Antigo novo amor
36 Capítulo 36 - O testamento
Cap. 36
Vitor saiu da casa sem pressa. Mas também sem direção.
O caminho até o carro foi automático, como se o corpo soubesse o que fazer enquanto a mente ainda tentava entender o que tinha acabado de acontecer.
Entrou. Fechou a porta. E ficou ali por alguns segundos, com as mãos apoiadas no volante, olhando para frente sem realmente ver nada.
Não era só cansaço. Era uma sensação estranha. Misturada.
Um pouco perdido. Um pouco… exposto demais. E, em algum lugar que ele não queria nomear, um pouco humilhado. Não por algo que ela tivesse feito de forma direta. Mas pela forma como tudo tinha acontecido.
Pela distância. Pelo quanto ele tentou manter o controle… e, ainda assim, não conseguiu chegar até ela de verdade.
Respirou fundo. Ligou o carro e saiu.
Durante o caminho, o celular vibrou no banco ao lado. Ele olhou de relance no sinal.
Mensagem da Ana Paula informando que já tinha enviado as roupas para a casa da madrinha dele, como ele havia pedido. Vitor digitou uma resposta rápida. Agradece sem prolongar.
O caminho até a casa de Marileia foi silencioso.
Sem música. Sem ligação. Sem distração. Só ele e os próprios pensamentos, que vinham em blocos, desorganizados, sem conclusão.
Ao chegar, foi recebido com cuidado. Marileia abriu a porta com um sorriso leve, daqueles que acolhem sem invadir.
— Chegou, meu querido…
Ele assentiu, retribuindo com um abraço breve. Ela não perguntou nada.
Não naquele momento e Vitor agradeceu, em silêncio, por isso.
Ele seguiu direto para o quarto. Fechou a porta. E, pela primeira vez desde que tinha chegado em Belo Horizonte, ficou realmente sozinho.
Foi para o banho sem pensar muito. Deixou a água cair por mais tempo do que precisava. Não como relaxamento. Mas como uma forma de tentar desacelerar o que ainda estava acelerado dentro dele.
Passou a mão pelo rosto algumas vezes, apoiou a cabeça por um instante na parede do box, respirando fundo. Mas não havia muito o que organizar. Ainda não…
Quando saiu, vestiu uma das roupas que Ana tinha mandado, passou a mão pelos cabelos ainda úmidos e foi direto para a cama.
Sentou. Pegou o celular. Ficou alguns segundos olhando para a tela antes de abrir a conversa. E então digitou:
“Você pode me mandar a lista dos médicos que a sua médica indicou?”
Simples. Direto. Sem rodeio. Do outro lado, a resposta veio. Sem demora.
A imagem chegou. Vitor abriu e começou.
Deitado na cama, com o celular apoiado na mão, ele leu cada nome com atenção. Pesquisou.
Abriu perfis. Analisou formações, especialidades, experiência. Comparou. Sem pressa. Mas com critério.
Aos poucos, foi filtrando. Selecionando. Três nomes. Salvou. Separou. Como quem já preparava o próximo passo.
Depois disso, avançou. Pesquisou hospitais em Belo Horizonte. Leu sobre estrutura, equipes, suporte neonatal, histórico. Abriu avaliações.
Comparou dados. Fez anotações no bloco do celular.
Curto. Objetivo. Mas detalhado o suficiente.
Era a forma que ele tinha de lidar. De organizar o que ainda não tinha forma. De se manter presente. Mesmo quando, emocionalmente ainda estava tentando encontrar o próprio lugar dentro de tudo aquilo.
Quando finalmente largou o celular ao lado, o quarto já estava em silêncio completo. Mas a mente dele não. Porque, no meio de todas aquelas informações, nomes, médicos, hospitais havia uma única coisa que ele não conseguia organizar: Ela. E tudo o que ainda existia entre eles.
E foi só quando o celular caiu ao lado, já sem novas buscas, sem novas abas abertas, que o silêncio ganhou outro tipo de presença.
Vitor ficou olhando para o teto. Imóvel. Como se ainda estivesse pensando… mas não estava mais. Pelo menos, não da mesma forma. Porque, de repente, ficou claro. Tudo aquilo que ele tinha feito, pesquisar, organizar, selecionar, planejar, era a forma que ele encontrou de se aproximar. Mas não era o que ele realmente queria.
