Antigo novo amor
35 Capítulo 35 - Tutti
Do outro lado, o nome não foi apenas reconhecido. Foi sentido.
Dulce permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se precisasse de um instante para organizar tudo o que aquela presença significava. Não era exatamente surpresa, no fundo, ela sabia que isso aconteceria. Mas não assim. Não tão rápido. Não sem aviso.
O olhar dela se perdeu por um instante pelo corredor da casa, na direção do quarto de Paula.
Respirou fundo.
— Um instante…
A voz saiu mais baixa, mas firme. Ela apertou o botão. O clique seco ecoou no silêncio da noite.
Do lado de fora, Vitor ouviu o som do portão destravando, então voltou para o carro, deu a partida e entrou devagar, conduzindo com cuidado pela pequena estrada até a casa.
O farol iluminava o caminho já conhecido. Cada curva. Cada detalhe. Tudo familiar. E, ainda assim diferente. Porque, daquela vez, não era só uma chegada. Era um atravessamento.
Ele estacionou diante da casa. Desligou o motor e permaneceu alguns segundos ali, com as mãos ainda apoiadas no volante.
Respirou fundo. Pegou a sacola no banco ao lado e saiu.
Dentro da casa, Dulce havia caminhado até o quarto de Paula. Abriu a porta com cuidado e a encontrou dormindo.
O corpo finalmente rendido depois do dia difícil, a respiração mais calma, o semblante mais leve do que horas antes.
Dulce permaneceu parada ali por alguns segundos. Observando. Pesando. Não havia como acordá-la daquele jeito. Não para aquilo.
Ela fechou a porta devagar e voltou.
Quando Vitor chegou à varanda, Dulce já estava à porta. Ela abriu antes que ele precisasse bater.
Os olhos se encontraram e por um instante, o silêncio falou por eles.
— Boa noite… — ele disse, com um leve aceno.
— Boa noite, Vitor…
A voz dela veio mais contida, mais cuidadosa.
Ele entrou. Sem invadir. Mas também sem hesitar.
Dulce fechou a porta atrás dele, ainda organizando como conduzir aquela situação.
Vitor segurava a sacola em uma das mãos e então estendeu na direção dela.
— Eu passei em uma farmácia no caminho…
A voz saiu baixa, natural.
— Tem algumas coisas aqui que ajudam no enjoo.
Dulce pegou a sacola.
— Picolé de limão… — ele completou — ajuda um pouco.
Uma pequena pausa.
— E outras coisas também.
Ela assentiu.
— Eu coloco no refrigerador.
O olhar suavizou.
— Obrigado!
Vitor fez apenas um leve gesto com a cabeça.
Dulce respirou fundo, tentando trazer algum contorno para aquele momento.
— Você quer… tomar um café?
A pergunta veio com cuidado. Como quem tenta dar algum tempo antes do inevitável.
Vitor assentiu.
— Quero.
Simples. Direto.
Ela indicou a cozinha e os dois seguiram para lá.
Sabendo, cada um à sua maneira, que o que realmente importava ainda estava por vir.
Ele entrou na cozinha com passos contidos. O ambiente trazia uma familiaridade silenciosa, o cheiro do café ainda presente, a mesa simples, organizada, como sempre. Nada ali era estranho para ele. E, ainda assim, tudo carregava outro peso.
Vitor puxou a cadeira e se sentou. No mesmo instante, antes mesmo que qualquer palavra fosse dita, um movimento rápido chamou sua atenção.
— Ei…
Tutti veio direto, animado, como se reconhecesse algo que nunca tinha ido embora.
Vitor sorriu. Se abaixou um pouco e o pegou no colo com facilidade, passando a mão pelo pelo do cachorro, que respondia com entusiasmo imediato.
— Você não mudou nada!
A voz saiu mais solta, quase como nos outros tempos.
Tutti se aconchegou, e Vitor passou a mão pelo pescoço dele, rindo baixo quando o cachorro tentou lamber seu rosto.
— Calma… calma…
Por alguns segundos, aquilo foi simples. Quase normal.
Enquanto isso, Dulce se movimentava pela cozinha com naturalidade, mas com atenção redobrada. Pegou uma xícara. Serviu o café. Buscou o bolo que havia feito à tarde. Colocou um prato, talheres. E, quase sem perceber, pegou também o requeijão, sabendo, sem precisar pensar muito, que ele gostava.
Organizou tudo com cuidado. Como se, naquele gesto, tentasse trazer algum conforto para uma situação que sabia que não era simples.
Sentou-se à frente dele.
Vitor ainda estava com Tutti no colo, distraído por alguns instantes, até que o cachorro desceu por conta própria, indo se acomodar ali por perto.
O silêncio que veio não foi desconfortável. Mas era consciente.
Ele pegou a xícara, levou o café aos lábios e deu um gole, ainda olhando para a mesa.
— E o Ildo? — perguntou, com naturalidade.
Dulce respondeu:
— Está viajando. Foi visitar a família no Rio Grande do Sul.
Ele assentiu levemente.
— Entendi.
Uma pausa.
— E o Nilmar? E a Isabele?
— Estão bem… — respondeu ela — trabalhando bastante, como sempre.
Ele assentiu novamente, absorvendo, ainda naquele ritmo mais calmo.
Pegou o garfo. Cortou um pedaço do bolo.
Levou à boca. E, por um instante, fechou os olhos. Como se reconhecesse ali algo que o levava para outro lugar. Outro tempo. Outro momento.
Ele abriu os olhos e soltou um leve ar, quase um sorriso.
— Continua tão bom quanto antes.
Dulce riu, mais leve.
— Ainda bem.
Agradeceu com um gesto simples.
O ambiente, por alguns segundos, quase se permitiu ser só aquilo. Uma conversa comum.
Uma mesa posta. Um café compartilhado. Mas os dois sabiam. Não era só isso.
Vitor apoiou o garfo no prato. O olhar mudou.
Mais direto. Mais presente.
— Eu imagino que ela esteja dormindo…
A frase veio sem rodeio. Dulce assentiu.
— Está. Os últimos dias não foram fáceis para ela…
Ele concordou com a cabeça, absorvendo a informação. Respirou fundo. E então continuou:
— Foi a minha mãe que me contou.
Dulce não demonstrou surpresa. Mas ouviu com atenção.
— Eu cheguei lá e peguei ela no telefone… — ele explicou — falando com você.
Uma pausa curta.
