Antigo novo amor
26 Capítulo 26 - O biquíni
Depois que o carro virou a esquina e sumiu da vista, ele ainda ficou alguns segundos parado na porta. Quando voltou para dentro, a cozinha ainda guardava o calor do café que tinha atravessado a tarde inteira. O bolo quase no fim, as xícaras espalhadas, as crianças ainda falando das capivaras como se aquilo tivesse sido um evento memorável.
— Acho que ninguém aqui vai conseguir jantar depois desse café — Marisa comentou.
João levantou a mão na hora.
— Eu não consigo.
Maria também.
— Nem eu.
Vitor riu.
— Então hoje a gente pula o jantar. Só banho e cama.
As crianças comemoraram. A noite seguiu leve. João tomou banho primeiro e ficou contando sobre os planos do bolo na fazenda, insistindo que o topo precisava ter uma capivara.
Depois foi a vez de Maria. Quando deitou na cama, ele sentou ao lado, apagando a luz principal e deixando só o abajur aceso. Ela segurou a mão dele antes que ele se levantasse.
— Pai?
— Oi.
— Você ficou chateado quando viu a Paula?
A pergunta veio calma. Sem acusação. Ele respirou antes de responder.
— Não.
Ela analisou o rosto dele.
— Nem um pouquinho?
Ele pensou.
— Fiquei surpreso. Mas não fiquei chateado.
Maria ficou em silêncio alguns segundos.
— Eu fiquei feliz.
Ele sorriu pequeno.
— Eu também fiquei feliz.
Ela inclinou a cabeça.
— Eu gosto quando você ri daquele jeito.
Ele franziu levemente a testa.
— Que jeito?
— Igual você riu hoje na cozinha. Quando ela falou da capivara.
Ele lembrou. O riso que tinha escapado antes mesmo que pudesse pensar.
— Você riu de verdade — Maria completou. — Não foi aquele riso educado.
Ele soltou um sopro leve, quase rindo de novo.
— Você percebe tudo, né?
— Eu percebo quando você esquece que tá sério.
A frase ficou ali. Ele passou a mão no cabelo dela.
— Às vezes adulto esquece que pode rir.
Maria pensou um instante.
— Você ainda gosta dela?
Direto. Honesto. Mas, ele precisava mudar o rumo daquilo ali.
— Vamos dormir?
Maria estava cansada demais para rebater. Fechou os olhos depois disso, tranquila, como quem resolveu o assunto antes de dormir e ele ficou ali sentado mais alguns minutos, entendendo que talvez a coragem que faltava nele estivesse dormindo no quarto ao lado, com dez anos de idade.
Enquanto aquela conversa finalizava no aconchego daquela casa, o carro que levava Paula seguia rumo ao hotel, em silêncio. As mãos apoiadas no colo, o olhar fixo no movimento da rua. Isabella a observava de lado.
— Eu vi ele hoje.
Paula não virou o rosto.
— Eu também — respondeu apenas.
Isabella soltou um pequeno sopro.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Agora Paula virou.
— Então o que foi?
— Eu vi o jeito que ele te olhava no estúdio.
Paula sustentou o olhar dela por um segundo e então voltou para a janela.
— Isabella!
— Não — Isabella continuou, tranquila. — Eu sei a diferença entre olhar profissional e olhar de homem que está querendo a pessoa!
Paula não respondeu. O silêncio ocupou o carro mais alguns metros.
— E eu vi você também — Isabella acrescentou.
Paula respirou fundo.
— Eu trabalhei hoje.
— Você cantou uma música que ele escreveu quando se apaixonou por você.
Agora Paula olhou de verdade para ela.
— A gente não vai fazer isso agora.
Isabella levantou as mãos em rendição leve.
— Tudo bem.
Silêncio novamente. Alguns segundos depois Paula falou, mais calma:
— Ele que decidiu ir embora.
Não havia amargura na voz.
Mas havia firmeza.
— Eu não tive escolha.
Isabella assentiu.
— Eu sei.
— Então eu não vou implorar para ninguém voltar — Paula continuou. — Nem para ele.