Ele fechou os olhos por um instante. E ali veio.
Direto. Sem filtro. Ele queria saber como tinha sido o começo. Como ela desconfiou. Se foi um atraso, um sintoma, um pressentimento.
Queria saber o momento exato em que a vida deles mudou… sem ele.
O que ela sentiu. Se teve medo. Se chorou.
Se ficou em silêncio. Se contou pra alguém antes de contar pra si mesma.
Se já tinha ouvido o coração. Se aquele som já existia em algum lugar… sem ele saber.
O peito apertou. Mais do que antes. Porque não era sobre controle. Nem sobre organização. Era sobre ausência. Ele tinha sonhado com aquilo. Em outro tempo. Em outra versão deles. Mais próximos. Mais certos. Mais juntos. E agora… aquilo estava acontecendo. De verdade. Mas eles estavam distantes. Como se cada um tivesse vivido um pedaço diferente da mesma história.
Ele passou a mão pelo rosto, soltando o ar devagar. Não havia como recuperar o início. Mas havia algo pior do que isso. Era perceber que o que ele mais queria naquele momento não era resolver. Era ter estado lá.
O dia ainda nem tinha começado direito quando o carro que ele alugou entrou pela estrada da chácara.
A luz da manhã era suave, quase tímida, e o silêncio do lugar ainda carregava aquele ritmo mais lento de quem ainda não despertou por completo. Ele já estava ali antes do horário comum, como se, de alguma forma, quisesse recuperar o tempo que sentia ter perdido.
Desceu do carro com naturalidade, mas já com o celular na mão, resolvendo coisas antes mesmo de entrar.
Minutos depois, outro veículo chegou. Mais técnico. Mais direto.
Os homens desceram, identificados, organizados, explicando rapidamente o procedimento. O carro de Paula seria levado para blindagem, conforme Vitor já tinha acionado na noite anterior.
Dulce observava da varanda. Em silêncio.
Acompanhando cada movimento. E, no fundo, sem discordar de nada.
Quando Vitor se aproximou da equipe, ela entrou rapidamente na casa, pegou as chaves do carro de Paula e voltou.
— As chaves.
Entregou com naturalidade.
— Obrigado — ele respondeu, já se virando para resolver com os homens.
Dulce assentiu e se retirou, deixando que ele conduzisse aquilo.
O quarto ainda estava em penumbra quando Dulce entrou. Paula dormia leve, virada de lado, ainda envolta naquele descanso frágil de quem não teve um dia fácil.
Ela se aproximou com cuidado.
— Paula…
Chamou baixo. Paula se mexeu, soltando um som indistinto.
— Hm…
Ainda de olhos fechados.
Dulce insistiu, um pouco mais clara:
— Acorda…
Paula abriu os olhos devagar, ainda sonolenta, tentando entender onde estava.
— O que foi…?
A voz saiu baixa, arrastada.
— Ele chegou.
A frase veio simples. Paula franziu levemente a testa. Ainda sem processar.
— Ele quem…?
Dulce respondeu com naturalidade:
— Vitor.
E foi como se o sono tivesse ido embora na mesma hora. Paula fechou os olhos de novo, soltando o ar com um leve peso.
— Mas já?
Virou de barriga para cima, passando a mão pelo rosto.
— Eu já tô cansada antes mesmo de ver ele…
O tom não era de rejeição. Era de sobrecarga.
Dulce permaneceu ao lado da cama, observando. Paula abriu os olhos de novo, agora mais desperta, e se sentou devagar.
— É muita coisa…
A voz ainda carregava sono, mas agora vinha mais consciente.
— Muita coisa pra pensar… pra decidir… pra lidar…
Ela apoiou os pés no chão, passando a mão pelos cabelos.
— Eu tô me sentindo uma incubadora…
Soltou, com um meio riso sem humor.
— Uma chocadeira do filho dele.
Dulce respirou fundo, se aproximando um pouco mais.
— Não fala assim…
Disse com calma.
— Ele tá tentando cuidar… Ainda que seja de uma forma estranha!
Paula assentiu de leve.
