Antigo novo amor
44 Capítulo 44 - Capivara x Idosos
A manhã da viagem chegou cedo demais.
Paula acordou antes mesmo do despertador tocar. Ficou alguns segundos encarando o teto do quarto em silêncio, tentando entender se o frio estranho no estômago era ansiedade, medo ou expectativa.
Provavelmente os três.
Virou o rosto devagar para a janela. O céu de Belo Horizonte ainda estava claro demais para o horário e, pela primeira vez em dias, não chovia.
Aquilo pareceu quase simbólico.
Ela se levantou sem pressa, tomou um banho demorado e escolheu uma roupa confortável para viajar. Nada exagerado. Um conjunto claro de tricô leve, tênis e um casaco porque sabia que sentiria frio no avião.
Enquanto terminava a maquiagem mais leve do que o normal, o celular vibrou sobre a bancada do banheiro.
Uma mensagem dele.
“Bom dia. O Leo já saiu de Uberlândia. Vai passar em BH pra te buscar antes de seguir pra Limeira.”
Paula sorriu sem perceber. Outra mensagem apareceu logo abaixo:
“E ele já avisou que provavelmente vai querer tirar foto da barriga.”
Ela soltou uma risada baixa imediatamente.
“Se ele tentar, eu derrubo ele do avião.”
A resposta veio rápida:
“Vou fingir que não li essa ameaça porque vocês dois juntos são perigosos.”
Paula balançou a cabeça sorrindo enquanto terminava de prender o cabelo.
Pouco depois, desceu com a mala já pronta. Encontrou Dulce na cozinha tomando café e organizando algumas coisas no celular.
— Dormiu?
Paula puxou a cadeira devagar.
— Mais ou menos.
Dulce empurrou a xícara de chá na direção dela sem comentar o óbvio.
— Está ansiosa.
Paula soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Um pouco.
A mãe observou ela em silêncio por um instante antes de perguntar:
— Quer que eu vá com você?
Paula negou imediatamente.
— Não.
Segurou a mão da filha rapidamente.
— Vai no seu tempo…
Paula apertou os dedos dela de volta antes de assentir. Não demorou muito até o celular vibrar outra vez.
Leo.
“Pousando em BH. E já aviso que exijo direitos de tio preferido.”
Paula começou a rir sozinha antes de responder:
“Nem nasceu e você já está competindo.”
A resposta veio quase instantânea:
“Claro. Vitor é pai… será o chato. Eu sou o tio, o divertido.”
Ela ainda sorria quando se levantou da mesa.
A viagem até o aeroporto foi tranquila. Isabella insistiu em acompanhá-la mesmo depois de Paula dizer várias vezes que não precisava.
— Eu só quero garantir que você vai entrar no avião e não fugir da própria vida no meio do caminho.
Paula lançou um olhar atravessado enquanto colocava os óculos escuros.
— Você é uma pessoa muito dramática.
— E você está indo passar o fim de semana no aniversário do homem que claramente ainda ama.
Paula abriu a porta do carro.
— Tchau, Isabella.
Ela começou a rir imediatamente.
No hangar, Leo já esperava perto do avião quando Paula chegou. Assim que desceu do carro, ele abriu os braços.
— Finalmente a grávida mais famosa do Brasil.
Paula começou a rir enquanto abraçava ele.
— Você é exagerado.
— Você está linda.
Ele se afastou só o suficiente para olhar discretamente para a barriga dela antes de apontar:
— Posso falar uma coisa?
— Não sei se quero ouvir.
— Você realmente está com cara de mãe.
Aquilo pegou ela desprevenida de um jeito bom. Leo sorriu menor dessa vez. Mais sincero.
— Está bonita assim.
Paula agradeceu baixinho antes dos dois seguirem para o avião.
O voo foi leve. Leo falou praticamente o caminho inteiro, sobre o evento em Limeira, sobre a correria da agenda, sobre José perguntando quando poderia ver a bebê e inevitavelmente, acabaram falando sobre a gravidez também.
Leo apoiou a cabeça no banco por um instante antes de olhar para ela novamente.
— Mas falando sério…
O tom suavizou.
— Fazia tempo que eu não via o Vitor tão feliz.
Paula desviou os olhos automaticamente para a janela. O coração apertou daquele jeito perigoso outra vez.
Leo percebeu na mesma hora e, como se entendesse que talvez tivesse ido longe demais, voltou naturalmente para outro assunto e Paula agradeceu silenciosamente por isso porque já era difícil o suficiente lidar com a expectativa crescendo dentro dela a cada quilômetro que aproximava o avião de Campinas.
Ela estava indo para uma cidade que conhecia bem demais. Para a casa dele. Para o aniversário dele. E, pela primeira vez em muito tempo, não fazia ideia de como sairia de lá.
O avião pousou pouco depois do horário do almoço. Campinas aparecia pela janela iluminada pelo sol forte do início da tarde, e Paula sentiu aquele aperto estranho crescer outra vez dentro do peito quando reconheceu a cidade lá embaixo.
Leo desligou o celular ao lado dela e se espreguiçou minimamente.
— Bem-vinda oficialmente ao interior paulista.
Paula soltou um pequeno riso.
— Você fala como se eu nunca tivesse vindo aqui.
— Mas agora é diferente.
Ele comentou sem olhar diretamente para ela e Paula entendeu perfeitamente o que ele queria dizer.
O avião finalmente parou no hangar particular e, antes mesmo da porta abrir completamente, Leo já pegava a mochila.
— Ele chegou.
Aquilo fez o coração dela acelerar num nível completamente irritante.
Paula respirou fundo discretamente antes de se levantar. Quando desceu a escada do avião, viu Vitor imediatamente. Encostado no carro, usando camiseta escura, calça jeans e os óculos escuros presos na gola da camiseta. Simples. Natural. E ainda assim absurdamente perigoso para a estabilidade emocional dela.
Ele levantou o rosto no instante em que ouviu os passos e o olhar mudou completamente quando encontrou ela. Foi automático. O sorriso apareceu primeiro nos olhos antes mesmo da boca.
Paula sentiu o próprio corpo reagir na mesma hora e odiou o quanto aquilo continuava acontecendo com facilidade.
Leo percebeu os dois se encarando, mas apenas desviou o olhar discretamente, como quem respeitava aquele momento sem precisar brincar sobre ele. Pegou a mala dela antes mesmo que alguém falasse qualquer coisa.
Vitor já tinha se aproximado. Parou diante dela por um segundo curto demais para ser confortável ou seguro.
— Oi.
A voz saiu mais baixa do que o normal. Paula sustentou o olhar dele por um instante antes de sorrir pequeno.
— Oi.
E foi impressionante como uma palavra tão simples conseguiu carregar tanta coisa.
Vitor então abriu os braços devagar, dando espaço para ela decidir. Paula não pensou muito antes de abraçá-lo e talvez esse tenha sido o primeiro erro do fim de semana porque no instante em que os braços dele envolveram ela de volta, firmes, quentes e familiares, alguma coisa dentro dela simplesmente relaxou como se o corpo reconhecesse antes da cabeça.