A frase saiu limpa. Sem tremor. Sem dramatização. Isabella não discordou.
— Você nunca faria isso.
O carro parou no sinal.
— Mas você ainda ama ele — disse Isabella, simples.
Paula olhou para frente.
— Amar alguém não obriga ninguém a aceitar qualquer coisa.
Isabella apoiou a cabeça no banco.
— Justo.
Mais alguns metros de silêncio.
— Você vai amanhã? — ela perguntou então.
Paula demorou antes de responder.
— Eu não sei.
— Maria vai esperar.
— Eu sei.
Isabella sorriu pequeno.
— Aquela menina gosta de você de verdade.
Paula não conseguiu evitar um pequeno sorriso também.
— Eu gosto dela mais ainda. Dela e do João… Ela tem uma alegria que é só dela e João é emburrado como o pai, de um jeito especial.
O carro virou na rua do hotel. Isabella olhou mais uma vez para ela.
— Só uma coisa.
— O quê?
— Hoje você estava feliz.
Paula abriu a porta antes de responder.
— Eu estava bem.
Isabella saiu do carro também.
— Isso é quase a mesma coisa.
Ela não respondeu. Mas, quando caminhou para dentro do hotel, levou consigo a sensação incômoda de que Isabella talvez estivesse certa.
A luz da manhã atravessava a cortina do quarto quando Paula abriu os olhos na manhã seguinte. Por alguns segundos ela ficou imóvel, tentando lembrar onde estava. Então as lembranças da noite anterior voltaram, uma depois da outra.
A cozinha de Marisa.
As crianças.
O riso dele.
A música.
E o convite de Maria.
“Eu vou esperar você.”
Paula soltou um suspiro e se sentou na cama. Isabella já estava acordada, sentada na poltrona perto da janela com o celular na mão.
— Bom dia.
— Bom dia — Paula respondeu.
Ela passou a mão pelo rosto e ficou alguns segundos em silêncio.
— Você vai?
Levantou da cama e caminhou até a janela. A cidade já estava acordada lá embaixo. Carros passando, gente atravessando a rua, a vida acontecendo normalmente.
— Eu não sei se devo — ela disse.
— Eu não perguntei isso.
Paula virou o rosto.
— Então o que você perguntou?
— Se você vai.
Paula cruzou os braços.
— Ele terminou comigo. Eu não vou aparecer lá como se nada tivesse acontecido.
Isabella assentiu.
— Eu sei.
— E eu também não vou implorar pra voltar.
— Eu sei disso também.
Paula voltou a olhar pela janela.
— Então pronto.
— Não exatamente.
Paula virou de novo.
— Por quê?
— Porque ontem você ficou feliz.
Ela não respondeu. Isabella continuou, tranquila:
— E não foi só por causa dele.
— Não…
— Foi por causa da Maria.
O silêncio que se seguiu foi mais longo. Paula respirou fundo.
— Aquela menina…
Ela balançou a cabeça, quase sorrindo.
— Eu gosto muito dela.
— Eu sei.
— E ela vai ficar esperando.
Isabella levantou uma sobrancelha.
— Então?
Ficou alguns segundos pensando. Não era uma decisão simples. Ir significava: rever ele, estar no espaço dele e abrir uma porta que ela tinha decidido fechar. Mas também significava: não quebrar a expectativa de uma criança que a amava.
Ela pegou o celular na mesa e viu uma notificação nova.
“A gente tá indo pra fazenda agora.”
Logo abaixo outra.
“Eu vou fazer um desenho do cavalo que você falou.”
Paula sorriu involuntariamente e Isabella viu.
— Você já decidiu.
Colocou o celular sobre a mesa novamente.
— Vamos.
— Pra fazenda?
Ela respirou fundo.
— Pra ver a Maria… até porque não temos nada para fazer também até a hora do voo e acho que Tati não ficará chateada se eu não me encontrar com ela dessa vez.
No fundo, ela sabia: Não era só isso. Não era só sobre ver a Maria.
