Anti-Heróis
7 Tenho Andado Louco
Notas iniciais
Edward Cullen
Ela não apareceu naquela semana, mas eu ainda não conseguia esquecer a sensação dos seus lábios nos meus. O formigamento não me abandonava e eu queria tanto ter feito diferente. Queria ter segurado sua cintura, colado o seu corpo na parede e aprofundado o nosso beijo. Queria mandar pro inferno todas as minhas tentativas de mostrá-la como sou diferente e apenas curtir o nosso momento. Mas eu não o fiz.
Não podia colocar tudo a perder, não podia estragar tudo. Por algum motivo, eu queria ser alguém importante para aquela mulher. Queria saber sobre a sua vida, queria fazê-la sair daquela vida de prostituição, queria ajudá-la quando ninguém ao menos tentou.
— Você está bem, querido? — Minha mãe chamou a minha atenção.
Havia combinado um almoço com ela e minha irmã na semana seguinte. Estava com saudades delas.
— Está apaixonado, mamãe. — Minha irmã provocou e eu revirei os olhos.
— Oh, querido! Isso é incrível! — Esme bateu palmas e chamou a atenção de algumas pessoas próximas. — Quem é a felizarda?
— O quê? Mãe, Alice está mentindo. — Virei para a minha irmã e sibilei: — Cala a boca.
Alice riu com a mão na barriga enquanto nossa mãe parecia não ter escutado uma palavra do que eu disse.
— Não seja bobo, meu filho. Eu vou adorar conhecer a sua nova namorada. — Minha mãe esticou a mão e tocou o meu rosto. — Me deixa tão feliz saber que superou Irina.
Irina. Fazia tanto tempo que não pensava nela. Será que ainda iria se casar? Que percebera que eu a bloqueara da minha vida? Com certeza não lembrava mais da minha existência. A menção do seu nome me deixou inevitavelmente triste.
— Não tem ninguém para conhecer, mãe. — Murmurei, mexendo no guardanapo.
— Jasper me disse o contrário. — Alice cantarolou, chamando a minha atenção para a sua expressão esperta.
— O que você tanto tem para falar com Jasper? — Semicerrei os olhos na sua direção.
— Nós somos amigos. — Deu de ombros, sugando o suco pelo canudo.
— Eu não quero você perto do Jasper.
— Edward, nós somos só amigos! — Alice disse, exasperada. — Para de criar caso com nada.
— Só estou pensando no seu bem. Jasper não é homem para você.
— Eu sei julgar quem é homem para mim ou não.
— Já chega! Vocês dois! — Minha mãe ergueu as mãos espalmadas na nossa direção. — Será que vocês não são capazes de aprender com os seus erros?
Eu sabia bem sobre o que ela estava falando.
— Mãe... — Soprei, sentindo as lágrimas se acumulando em meus olhos.
— Não venha com "mãe", Edward. Vocês estão brigando por uma bobagem. — Esme olhou para Alice e nós vimos a minha irmã limpar uma lágrima. — Seu irmão só quer te proteger, porque ele te ama. — Minha mãe se virou para mim e eu funguei. — Sua irmã já é uma mulher, Edward. Ela sabe o que faz.
— Tudo bem. Me desculpe. — Sussurrei, olhando para a minha irmã.
— Me desculpe também. — Ela se levantou e veio ao meu lado, abraçando-me.
— Vocês são tão lindos, minhas crianças. — Esme disse, pegando o celular e tirando uma foto nossa. — Vou postar nas redes sociais para as minhas amigas ficarem morrendo de inveja dos meus filhos lindos.
Revirei os olhos e ouvi minha irmã rir.
— Mas é sério. — Falei, olhando para ela. — Fique longe de Jasper.
— Sabe que dizendo isso só me faz ter mais vontade de te afrontar, certo? — Alice ergueu uma sobrancelha e eu revirei os olhos.
— Vamos pedir sobremesa! — Esme ergueu a mão para o garçom. — Querido, por gentileza, poderia trazer três pedaços de torta de maçã? Estamos comemorando o novo relacionamento do meu filho.
— Mãe! — Arregalei os olhos e vi o garçom rir antes de se afastar. — Eu já disse que não tenho namorada. Ou namorado. — Pontuei antes que ela começasse com alguma nova loucura.
— Claro que não, querido. — Minha mãe piscou.
Eu apenas desisti de lutar, passando as mãos pelos cabelos e recostando o meu corpo na cadeira enquanto ouvia a minha irmã rir.
xxx
— Edward? Edward! — O sussurro urgente de Jasper me despertou e eu olhei para o meu amigo parado em minha frente com a mochila nas costas. — O que ainda está fazendo aí? Vamos embora.
Suspirei e deixei o livro que tinha em mãos no carrinho à minha frente.