— Não deu muito espaço pra ela esconder.
O tom não era acusatório. Era factual.
Mas carregava algo por trás.
Ele passou a mão pela xícara, girando levemente, sem olhar diretamente para Dulce por um instante.
— Eu não sabia de nada.
Agora a frase veio mais baixa. Mais sincera.
Não como cobrança. Mas como constatação.
E, ali a conversa finalmente começava de verdade.
— E, pra ser sincero, ainda não sei de nada.
Ele levantou o olhar, encontrando o de Dulce.
Não havia acusação ali. Só… verdade.
— Não sei como ela está de fato… não sei como foi pra ela descobrir… — respirou fundo, com calma — não sei de quase nada.
O silêncio se acomodou entre os dois, mas não pesava. Era um silêncio que escutava.
Ele continuou:
— E eu… — hesitou um segundo, não por dúvida, mas por escolha de palavra — eu não entendo por que ela preferiu fazer isso sozinha.
A frase veio limpa. Sem dureza. Sem julgamento.
Mas também sem esconder o que ele sentia.
Ele desviou o olhar por um instante, como quem reconhece aquilo dentro de si antes de seguir.
— Mas eu também não vou transformar isso em um problema.
Agora o tom mudou levemente. Mais firme.
Mais definido.
— Não é sobre isso.
Ele apoiou a mão na mesa, tranquila.
— Se ela teve os motivos dela… — deu de ombros, leve — eu escuto.
Simples.
— Depois.
Uma pausa.
— Agora não é o momento.
Dulce o observava em silêncio, com atenção real. Porque havia algo ali que ela não esperava exatamente daquela forma. Maturidade. Controle. Mas, principalmente direção.
Vitor continuou, mais baixo:
— Eu só precisava estar aqui.
E, dessa vez, não havia espaço para interpretação.
— Porque ela não está bem.
A frase ficou no ar. Como centro.
Como prioridade.
Ele respirou fundo mais uma vez, e então completou:
— O resto… a gente resolve quando for a hora.
Sem pressa. Sem imposição. Mas sem fugir.
E, naquele instante, Dulce entendeu ele não tinha vindo buscar explicação. Ele tinha vindo ficar.
— Eu falei com uma amiga… — disse, voltando o olhar para Dulce — ela é juíza aqui em Belo Horizonte.
A voz seguia calma.
— Pedi indicação de um médico que trabalhe com abordagem mais natural… pra gestação.
Uma pausa breve.
— Ela ficou de falar com ele.
Dulce assentiu, ouvindo com atenção.
— Eu sei que a Paula não vai querer se entupir de remédio — ele completou, com um leve movimento de cabeça — então a gente precisa encontrar outra alternativa.
O “a gente” saiu natural. Sem esforço. Sem cálculo. Mas não passou despercebido.
E, pela primeira vez desde que ele chegou, Vitor mudou levemente a postura. Não fisicamente, mas na intenção. O olhar ficou mais atento. Mais direto.
— O que exatamente aconteceu?
Agora não era mais uma conversa de contexto. Era cuidado.
— Desde quando começaram esses enjoos?
Dulce respirou fundo antes de responder.
— Nos últimos dias piorou bastante… mas já vinha antes.
Ele assentiu, absorvendo.
— E ela está conseguindo comer?
A pergunta veio imediata.
— Pouca coisa — respondeu Dulce — hoje mesmo quase não conseguiu ingerir nada… nem água estava descendo direito.
Vitor baixou o olhar por um segundo. Não como quem se desespera. Mas como quem registra.
— Ela chegou a vomitar?
— Sim… — Dulce confirmou — principalmente hoje.
Vitor passou a mão de leve pela mesa, como se organizasse mentalmente cada informação. E então assentiu. Devagar. Como quem já começava a construir soluções.
Dulce o observava. Com atenção. Mas agora… com outro tipo de percepção. Porque, naquele instante, tudo o que Paula tinha dito mais cedo fez sentido.
A forma como ele falava. Como se posicionava.
Como assumia. Sem invadir. Sem exigir. Mas, ainda assim presente. Constante. Inevitável.
E foi ali que Dulce compreendeu o que a filha quis dizer quando falou que aquilo a assustava.
Porque não era só sobre contar. Era sobre o que vinha depois. Sobre não estar mais sozinha mesmo quando ela quisesse. Sobre ter alguém que não sairia dali. E que, a partir daquele momento não sairia nunca mais.
Dulce respirou fundo, quase imperceptível. E, pela primeira vez desde que ele chegou, não viu apenas o homem que estava ali. Viu o lugar que ele ocuparia para o resto da vida da filha dela.
O café já não era mais o centro da mesa. Tinha esfriado um pouco, esquecido entre uma fala e outra, enquanto a conversa seguia por um caminho que nenhum dos dois tentava evitar.
Vitor permanecia atento. Presente.
Sem interromper. Sem antecipar.
— Ela comentou alguma coisa com o pessoal do trabalho? — ele perguntou, mantendo o tom baixo, mas objetivo — os empresários… alguém?
Dulce negou com a cabeça.
— Não.
Uma pausa breve.
— Ela não contou pra ninguém.
O olhar dela se manteve nele.
— E não vai contar… sem antes falar com você.
A frase saiu com cuidado. Quase como uma forma de reposicionar algo que talvez ele ainda estivesse processando.
Vitor assentiu, absorvendo. Sem reação imediata.
Sem comentário.
Dulce respirou fundo, sentindo que precisava avançar um pouco mais.
— Ela ficou muito assustada, Vitor… — começou, com mais suavidade — quando descobriu.
Ele não desviou o olhar. Mas também não reagiu.
— Foi tudo muito de repente… e ela… — Dulce hesitou um segundo — ela precisava de um tempo.
A escolha das palavras foi cuidadosa.
— Pra entender… pra se organizar… até pra conseguir falar com você.
O silêncio veio e permaneceu.
Vitor ouviu tudo. Com atenção. Sem fechar a expressão. Mas também sem abrir espaço para aprofundar aquilo naquele momento. Porque ele já tinha decidido. Aquilo não seria discutido agora. Ele não tinha vindo para isso. Não ali. Não daquele jeito.
Ele desviou levemente o olhar para a mesa, como quem reconhece o que foi dito… mas escolhe não atravessar aquele ponto ainda.
Quando voltou a falar, o tom mudou. Sutilmente.
Mais prático. Mais direcionado.
— Ela vai precisar falar com eles.