Não muito distante do hotel, a caminhonete parou na garagem da casa da fazenda. Vitor desligou o motor e, por alguns segundos, ninguém saiu do carro. O lugar ainda estava quieto, daquele jeito típico das manhãs no interior, o som de algum pássaro mais distante, o vento mexendo nas folhas das árvores, e o silêncio grande do terreno aberto. João foi o primeiro a abrir a porta.
— Eu vou ver o cavalo!
— Devagar — Vitor respondeu, já sabendo que o pedido provavelmente seria ignorado.
Marisa desceu logo depois, olhando em volta enquanto esticava as costas.
— Ainda bem que a gente veio mais cedo. Dá tempo de organizar tudo.
Maria continuou sentada no banco de trás e Vitor percebeu pelo retrovisor.
— Você não vai descer?
Ela olhava para fora da janela, pensativa.
— Pai…
Ele virou um pouco no banco.
— Oi.
— Você acha que a Paula vem?
Ele não respondeu imediatamente. Abriu a porta, deu a volta no carro e abriu a dela.
— Vem cá.
Maria desceu devagar e ele se abaixou um pouco para falar na altura dela.
— Filha, pode ser que ela não venha hoje.
Maria ficou em silêncio. Ele continuou, com calma:
— Às vezes as pessoas querem vir, mas acabam tendo outras coisas para fazer.
Ela assentiu.
— Tipo trabalho?
— Pode ser trabalho. Pode ser outra coisa.
Ele colocou a mão de leve no ombro dela.
— Mas isso não quer dizer que ela não gosta de você ou que não quis vir.
Maria olhou para o chão por um segundo.
— Eu sei.
Ele completou:
— Então o que eu quero é que você aproveite o dia. Seus primos vão chegar, a gente vai fazer o bolo, você vai correr por aqui… vai ser um dia bom.
Ela respirou fundo e assentiu.
— Vai mesmo.
— E se a Paula aparecer, ótimo.
Maria levantou os olhos.
— E se não aparecer…
Ele sorriu pequeno.
— A gente se diverte do mesmo jeito.
Maria pensou um segundo e aceitou.
— Tá bom.
João apareceu correndo novamente.
— O cavalo tá lá no fundo!
Maria finalmente sorriu e saiu atrás dele enquanto Marisa observava a cena.
— Ela perguntou da Paula, né?
Vitor pegou as bolsas do carro e seguiu para a casa.
— Perguntou.
— E o que você disse?
— Que talvez ela não venha.
Marisa assentiu.
— Fez certo.
O tempo passou entre pequenas tarefas. Marisa organizava as coisas da cozinha, João ia e voltava do quintal contando descobertas sobre o cavalo, e Maria ajudava a separar algumas fitas coloridas que usariam na mesa.
Vitor estava do lado de fora, inclinado sobre a grande mesa de madeira, tentando prender uma faixa simples que dizia Parabéns enquanto Maria decidia onde colocar os desenhos que tinha feito.
— Pai, esse aqui vai no meio.
— No meio não cabe, filha.
— Cabe sim.
Ele riu.
— Então mostra como.
Maria subiu na cadeira para ajudar. Foi nesse momento que o som de um carro entrando pela estrada de terra repletas de Ipês amarelos chamou a atenção.
Vitor levantou a cabeça automaticamente e Maria também. Uma pequena nuvem de poeira se aproximava devagar entre as árvores.
O carro parou perto da casa. A porta abriu.
Isabella desceu primeiro e ele reconheceu de longe, e antes mesmo que ele tivesse tempo de pensar qualquer coisa, Maria já tinha entendido.
— PAI!
Ela praticamente pulou da cadeira.
— É ELA!
Paula apareceu ao lado do carro logo depois. Vestido leve, cabelo preso de forma simples, óculos escuros protegendo os olhos do sol forte.
Por um segundo, Vitor ficou parado onde estava. A filha já corria pelo gramado.
— PAULA!
Paula mal teve tempo de fechar a porta quando Maria chegou e se jogou nos braços dela. Ela riu, abaixando-se para abraçar a menina.
