Antigo novo amor
45 Capítulo 45 - Um bolo de dois andares
Quando voltaram do mercado, o calor abafado da tarde ainda fazia o ar parecer pesado do lado de fora.
Vitor deixou as sacolas sobre a bancada da cozinha enquanto Lucy aparecia quase imediatamente para começar a guardar tudo.
— Meu Deus… vocês compraram comida pra um mês?
— Culpa deles!
Ele respondeu calmamente, apontando para os filhos.
— Eu ajudo.
Lucy apontou imediatamente para ela.
— Nem pense nisso.
— Lucy…
— Paula, você está grávida. Vai descansar enquanto eu ainda tenho controle dessa cozinha.
Aquilo fez Paula rir baixo enquanto acabava cedendo.
As crianças desapareceram logo depois para a brinquedoteca. João mergulhou nos legos e livros espalhados pelo tapete enquanto Maria ocupava uma mesa baixa desenhando completamente concentrada.
Paula acabou ficando na varanda dos fundos. O lugar era silencioso, cercado pelo verde do jardim e protegido do sol forte daquela tarde por uma cobertura de madeira clara. O vento quente passava preguiçoso por ali.
Ela sentou numa das cadeiras largas com um dos desenhos da Maria apoiado sobre as pernas, colorindo distraidamente alguns detalhes enquanto observava as escolhas de cor da menina.
Pouco depois, Vitor apareceu carregando um livro e uma xícara de café.
Observou ela por alguns segundos antes de se sentar na cadeira ao lado.
— Você está mexendo no desenho dela com mais cuidado do que muita gente mexe em obra de museu.
Paula sorriu sem levantar totalmente os olhos.
— Porque ela desenha muito bem.
— Ela vai ficar convencida ouvindo isso.
— Ela puxou você.
O canto da boca dele subiu pequeno.
— Então o mérito continua sendo meu?
Aquilo fez Paula rir imediatamente.
— Nossa, humildade passou longe!
Ela balançou a cabeça sorrindo. Ela sabia o quanto ele pintava bem. O quanto desenhava absurdamente bem e talvez justamente por isso Maria impressionasse tanto.
Do lado de dentro, João narrava sozinho algum cenário impossível envolvendo capivaras e estações espaciais enquanto montava lego no chão.
Aquilo deixava a varanda ainda mais separada do resto da casa. Mais íntima.
Vitor abriu o livro numa tentativa honesta de leitura, mas não demorou muito até o olhar dele voltar discretamente para Paula.
Ela estava concentrada demais colorindo o desenho. O cabelo preso de qualquer jeito. O vestido claro movimentando devagar com o vento quente.
Ele observou tempo demais e Paula percebeu sem precisar levantar totalmente os olhos.
— Você continua encarando muito as pessoas…
O sorriso dele apareceu pequeno.
— Você percebeu?
Ela soltou uma risada baixa antes de apoiar o lápis sobre o papel.
— Não consigo evitar.
O silêncio ficou confortável entre eles por alguns segundos, mas então Vitor fechou parcialmente o livro antes de perguntar:
— E o DVD?
Paula levantou os olhos na direção dele.
— Como está a preparação?
O rosto dela mudou imediatamente. Mais vivo.
Mais envolvido no assunto.
— Caótica.
Ela riu baixo.
— Mas boa.
Vitor observava até o jeito dela falar de música.
— Vai ser dividido em etapas da minha vida.
Ela apoiou o braço na cadeira enquanto organizava as ideias.
— Meio que contando minha trajetória através das músicas.
O olhar dela ficou mais distante por um instante.
— O foco maior são as canções antigas… as pessoas sentem muita saudade dessa fase.
— Eu também.
A resposta veio imediata demais. Paula ergueu os olhos rapidamente e o jeito que ele sustentou o olhar dela deixou claro que talvez ele não estivesse falando só das músicas.
Ela desviou os olhos primeiro.
— Vai ficar bonito!
Comentou mais baixo.
— Você vai?
Vitor franziu levemente a testa.
— No DVD?
Ela assentiu.
— Pretendo! Seria uma surpresa, mas já que você está perguntando…
O sorriso dele apareceu pequeno.
— Quero levar as crianças também.
Aquilo iluminou o rosto dela imediatamente.
— Sério?
— Uhum.
Ele apoiou o braço na cadeira enquanto observava a reação dela.
— Acho que eles vão gostar de ver tudo acontecendo.
Paula sorriu de verdade agora.
— Eu vou amar que eles estejam lá!
Do lado de dentro, Maria levantou rapidamente um desenho no ar para mostrar alguma coisa ao irmão enquanto João ignorava completamente porque estava concentrado demais no lego. A cena fez Paula sorrir sem perceber. Vitor observou isso em silêncio antes de comentar, mais baixo:
— Você fica diferente falando de música, Paula.
Ela virou o rosto lentamente para ele.
— Diferente como?
Ele pensou por um instante antes de responder:
— Mais leve…
O coração dela apertou pequeno.
— Acho que música sempre foi o lugar onde eu consegui existir sem precisar me defender muito!
A sinceridade pegou ele desprevenido e por alguns segundos o único som da varanda foi o vento passando pelas árvores e as vozes distantes das crianças lá dentro… Até Vitor sorrir pequeno outra vez.
— Então talvez eu precise começar a prestar mais atenção nos seus shows!
Ela sorri e então volta para o desenho. As vozes das crianças se misturavam ao som distante dos lápis riscando papel e das peças de lego se encaixando.
No meio daquela paz, Paula escuta o celular vibrar sobre a mesa lateral e vê o nome da mãe na tela.
— Já volto!
Comentou baixo enquanto se levantava. Vitor ergueu os olhos do livro automaticamente, acompanhando ela entrar novamente na casa.
Ela subiu as escadas devagar até o quarto de hóspedes. Fechou a porta atrás de si e só então atendeu.
— Oi, mãe.
— Como você está?
A pergunta veio simples, mas Paula percebeu imediatamente que Dulce queria saber muito mais do que isso. Ela caminhou até a cama e acabou se deitando sobre a colcha clara, encarando o teto por alguns segundos antes de responder.
— Bem!
O silêncio do outro lado permaneceu acolhedor, então Paula respirou fundo devagar…
— Muito bem, na verdade.