— Eu sei…
E então se levantou. Mais firme agora. Caminhou alguns passos pelo quarto, como se precisasse movimentar o corpo para organizar os pensamentos.
— Mas até agora…
Ela parou. Virou-se para a mãe.
— Parece que a gente tá fechando um contrato.
A frase saiu direta.
— E não lidando com a existência de um filho.
O olhar carregava incômodo. Mais do que tristeza.
— Tá tudo muito… técnico.
Uma pausa.
— Muito organizado.
Ela respirou fundo.
— E eu não consigo sentir isso assim.
O silêncio ficou entre as duas por um instante. Dulce não respondeu de imediato. Sabia que não era hora de corrigir. Era hora de deixar ela falar.
Paula soltou o ar, como se encerrasse aquele pensamento ali, pelo menos por enquanto. Virou-se e seguiu em direção ao banheiro.
Parou na porta, já com a mão no batente, e olhou de lado para a mãe. E então, com um meio sorriso, mais leve, mais irônico do que triste, comentou:
— Deixa eu me arrumar então… né?
Uma pequena pausa.
— Pra ver o que ele vai querer fazer comigo hoje.
O tom era de brincadeira. Mas não completamente. Ela entrou no banheiro, abrindo a torneira.
— Em outros tempos… — continuou, agora com a voz um pouco mais distante — eu ia amar ficar esperando pra ver tudo que ele ia fazer comigo…
A frase ficou no ar. Sem conclusão. Sem necessidade. Porque o que ela não disse também foi entendido. Dulce permaneceu no quarto, em silêncio, absorvendo. Sabendo que, por trás do tom leve ainda havia muito que Paula não conseguia dizer sem brincar primeiro.
Quando Paula saiu do banheiro, já mais desperta, o cabelo ainda levemente úmido e o rosto com aquele ar de quem tentou se reorganizar por dentro e por fora, o quarto estava vazio. Dulce já tinha descido.
Na cozinha, o movimento era outro. Mais vivo.
Mais cotidiano. A funcionária organizava a mesa enquanto Dulce coordenava com calma, ajustando detalhes, como se aquela rotina ajudasse a manter tudo no lugar.
Lá fora, o carro de Paula já não estava mais. A equipe tinha levado. E, poucos minutos depois, Vitor apareceu na cozinha. Trazia uma caixa nas mãos. Simples. Mas organizada.
Dentro, alguns pertences de Paula que estavam no carro: documentos, óculos, pequenos objetos que não poderiam ir junto com ele.
Ele entrou sem fazer alarde, colocou a caixa sobre a bancada e começou a separar algumas coisas, com o mesmo cuidado que vinha demonstrando desde que chegou.
Foi nesse momento que Paula apareceu. Parou na entrada da cozinha. O olhar foi direto.
Primeiro para ele. Depois para a caixa.
— O que é isso?
A pergunta veio direta. Ainda sem atravessar totalmente o ambiente.
Vitor levantou o olhar.
— Bom dia.
A resposta veio antes. Natural. Como se aquilo ainda fosse possível.
Paula sustentou o olhar por um segundo.
— Bom dia.
Respondeu. Mas não desviou.
— O que é isso?
Reforçou. Agora caminhando mais para dentro.
Vitor indicou a caixa com um leve movimento de cabeça.
— Suas coisas.
Simples.
— O que estava no carro.
Uma pausa curta.
— Eu mandei ele pra blindagem.
Paula parou. Olhou para ele.
Por alguns segundos. Sem falar. Sem reagir de imediato. Só olhando. Como se estivesse decidindo por onde começar a sentir aquilo.
E então soltou:
— O dia vai ser longo.
A frase saiu sem ironia. Mas também sem leveza.
Era constatação. Porque, naquele ritmo ela sabia… Não teria espaço para simplesmente ir vivendo. Ela teria que acompanhar.
Se aproximou da mesa sem pressa, puxou a cadeira e se sentou, ainda absorvendo o começo daquele dia que já parecia cheio demais antes mesmo de realmente começar.
Dulce já tinha deixado tudo organizado. Chá.
Café. Frutas. Algo leve. Como se antecipasse o que Paula conseguiria ou não comer.
Vitor se sentou logo em seguida. Sem invadir.