Vitor fechou os olhos por um segundo curto enquanto apertava ela discretamente contra si.
— Senti saudade!
A frase saiu baixa. Sincera demais. Paula respirou fundo devagar antes de se afastar só o suficiente para olhar para ele outra vez.
— Também senti.
A honestidade escapou antes que pudesse controlar e Vitor percebeu imediatamente. O olhar dele suavizou daquele jeito perigoso outra vez.
Leo se aproximou nesse instante puxando a mala dela atrás de si e entregou para o irmão sem comentar nada, mas um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele ao observar os dois.
— Vou precisar ir direto pra Limeira ou chego atrasado naquele evento.
Vitor assentiu.
— Dirige com cuidado.
Leo olhou rapidamente para Paula.
— Qualquer coisa, me chama.
Ela sorriu.
— Pode deixar.
Ele abraçou ela rapidamente antes de entrar no próprio carro. Ainda lançou um último olhar discreto para os dois antes de partir e Paula teve a sensação nítida de que ele tinha entendido muito mais coisa do que comentou.
O silêncio ficou diferente assim que ficaram sozinhos. Mais íntimo. Mais real.
Vitor colocou a mala dela no porta-malas sem dificuldade e abriu a porta do carro para ela. Paula entrou tentando ignorar o nervosismo completamente absurdo que sentia agora.
O caminho até a casa dele começou silencioso. Paula observava a cidade pela janela enquanto tentava ignorar o nervosismo crescente no peito. Vitor percebeu quase imediatamente. Claro que percebeu.
Ela mexia no anel do dedo sem notar. Olhava a rua sem realmente prestar atenção. Respirava fundo demais em alguns momentos.
Ele apoiou melhor uma das mãos no volante antes de comentar, casual:
— Hoje foi a primeira vez que as crianças foram sozinhas pra minha casa.
Paula virou o rosto automaticamente, agradecendo internamente pela mudança de assunto.
— Sozinhas como?
— A avó deles deixou eles na portaria e eles entraram caminhando.
Ela arregalou minimamente os olhos.
— Você está falando sério?
O canto da boca dele subiu.
— Estou.
Paula começou a rir.
— Vitor… vocês moram no mesmo condomínio.
— Em setores diferentes.
Ele rebateu imediatamente.
— E é meio longe.
Ela continuava rindo.
— As crianças nunca andaram sozinhas lá dentro?
— Não.
A resposta saiu simples. Natural. Paula balançou a cabeça desacreditada.
— Meu Deus… isso é muito coisa de pai paranoico.
Vitor fingiu indignação.
— Eu prefiro chamar de responsável.
— Você claramente surtaria se uma folha caísse perto deles no caminho.
Ele soltou um pequeno riso pelo nariz antes de admitir:
— Eu não estava confortável.
O olhar permaneceu na estrada.
— Mas também entendi que faz parte eles começarem a sair mais sozinhos… só ali dentro, claro.
Aquilo suavizou imediatamente a expressão dela porque havia sinceridade ali e esforço também.
Paula apoiou melhor o corpo no banco antes de sorrir de lado.
— Aposto que você deixou alguém observando escondido.
O silêncio dele durou exatamente dois segundos. O suficiente. Ela começou a rir imediatamente.
— Vitor…
Ele finalmente riu também, derrotado.
— A Lucy ficou acompanhando eles de longe até chegarem na minha casa.
Paula gargalhou baixo, levando a mão ao rosto.
— Eu sabia!
— Só por segurança.
— Segurança de quê? Uma emboscada infantil no condomínio?
— Você ironiza porque ainda não viu o João atravessando rua correndo atrás de passarinho.
Ela ria ainda mais agora.
— Coitada da Lucy.
— Ela mandou áudio indignada dizendo que parecia agente secreta.
Paula balançou a cabeça completamente desacreditada enquanto ele sorria pequeno ao lado dela e, irritantemente, funcionou. O nervosismo diminuiu, porque Vitor fazia aquilo sem esforço: percebia quando ela estava começando a pensar demais… e puxava ela de volta para algo leve antes que afundasse.
— A Maria também começou com uma coisa nova essa semana.
Paula virou o rosto para ele.
— O quê?
O sorriso dele aumentou discretamente.
— Ela não sabe mais se te chama de “tia Paula” ou “mãe da bebê”.
Paula começou a rir imediatamente.
— Não acredito.
— Ontem ela falou os dois na mesma frase.
Ele imitou o tom confuso da filha:
— “Tia Paula… quer dizer… mãe da bebê…”
— Meu Deus…
— E ela ficou genuinamente irritada porque ninguém respondeu qual era o correto.
Ela ria daquele jeito mais leve agora. Mais solto.
— O que você respondeu?
— Que ela podia chamar você do que quisesse.
O olhar dele desviou rapidamente para ela.
— Desde que fosse com carinho.
Aquilo atingiu ela de um jeito perigosamente silencioso. Antes que pudesse responder qualquer coisa, ele continuou:
— Já o João está focado em outro problema.
Paula respirou fundo discretamente antes de perguntar:
— Qual é dessa vez?
— Ensinar fauna brasileira pra bebê.
Ela soltou uma gargalhada baixa na mesma hora.
— Claro que ele está.
— Ele fez um desenho inteiro de capivaras e aparentemente agora ele decidiu que precisa apresentar todos os animais oficialmente pra irmã.
Paula ria enquanto imaginava a cena.
— Irmã…
Repetiu sem perceber. A palavra ficou pequena dentro do carro, mas enorme entre eles.
— Ele perguntou se bebê aprende por osmose.
Paula virou o rosto imediatamente. Agora ele já ria também.
— Porque queria saber se, colocando os desenhos perto da barriga, ela já nasceria sabendo identificar uma capivara.
Paula ainda ria enquanto balançava a cabeça.
— Eu amo seus filhos.
A voz saiu mais baixa agora. Mais sincera.
— E amo o fato deles serem tão inteligentes.
Ela apoiou o braço na porta do carro, olhando rapidamente pela janela antes de completar:
— Isso me tranquiliza um pouco… porque significa que a bebê provavelmente também vai ser.
Vitor soltou um pequeno riso imediato.
— Paula…
Ela virou o rosto para ele.
— Como se existisse alguma possibilidade dessa criança não ser inteligente sendo gerada pela mãe que está sendo.
Aquilo pegou ela desprevenida o suficiente para deixá-la em silêncio por um segundo.
Vitor continuou dirigindo como se não tivesse acabado de desmontar ela emocionalmente outra vez.
— Você é uma das mulheres mais inteligentes que eu conheço!
A voz saiu calma. Natural.
— Então acho que ela já começou muito bem.
Paula desviou o olhar imediatamente para a janela porque sentir o coração acelerar daquele jeito já estava ficando frequente perto dele.
— Você fala essas coisas muito tranquilamente.