Aquilo saiu quase com surpresa da própria boca. Ela fechou os olhos por um instante antes de continuar:
— O nervosismo acabou no segundo em que eu vi ele no aeroporto.
A voz saiu baixa. Honesta. Um sorriso pequeno apareceu sozinho.
— Parece que o Vitor simplesmente… desmonta qualquer tensão quando eu estou perto dele.
Dulce permaneceu quieta. Paula passou a mão lentamente pelos olhos antes de continuar:
— E acho que finalmente entendi por que nunca consegui viver nada inteiro com mais ninguém.
O peito apertou devagar.
— Sempre existia uma sensação dentro de mim…
Ela tentou encontrar as palavras certas.
— Como se minha vida estivesse suspensa.
A voz saiu mais vulnerável agora.
— Eu estava com alguém, vivendo alguma coisa… mas no fundo sempre existia aquele pensamento idiota: “e se fosse o Vitor?” “e se um dia ainda for ele?”
Os olhos dela encheram devagar. Dulce fechou os olhos discretamente do outro lado da linha.
Paula continuou, encarando o teto:
— Porque a conexão que eu tive com ele nunca aconteceu com mais ninguém.
A garganta apertou.
— E eu sempre soube disso.
A voz saiu firme agora.
— Nunca neguei para mim mesma que amava ele.
Ela soltou uma pequena risada triste pelo nariz.
— A dúvida nunca foi o amor.
O silêncio ficou cheio.
— Era se seria possível construir uma vida com ele…
Aquilo doeu dizer em voz alta.
— Porque toda vez que as coisas ficavam difíceis… ele fugia.
Dulce permaneceu quieta. Paula respirou fundo.
— E no fundo…
Os olhos fecharam devagar.
— Mesmo antes da gravidez… eu acho que sempre soube que acabaria voltando pra ele de algum jeito.
A frase atravessou ela inteira. Porque era verdade. Mesmo jurando que nunca mais. Mesmo tentando seguir. Mesmo tentando construir outras histórias… Alguma parte dela sempre enxergava o caminho levando de volta até ele.
A voz ficou mais baixa:
— A gravidez só mudou o tamanho da responsabilidade disso tudo!
Ela virou o rosto no travesseiro lentamente.
— Porque deixou de ser só sobre mim.
Os olhos encheram outra vez.
— Eu tinha medo dele querer voltar por causa da bebê. Medo da nossa filha crescer vendo ele fugir de nós quando as coisas apertassem…
Paula apertou os olhos.
— Mesmo sabendo lá no fundo que ele jamais faria isso com ela.
O silêncio veio pesado outra vez. Então ela respirou fundo devagar.
— E aqueles dois dias aí na chácara acabaram comigo…
A voz quase saiu num sorriso emocionado.
— Porque ele me entende sem eu precisar explicar nada.
As lágrimas começaram a escapar silenciosas.
— Ele ri comigo… ele se conecta comigo num lugar que nunca foi só físico.
A garganta apertou forte.
— E eu percebi que não existia mais freio nenhum dentro de mim.
A frase saiu pequena. Quase assustada.
— Eu ainda tentei convencer minha cabeça a esperar.
Ela riu chorando baixo.
— Mas já não era mais uma briga entre razão e emoção.
Os olhos fecharam devagar.
— Porque as duas já eram dele.
Dulce sorriu do outro lado da linha, completamente tomada pela sinceridade da filha. Paula respirou fundo mais uma vez antes de continuar:
— E aqui em Campinas eu entendi outra coisa.
A voz saiu quase num sussurro.
— Quando estou com ele eu não penso em nenhuma vida alternativa.
Aquilo ficou ecoando dentro dela, porque era exatamente aquilo… Não existia mais “e se”.
Não existia mais projeção. Não existia mais futuro imaginado. Existia só ele. A casa. As crianças. A bebê. A paz absurda que sentia perto dele.
Ela abriu os olhos lentamente.
— O medo agora é só um…
Dulce permaneceu em silêncio e Paula finalmente disse em voz alta a única verdade que vinha tentando evitar desde que chegou ali:
— Não ter ele na minha vida!
O silêncio do outro lado da linha durou alguns segundos… Então Dulce acabou soltando uma risada baixa. Daquelas cheias de carinho.
Paula franziu levemente a testa antes de começar a rir também, percebendo de repente o tamanho do desabafo que tinha acabado de fazer.
— Meu Deus…
Ela cobriu os olhos com a mão, ainda rindo baixo.
— Acho que falei mais do que devia.
— Muito mais.
Dulce respondeu divertida. Paula continuava rindo, agora até um pouco sem graça consigo mesma. Então a mãe perguntou calmamente:
— Ficou melhor?
Aquilo fez o sorriso dela diminuir devagar. Porque sim. Muito. Paula soltou o ar lentamente antes de responder:
— Acho que eu estava precisando falar em voz alta mesmo.
A voz saiu mais leve. Mais tranquila. Como se organizar aquilo em palavras finalmente tivesse colocado tudo no lugar dentro dela.
Dulce sorriu do outro lado da linha.
— Às vezes a gente já sabe exatamente o que sente… só precisa se ouvir dizendo mesmo.
Paula ficou olhando o teto por alguns segundos em silêncio. Lá embaixo ela conseguia escutar vagamente a voz do João falando alto sobre mais alguma teoria absurda. Depois a risada da Maria. E mais distante… a voz do Vitor. O peito apertou bonito outra vez, mas agora sem confusão.
— E você já sabe como vai ser a partir daqui?
Paula franziu levemente a testa.
— Como assim?
— Você mora em Belo Horizonte, ele mora em Campinas e vocês vão ter uma bebê…
A voz da mãe suavizou.
— Já pensou em como tudo isso vai funcionar?
Paula começou a rir. Um riso genuíno, quase desacreditado consigo mesma.
— Meu Deus…
Passou a mão no rosto ainda sorrindo.
— Eu não pensei em absolutamente nada disso.
Dulce começou a rir do outro lado também.
— Paula…
— Estou falando sério.
Ela ainda ria baixo.
— Pela primeira vez na minha vida eu simplesmente não parei pra montar cinquenta cenários possíveis na cabeça.
Aquilo era tão diferente dela que chegava a soar absurdo em voz alta. Paula respirou fundo devagar antes de completar:
— E honestamente?
O sorriso diminuiu, ficando mais suave.
— Acho que não estou tão preocupada com a logística porque eu sei que ele vai dar um jeito.