— Eu cheguei!
— Eu sabia!
Maria segurou o rosto dela.
— Eu falei pro papai que você vinha.
Ele então se aproximou devagar. Quando Paula levantou os olhos, os dois se olharam por um instante. Nada exagerado. Nada dramático. Mas também não era neutro.
— Espero não estar chegando muito tarde — ela disse.
Vitor olhou para a mesa meio decorada, para a filha abraçada nela e depois voltou o olhar para Paula.
— Não chegou. A gente ainda está começando!
A manhã seguiu tranquila depois da chegada de Paula. Sem grandes anúncios, sem explicações. Como se, de algum jeito silencioso, todos tivessem aceitado a presença dela ali. Maria praticamente não largava a mão dela.
— A gente vai enrolar os docinhos que a vovó fez hoje cedinho — a menina explicou, puxando Paula até a mesa grande da varanda.
Marisa já organizava tudo na mesa externa para facilitar levar até a mesa principal da festa que estava no jardim.
— Ainda bem que você chegou — disse com carinho contido. — Essas crianças enrolam mais conversa do que brigadeiro.
Paula riu.
— Eu ajudo.
— Eu também — Isabella acrescentou, já arregaçando as mangas da blusa.
Em poucos minutos a mesa estava ocupada. Maria tentava fazer bolinhas perfeitas de brigadeiro. Paula ajudava a ajustar o formato quando elas ficavam tortas. Isabella cuidava de passar as bolinhas no granulado enquanto comentava alguma coisa com Marisa sobre a estrada até ali.
— Esse ficou bom? — Maria perguntava, levantando um docinho.
— Ficou ótimo — Paula respondeu.
— Esse também?
— Esse ficou artístico.
Maria riu. No quintal, de frente para a varanda, Vitor terminava de prender as fitas coloridas que Maria queria. João estava ao lado dele segurando as que restavam, mesmo sem ajudar muito.
— Mais alto — João opinava.
— Mais alto não dá — Vitor respondeu.
— Dá sim.
— Então vem aqui fazer.
Os dois riram. De vez em quando, Paula levantava os olhos da mesa e observava. O jeito como ele falava com João, a paciência para explicar alguma coisa. O cuidado para envolver o filho em cada pequena tarefa e aquilo apertava um lugar delicado dentro dela.
Porque aquele era exatamente o homem que ela sempre viu. O homem que seria um pai incrível e que tinha decidido não ter um filho com ela quando resolveu desistir. O pensamento veio rápido e doeu mais do que ela esperava.
Paula desviou o olhar imediatamente, voltando para os docinhos. Não era o dia para abrir aquela porta. Isabella percebeu e não comentou nada, mas passou uma bolinha de brigadeiro para ela e falou apenas:
— Esse aqui ficou perfeito.
Como quem puxava ela de volta para o momento.
Do outro lado, Vitor também levantou os olhos por um instante e encontrou o olhar dela. Foi rápido, mas suficiente. Os dois desviaram quase ao mesmo tempo.
O clima da manhã seguiu leve. Maria agora ajudava a decorar o bolo com pequenas flores de açúcar.
— Não come a decoração antes da hora — Marisa avisou.
— Eu não fiz nada — Maria respondeu, com a boca já suspeitamente cheia.
Algum tempo depois, o som de carros entrando pela estrada de terra anunciou a chegada dos primos.
— Eles chegaram! — Maria gritou.
As crianças desceram dos carros já correndo pelo quintal. Leo foi o último a sair, organizando aquela turma toda, já que Carol não pode ir.
— Trouxe reforço pra essa festa.
Foi então que ele viu Paula. Parou no meio do passo.
— Uai…
Paula levantou os olhos e sorriu educadamente.
— Oi, Leo.
— Achei que você já tinha voltado pra BH.
— Vim dar um abraço na Maria.
— Fez bem.
Ele a cumprimentou, depois Isabella, a mãe e seguiu caminhando até Vitor, que ajeitava algumas coisas perto da mesa. Falou baixo, só para ele ouvir.
