aproveita e entretém as crianças, os chamando para desenhar.

— Caramba Paula… Você é boa, hein? — olha o dela. Como é o nome?
— É um dos meus cavalos! — ri. Chama Sereno!
— Você tem cavalos?
— Tenho alguns! — sorri. Vou mostrar para vocês! — pega o celular e coloca nos vídeos — olhem… — entrega para eles.
— Own… Que fofinho! — sorri. Meu pai tem cavalos mas a gente não pode andar muito porque eles são meio bravos…
— O Sereno é bem tranquilo… Aí tem a Nevaska… — vai ao lado deles e mostra outro vídeo — Essa aqui… — aponta — Linda, né?
— Muito!
— Aquilo ali são coelhos? — João aponta.
— Sim! — sorri.
— Meu Deus, que fofuxos… Olha Vivi!
— Caramba… Tem vários!
— Tem sim! — ri.
— Paula, leva a gente para conhecer!?
— Quando os pais de vocês deixarem, eu levo… — sorri.
— Para onde? — chega com as malas e a coloca no chão.
— O que tem aí? — vai até ele.
— São da Paula! Não seja curiosa…
— São bolsas e joias. — se levanta até eles.
— Eu adoro bolsas e joias! — sorri. Você pode me mostrar?
— Maria Vitória! — Vítor chama atenção.
— Está tudo bem! — ri — Posso mostrar sim. — deita a mala no chão e se abaixa para abrir.
— Só me diz uma coisa… Quanto mais ou menos tem em bolsas e joias aí dentro?
— Se eu disser você vai ficar bravo? — olha pra ele.
— Você é maluca? — riem — Como que me coloca coisas de tanto valor assim… em malas… e deixa na portaria! — ri.
— Ninguém ia saber! — sorri, puxando o zíper.

Maria Vitória se senta ao lado dela e no instante que a mala se abre, Paula se senta no chão, temendo o pior.

— Ué… — pega uma bolsa.
— Essa é linda! — Maria pega uma bolsa rosa. Mas está meio quebrada…
— Como assim? — Vitor olha.
— Meu Deus… — começa pegar as bolsas. Estão todas rasgadas, cortadas, sei lá… Olha isso… — mostra para ele.
— Paula… — sente o peito comprimir — Sinto muito… — se abaixa ao lado dela.
— Vitor… — começa chorar. As joias! — puxa a outra mala e abre com pressa. Não pode ser! — junta as joias na mão. Estão todas quebradas! — olha pra ele horrorizada.
— Maria e João… — se levanta — Vão para o quarto! Maria vai tomar banho e depois João toma… Já eu vou falar com vocês!

As crianças levantam e obedecem o pai. Ao saírem da sala ele vai até a Paula e a ampara.

— Pulinha, eu sinto muito! — acaricia os ombros dela.
— Vitor… Eu levei anos, anos… — paralisa.
— Paula, vamos resolver… — a leva até o sofá.

Ele volta nas malas e observa o estrago. As bolsas de grife estavam todas danificadas. Alças cortadas, fechos estourados. As joias pareciam ter sido quebradas com um martelo. Respira fundo e fecha as malas, colocando-as em um canto.

CONTINUA...