Antigo novo amor

6 Capítulo 06 - A banheira


Beijam-se no hall de entrada mesmo e ao se darem conta disso, riem. Entram no apartamento e Paula ainda não consegue crer que ele veio para Belo Horizonte sem avisa-la.

— Quis fazer uma surpresa! — sorri.

— E fez mesmo! Quando nos falamos mais cedo, você estava onde?

— No aeroporto! — sorri.

— Não desconfiei de nada. Poderia ter me avisado que eu teria preparado algo para nós.

— Não se preocupe, vou fazer nosso jantar! — puxa a mala. Olha o que eu trouxe! — abre a mala e retira duas garrafas de vinho.

— Acho que hoje é dia de secarmos algumas garrafas enquanto vemos nossa série?

— Eu topo! — pisca para ela.

Ela o leva para ver como está ficando o apartamento. Já havia organizado praticamente tudo, só tinha algumas caixas ainda espalhadas pela cozinha e pela sala, de onde estava retirando algumas coisas que havia comprado.

Ele acomoda a mala no quarto dela e retornam a cozinha, onde começa a separar os ingredientes para preparar uma macarronada.

— Como sua mãe está? Ela veio aqui hoje?

— Veio de manhã! Ela está melhorando… Só é muito teimosa. — corta os tomates. Amanhã ela vai para Sete Lagoas ver minhas tias.

— Faz parte da idade a teimosia…

— Você está chamando ela de velha? — o olha.

— Não! — se espanta.

— Está sim! — ri da cara dele.

— Ela jamais passaria por velha!

— Sei… — continua rindo. Marisa não comentou nada depois daquele dia?

— Não… Nem vai. Ela vai esperar eu ir falar com ela.

— Será que ela desconfia?

— Ela tem certeza!

— Por que?

— Porque eu não te levaria lá como uma amiga só. É aquilo que te expliquei… Só consigo ser seu amigo se ficarmos bem distantes! — oferece a taça de vinho para ela.

— Entendi! — pega.

— Você escorre o macarrão?

— Sim!

Segura um pano de prato para pegar a panela, mas acaba desequilibrando e deixando escorregar da mão, se queimando.

— AI! — grita, soltando a panela.

— Paula! — se assusta.

— Está queimando! — enche os olhos, balançando a mão.

— Deixa eu ver! — segura. Meu Deus, Pulinha… — a leva até a pia e abre a torneira, colocando a mão dela sobre a água corrente. Onde tem pano de prato limpo?

— Na segunda gaveta! — indica.

Ele pega um pano limpo e umedece com água fria. Retira a mão dela da torneira e coloca o pano sobre a queimadura.

— Quer ir ao hospital? Está feia a queimadura… é melhor irmos para não ficar cicatriz.

— Está doendo! — chora.

— Vamos ao hospital!

Em pouco tempo já estão na recepção do hospital mais próximo. São encaminhados para uma sala particular e um médico avalia a queimadura, aplicando uma pomada.

— Vai doer um pouco! — retira as luvas. Então tome a medicação nos horários corretos e faça os curativos como mostrei. Qualquer coisa, estarei aqui.

O médico se despede e eles seguem de volta para o apartamento.

— Estraguei nossa noite! — espera ele abrir a porta.

— Estragou o que? — abre e espera ela passar. Vamos jantar ainda! — fecha. Pedi comida japonesa quando estávamos no hospital… Logo chega.

— Mas não é só isso! — joga a bolsa no sofá.

— Pulinha — vai até ela — Temos muito tempo, para tudo. Ok?

— Ok… — sorri. Você tem certeza que quer ficar comigo? Está vendo que sou o desastre na cozinha, né? — ri, o abraçando.

— Você nunca foi boa na cozinha! — riem. Com exceção daquele pudim, lembra?

— Como você lembra disso? — ri, olhando para ele incrédula — Preciso te contar uma coisa… Eu nunca fiz aquele pudim!

— Como assim?

— É… — ri. Minha mãe que sempre fez e eu levava para você. Nunca quis desmentir que não era eu…

— Não acredito que fui enganado por anos! — riem.

— Sempre queria te impressionar… Levei o pudim, você comeu e amou, achou que era eu, não quis desmentir! Desculpa… — riem.

— Paula… Você me impressionava por existir!

