Notas iniciais
Espero que gostem! Prometo não abandonar mais a história, beijinhos!

Quarenta e oito horas nesse lugar já foram suficientes pra não querer acordar nunca mais na minha vida antes das dez da manhã. O meu terceiro dia acordando cinco da manhã e observar vovó ordenhar a vaca, pegar ovos no galinheiro, para depois fazer biscoitos amanteigados, que por sinal são maravilhosos, mas eu não acho que precisava participar de todo o processo, e sim dormir e comê-los quando acordasse, minha vida era tão mais fácil.

— Você poderia tomar um banho as vezes. — Meu pai zoou quando me viu sentada em uma das cadeiras de madeira maciça da sala de jantar de vovó ainda de pijama e descabelada.

— Não encha o saco dela — vovó disse calma — Rosie já está fazendo o suficiente em acordar cedo como você mandou e me ajudar nas tarefas. — RÁ. Minha avó sempre foi justa e com isso também sempre foi a melhor pessoa do mundo, fiz uma cara de "entendeu?" pro meu pai e ele revirou os olhos.

— Eu só estava brincando. — ele se defendeu

— Guarde suas brincadeiras sem graça pra sua namoradinha — alfinetei.

— Você também não comece Rosie Crawford. — vovó falou séria e notei o sorrisinho falso que papai deu pra mim antes de sair pela porta. — Rosie querida, já estou terminando aqui, suba e tome um banho, tenho uma surpresa pra você! Vou te esperar no celeiro em meia hora.

— An, tudo bem vó, te encontro lá! Mas fique sabendo que não gosto muito de surpresas quando não sou eu quem está no comando. — falei subindo as escadas de madeira olhando pra trás esperando a reação dela e vi ela dando um sorriso baixo e balançando a cabeça para os lados. Meu quarto já estava praticamente arrumado. Vovó e eu limpamos todas as prateleiras, colocamos as minhas roupas no guarda roupa que fora de minha mãe, enfileiramos os livros de acordo com o tamanho, trocamos as cortinas, colchas e lençóis, organizei todas as minhas maquiagens na penteadeira estilo vintage, e no fim vovó ainda me deu filmes novos para a câmera polaroide, que com certeza era mais velha que eu. Entrei no banheiro e deixei a água fria correr pelo meu corpo, o calor aqui é tanto que nem pude reclamar da falta de chuveiros elétricos. Saí do banheiro com uma toalha no corpo e uma enrolada na cabeça, sequei levemente os cabelos recém lavados e coloquei um vestido florido junto com uma sapatilha preta delicada. Desci as escadas e como esperado vovó provavelmente estava me esperando no celeiro. Abri a porta e Katie estava sentada em uma cadeira de descanso lendo algum livro bosta, assim que pisei na grama comecei a rezar mentalmente para não encontrar o insuportável do Kile perambulando por aí, as portas do celeiro estavam bem abertas e havia uma bagunça de selas, ferraduras e feno pelo chão.

— Está muito arrumadinha pra quem vai vender potes de biscoitos na feira — O desgraçado falou debochando, mas pera, essa era a surpresa de vovó? Vender biscoito na feira municipal de Woodstock? Eu saí de Nova Iorque pra isso? Isso é o meu fim.

— Você está aí! — Vovó falou bem atrás de mim antes que eu falasse alguma besteira para o Kile. — Pensei que ia se atrasar — ela disse em meio a uma gargalhada abafada.

— Saiba que sou muito pontual vovó! — disse firmemente, quando olhei a cara de Kile vi que ele continha uma risada, cerrei os olhos pra ele. — Afinal, qual é a grande surpresa?

— Você vai me ajudar a vender biscoitos na feira! — fiz uma cara de desentendida — Na cidade! Você vai ver pessoas, movimento! — dei um sorriso falso — Querida ajude Kile a levar esses potes de biscoitos para o banco de trás do carro. — vovó falou e seguiu para o carro a tempo de não ouvir o riso idiota desse garoto idiota. Ele havia pego todas as bandejas com os potes, deixando apenas duas para mim, ótimo, ele estava me subestimando. Passei por Kile rapidamente e o ouvi limpar a garganta, quando ele começou a pronunciar o meu nome, já era tarde demais, eu havia atolado o meu pé em cocô de vaca. Vovó até tentou se conter mas começou a rir muito, Kile por sua vez, fez o mesmo, exageradamente.