Mas presente. Ele a observou em silêncio enquanto ela servia um pouco de chá na xícara, os movimentos ainda mais lentos do que o habitual, como se o corpo precisasse de cuidado até nas ações mais simples.
— Toma a bala de gengibre antes…
Ele comentou, com naturalidade.
— Ajuda com o enjoo antes de comer.
Dulce, sem dizer nada, pegou o pacote que ele tinha deixado separado e colocou ao lado de Paula. Discreta. Como quem só complementa.
Paula olhou por um segundo. Depois abriu.
Pegou uma. Colocou na boca. Sem discutir.
Sem questionar. Levou a xícara aos lábios logo em seguida, bebendo um pouco do chá. O gesto era simples. Mas dizia muito.nEra aceitação. Ainda que silenciosa.
Vitor se serviu de café e então pegou o celular.
Paula viu. Antes mesmo que ele falasse. Antes mesmo que ele levantasse o olhar. Ela já sabia. E, por um instante, fechou os olhos de leve, respirando fundo como quem se prepara.
Ele começou:
— Eu dei uma olhada na lista dos médicos que você me mandou e…
— Vitor.
Ela interrompeu. Sem elevar o tom. Mas firme o suficiente para fazê-lo parar.
Ele levantou o olhar e Paula o encarou. Sem dureza. Mas com limite claro.
— Vamos comer primeiro?
Uma pequena pausa.
— E depois a gente conversa sobre… o que quer que seja.
O olhar dela suavizou um pouco. Mas não cedeu.
— Pode ser?
Vitor sustentou o olhar por um instante e então assentiu. Devagar guardou o celular sem insistir. Naquele momento ele entendeu que, antes de organizar tudo, ele precisava aprender a respeitar o tempo dela.
Dulce observava de longe.
Encostada discretamente na bancada, acompanhando sem interferir. Por um instante, até pensou em se sentar com eles, mas recuou. Preferiu deixar. Dar espaço. E, em silêncio, saiu da cozinha, deixando apenas os dois ali.
Ele se serviu com uma fruta, os movimentos mais contidos agora. Mais atentos. Menos acelerados.
Ainda havia muita coisa na cabeça dele, isso era visível, mas ele tentava, do jeito dele, respeitar o ritmo que ela tinha pedido.
Olhou para Paula por um instante.
— Você quer ficar em silêncio…
Começou, com cuidado.
— ou eu posso perguntar algumas coisas?
Paula não resistiu e um riso escapou. Leve, quase involuntário. Ela balançou a cabeça, olhando para ele.
— Eu não queria estar na sua cabeça agora…
Disse, ainda sorrindo.
— Deve estar um caos.
Vitor a observou sem rir, sem desviar.
— Você está.
A resposta veio simples e direta.
— E não sai um segundo.
Aquilo a atingiu. O sorriso dela vacilou por um instante. Ela se ajeitou na cadeira, desviando o olhar, como se reorganizasse rapidamente o próprio estado antes que ele percebesse mais do que devia.
— Pode perguntar…
Disse, retomando.
— O que você quiser.
Vitor assentiu e foi direto:
— Você já sabe o sexo?
Paula voltou o olhar para ele, quase incrédula.
— Não!
Respondeu na hora.
— Eu não faria isso sem você.
A frase saiu natural, sem esforço, e foi ali que ela decidiu contar. Respirou fundo. Deu um gole no chá. Apoiou a xícara com cuidado.
— Eu descobri faz mais ou menos uma semana…
Começou.
— E, pra mim, não fazia sentido nenhum.
Ela negou de leve com a cabeça.
— Eu estava muito cansada… achei que fosse falta de vitamina, alguma coisa hormonal.
Olhou para ele.
— Fazia um tempo que eu não ia ao médico, então marquei com a endócrino. Ela pediu uma bateria de exames…
Uma pausa.
— E, no meio deles, veio o Beta.
Ela soltou um pequeno riso.
— De praxe. Como se aquilo fosse só mais um dado… Fiz os exames e quando eu vi o resultado…
Ela balançou a cabeça, ainda com um traço de incredulidade.
— Deu positivo.
Olhou para ele.
— Eu ri. Simples assim. Achei que estava errado.
Um riso curto escapou.
— Cheguei a comentar com a minha mãe… com a Isabella…
Ela apoiou o braço na mesa.