— Era difícil acreditar que você poderia se interessar por mim… então estava sempre querendo que alguma coisa ligasse nós dois! — ri. Realmente era e agia como uma adolescente…

— E eu amava isso! — sorri. Você ainda era uma adolescente… Mas com uma cabeça adulta! Eu amei você sendo você…- acaricia o rosto dela. Ainda amo que você seja você!

Vitor a beija e as sensações vão se intensificando dentro do peito, percorrendo o corpo, deixando o sangue mais quente e latente. Mas, antes de qualquer reação, o telefone toca.

— Eu atendo… — olha para ela. Deve ser nossa comida! — vai até a cozinha. Oi! Ah, ok… Estou descendo! — coloca no gancho. É a comida!

— Vou organizar aqui!

Ele sai para buscar a comida e ela prepara uma mesa improvisado na sala, onde finalizam a noite assistindo Outlander.

Logo pela manhã, Vitor se levanta e resolve ir ao super mercado, deixando um bilhete para avisar a Paula que logo retornaria.

Pouco tempo depois de se retirar do prédio, Dulce chega com Isabella e tocam a campainha.

— Por que Paula está demorando abrir? Será que aconteceu alguma coisa? — disca.

— Talvez ela esteja dormindo ainda… Viemos cedo demais!

— Não, ela acorda cedo! Atendeu! Paula… Estamos na porta.

Escuta a mãe do outro lado da linha e se levanta em um pulo, veste o robe e sai pelo apartamento procurando por Vitor, até que encontra o bilhete dele.

— Paula?? Você está me ouvindo? — escuta só passos.

— Oi mãe! — fala. O que está fazendo aqui tão cedo? Aconteceu algo?

— Não sabia que precisava agendar horário para te ver!

— Desculpa! — ri — Não foi isso que eu quis dizer! — vai até a porta. Oi! — abre, sorrindo.

Elas entram e Dulce vai direto para cozinha contando sobre uma situação envolvendo Nilmar, o que acaba entretendo Paula a tal ponto que se esquece de telefonar para Vitor avisando que tem visitas.

— Eu vou tomar um banho e já venho para você terminar essa história aí! — segue para o banheiro.

Quando se recorda sobre Vitor, já está com o chuveiro ligado, porém é tarde demais se apressar. A campainha do apartamento toca e Isabella vai atender, se espantando com o que vê.

— Oi! — se afasta para trás e confere o número do apartamento. Bom… É aqui mesmo! — ri.

— Oi…

— Posso entrar? — sorri.

— Ah, claro… — se afasta e ele entra com algumas sacolas.

— Você é a Isabella, né?

— Sim!

— Eu sou o Vitor!

— Claro! — riem.

— Quem é, Bela? — vem da cozinha.

— Oi… — vira, sem graça.

— Vitor! — sorri. Oi… Paula está no banho, já sai.

— Fui ao mercado! — levanta as sacolas.

— Que bom! — vai até ele. Deixa eu te ajudar! — pega um sacola.

Isabella observa a interação sem entender muito o que está acontecendo.

Colocam as sacolas na ilha da cozinha e começam a retirar as coisas.

— Preparei um café… — oferece.

— Vou aceitar! — pega a xícara.

— Viemos sem avisar… Deveria ter falado com ela antes.

— Não por mim. Não se preocupem com isso, não me incomodo… A casa é dela! — sorri e bebe o café. O café está ótimo! — ergue a xícara agradecendo.

— Vou colocar a mesa para tomarmos café!

— Não Isa… Vamos indo! Já preparei o café e vi que Paula está bem, vamos para o escritório.

— Não, por favor… Tomem café com a gente! Faço questão.

— Tá… — sorri. Tudo bem!

Isabella começa preparar a mesa e Paula surge, meio espantada.

— Oi! — sorri.

— Vitor nos convidou para tomar café!

— Ah… Que bom! — sorri.

— Comprei soro fisiológico! — mostra para ela.

— Soro? — estranha.

— Machuquei minha mão ontem!

— Como assim? — se aproxima.

— Estávamos fazendo macarrão e eu deixei escorregar a panela. — mostra.

— Meu Deus, Paulinha!

— Sim… Vitor me levou ao médico, já passei a pomada hoje.