A frase veio calma. Sem imposição. Mas clara.
Dulce assentiu, compreendendo o caminho que ele estava escolhendo seguir.
— Eu sei que ela está preparando um projeto grande… — ele continuou — e isso precisa ser organizado.
Ele apoiou novamente as mãos na mesa, tranquilo.
— Principalmente agora.
Uma pausa curta.
— Pra que ela não se desgaste.
Não havia dúvida ali. Não havia hesitação.
Só… planejamento. Cuidado.
— Dá pra ajustar agenda… reduzir ritmo… reorganizar gravações, viagens…
Ele falava como quem já visualizava tudo.
— Mas isso precisa ser feito logo.
Dulce o observava. E, mais uma vez, percebeu.
Ele não estava ignorando o que sentia. Ele só estava escolhendo o momento certo para lidar com aquilo. E, naquele instante o foco dele era outro. Era Paula.
— Eu posso ajudar com isso… — Dulce disse, com mais firmeza — mas ela precisa estar junto.
Vitor assentiu.
— Eu sei.
Uma pausa.
— E ela vai estar.
Simples. Mas definitivo. E, naquele momento, ficou claro: ele não tinha vindo apenas entender a situação. Ele tinha vindo assumir o que ela ainda estava tentando aprender a dividir.
— Eu estava pensando na logística dela… — começou, com naturalidade.
Dulce manteve o olhar atento.
— Dependendo de como essa agenda está montada… talvez seja interessante conversar com a Opus.
Uma pausa breve.
— Ver a possibilidade de disponibilizarem um jato pra ela cumprir os compromissos.
Dulce franziu levemente a testa, acompanhando.
— Nem que a gente tenha que arcar com alguma taxa a mais por isso…
O “a gente” veio novamente, sem esforço.
— Porque ficar nesse sobe e desce de voo comercial… deslocamento, aeroporto, espera…
Ele negou de leve com a cabeça.
— Não faz sentido.
A conclusão veio direta:
— É desgaste desnecessário.
Dulce o observava com atenção. E, pela primeira vez desde que ele começou a falar dessa forma mais prática, algo dentro dela se dividiu.
De um lado, havia alívio. Um alívio genuíno de ver que ele não apenas estava ali, mas estava presente de verdade. Pensando. Antecipando. Se posicionando. Assumindo.
E isso significava muito. Principalmente para Paula. Mas, do outro lado, vinha uma sensação mais difícil de nomear. Porque ele já estava organizando tudo. Pensando em detalhes.
Em soluções. Em estruturas que, até então, nem ela mesma tinha considerado.
E aquilo…
assustava.
Não por ser ruim. Mas por ser grande demais.
Por mostrar, com muita clareza, que aquilo não era algo que ele trataria como passageiro.
Nem superficial.
Ele não estava apenas ajudando. Ele estava entrando. De vez.
Dulce respirou fundo, mais contida agora, e respondeu:
— A agenda dela está bem cheia… principalmente agora com esse projeto novo.
Vitor assentiu, como se já esperasse por aquilo.
— Então a gente precisa ajustar isso rápido.
Simples. Direto. Sem dramatizar. Mas sem deixar margem.
Dulce desviou o olhar por um instante, absorvendo. E, naquele momento, entendeu mais uma coisa. Não era só sobre a gravidez. Era sobre o que vinha com ela.
Foi nesse momento que passos apressados surgiram pelo corredor.
A porta da cozinha se abriu sem cerimônia e Isabella apareceu, ainda com a bolsa no ombro, como quem tinha acabado de chegar.
— Dulce, eu consegui resolver lá e…
Ela parou. O corpo travou no meio do movimento.
O olhar foi direto: Vitor. Por um segundo, não houve qualquer disfarce. Nenhuma tentativa de controle. Só surpresa. Pura.
Vitor deixou escapar um riso baixo, quase automático diante da reação.
— Você não é nem um pouco discreta.
Isabella piscou algumas vezes, como se estivesse voltando para o próprio corpo.
— Eu… — respirou, ainda tentando reorganizar — não esperava.
Olhou de novo para ele, agora mais consciente.
— Mas, pensando bem… — completou, com um meio sorriso — acho que vou ter que me acostumar.
Uma pausa leve.
— Porque você vai frequentar muito esse lugar agora.
A frase veio direta. Sem rodeio. Mas sem peso.
Vitor apenas assentiu de leve, absorvendo sem responder.
Isabella então se aproximou, cumprimentando ele e depois Dulce com um beijo rápido.
— Tudo certo por aqui?
— Dentro do possível… — respondeu Dulce.
Ela deixou a bolsa sobre a cadeira e olhou ao redor.
— E a Paula?
Dulce respondeu com naturalidade:
— Está dormindo.
Isabella assentiu.
— Ainda bem… ela precisava.
Puxou uma cadeira e se sentou com eles, já mais à vontade, como quem retoma o espaço que conhecia.
Vitor desviou o olhar de Dulce para Isabella, aproveitando a presença dela ali, já dentro do contexto.
— Eu estava falando com a Dulce sobre a agenda da Paula…
Isabella já puxava o prato na direção dela, cortando um pedaço do bolo com naturalidade, como quem tentava retomar um pouco da rotina no meio de tudo aquilo.
— E acho que seria interessante conversarem com a Opus — ele continuou — sobre a possibilidade de disponibilizarem um jato pra ela cumprir os compromissos.
Isabella levou o garfo à boca, mastigou com calma antes de responder.
— Eles já disponibilizaram na época de São João… — disse, limpando levemente o canto da boca com o guardanapo — mas foi algo bem pontual.
Ela apoiou o garfo no prato.
— Não sei se vão querer deixar isso fixo pra ela sem custo.
Uma pausa.
— E, sinceramente… duvido que a Paula vá querer pagar por isso.
Vitor ouviu até o fim, sem interromper.
— Pagar é o menor dos problemas.
A resposta veio direta. Sem hesitação.
— Isso não é questão.
Ele desviou o olhar por um instante, pensando, e voltou.
— O que seria um absurdo é eles cogitarem negar isso pra ela.
O tom mudou levemente. Mais firme.
— Ainda mais na condição que ela está.
Isabella o observou com mais atenção agora.
Vitor seguiu:
— Mas também… — soltou um ar leve, quase irônico — não espero muito diferente de uma diretoria formada só por homens.
Um pequeno silêncio se instalou.