— E a gente riu. Porque, pra mim, aquilo era impossível… Ainda mais para elas que não sabiam absolutamente nada sobre aquela noite.
Uma pausa.
— Não fazia sentido nenhum.
Ela respirou fundo.
— Aí, no mesmo dia, o laboratório me mandou mensagem pedindo desculpa… dizendo que tinham tido um problema no sistema.
O olhar dela se perdeu por um instante.
— Que iam mandar o resultado correto em três dias.
Ela deu de ombros, leve.
— Eu nem me preocupei. Porque, pra mim, já estava resolvido.
Mais uma pausa. Mais longa agora. O olhar voltou para ele. Diferente.
— Só que, três dias depois…
Ela parou como se revivesse.
— Chegou o resultado.
O ar pareceu pesar.
— E veio positivo de novo.
O silêncio se instalou por um instante.
— E, dessa vez…
A voz dela baixou.
— não tinha erro.
Ela desviou o olhar e respirou fundo.
— Eu senti como se tivessem tirado o chão debaixo de mim.
Sem exagero. Sem dramatização. Só verdade.
— Foi ali que caiu tudo…
Vitor ficou em silêncio por alguns segundos depois que ela terminou. Mas, não era um silêncio vazio. Era imagem. Era ele tentando enxergar… Ela. Sozinha. Recebendo aquele resultado. Rindo primeiro… depois não. Sentindo o chão sair sem ter com quem dividir no mesmo instante.
O olhar dele voltou para ela. Mais atento.
— Eu imagino que você não contou pra ninguém…
Disse, com calma.
— Que você guardou isso só pra você até ter certeza.
Paula o encarou e dessa vez, sorriu.
De verdade. Pequeno. Mas verdadeiro.
— Foi exatamente isso.
Assentiu de leve.
— Eu não falei nada.
Uma pausa.
— Pra ninguém.
Ela pegou a xícara novamente, girando o chá por um instante antes de continuar.
— Eu só… fui tentando entender.
O olhar se perdeu por um segundo.
— Só acreditei de verdade…
Ela respirou fundo, e o tom mudou. Mais suave.
— … quando a médica colocou o coração pra eu ouvir.
A frase veio mais baixa. Mais íntima. Como se aquele momento ainda estivesse muito presente dentro dela.
Vitor esboçou um sorriso quase involuntário
imaginando a cena. O som. O instante em que tudo deixou de ser dúvida e virou real.
Paula percebeu. Observou aquele sorriso com atenção e então completou, com um leve ar de sinceridade misturado com incredulidade:
— Eu não sei nada ainda…
Deu um pequeno suspiro.
— Só sei o tempo… que suponho que você também sabe.
Uma pausa e o olhar voltou para ele.
— E também sei que esse bebê já tá fazendo a minha vida virar completamente. De um jeito que eu ainda nem entendi direito.
E, pela primeira vez naquela conversa não havia defesa, só descoberta.
Paula ficou alguns segundos em silêncio depois da última fala. Não porque não tivesse mais o que dizer, mas porque, pela primeira vez desde que ele tinha chegado, ela sentia que a conversa tinha saído daquele lugar duro.
Ela respirou fundo e, quase como quem decide conscientemente quebrar a própria regra, levantou o olhar para ele.
— Tá…
Começou, com um leve suspiro.
— Pode falar.
Vitor franziu levemente a testa.
— Falar o quê?
Ela deu um pequeno sorriso, já antecipando.
— Tudo.
Uma pausa.
— O que você já pesquisou… o que você já decidiu aí na sua cabeça.
O tom era leve, quase divertido.
— Qual médico você acha melhor?
Vitor ainda a observou por um instante, como se confirmasse.
— Você quer falar disso agora?
Paula riu dessa vez com mais naturalidade.
— Quero.
Assentiu.
— Antes que você exploda.
Aquilo arrancou um pequeno sorriso dele, discreto, mas ali. Vitor pegou o celular, destravou e começou.
— Eu vi os nomes que você me mandou…
A voz voltou ao tom organizado, mas, agora, menos invasivo.
— Tem três bons ali.
Ele deslizou a tela, mostrando.
— Mas esse aqui…
Parou. Indicando.