— Precisa cuidar disso! — mexe na mão dela. E cuidar muito bem. Está tomando antibiótico?

— Não! Não precisou.

— Volte ao médico se isso doer!

— Sim, mãe! — sorri. Mas estou sem dor.

— Menos mal!

Tomam café juntos, conversando sobre coisas aleatórias. Dulce e Isabella vão embora logo após a refeição, deixando-os sozinhos.

— Desculpa não ter avisado, mas nem eu sabia que ela viria…

— Paula… — ri — é sua casa! Por que está se desculpando comigo? — come mais um pouco de iogurte. Não me incomodei com elas.

— É que eu deveria avisar!

— Não, não deveria! — sorri. É sua mãe… Ela pode vir a sua casa o quanto quiser.

— Eu sei, mas eu sinto muito por não ter falado. — se levanta. Vou pedir para ela avisar de agora em diante.

— Uai, não estou entendendo! — olha para ela. Você ficou incomodada por elas terem me visto?

— Claro que não! — coloca as xícaras na pia.

— Então não entendo porque está incomodada!

— Não quero te deixar incomodado.

— Mas eu não fiquei!

— Como não? — encara ele. Elas surgiram aqui sem avisar!

Vitor estranha a reação dela com uma situação tão pequena, mas logo entende a raiz do problema.

— Elas não frequentavam sua casa sempre que queriam, né?

— Como assim?

— Em SP… Você precisava avisar quando alguém iria.

— Sim, avisava. Ele era muito ocupado, a casa precisava estar sempre impecável, não podia incomodar ele, nem estar nada fora do lugar quando ele chegasse. Mas, eu até entendia…

— Ele também avisava quando a família dele ia? — dá mais uma colherada no iogurte, a observando.

— Não.

— Hum… Pulinha, senta aqui! — puxa a cadeira para mais próximo dele.

— O que foi? — faz o que ele pede.

— Você tem consciência do que viveu? Lá em SP… Você precisava avisar sobre sua família, mas nunca era avisada sobre a dele. A partir do momento que você entrou naquele apartamento, ele passou a ser seu também, sobre suas regras e vontades também. Por que você precisava avisar sobre a visita da sua família?

— Não sei. Você falando assim… Eu… Eu não sei. — se dá conta.

— Está tudo bem! — sorri. Claro que não quero um dia que ela entre e pegue a gente em situações meio embaraçosas… — ri. Mas, é sua casa, é sua mãe… Agradeça por essa preocupação e esse cuidado. E ah… minha mãe também surge em Campinas sem avisar ás vezes! — pisca para ela.

— Ás vezes eu não quero pensar em tudo que aconteceu…

— E não vamos pensar mais! — segura as mãos dela. Bola para frente!

— É… — sorri. Você fica aqui até que dia? — muda de assunto.

— Gostaria de dizer que é até você me expulsar! — riem — Porém, preciso ir amanhã…

— Já? — se entristece.

— Sim! Tenho algumas reuniões em Campinas e depois já pego as crianças e vou pra Uberlândia. Por que não vem comigo?

— Preciso ver se consigo adiantar tudo do escritório até amanhã, aí irei…

— Ok!

Organizam a bagunça do café da manhã e ela sai rumo ao escritório enquanto ele vai visitar a madrinha.

— O que está fazendo em BH?

— Ué… Não posso vir visitar você?

— Não está me parecendo que veio me visitar!

— Engano seu! — sorri. Vim te visitar!

— E sua mãe?

— Acho que está em Uberlândia.

— E você veio só me visitar?

— Nossa, tia Léia… — encara ela. O que quer que eu fale?

— Nada…

— Ótimo!

No escritório Isabella se desculpa com Paula por ter ido à casa dela sem avisar.

— Por que está se desculpando? — ri.

— Fiquei sem reação quando abri a porta e vi Vítor Chaves na minha frente! Acho que fiquei uns 3 minutos encarando ele e ele me achando estranha por não deixar ele entrar.

— Ele não te achou estranha!

— Não sei muito bem!

— Você comentou com mais alguém que o viu lá?

— Não!

— Ok… Não comente nada ainda.

— Certo. Mas, o que ele estava fazendo lá? Se é que posso perguntar e tal…

— Uai, como assim o que ele estava fazendo lá?

— É que não entendi bem… O apartamento era dele, né?