— Pensando bem… — completou — é melhor nem levar isso pra discussão.
Olhou novamente para Isabella.
— Eu resolvo a questão do jato.
Simples. Como quem já tinha tomado a decisão.
Isabella arqueou levemente a sobrancelha, surpresa com a objetividade. Mas não contestou.
— Qual é o próximo compromisso dela?
Isabella pensou por um instante.
— Daqui a dois dias… — respondeu — um programa de TV em São Paulo.
Vitor assentiu, como se já estivesse organizando aquilo mentalmente. Pegou o celular, abriu rapidamente algumas conversas e começou a digitar. Não havia pressa no gesto, mas também não havia dúvida. Eram mensagens objetivas, de quem já sabia exatamente com quem falar.
Isabella voltou ao bolo, observando de canto, sem interromper.
Alguns segundos depois, ele travou a tela e deixou o celular sobre a mesa.
— Em dois dias eu já consigo resolver isso.
A frase veio direta. Sem esforço. Ele olhou novamente para ela.
— Mas, se não der tempo…
Uma pausa breve.
— Ela usa o meu.
Natural. Como se fosse apenas mais uma alternativa.
Isabella sustentou o olhar por um instante, absorvendo. Não era só sobre resolver um deslocamento. Era sobre a forma como ele já se colocava dentro de tudo aquilo.
Dulce também percebeu. E, naquele momento,
já não havia mais espaço para dúvida ele não estava apenas participando. Ele estava assumindo e decidindo tudo, como Paula explicou para elas que ele faria.
No quarto, sem fazer ideia de nada, Paula abriu os olhos devagar, ainda processando o próprio corpo antes de qualquer pensamento. Por alguns segundos, ficou apenas ali, respirando, reconhecendo a ausência daquele mal-estar constante que vinha dominando tudo.
Não estava completamente bem. Mas estava… melhor. E aquilo, por si só, já era muito.
Virou o rosto na cama, automaticamente buscando.
— Tutti…
Baixo. Quase um hábito. Mas ele não estava ali. Ela franziu levemente a testa, estranhando. O cachorro dificilmente saía de perto dela quando estava daquele jeito.
Ficou alguns segundos pensando em levantar. E, pela primeira vez em dias sentiu que conseguia.
Apoiou as mãos no colchão e se ergueu devagar, testando o próprio equilíbrio. O corpo respondeu. Ainda sensível, mas firme o suficiente.
Um pequeno sorriso surgiu. Discreto. Mas verdadeiro.
— Já é um começo…
Murmurou para si mesma. Seguiu para o banheiro. E, ali, sem pressa, deixou a água correr.
O banho foi demorado. Mais do que por necessidade por sensação. Como se estivesse retomando algo que tinha sido interrompido.
Lavou o cabelo com calma, deixando a água levar embora o peso dos últimos dias. Fechou os olhos por alguns instantes, respirando fundo, deixando o vapor quente preencher o espaço.
Quando saiu, havia outra energia nela. Ainda frágil. Mas mais presente.
Se arrumou com cuidado. Secou o cabelo, escolheu uma roupa confortável, passou um perfume leve por sentir que precisava se reconhecer de novo.
Quando terminou, parou um instante diante do espelho. Se observou. E, pela primeira vez desde que tudo começou não viu só o cansaço. Viu alguém tentando voltar.
Abriu a porta do quarto. A casa estava silenciosa. Diferente. Mas não vazia.
Ela deu alguns passos pelo corredor.
— Tutti…?
Chamou, ainda com a voz baixa. Nada.
Seguiu mais à frente.
— Tutti…
Um pouco mais alto agora. O som da própria voz ecoou levemente pelo espaço. Ainda assim, nada.
Ela caminhou devagar, sem pressa, apenas seguindo a intuição de onde ele poderia estar.
E foi então que, ao se aproximar da área da cozinha, algo mudou.
Não foi o som. Não foi a visão completa. Foi… presença.
Antes mesmo de chegar até a porta de vidro, ela viu. Sentado. De costas parcialmente. Mas inconfundível: Vitor.
O corpo parou. Tudo dentro dela se revirou ao mesmo tempo. O ar pareceu faltar por um segundo. O coração acelerou sem aviso. E, por um instante ela não soube o que sentia primeiro.
Surpresa.
Medo.
Alívio.
Ou o peso de tudo que ainda não tinha sido dito.
A mão dela permaneceu suspensa ao lado do corpo. Imóvel. Os olhos presos nele. Como se qualquer movimento pudesse tornar aquilo real demais. Porque, até aquele momento ela ainda tinha tempo. Agora, não mais.
Ela não se moveu. Por um segundo… por dois…
O tempo parecia ter desacelerado o suficiente para que ela ainda pudesse escolher não atravessar aquilo.
A primeira reação veio instintiva. Voltar. Simples assim. Virar, caminhar de volta para o quarto, fechar a porta… e fingir que não tinha visto. Que não era real. Que ainda dava tempo de adiar.
O corpo quase respondeu. Quase. Mas, antes que qualquer decisão se concretizasse um movimento rápido veio do lado oposto.
— Tutti!
O cachorro surgiu animado, como se finalmente tivesse encontrado o que procurava. Correu direto até ela, latindo, pulando, girando ao redor das pernas, chamando atenção com uma empolgação que não cabia naquele momento.
— Ei… calma…
A voz dela saiu baixa, automática, tentando conter. Mas já era tarde. O som atravessou o ambiente e chegou até a cozinha.
A conversa cessou. Instintivamente. Vitor foi o primeiro a reagir ao barulho. Virou o rosto. E viu.
Paula.
Parada.
À porta.
Imóvel.
Como se ainda estivesse tentando decidir se ficava ou desaparecia. E, pela primeira vez desde que entrou naquela casa ele não soube o que fazer.
Tudo o que ele tinha pensado durante o caminho… tudo o que organizou… as possíveis palavras, os cenários, as formas de conduzir, nada veio. Nada serviu. Porque a realidade não cabia no que ele tinha preparado.
Ele só ficou ali. O olhar preso nela. Sem reação imediata. Sem fala. Sem gesto. E, naquele instante, todo o controle que ele manteve até então cedeu lugar a algo mais simples. Mais cru. Mais verdadeiro. Ele também não estava pronto para aquele encontro.
Na cozinha, Dulce trocou um olhar rápido com Isabella e então se levantou.