— Ele tem uma linha mais humanizada, acompanha parto natural, tem boa estrutura hospitalar caso precise…
Foi explicando com calma, com lógica, sem atropelar.
— E já trabalhou com algumas situações mais complexas também.
Olhou para ela.
— Me parece o mais equilibrado.
Paula acompanhava, sem interromper, apenas ouvindo.
E então ele avançou:
— A gente também precisa pensar no hospital…
Uma pausa.
— Mas isso depende muito do tipo de parto que você quer.
O olhar voltou para ela.
— Você já pensou nisso?
Paula fez uma pequena careta, negando com a cabeça.
— Não…
Disse, sincera.
— Eu não pensei em nada disso ainda.
Uma pausa. Mas
Mas então, como se deixasse escapar algo que já existia ali dentro:
— Mas, pra ser bem honesta…
Ela apoiou o cotovelo na mesa.
— A minha vontade mesmo…
Um leve sorriso surgiu, quase tímido.
— era ganhar em casa.
O olhar foi direto para ele.
— Aqui na chácara… em outros tempos eu imaginei isso até na fazenda.
A frase ficou no ar, simples, mas carregada de significado, não só pelo parto, mas pelo lugar.
Pela escolha. Pelo que aquilo representava.
Vitor não respondeu na hora. Mas, diferente de antes, não foi por travamento. Foi por atenção.
Ele olhou para ela.
— Em casa?
Repetiu, mais como confirmação do que questionamento. Paula assentiu de leve. Mais segura agora.
— Aqui.
Uma pausa.
— Com calma… no meu tempo… sem hospital, sem aquela correria…
Ela desviou o olhar por um instante, como se imaginasse.
— Eu sempre pensei nisso.
A voz veio mais suave. Mais conectada.
— Num ambiente que eu me sinta segura.
Vitor acompanhava. Sem interromper. Mas o corpo denunciava que ele estava processando.
— Com uma equipe… — ela continuou — parteira, doula… Acho que é assim que fala…
Olhou pra ele de novo.
— Tudo assistido, claro.
Não era irresponsável. Era escolha.
O silêncio veio, mas dessa vez não era pesado. Era reflexão.
Vitor passou a língua nos lábios, pensativo.
— Eu entendo…
Começou, com cuidado.
— E faz sentido...
Uma pausa.
— Mas me preocupa.
Direto, sem agressividade.
— Principalmente por ser o primeiro.
O olhar dele se manteve nela.
— Eu vou me sentir mais tranquilo com uma estrutura perto.
Paula não reagiu na defensiva. Só escutou.
— Não precisa ser um parto hospitalar tradicional…
Ele ajustou.
— Mas um lugar que tenha suporte imediato.
Uma pausa.
— Caso precise.
Paula respirou fundo. Pensando, mas não rejeitando.
— A gente pode ver alguma opção intermediária…
Ela disse, mais aberta.
— Tipo parto humanizado em hospital… estava lendo algumas coisas sobre…
Vitor assentiu.
— Isso.
Mais tranquilo agora.
— A gente vê juntos depois… as opções que temos. Vou te mandar também alguns documentários para você assistir.
O olhar deles permaneceu alinhado por alguns segundos depois da conversa sobre o parto. Sem tensão. Sem disputa. Só… construção.
Paula acompanhou com o olhar, mais tranquila, e voltou a levar o chá aos lábios.
O ritmo da conversa tinha mudado e foi nesse novo espaço que Vitor decidiu avançar, com mais cuidado dessa vez.
— Eu queria te perguntar uma coisa…
Paula levantou o olhar.
— Você tem testamento?
A pergunta veio direta, mas o tom não assustou. O assunto, sim.
Ela franziu a testa na hora.
— Testamento?
Repetiu, surpresa.
— Não…
Uma pausa.
— Por quê?
Vitor assentiu de leve.
— É bom você fazer.
Disse, com calma.
— Eu já pedi pros meus advogados alterarem o meu.
Paula o encarava, tentando acompanhar onde ele queria chegar.
— Não é só sobre os bens materiais…
Ele continuou.
— Dinheiro, patrimônio…
Uma pausa breve.
— É sobre o que não é físico também.
O olhar dele se manteve nela.
