Anti-Heróis
23 Você Vai Me Procurar
Notas iniciais
5 anos depois
Bella Swan
— Bella!
— Aqui, Bella!
— Bella Swan, por favor, uma palavrinha!
Todos eles me chamavam, me conheciam, queriam um minuto da minha atenção e eu ainda achava que era tudo um sonho.
James, meu empresário, me tornou uma mulher conhecida no mundo todo. Eu era uma das mulheres mais bem pagas e cobiçadas de Hollywood com apenas vinte e quatro anos de idade. Todos me queriam para ser a protagonista da sua série ou filme. Eu podia escolher, podia pedir por mais, porque eu era fodidamente talentosa.
Seria eternamente grata à James por tudo o que ele havia me tornado e por como ele cuidava de mim. No início da minha carreira as coisas foram difíceis, ele exigia muito do meu lucro, mas as coisas se acertaram ao longo do tempo.
Eu continuei solteira por um tempo, evitando pensar em meu passado e me concentrando apenas em subir na minha nova carreira. Sempre estive com um e outro, mas sempre relações vazias. Há dois anos iniciei um relacionamento com James que durou apenas dois meses. Estávamos instáveis na época e a confusão de sentimentos havia nos levado àquilo, o importante era que entendíamos aquilo e ficamos bem.
Confiava no meu empresário, mas ele sabia muito pouco sobre o meu passado. Desde a última experiência falha, nunca mais havia tentado me abrir para outra pessoa que não fosse a minha psicóloga — exigida por mim quando percebi que realmente precisava de ajuda.
Eu estava bem, estável e feliz. Pela primeira vez na vida, eu conseguia viver a minha vida como ela era. Conseguia ser eu mesma, conseguia seguir em frente e varrer o passado para debaixo do tapeta da doutora Zafrina.
— Tanya!
— Tanya, uma foto!
— Tanya, como foi fazer o filme com Bella Swan?
— Vocês são rivais na vida real?
A minha amiga havia acabado de chegar ao tapete vermelho e o assédio passou para ela. A chamei com a mão e um enorme sorriso nos lábios.
Nós éramos amigas há três anos, tendo nos conhecido durante uma premiação, e desde então não nos desgrudávamos mais — às vezes literalmente.
Tanya era muito íntima e muito parecida comigo também. Ser amiga dela com certeza era viver uma aventura por dia e eu amava. Estar com ela era sinônimo de muita risada e diversão, mas também tínhamos os nossos momentos de seriedade e desabafo. O equilíbrio nos unia.
Quando eu e James namorávamos, Tanya se juntou à nós durante uma transa e foi uma experiência incrível. Eu já havia testado aquilo no puteiro uma vez, mas parecia tudo mais prazeroso naquela nova realidade — principalmente quando era feito por prazer e não por obrigatoriedade.
Desde então, sempre que tínhamos algum projeto juntas, era de praxe que às vezes cometêssemos algumas loucuras. Com mais frequência do que o saudável, nós recrutávamos algum famoso ou famosa para se juntar à nossa cama e passávamos horas de muita diversão em algum quarto de hotel.
Havia levado aquilo para Zafrina e, apesar de não achar estar errada, também não queria que se tornasse tão constante, por isso diminuímos a frequência e naquele último projeto estivemos mais sozinhas em nossas camas.
Nossa relação casual funcionava muito bem com a amizade e, como duas adultas formadas, entendíamos que não passaria daquilo. Quer dizer, Tanya era muito bonita, mas não funcionaríamos como namoradas. Era como James, apenas com um pouco mais de loucura.
— Você está espetacular, Bella. — Tanya disse quando nos abraçamos.
Assim que nos afastei do abraço dei uma bela olhada em seu vestido prateado de alças finas, que mostrava muito do seu colo, e uma enorme fenda na saia bem na frente. Seus cabelos estavam soltos e alisados. Eu usava um macacão preto com detalhes coloridos, curto nas pernas e de mangas longas, o decote indo até o meu umbigo. Meus cabelos estavam presos e alguns fios caíam por meu rosto.
— Posso dizer o mesmo sobre você. — Pisquei para ela e a abracei pela cintura, apoiando a mão em seu quadril e fazendo pose para as fotos.
Tanya se esticou e falou próximo da minha orelha, com o rosto virado para trás para que os paparazzi não lessem seus lábios:
— Vai ser difícil desfazer esse penteado antes de transar com você com o tanto de tesão acumulado que eu estou.
Eu não contive a risada, colocando a mão em frente aos lábios antes de falar:
— Eu posso chupar seus peitos enquanto você lida com isso.