— Isa, vamos lá ver aquela roupa que a gente deixou separada pra Paula…
O tom veio leve, quase casual. Isabella entendeu na hora. Se levantou junto.
Dulce passou o olhar por Vitor e sorriu de leve, um gesto pequeno, mas claro, como quem dizia que estava deixando o espaço. Vitor assentiu discretamente. Entendeu.
Do lado de fora, Paula ainda tentava acalmar Tutti nos braços.
— Ei… calma… calma…
A voz baixa, mais para si do que para o cachorro.
Dulce se aproximou dela, com Isabella logo atrás. Parou ao seu lado, pousou a mão em seu ombro com cuidado.
— Se você precisar… eu estou aqui.
Uma pausa breve.
— Mas vai dar tudo certo.
O olhar firme.
— Só pensa em você agora. No seu bem-estar.
Paula assentiu. Forçou um pequeno sorriso, mais para tranquilizar a mãe do que por realmente sentir.
— Está tudo bem! Esse momento ia chegar, mais cedo ou mais tarde.
Dulce apertou de leve o ombro dela antes de seguir com Isabella e as duas se afastaram.
Dentro da cozinha, Vitor se ajeitou na cadeira. Pegou a xícara. Serviu mais café.
O gesto simples ajudava a ocupar as mãos. A manter o controle que ainda restava.
A porta se abriu e Paula entrou. Ela caminhou até a mesa. Parou.
— Boa noite…
A voz saiu mais baixa do que ela pretendia. Vitor levantou o olhar. E, por alguns segundos, apenas olhou. Como se estivesse procurando. Como se tentasse entender, ali, diante dele, o que tinha mudado, nela, no tempo, neles.
— Boa noite.
A resposta veio no mesmo tom. Sem distância.
Sem aproximação forçada. E então:
— Como você está?
Paula piscou. Surpresa. De verdade. Porque não era aquilo que ela esperava.
Ela se sentou, ainda com Tutti no colo, ajeitando o cachorro como um apoio involuntário.
Um pequeno sorriso surgiu, meio sem jeito.
— Melhor…
Uma pausa.
— Bem melhor.
Vitor assentiu de leve. Então continuou:
— A gente não precisa lidar com isso pelo caminho mais difícil. Então vamos direto ao ponto…
O tom era calmo.
— Minha mãe me contou.
Paula baixou o olhar por um instante.
— Eu peguei ela no telefone com a Dulce… perguntando como você estava.
Ele manteve o olhar nela.
— Ela não quis trair sua confiança.
Uma pausa curta.
— Só não teve escolha.
Paula respirou fundo. E, quando falou, não havia defesa.
— Eu não queria trair a sua confiança também…
A voz saiu sincera.
— Mas muita coisa aconteceu desde que eu descobri.
Ela apertou levemente os dedos no pelo do cachorro.
— Eu fui pega de surpresa… eu…
— Eu trouxe picolé de limão.
A interrupção veio suave. Mas firme. Paula levantou o olhar. Vitor continuou, como se precisasse manter aquela linha:
— E bala de gengibre.
Uma pausa curta.
— Eu li que ajuda nos enjoos.
Paula entendeu na hora. O que ele estava fazendo.
— Vitor…
Chamou, tentando puxá-lo de volta. Mas ele seguiu:
— E óleo de hortelã-pimenta também… falaram que…
— Vitor.
Agora mais firme. Ele ainda tentou completar:
— Pode ajudar bastante, principalmente se…
— Vitor, para.
A frase veio clara. Sem elevar o tom.
Mas suficiente. E, finalmente ele parou. De verdade.
O silêncio que veio depois não foi longo, mas foi suficiente. Porque, naquele instante, ele levantou o olhar. E encarou. Sem desviar. Sem filtrar. Sem tentar organizar antes.
— O que você quer que eu fale?
A voz saiu mais baixa do que o sentimento. Mas carregada.
— Sobre como me doeu saber que você está grávida… pela minha mãe?
Uma pausa curta. Os olhos presos nela.
— Ou sobre o quanto está doendo pensar que tipo de pessoa eu sou… pra você ter escolhido esconder isso de mim… ao invés de me deixar fazer parte desde o início?
Paula não se mexeu. Não respondeu. Ele continuou. Agora sem freio.
— Você mais do que ninguém sabe o quanto me doeu não conseguir acompanhar a gestação do João… da Maria do jeito que eu queria.
A voz falhou quase imperceptivelmente.
— A gente falou sobre isso.
Uma pausa.
— Você sabia.
O olhar dele endureceu por um segundo. Não de raiva. Mas de dor.
— Sabia absolutamente tudo.
O silêncio voltou. Mas agora não cabia mais nada dentro dele. Vitor desviou o olhar. Respirou fundo. Pegou a xícara. Levou aos lábios.
Mais como tentativa de se recompor do que qualquer outra coisa.
Os olhos ainda carregavam. Mas ele não deixou.
Engoliu. O café. E o resto.
Paula também não estava intacta. Os olhos encheram. Mas ela segurou. Não se permitiu. Respirou fundo. Uma vez. E levantou o olhar de volta para ele.
— Eu sinto muito…
A voz saiu baixa. Mas firme. Sem defesa.
— Mas, nas condições que eu estava… foi a única saída que eu encontrei.
Uma pausa curta.
— Você precisa entender também…
Ela engoliu seco.
— que eu não queria repetir na sua vida o que você viveu com a Poliana.
Vitor levantou o olhar imediatamente.
— Não faz isso.
A interrupção veio rápida. Direta.
— Não coloca isso no mesmo lugar.
O tom não foi alto. Mas foi firme o suficiente para cortar.
— Isso não tem comparação.
Paula sustentou o olhar.
— No momento… aconteceu muita coisa.
A respiração dela ainda instável.
— Eu não pensei direito, eu não reagi como eu achei que reagiria…
Uma pausa. Mais sincera agora.
— Eu imaginava viver isso de um jeito completamente diferente.
O olhar dela suavizou. Mas continuava exposto.
— Não assim.
E, naquele ponto, não era mais sobre certo ou errado. Era sobre dois caminhos que não se encontraram no momento em que mais precisavam.
Paula tentou sustentar. Tentou manter o controle que vinha segurando desde que ele chegou. Mas não conseguiu. As lágrimas vieram sem aviso. Primeiro contidas. Depois livres.bEla não fez esforço para impedir dessa vez. Não deu.
— Eu fiquei muito assustada…
A voz saiu quebrada. Sem filtro. Sem construção.
