Antes que o dia termine
2 Sem o seu abraço
Notas iniciais
04 de dezembro de 2016
"Interrompemos a programação para anunciar a morte de Ben Winden na noite dessa segunda feira. O cantor foi encontrado morto no quarto de hotel onde estava hospedado para um show em Ohio. A causa da morte ainda não foi oficialmente declarada, mas a suspeita é de uma parada cardíaca causada pela ingestão excessiva de medicamentos controlados. A assessoria do cantor negou uma possível overdose e afirmou que Ben não tinha o costume de fazer uso de drogas ou qualquer medicamento que possa ter causado a arritmia. Ben Winden tinha vinte e dois anos e ficou conhecido pela música "You like me but I love you" lançada no ano de 2012. Os fãs lotam a frente do hospital o qual foi levado, já sem vida, e somam mais de trezentas pessoas. Ben era casado com a fotógrafa, e modelo da revista Florence, Allison Berry, que ainda não se pronunciou sobre o ocorrido. O Jornal volta assim que mais notícias forem confirmadas."
O fim do jornal terminou junto com um estrondo. Eu mal tive tempo de deixar cair a ficha, mas tive tempo suficiente para deixar o copo de vidro escorregar da minha mão direto para o meu pé. O barulho do vidro estilhaçando em mil pedaços, e a dor aguda na minha perna, não foram capazes de me distrair do barulho que ecoou atrás de mim, não tão atrás, talvez na minha diagonal. Então eu olho para a porta da sala e ela está fechando, eu penso que o barulho pode ter vindo do vento que a fez abrir e bater com força contra a parede, mas isso não importa muito porque agora a porta está fechando, lenta e dolorosamente. Eu olho para a minha perna e uma mancha vermelha escorre manchando o tapete, então eu olho para a minha coxa e tem um pedaço de vidro agarrado fundo a minha pele, então eu puxo o vidro e mais sangue suja o tapete. Eu estou pensando em fazer algo para parar aquilo, mas antes que eu possa pensar em algo, meus pés saem do chão e alguém me pega em seu colo e me leva para um lugar longe do vidro e da mancha no tapete.
Agora a mancha está nesse alguém. Na sua camisa e um pouco na sua calça, eu estou pensando em uma forma de me desculpar sobre isso, mas eu não acho que eu consiga fazê-lo de um modo convincente porque de qualquer maneira isso soaria esquisito. "Ei, me desculpe! Eu acabei de sujar a sua roupa com o meu sangue".
— Allison! Allison! — Mamãe diz, correndo na minha direção. — O que você estava tentando fazer?
Sua voz é puro desespero mas eu estou calma, calma como alguém que acabou de quebrar o braço mas não sente nada porque o sangue está frio. No meu caso, acho que vou ter que levar uns pontos na perna.
— Foi um acidente, Sue. — A pessoa que, a pouco me tinha no colo, diz com a voz suave mas contida, como se estivesse fingindo um controle que não tem.
Então eu olho para cima e vejo que é Kieran. Eu acabei de sujar de sangue a roupa de Kieran. Belo presente de "Senti sua falta". Seu cabelo parece mais claro mas ainda está bagunçado, seus olhos verdes estão tristes, e ele não envelheceu nada nesses dez meses que ficamos sem nos ver.
Papai aparece logo atrás de mamãe e ele disfarça que está horrorizado com o que vê, ele pergunta se eu estou bem e eu digo que sim, então ele olha para minha perna e o sangue e eu repito que estou bem, não está doendo, ainda.
— Alli, você precisa de um médico. — Kieran diz, olhando fixamente em meus olhos.
— Vocês viram o noticiário desta manhã? — Pergunto.
Eu acho que eles não viram o noticiário porque chegaram aqui assim que ele terminou, mas eu também acho que eles souberam por outro lugar que não o noticiário.
— Nós estamos tentando contato com você desde que soubemos. Onde estava? — Mamãe pergunta com cautela.
— Dormindo. Eu acabei de acordar.
Então o silêncio irrompe pela sala e ninguém ameaça quebra-lo, e aí começa a dor. Começa a doer muito, uma dor forte que faz meus joelhos fraquejarem e um gemido escapar pela minha boca. Então o sangue que escorre pela minha perna chega no piso e corre em direção ao tapete, o tapete creme e agora vermelho. Kieran impede que meu corpo tombe no chão e me põem em seus braços novamente, minha perna continua doendo. Ele pede para o meu pai dirigir e para minha mãe pegar uma roupa para mim, então nós entramos no carro e ele enrola a sua blusa na minha coxa, e eu agradeço porque não quero uma mancha de sangue no carro de papai.
