Anti-Heróis
8 A Rua Vai Me Proteger
Notas iniciais
Bella Swan
O tempo todo eu me perguntava o que estava fazendo ali, no que estava pensando ao dar falsas esperanças àquele homem e até onde tudo aquilo chegaria. Talvez eu estivesse exagerando colocando expectativas em algo que não daria em nada. Mas então eu me lembrava do seu discurso e no que quase foi um beijo.
Não fiquei mais do que algumas horas com Edward. Já estava ficando cansada e não queria cair no sono ainda. Tinham muitas horas para serem trabalhadas que não poderiam ser desperdiçadas.
Jasper já havia ido dormir quando Edward me levou até a porta, se despedindo com um aceno e desejando uma boa noite. Não havia voltado a me tocar e eu agradecia por isso, mas me sentia culpada. Eu havia ganho dinheiro tão fácil com ele, isso não era justo, mas sabia que se oferecesse algo além da minha companhia receberia uma bronca.
Antes de entrar no carro do próximo cliente, eu vi Edward ainda sentado na escada de incêndio enquanto fumava mais um cigarro naquela madrugada.
xxx
Eu estava limpando o banheiro quando Caius bateu na minha porta pedindo pelo aluguel daquele mês.
— Esse mês eu vou te foder em troca do aluguel? — Questionou com as sobrancelhas erguidas e um sorriso lascivo. — Descobri que a sua boate fechou.
Revirei os olhos e entrei, caminhando até a minha cama e pegando o envelope com o dinheiro que havia deixado ali.
— Sim, a boate fechou, mas eu já tenho o seu dinheiro. — Entreguei o envelope à ele, que prontamente pegou e conferiu o dinheiro. — Está tudo aí.
— Claro que está. — Assentiu e guardou o dinheiro no bolso traseiro de sua calça. — Mas o que acha da gente transar bem gostoso e eu devolver cem dólares? — Caius tocou a minha cintura e aproximou o rosto do meu.
— Me solta! — Tentei empurrar o seu peito, mas ele me apertou contra si. — Eu não quero a droga desse dinheiro de volta.
— Tudo bem, eu posso te foder sem te pagar.
{AVISO DE GATILHO: AS CENAS A SEGUIR CONTÉM MENÇÃO DE ESTUPRO. SINTA-SE À VONTADE PARA PULAR.}
Caius tinha um brilho maligno nos olhos quando me virou de costas para si e nos deitou na cama naquela posição. Eu não tinha como lutar, era o meu fim. Então eu esperei, só esperei. Fechei os olhos e esperei. Pensei em como aquela situação se parecia com o meu passado. Pensei em como eu levava a minha vida. Pensei em como eu gostaria de morrer.
Bloqueei todos os meu sentidos: tato, olfato, audição, paladar e visão. Eu não era nada mais que um corpo inerte enquanto esperava aquilo acabar. Parecia que durava uma eternidade, parecia que não ia ter fim, mas teve. A porta da frente bateu com força e me despertou.
{FIM DA MENÇÃO DO ESTUPRO}
Eu me arrastei para fora da cama, engatinhando até o banheiro e me debruçando sobre a privada enquanto vomitava. Àquela altura estava chorando copiosamente e só desejava não estar dentro daquele corpo, que tivesse uma vida diferente.
Com muito esforço, fiquei de pé e joguei minhas roupas no cesto, me colocando embaixo do chuveiro enquanto continuava a chorar. A dor em meu peito me assolava e eu me perguntava se havia merecido aquilo. Eu fazia sexo por dinheiro, era verdade, mas isso não significava que queria transar com todos os homens. Eu tinha poder de dizer não. Parecia que nem todos eles entendiam isso.
Saí do chuveiro depois de passar longas horas chorando, sentindo a minha pele enrugada enquanto tentava tirar a sensação daquele homem em mim. Sabia que não seria possível.
Comecei a guardar minhas roupas em uma mochila, deixando as que havia usado para trás, e então meus dois livros. Saí dali com o pouco dinheiro que ainda me sobrava e não olhei para trás. Eu preferia morar na rua a temer Caius novamente.
A vontade de vomitar reapareceu quando pensei no nome dele e eu me lembrei do que deveria fazer naquele momento. Caminhando com calma, cheguei até uma farmácia e pedi pelo remédio abortivo. Ignorei o olhar torto do atendente, eu sabia o quanto aquilo me faria mal, mas não precisava de um sermão.