Comentou tentando soar casual.
— Porque são verdade.
Ele respondeu sem hesitar. Aquilo fez ela rir baixo pelo nariz, quase sem saída.
— Isso não ajuda muito no meu projeto de continuar racional.
O canto da boca dele subiu devagar.
— Ainda existe esse projeto?
Paula lançou um olhar atravessado na direção dele.
— Existe. Está lutando pela sobrevivência nesse momento!
Vitor riu baixo enquanto diminuía a velocidade do carro ao virar outra rua do condomínio.
— Coitado desse projeto.
Ela tentou não sorrir. Falhou completamente.dele, até as tentativas dela de manter distância acabavam virando intimidade outra vez.
— Só por curiosidade científica…
Ela já estreitou os olhos automaticamente.
— O que aconteceria exatamente se esse projeto falhasse?
Paula virou o rosto lentamente na direção dele.
— Você é inacreditável.
Ele ignorou completamente.
— Tipo assim…
Fingiu pensar enquanto mantinha os olhos na estrada.
— Aconteceria o quê? Um beijo? Dois? Uma recaída emocional completa?
Paula começou a rir imediatamente, desacreditada.
— Você realmente não consegue se controlar.
— Estou apenas tentando entender os riscos envolvidos.
Ela cruzou os braços.
— Não existe pesquisa científica nenhuma acontecendo aqui.
— Existe sim.
O sorriso dele aumentou um pouco.
— Estou trabalhando com evidências recentes.
Paula já começava a rir de novo.
— Ah, claro.
— Porque sinceramente…
Ele virou o rosto rapidamente para ela.
— Depois daquele beijo na minha bochecha antes de eu ir embora da chácara, achei que o projeto já estava em estado crítico.
O coração dela tropeçou imediatamente dentro do peito.
— Vitor…
Ele começou a rir baixo ao perceber ela sem reação instantânea.
— Estou mentindo?
O problema era justamente esse: ele não estava. Paula desviou o olhar imediatamente para a janela numa tentativa completamente inútil de esconder o sorriso.
Vitor percebeu. Claro que percebeu.
— Ah…
Ele soltou um pequeno riso satisfeito.
— Então realmente existe uma chance de falência emocional.
Ela virou o rosto de novo, incrédula.
— Você está segue convencido…
— Não, eu só estou observando padrões recentes de comportamento.
Paula respirou fundo dramaticamente.
— Talvez eu devesse ter vindo com a Isabella.
Vitor gargalhou baixo.
— Não. Porque aí eu teria duas pessoas me julgando dentro do mesmo ambiente.
— Merecidamente.
— Discordo.
O olhar dele desviou rapidamente para ela outra vez.
— Inclusive, acho importante registrar que estou me comportando muito melhor do que gostaria.
Aquilo fez o estômago dela virar perigosamente outra vez. Porque a voz tinha saído baixa. Mais sincera do que provocativa dessa vez e Paula percebeu imediatamente que talvez o “projeto racional” estivesse mesmo ficando por um fio.
O carro mal parou na frente da casa e a porta já se abriu. Maria apareceu primeiro.
— Eles chegaram!
A voz atravessou a garagem inteira antes mesmo dela começar a correr. João veio logo atrás, segurando várias folhas de papel dobradas nas mãos, claramente tentando correr sem deixar nada cair no caminho.
Paula nem teve tempo de abrir completamente a porta do carro antes dos dois chegarem nela ao mesmo tempo.
— Tia Paula!
Maria praticamente se jogou no abraço dela primeiro, envolvendo a cintura dela com força. João veio logo depois, mais contido fisicamente, mas igualmente animado.
— Você veio mesmo!
Paula começou a rir imediatamente enquanto abraçava os dois.
— Claro que eu vim.
Maria já se afastou só o suficiente para olhar diretamente para a barriga dela.
— E a bebê?
Paula arregalou minimamente os olhos antes de rir.
— A bebê também veio.
Maria pareceu genuinamente aliviada com a informação.
— Ainda bem.
João então ergueu imediatamente as folhas nas mãos.
— Eu fiz uma lista.
Paula olhou para ele, divertida.
— Uma lista?
— Dos animais que ela precisa aprender primeiro.
A seriedade dele era tão absoluta que Paula começou a rir outra vez.
— Ah, isso é muito importante mesmo.
— Eu organizei por nível de relevância brasileira.
Vitor, que tirava a mala do porta-malas naquele momento, soltou uma gargalhada baixa.
— Filho… o que exatamente define relevância brasileira?
João virou o rosto imediatamente.
— Pai, é óbvio.
Apontou para a primeira folha.
— Capivaras vêm primeiro.
Paula já ria tanto que precisou apoiar a mão no carro.
— Claro que vêm.
Maria puxou a mão dela outra vez.
— E eu desenhei um vestido pra bebê.
— Você desenhou?
Ela assentiu animada.
— Com brilho.
— Fundamental! Já quero ver.
Vitor fechou o porta-malas e observou a cena por alguns segundos em silêncio.
Os dois filhos praticamente disputando atenção dela. Paula rindo daquele jeito leve que ele sentia falta fazia tempo e a barriga ainda pequena começando, aos poucos, a fazer parte natural daquele cenário. Alguma coisa no peito dele apertou bonito.
— Certo.
Ele finalmente chamou enquanto pegava a mala dela.
— Vocês podem deixar a Paula respirar pelo menos até entrar na casa.
— A gente está deixando — Maria respondeu imediatamente, ainda agarrada na mão dela.
Paula começou a rir.
— Está tudo bem.
E honestamente… estava mesmo. Porque o nervosismo absurdo que sentia no caminho começou a diminuir no instante em que as crianças ocuparam completamente o espaço.
Elas preenchiam tudo. A atenção. O ambiente.
Os silêncios. E aquilo era quase um alívio porque significava que Vitor ficava mais quieto. Mais contido. Sem provocar ela a cada cinco minutos daquele jeito perigosamente eficiente.
Assim que entraram na casa, Lucy apareceu vindo da cozinha.
— Finalmente.
O sorriso dela surgiu imediatamente ao ver Paula.
— Meu Deus, olha você…
Paula sorriu antes de abraçá-la com carinho.
— Oi, Lucy.
A mulher segurou os braços dela por um instante antes de olhar discretamente para a barriga.
— Você está linda.
— Obrigada.
Maria imediatamente puxou Paula outra vez.
— Vem ver o quarto que a gente arrumou pras coisas da bebê.
João levantou as folhas novamente.
— E minha lista também.
Vitor soltou o ar pelo nariz, claramente derrotado.
— Acho que oficialmente perdi qualquer chance de atenção hoje.
Paula virou o rosto automaticamente na direção dele e encontrou ele olhando exatamente para ela. Com aquele sorriso pequeno. Calmo. Afetado demais. O tipo de olhar que fazia ela esquecer completamente como respirar direito por alguns segundos.
Então Maria puxou a mão dela outra vez.
— Vem!