— Foi tudo muito rápido… muito diferente…
Ela levou a mão ao rosto por um instante, mas não para esconder, só para tentar se organizar.
— Eu ainda não consigo entender direito o que está acontecendo comigo…
Respirou fundo. Mas o ar não veio completo.
— O que eu estou vivendo… o que eu estou sentindo…
Os olhos voltaram para ele. Agora completamente expostos.
— Eu achei que ia ser diferente.
A frase saiu mais baixa. Mais dolorida.
— Eu achei que ia sentir uma alegria imediata… que eu ia saber o que fazer… que ia ser natural…
Negou de leve com a cabeça.
— E não foi.
As lágrimas continuavam. Sem resistência.
— Eu me sinto culpada por isso.
A voz falhou.
— Culpada por não conseguir viver isso do jeito que eu imaginei.
Uma pausa. Mais difícil agora.
— Culpada por não conseguir te contar.
O olhar vacilou. Mas voltou.
— Eu não conseguia falar… não conseguia colocar em palavras…
Ela apertou levemente os dedos no pelo do cachorro, quase como um reflexo.
— Eu não conseguia encarar tudo isso ainda.
A respiração saiu tremida.
— Não era sobre você…
Disse, com mais força. Mais verdade.
— Era sobre eu não estar pronta.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era cheio demais. Porque, pela primeira vez desde que tudo começou ela não estava explicando. Ela estava se mostrando.
Vitor não respondeu de imediato. Ficou ali, olhando para ela. De verdade. Sem interromper.
Sem tentar corrigir. Sem tentar organizar o que ela estava dizendo. Ele via e entendia.
Não cada detalhe da forma como ela sentia, porque aquilo era dela, mas reconhecia o caos. A confusão. O peso.
Ele já tinha passado por aquilo. De outra forma. Em outro contexto. Mas sabia o que era descobrir uma vida mudando tudo de você… antes mesmo de você conseguir entender. E, ainda assim sabia que, para ela, era maior. Mais solitário. Mais assustador.
Ele respirou fundo e falou. Com cuidado.
— Você podia ter contado comigo…
A voz veio mais baixa. Sem dureza.
— Desde o começo.
Uma pausa.
— Desde o primeiro dia que você desconfiou.
Não era cobrança. Mas também não era leve. Era sincero.
Paula levantou o olhar. As lágrimas ainda presentes. Mas agora havia outra coisa ali.
Mais firme. Mais dolorida.
— Não tem como você exigir isso como se fosse fácil.
A resposta veio direta. Sem rodeio.
Vitor sustentou o olhar.
— Porque você foi embora.
A frase veio sem ele esperar e acertou.
— Você decidiu ir embora da minha vida.
Ela não desviou.
— Todas as vezes que você teve a chance de ficar.
O ar pareceu ficar mais pesado.
— Você sempre achou mais fácil me deixar…
A voz dela falhou por um segundo. Mas voltou.
— Do que encarar tudo e tentar seguir em frente.
Uma pausa. Curta. Mas suficiente.
— Como você acha que eu me senti…
Agora mais baixo. Mais cru.
— …descobrindo que estava esperando um filho seu? De alguém que nunca quer ficar, que acha mais fácil ir embora.
O impacto veio inteiro. Sem preparação. Sem defesa. Vitor não respondeu de imediato. Não conseguiu. Porque aquilo não foi só uma fala.
Foi um soco. Direto. No lugar exato. Onde ele ainda não tinha tocado.
Vitor não desviou o olhar. Mas, por dentro algo se encaixou. Do jeito mais difícil. Porque ali estava.
Claro. Sem espaço pra interpretação. Ele tinha ferido ela. E não foi ficando. Foi indo embora. Mais de uma vez.
Ele respirou fundo, sentindo o peso daquilo descer sem resistência. Sabia que não adiantava explicar. Mas, ainda assim tentou.
— Nunca foi fácil pra mim decidir terminar com você.
A voz saiu mais baixa. Mais cansada.
— Nunca.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando organizar o que vinha depois.
— Eu tenho me arrastado há meses com isso…
Uma pausa curta.
— Me questionando… me culpando…
O olhar caiu por um instante, mas voltou.
— Por tudo.
Agora mais firme.
— Mas eu fiz isso achando que era o melhor pra você.
A frase ficou no ar. Sem defesa. Só verdade.
Paula soltou uma pequena risada. Sem humor.
Sem leveza. Incrédula. Ela balançou a cabeça, olhando para ele como se não acreditasse no que estava ouvindo.
— O melhor pra mim?
Repetiu. Baixo.
— Sério?
O olhar dela mudou. Não mais só ferido. Mas lúcido.
— O melhor pra mim seria uma decisão tomada por mim.
A voz veio firme.
— Não você decidindo isso sozinho.
Uma pausa.
— Sem nem me dar a chance de participar.
Ela sustentou o olhar.
— Você escolheu por nós dois.
Simples. Direto. Sem exagero. Mas impossível de ignorar.
— E agora quer que eu tivesse feito diferente?
O silêncio que veio depois não era vazio. Era consequência. De tudo o que, até ali, eles tinham evitado dizer.
Paula permaneceu alguns segundos em silêncio depois da última fala. Respirando. Tentando reorganizar o que ainda estava atravessando.
O olhar dela caiu por um instante, como se buscasse algum ponto de apoio fora daquela conversa. E, aos poucos ela se recompôs.
Não porque tinha deixado de sentir. Mas porque entendeu. Aquilo não ia levar eles a lugar nenhum. Ela levantou o olhar novamente. Mais firme. Mais consciente.
— Isso não adianta mais.
A frase veio direta. Sem dureza. Mas sem espaço para insistência.
— A gente ficar falando disso…
Uma pequena pausa.
— Não muda o que já foi.
Vitor não interrompeu. Ela continuou:
— Você já tomou uma decisão.
Simples.
— Eu também segui.
Ou tentou. O olhar vacilou por um segundo.
— Ou… não segui tanto assim.
Um leve ar saiu, quase um meio sorriso sem força.
— Porque eu estou grávida.
A realidade dita em voz alta. Sem rodeio.
— E estou grávida porque nós dois também fizemos uma escolha.
Agora não havia acusação. Nem defesa.
Só responsabilidade. Dividida.
Ela respirou fundo. E, dessa vez, a voz saiu mais estável.
— Então não adianta a gente ficar voltando nisso agora.