A frase saiu com uma naturalidade que fez até ela mesma parar por um segundo, porque existia confiança ali. Profunda. Automática.
Dulce percebeu imediatamente.
— Você confia muito nele…
Paula ficou em silêncio curto antes de responder:
— Confio.
A voz saiu sem hesitação nenhuma. Ela encarou o teto mais uma vez enquanto pensava nisso.
— O Vitor pode fugir de sentimentos, de conversas difíceis, de conflitos… mas ele nunca foge das responsabilidades dele.
Aquilo era uma das poucas certezas absolutas que Paula sempre teve sobre ele.
— E agora eu acho que finalmente entendi uma coisa…
Dulce permaneceu quieta.
— Eu passei tanto tempo tentando prever se a gente daria certo… tentando controlar tudo antes de acontecer…
Ela soltou o ar devagar.
— E ele simplesmente está vivendo.
A voz saiu quase admirada.
— Organizando espaço pra bebê na casa, comprando até brinco, planejando mil e uma consultas... Incluindo as crianças… Me incluindo.
Os olhos dela encheram discretamente outra vez.
— Enquanto eu ainda estava parada tentando entender se podia confiar na felicidade.
O silêncio veio suave dos dois lados. Então Dulce sorriu antes de responder:
— Talvez porque ele já tenha decidido faz tempo.
Enquanto isso, lá embaixo as vozes das crianças continuavam ecoando pela casa e Paula permanecia deitada encarando o teto, agora muito mais calma depois da conversa com a mãe. Foi então que escutou passos no corredor. Parou imediatamente. Depois… duas batidas leves na porta.
Ela arregalou minimamente os olhos antes de falar:
— Tem alguém batendo na porta…
Dulce ficou em silêncio por meio segundo então começou a rir. Paula já sorria também.
— Quer apostar quanto que é o Vitor?
A risada da mãe aumentou do outro lado.
— Vai atender esse homem, Paula!
Aquilo fez ela rir imediatamente.
— Depois você me liga.
Ela ainda sorria quando respondeu:
— Tá bom… te amo.
— Também te amo, filha.
Elas desligaram e Paula respirou fundo rapidamente antes de responder mais alto:
— Só um minuto!
Olhou o próprio reflexo no espelho do banheiro assim que entrou correndo ali dentro. Os olhos ainda levemente vermelhos. A expressão emocional demais.
— Ótimo.
Murmurou baixo enquanto lavava rapidamente o rosto e respirava fundo tentando se recompor.
Mais duas respirações. Uma tentativa inútil de parecer normal. Então voltou para o quarto e abriu a porta e simplesmente não conseguiu se controlar… A risada escapou no mesmo instante, porque Vitor estava parado no corredor segurando uma caneca de chá com a maior naturalidade do mundo.
Ele ergueu uma sobrancelha imediatamente.
— Estou muito engraçado?
Paula ainda ria enquanto apoiava a mão na porta.
— Um pouco.
O olhar dela desceu para a caneca.
— Você realmente subiu com chá? A essa hora do dia?
Vitor olhou para a própria mão como se só tivesse percebido aquilo naquele instante.
— Bom… você demorou.
A resposta saiu tão simples que piorou tudo.
— Meu Deus…
Ele estreitou levemente os olhos, agora desconfiado.
— Por que exatamente você está rindo assim?
Ela balançou a cabeça ainda sorrindo.
— Porque eu literalmente acabei de falar pra minha mãe que você sempre dá um jeito de cuidar de tudo…
Os olhos dele suavizaram no mesmo instante. Paula então apontou discretamente para a caneca.
— E aí você aparece segurando um chá porque eu demorei…
O canto da boca dele subiu devagar. Daquele jeito quieto que desmontava ela inteira.
— Bom…
Ele estendeu a caneca na direção dela.
— Você sumiu faz tempo. Achei que talvez estivesse passando mal ou cansada.
A voz saiu baixa. Natural. Como se cuidar dela fosse automático e talvez fosse mesmo.
Paula pegou a caneca devagar ainda sorrindo pequeno. Os dedos deles se encostaram rapidamente e aquilo bastou pra bagunçar o coração dela.
Vitor observou ela por alguns segundos em silêncio. O sorriso dela ainda estava ali… mas os olhos denunciavam.
— Está tudo bem?
A voz saiu mais baixa agora. Paula sustentou o olhar dele por um instante antes de sorrir pequeno.
— Está tudo bem, de verdade.
Então ergueu a caneca e tomou um gole do chá. O sabor quente imediatamente acalmou o restante da tensão dentro dela. Ela fechou os olhos por um segundo curto antes de comentar:
— Você está me acostumando muito mal com esses chás.
Aquilo fez Vitor rir de repente. Paula estreitou levemente os olhos.
— O que foi?
Ele balançou a cabeça.
— Nada.
— Vitor…
O sorriso dele aumentou um pouco.
— Melhor não falar.
— Agora você vai ter que falar o que está passando na sua cabeça!
Ele apoiou o ombro no batente da porta antes de finalmente olhar para ela outra vez.
— É que uma vez você elogiou meu chá…
Paula franziu levemente a testa tentando lembrar, mas o jeito que ele sorria já entregava que vinha provocação.
— E aí? São bons mesmo.
O olhar dele ficou perigosamente divertido.
— E disse que esse não era o meu melhor dote, porque tinha outro que você gostava mais!
Paula literalmente jogou a cabeça para trás e começou a rir no mesmo instante porque lembrava. Perfeitamente. E pior: lembrava exatamente do que tinha falado depois.
Antes mesmo que ele abrisse a boca outra vez, ela apontou imediatamente para ele com a caneca na mão.
— Fica quieto!
Vitor já ria baixo agora.
— Paula…
— Não. Nem continua.
Ela ainda ria enquanto balançava a cabeça.
— Para de perversão!
O sorriso dele aumentou daquele jeito calmo e provocativo ao mesmo tempo.
— Eu nem falei nada ainda.
— Porque eu já sei exatamente o que você ia falar.
— Mas falando sério agora…
A voz suavizou.
— Por que você falou pra sua mãe que eu sempre dou um jeito?
Paula sustentou o olhar dele por um segundo. Longo demais. Então respirou fundo devagar antes de simplesmente sair do quarto. Ou tentar… porque Vitor já estava parcialmente escorado no batente da porta e ela precisou colocar a mão no peito dele para empurrá-lo minimamente pro lado.
