Antes que o dia termine
3 Controle
Notas iniciais
Ben e eu poderíamos não ser como aqueles casais da literatura juvenil, talvez não morreríamos um pelo outro como em um conto de Shakespeare, mas nos amávamos de um jeito sincero, puro e simples. Eu acho que ele poderia ter pensado nos efeitos que sua avalanche particular causariam em mim. Talvez tenha se sentido culpado e as cartas sejam uma forma de se desculpar pelo egoísmo, talvez as quinze cartas sejam pedidos de desculpas em várias línguas. Mas se forem, se ele em algum momento se sentiu tão culpado pelo que iria fazer, porque foi até o fim?
Depois de Will me explicar um pouco mais sobre as cartas, os polícias chamaram Kieran e meus pais para uma conversa franca, ainda não combinamos o que seria dito a imprensa e, apesar do laudo da perícia estar pronto, a única informação que tivemos, por alto, é que os indícios de um possível assassinato são quase inexistentes.
Will, o advogado, leu o contrato umas cinco vezes e as regras eram claras. Eu fiquei pensando em como uma pessoa pode ser tão fria como Ben decidiu ser, não deixar que ninguém soubesse nada a respeito de sua morte, por minha causa, era mais do que uma grande falha com a sua família, era uma forma de jogar um peso extra em mim.
Resumindo, poucas pessoas saberiam o que levou a sua morte. Eu receberia quinze cartas, que ele mesmo enviou pelo correio antes de morrer, e isso me faz pensar que 1º ) Ele sabia que iria morrer, 2º ) Ele sabia que iria morrer e não disse nada. As cartas tem ordem, então não posso lê-las aleatoriamente, a certidão de óbito só será entregue a mim e a família após três meses, não posso fazer isso, não posso perguntar sobre aquilo, não posso, não posso e não posso, tudo depende das cartas.
Kieran também recebeu instruções, basicamente as mesmas que as minhas, mas ele parece encarar isso melhor do que eu, ou apenas sabe disfarçar. No momento eu quero trazer Ben de volta a vida só para acertar o seu nariz com o meu punho, e depois apontar o dedo para ele e dizer "Você é um babaca, odeio amar você".
— Eu tenho permissão para ir ao funeral? Ou será que tenho de esperar por um "vale funeral" em uma das cartas também? — Pergunto.
Kieran me lança um olhar de repreensão e ele ó único com coragem para isso, porque todos parecem sentir tanta pena por mim que preferem não arriscar uma encarada muito a fundo. Eu levanto da cadeira empurrando meu peso para baixo mas a dor aguda na minha perna me faz recuar e procurar por apoio em algum lugar, então eu pego minha bolsa e encaro o advogado até que ele responda minha pergunta.
— Você tem todo direito de comparecer a um funeral Allison, Ben não te negaria isso.
Eu solto uma risada pelo nariz porque não sei mais o que Ben me negaria ou não. Então eu agradeço ao policial e a mãe de Ben, depois eu dou um aceno de cabeça para Will e seu papeis de negação, e saio daquela sala como se estivesse acabado de sair de uma sala de reunião, que é exatamente o que Ben fez da sua morte, uma bela e burocrática reunião de trabalho.
Depois de quase duas horas de espera, a acessora da família Winden atravessa as portas da delegacia. Ela está usando um terninho rosa claro e uma saia lápis preta, seus saltos fazem com que ela aparente o dobro da minha altura, ela também tem que se abaixar um pouquinho na hora de falar comigo o que reafirma ainda mais sua postura autoritária. Ela nos reúne em uma sala a leste e pede para que dois policiais façam a segurança da sala, depois pede ao delegado para não comentar sobre nada que será dito aqui, então ele pensa em levantar as sobrancelhas para ela mas não faz isso em respeito a situação. Estou sentada de frente para Kieran e entre os meus pais, tem algo na forma em que ela dispõem as cadeiras que me faz pensar em revirar os olhos mas reprimo isso. Então ela se põem de pé no centro do círculo e fala como se estivesse apresentando um reality show.
Minha perna está queimando, e eu quero tanto sair dali que não consigo pensar em outra coisa. O fato de ela estar simplesmente falando, me faz querer tampar os ouvidos e sair correndo mas não o faço, também não tento disfarçar que ela me incomoda. Depois de dar as suas ordens para quase todo mundo ela se vira para mim tão rápido quanto um carro em velozes e furiosos e aponta o dedo bem no meio do meu rosto. É lógico que ela está a quase um metro de distância mas a mira é incrível.
— Você vai dizer a imprensa que ele morreu devido a um ataque cardíaco. Vai negar qualquer especulação sobre o uso de drogas ou medicamentos. Se fizerem qualquer outra pergunta que você não saiba responder, você vai chorar, pedir desculpas e dizer que está muito abalada. Então Kieran vai levar você para o carro e nenhuma outra pergunta vai ser respondida até contornamos essa situação, você entendeu?