— As músicas… Os discos que já saíram… Os que ainda vão sair…
A forma como ele falava deixava claro que aquilo não era exagero, era responsabilidade.
— Tudo isso precisa de alguém responsável…
Ele completou.
— Pra ajudar o nosso filho a decidir sobre isso… se um dia a gente não estiver aqui.
Paula absorveu, mas ainda parecia deslocada dentro daquele assunto.
— Mas… tem necessidade disso agora?
Perguntou, sincera.
— O bebê nem nasceu ainda…
Vitor não hesitou.
— Tem.
Simples.
— Principalmente pra mim.
O olhar não desviou.
— Se alguma coisa acontece comigo antes do bebê nascer…
Uma pausa.
— Eu preciso garantir que ninguém faça nenhum absurdo com o que eu construí e ele tem direitos sobre isso, na verdade o bebê e os irmãos é que são os verdadeiros donos de tudo.
Aquilo não era medo, era organização. Ele respirou fundo, e então acrescentou:
— Depois eu vou precisar dos seus documentos.
Paula franziu a testa.
— Pra quê?
— Porque eu já deixei definido…
Ele disse, com naturalidade.
— Que é você quem decide sobre as minhas músicas.
O silêncio veio imediato… Paula ficou imóvel por um segundo.
— Eu?
A surpresa foi clara.
— Mas por quê eu?
Ela o encarou.
— Você tem a Maria… o João…
A pergunta fazia sentido, mas Vitor não explicou.
Não desenvolveu. Só sustentou o olhar com uma calma que não precisava de argumento.
— Você sabe por quê.
E não disse mais nada.
Paula ainda ficou alguns segundos em silêncio depois daquilo.
Mas, dessa vez, não se prendeu.
Respirou fundo, desviou o olhar por um instante… e decidiu mudar o rumo.
— E você?
A pergunta veio simples. Vitor levantou o olhar.
— Como você veio pra BH?
Ela apoiou a xícara na mesa.
— Está de carro? Ou de aplicativo?
O tom era leve. Mas carregava algo novo.
Vitor respondeu com naturalidade:
— Vim de avião.
Uma pausa curta.
— Aluguei um carro aqui e estou ficando na casa da minha madrinha.
Paula assentiu de leve. Processando.
— É longe daqui…
Comentou, quase automática. Vitor concordou com um pequeno movimento de cabeça.
— É…
Uma pausa breve, então ela olhou para ele de novo. Mais direta.
— E você pretende ficar lá?
A pergunta veio sem rodeio. Vitor não hesitou, mas também não respondeu de forma fechada.
— Não.
Disse, com calma.
— Eu vou ver algum lugar pra ficar mais perto.
O olhar se manteve nela.
— Até porque eu quero acompanhar as consultas…
Uma pausa. Mais cuidadosa.
— Se você não se sentir incomodada.
Paula sustentou o olhar. Sem recuar.
— Não.
Respondeu. Simples.
— É um direito seu.
A frase veio firme, mas sem dureza e ficou ali.
Entre os dois. Como mais uma confirmação silenciosa de que, mesmo sem dizer, eles já estavam dividindo mais do que pretendiam admitir.
Paula ficou alguns segundos em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Era pensamento.
Organização.
Ela lembrava. De outras situações. De outras adaptações. Dele se reorganizando para caber na vida dos filhos… dormindo em casa de amigos, ajustando rotina, até conseguir estruturar um espaço próprio em Campinas.
Ela conhecia esse movimento. E, naquele instante, percebeu que aquilo começava de novo. Mas, dessa vez ela estava ali. Dentro da equação.
Paula respirou fundo e decidiu.
— Eu vou organizar o chalé.
A frase veio direta. Sem rodeio.
Vitor franziu levemente a testa, surpreso.
— Não precisa…
Começou. Mas ela não deixou terminar.
— Eu vou organizar.
Repetiu. Mais firme. Mas sem agressividade.
— Principalmente pra você… e pras crianças.
Uma pausa. O olhar dela se manteve nele.
— Quando elas vierem.
Aquilo mudou o peso da fala. Não era só sobre ele. Era sobre tudo que vinha junto.
Vitor ainda tentou:
— Paula, não precisa se preocupar com isso, eu vou…
— Eu faço questão.