O toque foi rápido, mas suficiente. Vitor sentiu imediatamente o calor da mão dela atravessar o tecido da camiseta e aquilo aqueceu alguma coisa nele de forma quase irritantemente automática.
Paula percebeu o olhar dele mudar discretamente no mesmo instante.
— Sai da frente.
Comentou tentando soar casual enquanto passava por ele. Vitor acabou obedecendo. Paula fechou a porta do quarto atrás de si antes que ele pudesse insistir no assunto então virou o rosto na direção dele. O sorriso pequeno ainda estava ali. Mais suave agora.
— Porque nós ainda vamos ter muito tempo pra conversar sobre essas coisas.
Aquilo fez o coração dele bater diferente, mas antes que respondesse, ela completou:
— E porque, nesse momento, é melhor a gente voltar lá pra baixo antes que seus filhos destruam metade da sua casa.
Vitor começou a rir baixo imediatamente.
— Você fala como se isso já não tivesse acontecido.
Eles desceram juntos ainda rindo daquela lembrança. Paula vinha um passo à frente pelo corredor enquanto Vitor acompanhava logo atrás, observando ela prender uma mecha solta do cabelo atrás da orelha enquanto segurava a caneca de chá. Mas bastou chegarem perto da brinquedoteca para escutarem as vozes alteradas.
— Porque você joga as coisas sem prestar atenção!
— Foi sem querer!
— Mas atrapalhou meu desenho inteiro!
Paula acelerou minimamente os passos ao entrar no cômodo junto com Vitor.
Maria Vitória estava em pé ao lado da mesa, claramente irritada, segurando uma folha parcialmente amassada. No chão, algumas peças de lego tinham se espalhado perto dela.
João permanecia sentado no tapete com expressão igualmente ofendida.
— Você também não precisa ser chata desse jeito!
— Eu não sou chata!
— É sim!
— João!
— O quê? Você reclama de tudo!
As vozes já começavam a subir rápido demais. Vitor revirou os olhos imediatamente.
— Ei!
A voz saiu firme o suficiente para cortar os dois na hora. O silêncio caiu instantaneamente. Ele entrou na brinquedoteca calmamente enquanto Paula permanecia mais atrás observando.
— Primeiro: ninguém vai falar gritando aqui dentro.
João abaixou minimamente os olhos. Maria cruzou os braços. Vitor apontou discretamente para o desenho na mão dela.
— O que aconteceu?
Maria respirou fundo tentando se controlar.
— Ele jogou a peça sem olhar e bateu no meu desenho.
João rebateu rápido.
— Sem querer!
— Mas você podia prestar atenção!
— E você podia parar de agir como se tudo fosse o fim do mundo!
— João…
A voz de Vitor veio mais firme dessa vez. O menino fechou a boca imediatamente. Então Vitor respirou fundo antes de se abaixar perto dele no chão.
— Se foi sem querer, você pede desculpa e se sua irmã ficou irritada, você escuta sem chamar ela de chata.
João ficou em silêncio por dois segundos antes de resmungar:
— Desculpa.
Maria ainda segurava o desenho contra o peito, emburrada. Vitor então virou o rosto para ela.
— E você…
Ela já estreitou minimamente os olhos, esperando.
— Também precisa parar de agir como se o João tivesse cometido um crime federal.
Paula literalmente precisou conter a risada. Maria ficou indignada.
— Pai…
— Foi um lego, Maria Vitória. Não um atentado internacional.
Aquilo fez João começar a rir imediatamente. Maria tentou continuar séria por mais três segundos antes de acabar rindo também, derrotada.
Vitor então estendeu a mão calmamente para o desenho.
— Me deixa ver.
Ela entregou ainda resmungando baixo. Ele analisou o papel por alguns segundos.
— Sinceramente? Nem estragou.
— Estragou sim.
— Não estragou.
Vitor pegou um lápis da mesa e fez um pequeno detalhe no canto da folha. Então devolveu para ela.
— Agora ficou melhor.
Maria olhou o desenho por alguns segundos antes de suspirar dramaticamente.
— Tá… ficou bonito mesmo.
João imediatamente aproveitou a brecha:
— Então posso voltar pro meu zoológico espacial?
Vitor apontou para ele sem nem olhar.
— Sem arremessar peças igual um chimpanzé.
— Tecnicamente chimpanzés não usam lego.
Paula soltou uma gargalhada baixa dessa vez. Vitor fechou os olhos lentamente.
— Às vezes eu acho que Deus testa minha paciência por esporte.
As horas passaram sem que nenhum deles realmente percebesse.
A tarde foi escorrendo devagar entre desenhos espalhados pela mesa, peças de lego ocupando metade da brinquedoteca e conversas interrompidas pelas observações aleatórias do João ou pelas opiniões extremamente sinceras da Maria Vitória.
Em algum momento, Vitor acabou largando o livro de vez.
Passou a ajudar João numa construção impossível enquanto Paula e Maria coloriam desenhos e discutiam tecidos, brilho e ideias absurdamente específicas para roupas de show.
Quando o céu começou a perder um pouco da luz forte da tarde, Maria fechou o estojo de lápis sobre a mesa e esticou os braços dramaticamente.
— Eu preciso de banho.
— Finalmente uma decisão sensata nessa casa.
Vitor comentou do chão da brinquedoteca enquanto ajudava João a encaixar uma peça enorme no lego.
João nem levantou os olhos.
— Banho interrompe a criatividade.
— E o cheiro também interrompe a convivência humana.
Aquilo fez Paula rir. Maria já se levantava juntando os desenhos.
— Vem, João. Vamos logo tomar banho porque mais tarde tem bolo!
— Eu vou depois.
— Pai…
Maria apontou imediatamente para o irmão. Vitor ergueu os olhos calmamente.
— João…
O menino suspirou derrotado.
— Tá bom.
Os dois começaram a subir as escadas ainda discutindo alguma coisa sobre quem terminaria o banho primeiro enquanto Paula observava a cena com um sorriso involuntário.
Então o silêncio finalmente caiu sobre a brinquedoteca.
Pela primeira vez no dia inteiro e foi estranho porque de repente não existia mais distração nenhuma entre eles. Só os dois.