— Só vou pegar a minha mochila. — Avisei, saindo em direção aos fundos da biblioteca.
— Você está muito avoado. O que aconteceu? — Jasper perguntou ainda atrás de mim.
— Não aconteceu nada. — Murmurei.
Eu não havia contado à Jasper sobre Marie. Sabia como o meu amigo poderia ser inconveniente. Mas não podia negar que eu ainda queria desabafar com alguém sobre aquilo. Será que ela não havia gostado do beijo? Será que ela estava com medo da minha próxima atitude? Será que o meu discurso havia assustado a mulher?
Sem demora, eu estava pronto para ir para casa e nós iniciamos o caminho até o nosso apartamento. Demorava quase uma hora para que estivéssemos em casa, por isso íamos sempre conversando amenidades. Jasper sempre ocupava boa parte do tempo falando sobre uma nova boate que deveríamos frequentar ou sobre uma nova garota que havia conhecido.
— Por falar nisso: fique longe da minha irmã. — Pontuei.
— O quê? Por que está falando nisso de novo? — Franziu o cenho.
— Sei que estão conversando. — Ergui as sobrancelhas.
— Ah, sim. Nós somos amigos. Nada mais. — Deu de ombros.
Olhei com desconfiança para ele enquanto o via revirar os olhos.
— Quer ver as conversas? — Questionou, tirando o celular do bolso.
— Não. Confio em você.
— Não parece. — Murmurou.
— Não seja dramático. — Revirei os olhos. — Me conte mais sobre a sua nova garota.
xxx
Me sentei na escada de incêndio para fumar um cigarro depois do jantar. Eu gostava de ficar ali, apenas observando o movimento da rua. Sabia que gostava ainda mais depois que uma certa garota começar a fazer ponto ali coincidentemente.
Mais um dia ela não estava ali e talvez eu devesse começar a repensar sobre o que eu estava fazendo com a minha vida. Que tipo de conselho um pai me daria? O que o meu irmão diria? Eu nunca saberia.
Talvez devesse parar de colocar esperanças em uma mulher como Marie. Talvez ela não quisesse ajuda. Talvez ela nem estivesse sendo verdadeira comigo. Talvez eu estivesse depositando confiança para ser confiado, mas não fosse recíproco. Talvez eu estivesse enlouquecendo pós-término com Irina. No que eu estava pensando quando depositei todo o meu tempo em uma... Uma... Garota.
Eu me recusava a pensar nela como uma puta. Marie não merecia a vida que levava. Apesar de conhecê-la tão pouco, a sua doçura me encantava. Me incomodava pensar que ela vendia o seu corpo para sobreviver.
Um carro estacionou do outro lado da rua e eu ouvi uma movimentação. Fiquei atento, apenas observando enquanto Marie saia do carro, se despedia e voltava para o seu lugar na calçada. Ela estava fazendo um programa, por isso eu não a havia visto.
Agora Marie estava do outro lado da rua, arrumando sua roupa e passando um batom nos lábios. Ela não havia me visto, estava mais preocupada em cuidar de si mesma. Então o que ela fazia ali? Era muito egocêntrico pensar que seu ponto era ali por minha causa.
Apaguei o cigarro e entrei no apartamento, passando reto por um Jasper concentrado demais no vídeo game para prestar atenção em mim. Eu não sabia o que estava fazendo, não sabia nem o que faria caso chegasse onde eu achava que queria chegar, mas fui impulsivo.
Quando Marie me avistou do outro lado da rua, congelou no mesmo lugar e esperou que eu me aproximasse. Estava perto o bastante quando ela adotou a pose da boate e se aproximou de mim com um sorriso lascivo.
— Vai querer um programa hoje? — Seu hálito estava com forte cheiro de álcool.
— Não. — Abri um sorriso amarelo e coloquei as mãos nos bolsos da calça. — Quer jantar?
Marie gargalhou e tocou meu peito com as suas mãos de dedos finos e cumpridos.
— Quero jantar você. — Provocou, olhando para mim sob os cílios. — Vai pagar as minhas horas com você?
Suspirei e coloquei as mãos ao lado dos seus braços sem tocá-la.
— Eu pago. — Soprei e atrai o seu olhar. — Vamos lá pra casa. Eu pago as suas horas comigo.
Marie desfez a expressão surpresa de imediato e passou a caminhar ao meu lado em direção ao meu apartamento. Ficamos em silêncio, perdidos em pensamentos.
— Edward, aon... Marie! Bom te ver! Não aguentava mais o Edward sentado naquela escada de incêndio esperando por você. — Jasper disparou suas baboseiras de sempre, me fazendo revirar os olhos.
Marie riu.
— Cala a boca, Jasper. — Rosnei. — Venha, Marie. Vou fazer o seu prato e você pode comer sem ter que aguentar esse chato falando na sua cabeça.