E Paula agradeceu internamente pela interrupção porque ficar ocupada com as crianças parecia muito mais seguro do que lidar com o jeito que Vitor continuava olhando para ela desde que tinha chegado.
Maria praticamente arrastou Paula escada acima junto com João, os dois falando ao mesmo tempo.
— A gente organizou tudo ontem.
— Mas fui eu quem teve a ideia primeiro.
— Mentira, fui eu.
— Pai, fala pra ela que fui eu.
Vitor vinha logo atrás carregando a mala dela, claramente sem qualquer chance de interferir naquela disputa.
Paula ria enquanto tentava acompanhar os dois pelo corredor até Maria abrir a porta do próprio quarto dramaticamente.
— Tcharam!
Paula entrou ainda sorrindo… mas o sorriso diminuiu devagar no instante em que viu.
Num canto da cômoda branca do quarto havia várias coisinhas organizadas cuidadosamente.
Pequenas roupas dobradas. Uma mantinha rosada. Dois sapatinhos minúsculos. Um ursinho.
Produtos de bebê ainda fechados e algumas faixas de cabelo organizadas numa caixinha transparente. Tudo simples. Mas absurdamente íntimo.
Paula parou completamente imóvel olhando aquilo. Porque até aquele instante, a gravidez ainda parecia existir principalmente na rotina médica, nas conversas, nas notícias, nos planos.
Mas aquilo… Aquilo era espaço. Espaço real dentro da casa dele. Dentro da vida dele.
Maria se aproximou dela imediatamente.
— Eu pedi pro papai deixar as coisas aqui comigo primeiro.
Apontou orgulhosa para a cômoda.
— Porque a bebê ainda é pequenininha.
João cruzou os braços ao lado.
— Mas ele falou que depois ela vai ter o quarto dela aqui também.
Paula piscou lentamente.
— O quê?
Maria assentiu várias vezes.
— Igual eu e o João temos.
A garganta dela apertou na mesma hora. Porque Vitor não tinha comentado nada. Nada.
Nem sobre comprar coisas. Nem sobre preparar espaço. Nem sobre já existir um lugar para aquela menina dentro da casa dele.
Paula passou os olhos pelas roupinhas outra vez, completamente atingida por uma emoção que veio rápida demais.
Ela mal percebeu quando Vitor apareceu na porta do quarto. Mas ele percebeu imediatamente.
O silêncio dela. Os olhos marejados. O jeito como ela olhava para aquele canto da cômoda como se estivesse tentando absorver algo grande demais.
As crianças continuavam falando alguma coisa sobre os desenhos e os bichinhos, mas Paula já quase não ouvia direito.
Então ergueu os olhos lentamente para ele.
— Por que você não me contou isso?
A pergunta saiu baixa. Sem acusação. Só… emocional demais.
Vitor continuou parado na porta por um segundo antes de responder.
— Porque eu não queria te pressionar.
A voz dele saiu calma.
— Nem fazer parecer que eu estava tentando acelerar alguma coisa entre nós.
Paula sustentou o olhar dele em silêncio e aquilo piorava tudo porque ela sabia que ele estava sendo sincero.
Ele apoiou a mão no batente antes de continuar:
— Mas eu também não conseguia fingir que ela não vai existir aqui.
Os olhos dele desceram rapidamente para as coisinhas organizadas na cômoda.
— Porque vai.
O quarto ficou silencioso por alguns segundos. Até Maria perceber o clima estranho e olhar alternadamente entre os dois.
— Era pra ser surpresa boa…
Aquilo fez Paula rir chorando ao mesmo tempo.
— E é, meu amor.
Ela se abaixou imediatamente para abraçar a menina.
— É uma surpresa muito boa.
João então se aproximou também.
— Eu falei pro pai que precisava de espaço pras capivaras de pelúcia.
Paula começou a rir de verdade agora, enxugando discretamente os olhos.
— Precisamos mesmo! Eu tenho várias em casa...
Vitor observava a cena inteira em silêncio e talvez tenha sido exatamente ali, vendo Paula abraçada nos filhos dele dentro daquele quarto, emocionada com coisas da bebê espalhadas pela casa… que alguma coisa nele começou a acreditar de verdade que talvez aquela família estivesse finalmente encontrando o caminho de volta.
Paula ainda tentava absorver tudo enquanto se aproximava mais da cômoda.
Os dedos tocaram as roupinhas pequenas com cuidado quase automático. Era estranho pensar que existia uma bebê ali no meio daquilo tudo.
A filha deles.
Maria já apontava animada para cada peça:
— Esse fui eu quem escolhi… Esse o João achou feio e esse daqui o papai comprou.
Paula começou a rir baixo enquanto desdobrava uma das roupas menores. Até pegar um vestidinho verde claro. O tecido parecia mais antigo que os outros. Mais delicado também.
Ela passou os dedos devagar pela manga pequena antes de olhar para Maria.
— Esse aqui é lindo…
Maria sorriu imediatamente.
— Era meu.
Paula ergueu os olhos na direção dela.
— Seu?
— Uhum.
A menina assentiu orgulhosa.
— O papai guardou.
O coração dela apertou na mesma hora. Devagar, Paula virou o rosto na direção de Vitor.
Ele ainda estava encostado na porta observando tudo em silêncio e sustentou o olhar dela de volta sem fugir.
— Eu guardei algumas coisas dos dois.
A voz saiu calma.
— Esse vestido era um dos mais bonitinhos da Maria quando pequena.
Paula voltou a olhar para a peça nas mãos. Pequena demais. Delicada demais. Carregada de memória demais.
— E agora vai ser da bebê.
Vitor completou.
Aquilo atingiu ela num lugar profundamente emocional porque existia alguma coisa muito íntima em um homem guardar roupas dos filhos por anos… e depois imaginar outra criança usando… A filha deles.
Paula passou a mão pelo tecido outra vez, já sentindo os olhos queimarem discretamente.
— Você guardou isso esse tempo todo…
O sorriso dele foi pequeno. Quase tímido.
— Algumas coisas merecem ser guardadas.
O silêncio ficou bonito outra vez. Até João apontar para o vestido:
— A bebê vai ficar pequena igual a Maria?
Paula riu baixinho enquanto enxugava o canto do olho discretamente.
— Não sei… Bebes geralmente nascem pequenos, mas acho que a irmã de vocês não será tão pequena!
— Ainda bem.
Maria respondeu imediatamente.
— Porque eu era muito pequena.
— Você continua sendo.
Vitor comentou da porta. Maria virou o rosto na mesma hora.
— Pai!
Maria ainda discutia indignada com João sobre altura quando Vitor finalmente entrou no quarto de verdade.
Passou por eles devagar, aproximando-se da cômoda enquanto Paula ainda segurava o vestido verde entre as mãos.
Ela acompanhou ele com o olhar, curiosa, até vê-lo abrir uma das gavetas inferiores.
— Pai, você vai mostrar?