Vitor permaneceu sentado no chão, apoiado no sofá, olhando distraidamente a construção de lego inacabada enquanto Paula organizava os lápis que sobraram sobre a mesa.
Ela sentiu o coração acelerar devagar. Talvez fosse a hora de conversar sobre o nome da bebê.
A conversa sobre eles. Tudo que vinha crescendo silenciosamente nos últimos dias.
Paula respirou fundo antes de levantar os olhos na direção dele.
— Vitor, eu…
Ele virou o rosto automaticamente para ela. Distraído primeiro, mas imediatamente atento quando percebeu o tom da voz dela.
— Hm?
Paula abriu a boca outra vez.
— PAI!
A voz do João ecoou do andar de cima no mesmo instante. Os dois piscaram automaticamente. Vitor fechou os olhos por um segundo curto.
— O quê?
— A água do meu banheiro está saindo muito quente!
Paula literalmente precisou segurar a risada. Vitor passou a mão no rosto lentamente, já derrotado.
— Você mexeu no registro de novo?
— Talvez.
— João…
O menino continuava falando alguma coisa lá em cima enquanto Paula já ria abaixando a cabeça. Vitor se levantou do chão com um suspiro resignado.
— Eu já volto!
Ela ainda sorria enquanto assentia. Então observou ele subir as escadas calmamente enquanto a voz do João continuava ecoando explicações completamente sem sentido sobre temperatura da água.
Alguns minutos depois, Paula acabou resolvendo subir também. O coração ainda estava acelerado demais depois da conversa interrompida na brinquedoteca e, honestamente, algum tempo sozinha pareciam necessários antes de tentar falar qualquer coisa séria com Vitor.
Entrou no quarto de hóspedes, fechou a porta e se jogou de leve sobre a cama, encarando o teto outra vez. O silêncio ali em cima era quase estranho depois do barulho constante da casa inteira.
No quarto ao lado, Vitor terminou de resolver o problema da água quente no banheiro de João e voltou para o térreo alguns minutos depois.
Olhou rapidamente para a brinquedoteca vazia e depois para a varanda.
Nada de Paula.
Franziu levemente a testa antes de imaginar que ela provavelmente tivesse ido tomar banho também. Então seguiu para a cozinha.
As compras do mercado já estavam praticamente todas organizadas graças à Lucy, que tinha deixado boa parte dos ingredientes separados antes de ir embora.
Vitor abriu a geladeira, observou os potes etiquetados e soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Santa mulher.
Começou a separar o restante das coisas para o jantar mesmo assim, organizando ingredientes sobre a bancada para facilitar mais tarde. Foi então que escutou passos rápidos descendo a escada. Maria Vitória apareceu praticamente correndo na cozinha.
— Pai, onde está a Paula?
Vitor nem levantou totalmente os olhos enquanto cortava alguma coisa sobre a bancada.
— Acho que ela foi tomar banho.
A menina literalmente iluminou.
— Tá.
E saiu correndo de novo antes mesmo dele perguntar por quê. Maria subiu as escadas numa velocidade impressionante e parou na frente do quarto de hóspedes, batendo duas vezes na porta.
Paula abriu poucos segundos depois e sorriu imediatamente ao ver a menina ali.
— Oi.
Maria já perguntou direto:
— Você vai se arrumar pro jantar?
Paula piscou surpresa.
— Vou…
O sorriso dela aumentou devagar ao perceber onde aquilo ia dar.
— Por quê?
Maria juntou as mãos animadamente.
— Porque eu queria me arrumar junto com você.
Aquilo pegou Paula completamente desprevenida. Ela começou a rir baixo imediatamente.
— Ah, é?
Maria assentiu várias vezes.
— Quero ver sua roupa e sua maquiagem também.
Paula abriu mais a porta.
— Então entra.
A menina passou imediatamente para dentro do quarto enquanto Paula fechava a porta atrás dela ainda sorrindo.
A mala já estava parcialmente aberta perto da poltrona e algumas coisas separadas sobre a cama.
Maria aproximou-se quase imediatamente.
— Você já escolheu o vestido?
Paula assentiu antes de pegar cuidadosamente a peça que tinha separado mais cedo. O vestido caiu leve entre as mãos dela, elegante e delicado ao mesmo tempo.
Maria arregalou os olhos na mesma hora.
— Meu Deus…
Paula começou a rir da reação.
— Dramática igual o seu pai...
— Isso é muito bonito!
A menina já passava os olhos pelos detalhes do tecido completamente encantada. Paula então apontou para a bancada do banheiro, onde tinha organizado maquiagem, pincéis e alguns produtos.
— E já deixei tudo separado também.
Maria caminhou até lá como se estivesse entrando numa loja.
— Você leva tudo isso pra viajar?
— Não… Só metade.
Maria começou a analisar cada produto sobre a bancada com interesse genuíno enquanto Paula observava a cena sentindo o coração aquecer de novo.
— Esse aqui faz o quê?
Paula olhou rapidamente o produto na mão dela.
— Iluminador.
— Pra iluminar… o rosto inteiro?
Aquilo fez Paula rir baixo.
— Mais ou menos.
A menina devolveu cuidadosamente o produto para o lugar antes de olhar o restante das coisas espalhadas ali.
— Você gosta de se maquiar, né?
Paula pensou por um instante antes de responder:
— Gosto.
O sorriso surgiu pequeno.
— Mas acho que gosto mais do momento de ficar pronta.
Maria assentiu como se entendesse perfeitamente. Então sentou na ponta da cama observando o vestido separado outra vez.
O silêncio durou poucos segundos antes dela perguntar casualmente:
— Você já sabe o nome da bebê?
A pergunta fez Paula parar por um instante. Ela desviou os olhos lentamente para o vestido nas mãos antes de responder:
— Acho que sim.
Maria imediatamente ficou mais reta na cama.
— Sério?
Paula riu da reação dela.
— Estou pensando em um nome…
A voz saiu mais baixa agora.
— Mas ainda preciso conversar com seu pai.
Maria estreitou os olhos curiosa.
— Eu posso saber?
Paula ficou alguns segundos em silêncio. Pensando. Então sorriu.
— Pode.
A menina praticamente iluminou inteira. Paula se aproximou devagar e sentou ao lado dela na cama antes de falar:
— Mas você vai precisar guardar segredo até eu conversar com ele.
Maria levou a mão até o peito dramaticamente.
— Eu sou ótima com segredos.