Odeio manchas de sangue.
Durante o caminho para o hospital minha mente fica enevoada e eu sinto sono, o que é estranho porque não lembro da última vez que dormi tão bem quanto na noite passada. Os braços de Kieran estão em volta de mim como se ele quisesse tirar a minha dor, mas nós dois sabemos que ele não pode. Então, como uma forma de me distrair, começo a pensar nas coisas que tenho que fazer quando voltar para casa. Tem uma conta de luz em cima da bancada que eu preciso pagar hoje, Ben sempre paga todas as contas porque ele sabe que eu nunca lembro de ir até o banco. Eu acho que ele foi esperto em se livrar dessa e me deixar uma lição, agora Allison Berry vai ser a responsável pelas contas. Ela também vai ser responsável por muita coisa agora.
A última vez que vi Ben ele estava cantando uma música dos Rolling Stones, eu não lembro o nome dela mas era uma de suas preferidas. Eu tinha acabado de sair do banho e meu cabelo estava molhado, então eu comecei a ouvir o som do piano no andar de baixo e corri até lá porque ouvi-lo cantar é uma das coisas que eu mais amo no mundo. Eu sentei ao seu lado e me escorei em seu ombro sentindo as vibrações de sua voz em mim, e naquele momento não havia outro lugar em que eu quisesse estar mais do que eu queria estar ali, e agradeci aos céus por aquele momento porque, de alguma forma, eu sabia que ele nunca mais voltaria. Agora, Ben também não.
Demorou quinze minutos para as linhas formarem pontos na minha perna e no meu pé. Foram cinco no total. Não foi muito confortável, mas nada se comparado ao desconforto de ter que lidar com a morte. Depois da anestesia local perder o efeito, coloquei uma roupa limpa e saímos em direção a delegacia. O clima quente da primavera está abrindo espaço para o calor insuportável do verão, mas não hoje. Hoje o céu está cinza e as nuvens estão pesadas, parece que tudo foi combinado para a melancolia se sentir em casa. A delegacia é idêntica àquelas que vi em alguns filmes, os corredores são agitados e tem cartazes para todo o lado, uma decoração fúnebre junto a um tom encardido de amarelo. Mamãe, papai e Kieran esperam do lado de fora, no corredor, porque o delegado quer falar exclusivamente comigo, mas não sei se quero falar exclusivamente com ele nesse momento. Então, quando entro em sua pequena sala cor de salmão, observo a pilha de papeis espalhados em um canto, contrastando com a pilha de papeis arrumados do outro.
O delegado está parado bem na minha frente, e ele parece tão compadecido que quase me faz sentir pena de mim mesma. Seus olhos são de um marrom intenso, quase preto, e seu cabelo precisa de um shampoo anti-caspa. Ele faz sinal para que eu me sente na cadeira a sua frente mas recuso, então um suspiro quente sai de sua boca e ele senta atrás de sua grande mesa.
— Senhorita Berry, eu sei o quanto isso pode ser evasivo, mas preciso que responda algumas perguntas.
Eu balanço a cabeça calmamente como um sinal de que estou de acordo, apesar de me incomodar com a parte do "Senhorita". Então vendo que isso pode — e vai — demorar, puxo a cadeira que recusei a dois minutos atrás e tento disfarçar a dor na minha perna ao sentar. Então o homem a minha frente puxa uns papeis e algumas fotos, e viro o rosto para o lado porque realmente não quero saber o que, ou quem, está ali.
— Nós encontramos uma quantidade muito grande de comprimidos nas coisas de seu.... — Ele engole a saliva com dificuldade e o interrompo antes que isso se torne mais desconfortável.
— Não, isso não era algo recorrente. Se é o que quer saber.
— Ele não comentou com você sobre estar doente, ou algo assim?
— Eu acho que, se ele estivesse realmente doente, eu saberia.
O policial não está gostando das minhas respostas, ele acha que elas são muito superficiais, mas eu também não estou gostando de estar aqui, aliás esse é o último lugar que eu gostaria de estar nesse momento.
— Senhorita Berry, eu sei que isso é difícil, mas preciso que responda com seriedade.
— Acha que eu estou fazendo piada? Pois pode apostar que não há nada de engraçado nisso aqui. Eu ainda nem o vi, não consegui olhar para ele porque não consigo imaginar uma vida sem ele, então o que te faz pensar que este seria um bom momento para me bombardear com perguntas?
O policial solta outro suspiro, mas este é realmente muito pesado. Ele quer me dizer alguma coisa mas não sabe como vou reagir, e eu não sei se quero ouvir essa coisa.