Maria praticamente pulou animada. Vitor soltou um pequeno riso pelo nariz antes de pegar uma caixinha pequena de joia lá dentro.
O coração de Paula apertou imediatamente sem nem saber por quê.
Ele voltou até ela calmamente e então abriu a caixinha. Dentro havia um par de brincos minúsculos. Borboletas delicadas em ouro claro, pequenas demais, com detalhes discretos brilhando sob a luz do quarto.
Paula literalmente perdeu o ar por um segundo.
— Vitor…
A voz saiu quase num sussurro. Ela pegou a caixinha devagar, completamente derretida pela delicadeza daquilo.
— Meu Deus…
Maria já sorria orgulhosa.
— Foi o papai que escolheu, mas eu ajudei!
Paula ergueu os olhos imediatamente para ele.
— Onde você comprou isso?
O sorriso dele apareceu pequeno. Quase tímido agora.
— Faz umas semanas.
Ela arregalou minimamente os olhos.
— Umas semanas?
— Uhum.
Paula voltou a olhar para os brincos, completamente sem reação.
— Em que momento você fez isso?
Vitor deu de ombros de forma tranquila demais.
— Em algum momento em que você provavelmente estava brigando comigo por mensagem.
Aquilo fez ela rir baixo, ainda completamente emocionada.
— Você comprou joias pra bebê escondido de mim?
— Tecnicamente são brincos muito pequenos. Não sei se entram oficialmente como joias.
João interrompeu imediatamente:
— Entram sim.
Vitor apontou para o filho.
— Obrigado pela consultoria jurídica.
Paula mal ouviu direito porque ainda estava olhando as borboletinhas: Pequenas. Delicadas. Cheias de intenção.
— São lindas…
Vitor observava ela em silêncio agora. O jeito cuidadoso com que ela segurava a caixinha.
O brilho nos olhos dela. A emoção completamente genuína que ela nem tentava esconder mais e alguma coisa no peito dele ficou absurdamente mole vendo aquilo.
— Eu vi e pensei nela na hora.
A voz saiu mais baixa. Paula levantou os olhos lentamente na direção dele outra vez.
— Borboletas…
Ele assentiu.
— Você falou naquele dia no carro que queria borboletas no quarto dela.
O coração dela apertou tão forte que quase doeu porque ele lembrava. De tudo. Das menores coisas. Das conversas aparentemente simples.
Dos detalhes que ela mesma esquecia depois.
Paula sorriu sem perceber enquanto fechava a caixinha com cuidado.
— Você é muito perigoso.
Vitor franziu levemente a testa, divertido.
— Por comprar brincos de bebê?
Ela negou devagar, ainda olhando para ele.
— Por prestar atenção demais em mim!
Paula ainda segurava a caixinha nas mãos quando Vitor finalmente respirou fundo e apontou para a porta do quarto.
— Certo… vamos almoçar porque eu estou com fome.
Maria Vitória imediatamente fechou o caderno de desenhos que estava sobre a cama e João juntou as folhas dos animais enquanto os quatro desciam juntos para a cozinha.
Lucy já tinha organizado tudo na mesa, e o almoço acabou acontecendo num clima absurdamente leve.
João explicando fatos aleatórios sobre animais.
Maria Vitória contando histórias da escola.
Vitor implicando discretamente com os dois em alguns momentos.
E talvez fosse exatamente por isso que tudo parecia tão natural.
Em determinado momento, Maria largou o garfo de repente.
— Pai.
Vitor ergueu os olhos do prato.
— Hm?
— Você chamou a tia Daniela pro bolo mais tarde?
Paula percebeu a pequena mudança no semblante dele imediatamente.
— Não.
A resposta veio calma.
— Nós combinamos que esse ano não seria festa. Só o bolo mesmo.
Maria fez um pequeno bico.
— Mas ela é só nossa vizinha…
— E aí vem a Daniela, depois mais alguém, depois vira aniversário com vinte pessoas andando pela casa.
Ele tomou um gole de água antes de completar:
— Hoje vai ser só nós… é só um bolo!
Paula observou aquilo em silêncio por um instante.
João então aproveitou a pequena pausa para puxar novamente as folhas dobradas ao lado do prato.
— Aproveitando que estamos todos reunidos…
Vitor já fechou os olhos lentamente.
— Meu Deus.
— Eu finalizei oficialmente a lista dos animais essenciais para a formação intelectual da bebê.
Paula começou a rir imediatamente enquanto Maria soltava um “lá vem…” completamente acostumada. João abriu as folhas com absoluta seriedade.
— Primeiramente: capivaras.
— Claro.
Paula concordou imediatamente.
— Animal símbolo do país.
João apontou para ela na mesma hora.
— Exatamente! Finalmente alguém sensato nessa casa.
Vitor apoiou o cotovelo na mesa.
— Estou genuinamente preocupado com o fato de vocês dois estarem criando um culto nacional às capivaras.
— Porque você não estudou o suficiente sobre elas.
João rebateu sério. Paula já ria tanto que precisou abaixar a cabeça por um instante.
Foi então que Maria puxou um caderno maior que estava ao lado da cadeira dela.
— E eu fiz isso aqui.
Paula virou o rosto curiosa. Maria abriu o caderno sobre a mesa e Paula literalmente se surpreendeu: Os desenhos eram lindos.
Vestidos detalhados. Figurinos completos. Tecidos desenhados com textura. Brilho. Movimento. Tudo muito delicado e incrivelmente bem feito para a idade dela.
Paula arregalou minimamente os olhos enquanto passava as páginas.
— Maria Vitória…
A voz saiu sinceramente impressionada.
— Foi você mesma quem desenhou isso tudo?
A menina assentiu, agora um pouco tímida diante da reação dela.
— Uhum.
Paula virou mais uma página devagar.
— Isso aqui está maravilhoso.
Vitor observava quieto do outro lado da mesa agora, claramente acostumado com o talento da filha, mas satisfeito vendo Paula tão encantada.
— Estava acostumado com os desenhos de bichinhos e agora ela já está desenhando roupas.
Comentou com naturalidade. Paula continuava olhando os croquis.
— Você tem noção de que isso aqui parece desenho de estilista profissional?
Maria sorriu discretamente, claramente feliz. Paula então virou outra página e apontou para um vestido cheio de aplicações desenhadas.
— Eu usaria isso facilmente num show.
Maria arregalou os olhos.
— Sério?
— Muito sério.
Ela apoiou o braço na mesa enquanto olhava novamente os desenhos.
— Inclusive, acho que você devia desenhar um vestido pra mim, uma roupa de show!
A menina praticamente iluminou inteira.
— Eu posso mesmo?
— Claro que pode.
João interrompeu imediatamente:
— Desde que tenha capivaras escondidas.
Vitor soltou uma gargalhada baixa na mesma hora enquanto Paula ria junto.
— Acho justo.
Maria já começou a explicar animadamente ideias de tecidos e cores enquanto Paula ouvia com atenção genuína.