A frieza com que ela diz isso faz algo estalar na minha cabeça, é como se eu tivesse acabado de descobrir uma coisa que todo mundo já sabe. Ele morreu.
Eu consigo escutar as batidas do meu coração como se elas fossem o único som na sala. É muito rápida e um pouco dolorosa, mas a única coisa que me garante que, de fato, estou viva.
Porque não consigo me mexer?
Todo o meu corpo está se recusando a me obedecer e minha cabeça está pressionando o meu cérebro para funcionar. Eu acho que estou tendo um ataque de pânico.
— Allison, Allison! Você entendeu? — A acessora pergunta.
Eu tenho vontade de chorar porque ela fez isso parecer tão mais real, então reprimo esses sentimentos porque não quero ter que lidar com eles assim, não agora. Eu tomo uma respiração profunda e repito para mim mesma que tudo está bem, então eu apenas balanço a cabeça e concordo com o que ela diz.
— Kieran, eu quero que publique um vídeo, no fim do dia, na página de Ben no Facebook, dizendo o quando ele era importante para vocês e como sentirão falta dele, vai dizer o quanto ele era bom, e que Allison se pronunciará quando estiver emocionalmente estável.
— Tudo bem. — Ele diz.
E como se estivéssemos em um treinamento do exército ela instruiu todas as pessoas da nossa família sobre como deveríamos tratar a morte de Ben na frente das câmeras, e eu odiei isso completamente. Eu queria gritar e mandar que ela fosse ao inferno, mas o pai de Ben leva toda essa besteira muito a sério, e a última coisa que eu quero é entrar em uma discussão com o pai do meu marido, apesar de todo o meu corpo pedir por isso. Kieran está me encarando e, silenciosamente, pede para que eu mantenha a calma. Estamos acostumados com a personalidade diplomática do Sr. Winden desde de que éramos crianças, mas isso não significa que sempre a aceitamos.
— Allison? Você precisa chorar o máximo que puder para assim... — Ela diz, mas tomo uma respiração profunda e interrompo antes que termine.
— A única coisa de que preciso é que você fique quieta, de verdade, por favor. — Eu estava pronta para sair dali sem agredir ninguém com meu sarcasmo habitual, mas ela estava pedindo, implorando por uma resposta minha.
Eu acho que ela acabou de engasgar com a própria saliva porque está tossindo de maneira disfarçada, ela também está tão sem reação que não diz absolutamente nada, então o Sr. Winden me encara como se eu fosse uma criança e estivesse me comportando mal, então eu apenas o encaro de volta como se ele estivesse sendo um péssimo responsável. A tensão em nosso olhar se torna tão forte que eu acho que ele vai pular na minha cara a qualquer momento então, tentando evitar um desastre, Kieran me ajuda a levantar e me leva para fora da sala, mamãe e papai vem logo atrás.
— Eu sei que o que ela está dizendo é um absurdo, mas se você não quiser que a imprensa fique no seu pé, o que é um saco, tem que fazer isso, Allison. — Mamãe diz.
Eu sei que ela está certa, mas não acho que seja justo. Essa é a parte ruim de ter sua vida pública, nada é justo. Papai massageia os ombros de mamãe para tentar acalmá-la e me sinto tonta porque realmente não me lembro da última vez que comi alguma coisa. Eu tento disfarçar isso me apoiando em uma das paredes mas não é como se não fossem notar que eu estava prestes a desmaiar, então respiro fundo algumas vezes até que a tontura passe.
— Você não pode sair assim, Allison!
O Sr. Winden bate a porta da sala e corre na minha direção como se eu fosse uma foragida da polícia. Então Kieran escorregas as mãos pela minha cintura e me empurra para trás enquanto afasta Winden com uma das mãos.
— Não. Você pode até querer tratar isso como trata dos seus negócios mas não somos obrigados a ficar e aplaudi-lo. — Ele diz.
Kieran tem mais de um metro e oitenta de altura e braços fortes, ele seria capaz de presentear Winden com alguns hematomas sem muito esforço e, talvez por ter noção disso, ele se afasta temendo aparecer na frentes das câmeras com um olho roxo. Então Winden contorna o olhar sobre Kieran e me encara. Sua raiva está estampada por todo o seu rosto e ele está tão vermelho que corre o risco de explodir. Eu penso em dar meia volta e ignorá-lo totalmente, mas parece que uma força invisível insiste em me manter parada.
— A culpa disso tudo e sua, Allison! Se o casamento de vocês não fosse tão cheio de merda, ele não teria tirado a própria vida por não aguentar mais você.
Eu acho que perdi o controle do meu próprio corpo. Eu também acho que acabei de acertar o meu punho bem no meio do seu nariz, e fiz isso antes mesmo de pensar no quanto os meus dedos poderiam doer. Agora tem um pouco de sangue escorrendo pelo seu nariz e, por mais que eu devesse me sentir culpada, acho incrível que eu tenha conseguido acertar alguém com o meu próprio punho.
Quem diria...