— Isabella… — encara ela. Não se faça de sonsa. É o que você está pensando mesmo… Por isso pedi pra não comentar com ninguém ainda.

— Mas, o que eu tô pensando?

— Ah pronto! — encara ela.

— Eu realmente não estou pensando em nada… — se acomoda na cadeira.

— Sei! — ri.

— Mas… Se for o que estou imaginando… — olha para ela — que coisa, hein? — sorri.

— Por que?

— Seus fãs realmente estavam certos…

— Nunca falei que estavam errados. Mas, não era momento para nada daquilo e eu também não daria corda.

— Sim! — sorri. Fico feliz por você… Muito feliz! Ver você bem é importante para mim.

— Eu sei… — sorri. E agradeço por isso! E ah… Vitor sabe que você é mais fã do Leo do que dele.

— Que sacanagem! — riem.

Conclui as pendências no escritório e combina de almoçar com Beatriz já que Vitor avisou que teria que almoçar com a tia.

— Até que enfim… — olha-a.

— Desculpa o atraso! Estava tentando achar um lugar para estacionar. — cumprimenta Bia.

— Não estou falando por isso… Mas sim porque finalmente vou descobrir o penhasco que você pulou.

— Ah… — senta, rindo.

Entre risos, sorrisos e incertezas, conta para Beatriz sobre os últimos dias.

— Eu sabia! — dá um tapinha na mesa, rindo. Ainda comentei com o Márcio que estava desconfiada, porque quando vocês dois começam se aproximar… É igual fogo e gasolina. Acontece que eu estava preocupada com isso… Se seria bom ou ruim para você.

— Eu sei…

— Mas, foi ótimo pelo jeito, né? — ri.

— É… Está sendo bom, não diria ótimo.

— Ah não… Como assim?

— Tem muita ponta solta ainda. Tem os filhos dele que não contamos, a mãe dele.

— Franga, você me mostrou os vídeos e fotos com essas crianças… eles já adoram você e sobre a sogra, creio que não tenha que se preocupar.

— É… Vamos ver como será.

— O que está te incomodando?

— Nada…

— Paula… O que está te incomodando?

— Algumas coisas.

— Me conte!

O garçom chega, elas fazem o pedido, e então Paula decide se abrir, revelando o receio de algum dos seus empresários se opor ao relacionamento devido a situação jurídica que Vitor está envolvido com a ex esposa. Revela também o medo da mãe dele não aprovar a relação, pois sabe que ele dá muito valor ao que a mãe pensa e também do medo dos filhos dele, ao descobrirem, se sentirem ameaçados por ela ou quiserem que o pai se distancie dela.

— Seus medos são válidos, Paula. Eu a entendo perfeitamente… Você já tentou falar com ele a respeito?

— Somente sobre os filhos. Pedi que ele contasse para as crianças sem mim por perto… Para avaliar a reação deles e decidir o que queria fazer.

— Paula…

— Jamais ficarei entre ele e os filhos. Ele é um pai incrível… As crianças são alucinadas por ele. Não seria justo essa relação mudar porque eu existo e ele jamais me escolheria.

— Eu sei…

— E aí penso que talvez seja por isso também que ele não quis dar um passo a mais…

— Como assim?

— Não fizemos nada ainda! — se serve com água.

— Não entendi…

— Nós dois… Você sabe! — encara ela.

— Não sei, não.

— Bia! — bebe a água. Não fomos adiante…

— Está um pouco difícil entender!

— Não passamos de beijos… Muito intensos, mas só beijos. Poucos momentos algumas mãos… Mas, nada além.

— Ah, vocês não transaram ainda! Qual dificuldade de dizer isso?

— Não queria ser tão indelicada.

— Não rolou nadinha?

— No primeiro dia, ainda na fazenda, ia rolar… Mas o Nilmar ligou falando da minha mãe. Depois disso tivemos a conversa sobre as crianças e desde que ele chegou, nada…

— Mas ele chegou ontem também… Calma.

— Bia…

— É… Vocês dormiram na mesma cama e nada?

— Assistimos série, jantamos… Dormimos na mesma cama… E nada. Ele mal se aproximou a noite…

— Paula, deve ter uma razão. Ele não viria até BH se não te quisesse, então não pense em coisas que talvez não são o que aparentam.