O olhar dela encontrou o dele. Mais calmo. Mas ainda intenso.
— A gente precisa focar no bebê.
A frase ficou entre os dois. Simples. Mas carregada de tudo que vinha junto com ela.
Não como fuga. Mas como direção. Porque, pela primeira vez desde que ele chegou Paula não estava reagindo. Ela estava escolhendo para onde ir.
Vitor não respondeu de imediato. Mas, dessa vez, não era resistência. Era ajuste. Ele assentiu devagar, absorvendo o que ela tinha dito.
— Você tem razão.
A voz saiu mais baixa. Mais alinhada.
— Não adianta a gente ficar voltando nisso agora.
Uma pausa curta.
— Se tem um futuro que a gente precisa lidar.
O olhar voltou para ela. Mais firme.
— Então a gente foca no bebê.
Ele repetiu. Mas não como eco.
Como decisão. E então completou:
— Mas isso inclui você.
Sem rodeio.
— Não é só sobre organizar as coisas… agenda, médico…
Uma pausa leve.
— É sobre você estar bem.
De verdade. Paula sustentou o olhar. Sem discutir. Sem se defender. E, pela primeira vez desde que ele chegou, havia menos resistência ali. Ele mudou levemente o foco. Mais prático agora.
— Você já escolheu um médico?
Paula negou com a cabeça.
— Não.
A voz saiu mais tranquila.
— Eu preferi esperar…
Uma pequena pausa.
— Pra você participar disso.
O olhar dela se manteve nele.
— A médica me deu uma lista de profissionais…
Ela fez um gesto leve com a cabeça, indicando.
— Mas eu não decidi nada ainda.
Vitor assentiu.
— Posso ver essa lista depois?
— Pode.
— Você pretende fazer o pré-natal aqui em Belo Horizonte?
— Sim.
Simples. Direto. Ele concordou com um leve movimento de cabeça, como quem já começava a organizar aquilo também. E então acrescentou:
— Eu queria te pedir uma coisa.
Paula olhou, atenta.
— Em Campinas tem um médico que faz um procedimento de coleta de células-tronco do cordão umbilical…
Ele falou com naturalidade, mas com intenção clara.
— Eu gostaria que a gente fizesse isso.
Uma pausa.
— Você já ouviu falar?
Paula negou de leve com a cabeça. Já começando a sentir o peso de tanta informação chegando de uma vez.
— Não…
Ele percebeu. Mas seguiu, com cuidado.
— Quando o bebê nasce, dá pra coletar o sangue do cordão umbilical…
A voz manteve o tom calmo. Didático, mas sem exagero.
— Esse material tem células-tronco que podem ser usadas no futuro… em tratamentos de saúde, doenças mais sérias…
Ele fez uma pequena pausa, ajustando a explicação.
— Não é algo que a gente espera usar. Mas é uma segurança. Uma possibilidade.
Paula ouviu em silêncio. Processando.
Não só a informação. Mas tudo que vinha junto com ela.
— E sobre a agenda…
Ele continuou, mudando de assunto com naturalidade, como quem já conectava todos os pontos.
— Eu estava falando com a Dulce mais cedo.
Paula levantou o olhar, acompanhando.
— A gente precisa organizar isso com a Opus… ver como estão esses compromissos, o que dá pra ajustar…
Ele falava com clareza, já estruturando.
— E pensar na logística também.
Uma pausa breve.
— Não faz sentido você ficar nesse sobe e desce de aeroporto, voo comercial, espera…
O olhar dele voltou para ela.
— Dá pra fretar um jato… pelo menos nesse período.
Ele seguiu:
— Nem que seja algo pontual, nos dias mais pesados…
Mas não chegou a terminar.
— Vitor…
A voz dela veio. Calma. Mas firme o suficiente para interromper.
Ele parou. Olhou para ela.
Paula respirou fundo antes de continuar.
— Vai devagar…
Não havia irritação. Só… necessidade.
— Não precisa disso tudo.
Uma pequena pausa.
— Não agora.
Ela ajustou levemente o cachorro no colo, como se organizasse também as próprias palavras.
— Não precisa ter um jato disponível pra mim.
O olhar dela se manteve nele.
— Dá pra esperar.
Simples. Direto. Sem rejeitar. Mas também sem aceitar no ritmo que ele impunha.
Vitor a observou por um instante. E ali ficou claro que não era discordância. Era tempo. Ela ainda estava chegando. Enquanto ele… já estava lá.
Vitor se ajeitou na cadeira. Pela primeira vez desde que ela pediu para ir devagar, houve um pequeno desconforto no jeito dele. Não era contrariado exatamente… mas era como se soubesse que o que viria a seguir não era negociável para ele.
Ele olhou para ela. Com mais seriedade.
— Isso… — começou, escolhendo as palavras — não dá pra ser discutível.
A voz não foi dura. Mas foi firme.
— Eu vou me sentir mais tranquilo sabendo que você não vai precisar passar por esse desgaste.
O olhar permaneceu nela.
— Então, pra mim, isso é importante.
Paula abriu a boca para responder. Mas não teve tempo.
— Você blindou o carro? Como eu já havia te pedido isso há alguns meses…
A pergunta veio direta. Como continuidade natural para ele. Mas não para ela.
Paula negou com a cabeça. Já visivelmente impaciente.
— Não.
Curto. Seco. Vitor assentiu uma vez, como se já esperasse. Pegou o celular, digitou rapidamente alguma coisa.
— Eu vou resolver isso.
Simples. Sem pedir. Sem discutir.
Vitor guardou o celular, como se já tivesse resolvido mentalmente mais um ponto.
Para ele, aquilo era necessário. Simples assim.
Mas, do outro lado da mesa, Paula já não estava mais acompanhando o mesmo ritmo.
Ela soltou um pequeno ar, desviando o olhar por um instante. E, quando voltou, havia outra preocupação ali. Mais imediata. Mais sensível.
— E as crianças?
A pergunta veio sem preparação. Mas com peso.
Vitor levantou o olhar. Ela continuou:
— Como a gente vai contar pra elas?
Agora mais direta. Sem rodeio.
— João… Maria…
O nome deles saiu com cuidado. Como se já carregasse a responsabilidade junto.
— Você já pensou nisso também? Porque no momento é o que me preocupa.
O silêncio que veio não foi longo. Mas foi suficiente para mudar o foco da conversa. Porque, pela primeira vez naquela noite não era sobre logística. Nem sobre controle. Era sobre vínculo.
