Antigo novo amor

7 Capítulo 07 - Ponte Aérea


Paula levanta a cabeça para olhá-lo e recebe o sorriso que amou por toda a vida. Ele se inclina, a beija e depois a puxa-a para seu peito, a abraçando. Ficam ali, em silêncio, apenas assimilando tudo que tinham acabado de viver.

— Preciso te contar uma coisa.

— Muito grave?

— Não… Recebemos uma proposta irrecusável e a dupla volta para uma turnê.

— Como assim? — ergue-se e o encara. Você e Leo vão voltar?

— Para uma turnê apenas, 70 shows em 30 cidades no ano que vem.

— Muito irrecusável?

— 70 milhões…

— Caramba! — se espanta e ele ri.

— Sim! Tive a mesma reação… — riem.

— Serão shows espaçados?

— Sim! — sorri — Conseguiremos nos ver tranquilamente.

— Estou feliz por você! — sorri. Vou amar ver isso.

— Vou amar viver isso com você! — a puxa para um beijo.

— Faz quanto tempo que decidiram?

— Tudo aconteceu em agosto. Vão começar a liberar a notícia aos poucos.

Conversam mais um tempo sobre a grande novidade e depois tomam coragem para saírem da banheira e tomarem um banho.

Na manhã seguinte seguem para a chácara.

— As crianças vão amar aquilo ali! — aponta para a casinha.

— Sim! — ri. Já pedi para fazerem uma limpeza e organizar os brinquedos lá dentro. Quando os trouxermos já estará tudo pronto! — sorri.

— Você comentou que sua mãe está praticamente casada… Qual o nome dele? Não me falou…

— Ildo! — sente a mão dele fria. O que foi? Está nervoso? — riem.

— Não! — mente. Tudo sob controle!

— Você já a viu…

— Sim! Está tudo sob controle. — pisca para ela.

Chegam a área externa da casa e Dulce está organizando uma mesa de café da manhã, repleta de coisas.

— Bom dia! — sorri. Vieram cedo… — abraça Paula. Como você está meu amor?

— Estou bem! — sorri. Que mesa linda… — observa.

— Está muito bonita mesmo! Como vai Dulce? — a abraça.

— Que cheiroso… — riem. Vou bem! Senta… Vamos comer! — indica para eles sentarem.

— Cadê o Ildo? — senta.

— Teve que ir levar o carro na cidade… O ar condicionado quebrou ontem, acredita? — serve Paula. Você quer café ou suco, Vitor?

— Café! — entrega a xícara para ela que enche e devolve.

— Fiz sem açúcar, como você prefere.

— Obrigado, não mereço tanto! — bebe.

— Nilmar apareceu por aqui?

— Não! — senta. Você nem imagina quem foi bater na casa da sua madrinha Neuza ontem… — se serve.

— Quem? — fica curiosa.

— Seu pai! — come um pedaço de bolo.

— Hum… — pega um pedaço de mamão.

— Não quer saber o que ele queria?

— Sinceramente, não.

— Ok! Vitor… — olha para o genro — Paula me mostrou fotos dos seus filhos e eu estou besta no quanto sua menina é sua cara!

— Todos dizem! — sorri. Ela lembra muito minha irmã também.

— Verdade! Faz um tempo que não vejo sua irmã, mas ela me recorda ela mesmo. O menininho tem muitos traços seus… Parece um bonequinho com aqueles cabelinhos pretinhos. Sempre achei que se a Paulinha tiver um bebê será assim!

— E com os olhos grandes… — olha para Paula — de jabuticabas. — sorri.

— Vocês andam imaginando bastante, né? Mudando de assunto… Vou para Campinas com Vitor hoje a noite e depois seguimos para Uberlândia. Volto no sábado, para o show. Pede para Isabella deixar o figurino dentro da capa e dobrar só em três partes. Mandei recado para ela, mas aí a senhora a lembra.

Passam um tempo de qualidade conversando. O celular de Paula toca e ela se retira para atender, avisando que é Serralheiro e que iria demorar um pouco. Dulce então fica a sós com Vitor.