— É… Eu acabei queimando a mão ontem — mostra. Fiquei pensando que pudesse ser por isso, mas não impediria nada.

— Difícil opinar… Mas penso que faz anos que vocês dois não se veem. Quando se veem já lidam com esse turbilhão de sentimentos, situações para resolver, etc. Então uma conversa sobre isso seria válido antes de quererem seguir adiante… para não se machucarem depois.

Paula passa o almoço todo pensando sobre o que Beatriz falou. No caminho para casa, telefona para a mãe e informa que irá para Campinas e Uberlândia e logo depois recebe um telefonema de Vitor informando que está aguardando ela no prédio. Pouco tempo depois chega e o encontra na portaria.

— Preciso registrar sua biometria na porta! — sorri.

— Tudo bem… Cheguei faz pouco tempo! — entram no elevador. Conseguiu resolver tudo?

— Sim!

— Onde almoçou?

— Com a Bia. Você contou pra Leia sobre a gente?

— Não!

— Ah… — se entristece e ele percebe.

— Pulinha, não contei porque não é justo eu falar pra ela antes de falar para minha mãe. Ela vai se sentir mal se souber que minha tia sabia antes dela.

— Tínhamos combinado de ninguém saber por enquanto, está tudo bem.

— Eu quero falar pessoalmente para minha mãe.

— Sim, eu sei!

Saem do elevador e entram no apartamento. Vitor percebe que ela está incomodada e sente-se culpado por isso. A observa ir até o quarto organizar suas coisas e a segue.

— Paula… — senta na cama.

— Oi? — responde enquanto puxa uma mala do closet.

— O que está havendo?

— Como assim? — vai até a porta para vê-lo.

— Você não está bem. Quer conversar algo?

Ela pensa se deveria falar o que está sentindo e pensando. Ao mesmo tempo que queria organizar aquilo dentro de si, não queria deixar ele desconfortável e pensar na hipótese de todos os seus pensamentos serem reais, lhe causa uma dor gigantesca.

— Estou bem! — sorri. Por que está perguntando?

— Para darmos certo, precisamos conversar. Preciso que você me diga o que está acontecendo, o que está te incomodando, porque sem me dizer o que está passando na sua cabeça, isso aqui não vai dar certo.

— Vítor…

— Por favor, Paula!

— Por que não contou para as crianças ainda? — fala sem nem pensar direito. Também está com medo da reação deles? De termos que acabar com isso antes de começarmos?

— Não, Pulinha! Não contei porque você queria uns dias sem falarmos nada para ninguém, só quis respeitar isso. E quando eu contar para eles, eles vão ficar eufóricos demais e precisamos estar preparados para isso.

— Eufóricos?

— Sim! — vai até ela. Vão querer te ver, fazer mil perguntas.

— E sua mãe?

— O que tem?

— Se ela não gostar dessa ideia?

— Paula, sua mãe tinha muito mais razões para odiar essa ideia. E não preciso da aprovação de alguém para…

— Mas não vai se opor a ninguém caso não queiram isso!

— Não vou precisar me opor a ninguém. Você vai… Não sei qual a reação do seu irmão, não sabemos como seus empresários vão receber essa notícia. Não sei até que ponto vou atrapalhar sua vida com tudo que aconteceu na minha vida. Estar comigo vai te custar mais caro.

— Eu sei. É por isso que não foi adiante ainda?

— Adiante no que?

— Nada! — volta para o closet.

— Pulinha… — a segue. O que está havendo?

— Não está havendo nada…

— Acho melhor contarmos então para todo mundo… Para que você fique melhor.

— Não! — abre a mala. Vamos aos poucos mesmo.

— Não entendo então. O que quer que eu faça?

— Por que me tornei tão desinteressante? — encara ele. Na sua casa, aquele dia, você disse que estava imaginando coisas que não poderia nem dizer…

— Nem posso ainda. E continuo imaginando.

— Então porque está distante? Por que não… — respira fundo.

— Não estou distante…

— Ah Vitor… — se volta para mala.

— Podemos jantar fora? — muda de assunto.

— Não temos que viajar cedo amanhã?

— Não… Vou organizar para noite os voos.

— Ok! Onde iremos?

— Você saberá! — pisca para ela e sai.