Peguei uma barra de cereal e uma água no caixa, saindo dali sem rumo. Não sabia onde iria dormir, mas não queria gastar meu dinheiro em um motel barato e nem mesmo incomodar alguém com a minha presença. Eu ficaria na rua naquela noite.
xxx
Perdi as contas sobre quantas vezes havia ido até a rodoviária naquela semana. Mas eu não queria ir embora, eu não queria mais fugir, eu queria ficar em Nova York.
Era difícil dormir nas ruas de Nova York então eu caminhava até ficar muito cansada e me deitava em um dos bancos que haviam em uma das muitas praças espalhadas pela cidade. Dormia por algumas horas antes que alguém me acordasse, impedindo que eu continuasse ali.
Nas vitrines das lojas, eu podia ver o tamanho das minhas olheiras e, apesar de conseguir tomar um banho em troca de trocados em albergues, sabia que não cheirava da melhor maneira.
Também havia parado de trabalhar e o meu dinheiro parecia não querer durar. Apesar de fazer uma refeição por dia e tentar tomar cuidado para não ser assaltada, era muito difícil me manter quando tinha tão pouco em mãos.
Eu ainda tinha crises de choro e tentava bloquear a dor da lembrança do que me acontecera tanto agora quanto no passado. Não tinha tempo para ser fraca, eu precisava continuar a tentar viver. Mas tentar parecia tão complicado.
Olhei fixamente para a vitrine de uma loja de doces mantendo a cabeça longe. Será que valia a pena continuar tentando? Por que eu continuava a tentar? Eu não tinha ninguém, não era ninguém. Por que eu continuava lutando?
Um ônibus passou atrás de mim e pensamentos suicidas passaram pela minha cabeça. A morte era tão fácil, certo? Olhei para o lado e vi o ônibus no ponto, as pessoas descendo e caminhando com rapidez. O meu coração se acelerou com a possibilidade.
Talvez...
— Bella?
O meu nome. Meu verdadeiro nome sendo usado pela voz masculina. Uma voz masculina que eu não ouvia há um tempo. Me virei bruscamente e me afastei um passo, vendo a expressão de Edward se tornar confusa.
— Oi. — Disse rouca.
— Você está bem? Está precisando de alguma coisa?
Fiquei olhando para ele por um momento, perdida no limbo entre contar para ele tudo o que estava acontecendo e pedir abrigo, ou simplesmente seguir com a minha ideia mais fácil.
Olhei fundo em seus olhos verdes, que pareciam ter um poder sobrenatural sobre mim, porque naquele momento eu simplesmente me joguei em seus braços. Abracei Edward com força enquanto me permitia chorar, não me importando com o meu odor ou em estarmos no meio da rua.
Edward retribuiu o abraço com cuidado, acariciando as minhas costas e murmurando sobre como tudo ficaria bem. Por algum motivo, eu acreditava nele. Eu tinha que acreditar, tinha que me apegar à algo quando parecia que não havia mais nada.
— Vamos para a minha casa? — Perguntou, tocando os meus cabelos e atraindo o meu olhar.
— Eu não posso... — Sussurrei.
— Por quê? — Me interrompeu, acariciando os meus braços na altura dos ombros. — Vamos, Bella. Me deixa te ajudar.
Suspirei longamente e assenti, desistindo de lutar. Eu precisava de ajuda e Edward se importava o bastante para oferecê-la.
xxx
Nós fomos em um táxi e não demorou muito para chegarmos. Tomei um longo banho assim que chegamos no apartamento, como havia pedido à Edward. Ele separou toda a minha roupa e levou até a lavanderia que havia no primeiro andar do prédio, deixando para mim uma de suas calças de moletom, camiseta e cueca limpas.
Quando saí do banheiro, já devidamente vestida e abraçada em minhas roupas sujas, encontrei Edward cozinhando e o cheiro parecia bom. Caminhei até ele e o assustei, fazendo com que se queimasse na panela e soltasse um palavrão.
— Me desculpa, eu não queria...
— Tudo bem. Foi minha culpa, eu estava perdido em pensamentos. — Sorriu para mim e abaixou o fogo do fogão. — Essas também são para lavar, certo?
— Sim. — Assenti e abracei com mais força. — Se você quiser, eu posso...
— Não precisa. — Ele estendeu as mãos e eu entreguei as roupas. — Já volto. Fique à vontade.
Engoli em seco e resolvi olhar as panelas.
Me perguntava por quanto tempo ficaria ali, se realmente deveria invadir um espaço tão masculino e onde iria dormir. Talvez Jasper não gostasse tanto da ideia de me ver ali quanto Edward gostava.
Naquele momento eu desejava ser aceita em algum lugar pela primeira vez na vida, um lugar que parecia ser um lar como nunca havia visto antes, o mais perto que havia chego de um lar.