— E aqui eu pensei num tecido mais leve…
A menina apontava os detalhes do desenho com absoluta concentração.
— Porque quando você gira no palco ele faz movimento.
Paula observava fascinada não só pelo talento, mas pela forma como Maria Vitória falava: Com segurança. Com criatividade. Com brilho nos olhos.
— Você pensa em tudo mesmo, né?
Maria assentiu imediatamente.
— Eu gosto de imaginar a roupa se mexendo.
Aquilo fez Paula sorrir.
— Isso é exatamente o que quem cria figurino precisa pensar.
Vitor observava quieto do outro lado da mesa, claramente gostando de ver a filha tão empolgada.
João, que já tinha desistido momentaneamente das capivaras, apoiou o queixo nas mãos.
— A Maria desenha até durante filme.
— Porque às vezes eu tenho ideia.
Ela rebateu imediatamente.
Lucy riu baixo enquanto organizava algumas coisas na bancada.
— Outro dia ela desenhou até vestido pra ir no mercado.
Maria ficou indignada.
— Porque dava certo!
Paula começou a rir.
— Honestamente? Eu acredito em você.
A menina sorriu satisfeita antes de virar outra página do caderno. Dessa vez havia desenhos menores. Variações. Combinações de tecido e brilho.
Paula percebeu então pequenas anotações nas laterais. Cores. Detalhes. Tipos de manga.
Tudo extremamente cuidadoso. Ela levantou os olhos devagar para Vitor.
— Ela realmente ama isso.
A voz saiu mais baixa agora. Mais afetada. Vitor assentiu pequeno.
— Ama.
O olhar dele foi rapidamente até a filha antes de voltar para Paula.
— Fica horas desenhando.
Maria, completamente alheia ao peso emocional da conversa, continuava explicando:
— E eu gosto quando as roupas contam alguma coisa.
Aquilo fez Paula prestar atenção imediatamente.
— Como assim?
Maria pensou por um instante antes de responder:
— Tipo… quando a roupa parece combinar com a pessoa.
A cozinha ficou silenciosa por um segundo. Porque a frase saiu simples. Mas bonita demais. Paula sorriu devagar.
— Isso é uma visão muito inteligente de arte.
Maria pareceu feliz por ela ter entendido exatamente o que quis dizer.
João então voltou ao próprio assunto favorito:
— Igual capivaras combinam com o Brasil.
Vitor literalmente passou a mão no rosto enquanto Lucy começava a rir.
— Impressionante como tudo volta pra capivara.
— Porque vocês ainda não entenderam a importância delas.
Paula gargalhou baixo outra vez e, naquele instante, percebeu uma coisa quase assustadora: ela estava confortável. Confortável demais.
João parou de repente como se tivesse lembrado de algo muito mais relevante. Virou o rosto na direção do pai e perguntou com absoluta naturalidade:
— Como é estar fazendo mais de cinquenta anos?
O silêncio na mesa durou meio segundo antes de Paula literalmente engasgar de rir.
Vitor fechou os olhos lentamente enquanto Lucy começava a gargalhar na bancada.
— E lá vamos nós…
Ele apoiou o garfo no prato.
— Para o segundo assunto favorito do João: idosos.
— Você não respondeu.
João rebateu sério. Paula já ria com a mão na boca enquanto Maria Vitória soltava um:
— João!
— Ué, mas ele está ficando mais velho.
— Todos nós estamos!
Vitor respondeu calmamente.
— Sim, mas você está mais.
Aquilo fez Paula perder completamente a compostura de novo. Vitor virou o rosto lentamente para ela.
— Muito bonito ver você incentivando isso.
Ela tentava parar de rir inutilmente.
— Desculpa… mas ele fala com uma sinceridade impressionante.
João assentiu, satisfeito por alguém finalmente reconhecer isso.
— Obrigado.
Vitor apontou discretamente para o filho.
— Esse menino vai me colocar num asilo antes dos sessenta.
— Drama.
Maria rebateu imediatamente.
— Cinquenta nem é tão velho.
João pensou por um instante antes de completar:
— É tipo… meio velho.
— Ah, excelente.
Vitor apoiou o corpo na cadeira.
— Agora fui oficialmente classificado por faixa etária.
Paula ainda ria baixo quando Maria mudou de assunto de repente:
— Mas o bolo vai ser bonito pelo menos.
Aquilo imediatamente desviou a atenção dela.
— Você escolheu o bolo?
Maria assentiu orgulhosa.
— Dois andares.
Vitor arregalou minimamente os olhos.
— Você não me contou a parte dos dois andares.
— Porque é surpresa estética.
Paula começou a rir outra vez.
— E qual sabor?
— Chocolate com morango.
Maria respondeu imediatamente.
— Porque o João queria brigadeiro puro e eu falei que isso era infantil.
— Não é infantil.
João rebateu indignado.
— É clássico.
Lucy ria baixinho enquanto observava a discussão. Paula apoiou o braço na mesa.
— Acho que estou do lado do João nessa.
Maria ficou genuinamente decepcionada.
— Você também?
— Brigadeiro puro é patrimônio nacional.
Vitor comentou calmamente.
— Finalmente alguém sensato nessa casa. Maria cruzou os braços dramaticamente.
— Vocês não entendem sofisticação.
Paula começou a rir de novo enquanto João aproveitava a vitória moral. Foi então que Maria pareceu lembrar de outra coisa e virou rapidamente para Paula:
— Mas eu queria perguntar uma coisa…
— O quê?
— Dá azar cantar parabéns antes do dia do aniversário?
A pergunta fez Paula piscar surpresa.
— Por quê?
— Porque o aniversário do papai é amanhã… mas a gente vai cantar hoje à noite.
Ela parecia genuinamente preocupada.
— E a Helena da escola falou que dá azar.
João arregalou os olhos imediatamente.
— Verdade! Ela falou que a pessoa pode perder o aniversário.
Vitor franziu a testa.
— Como exatamente alguém perde o aniversário?
— Não sei.
João respondeu sério.
— Mas parecia grave.
Paula já sorria enquanto Maria aguardava a resposta como se aquilo fosse uma consulta oficial.
Ela pensou por um instante antes de responder:
— Acho que azar só existe quando a gente deixa de comemorar quem ama.
O silêncio veio pequeno na mesa. Simples.
Mas bonito. Maria relaxou imediatamente.
— Então pode cantar hoje?
— Deve.
Paula respondeu sorrindo.
— Principalmente porque acho que vocês organizaram tudo com tanto carinho que seria desperdício esperar.
Maria pareceu completamente aliviada. João assentiu também, convencido.
— Faz sentido.
Vitor observava Paula em silêncio agora. O jeito como ela falava com os filhos dele. Com calma. Com cuidado. Como se já soubesse exatamente como ocupar aquele espaço sem forçar nada e o pior era que ela provavelmente nem percebia o efeito que aquilo causava nele.
Paula então virou o rosto casualmente na direção dele.
— Além disso… mais de cinquenta anos merecem mais de um dia de comemoração.