Passam a tarde assistindo série, sem muitas interrupções. No cair da noite, ela segue para se arrumar e ele recebe uma ligação dos filhos.

— Onde você está pai?

— Vim visitar uma pessoa muito especial… E eu quero contar uma coisa para vocês.

— Quem é?

— Onde vocês estão?

— Na casa da vovó… A mamãe saiu.

— Entendi…

— O que vai contar?

— Eu quero contar para vocês pessoalmente, mas vou falar agora… Estou namorando. — sorri.

— Hum… Tá bom.

— Não querem saber quem é?

— Quem é? — riem.

— A Paula… Vocês conheceram ela aquele dia.

— Tá bom. A gente pode ver ela?

— Ela não está aqui agora, mas depois vou ligar para vocês falarem com ela.

— Eu gosto dela. — João diz.

— Eu também, pai. Ela desenha muito bem.

— Sim, ela desenha mesmo filha. — sorri.

— Você vai ter mais um filho ou filha?

— Por que? Você não quer mais irmãos?

— Eu queria uma irmã.

— Eu não quero, não.

— Isso não é assunto ainda e lembrem que assim como a mamãe também namorou e vocês adoraram o tio Pedro, eu espero que vocês adorem a tia Paula também. Ela gosta muito de vocês.

— Eu já falei que gosto dela também!

— Verdade, falou sim… — sorri.

— Quando ela aparecer, posso falar com ela?

— O que quer conversar com ela? — fica curioso.

— Que eu gostei dela ser sua namorada. Você não vai ficar mais sozinho, pai.

— Filha… — se emociona e pensa em dizer que não se sentia sozinho, mas sabe que ela não entenderia. Fico feliz que tenha gostado da notícia.

— Sim! — sorri. Eu gostei muito. A gente pode comprar um presente para ela?

— Podem… Mas, não incomodem sua mãe com isso. Depois de amanhã eu chego em Campinas e busco vocês para ver a Paula. Aí passamos em uma loja e compramos algo para ela, pode ser?

— Pode sim! Mas, estou pensando aqui pai… Acho que eu vou fazer o presente.

— Perfeito, adorei sua ideia. — sorri.

— Eu também vou.

— Sim, façam os dois e aí entregamos a ela.

Eles seguem conversando, perguntando o que Paula poderia gostar, um desenho no papel ou na tela, uma flor de papel ou uma presilha da Maria, mas logo são interrompidos pela mãe de Poliana os chamando para tomarem banho. Vitor vai até o quarto e confere que Paula ainda está no banho. Retira um bloco de anotações da mala e começa escrever.

“Pulinha,

Estou no seu quarto, que já foi meu e quero que seja nosso. Sei que sua cabeça está a mil, que não descansa por nenhum segundo e que está temendo tudo que pode enfrentar só pelo fato de ter me aceitado de volta.

Eu lembro do dia que a gente teve a primeira troca de olhar. A primeira risada, a vergonha e a timidez que tivemos. Lembro da primeira vez que nos falamos, dos olhos brilhando, da estranha sensação dentro do peito. Eu não devia te amar, eu não podia te amar. E ainda assim, eu te amei. Eu te perdi, eu me perdi pelo caminho, eu te causei tantas feridas que não me perdoo nem pelas próximas vidas. Te joguei pro fundo do meu coração e deixei lá, como uma parte intocável da minha vida. Te afastei para não te ferir e te feri mais do que poderia mensurar. Não te mereço, Paula e nunca irei merecer.

Não posso te dizer que vai ficar tudo bem, que algumas pessoas aceitarão tudo isso tranquilamente. Não posso te dizer que vamos superar isso, porque eu também não sei se iremos. Não sei o que nos espera! Mas, por ora, estamos aqui, juntos, como a decisão mais certa que eu poderia ter tomado na minha vida.

Eu te amo, Paula Fernandes de Souza.

Desde o dia que você entrou naquela van com seu sorriso tímido e sua inocência transcendental, eu soube que estava enrascado (e continuo enrascado).

Ah… ainda tenho imaginado coisas que não me atrevo a deixar gravado aqui.

Com amor, Vitu.”

Dobra o pedaço de papel e coloca sobre a mesa de apoio ao lado dela na cama e se retira do quarto para aguarda-la na sala. Paula sai do banho e ao passar pelo quarto, rumo ao closet, vê o papel dobrado. Pega-o e sorri ao começar a ler, mas logo o sorriso se desfaz e um medo estranho invade o peito e escorre pelos olhos.