— Mas que droga! — praguejei — Parem de rir, essa sapatilha foi cara!

— Pode até ter sido querida, mas nada comparado ao valor dessa sua presepada — Vovó falou em meio a gargalhadas e Kile ria ainda mais — Ande, me dê isso aqui e vá logo trocar essa sapatilha. — Sai bufando e arrastando o pé esquerdo na grama, do outro lado, papai e Katie se contorciam de rir nas cadeiras de madeira.

— Nem fala nada! — bufei para meu pai que já estava construindo mais uma de suas piadas sem graça. Tirei a sapatilha pisando com o outro pé na parte de trás e chutei as duas longe, lavei os pés com a água gelada da mangueira que ficava enrolada perto do degrau da varanda e subi as escadas bufando enquanto todo mundo ria de mim. Abri o armário onde meus sapatos ficam guardados e tive a absoluta certeza de que em Woodstock o mundo conspirava contra mim, o lugar estava a coisa mais limpa, e antes de gritar de raiva, me lembrei que vovó havia pego todos para lavar. Desci as escadas com um sorriso irônico no rosto já que não ia poder ir na maldita feira vender os malditos biscoitos, mas antes que eu contasse vantagem Katie apareceu na minha frente com um par de botas de couro marrom na mão.

— Sua avó mandou te entregar isso. — ela disse. Cerrei os olhos e encarei meu pai que dava de ombros provavelmente adorando aquilo tudo.

— Eu não vou usar isso! — protestei — Não mesmo.

— Ah você vai sim. — Meu pai disse sério — E ande logo, sua avó está te esperando no carro. — Revirei os olhos e puxei as malditas botas da mão de Katie, as calcei e passei por meu pai bufando. Joguei o cabelo pro lado e fiz a expressão mais séria que pude quando vi Kile encostado na carroceria da picape marrom, vovó estava terminando de arrumar os potes de biscoito no banco de trás do carro.

— Viu só? Ficou até mais bonita — ela disse me dando uma piscadela.

— Dá próxima vez cai de cara Rosie, pra ver se melhora também. — O garoto loiro insuportável disse em meio a um sorriso sarcástico. Esse maldito me dá nos nervos. Antes que eu pudesse revidar, vovó riu e deu uma palmadinha no ombro de Kile, que com certeza se sentiu.

— Você vai deixar ele falar assim comigo vó?

— Querida, já perdemos tempo demais, entre no carro. — vovó respondeu enquanto Kile se afastava com um sorriso debochado no rosto, olhei pra ele com os olhos cerrados e logo depois entrei na picape e bati a porta com força, me sentei de braços cruzados, me sentia ridícula com essa bota fora de moda, ninguém merece.

Depois de quarenta minutos e alguns quilômetros chegamos a feira, e exatos quarenta minutos depois só havia sobrado um pote de biscoito, que vovó deu para uma moça na rua no caminho de volta para onde estacionamos o carro. Chegamos em casa bem na hora do almoço que Katie ficou de preparar, e antes de nos juntarmos a ela e papai na mesa eu já fazia minha famosa cara de nojo. Depois do almoço, vovó chamou todos para comer a geleia de maçã que ela fez, antes de pegar a minha sobremesa troquei o vestido florido por uma calça jeans colada e uma camiseta, coloquei as malditas botas por cima do jeans, amarrei o cabelo num rabo de cavalo e fui me juntar a família feliz.

— Bom, eu tenho coisas a fazer. — disse depois de comer o doce, determinada a mostrar pro meu pai que a garota da fazenda ainda vive em mim, todos me olharam surpresos. — Vejo vocês depois. — disse e saí em direção ao celeiro. Era a hora do almoço de Kile, então eu tinha cinquenta e nove minutos para impressionar meu pai e não ficar desnorteada com as tiradas insuportáveis do garoto loiro insuportável. Peguei uma das celas e fui em direção ao Buddy, já fazia muito tempo que eu havia montado em um cavalo, mas não custava nada tentar a sorte.