— Você não falou que ela vinha.
Vitor deu de ombros.
— Eu também não sabia.
Léo olhou novamente para a mesa. Paula ajudava Maria, que já havia voltado após receber os primos, a colocar a última flor no bolo enquanto Isabella organizava os docinhos em volta.
— Pois parece que alguém ficou muito feliz que ela veio.
Vitor acompanhou o olhar. Maria sorria daquele jeito aberto que só criança consegue. Paula também sorria e por um instante a cena parecia completa demais.
— Você sabe que isso aí ainda não acabou, né?
Vitor soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Hoje é dia da Maria.
— Não é aniversário — Leo corrigiu. — É só o bolo antes.
Vitor assentiu.
— Então hoje é dia dela.
Leo levantou as mãos em rendição.
— Tá bom.
Mas antes de sair, completou:
— Só não finge que você não está vendo. Não sei o que aconteceu entre vocês e respeito sua decisão, você sabe disso melhor que ninguém… Mas as coisas estão aparentemente emaranhadas demais por aqui.
E deixou o irmão ali por alguns segundos, pensando sobre tudo isso.
Quando o almoço ficou pronto, Marisa chamou todos para a mesa. Pratos passando de mão em mão, copos sendo enchidos, crianças falando ao mesmo tempo sobre coisas completamente diferentes.
João tentava explicar alguma coisa sobre o cavalo para um dos primos.
— Ele não é bravo, só corre rápido.
— Ele tentou morder você — o primo retrucou.
— Não tentou!
Maria falava sobre o bolo que tinham feito.
— Fui eu que coloquei as flores.
— Ficou torto — João provocou.
— Não ficou!
As conversas se misturavam. Risadas surgiam aqui e ali. Mas Vitor estava mais quieto que o normal. Sentado de um dos lados da mesa, ele participava apenas o suficiente. Respondia quando alguém perguntava alguma coisa, sorria em determinados momentos, mas na maior parte do tempo permanecia em silêncio.
Talvez porque tivesse percebido que aquilo tudo estava… demais. A presença dela. A forma como ela se movia entre as pessoas com naturalidade. A maneira como Maria a puxava para perto o tempo inteiro. Paula estava ali. E estava bem ali. Perto o suficiente para que ele precisasse constantemente lembrar a si mesmo de não olhar por muito tempo. Porque, sempre que olhava, vinha aquele impulso simples e perigoso de se aproximar. De encostar. De beijar. Então ele evitava.
Voltava para o prato. Para o copo. Para qualquer coisa que mantivesse o olhar longe. Até que Maria puxava ele de volta.
— Pai!
Ele levantava os olhos.
— Oi.
— Sabia que o João falou que o cavalo ia deixar ele montar sozinho?
— Não falei isso — João respondeu.
— Falou sim!
Vitor ria.
— Então depois vocês resolvem isso lá fora com
o cavalo .
E assim o dia seguia. Entre o barulho das crianças, os comentários tranquilos de Marisa, as observações ocasionais de Leo e o silêncio que ele mantinha sempre que percebia Paula do outro lado da mesa.
Algum tempo depois do almoço, as crianças foram as primeiras a sugerir a piscina. Em poucos minutos o quintal voltou a se encher de movimento. As crianças correram para pegar toalhas enquanto Marisa recolhia os pratos com a ajuda de Isabella e Hilca, a funcionária da fazenda.
Paula ficou perto da varanda observando a movimentação.
— Eu acho que vou ficar só aqui — comentou, sorrindo para Maria. — Não trouxe biquíni.
Maria fez uma careta dramática.
— Ah…
— Mas eu fico assistindo vocês.
Maria já corria para trocar de roupa quando Vitor apareceu perto dela.
— Você tem… Caso queira entrar.
Paula virou o rosto para ele.
— Tenho o quê?
— Um biquíni.
Ela franziu a testa.
— Aqui?
— Tem.
— Desde quando?
Ele pensou um segundo, como se a resposta fosse óbvia demais.
— Desde a última vez que você veio.