— Vitor? — o procura. Vitor? — sai pelo apartamento. VITOR?

— Oi! — aparece no corredor. O que foi?

— Você está aí… — vai até ele. Eu pensei que tinha ido embora!

— Embora para onde? — ri e então é surpreendido com um abraço. O que foi?

— Eu li a carta, pensei que tivesse ido embora. Eu entendi errado, sei lá… Não sei se estou bem.

— Sim… — a olha. Eu sei! Vamos conversar com quem temos que conversar, ok? Não sabemos mais viver escondido.

— Não… Não é isso.

— E o que é?

— Acho que tem acontecido muita coisa ao mesmo tempo.

— O que quer dizer, Paula? — a olha.

— Você realmente me quer?

— Claro que sim! Por que está tão insegura?

— Por que está tão resistente? Começo pensar mil coisas!

— No que estou resistente?

— Vitor… Ontem dormimos na mesma casa e você nem chegou perto de mim. Você não quer que tenhamos mais intimidade porque não contou as crianças? Não contou a sua mãe? Não sabe como eles vão reagir, vai repensar se vamos ficar juntos mesmo?

— Paula…

— Minha cabeça não para!

— Você está triste porque não encostei em você ou você está triste por eu não ter contado ainda?

— Você não encostou em mim porque não contou ainda? Não tem certeza do que quer?

— Nós quase transamos aquele dia na fazenda, se eu fosse me arrepender já seria tarde, não acha?

— Você disse bem, quase! Deu tempo de você se arrepender.

— Paula, não me arrependi. Não teria vindo até BH se tivesse me arrependido! Você sabe que não faço o que não quero.

— É… — enxuga as lágrimas.

— Eu contei às crianças. — resolve falar.

— Sério? — encara ele.

— Sério… — sorri.

— E como eles reagiram? — pergunta ansiosa.

— Queriam falar com você, como eu te disse. Maria queria te agradecer porque na cabecinha dela eu não serei mais sozinho — riem — e depois eles ficaram tentando decidir o que irão fazer para te dar de presente. Se sua preocupação era as crianças, não tem porque se preocupar mais. E com relação a minha mãe, ela já sabe, ainda que eu não tenha dito, mas amanhã mesmo eu vou dizer.

— Está tudo bem! Eu senti um caminhão saindo das minhas costas agora…

— É a intenção!

— Sabe o que você poderia fazer para minha noite ficar melhor?

— O que?

— Cancelar nosso jantar e começar me mostrar cada coisa que você tem imaginado…

— Não é uma má ideia… — sorri.

Vitor se aproxima dela, acaricia seu rosto e em um impulso toma os lábios dela contra os seus. Naquele momento sente que pode e deve se entregar, seja qual for o preço que vão pagar, qualquer coisa valeria a pena, desde que ela estivesse ali, desde que aquele momento fosse o que ela esperava viver e poder fazer ela viver. A levanta sobre seu colo e Paula enlaça as pernas sobre o quadril dele, se apoiando. Caminha até o banheiro do quarto, e a coloca no chão, olhando-a atentamente.

— A primeira coisa que imaginei tem a ver com aquela sexta-feira em que pela primeira vez eu não consegui controlar meus pensamentos… — liga a água, deixando escorrer sobre a banheira.

— A que eu tomei banho no quarto de visitas? — ri.

— Que eu te falei sobre a banheira… O quanto ela era maravilhosa, que você ia amar… — riem. A verdade é que sai do quarto querendo estar na banheira com você.

— Eu também pensei em você lá… — desfaz o laço do robe. Enquanto entrava, enquanto me ensaboava… — retira o robe — eu também quis tanto você lá e me culpei por querer. — entra.

— Eu também… — retira a camisa. Também pensei em tudo isso… — empurra a calça ao chão e entra.

— A gente podia ter feito tudo naquele dia, né? — ri.

— Eu queria… Mas não ia pedir! — se aproxima dela. Não ia pedir para te tocar… — passa a mão no rosto dela. Nem para te beijar… — a beija. Mas que me deu vontade, deu… — a observa.

Se aproxima mais e encosta a testa na dela.