Paula começou a rir imediatamente.
— Isso foi a coisa menos convincente que já ouvi na vida.
Maria já ria também. Então Paula respirou fundo devagar antes de finalmente dizer:
— Quero que seja Beatriz.
O silêncio veio por meio segundo. Maria repetiu baixinho:
— Beatriz…
Os olhos dela suavizaram imediatamente.
— É lindo.
O coração de Paula apertou bonito.
— Você gostou mesmo?
Maria assentiu várias vezes.
— Muito.
Depois inclinou levemente a cabeça.
— Por que Beatriz?
Paula sorriu pequeno antes de responder:
— Porque significa “aquela que traz felicidade”.
A menina abriu um sorriso imediato.
— Então combina.
Aquilo atingiu Paula de um jeito perigosamente emocional outra vez. Maria então segurou a mão dela rapidamente.
— O papai vai amar… é o nome da nossa bisa!
A frase saiu com tanta certeza que Paula acabou rindo baixo pelo nariz.
— Sim! É o nome da bisa… Escolhi exatamente por isso.
Maria assentiu imediatamente.
— O papai fala dela às vezes.
Depois olhou novamente para Paula.
— Acho que ele vai ficar emocionado.
Aquilo fez o coração dela acelerar discretamente. Porque talvez fosse exatamente isso que estava evitando também: a emoção dele.
Maria permaneceu olhando para ela por alguns segundos antes de perguntar cuidadosamente:
— Posso te perguntar uma coisa?
Paula riu pequeno.
— Pode.
A menina pareceu pensar por meio segundo em como formular aquilo. Então perguntou de uma vez:
— Você gosta do meu pai ainda?
O coração de Paula literalmente falhou uma batida e antes que ela conseguisse responder, Maria completou:
— Vocês são namorados de novo ou só pais da bebê?
O silêncio caiu no quarto imediatamente. Paula ficou completamente sem reação por um instante porque não estava preparada para aquilo. Não daquela forma direta. Muito menos vindo da filha dele. E o pior era que a resposta parecia óbvia demais dentro dela… mas ao mesmo tempo ainda não era simples. Não quando ela e Vitor sequer tinham sentado para conversar sobre o que exatamente estavam reconstruindo.
Maria observava ela com atenção genuína agora.
Sem maldade. Sem pressão. Só curiosidade.
Paula acabou soltando uma pequena risada sem ar, quase nervosa, antes de balançar a cabeça devagar.
— Nossa… sentimentos de adultos são meio complexos às vezes, sabia?
Maria franziu minimamente a testa. Claramente não satisfeita com a resposta. Aquilo fez Paula sorrir mais suave… Então segurou a mão dela de volta antes de responder com sinceridade:
— Mas eu gosto muito do seu pai, sim.
A menina sustentou o olhar dela por alguns segundos. Como se estivesse analisando a resposta inteira. Então o canto da boca subiu lentamente.
— Tá.
A simplicidade da reação fez Paula rir baixo. Maria então olhou rapidamente para o vestido sobre a cama outra vez antes de comentar:
— Porque ele também gosta muito de você.
Aquilo pegou Paula completamente desprevenida. Ela abriu a boca automaticamente, mas nenhuma resposta saiu.
Maria já parecia considerar aquilo a coisa mais óbvia do mundo.
— Dá pra perceber.
Paula sentiu o rosto esquentar imediatamente e antes que pudesse tentar responder qualquer coisa, a menina completou com a maior tranquilidade:
— O João acha que vocês voltaram a namorar e só esqueceram de avisar a gente.
Paula ficou olhando para Maria completamente incrédula por alguns segundos. Então levou a mão até a testa dramaticamente.
— Meu Deus…
Maria já começava a rir. Paula balançou a cabeça devagar, ainda sem acreditar.
— Eu tenho até medo do quanto vocês dois são inteligentes.
A menina abriu um sorriso imediatamente.
— Eu também teria.
Aquilo fez Paula gargalhar baixo. Maria deu de ombros com a maior naturalidade do mundo.
— A gente só observa as coisas.
Paula estreitou os olhos, divertida.
— “A gente”, né?
— É… eu e o João.
Depois completou casualmente:
— Apesar de que ele observa pior porque se distrai pensando em animais.
Paula começou a rir outra vez.
— Ainda bem que pelo menos um de vocês herdou foco.
Maria pensou por um instante antes de responder:
— Acho que eu herdei ansiedade do meu pai.
Aquilo fez Paula rir imediatamente porque fazia sentido demais.
— Isso definitivamente você herdou.
Maria sorriu satisfeita consigo mesma. Então aproximou-se dela outra vez na cama e perguntou baixinho:
— Como é estar grávida? Você fica feliz o tempo todo ou triste? O bebê sente?
Ela sorriu pequeno antes de responder:
— Acho que grávidas sentem tudo mais forte.
Maria ouviu atentamente.
— Então eu fico feliz… fico sensível… às vezes cansada… às vezes morrendo de vontade de chorar sem motivo nenhum.
A menina arregalou minimamente os olhos.
— Sério?
Paula riu baixo.
— Muito sério!
Depois levou a mão distraidamente até a barriga ainda pequena.
— E os médicos dizem que os bebês sentem algumas coisas sim. Principalmente quando a mãe está muito tranquila ou muito estressada.
Maria imediatamente olhou para a barriga dela.
— Então ela sabe quando você está feliz?
O coração de Paula apertou.
— Acho que sabe.
Maria ficou alguns segundos em silêncio olhando para aquilo como se estivesse tentando imaginar uma bebê percebendo emoções lá dentro.
— E ela sente quando o papai faz você rir também?
Aquilo desmontou Paula completamente por dentro.
— Acho que principalmente nesses momentos…
Lá embaixo, Vitor terminou de organizar os ingredientes sobre a bancada da cozinha e conferiu mais uma vez o que ainda faltava para o jantar. Lucy realmente tinha deixado praticamente tudo encaminhado.
Ele fechou a geladeira devagar antes de olhar rapidamente o horário no celular.
Soltou o ar pelo nariz e decidiu subir também para tomar banho antes que a casa virasse um caos completo mais tarde.
Subiu as escadas distraidamente, mas diminuiu o passo no corredor quando ouviu risadas vindo do quarto de hóspedes.
A voz de Paula misturada à da Maria. Aquilo fez o canto da boca dele subir automaticamente.