Vitor começou a rir imediatamente.
— Ah, agora começou.
— Estou só valorizando os idosos.
Ela rebateu séria. João apontou para ela na mesma hora.
— Viu? Ela também acha.
— Perfeito.
O almoço terminou entre risadas, discussões sobre brigadeiro e João tentando convencer todos da superioridade intelectual das capivaras.
Lucy começou a recolher algumas coisas da mesa enquanto Vitor se levantava.
— Certo.
Pegou a chave sobre a bancada.
— Vamos no mercadinho comprar as coisas pro jantar.
Maria Vitória imediatamente levantou animada.
— Eu vou de bicicleta.
— Eu também.
João respondeu na mesma hora.
Vitor apontou para os dois antes mesmo deles saírem correndo.
— Capacete.
Os dois soltaram reclamações simultâneas, mas obedeceram.
Paula observava a cena sorrindo enquanto terminava de beber água. Já tinha trocado o conjunto confortável da viagem por um vestido mais leve, claro e solto, perfeito para o calor abafado daquela tarde em Campinas.
O tecido movimentava devagar conforme ela caminhava e Vitor percebeu isso imediatamente no instante em que ela apareceu novamente na sala.
Claro que percebeu.
O olhar dele desceu rápido demais antes de voltar para o rosto dela.
— O quê?
Ela perguntou quase automaticamente, já desconfiando. O canto da boca dele subiu pequeno.
— Nada.
Paula estreitou os olhos.
— Você me olhou com cara de “nada”.
Ele começou a rir baixo enquanto abria a porta da casa.
— Estou me comportando desde que você chegou.
Ela balançou a cabeça desacreditada, mas acabou sorrindo também.
As crianças já esperavam do lado de fora com as bicicletas enquanto os dois começaram a caminhar mais devagar logo atrás deles.
O condomínio estava silencioso naquela hora da tarde. Árvores altas balançavam com o vento quente e o céu permanecia absurdamente azul.
Maria e João seguiam alguns metros à frente nas bicicletas, discutindo agora se sorvete combinava ou não com jantar.
Paula observou os dois por alguns segundos antes de comentar:
— Eles são muito tranquilos juntos.
Vitor colocou as mãos nos bolsos da bermuda enquanto caminhava ao lado dela.
— São parceiros!
O olhar dele foi rapidamente até os filhos mais à frente.
— Brigam às vezes, claro… mas um protege muito o outro.
Paula sorriu pequeno.
— Dá pra perceber.
O silêncio ficou confortável entre eles por alguns segundos. Até ela perguntar, mais baixa:
— Você acha que eles vão ser assim com a bebê também?
Vitor virou o rosto lentamente para ela. Paula mexeu distraidamente no próprio dedo antes de continuar:
— Ou você acha que pode rolar ciúmes?
A pergunta saiu mais vulnerável do que ela gostaria.
— Às vezes eu penso nisso…
Ela respirou fundo devagar.
— Tenho medo deles sentirem que estão perdendo espaço ou alguma coisa assim.
Vitor ficou em silêncio por um instante, olhando para os filhos mais à frente. Maria tinha parado a bicicleta para esperar João atravessar uma curva pequena da rua naturalmente, sem nem perceber o gesto. Então ele voltou os olhos para Paula.
— Acho que vai existir adaptação.
A resposta veio sincera.
— Porque bebê muda rotina, atenção, horários… muda tudo.
Paula assentiu devagar, ouvindo com atenção.
— Mas eu não acho que eles vão rejeitar ela.
O olhar dele suavizou.
— Principalmente porque eles já estão criando espaço pra ela antes mesmo dela nascer e estão ansiosos por esse momento. Maria tem poucas lembranças do irmão pequeno e João não viveu o que é ser irmão mais velho… Eles estão eufóricos para entender tudo isso.
Aquilo fez o peito dela apertar discretamente. Vitor continuou caminhando devagar ao lado dela.
— João já decidiu que vai ensinar o mundo inteiro pra irmã.
Ela soltou uma risada baixa.
— Principalmente capivaras.
— Principalmente capivaras.
Ele concordou sério.
— E a Maria…
O sorriso apareceu pequeno.
— A Maria já entrou naquele modo protetor dela.
Paula observava ele falar dos filhos com atenção genuína agora.
— Ela sempre foi assim?
— Muito.
Ele assentiu.
— Quando o João era pequeno e eles estavam na minha casa, ela praticamente fiscalizava todo mundo que chegava perto dele.
Paula começou a rir.
— Fiscalizava?
— Uhum.
O sorriso dele aumentou discretamente com a lembrança.
— Uma vez ela mandou minha mãe higienizar a mão de novo porque “o bebê era sensível” e ele já tinha 3 anos.
Paula gargalhou imediatamente.
— Não acredito.
— Ela tinha só quatro anos.
Aquilo fez ela rir ainda mais. Então o sorriso dela diminuiu devagar, ficando mais suave.
— O que você mais sente falta daquela fase?
Vitor demorou um pouco para responder. O olhar dele se perdeu rapidamente mais à frente, acompanhando as crianças.
— Infelizmente… eu não consegui viver a fase do João bebê como eu gostaria. Mas com a Maria foi diferente…
Um sorriso pequeno apareceu.
— Eu vivi tudo intensamente até mais ou menos o primeiro ano dela, quando tudo aconteceu.
Paula ouviu quieta enquanto ele continuava:
— E acho que o que mais dá saudade… é ver um ser humano descobrindo o mundo pela primeira vez.
A voz dele foi ficando mais baixa. Mais afetada pela própria memória.
— Porque eles continuam descobrindo coisas depois, claro… a Maria tem dez, o João vai fazer nove, ainda são crianças.
O sorriso dele aumentou discretamente ao olhar para os dois mais à frente.
— Mas quando são bebês… tudo parece extraordinário.
Paula sentiu o peito apertar bonito ouvindo aquilo.
— O jeito que eles olham pras coisas. O jeito que reconhecem sua voz. O jeito que seguram seu dedo como se você fosse literalmente o centro do universo deles…
Ele soltou um pequeno riso pelo nariz.
— É impossível explicar direito.
Paula sustentava o olhar nele agora sem nem perceber e Vitor continuou, mais baixo:
— Acho que o que eu mais gostava era das madrugadas.
Ela piscou devagar.
— Madrugadas?
Ele assentiu.
— Ficar no quarto dando mamadeira.
O sorriso dele apareceu pequeno outra vez, completamente tomado pela lembrança.
— A hora do banho também.
Paula observava ele falar e percebeu imediatamente a mudança no olhar dele. Mais distante. Mais emocional.
— Eu gostava porque… por alguns minutos, o mundo inteiro silenciava.
A voz saiu tranquila.
— Eu podia cantar baixinho, ficar olhando aqueles olhinhos me encarando como se eu fosse a pessoa mais importante da vida dela…
Ele respirou fundo devagar antes de completar:
— E sentir alguma coisa pura no meio do caos que minha vida era naquela época.