— Oi garoto! — falei delicadamente entrando pela porteira do "quarto" de meu cavalo. Mesmo depois de todo esse tempo, Buddy não estranhou minha presença. Cuidadosamente coloquei o cabresto no cavalo, com uma mão eu o puxava para fora do celeiro e com a outra carregava a sela, o espetáculo tinha que ser na frente de todos! Papai me olhou com uma cara espantada quando se deu conta que eu decidi sozinha montar em Buddy e sair por aí, não diferente de vovó, que voltou o pescoço para trás com uma expressão estranha, Katie só me olhava, provavelmente curiosa para saber o que eu ia fazer, dei um sorrisinho para papai e me virei de costas para onde eles ainda permaneciam sentados, coloquei a sela em Buddy e tentei fechar a fivela, mas com certeza eu havia pego a sela errada. Para não quebrar minhas próprias pernas e deixar meu pai perceber que nem a sela certa eu sabia escolher, bati o pé no chão e joguei a sela na grama, decidi que ia montar sem sela mesmo, já havia montado sem antes, não é possível que justo hoje ia dar errado. Acariciei as costas do meu cavalo e impulsionei meu corpo para cima. Buddy nem se mexeu. Ótimo. Quando olhei vitoriosa para meu pai parece que o próprio capeta havia entrado no corpo de Buddy, e antes que eu pudesse pensar em me segurar, o cavalo começou a correr e eu caí de cara na grama quente. Pensei duas vezes se levantava e encarava a minha família que ria descaradamente ou se afundava mais meu rosto no chão. Olhei para a varanda e todo mundo estava prestes a rolar no chão de rir, cerrei os olhos, me virei, peguei a sela no chão e caminhei novamente para o celeiro, onde Kile já me esperava com gargalhadas.

— Pelo amor de Deus, me diz que você não viu aquilo! — disse o encarando.

— Tenho que admitir, foi um belo show! — ele disse em meio a risos quase contidos.

Revirei os olhos.

— Desse jeito eu nunca vou sair desse lugar! Eu só quero a minha vida de volta. — bufei.

— Olha, não tô querendo te botar pra baixo, mas desse jeito Flor do dia, você está cada vez mais distante de Nova Iorque.

— Não me chama assim! E você não tem nada a ver com a minha vida, pare de falar como se soubesse de alguma coisa — alterei a voz e me virei pronta pra sair daqui e me enfiar no meu quarto.

— Rosie. — Kile disse mantendo a calma — Eu vou ser sincero com você, eu também não te quero aqui, não me leve a mal, mas você é o caos em pessoa, desde que chegou tudo virou uma bagunça, tudo mesmo. Seu pai, sua avó, todos estão deixando eu e minha família malucos, por mim você ia embora daqui agora mesmo, eu até te levaria pra pegar um ônibus.

— Eu também vou ser sincera com você Kile Campbell — falei com ironia — Eu não gosto nada daqui, muito menos de você, e saiba que eu estaria bem longe daqui se pudesse, não tô nem aí pra você ou pra sua família. — Kile murmurou alguma coisa como "eu te odeio tanto" — O que você disse? Não entendi direito.

— Eu vou te ajudar! — ele disse como se uma luz tivesse acabado de se acender na cabeça dele — Eu não te quero aqui, você não quer ficar aqui, vamos ajudar um ao outro. Simples.

Demorei uns segundos para processar a ideia de deixar Kile Campbell, o cara mais insuportável do mundo, me ajudar na coisa mais importante da minha vida.

— Desde que meu pai se convença que a "Flor do dia" ainda existe — disse fazendo aspas com os dedos para o Flor do dia.

— Ótimo, fechado. — ele respondeu com entusiasmo — Assim Woodstock fica livre da garota mais fresca e chatinha do universo e volta a ser a cidadezinha pacata de sempre.

— Fechado. Começamos amanhã depois do almoço. Te encontro aqui. — falei enquanto me virava e caminhava para fora do celeiro. — E Kile, eu não sou chatinha, eu sou insuportável.

Ele revirou os olhos e riu sarcasticamente.

— Vamos ver quem é pior.

Notas finais
Me digam o que estão achando de Antes que o Verão Acabe, please!!!