Aproximou-se da porta e bateu duas vezes com os nós dos dedos. Lá dentro, Paula respondeu quase imediatamente:
— Pode entrar.
Vitor abriu a porta devagar e a cena fez ele parar por um segundo.
Maria estava sentada na cama cercada por algumas maquiagens de Paula como se participasse de uma reunião extremamente importante. Já Paula permanecia ao lado dela rindo baixo de alguma coisa que claramente tinha sido dita antes dele entrar.
As duas olharam para ele ao mesmo tempo. O sorriso dele surgiu automático.
— Está tudo bem aqui?
Maria respondeu primeiro, imediatamente:
— Estamos conversando.
Depois apontou para Paula como se aquilo explicasse tudo.
— E eu vou me arrumar com ela pro jantar.
O sorriso dele aumentou discretamente enquanto observava a empolgação da filha.
— Ah… entendi.
O olhar então deslizou automaticamente para Paula. Ela ainda segurava um pincel de maquiagem na mão e sorria daquele jeito leve que ele vinha percebendo cada vez mais desde que ela tinha chegado.
— Então oficialmente fui excluído do evento?
Paula ergueu uma sobrancelha divertida.
— Claramente.
Maria assentiu séria.
— Meninos não entram nessa parte.
— Impressionante como perdi autoridade na minha própria casa.
Depois que Vitor saiu do quarto, Maria imediatamente se virou para Paula outra vez.
— Agora podemos começar de verdade.
Aquilo fez Paula rir enquanto levantava da cama.
— Meu Deus… parece até que estamos nos preparando para um evento internacional.
— Mas estamos.
Maria respondeu séria.
— É o aniversário do meu pai.
Paula balançou a cabeça sorrindo antes de pegar uma toalha.
— Então a senhorita vai precisar esperar eu tomar banho primeiro.
Maria assentiu rapidamente.
— Eu vou buscar minhas coisas no meu quarto!
E saiu correndo antes mesmo que Paula respondesse alguma coisa.
Sozinha no quarto por alguns segundos, Paula respirou fundo devagar antes de entrar no banheiro.
O banho quente ajudou a acalmar a aceleração constante que sentia desde que tinha chegado em Campinas. Mas não apagava a sensação crescente de pertencimento que aquela casa vinha despertando nela o dia inteiro.
Quando saiu do banheiro já trocada com o vestido separado mais cedo, encontrou Maria sentada no tapete do quarto cercada pelas próprias coisas.
Uma necessaire aberta. Uma escova. Dois lacinhos e um vestido claro cuidadosamente esticado ao lado dela.
Paula começou a rir imediatamente.
— Você literalmente fez uma mudança pro meu quarto.
Maria deu de ombros.
— Porque aqui é mais legal.
Aquilo aqueceu o coração dela de um jeito absurdo.
Enquanto Paula secava o cabelo diante do espelho, Maria se arrumava sentada na bancada do banheiro, extremamente concentrada em passar um brilho labial com precisão quase cirúrgica.
— Tá bonito?
Perguntou séria. Paula olhou pelo espelho e sorriu.
— Muito bonito. Amei!
Depois terminou de modelar os próprios cabelos em ondas leves antes de se aproximar da menina.
— Vem aqui.
Maria foi imediatamente. Paula pegou delicadamente parte do cabelo dela e começou a prender uma mecha com um laço claro que combinava com o vestido.
Os cachinhos da menina se formavam facilmente nas pontas e Maria observava fascinada pelo espelho enquanto Paula ajeitava tudo.
— Meu Deus…
A menina arregalou os olhos.
— Ficou muito bonito.
Paula sorriu enquanto ajeitava o último detalhe.
— Você já é bonita sem ajuda nenhuma.
Maria continuava olhando o próprio reflexo encantada. Pouco depois, as duas finalmente desceram juntas.
A casa estava mais silenciosa agora. O cheiro do jantar começava a se espalhar pela cozinha e pela sala.
João apareceu primeiro, sentado no chão da sala com um livro aberto.
Levantou os olhos no instante em que viu as duas descendo e ficou alguns segundos em silêncio.
— Nossa.
Maria imediatamente sorriu satisfeita.
— Ficamos bonitas, né?
João assentiu honestamente.
— Bastante.
Depois voltou os olhos para Paula.
— Meu pai vai ficar estranho.
Aquilo fez Paula arregalar os olhos enquanto Maria começava a rir alto.
— João, João…
O menino deu de ombros.
— Ele fica olhando igual personagem triste de filme quando ela aparece arrumada.
Paula levou a mão até o rosto completamente sem reação enquanto Maria já gargalhava. Tentando fugir do assunto, Paula perguntou rapidamente:
— Cadê seu pai?
— Foi na horta pegar uns temperos.
Ela assentiu tentando ignorar o próprio coração acelerando outra vez. Então caminhou até a cozinha para ajudar em alguma coisa antes que as crianças começassem outro interrogatório emocional.
Encontrou os pratos já separados sobre a bancada e começou a organizar a mesa distraidamente.
A luz quente da cozinha iluminava o vestido claro dela enquanto ajeitava os talheres e escolhia calmamente entre dois jogos de pratos.
Foi exatamente assim que Vitor a encontrou quando voltou. Ele entrou pela porta lateral da cozinha segurando alguns ramos de ervas frescas nas mãos, mas parou no instante em que viu Paula… Arrumada.
O cabelo caindo em ondas pelos ombros. O vestido marcando delicadamente a gravidez ainda discreta. A concentração calma enquanto montava a mesa como se sempre tivesse pertencido ali e alguma coisa queimou no peito dele imediatamente porque de repente vieram todos os momentos ao mesmo tempo…
Os anos…
As perdas…
As saudades…
As vezes em que imaginou aquela cena sem realmente acreditar que viveria ela um dia. Paula dentro da casa dele. Com os filhos dele. Esperando ele para o jantar.
O olhar dele permaneceu nela tempo demais e Vitor sentiu medo de novo. Medo de amar tanto alguém daquele jeito.
Entrou na cozinha sem comentar nada e foi direto para a pia, apoiando os temperos sobre a bancada antes de pegar a faca.
Paula observou em silêncio e naquele instante ela soube: Alguma coisa tinha acontecido com ele porque Vitor jamais perderia a oportunidade de provocar quando ela aparecia arrumada daquele jeito. Jamais deixaria passar uma piada, um comentário baixo, um olhar descaradamente intencional. Mas agora… ele estava quieto. Distraído demais dentro da própria cabeça.