— Vitor… — coloca a xícara sobre a mesa. Não vou bancar a sogra chata, nem nada do tipo. Mas, não posso deixar de falar isso. — ele presta atenção — Paula sofreu muito. Mais do que você pode tentar imaginar…

— Eu sei…

— Sei que não tem a intenção de brincar com ela e creio que tenha consciência que vocês também não tem mais idade para isso. Só te peço que não prometa nada a ela que você não queira cumprir. Não a deixe crer em nada que você não possa proporcionar. E se um dia, por Deus… — se emociona — Se um dia você não mais a quiser, seja franco com ela e a devolva para mim bem na medida do possível, porque sei que ela jamais ficaria bem, mas ao menos não me devolva ela destruída como eu peguei minha filha da última vez.

— Tenho percebido as sequelas que ela carrega. Eu sinto muito por ela ter sido devolvida a você. A minha intenção é nunca mais na vida devolvê-la, mas sabemos que a vida não anda conforme queremos, só que eu vou fazer o que tiver ao meu alcance para vivermos o que merecemos viver com respeito, doçura e muita lucidez, além do amor. Não tenho a mínima intenção de afastar você da vida dela, pelo contrário, o que puder contribuir para que vocês estejam sempre próximas, eu irei contribuir. Sei que a feri muito, Dulce… Tenho consciência que também causei nela muita dor e isso eu não vou me perdoar. Eu a amo profundamente, mas também já feri.

— É uma ilusão pensar que amor não fere, Vitor! — pega um morango e começa cortar. Amor também dói. Mas o outro precisa saber e reconhecer o que causa e se responsabilizar pela cura disso também. Você já fez isso. Agora eu só quero que você a faça feliz. Que seja capaz de respeitar ela e tenha caráter o suficiente para terminar se não a quiser mais. Não ocupe o tempo da Paula.

— Não vou te prometer que vai ser perfeito. Eu e Paula vamos bater de frente muitas vezes, assim como foi em outras épocas. Também não vou te garantir que em algum momento não vou chatear ela com algo que eu faça ou diga. Mas ocupar o tempo dela eu não vou. Não vou fazer ela perder o tempo dela comigo. Pra isso sim eu te dou minha palavra.

— Fico feliz que tenha sido sincero, sei que não será perfeito… Mas se for capaz de a fazer ficar bem, de trazer paz e de não querer afastar ela de nós e das pessoas que a amam, é mais do que suficiente. Mas tá bom… — come o morango. Vamos mudar de assunto… Quero poder conhecer seus filhos.

— Claro! — sorri. Estou indo para Campinas para me encontrar com eles, querem ver a Paula. — se serve com mais um pouco de café.

— Você já contou a eles?

— Já! — sorri.

— Que bom que gostaram então, né? E com sua mãe, vai ser tudo certo?

— Ainda não contei a ela, mas ela já sabe. Minha mãe tem um carinho muito especial pela Paula, jamais vai se opor a qualquer coisa e creio também que já não estou na idade dela querer se opor… — riem.

— Se não for atrapalhar seus planos, poderiam vir para cá, seus filhos, sua mãe… para passarmos uns dias aqui na chácara.

— Não é uma má ideia! — sorri. Vou ver como está a agenda deles, se precisam estar lá para fazerem algo, se não precisarem, os trago para cá.

— Excelente, me avise! — sorri.

— Sobre o que? — retorna.

— Falei pro Vitor trazer as crianças e a mãe dele aqui para chácara.

— Ah… — sorri — uma ótima ideia.

— Está tudo bem? — a observa.

— Sim! — mente.

— Vocês almoçam comigo?

— Não sei… — olha para Vitor. Você vai almoçar com sua madrinha?

— Não! Ela foi para Abre Campo hoje.

— Certo, então acho que ficaremos por aqui então.

— Ótimo! — se levanta. Vou ligar para Ildo trazer um peixe… Você gosta de peixe, né?

— Amo!

— Ok. — se retira.

— O que houve?

— Por que?

— Você não parece bem.

— Problemas no escritório, mas já resolvi.

— Entendi.

— Vem… — se levanta — vou te mostrar os cavalos!

Vitor terminar o café em sua xícara e sai levando um pedaço de bolo. Andam pela chácara conhecendo os bichos que ela tem.