Winden demora para recompor sua postura porque ele ainda está em choque com o que eu fiz, e eu estou também estou chocada em como a minha mão ainda não caiu porque, a dor, é realmente bem forte.
Alguém deveria ter me dito para não fazer isso, nunca!
Kieran está parado bem atrás de mim, e ele parece impressionado, eu acho que ele teria me parabenizado se estivéssemos em uma outra situação, já que essa não é uma apropriada, como diária o olhar da minha mão agora.
Papai se mete na minha frente e antes que ele possa me tirar de lá eu dou uma última encarda bem a fundo em Winden, só para ter certeza de que está doendo tanto nele quanto está em mim. Ele se ergue para dizer alguma coisa mas desiste rapidamente quando Kieran o encara e, não o culpo, eu também não teria coragem de passar por esse olhar de Kieran.
Depois disso o clima se torna tão mais pesado que acabo aderindo a opção de dar meia volta e ir embora, que é realmente o que eu deveria ter feito já a algum tempo mas, nunca é tarde para sair de fininho.
O mar de repórteres na frente da minha casa, e na delegacia, me fez optar por passar o dia, e noite, na casa dos meus pais. Depois de muita conversa, Kieran achou sensata a ideia de publicar um video na página de Ben, então ele o fez agradecendo o carinho e a preocupação dos fãs, aliviando o meu lado dizendo que assim que as coisas se acalmassem eu também me pronunciaria, e mais de uma vez, disse o quanto sentiremos falta da pessoa incrível que Ben foi, e do quanto somos sortudos por tê-lo tido em nossas vidas, mesmo que por pouco tempo.
Eu parei de assistir o vídeo no minuto 1:47 porque tudo se tornou muito real para mim. Na minha mente Ben ainda está vivo e vai voltar para casa antes que o café esfrie. Vai me contar sobre os shows, sobre o quanto foi incrível subir no palco e cantar as nossas músicas porque sim, ele sempre diz que as músicas dele são minhas também, depois vai sentar ao me lado no sofá e, enquanto o filme não começa, vai me falar sobre as planos para a próxima música, o próximo clipe, o próximo beijo...
— Você está bem? — Papai pergunta, abrindo a porta do quarto com uma bandeja com suco e pãezinhos.
— Acho que estaria mentindo se dissesse que sim.
Ele me encara de um jeito suave, como se sua calma fosse capaz de aliviar as coisas. Então ele senta na beirada da cama e estende seu braço até a mim perna, depois move o polegar em um carinho lento. Eu quero me levantar e chorar em seu ombro mas lembro que preciso ser forte.
— Como está a perna?
— Dolorida. — Respondo com um sorriso forçado, então ele me estende a bandeja com a comida e sua expressão fica um pouco séria.
— Você precisa comer um pouco, querida.
— Não estou com fome, mas obrigada. – Sorrio empurrando a bandeja para longe de mim mas ele a empurra de volta.
— Se não comer, vai acabar voltando para aquele hospital até o fim da noite, e tenho certeza de que não vai gostar de tomar soro.
Papai sempre teve o dom da persuasão. Foi assim que conseguiu me convencer por anos a não ter um cachorrinho. Também foi assim que me fez desistir da ideia de pedir um irmãozinho. Ele sabe que detesto agulhas, e como não resisto a sua carinha de pai preocupado, acabo puxando a bandeja e tomando um pouco de suco.
— Falar sobre a agulha foi jogar sujo. — Comento.
— Não falei nada sobre agulhas. — Ele levanta as mãos como se fosse completamente inocente.
— Mas insinuou. — Sorrio.
Então ele se levanta, pega o notebook na escrivaninha e o observo com um olhar curioso, depois organiza as almofadas na cama e faz sinal para que eu encoste nelas. Relutante e, com medo de cair no choro em algum momento, afasto minhas costas para trás e espero até que ele faça o mesmo. Fico curiosa para saber o que ele pretende fazer mas não pergunto, qualquer que seja essa coisa, ele parece concentrado demais para que eu caia no erro de me intrometer.
Quando eu era criança, e ele mais jovem, gostávamos de fazer algo juntos durante a noite porque ele trabalhava o dia inteiro, então a noite se tornou nossa. As segundas assistíamos a um filme, as terças montávamos a casa da Barbie, e as quartas o shopping, frequentávamos a igreja na quinta e as sextas... bom, as sextas eram as sextas. Isso se tornou tão rotina que, mesmo depois que me casei com Ben, papai e eu ainda nos víamos algumas noites para pôr em dia as séries que assistíamos na Netflix.
— Você quer terminar The walking dead, ou prefere começar aquela que adicionamos a lista? — Ele pergunta, ainda focado na tela do computador.
Minha respiração falha e tenho vontade de voltar a ser aquela garotinha que encontrava a cura para seus machucados em um beijinho. Meu coração aperta por saber que, de algum jeito, ele quer aliviar as coisas para mim, e não poderia ter escolhido uma forma melhor.
— Vamos assistir o que você quiser...
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