Foi a sua vez de gargalhar.
— Parece uma boa ideia. — Assentiu e se afastou de mim para pegar na minha mão. — Agora vamos, temos que promover um filme.
xxx
— Era a sua vez de escolher alguém para transar. — Eu falei, ofegante enquanto me levantava da cama e ia pegar uma água no frigobar.
— Eu sei, mas eu não quis. — Tanya disse e eu a vi dar de ombros enquanto jogava uma garrafa de água para ela. — Sei lá, às pessoas ficam tão... Afoitas. Parece que é a coisa mais emocionante do mundo transar com nós duas ao mesmo tempo.
— Para eles deve ser. — Bebi longos goles d'água e olhei para ela. — Somos gostosas e famosas para caralho. É emocionante.
— Acho que sim. — Murmurou e suspirou. — Eu só queria alguém que não ficasse tão impressionado com a minha fama, o meu dinheiro, o meu talento. Só queria alguém que me visse como eu sou, apenas Tanya, deixando a atriz um pouco de lado.
Eu ri e balancei a cabeça em negação, indo até o banheiro fazer xixi e colocando um dos roupões.
— Você sabe que isso é complicado. — Disse quando voltei para o quarto, vendo a mulher encarando o teto. — Mas um dia acaba acontecendo.
— Como pode ter certeza? Nunca aconteceu com você. — Tanya apontou na minha direção. — E nas duas vezes que aconteceram, se tornaram amizades.
Suspirei e fui até a minha mala, pegando o meu cigarro e a encarando.
— Eu não sei, mas ainda tenho esperanças. — Dei de ombros, indo até a varanda para fumar o meu cigarro.
Aquele era um mal hábito do qual eu não conseguia me desvencilhar e que me trazia conforto. Me sentei em uma das cadeiras e mirei o céu, que aos poucos ameaçava clarear, o sol querendo nascer para mais um dia.
Ouvi uma movimentação dentro do quarto e logo Tanya estava ao meu lado, ainda com a garrafa d'água em mãos e vestindo agora um dos seus pijamas. Era uma mulher linda e eu a admirava imensamente.
— Já pensou se tivéssemos anunciado um namoro apenas para promover o filme? — Ela divagou, semicerrando os olhos para o céu.
— Tanya, nós já tivemos essa conversa. — Murmurei, tragando o cigarro em seguida.
— Eu sei, você é muito certinha para isso.
— Nosso filme fez sucesso sem que tivéssemos um namoro de mentira. — Dei de ombros e ela continuou em silêncio. — Tanya? — Chamei e seu olhar encontrou o meu. — Você está bem?
Tanya soltou um longo suspiro e pressionou os lábios, as lágrimas se acumulando em seus olhos antes dela soltar:
— Estou grávida.
Puta que o pariu!
xxx
A noite foi longa.
Eu passei boa parte do tempo tentando acalmar a mulher e conversando com ela antes de sugerir um banho. Pelo que havia me contado, sabia bem quem era o pai: um produtor musical famoso em Hollywood que era casado e tinha uma família. Não havia dito o seu nome, mas eu desconfiava sobre quem era.
Tanya queria ficar com o bebê, queria criá-lo sozinha, sem nunca contar para o pai. Eu admirava a sua força e coragem. Não conseguia imaginar sobre o quanto ela havia pensado sobre aquilo sozinha antes de decidir e vir me contar. Queria ser capaz de ler seus pensamentos e poder amenizar a dor antecipadamente.
Prometi à ela que poderia contar comigo e eu daria toda a assistência para eles. Aquilo a deixou mais tranquila para poder descansar. Acariciei os cabelos da mulher até que ela estivesse completamente adormecida.
Não tinha mais sono, por isso a deixei na cama e fui tomar um banho, me trocando e checando as mensagens no meu celular. Era por volta das nove horas quando James pediu para que eu o encontrasse para um café no hotel. Mandei uma mensagem para Tanya antes de sair do quarto para que ela não assustasse caso acordasse e não me encontrasse ali.
Assim que cheguei no restaurante do hotel, notei alguns olhares na minha direção, mas eu já não me incomodava mais como antes. Pelo contrário, já estava acostumada. Quem não conhecia a famosa atriz Bella Swan?
— Você parece acabada. — Ele disse.
— Bom dia para você também. — Murmurei, bebendo um longo gole do seu suco de maracujá. — Posso dizer o mesmo sobre você e olha que está como em todos os outros dias.
— Morra, Isabella. — James revirou os olhos e eu ri.
— E você perder sua mina de ouro? Acho que não. — Chamei um garçom e sorri, fazendo o meu pedido.