— Cadê seus cachorros?

— Estão no pet shop… — ri. Foram tomar banho. — deita no chão.

— O que o Serralheiro falou? — deita ao lado.

— Como assim? — encara o pé de jabuticaba.

— Você não voltou bem da ligação… — segura a mão dela.

— Já vi que vou ter um problema sério com você… — vira para ele.

— Qual problema?

— Saber o que estou sentindo.

— Ah… É, realmente vou ser um problema. — sorri. Vem aqui… — a aconchega sobre seu braço.

Paula explica a ele que encontrou a oportunidade para assinar com uma empresa, braço da Universal, assumindo a responsabilidade por todo seu trabalho e recebendo autonomia para decidir as canções, mas tinha acabado de receber a notícia de que para isso teria que renovar seu contrato com os mesmos empresários e isso a deixou intrigada, pois é como se mesmo que tivesse assumindo as rédeas que restavam da carreira, teria que estar presa contratualmente por outro lado. Conta a ele que irá transformar a JM em uma gravadora e tudo que já estava planejado até ali. Conversam por um tempo e retornam a cozinha onde encontram Ildo e se cumprimentam, apresentando Vitor.

— Precisa de ajuda?

— Não! Lurdes já está me ajudando. Mas se você quiser colocar a mesa…

— Vou lá dentro buscar as coisas. Vitor — vai até ele — pode me ajudar? Preciso pegar algumas coisas.

— Claro! — levanta — Licença… — cumprimenta Ildo e vai atrás dela.

— Se você for bonzinho demais, Ildo vai te saturar! Ele não para de falar.

— Percebi! — riem.

— Só estou avisando… — olha para ele — ele é capaz de achar assunto para absolutamente tudo que você possa imaginar.

— Você realmente tem que buscar algumas coisas ou só quis me tirar de lá?

— Realmente vim buscar… — entram na casa. E te mostrar aqui dentro! — sorri.

— Mudou muito! — olha.

— Sim… Quando decidi vim morar aqui, lá em 2019 ainda, eu fiz uma reforma.

— Ficou lindo! — sorri. Muito lindo! — observa. Onde é seu quarto?

— Você está achando mesmo que vou te levar no meu quarto? — o encara.

— Por que não levaria? — vai até ela.

— Você só pode ir no meu quarto se minha mãe estiver aqui e temos que deixar a porta aberta… — se segura nos braços dele.

— Não vai ser um grande problema, fica tranquila… Não vou fazer nada inapropriado com você! — acaricia o rosto dela.

— Que pena… — sorri. Queria tanta coisa inapropriada! — riem. Inclusive vou pedir para mudar minha cama, não vai aguentar nós dois!

— Preciso analisar a cama para ver se realmente será necessário. Vamos lá?

— Vem! — seguem.

Eles caminham até o quarto dela, onde ela vai mostrando os outros cômodos.

— Está bagunçado ainda porque eu estava retirando as coisas… — abre a porta.

— Que cama linda… — olha para ela, piscando.

— Viu, só? — riem. Mas, é pequena para nós dois! — fecha a porta.

— Não tanto… Posso? — aponta.

— Deve! — se deita.

— Obrigado! — faz o mesmo. Adorei a cabeceira, bem fazenda… — passa a mão.

— Não conheci seu quarto na fazenda.

— Vai conhecer. Vai conhecer tanto que vai ficar enjoada.

— Da sua casa também?

— Também! — riem.

— Obrigada por me certificar que estarei bem servida sexualmente.

— Por nada!

— Vi… — vira para ele — tem certeza que sua mãe não ficará chateada?

— Com o que?

— Com não ter contado a ela.

— Não ficará, Paula.

— Tem o Leo ainda…

— Tem. Mas, você não tem que se preocupar com nada disso. Não tem que se preocupar com minha família; meus amigos, ninguém. Se eu escolhi estar com você, eles precisam respeitar isso e se amarem, ficarão felizes com a minha felicidade.

— Na prática não é bem assim, Vitor.

— Acho que você está muito insegura. — levanta da cama. E espero que não seja comigo! — vai até a janela, observando.