— Pronto, logo elas estarão limpas. — Ele disse, entrando sorridente e me arrancando dos meus devaneios.
— Muito obrigada e me desculpe. Eu quem deveria ter feito isso. — Murmurei, me afastando alguns passos.
— Não tem problema, Bella. Você precisava de um tempo para si. — Edward sorriu e desligou as panelas, passando a fazer nossos pratos. — Quer comer na sala enquanto assistimos TV?
— Pode ser. — Assenti, pegando o meu prato e os talheres.
Caminhei com ele até a sala, me sentando de frente para a mesa de centro e apoiando o meu prato ali. Edward também deixou o seu prato, mas voltou na cozinha para nos servir de refrigerante. Eu estava com tanta fome que não consegui esperá-lo.
— Vou colocar em The Good Place. O que acha de assistirmos de onde paramos?
Assenti, tomando um gole do refrigerante para que conseguisse engolir toda a comida que estava em minha boca.
Edward sorriu e voltou os seus olhos para a televisão, focado em me entreter. Eu ainda esperava que ele me decepcionasse, que fosse como todos os outros homens, que cometesse um deslize, que provasse para mim que nenhum homem valia a pena. Talvez era o melhor que eu pudesse fazer naquele momento, manter a guarda alta para que não me decepcionasse.
Nós assistimos a série em silêncio, concentrados em comer. Quando acabei, meu estômago estava forrado e eu achei que poderia explodir. Não comia daquele jeito desde a última vez que estivera ali.
— Bella. — Chamou quando um episódio chegou ao fim.
Eu senti meu estômago revirar ao ouvir um apelido que não era usado há muito tempo. Olhei para ele, encontrando o seu olhar preocupado sobre mim.
— Eu não vou pedir explicações para você. Não sei o que aconteceu, mas você não parece bem. — Umedeceu os lábios e se virou para mim. — Por sorte eu fui naquela loja de doces hoje a pedido de Jasper, por sorte você estava lá, por sorte eu estava no lugar certo e na hora certa, porque você claramente não está bem. Mas eu não vou te pressionar. — Respirou fundo e passou os dedos pelos seus fios de cabelo. — Eu vou te dar abrigo, vou te ajudar, mas você tem que confiar em mim uma hora ou outra. OK?
— Edward, eu...
— Não precisa ser agora. Nem amanhã ou depois. Mas eu preciso que aconteça em algum momento, está bem? — Perguntou, olhando fundo em meus olhos.
— Está bem. — Soprei. — Obrigada.
— Me agradeça confiando em mim. — Piscou e se levantou, levando a nossa louça.
— Deixa que eu lavo. — Pedi, me levantando e indo até ele.
— Não precisa. Coloquei na lava-louças. — Falou, ligando a máquina.
— Nossa. Isso parece moderno. — Olhei com curiosidade para a máquina, ouvindo a risada de Edward.
— É fácil de ser usada. É só você tirar a sujeira do prato, colocá-los nos lugares corretos, apertar aqui e...
— Marie? — Ouvi uma voz bem atrás de mim, chamando pelo meu nome de puta e endireitei o corpo a tempo de ver Jasper com um enorme sorriso no rosto. — É um prazer revê-la.
— Oi. — Sorri forçadamente e caminhei alguns passos para trás, olhando para Edward.
Eu sabia o que ele pensaria sobre as roupas de Edward em mim e sobre nós dois sozinhos. E ainda, se eu não confiava em Edward, confiava muito menos em Jasper. Ele com certeza me despertava um arrepio na espinha e eu sabia que era como muitos dos homens com quem eu saía. Também sabia que ele me foderia se tivesse a oportunidade e aquilo me deixava desconfortável quando eu não era a Marie.
— Jasper, será que podemos conversar no meu quarto? — Edward tinha os dentes cerrados.
O amigo ainda sorria para mim com os seus olhos brilhantes quando assentiu, seguindo na frente e me deixando sozinha com Edward.
— Não se preocupe, OK? — Edward se colocou em minha frente, olhando em meus olhos. — Jasper é uma boa pessoa, apesar de agir como um babaca o tempo todo.
Assenti, engolindo em seco e forçando um sorriso.
— Isso não vai trazer nenhum problema, certo?
— Isso o quê? — Edward franziu o cenho.
— A minha presença. — Soprei.
— Essa também é a minha casa. A sua presença aqui não trará problema algum. — Garantiu com a voz firme antes de ir até o seu quarto.
Eu tentava acreditar em seus palavras, me apegando como em uma prece, porque eu queria ficar. Pela primeira vez, eu queria ficar.
Fale com o autor