— Tudo bem. Vamos falar de negócios. — Ele falou quando o garçom se afastou.
— Deus, você não pode esperar para que eu coma? — Fiz uma careta.
— Não. Precisamos fechar o contrato o quanto antes. Os produtores estão loucos por você.
— Nada de novo. — Murmurei. — Qual é o da vez?
— Adaptação de um best-seller. — James empurrou um manuscrito para mim.
— Monstros. — Li o título e folheei. — Do que se trata? — Olhei para o garçom, que trazia o meu pedido e sorri, agradecendo.
— Se trata de um amor proibido. — Revirei os olhos e o vi rir. — Espera, é legal. Ela é um anjo e ele é um homem no seu leito de morte. Quando ela vai buscá-lo, ele acorda antes e a vê ali.
— E daí? — Murmurei, continuando a comer.
— E daí que, na história, se você ver um anjo enquanto ainda é um humano, este anjo fica preso na Terra.
— Estou gostando.
— Eu sei, certo? — James estava animado e esfregava as mãos uma na outra. — Eles vão se apaixonar enquanto ele tenta se desculpar pelo que fez com ela, depois de muito drama e complicação. Quer saber o fim?
— Claro. — Assenti, interessada no enredo.
— Deus a perdoa e ela volta para o céu, voltando a guardá-lo como antes, como sua anja da guarda.
— Achei profundo. Tem sexo?
— Não.
— Perfeito. — Abri um enorme sorriso. — Parece bom, estou tentada a aceitar. Estão oferecendo uma boa quantia?
— Melhor do que seu último filme.
— Perfeito. — Suspirei e limpei minhas mãos no guardanapo. — Quando começam as filmagens?
— No mês que vem.
— Tão perto? — Choraminguei.
— Eles querem o mais rápido possível, só estavam esperando você promover o filme para dar entrada no contrato. — James explicou e bebeu um gole do seu suco. — Vai aceitar?
— Vou pensar. Ainda quero ler. — Chacoalhei os papéis em mãos. — Com quem contracenarei?
— Paul Lahote.
— Puta merda. — Revirei os olhos e recostei na cadeira.
— Eu sei, ele é um babaca, mas é só manter no profissionalismo que tudo dará certo.
— Claro que sim. "Paul" e "tudo dar certo" na mesma frase parecem promissores. — Bufei e passei as mãos pelos cabelos.
— Pode me dar a resposta ainda hoje? — James perguntou enquanto mexia no celular freneticamente. — Eles estão eufóricos.
— Com certeza. — Assenti, mordendo a unha do polegar e lendo um pouco do roteiro que tinha em mãos.
Parecia realmente um desafio e eu já conseguia me imaginar no papel da personagem principal. Sabia que ia dar trabalho, mas com dedicação, estudo e treino eu me daria muito bem, como vinha acontecendo nos últimos anos com frequência.
— Gostando? — James me chamou e eu o vi sorrindo na minha direção.
— Prendeu a minha atenção. — Assenti. — O autor é muito talentoso. Estou impressionada.
— Sim. Edward Cullen é mesmo um autor promissor, parece que est...
Minha audição sumiu junto com a minha visão e eu paralisei, sem ter certeza se havia ouvido direito o que James havia dito. Ergui o rosto na sua direção e senti todo o sangue do meu rosto se esvair.
— O que disse?
— Qual parte? — Ele franziu o cenho. — Bella, você está bem? Está pálida. — Sua mão tocou a minha testa e eu tentei respirar fundo.
— Qual o nome do autor? — Falei em um fio de voz e engoli em seco.
— Edward Cullen. Você o conhece? — James me passou o seu suco, mas eu o ignorei.
Me levantei, sentindo tudo girando ao meu redor e deixando o roteiro em cima da mesa.
— Me desculpa, James, mas eu não posso aceitar.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, eu saí dali a passos largos correndo para o meu quarto do hotel. Tanya ainda dormia e eu consegui me trancar no banheiro em paz, vomitando tudo o que tinha colocado no estômago naquela manhã enquanto sentia as lágrimas escorrendo por meu rosto.
Não podia ser. Edward me queria como sua personagem principal? Como sua estrela? Por que ele estava fazendo isso depois de tantos anos? Por que estava me assombrando logo agora que eu estava tão bem? Como eu fugiria agora que era uma figura tão conhecida? Por que ele queria me machucar?
Lavei o rosto e escovei os dentes, jogando um pouco de água na nuca. Assim que me olhei no espelho, com o rosto avermelhado, respirei fundo algumas vezes. Estava na hora de voltar a enfrentar meus fantasmas do passado como uma mulher adulta?
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