— Claro que não! — senta. Só estou preocupada. Não quero causar mal estar na sua família, não quero ser uma vergonha para você, não quero que você tenha que me deixar.

Vitor se vira para ela, escorando sobre a janela. A observa por um tempo e sorri se dirigindo até ela.

— O que foi? — vê ele subir na cama.

— A única vergonha que tenho é a que me impede de abrir essas cortinas e fazer qualquer coisa com você agora, aqui, com tudo aberto. Essa é a única vergonha que posso sentir… — senta ao lado dela. Mas nada nos impede de fazer isso daqui alguns dias… Nem a vergonha. — pisca.

— Estou falando sério e você com safadeza!

— Não sei o que te responder. Não sei o que você quer que eu te responda. Nada do que eu falar adianta. Seu medo é justo e é o mesmo que o meu. Já parou para pensar que você que pode me deixar? Acontece que mal começamos algo e você está temendo monstros que nem existem. — levanta. O que temos que pegar?

— Você ficou chateado?

— Não… Eu estou na verdade preocupado. Porque você está tendo medos que não consigo compreender porque estão te incomodando tanto. Quero te pedir o seguinte… — a encara — se você não estiver tranquila para estar com minha família, não precisamos fazer isso agora. Mas, gostaria muito que você pudesse ver e sentir que seus medos não terão fundamento. Ok? Até a hora do voo você decide se vai comigo ou se quer ficar aqui por um tempo ainda, eu vou entender.

Ela levanta e sai do quarto. Ele a segue. Recolhem os pratos e as taças e levam para a área gourmet.

— Ligue para Nilmar, veja se ele vem almoçar conosco! — a vê chegar.

— Ok. — coloca os pratos na mesa.

Paula se afasta e telefona para o irmão que informa que não poderá ir. Ao retornar se junta a Vitor e Ildo que conversam sobre cavalos.

Permanece em silêncio durante o almoço, somente ouvindo o que conversavam e percebe quando Vitor se dá conta disso. Após a refeição, se despedem e voltam para o apartamento organizar os últimos detalhes antes do voo.

— Oi… — entra.

— Oi! — fecha a mala. Coloquei sua roupa suja em um saquinho que tenho aqui e coloquei na sua mala.

— Obrigado, estava me esquecendo!

— Não quero que pense que não quero roupas suas aqui… Porque quero! — ri.

— Quando retornar, trago algumas peças para já ficar aqui.

— Ok! — sorri.

— Você vai?

— Eu vou… — olha para ele. Não cogitei não ir em nenhum momento. Quero muito ver as crianças…

— E quanto a minha mãe e Leo…

— Não vamos contar para o Leo ainda, tudo bem? — o interrompe.

— Tudo.

— Quero me aproximar dele novamente e depois contamos… Ainda que eu desconfie que ele vá saber.

— Sim, ele vai.

— De qualquer forma, só diz que fui gravar umas músicas e você me convidou.

— Preciso dizer as crianças para não contarem.

— Ok.

— Você está animada?

— Meio apreensiva… É estranho… Já se passaram muitos anos, muita coisa já mudou!

— Sim! — sorri. Também fiquei apreensivo em ver sua mãe também, mas deu tudo certo.

— Quando eu sai, ela conversou alguma coisa com você?

— Sim! — ri.

— Não leve pro lado pessoal. Acho que ela se assustou com a forma que voltei de SP.

— Eu me assusto quando vejo as consequências de como você voltou… Eu consigo imaginar o quanto ela sofreu.

— É…

— Mas não tem problema. — a puxa para um abraço. Somos uma nova história… — sorri. Em que você vai ver o quanto é grandiosa e incrível.

— Poderia perguntar se minha mãe mandou você dizer isso… Mas eu tenho certeza que não. Você sempre me enalteceu… — se aconchega no abraço. Obrigada!

Finalizam as malas e após Paula conferir três vezes se tudo estava em ordem no apartamento, eles seguem para o aeroporto. Algumas horas depois já estão em solos paulistas, mais precisamente em Campinas. Vitor pega seu carro que estava no aeroporto e seguem para casa dele. No caminho pedem o jantar.