Ela largou o prato que segurava sobre a mesa e caminhou devagar até a bancada. Parou ao lado dele sem dizer nada primeiro. Então pegou delicadamente um dos ramos que ele tinha trazido da horta: Alecrim.
Ela aproximou do rosto e fechou os olhos por um instante curto ao sentir o cheiro fresco da erva.
— Alecrim cheira muito bem…
A voz saiu baixa.
— Eu gosto.
Vitor virou minimamente o rosto na direção dela, o olhar demorou um segundo além do necessário antes dele respirar fundo devagar. Então sorriu pequeno. Quase sem graça.
— Também gosto.
Mas voltou imediatamente a atenção para a tábua, começando a cortar as ervas com cuidado excessivo demais para alguém normalmente tão seguro dentro da própria cozinha.
Paula observou por mais alguns segundos antes de começar a puxar assunto propositalmente.
— Quer que eu coloque alguma coisa na mesa?
— Os pratos fundos talvez.
A resposta veio automática.
— E os copos.
Só isso. Paula estreitou levemente os olhos porque definitivamente tinha alguma coisa acontecendo ali dentro.
Ela se aproximou mais um passo, encostou delicadamente a mão no braço dele, interrompendo o movimento da faca sobre a tábua. Vitor parou imediatamente. O toque dela sempre fazia isso. Paula esperou ele virar o rosto antes de falar mais baixo:
— Ei…
Os olhos dele finalmente encontraram os dela e ela percebeu na mesma hora: saudade. Era saudade o que estava ali. Saudade demais. Desejo demais. Sentimento demais.
Paula apertou levemente o braço dele antes de pedir com suavidade:
— Volta pra Terra.
O canto da boca dele subiu minimamente, mas os olhos continuavam carregados.
Ela sustentou o olhar dele por mais um instante antes de completar:
— Não começa a se perder dentro da própria cabeça.
O silêncio caiu entre os dois. Vitor desviou os olhos rapidamente para a mão dela ainda sobre o braço dele antes de soltar o ar devagar pelo nariz. Ele abriu a boca como se finalmente fosse dizer alguma coisa, mas então:
— Pai!
Maria apareceu praticamente correndo na cozinha.
— Eu estou bonita?
Ela girou minimamente o corpo mostrando o vestido e o laço no cabelo e Vitor quase agradeceu internamente pela interrupção porque precisava daquele segundo para voltar pra superfície.
Então se virou para a filha e sorriu de verdade.
— Você está muito bonita, minha filha! Como sempre.
Maria abriu um sorriso satisfeito imediatamente.
— Eu sabia.
Depois apontou diretamente para Paula.
— E você viu como a Paula está bonita também?
Foi só naquele instante que Paula percebeu que a mão dela ainda estava no braço dele. Como se aquilo tivesse se tornado natural sem que ela percebesse.
Ela retirou a mão devagar, quase sem graça, soltando uma pequena risada pelo nariz.
Vitor acompanhou o movimento dela em silêncio antes de finalmente voltar os olhos para o rosto dela e dessa vez o sorriso veio inteiro. Verdadeiro.
— A Paula está linda…
A interrupção acabou fazendo bem aos dois.
O momento passou ou pelo menos ficou guardado para depois.
Maria continuou exibindo o vestido pela cozinha enquanto Vitor voltava para os temperos e Paula retornava para a mesa, retomando a organização que tinha deixado pela metade.
Poucos minutos depois, João apareceu na cozinha carregando um livro de animais debaixo do braço.
— Eu também estou bonito.
Anunciou sem que ninguém tivesse perguntado. Paula começou a rir imediatamente.
— Está mesmo.
As crianças então acabaram ajudando Paula a montar a mesa… ou pelo menos tentando. Maria organizava os guardanapos com uma concentração impressionante enquanto João ficou responsável pelos copos, explicando durante o trajeto inteiro por que determinado animal tinha a mordida mais forte da natureza.
Ninguém tinha perguntado, mas ele considerava a informação importante.
A casa estava leve. Cheia daquele tipo de barulho bom. Foi então que o interfone tocou. Vitor caminhou até o aparelho e atendeu.
— Senhor Vitor? Boa noite. A entrega do bolo chegou.
Ele imediatamente olhou para Maria. A menina praticamente saltou do lugar.
— Chegou!
Vitor sorriu.
— Pode liberar.
Desligou o interfone e caminhou até a porta principal para receber a entrega.
Poucos minutos depois, a campainha tocou, ele abriu, assinou o recebimento e a levou a enorme caixa até a cozinha, mas bastou olhar o tamanho daquilo para começar a rir. Uma gargalhada genuína. Daquelas que faziam os ombros balançarem.
Paula levantou os olhos da mesa.
— O que foi?
Vitor apoiou a caixa sobre a bancada e balançou a cabeça.
— Eu achei que vocês estavam exagerando.
Maria já se aproximava rapidamente.
— Não está exagerado.
— Maria Vitória…
Ele abriu a tampa da caixa e então viu de verdade. Dois andares. Exatamente como ela tinha pedido. Não um bolo de aniversário. Um monumento.
Paula levou a mão à boca tentando segurar a risada.
— Meu Deus…
Maria, por outro lado, parecia absolutamente satisfeita.
— Ficou perfeito.
— Tem bolo suficiente para alimentar uma pequena cidade.
Comentou Vitor.
— E se aparecer mais gente?
Maria rebateu imediatamente.
— Quem?
— Não sei.
Ela deu de ombros.
— Mas vai que aparece.
João fechou o livro e observou o bolo por alguns segundos.
— Ela tem um ponto.
— Claro que tem.
Respondeu Vitor.
— Vocês dois são especialistas em justificar excessos.
Paula já ria abertamente agora e enquanto observava Maria admirando o bolo como se fosse uma obra de arte, João calculando quantas pessoas aquilo alimentaria e Vitor tentando fingir indignação sem conseguir esconder o sorriso… pensou que talvez aquele fosse exatamente o tipo de bagunça feliz que ela sempre imaginou quando sonhava com uma família. Pessoas imperfeitas, relações complexas, nada como o manda o figurino, mas tudo de um jeito que estava sendo bem melhor do que ela poderia esperar.
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