Vitor passou a língua nos lábios, pensativo.
Não com a mesma rapidez de antes. Porque aquilo não era algo que se resolvia com organização.
— Eu ainda não pensei em como falar…
Admitiu. Sem resistência.
— A gente precisa fazer isso direito.
O olhar dele se manteve nela. Mais atento.
— No tempo certo.
Paula assentiu de leve. Mas não parecia completamente tranquila.
— Eu tenho medo de como eles vão reagir…
A frase saiu mais baixa. Mais sincera.
— É muita coisa.
Vitor observou. E, dessa vez, não respondeu imediatamente. Pela primeira vez desde que chegou, ele diminuiu o ritmo no mesmo tempo que ela.
— Você não precisa se preocupar com isso.
A voz veio segura. Tranquila. Como quem já tinha alguma certeza ali.
Paula franziu levemente a testa.
— Eu me preocupo, sim.
A resposta veio imediata. Mais envolvida.
— Eu tenho uma relação com a Maria…
Ela hesitou por um segundo, escolhendo as palavras.
— A gente conversa, ela confia em mim…
O olhar caiu por um instante, mas voltou.
— Eu não quero que ela fique confusa… ou mal com isso.
Uma pausa. Mais delicada agora.
— E o João…
Ela soltou um pequeno ar.
— Uma vez ele falou que não queria ter irmãos.
O silêncio se instalou por um segundo. Não pesado. Mas cheio de cuidado.
Vitor assentiu de leve, absorvendo e respondeu com calma.
— Eles são crianças.
Simples. Sem diminuir.
— E criança reage assim mesmo, no começo.
Ele manteve o olhar nela.
— Estranham… questionam… às vezes dizem coisas que nem entendem direito.
Uma pausa breve. Mas o tom não mudou.
— Mas a Maria e o João vão reagir bem.
A afirmação veio tranquila. Sem hesitação.
— Eu conheço os filhos que eu tenho.
Havia segurança ali. Não arrogância. Segurança.
— Você pode ficar tranquila quanto a isso.
Paula respirou fundo, sentindo o próprio corpo ainda em alerta, como se não tivesse entendido que o pior, ou o mais difícil, já tinha passado. Mas não tinha. Ela sabia.
Aquilo tinha sido demais para um único momento. Demais para alguém que ainda estava tentando entender o que sentia.
Com cuidado, se levantou, ainda com Tutti no colo, quase como se precisasse daquele peso leve para se manter ancorada ali, no presente.
— Eu estou um pouco cansada…
A voz saiu baixa, mais suave do que tudo o que tinha sido dito até então.
— Acho que eu preciso descansar.
Não havia fragilidade no tom. Mas havia limite e Vitor entendeu.
Assentiu devagar, absorvendo não só as palavras, mas o que vinha por trás delas. Um pedido de pausa. De espaço. De tempo.
E, ainda assim, o peito apertou. Porque ele sentia. Eles tinham conversado. Mas não tinham se alcançado. Não completamente.
Tinha sido uma conversa necessária, responsável, quase prática demais para tudo o que existia entre eles. Como se dois lados tivessem alinhado um acordo… mas não um sentimento.
Ele se levantou também, ajustando o próprio corpo como quem ainda tentava se encontrar dentro daquele lugar.
— Eu já vou então…
Disse, sem saber exatamente para onde iria. Aquilo não importava tanto quanto o fato de precisar sair. Precisar respeitar.
— Amanhã eu volto…
Uma pequena pausa, quase como se pedisse permissão sem dizer.
— Pra gente ver essa questão do médico com mais calma.
Paula assentiu de leve, sem prolongar o momento, sem sustentar o olhar por tempo demais. Porque sabia que, se fizesse isso, alguma coisa poderia escapar. E ela não tinha mais espaço para nada escapar. Virou-se e saiu.
Vitor ficou. Por alguns segundos. Parado no meio da cozinha, olhando para um espaço que, há pouco, estava ocupado por ela.
A sensação era estranha. Incompleta. Ele tinha vindo com tanto para dizer, com tanto para entender… e, ainda assim, parecia que tinha tocado apenas a superfície de tudo.
Passou a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando organizar o que não se organizava. Ela já não estava mais ali. E, pela primeira vez desde que entrou naquela casa, ele sentiu o peso real de ter chegado tarde demais… ou cedo demais.
Paula caminhou pelo corredor sem olhar para trás. Sabia que não podia. Porque, se olhasse, talvez hesitasse. E ela não podia hesitar agora.
Cada passo era quase automático, como se o corpo estivesse apenas seguindo um caminho conhecido enquanto a mente ainda tentava acompanhar tudo o que tinha acontecido.
Ao passar pela sala, encontrou Dulce e Isabella. As duas levantaram o olhar no mesmo instante, carregadas de expectativa, de cuidado, de perguntas que não precisavam ser feitas para serem entendidas. Mas Paula não parou.
— Eu não quero conversar agora…
A frase saiu baixa, sem dureza, mas firme o suficiente para não abrir espaço.
E seguiu. Entrou no quarto. Fechou a porta.
E foi ali que tudo desmoronou. Não de forma explosiva. Mas inevitável. Como algo que já vinha rachando por dentro e, finalmente, cedeu.
Ela soltou o ar que parecia preso desde o momento em que o viu na porta da cozinha. As pernas perderam um pouco da força e ela precisou se apoiar na cama antes de sentar, ainda com Tutti nos braços.
O cachorro se aquietou. Como se entendesse.
Como se sentisse. E então vieram as lágrimas. Sem esforço. Sem contenção.
Como se o corpo simplesmente decidisse que não dava mais para segurar.
Ela levou as mãos ao rosto, respirando de forma irregular, tentando entender o que, exatamente, estava sentindo e não conseguiu.
Porque era tudo ao mesmo tempo. O alívio de não precisar mais esconder. O medo do que vinha pela frente. A culpa por como tudo aconteceu. A dor de tudo que ainda não foi resolvido. E, no meio disso tudo… ele.
Ainda ali. Ainda importante. Ainda presente de um jeito que ela não sabia mais como lidar.
— Meu Deus…
Sussurrou, quase sem voz, deixando as mãos caírem devagar. Porque o que mais assustava não era só a gravidez. Era perceber que, mesmo depois de tudo, nada entre eles tinha deixado de existir. E, agora também não tinha mais como ser ignorado.
Fale com o autor