— Allison, o seu marido deixou um documento assinado antes de morrer, ele pediu para que nada sobre a sua morte fosse revelado a você.
Uma bomba parece ter acertado o meu corpo porque involuntariamente todos os meus músculos começam a doer e por um momento eu acho que vou vomitar, então tenho de prender a respiração algumas vezes antes de decidir tomar alguma atitude, porque não há maneira no inferno desse delegado estar falando a verdade. Eu olho para o lado e tem um peso de papel, eu penso eu segura-lo e depois arremessa-lo contra ele mas acho que a última coisa de que preciso agora é ser presa por desacato, então eu conto até dez e arrasto a cadeira para trás ignorando totalmente o pedido de cuidado e repouso para com a minha perna. Eu apoio minhas mãos naquela mesa e inclino meu corpo para frente tentando pensar em algo que não seja um palavrão.
— Olha, se você esta tentando fazer algum tipo de brincadeira comigo eu acho que esse realmente não é o momento então, a não ser que você seja um péssimo ser humano, eu espero que comece a me dizer a verdade antes que eu surte e acabe com tudo nessa sala, começando por esse peso de papel ridículo.
Ele me encara com temor mas não move um músculo, sua testa forma uma ruga entre as sobrancelhas e seus ombros estão tensos. Eu realmente estava disposta a continuar ali, encarando-o, até que a porta se abre e um policial entra sem pedir licença, eles trocam um rápido olhar e parecem conversar sem dizer uma palavra e começo a me remexer com vontade de bater nos dois.
— Allison, o que ele está dizendo é verdade.
Eu olho para trás e lá está ela, seus olhos estão tão inchados que parece que não dorme há meses, mas a roupa e a postura continuam impecáveis. Seu semblante cansado e triste bate de frente com a minha raiva e o clima parece esfriar um pouco, então eu solto minhas mãos da mesa e fixo minha atenção apenas nela, esperando uma resposta ou uma explicação mas ela mesma parece não ter nenhuma. Meu corpo fica tenso e sinto minha perna latejar, mas mantenho a postura porque se quiser respostas não posso ceder.
— Sinto muito. Eu não entendo, realmente não entendo. Ele pediu para que não soubéssemos de nada, mas implorou mais ainda por você. Eu não sei o que ele queria com isso, e confesso que acho um absurdo, mas é um documento declarado, não há nada que possamos fazer. — Ela diz.
A mãe de Ben parece estar tão perdida quanto eu. Quando termina de falar seu rosto se contorce e eu posso ver a dor em seus olhos. Eu estou esperando o momento em que Ben vai aparecer com uma câmera e dizer que era só uma pegadinha, então eu vou abraçá-lo e socá-lo na cara logo em seguida, mas isso não acontece. Eu estou pensando em algo para dizer mas não consigo, eu mal consigo pensar, então eu peço para o policial entrar em contato com o advogado de Ben, eu espero que ela faça uma ligação mas apenas pede para que o chamem. Minutos depois o advogado de Ben surge na sala e uma discussão silenciosa começa, ele parece ser o único ali que sabe de algo.
— Eu espero que você possa me dizer alguma coisa, e eu realmente espero que seja coerente, porque nada, desde que eu me levantei essa manhã, parece fazer sentido. — Eu digo, basicamente apontando o dedo no seu rosto.
Will segura minhas mãos nas suas, e eu sei que esse ato diz que ele vai falar como amigo e não como um advogado, então encaro seus olhos com súplica porque ele é a minha única chance de respostas.
— Allison, eu entendo que você esteja confusa agora, mas preciso que me escute, tudo bem? — Ele diz com cautela e concordo com a cabeça. — Há dois meses Ben me pediu para escrever este documento, e eu realmente não entendi o porquê daquilo, mas tive de respeitar. A princípio ele queria que só você não soubesse de nada, mas depois estendeu isso para todo mundo, inclusive Kieran. O documento diz que a causa da morte só será revelado a vocês, e a família, após três meses. Ben me disse que precisava arrumar um jeito de te fazer "entender". Na época fiquei confuso e achei que fosse uma brincadeira porque ele parecia estar muito bem com aquilo, mas quando começou a me entregar as cartas desconfiei que não fosse uma brincadeira idiota e comecei a investigar. Quando descobri o que estava acontecendo já era tarde. Sinto muito, mas não tem nada que possamos fazer até que as cartas cheguem até você.
Eu tenho de respirar fundo porque mais de uma vez isso não faz nenhum sentido. Então começo a sentir o peso dos sentimentos me empurrando para baixo e não há nada no mundo que possa me submergir agora.
— Que cartas?
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