Paula fecha os olhos quando as mãos dele deslizam por sua lombar, encostando seu corpo no dele.

— Eu quero fazer tanta coisa com você…

— Eu também!

— Quando isso começar, não vou parar… Eu tenho sede de você mais do que imaginei que teria.

— Eu sei… Pode começar?

E ele começa. Com um beijo tão intenso que era possível sentir que estava tentando compensar todo o tempo perdido. Um beijo que despejava todas as memórias que estavam gravadas neles.

Os corpos começam a se movimentar buscando se fundirem de um vez por todas. A necessidade que sentiam com a ansiedade de se terem o quanto antes, faz a água da banheira derramar por todo lado.

— Eu te quero tanto, tanto… — sussurra ao beijar a curva do pescoço dela.

Paula desliza os dedos pelo peito dele, ainda lutando com a mente se aquilo era mesmo realidade ou parte de um sonho ou de uma fantasia que estava vivendo. Antes que possa reconectar seus sentidos, é tomada pela mão dele segurando um de seus seios e quando sente os lábios sobre o outro, entende de uma vez por todas que não tinha controle algum naquele momento e permite que ele a desmonte novamente.

Cada toque dele a fazia se sentir venerada. Ele sabia muito bem como toca-la, fazendo isso de uma jeito delicado e ao mesmo tempo sexy.

Aos poucos vai recobrindo os sentidos, mas ele faz questão de a manter desconectada do mundo terrestre. Sua intimidade clama por ele quando sente a respiração pesada dele, fazendo seu peito subir e descer sobre a pele dela. Naquele instante suplicou por ele. Com o olhar fez ele compreender que ela precisava dele em todas as suas formas. Que precisava que ele se entregasse a ele e ao mesmo tempo que a possuísse. Involuntariamente derrete nos braços dele, impulsionando o quadril quando sente a ereção dele encostar em sua virilha.

Ciente do que estava causando a ela, Vitor a apoia sobre as bordas da banheira e desce seu tronco sobre o dela, observando cada centímetro do corpo dela embaixo do seu. A encara vulnerável, sedenta por mais dele em si e sorri, sabendo que tinha carta branca para explorar seu prazer. A beija novamente, quando é surpreendido pela boca dela no lóbulo da sua orelha, lambendo antes chupá-lo delicadamente, provocando arrepios que desceram pela espinha.

— Por Deus, Paula… — suplica ofegante, apoiando-se sobre a borda da banheira para não cair sobre ela.

— O que você tanto imaginou?

— Nem se eu passasse a vida inteira imaginando eu dentro de você, não chegaria aos pés da realidade…

— Então por favor… — olha-o. Preciso de você… Dentro de mim, em mim, na minha vida! — se emociona.

Desliza para dentro dela devagar conforme ela afunda os dedos sobre suas costas, gemendo de prazer. Ia cada vez mais fundo e recuava de leve, mantendo um ritmo lento, fazendo com que ela sentisse cada centímetro dele a preenchendo.

— Mais… — sussurra e ele então acelera, se movendo enquanto ela se agarrava a ele. — Mais… — clama, dessa vez encarando os dele sedentos e emocionados, enxergando seus desejos e suas necessidades, sua paixão.

Ele vai mais forte, mais fundo e mais rápido como se conquistasse o território do corpo dela que estava ali para ser conquistado por ele. A preenche de tal forma que deixa claro que cada célula do corpo dele pertencia a ela, cada parte dele pertencia a ela agora, mais do que nunca. Sussurra o nome dela, alertando que não suportará por muito tempo, movimentando-se constantemente e então ela arqueia ainda mais para ele e o observa fechar os olhos, mergulhando junto dele no mais profundo êxtase quando atingem o clímax juntos e ele então desaba sobre ela, afundando os dois sobre a água da banheira.

Depois de um tempo ele se movimenta para baixo dela, a colocando sobre si.

— Isso foi… — sussurra, sem fôlego.

— É, exatamente… — luta para controlar a respiração o melhor que podia.

Paula levanta a cabeça para olhá-lo e recebe o sorriso que amou por toda a vida. Ele se inclina, a beija e depois a puxa-a para seu peito, a abraçando. Ficam ali, em silêncio, apenas assimilando tudo que tinham acabado de viver.