Ela interrompeu. Com calma. Mas sem espaço para recuo.
— Você não precisa resolver isso agora.
Uma pausa.
— Nem se preocupar com onde vai ficar.
O tom suavizou um pouco. Mas a decisão já estava tomada.
— Eu quero que as crianças venham pra cá.
Disse, mais sincera agora.
— Que elas acompanhem esse momento.
O olhar dela ficou mais profundo. Mais conectado com o que realmente importava.
— Vai ser melhor pra todo mundo.
Uma pausa curta.
— Mais seguro.
E, ali não era só logística. Era espaço. Era abertura. Era, pela primeira vez de forma concreta ela criando um lugar para ele na vida dela de novo.
Eles seguiram à mesa por mais tempo do que o esperado. A conversa, que até então vinha carregada de pausas e cuidados, encontrou um ritmo mais natural. Comeram com calma, falando entre um assunto e outro, sem interrupções, sem aquela urgência que tinha marcado tudo desde o dia anterior. No meio disso, voltaram ao que era necessário resolver, olharam novamente os nomes, compararam possibilidades e, ali mesmo, agendaram a consulta com o médico que tinham escolhido. Foi simples, objetivo, mas diferente: não havia pressa, havia acordo.
Vitor permaneceu na chácara. Não porque tivesse decidido ficar, mas porque ela pediu, e ele percebeu que aquele pedido vinha de um lugar sincero. Paula tinha notado o quanto ele estava deslocado dentro de tudo aquilo. Não por falta de espaço, mas pelo contrário: ele tinha organizado tanto em tão pouco tempo que, de repente, não havia mais o que resolver. Restava apenas estar. E isso, para ele, ainda era novo.
Dulce preparou o almoço com a tranquilidade de quem entende que algumas coisas precisam apenas seguir seu curso. A casa retomava um ritmo mais cotidiano, mais humano. Paula comeu pouco, mas melhor do que nos dias anteriores, e, quando terminou, se levantou devagar, olhando ao redor como se precisasse de ar.
— Vou dar uma volta lá fora…
Disse, já caminhando em direção à saída. Parou por um instante e olhou para trás.
— Quer vir?
O convite foi simples. Sem peso. Vitor levantou sem hesitar.
Lá fora, o sol já estava mais alto, aquecendo a terra e trazendo aquele cheiro de mato que só existia ali. Caminharam lado a lado, sem falar, mas não havia desconforto. Era um silêncio diferente, menos carregado, mais leve. O som dos passos, o vento entre as árvores, tudo parecia desacelerar o que vinha rápido demais.
Foi Paula quem quebrou aquele momento ao parar e indicar com o olhar.
— Olha ali…
Vitor seguiu o gesto e encontrou as capivaras espalhadas próximas à água, tranquilas, completamente alheias a qualquer urgência humana. Ele riu, um riso solto, espontâneo, pegando o celular quase no mesmo instante.
— João vai amar isso…
Comentou, já filmando.
— E a Maria vai querer desenhar todas.
Paula observou a cena por alguns segundos, absorvendo aquele momento mais leve, antes de perguntar:
— Eles sabem que você está em Belo Horizonte?
Vitor negou de leve, ainda com o olhar no celular.
— Não. Eu estava com eles… depois fui pra Uberlândia… e desde ontem não falei com eles.
Ela ficou em silêncio por um instante, pensando, e então voltou o olhar para ele com algo diferente.
— Eu tive uma ideia.
Vitor abaixou o celular, curioso.
— O quê?
Ela apontou novamente para as capivaras.
— Na sua próxima folga, você traz eles pra cá.
Fez uma pequena pausa.
— Pra chácara.
O olhar dela se manteve nele enquanto completava:
— E a gente conta aqui… com isso acontecendo, eles vendo de perto.
Vitor olhou novamente para os animais, depois para ela, e riu baixo.
— Pode ser uma boa ideia.
Assentiu.
— Bem melhor do que só sentar e falar.
Paula concordou, e os dois permaneceram ali por mais alguns instantes, observando. Não era falta de assunto. Era só… suficiente. E, naquele ponto, sem perceber, já não era mais apenas sobre lidar com o que tinha acontecido. Era sobre começar a viver aquilo juntos.
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