— Isso, Marie! Aí você terá que aguentar apenas um chato falando na sua cabeça. — Piscou para nós.
Fiz o prato de Marie enquanto continuava a ouvir a conversa deles.
— Mudou o ponto?
— Mudei. Mas desmudei. Gosto mais daqui. — Deu de ombros.
— Claro. Nem imagino o porquê.
— Porque é mais movimentado, os homens pagam melhor e a concorrência é menor. — Marie respondeu de uma vez e eu tive de rir da minha própria desgraça.
— Vamos, Marie. — Caminhei para o meu quarto com ela em meu encalço.
Deixei o prato e copo na mesa de cabeceira enquanto pegava a mesa de colo que usava para tomar café da manhã ou onde costumava colocar café da manhã para Irina. Engoli em seco e ajeitei o objeto em cima de Marie, colocando sua comida em frente à ela.
— Isso parece bom. — Elogiou, cortando um pedaço da carne.
— É carne assada com legumes. — Sorri, me sentando de frente para ela.
Nós ficamos em silêncio enquanto ela comia e eu fiquei imaginando se Marie havia pensado algo errado até ali, se eu deveria me explicar, se eu deveria dizer que queria apenas a sua companhia, mas já havia dito tanto. Não queria que ela fugisse mais uma vez.
— Está gostando do livro? — Perguntei, atraindo o seu olhar.
— Sim. — Assentiu prontamente, tomando um gole do refrigerante. — Ansiosa para saber mais.
— Que bom. — Sorri abertamente. — Mal posso esperar para te mostrar novos títulos.
— Vou adorar. — Marie também sorriu, mas timidamente.
O silêncio voltou a predominar quando ela finalizou a refeição. Tirei a mesa de cima dela e a vi se recostar na cabeceira enquanto mirava o próprio ventre, pensativa.
— Eu não esqueci do dinheiro da condução. — Seu olhar encontrou o meu e eu vi brilho ali. — Você saiu correndo naquele dia...
Marie mordeu o sorriso e eu sabia que ela estava pensando no beijo tanto quanto eu.
— Tudo bem. Eu havia me esquecido. — Deu de ombros.
— Mas eu não. — Me levantei e caminhei até a minha gaveta de cuecas. — 500 dólares pagam? — Olhei para ela.
— O quê? A condução? Ficou maluco, Edward? — Arregalou os olhos na minha direção.
— Não. — Ri e balancei a cabeça em negação, me sentando de frente para ela. — O seu tempo aqui comigo.
— Oh... — Marie se levantou e começou a tirar o seu short.
— Marie, pare com isso. — Toquei em suas mãos, vendo o seu olhar surpreso na minha direção. — Nós não vamos transar, eu já disse.
— Achei que tivesse mudado de ideia. — Murmurou.
— Não mudei. — Suspirei e entreguei o dinheiro à ela. — Nós só vamos ficar aqui, tendo uma conversa e talvez vendo uma série ou um filme. O que acha?
Marie me olhou por um momento, ponderando sobre aquilo antes de assentir.
— Como quiser. — Pegou o dinheiro e guardou, voltando a se sentar na cama.
Me sentei ao lado dela e liguei a televisão, pensando em colocar uma série para passar o tempo. The Good Place, algo um pouco fora da realidade, parecia bom para o momento. Comentei com ela sobre o que se tratava e Marie pareceu interessada, então coloquei o primeiro episódio da primeira temporada.
— Me desculpe. — Ela disse depois dos cinco primeiros minutos de série.
Franzi o cenho e a olhei.
— Por quê?
— Por ter agido daquela maneira ali fora. Eu estava um pouco bêbada e não comia há... Algumas horas. — Mordeu o lábio inferior.
— Tudo bem. — Abri um pequeno sorriso. — É o seu trabalho. Eu entendo. Fui eu quem atrapalhou.
Marie sorria quando desviou o olhar para a televisão. Nós estávamos rindo, roendo as unhas e comentando sobre a série. Era gratificante poder proporcionar algumas horas reconfortantes para a garota, para que ela pudesse ser uma garota normal, para que ela parasse de se cobrar tanto, para que um dia tivesse uma perspectiva de vida diferente.
Lá pelo quarto episódio, ela voltou a falar:
— Isabella.
Olhei confuso na sua direção e vi o seu olhar castanho chocolate cheio de brilho encontrar o meu.
— Meu nome é Isabella. — Confessou, revelando o seu verdadeiro nome pela segunda vez naquela noite.
— Isabella. — O nome deslizou pela minha língua.
— Mas pode me chamar de Bella. — Pediu, voltando-se para a televisão enquanto eu ainda continuava a olhá-la.
Fale com o autor