O silêncio caiu entre os dois. Paula sentiu o coração apertar de um jeito quase doloroso porque conseguia imaginar perfeitamente a cena. Vitor... Sobrecarregado. E ainda assim encontrando paz num quarto escuro, segurando uma bebê nos braços.
Ela então perguntou baixinho:
— E você?
Vitor virou o rosto.
— Eu o quê?
Ela sustentou o olhar dele por um instante.
— Está preparado pra começar tudo de novo?
O sorriso dele apareceu devagar dessa vez. Mais calmo. Mais sincero.
— Com ela?
Paula assentiu pequeno. Vitor olhou rapidamente para os filhos mais à frente antes de responder:
— Acho que eu nunca estive tão preparado pra alguma coisa na vida.
Aquilo fez ela perder completamente a linha de raciocínio por alguns segundos porque não havia dúvida nenhuma na voz dele. Nenhuma hesitação. Só verdade.
O mercadinho do condomínio estava relativamente vazio naquela hora da tarde. O ar-condicionado gelado contrastava imediatamente com o calor abafado lá fora e Paula soltou o cabelo assim que entrou, empurrando o carrinho devagar pelos corredores enquanto Maria e João já começavam a rodear Vitor como dois pequenos advogados em negociação.
— Pai…
Maria começou no tom perigosamente estratégico.
— A gente podia comprar sorvete também?
— Não.
A resposta veio automática. João entrou imediatamente na defesa.
— Mas é seu aniversário.
— Justamente por isso eu gostaria que vocês sobrevivessem ao açúcar até amanhã, já teremos bolo hoje!
Paula observava os três em silêncio, já sorrindo. Vitor pegava legumes, arroz arbóreo e algumas ervas enquanto as crianças seguiam atrás tentando renegociar refrigerante, doces e sobremesas.
— Dois refrigerantes então?
Maria tentou novamente.
— Um.
— Dois.
— Um.
João cruzou os braços dramaticamente.
— Isso é opressão infantil.
Paula literalmente riu alto dessa vez enquanto empurrava o carrinho atrás deles.
— Vocês treinam antes dessas conversas ou sai naturalmente?
— Naturalmente.
João respondeu sério.
— A gente já conhece os padrões de resistência dele.
Vitor pegou um vinho da prateleira sem nem olhar para trás.
— E eu conheço os de manipulação emocional de vocês.
Maria então segurou no braço do pai teatralmente.
— Mas pensa pelo lado positivo… açúcar gera felicidade!
— Vocês sem açúcar no sangue também me geram alegria!
Ele rebateu calmamente. Paula sorriu baixo enquanto parava o carrinho perto da sessão de massas. Foi então que observou os ingredientes nas mãos dele.
— O que você vai fazer exatamente?
Vitor analisou algumas embalagens por alguns segundos antes de responder:
— Ainda não faço ideia.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você trouxe a gente no mercado sem saber o jantar?
— Eu trabalho melhor sob pressão.
Pegou um pacote de cogumelos antes de continuar:
— Estou pensando em fazer risoto.
Então virou o rosto na direção dela.
— Você gosta?
Paula ficou encarando ele por meio segundo antes de começar a rir.
— Estou admirada de você ainda não saber essa resposta…
O canto da boca dele subiu imediatamente.
— Confirmação nunca é demais!
Ela apoiou os braços no carrinho.
— Eu amo risoto!
— Foi o que pensei... principalmente se tiver tomatinhos, certo?
— Está vendo? Você é assustador!
Ele colocou os ingredientes dentro do carrinho e João apontou imediatamente para os cogumelos.
— Isso parece comida de idoso sofisticado.
— Excelente.
Vitor respondeu tranquilo.
— Combina com a minha faixa etária atual.
Paula começou a rir outra vez enquanto Maria já retomava a pauta importante da tarde:
— Então a gente pode comprar sorvete?
Vitor fechou os olhos lentamente.
— Impressionante como vocês nunca desistem!
— Persistência também é importante na formação infantil.
— Pai, só mais um chocolate então…?
— Não.
— Dois então.
— Continua sendo não! Qual a lógica de continuar insistindo?
Maria soltou um suspiro dramático enquanto João tentava pegar discretamente um pacote de balas perto do caixa lateral.
Vitor percebeu imediatamente.
— João!
O menino congelou no mesmo instante.
— Eu só estava olhando.
— Com as duas mãos? Vocês não virão mais!
Paula começou a rir atrás do carrinho enquanto João devolvia as balas lentamente, ofendido.
— Nessa casa eu não tenho liberdade nenhuma.
— Graças a Deus!
Vitor rebateu calmamente antes de virar para Maria, que ainda tentava sustentar uma expressão convincente de sofrimento infantil.
— E você para de fazer essa cara porque não funciona mais.
— Funciona sim.
Ela rebateu imediatamente.
— Você só está resistente hoje.
Vitor soltou uma risada baixa antes de, sem aviso nenhum, puxar os dois de repente para perto dele. Maria gritou no mesmo instante. João já tentava fugir tarde demais enquanto Vitor fazia cócegas nos dois no meio do corredor do mercado.
— Negociação encerrada.
— Não vale!
Maria praticamente ria sem conseguir respirar enquanto tentava empurrar ele. João já estava completamente derrotado, gargalhando também.
— Isso é abuso de autoridade!
— Isso é método educativo moderno! Eu mesmo amo esse método.
Vitor respondeu tranquilamente enquanto ainda prendia os dois perto dele.
Paula observava a cena alguns passos atrás e alguma coisa dentro dela simplesmente aqueceu. Porque era bonito. Tão bonito que chegava a doer um pouco.
O jeito como João ria tentando escapar. Maria indignada e feliz ao mesmo tempo. Vitor bagunçando os dois sem qualquer esforço, leve daquele jeito raro que ela sabia que poucas pessoas realmente conheciam. Então, sem perceber direito como aconteceu… ela imaginou a filha ali também. Pequenininha. Correndo entre eles. Aprendendo a rir daquele jeito.
Mas pior do que isso: ela se imaginou ali.
Naquela rotina. Naquela casa. Naquela bagunça cheia de vida. Imaginou João crescendo com a perspicácia absurda que tinha. Maria ficando cada vez mais inteligente, sensível e talentosa.
Vitor sendo simultaneamente serenidade e caos dentro da mesma pessoa. Proteção e provocação. Calma e intensidade. E ela… no meio de tudo aquilo. A imagem surgiu inteira e forte demais dentro dela. Como uma vida possível.
Os olhos dela encheram no mesmo instante. Paula respirou fundo discretamente e desviou o rosto antes que alguém percebesse.
Fingiu interesse numa prateleira lateral cheia de chocolates enquanto passava os dedos distraidamente pelas embalagens tentando se recompor. Porque aquilo assustava muito… Não a gravidez. Não a bebê. Mas a forma como ela percebia o quanto ainda amava aquele homem e tudo que vinha com ele.
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