Paula demorou um momento para entender. Então lembrou. Uma viagem meses antes. Um fim de semana que tinham passado ali. Ela tinha deixado algumas coisas no quarto e ele tinha ficado de mandar depois, mas nunca mandou.
Paula levantou as sobrancelhas.
— Você esqueceu de me mandar?
Vitor deu de ombros.
— Esqueci.
Ela balançou a cabeça, surpresa.
— Então ele ainda tá aqui?
— Está.
Paula soltou um pequeno riso.
— E você lembra exatamente onde ele está?
— Lembro.
Um pequeno silêncio se instalou entre os dois. Curto. Carregado do passado que existia ali. Ele apontou na direção da casa, enquanto fingia mexer no celular.
— No quarto.
Paula olhou para a piscina, onde Maria já pulava na água. Depois voltou a olhar para ele.
— Então acho que eu vou procurar!
Ela entrou na casa. O barulho das crianças na piscina ficou para trás, abafado pela madeira das paredes e pelo silêncio fresco do interior da casa. Ela caminhou pelo corredor sem pensar muito. Sabia exatamente qual era o quarto.
Quando empurrou a porta, o coração deu um pequeno salto que ela não esperava. Assim que entrou, percebeu: Tinha sido uma péssima escolha. O quarto estava exatamente como ela lembrava. A cama grande perto da janela. A poltrona no canto. O chapéu pendurado no encosto da cadeira e o cheiro dele impregnando no ar de um jeito inconfundível.
Não era perfume. Era aquele cheiro misturado de sabonete, madeira e sol que parecia sempre acompanhar Vitor.
Paula parou no meio do quarto. Por um segundo inteiro, ficou imóvel. Memórias vieram rápidas: Risos. Noites ali. Manhãs preguiçosas naquela mesma cama.
Ela respirou fundo. Talvez tivesse invadido um espaço que não era mais dela. Talvez tivesse cruzado uma porta que deveria ter deixado fechada. O biquíni parecia uma desculpa fraca agora. Ela deu um passo para trás, pensando em sair, em voltar para a piscina e fingir que não tinha encontrado nada. Foi nesse momento que percebeu a presença.
A porta não estava mais vazia. Vitor estava parado ali, encostado no batente. Ele não parecia surpreso, apenas observava, como se soubesse exatamente o que aquele quarto fazia com os dois.
Paula soltou o ar devagar.
— Eu… acho que fiz uma péssima escolha vindo aqui.
A voz saiu mais baixa do que ela pretendia. Ele deu um pequeno sorriso pelo canto da boca.
— Eu pensei a mesma coisa quando te falei do biquíni.
O silêncio que seguiu foi diferente de qualquer outro naquele dia. Mais fechado. Mais próximo. Mais perigoso.
Paula desviou o olhar para o guarda-roupa.
— Onde ele está?
Ele não respondeu imediatamente, apenas entrou no quarto. Devagar. Como se cada passo ali tivesse memória própria.
— Na última gaveta — disse, apontando.
Paula caminhou até o móvel tentando ignorar o fato de que ele agora estava dentro do quarto também.
Abriu a gaveta. O biquíni estava ali. Exatamente onde ele tinha dito. Ela pegou a peça e fechou a gaveta rápido demais. Quando virou, percebeu que ele ainda estava perto da porta. Observando. Silencioso. Como se estivesse lutando contra algo.
Do lado de fora, o barulho das crianças na piscina explodiu em gargalhadas. Dentro do quarto, porém, o ar parecia pesado demais.
Paula segurava o biquíni nas mãos e sabia que sair daquele quarto agora talvez fosse a decisão mais segura, mas também sabia que nenhum dos dois estava completamente seguro ali.
O silêncio entre eles durou alguns segundos. Foi Paula quem quebrou primeiro. Ela respirou fundo e levantou os olhos para ele.
— Eu espero que você não tenha ficado chateado por eu aparecer aqui assim.
A voz saiu calma, mas havia cuidado nas palavras.
— No seu espaço… com a sua família.
Vitor franziu levemente a testa, como se aquela ideia não tivesse passado exatamente por esse lugar na cabeça dele.
— Chateado não.
Ele apoiou a mão no encosto da cadeira perto da porta.
— Surpreso.
Paula assentiu devagar.
— Eu imaginei.
Ele continuou, sincero:
— Talvez eu realmente tivesse preferido saber antes.
Ela levantou os olhos para ele.
— Preferido?
— Pra me preparar melhor.
Agora Paula ergueu uma sobrancelha, o olhar ficando um pouco mais afiado.
— Se preparar?
Vitor soltou um pequeno sopro de riso.
— Eu fiquei semanas me preparando pra te encontrar no estúdio.
Ela não riu. Ficou olhando para ele como se estivesse tentando entender a lógica daquela frase.
— Você quis ir embora, Vitor. Então me explica… preparar pra quê exatamente?
O silêncio que se instalou foi diferente. Mais firme. Ele passou a mão pela nuca antes de responder.
— Pra não estragar as coisas.
— Que coisas?
— O reencontro.
Paula inclinou levemente a cabeça.
— Você terminou comigo. Não foi exatamente um reencontro que eu planejei.
Vitor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu sei.
— Então me desculpa se eu não pensei muito em como isso ia ser desconfortável pra você, já que foi você quem decidiu me tirar da sua vida.
A frase não foi agressiva. Mas também não foi macia. Ela respirou fundo antes de continuar.
— Eu vim por causa da Maria.
Ele assentiu.
— Eu sei.
— E porque eu gosto dela.
Silêncio. Vitor levantou os olhos novamente.
— Ela gosta muito de você também.
Paula desviou o olhar por um instante, como se precisasse reorganizar o que sentia.
— Eu não quis invadir nada aqui — ela disse por fim. — Se pareceu isso…
— Não pareceu.
Ele respondeu rápido demais. Depois respirou fundo.
— Só… me pegou desprevenido.
Paula cruzou os braços levemente.
— Engraçado.
Ele levantou os olhos.
— O quê?
— Porque desde ontem eu tenho a sensação de que você passa metade do tempo fingindo que eu não estou aqui.
Ele soltou um pequeno riso cansado.
— Não é fingir.
— Então é o quê?
Vitor demorou um segundo antes de responder. Passou a mão pelo rosto, como se procurasse a forma mais honesta de dizer aquilo.
— É tentar lembrar que eu fui embora…
Ele levantou os olhos para ela.
— …como você está fazendo questão de me certificar disso a cada frase.
O silêncio que veio depois foi denso. Não hostil. Mas carregado demais de coisas que não cabiam naquele espaço pequeno do quarto.
Paula respirou fundo. Por um instante pareceu que responderia, mas apenas balançou a cabeça de leve.
— Eu não estou tentando te lembrar de nada.
A voz saiu calma.
— Eu só não finjo que não aconteceu.
Ele sustentou o olhar dela por um segundo. Paula abaixou os olhos para o biquíni nas mãos.
— Você fez sua escolha e a mim coube aceitar.
Simples assim. Sem acusação. Sem drama. Só fato. Ela caminhou até a porta, parou ao passar por ele. O calor dentro do quarto estava quase sufocante. O ar pesado da tarde de Uberlândia parecia não circular direito ali dentro.
Lá fora, o vento começava a mexer nas árvores. Paula segurou a maçaneta, então disse apenas:
— Vamos descer para piscina? Não precisamos dessa situação toda.
Ele assentiu devagar.
— Vamos.
Ela abriu a porta. O ar quente do corredor entrou de uma vez. Paula saiu primeiro e Vitor ficou parado ali por alguns segundos antes de segui-la. O quarto ainda guardava o cheiro dela misturado ao dele. Ele passou a mão pela nuca, respirando fundo.
Lá fora, o calor continuava pesado. Aquele tipo de calor parado, espesso, que fazia o céu parecer baixo demais. E que, em Uberlândia, quase sempre significava uma coisa só: Chuva chegando.
Fale com o autor